terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Heinz Knoke, um ás alemão



+400 missões de combate, 33 vitórias (19 quadrimotores)

Heinz Knoke nasceu em Hameln, Alemanha, em 24 de março de 1921. Tendo tido uma boa base escolar em sua juventude - quando aprendeu a falar inglês - ele se voluntariou para servir na Luftwaffe em 1939. Após a conclusão de seu treinamento como piloto de caça, em 20.05.1941, o agora Leutnant Knoke foi designado para servir inicialmente junto ao 6./JG 52 (6º Staffel da Jagdgeschwader 52), então lutando na frente russa.

Knoke permaneceria pouco tempo na frente oriental, sendo transferido em 02.07.1941 para o 2./JG 1, então baseado na chamada Baía Ale-mã, onde atuou protegendo os portos germânicos no Mar do Norte. A partir de 25.10.1941, Knoke foi indicado Staffelführer de sua unidade e, seis dias depois, obteve sua primeira vitória confirmada, ao abater um bombardeiro Blenheim da RAF sobre o Mar do Norte. Uma semana mais tarde, ele acrescentaria outro abate ao seu score, ao destruir um De Havilland Mosquito.

Mas foi após início da ofensiva de bombardeiros conduzida pela 8ª For0ça Aérea americana que Knoke se destacaria nos combates da Defe-sa do Reich, tornando-se um dos grandes destruidores de quadrimo-tores (“Viermottorer”). Sua quinta vitória ocorreu em 22.03.1943 contra um B-17 e, em 01.04.1943, sua unidade foi redesignada 5./JG 11. Sua 10ª vítima (outro B-17) caiu em 11.06.1943 e, no dia, 27.09.1943, após um combate onde derrubou mais um B-17 e um caça de escolta P-47 Thunderbolt, Knoke atingiu sua 15ª vitórias confirmada.


Até o final daquele ano, ele acumularia nada menos que 19 vitórias aéreas, sendo condecorado com a Cruz Germânica em 17 de novembro de 1943. Dentre suas vitórias nesse ano, encontra-se um Boeing B-17 abatido com um foguete de 21cm. Sua 20ª vitória ocorreu em 10.02.1944 contra uma Fortaleza Voadora e, no curso do mês de março, ele obteve outras três vitórias: um P-51 Mustang (no dia 03) e dois B-17 (nos dias 06 e 08).

No dia 29.04.1944, o agora Oberleutnant Knoke participou de um dos capítulos mais pitorescos da História da aviação. Durante uma missão de interceptação de bombardeiros americanos sobre o rio Reno, os Bf 109 envolveram-se em um violento dogfight contra os caças North Ameri can P-51 Mustang de escolta. O avião de Knoke foi severamente atingi- do e, enquanto tentava abrir o canopy de seu avião, ele sentia os projé- teis da metralhadora .50 atingindo a blindagem atrás dele ao mesmo tempo em que os traçantes passando sobre seu cockpit, tornando o salto impossível. Em vias de perder o controle do avião, Knoke, reduziu drasticamente a velocidade, deixando o P-51 ultrapassá-lo. Ainda antes de saltar, já ferido, ele disparou uma última rajada com seus canhões, atingindo em cheio seu adversário!!

Ambos os aviões caíram no mesmo campo, sendo que o piloto america no também conseguiu saltar. Enquanto esperava o socorro, Knoke acendeu um cigarro e esperou... De repente ele vê outro piloto se aproxi mando: era o americano que ele acabara de abater! Ao invés de se en-

frentarem como inimigos, ambos sentaram-se lado a lado, dividiram cigarros e mostraram fotos de família. Con versaram em inglês sobre seus aviões e táticas e apreciaram o fato de ambos terem sobrevivido... Foi a 25ª vitória de Knoke.

Após sua recuperação, o já Hauptmann Knoke foi nomea do Gruppenkommandeur do III/JG 11 (Gruppe III da JG 11) em 13.08.1944, passando a lutar contra os Aliados que haviam desembarcado na França. Lutando contra um inimigo que desfrutava de uma gigantesca superioridade aérea, Knoke conseguiu derrubar nada menos que sete aviões inimigos nos violentos combates sobre os céus da Normandia. Dois P-47 tombaram respectivamente nos dias 14 e 15.08, seguidos de um Spitfire (16.08), um bom bardeiro B-26 (17.08), dois P-51 Mustangs (ambos no dia 18.08 - suas 30º e 31ª vitórias), outro P-51 no dia 25.08 e, por fim, um P-47 Thunderbolt em 28.08.1944 - sua 33ª vitória confirmada. Contudo, nesse último combate, ele foi mais uma vez abatido.

A despeito de seu sucesso nos combates aéreos, a carreira de Knoke foi bruscamente interrompida quando, em 09.10.1944, ele ficou gravemente ferido em um acidente automobilístico que o deixou fora da linha de fren- te até o final da guerra. Mesmo assim, em reconhecimen to aos seus feitos e à sua liderança, o Hauptmann Heinz Knoke foi condecorado com a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro em 27 de abril de 1945.

Knoke rendeu-se aos aliados ocidentais e permaneceu em cativeiro até 1946. Em 1953 ele lançou sua biografia “Die Grosse Jagd” que, ainda hoje, é vista como um dos melhores livros sobre a guerra aérea a partir da perspectiva dos alemães.

No pós-guerra atuou como Deputado Estadual em várias legislaturas até 1970. Após se afastar da política, Knoke atuou como gerente de uma fabricante de cervejas.


Tendo voado mais de 400 missões de combate, ao longo das quais obteve 33 vitórias aéreas (todas contra aliados ocidentais) - incluindo nada menos que 19 bombardeiros quadrimotores e um Mosquito - Heinz Knoke faleceu de causas naturais em 18 de maio de 1993, aos 72 anos de idade.

Depoimento de Heinz Knoke, um piloto de Me109 na frente ocidental contra os B17 americanos


Heinz Knoke, piloto de Me109 e detentor de 33 vitórias, relata alguns de seus encontros aéreos no front ocidental :

13 de junho de 1943

Hoje é o décimo terceiro dia do mês.

O grupo executa um ataque em formação contra uma esquadrilha consistindo de uns 120 bombardeiros pesados. Há uma Fortaleza maravilhosamente alinhada em minha mira. Eu aperto os dois botões de tiro e - nada acontece. Verifico meu pente de cartuchos e a presilha de segurança, aperto os botões novamente e - nada acontece ainda.

Espumando de raiva eu realizo uma espiral descendente para o banco de nuvens abaixo.

Hoje é dia treze!

25 de junho de 1943

Eu ainda me sinto morto quando me arrasto para o ponto de dispersão nesta manhã. Eu e os outros pilotos ficamos na cantina até o nascer do sol. O bar está coberto com um regimento inteiro de garrafas vazias.

O tempo está enevoado. Nós esperamos que este seja um dia que os Ianques nos deixem em paz. Na sala de operações do esquadrão nenhuma atividade inimiga é relatada. Eu me deito tentando tirar um cochilo na sala de espera adjacente à sala de reuniões.

O telefone me desperta às 7:00: concentração inimiga no mapa, referência de setor Dora-Dora.

Eles não podiam escolher um outro dia?

Os pilotos ainda dormem. Eu não os perturbo e vou para o lado de fora, para o avião. O engenheiro chefe relata que todas as aeronaves foram verificadas e estão disponíveis para serviço.

Indo para a sala de jantar, peço um ovo frito, pão branco e manteiga, os quais eu tento comer. A comida parece bastante sem gosto. Pela primeira vez eu não me sinto feliz em pensar na missão vindoura. Sinto um peso peculiar no estômago, será medo?

Não, não creio que seja exatamente medo, está mais para indisposição e indiferença. Nem mesmo uma visita ao banheiro traz algum alívio. Eu gasto quinze minutos correndo de um lado para o outro da pista tentando acertar as idéias. Turit, meu cachorro, trota junto comigo. Às vezes ele se afasta, latindo atrás de alguma gaivota.

Da sala de operações vem a ordem de preparação para um alerta. Os pilotos resmungam enquanto vêm para fora, um por um. Depois de comer alguma coisa eles calçam as botas de pele, vestem os casacos de vôo e coletes salva-vidas. Há pouca conversa. Eu guardo algumas rações de emergência e um kit de primeiros socorros no bolso do joelho.

Lentamente nós vagueamos em direção aos aparelhos. O alerta é esperado a qualquer momento. Os mecânicos estão juntos a nós. Meu chefe de guarnição de terra balança as pernas enquanto se espreguiça sobre uma asa e mastiga um pedaço de grama. Que exemplo de alerta!

Arndt aperta meu cinto enquanto visto meu capacete de vôo. Ele me passa a extensão telefônica: o Oficial Comandante está na linha.

Ele pergunta se nós estamos prontos. Os comandantes de grupo respondem em seqüência: Tenente Sommer, eu e o Capitão Falkensamer. O inimigo está se aproximando da costa: aparentemente hoje ele está se dirigindo para Wilhelmshaven de novo.

8 horas e 11 minutos: decolagem.

Os grupos decolam em sucessão, quarenta e quatro aeronaves ao todo. O teto de nuvens está a 6.000 pés. Nós o atravessamos próximo à costa. Ocasionalmente vemos relances de terra entre as camadas de nuvens.

15.000 pés: outra camada de nuvens se interpõe em nosso curso.

20.000 pés: não há conversas no rádio, somente a posição inimiga é anunciada.

22.000 pés: Nós esperamos a qualquer momento estabelecer contato com o inimigo.

Eu verifico minhas armas. Minha máscara de oxigênio está desconfortavelmente apertada. Eu afrouxo e a ajusto.

Nós voamos entre nuvens cumulus. Alto sobre nós espalha-se uma terceira camada de nuvens geladas. Voamos através de vales e cavernas, pelas gigantescas montanhas de nuvens. Os aviões parecem absurdamente pequenos, engolidos por este majestoso fundo.

"Lá estão eles!"

As Fortalezas estão aproximadamente 3.000 pés abaixo de nós. Eles não estão voando em formação cerrada hoje, mas voam isolados ou em grupos de 3 ou 4 através da deslumbrante camada de nuvens.

Atenção redobrada, nós descemos mergulhando.

"Atrás deles!" A caçada se inicia.

É uma surpresa perfeita, nosso ataque cria nos americanos um estado de grande confusão. Eles se esquivam, fazem curvas e mergulham para se abrigarem na camada de nuvens, tentando fugir de nós. É impossível estimar a quantidade deles. É quase como uma colméia que tenha sido agitada. Nós falamos, uns para os outros, as melhores posições de tiro pelo rádio.

Em pares os nossos pilotos atacam os grupos individuais de Fortalezas. Meu ala (N.T.: Wingman) de hoje é um jovem sargento com o qual eu nunca havia voado. Esta é sua primeira experiência em combate. Há também a chance de que seja sua primeira vitória aérea se ele mantiver a cabeça no lugar.

Eu escolho dois bombardeiros isolados voando em formação, asa com asa, e nós mergulhamos para atacá-los pela traseira.

"Dölling, você pega o da esquerda."

Eu chamo o sargento, mas ele continua voando em direção ao da direita e não parece ouvir minhas mensagens.

"Se aproxime, homem. Do outro lado - na sua ESQUERDA! Vá para lá e ataque!"

Eu abro fogo a pouca distância. Meus projéteis de canhão acertam perfeitamente o centro da fuselagem. O artilheiro de cauda persistentemente revida o fogo. Calmamente me aproximo mais, as armas cuspindo fogo. Buracos aparecem na minha asa esquerda conforme sou atingido. Aquele maldito artilheiro! Ele não vai me deixar - temos que ter muito estômago para isso.

Ainda próximo eu continuo disparando todas as armas na Fortaleza, me concentrando na torreta traseira. Ela desintegra sob as salvas dos meus canhões. Mais projéteis também colocaram a torreta dorsal fora de ação.

Nós estamos entre as nuvens, em uma ravina profunda, com paredes leitosas se elevando a cada lado. Definitivamente uma visão gloriosa. Dölling permanece voando obstinadamente na sua posição à minha direita, calmamente observando o combate. Porque diabos ele não vai atrás do segundo bombardeiro?

Eu perco a paciência com ele:

"Ataque, seu estúpido, ATAQUE!"

Ele ainda não se move.

Woomf! Woomf! Woomf!

Eu estou sob fogo pesado pelo lado. Os tiros vêm da torreta direita da segunda Fortaleza. Eu estou próximo ao artilheiro, praticamente a seu lado. O artilheiro dorsal também atira em mim com suas metralhadoras gêmeas. As traçadoras passam rente à minha cabeça.

Woomf! Eu sinto outro tiro. Nós passamos por uma abertura de nuvens. Meu cockpit embaça, então abro a janela lateral da cabina.

Minha Fortaleza está em chamas, próximo à traseira e no motor interno direito. Os dois artilheiros da segunda Fortaleza ainda descarregam suas armas em mim, eles estão a somente 100 pés de distância.

Continuo atirando em minha vítima. O bastardo tem que cair, nem que isso signifique meu próprio pescoço. Eu permaneço entre 150 a 200 pés atrás dele. Meus tiros agora se espalham pela asa direita.

Eu solto o manche por um momento e tento atrair a atenção de Dölling acenando e apontando o outro bombardeiro, então, de repente, vejo um clarão em frente aos meus olhos e sinto a mão que acenava ser projetada violentamente contra a parede lateral do cockpit. Totalmente alarmado eu seguro o manche novamente, para soltá-lo no mesmo segundo. Minha luva direita está em pedaços, com sangue pingando. Eu não sinto nenhuma dor.

Mais uma vez eu agarro o manche com minha mão ferida, acerto a mira no meu oponente e esvazio os pentes em uma longa rajada. Finalmente a Fortaleza é abatida, caindo das nuvens como uma tocha acesa.

Eu mergulho depois disso, em direção ao mar. Tudo que resta do bombardeiro é uma grande mancha de óleo na superfície do oceano.

Neste momento minha mão começa a doer. Seguro o manche com a mão esquerda, lambuzando-a de sangue. Pedaços de carne ficam pendurados na luva.

Eu perdi minha orientação algum tempo atrás, durante o tiroteio sobre as nuvens, contudo, seguindo para sul é provável que eu encontre terra em algum lugar. É um milagre que meu motor não tenha sido atingido. Por um golpe de sorte os artilheiros naquela Fortaleza não tinham muito boa mira.

A dor na mão machucada vai ficando pior. Estou perdendo muito sangue. Minha jaqueta de vôo está tão ensangüentada que parece que eu andei em um matadouro.

Quão longe, no mar, eu estou? Os minutos se arrastam; e ainda não há qualquer sinal da maldita costa. Eu começo a ter um pensamento pessimista e minha cabeça vai ficando leve, perco muito sangue e ainda esta horrível dor na mão.

Uma ilha se delineia a frente: Norderney. Só mais sete ou oito minutos e eu poderei pousar. O tempo parece interminável. Finalmente estou sobre Jever. A despeito da dor insuportável na mão, eu mergulho sobre a área de dispersão de vôo e executo uma rolagem de vitória.

Os mecânicos acenam suas mãos e quepes, tão deslumbrados quanto crianças. Agora preciso de ambas as mãos para pousar. Trinco meus dentes. Minha mão direita está completamente dormente.

Meu mecânico chefe fica horrorizado ao ver a minha mão e o sangue em minha jaqueta. Os mecânicos se amontoam em torno do meu avião: o Chefe foi ferido!

No posto de primeiros socorros, o oficial médico de serviço remove o resto da luva e coloca uma bandagem de emergência na mão. Também recebo uma injeção antitetânica por prevenção.

São somente 9:00. O último avião não retornaria até o meio-dia. Duas outras vitórias são anotadas no quadro negro do setor de dispersão.

Às 12:00 finalmente sou transferido para o hospital. Eles terão que me operar. Uma das falanges foi amputada, mas a mão ficará boa, a não ser que desenvolva gangrena.

Uma freira me leva para um leito. Eles sugerem que eu fique internado até segunda ordem. Olho pela janela, meu carro ainda está lá embaixo, Jungmaier, meu motorista, está esperando. Cuidadosamente eu me esgueiro pelo longo corredor, ninguém à vista, nunca pude suportar o cheiro de desinfetante que os hospitais têm. Meia-hora depois eu estou de volta ao ponto de dispersão do grupo. Não posso evitar de rir: eles devem estar me procurando naquele hospital até hoje!

Patrulhas dos Sgts. Virgulino e Santino


Drei Brasilianische Helden - (TRÊS HEROIS BRASILEIROS)
Ao amanhecer do dia 24 de janeiro de 1945, o Cap. Waldir Sampaio, Cmt da 5ª Cia do 1º R.I, recebeu no seu PC, em Lissano, a seguinte missão, transmitida pelo S.3 do 2º BI, via telefônica: " Consta que o inimigo abandonou a frente e retirou-se durante a noite. Em conseqüência deveis lançar, imediatamente, patrulhas na direção de Castelnuovo e da Cota 720 ( Existente a 1500m a E de Torre di Nerone )." O Comandante da Companhia ponderou, informando que o contato havia sido mantido durante toda a noite e que , pela manhã, ainda havia indícios de que o inimigo permanecia na região. Uma vez porém confirmada a missão, determinou ao 3º/5º Cia, em posição na região de Montecavalloro, e ao 3º / 6º Cia, que se achava em reforço à sua Cia, na de Boscaccio, que lançassem cada um uma patrulha, respectivamente, sobre Castelnuovo e Cota 720. Ambas deveriam reconhecer estas regiões. O terreno estava recoberto de espessa camada de neve, a manhã clara e radiante. Após rápidos e incompletos reconhecimentos partiu o GC do Sargento Santino Assunção para Castelnuovo e o Sargento Virgulino Loyola para a Cota 720. O observador avançado da artilharia junto à 5ª Cia e o Comandante do Pelotão de Morteiros da Cia, mantinham-se alertas. Durante o movimento, as silhuetas escuras das duas patrulhas destacavam-se nitidamente do terreno, facilitando a identificação pelos observatórios inimigos.

A patrulha do Sargento Santino atingiu facilmente o objetivo, nada encontrando que revelasse a presença do inimigo na região. Todavia, a do Sargento Virgulino, ao ultrapassar a região de Precária, a caminho da Cota 720, foi apanhada por ajustados fogos de armas automáticas e morteiros, partidos de curta distância, matando uns , ferindo outros. O Comandante da Cia, que vinha acompanhando de perto a evolução dos acontecimentos, determinou imediatamente ao pelotão do Tenente Deschamps que procurasse acolhê-la, indo ele ocupar posições em Precária, donde poderia perfeitamente desemcumbir-se de sua missão. O deslocamento até esta região fez-se sem novidades, entretanto, não conseguiu aproximar-se do local onde se encontrava detida a patrulha, devido a forte reação do inimigo. Nesta situação começaram, então , a surgir os primeiros sobreviventes da patrulha do Sargento Virgulino. Uns após outros,, ao todo cinco, foram-se incorporando ao pelotão. Quatro, porém, não puderam retornar, permanecendo tombados no campo. Um deles era o próprio Sargento. Os outros três outros, o Cabo José Graciliano Carneiro da Silva e os soldados Clóvis Pais de Castro e Aristides José da Silva. Mais tarde, após a conquista de Castelnuovo, realizada a 5 de maio, encontraram-se os seus corpos intactos num pequeno e singelo túmulo erigido pelos alemães junto às suas posições na Cota 720, como tributo à valentia e ousadia desses bravos. Sobre a terra fria e úmida, que os cobria, cravaram uma tôsca cruz de madeira, com a seguinte legenda : " 3 tapfere - Brasil - 24/I/45 ". O Sargento Virgulino, gravemente ferido, fôra recolhido a um hospital alemão, só retornando ao convívio dos companheiros após o término da guerra. O Comandante do Batalhão, ciente dessas ocorrências, determinou que a patrulha do Sargento Santino retornasse às suas posições. O retraimento realizou-se, inicialmente, sem alteração, porém, ao atingir as proximidades de Montecavalloro começaram a hostilizá-la. Prisioneiros alemães feitos posteriormente, informaram que ficaram surpresos e perplexos diante da audácia dos brasileiros ao investirem as suas posições em plena luz do dia. No emprego destas duas patrulhas, há dois fatos que merecem destaque especial.

O primeiro prende-se à própria atuação dos homens que embora certos de que o inimigo se encontrava nas posições, não se intimidaram diante das ordens recebidas, progredindo, durante o dia, pelas encostas frias e brancas do maciço de Castelnuovo, até tombarem sem vida sob o fogo, à queima roupa, das suas armas automáticas. O outro aspecto culminante deste episódio, refere-se ao inimigo que , num preito de admiração e respeito pela bravura dos seus adversários, erguei junto às suas posições, um modesto túmulo, onde sepultou os corpos, sem vida, de três gigantes brasileiros : Graciliano, Clóvis, Aristides... Fato idêntico reproduzir-se-ia, frente à Zocca, com os soldados Arlindo Lúcio da Silva, Geraldo Rodrigues e Grealdo Baeta, todos do 11º RI, o que de algum modo destrói muitas das acusações aleivosas assacadas contra os alemães. Nesta nova cruz encontrava-se a legenda : " Drei Brasilianische Helden ". (TRÊS HEROIS BRASILEIROS).

Relato de um fotógrafo no Dia D

O fotógrafo Robert Capa nasceu na Hungria em 1913 e cobriu vários conflitos ao redor do mundo, como a guerra civil espanhola e a Segunda Guerra Mundial. Ele desembarcou com as tropas americanas na Normandia no dia D e tirou algumas das melhores fotos que ilustram este site. Robert Capa morreu em 1954 depois de pisar em uma mina quando cobria a guerra da Indochina. Leia a seguir um relato feito pelo próprio Capa do seu desembarque em Omaha Beach:






"Nosso breakfast da pré-invasão foi servido às 3h da manhã. Os serventes do U.S.S. Chase vestiam imaculadas jaquetas brancas e serviam bolos quentes, lingüiças, ovos e café com especial solicitude e polidez. Mas os estômagos pré-invasão estavam preocupados, e a maior parte do nobre esforço foi deixada nos pratos.

Às 4h, fomos reunidos no convés. As barcaças de invasão balançavam nos suportes, prontos para serem baixados. Esperando o primeiro raio de luz, os dois mil homens mantiveram-se em silêncio; o que quer que estivessem pensando devia ser algum tipo de oração.

Eu também me mantive quieto. Pensava em um pouquinho de tudo. Mas o sol não tinha como saber que este dia era diferente de todos os outros, e nasceu em seu horário de costume. Os pessoal da primeira leva saltou para as barcaças. O mar estava agitado e ficamos molhados antes que a barcaça se afastasse do navio-mãe. Já estava claro que o general Eisenhower não ia comandar seu pessoal através do Canal com pés secos ou qualquer parte seca.

A costa da Normandia ainda estava a milhas de distância quando o primeiro e inconfundível tiro alcançou nossos ouvidos atentos. Já havia luz suficiente para começar as fotos, e eu tirei minha primeira câmera Contax do oleado à prova d’água. O fundo chato da nossa barcaça aterrou no solo da França.

Minha bela França parecia sórdida e pouco convidativa, e uma metralhadora alemã, cuspindo balas ao redor da barcaça, estragou completamente meu retorno. Os da minha barcaça pularam na água. Fiz uma pausa sobre a areia pra tirar minha primeira foto real da invasão. O condutor, que estava com uma compreensível pressa de dar o fora dali, tomou minha pose de fotógrafo por uma explicável hesitação em sair, e me deu um bem mirado chute no traseiro. A água estava fria e a praia ainda a mais de cem jardas (cerca de 90 metros) de distância. As balas furavam as águas ao meu redor, e corri para o obstáculo mais próximo. Um soldado chegou lá ao mesmo tempo, e por uns poucos minutos compartilhamos aquele abrigo. Ele tirou a proteção contra água do rifle e começou a atirar, sem mirar muito, para a praia enfumaçada. O som e seu rifle lhe deu coragem o bastante para prosseguir e ele deixou o obstáculo para mim. Sobrou me um pé de largura, e me senti seguro o suficiente para tirar fotos dos outros caras que se escondiam como eu.

Terminei minhas fotos, e o mar estava gelado nas minhas calças. Cinqüenta jardas diante de mim, um dos nossos tanques anfíbios, parcialmente queimado, surgia da água e me oferecia uma nova tomada. Avaliei a situação e me dirigi ao tanque. Entre cadáveres flutuantes, eu o alcancei, fiz uma pausa para umas poucas fotos e mais, e reuni minhas forças para a última corrida até a praia.

Agora os alemães tocavam com todos os instrumentos e eu não ouvia espaços entre os tiros de bala de canhão que bloqueavam as últimas 25 jardas até a praia. Fiquei atrás do meu tanque, repetindo uma frase dos meus dias de Guerra Civil Espanhola. "Es una cosa muy seria. Es una cosa muy seria."

A maré estava subindo e já alcançara a minha carta de despedida para minha família, no meu bolso do peito. Atrás da cobertura humana dos dois últimos soldados, alcancei a praia. Joguei-me rente ao solo e meus lábios tocaram a terra da França. Eu não tinha nenhuma vontade de beijá-la.

St. Laurent-sur-Mer devia ter sido um balneário barato para professores primários franceses. Agora, em 6 de junho de 1944, era a praia mais feia do mundo. Rastejei até meu amigo Larry, o padre do regimento. Ele rosnou para mim: "Seu maldito meio-francês! Se não gosta daqui porque diabos voltou?" Assim consolado pela religião, tirei minha Segunda câmera Contax e comecei a tirar fotos sem erguer a cabeça.

O tiro de morteiro seguinte caiu entre o arame farpado e o mar, e cada estilhaço encontrou um corpo. O padre irlandês e um médico judeu, também meu camarada, foram os primeiros a se levantar e eu tirei a foto. Eu não me atrevia a tirar os olhos do visor da Contax e freneticamente tirei foto atrás de foto. Meio minuto, depois meu filme acabou. Busquei um novo rolo na bolsa, e minhas mãos molhadas, trêmulas, o estragaram antes que eu pudesse inseri-lo na câmera.

Fiz uma pausa... e então me senti mal.

A câmera vazia tremia nas minhas mãos. Um barco desembarcou médicos com cruzes vermelhas nos capacetes. Não pensei e não decidi, apenas me levantei e corri para o mar. Segurei minhas câmeras acima da cabeça com água pelo pescoço. Sabia que estava fugindo. Tentei voltar mas não consegui encarar a praia, e disse a mim mesmo: "Só vou secar minhas mãos naquele barco".

Alcancei o barco. Os últimos médicos estavam saindo. Subi a bordo. Ao alcançar o convés, senti um choque, e repentinamente meu corpo ficou coberto de penas. "Que é isto?", Pensei. "Alguém está matando galinhas?". Então vi que a superestrutura havia sido atingida e que as penas eram o enchimento das jaquetas dos homens. O comandante estava chorando. Seu assistente foi atingido pela explosão e seus pedaços voaram sobre ele.

Nosso barco estava fazendo água e lentamente nos afastamos para tentarmos alcançar o navio mãe antes de afundarmos. Desci à casa de máquinas e troquei os filmes. Voltei ao convés para uma última foto da praia enfumaçada. Uma barcaça de invasão parou ao nosso lado e nos tirou do barco danificado. A transferência de feridos de um barco para o outro em mar aberto foi uma operação complicada. A barcaça nos levou ao U.S.S. Chase, o mesmo navio que deixáramos 6 horas antes. A última leva da 16 de infantaria estava desembarcando e o convés já estava repleto de feridos e cadáveres.

Foi minha última chance de voltar à praia. Não fui. Os serventes que haviam nos oferecido café em jaquetas brancas agora estavam cobertos de sangue, costurando os mortos em sacos brancos.

Sete dias depois, soube que as fotos que tirei em Easy Red haviam sido as melhores. Mas o laboratorista entusiasmado, enquanto revelava o filme, usou muito calor, derretendo a emulsão (...)"

De 106 fotos, apenas 10 se salvaram.

Relato do correspondente de guerra Joel Silveira sobre "A Tomada De Monte Castelo "


Relato do correspondente Joel Silveira sobre a conquista do monte italiano realizada pela FEB, em fevereiro de 1945.

Na véspera do dia 21 eu havia pedido um jipe ao Major Souza Júnior, encarregado dos correspondentes, para ir a Nápoles esperar o quarto escalão de tropas brasileiras que chegaria no dia 23. O major, então, me perguntou: "Você prefere esperar o escalão ou uma coisa melhor?"

A coisa melhor era a ofensiva brasileira do dia 21 sobre o Monte Castelo. Manhã cedo, no QG recuado, fomos avisados de que a nossa artilharia abrira cerrado fogo, naquela noite, contra posições defensivas inimigas nas montanhas que há três meses nos barravam o caminho. Tomamos um café apressado, enchemos os bolsos de chocolate e chicle, e soltamos nossas viaturas até o QG avançado. Os jipes necessários já esperavam os correspondentes, e cada qual subia no seu e procurou, na frente, o melhor lugar para uma observação total da luta. Creio que a sorte me protegeu, que meu jipe andou mais depressa, não sei: o certo é que tomei de assalto o PO avançado do General Cordeiro de Faria e lá me instalei por todo o dia. Eram 8h da manhã quando o general me cedeu seu lugar diante da luneta binocular e me disse:

"Começamos a atacar às 6 da manhã. As tropas em ofensiva constituem o 1º Regimento de Infantaria, o Sampaio. Os seus três batalhões avançam na seguinte ordem: o 1º comandado pelo Major Olívio Godim de Uzeda, segue pela esquerda; o 2º comandado pelo Major Sizeno Sarmento, vai pelo centro; e o 3º, comandado pelo Tenente Coronel Emílio Rodrigues Franklin, partirá da direita. Nossa intenção é envolver todo o morro e, em coordenação com a ofensiva americana que já conquistou Belvedere, arrancá-lo das mãos nazistas até o fim da tarde de hoje."

Vejo, através da luneta, os nossos pracinhas agachados lá na frente, grupos aqui e ali rastejando na direção do cume de onde atiram, com suas curtas e sinistras gargalhadas, as terríveis "lurdinhas" alemãs. Agora mesmo um deles encostou-se num pedaço de muro destruído e aponta sua Thompson para qualquer lugar lá em cima. Os morteiros nazistas rebentam nas faldas do sul, mas nossa artilharia reinicia seu canhoneiro sistemático e certeiro, como fizera toda à noite. Escuto os silvos das granadas sobre nós, vejo-as explodirem lá adiante, numa coroa de fumaça que cai sobre o Castelo como uma auréola de chumbo. Uma de nossas baterias parece que perdeu a mira, e seis tiros caem muito aquém, quase num determinado setor brasileiro. O General Cordeiro dá ordens secas e rápidas, e durante alguns minutos seus ajudantes-de-ordens procuram, através dos cinco telefones de campanha e dos dois rádios, localizar o canhão amalucado. Finalmente o Capitão Durval de Alvarenga Souto Maior, comandante da 1ª Bateria do 1º Grupo, descobre que o canhão pertence à sua unidade. Há uma ordem rápida pelo rádio, e os tiros agora estão perfeitamente ajustados no eficiente conjunto de toda a artilharia. À esquerda, sobre posições americanas além de Belvedere, cinco ou seis Thunderbolts descem em picada, rápidos como um peso despencado de cima, e metralham impiedosamente os nazistas em defensiva.

Quando cheguei ao Posto de Observação do General Cordeiro, duas ou três horas depois de iniciada a ofensiva, a situação era mais ou menos esta: os batalhões avançaram, com exceção do 2º, comandado pelo Major Sizeno, que partiria às 11:35h de Gaggio Montano. Os nazistas tentavam impedir a progressão dos brasileiros com um fogo concentrado de morteiros. Eu sabia que a conquista de Castelo só seria efetuada depois que os americanos, que partiram de Belvedere, houvessem se apoderado de Toraccia, um pico que, atrás, dominava certa parte do morro sobre o qual avançavam nossos homens. O ataque americano, que começara na noite anterior, estava sendo efetuado por toda uma divisão especializada, a 10ª de Montanha, recentemente chegada a este setor. Naquele momento, 10 da manhã, os norte-americanos se encontravam em determinado ponto além de Menzacona, meio caminho entre Belvedere e Toraccia. Menzacona ficara em poder de um dos batalhões de brasileiros, com o qual os americanos haviam-se encontrado pela manhã. Então a ofensiva combinada, no lado direito, tomou o seguinte aspecto: os brasileiros deixaram alguns homens em Menzacona e seguiram em direção a Castelo, pela esquerda e comandados pelo Major Uzeda: os americanos foram à frente, em direção a Toraccia.

Daí por diante, os acontecimentos se sucederam nesta ordem, conforme me dizem os quase indecifráveis apontamentos que fui tomando às carreiras, entre uma olhada de binóculo e uma informação dos rádios:

Ao meio dia, o General Clark, comandante da frente italiana, o General Truscott, comandante do 5º Exército, o General Crittenberger e o comandante-chefe das forças aéreas do Mediterrâneo estiveram em visita ao General Mascarenhas de Moraes, no seu posto de observação precisamente três quilômetros à direita do PO do General Cordeiro.

Às 12:30h, o Major Uzeda, que avança pela esquerda, pede proteção de artilharia para que possa alcançar um ponto na sua frente, e o General Cordeiro ordena às baterias: Cinco rajadas de morteiro sobre 813.

Às 13:55h, um dos batalhões avisa que foram avistados reforços alemães que começam a chegar a Castelo. Ao lado direito, o Coronel Franklin está detido com o seu 3º Batalhão. O Major Uzeda previne pelo rádio que tentará envolver Castelo pela esquerda.

Às 14h 20min, o Major Uzeda avisa que vai atacar 920, penúltimo ponto antes da crista de Castelo. Pede mais tiro ao General Cordeiro, que transmite, através de seus auxiliares (o Coronel Miranda Correia e o Capitão Souto Maior são dois deles), ordens às baterias. O Major Uzeda se encontra precisamente a cinco quilômetros do PO, tendo realizado já uma progressão de dois quilômetros. O diálogo entre Alma I, Alma II e Alma III (observadores junto aos batalhões) e Lata I, Lata II e Lata III (oficiais de ligação em plena luta) se repete de minuto a minuto.

Às 15h, o Major Uzeda se encontra firme em 930, mas neutralizado por metralhadoras alemãs. Seu objetivo final será 977, ou seja, o cume de Castelo, onde tenciona chegar depois das 16h 30min. Fica combinado então que, às 16h 20min, quando seu batalhão iniciar a definitiva marcha sobre a crista de Castelo, toda a artilharia divisionária concentrará seus fogos sobre as faldas e o cume do monte. Estamos disparando com canhões de 105, 155 mm e morteiros.

Às 15:5h, escuto do General Cordeiro que, até aquele instante, calculava já ter gasto uns 8 milhões de cruzeiros de munição com os disparos da sua artilharia.

Às 15:30h o Major Uzeda diz pelo rádio: Meus homens estão prontos para atacar. Olho pelo binóculo que me emprestou o Coronel Miranda Correia e vejo, lá em cima, no 930, os soldados em formação de ataque, esparsos pelos pequenos vales e deitados na pouca neve que o sol ainda não conseguira mandar embora.

Entre 15:30h e 15:50h há uma relativa calma: somente os morteiros nazistas, os aviões mergulhando nas faldas de Toraccia e um teco-teco brasileiro, plácido como uma asa estendida, que navega solitário sobre o campo de luta. O PO do General Cordeiro de Faria fica localizado numa elevação de terreno - lá embaixo, é o vale que nos separa de Castelo, e aqui atrás, seiscentos metros distante, está localizado um dos grupos de nossa artilharia. Quando suas peças disparam, há um violento estremecimento de toda a casa, e xícaras e copos trepidam na mesa com um barulho cristalino. Os paisanos que aqui residiam, neste chalé amarelo, foram expulsos pela guerra e parece que não tiveram tempo de levar suas coisas. Os móveis estão intactos, há litogravuras nas paredes, um Cristo desalentado e pálido, fotografias de cavalheiros fardados e senhoras em trajes de inverno. Num dos cantos da sala onde o general colocou sua luneta, descubro um ricordo nuziale cercado por uma moldura dourada. Ali se recorda que, no dia 11 de dezembro de 1927, numa igreja de Bolonha, se consorciaram Dino Bettochi e Caterina Cionni. Uma paz distante.

Às 16:3h o Coronel Franklin informa pelo rádio que seus homens ocuparam Fornelo, à direita de Castelo e próximo ao seu cume. Tratava-se de um ponto forte inimigo, eriçado de metralhadoras, que foi dominado pelos nossos soldados. Fornelo foi um dos pontos em que foram barrados, em novembro e dezembro últimos, os anteriores ataques brasileiros contra a montanha tão cruel. Continua progredindo o batalhão do Coronel Franklin.

Sem dúvida alguma, o instante mais sensacional de toda a luta do dia 21 aconteceu às 16h 20min, quando toda a artilharia divisionária concentrou seus fogos sobre Castelo. Já havia lá fora qualquer coisa da noite, e os obuses explodiam em chamas altas, que o binóculo me mostra, tão próximas e reais.

As faldas do monte estão cavadas e lá em cima o cume ficou transformado numa cratera de vulcão em erupção. O Major Uzeda avança protegido pela função dos tiros de fuligem, e nossas metralhadoras estão trabalhando ativamente. Aqui dentro, ninguém diz nada. O general colocou definitivamente os olhos na luneta, e seus dedos - vejo bem - alisam automaticamente um pedaço da mesa. O Coronel Correia diz num fiapo de voz:

"Todo mundo está andando..."

- Às 17:40h os homens do Major Uzeda alcançam Esperança, outro ponte forte nazista no setor 930.

Às 17:45h o General Cordeiro de Faria afasta-se das lunetas, vira-se para mim e diz: "Praticamente Castelo está conquistado." Chegam também informações sobre a situação dos americanos: eles não conseguiram ainda tomar Toraccia, e o avanço brasileiro sobre Castelo terá que ser feito com aquela estratégica posição ainda em mãos dos nazistas.

- Às 17:50h a voz do Coronel Franklin vem, forte pelo rádio: "Estou no cume do Castelo." E pede fogos de artilharia sobre pontos inimigos além do monte. "Castelo é nosso", diz-me o general. Mais três minutos, e as baterias estão canhoneando Caselina, Serra e Bela Vista. Os nazistas respondem com morteiros. Mas nada mais adiantaria, porque, como me diria no dia seguinte o Coronel Franklin, "estamos em Castelo e ninguém mais nos tira daqui."

São mais de sete da noite quando seguimos, eu e o fotógrafo Horácio, pela estrada deserta e fria a caminho do nosso jipe que ficou distante. Nossa artilharia continua incansável. O Castelo está bem a nossa frente, mas é agora uma coleção de faldas amansadas. Já não nos domina com suas casamatas, já não vigia implacável nossos caminhos e estradas, já não nos persegue com seus mil olhos nazistas. É um morro brasileiro, e amanhã estarei lá em cima, junto com os pracinhas vitoriosos, passeando pela sua arrogância domada.

Dimitri Fiedorovitch - Um russo comandando um tanque Sherman

A nova e a velha cavalaria. Tanque Sherman M4A2 do Exercito Vermelho na Russia.


Dimitri Fiedorovitch, em quais tanques americanos você lutou?
- Em Shermans. Nós os chamávamos de "Emtchas", que vem de M4 [em russo "em tchietirie"]. Inicialmente eles tinham o canhão principal curto, mais tarde começaram a vir com a versão mais longa e com freio de boca. Na inclinação da blindagem frontal havia uma trava de transporte usada para prender o tubo durante marchas em estrada. O canhão principal era bem comprido. No todo, era um bom veículo, mas como todo tanque, tinha seus altos e baixos. Quando alguém me diz que esse foi um tanque ruim eu respondo "Me desculpe, mas não se pode dizer isso. Ruim comparado a que?".

Vocês só possuíam tanques americanos em sua unidade?

- Nosso 6º Exército de Tanques da Guarda Blindado - sim, nós tínhamos seis deles - lutou na Ucrânia, Romênia, Hungria, Tchecoslováquia e Áustria. A guerra terminou para nós na Tchecoslováquia. Então eles nos enviaram para o extremo leste e nós lutamos contra os japoneses. Lembrando-lhe que o 6º Exército era composto por dois corpos: o 5º Corpo de Tanques da Guarda Blindado "Stalingrado" com nossos T-34s e o 5º Corpo Mecanizado, no qual eu lutei. No início nosso corpo tinha Matildas, Valentines e Churchills.

Sim, um pouco tarde. Depois de 1943 nós recusamos vários tanques ingleses porque eles apresentavam deficiências significantes. Eles tinham 12-14 cavalos por tonelada quando bons tanques deveriam ter 18-20 cavalos por tonelada. Desses três tanques britânicos o melhor era o Valentine produzido no Canadá. Sua blindagem era bem inclinada e o mais importante, ele tinha um canhão principal de 57mm. Minha unidade os substituiu pelos Shermans americanos no final de 1943. Depois da Operação Kishinev nosso Corpo se tornou o 9º Corpo Mecanizado. Esqueci de mencionar que todo corpo era composto por quatro brigadas. Nosso corpo tinha três brigadas mecanizadas e uma brigada de tanques, na qual lutei. Um Corpo de Tanques tinha três brigadas de tanques e uma brigada mecanizada. Nós tínhamos Shermans em nossa brigada ao fim de 1943.

Mas os tanques britânicos não foram retirados de serviço, de modo que eles continuaram lutando até serem destruídos. Houve algum período em que seu Corpo apresentava uma mistura de tanques britânicos e americanos? Havia algum problema ligado à presença de tanques de diferentes tipos e nacionalidades? Por exemplo, problemas com manutenção e suprimentos?

Bom, problemas sempre estiveram presentes. De maneira geral, o Matilda era imprestável! Eu vou te falar de uma deficiência do Matilda que nos causou vários problemas. Algum tolo no Comando Geral planejou uma operação e nos enviaram para a área de Yelnia, Smolensk e Roslavl. O terreno de lá era pantanoso. O Matilda tinha saias laterais. O tanque foi originalmente criado para operar no deserto. Essas bordas funcionavam bem no deserto, pois a areia passava por seus escoadouros retangulares. Mas nos pântanos da Rússia a lama se amontoava no espaço entre as esteiras e essas bordas laterais. A transmissão do Matilda tinha um mecanismo auxiliar para facilitar a troca de marcha. Esse mecanismo não suportava as condições impostas pelo terreno russo, superaquecendo e então falhando. Isso não era problema para os ingleses. Em 1943 eles desenvolveram uma peça de reposição que era instalada facilmente, bastando-se desparafusar quatro parafusos, tirar a peça velha e inserir a nova.

Conosco, nem sempre funcionava assim. No meu batalhão havia um Primeiro Sargento (Starshina) chamado Nesterov, ex-motorista de trator em uma "kolkhoz" [uma espécie de comunidade agrícola soviética] que era o mecânico do batalhão. Em geral cada uma de nossas companhias de tanques tinha um mecânico, Nesterov era o mecânico do batalhão inteiro. No nosso Corpo nós tínhamos um representante (cujo nome me foge à memória) da firma inglesa que fabricava esses tanques. Eu tinha o seu nome escrito, mas quando meu tanque foi atingido tudo que havia dentro foi queimado - fotografias, documentos e um caderninho. Éramos proibidos de fazer anotações no front, mas mesmo assim eu o fiz às escondidas. De qualquer forma, esse representante britânico constantemente interferia em nossas tentativas de reparar componentes individuais do tanque. Ele dizia "Isso vem com um selo de fabricação. Não mecha", de modo que tínhamos que retirar toda a peça a fim de instalar uma nova. Nesterov fez um simples reparo para todas essas transmissões. Certa vez o representante veio até ele e perguntou "Em que universidade você estudou?" ao que Nesterov respondeu "Na kolkhoz!".

Os Shermans eram muito superiores nesse quesito. Você sabia que um dos designers do Sherman foi um engenheiro russo chamado Timoshenko? Ele era parente do Marechal S.K. Timoshenko.

- O Sherman tinha suas franquezas, sendo a maior delas o seu alto centro de gravidade. O tanque freqüentemente tombava para os lados, como uma boneca Matrioshka (uma boneca de madeira). Mas eu estou vivo hoje graças a essa deficiência. Estávamos lutando na Hungria em Dezembro de 1944. Eu comandava o batalhão e numa curva meu motorista-mecânico freou. Meu tanque tombou para o lado. Nós todos tombamos lá dentro, é claro, mas nós sobrevivemos. Enquanto isso os outros quatro tanques prosseguiram e foram pegos em uma emboscada. Foram todos destruídos.

O Sherman tinha uma esteira de metal coberta por borracha. Alguns autores contemporâneos apontam essa característica como uma deficiência, uma vez que em combate a borracha poderia pegar fogo. Com as esteiras descobertas de sua proteção, o tanque era inutilizado. O que você tem a dizer a esse respeito?

- Por um lado essa esteira coberta de borracha era uma grande vantagem. Primeiro porque fazia a esteira ter uma vida útil aproximadamente duas vezes maior que a de uma esteira de aço. Eu posso estar enganado, mas eu acredito que a vida útil da esteira de um T-34 é de 2500 quilômetros. A vida útil das esteiras do Sherman era de 5000 quilômetros. Em segundo lugar, o Sherman deslizavam suaves como um carro em superfícies difíceis ao passo que os nossos T-34 faziam tanto barulho que só o diabo sabe há quantos quilômetros podiam ser ouvidos. Qual era o lado ruim das esteiras do Sherman? Em meu livro, "Commanding the Red Army's Sherman Tanks", há um capítulo intitulado "Descalço" no qual eu escrevi a respeito de um incidente que ocorreu em agosto de 1944, na Romênia, durante a Operação Jassy-Kishinev. O calor era terrível, algo em torno de 30° C. Nós havíamos andado aproximadamente 100 km pela rodovia em um único dia. As coberturas de borracha que cobria nossas rodas auxiliares ficaram tão quentes que a borracha derreteu e se soltou em longos pedaços. Nosso corpo parou não muito longe de Bucareste. A borracha estava se soltando, os cilindros começaram a derreter, o barulho era terrível, e no final tivemos que parar. Isso foi imediatamente reportado a Moscou. Seria isso uma piada? Um Corpo parado? Para nossa surpresa eles nos trouxeram novos cilindros de suporte rapidamente e nós passamos três dias instalando-os. Eu ainda não sei onde é que eles conseguiram tantos cilindros em tão pouco tempo.

Havia ainda um outro contra da esteira emborrachada. Mesmo em uma superfície ligeiramente congelada o tanque escorregava como uma vaca gorda. Quando isso acontecia, nós tínhamos que amarrar arame farpado em torno das esteiras, ou qualquer coisa que nos desse um pouco de tração. Mas isso era com os primeiros tanques que nos foram enviados. Tendo notado isso, os representantes americanos informaram sua companhia e as próximas levas de tanques vieram acompanhadas de esteiras adicionais com pontas de tração. Se eu me lembro bem havia sete blocos para cada esteira, num total de quatorze para cada tanque. No geral os representantes americanos trabalhavam de maneira eficiente. Qualquer deficiência por ele observada e reportada era rapidamente corrigida.

Um outro defeito do Sherman era a escotilha do motorista. A escotilha nas primeiras leva de Shermans era localizada no teto da torre e simplesmente abria-se para fora. Freqüentemente o motorista-mecânico a abria e espiava para ter um melhor campo de visão. Não raro durante a rotação da torre o canhão principal batia na tampa da escotilha que por sua vez atingia a cabeça do piloto. Eu vi isso acontecer uma ou duas vezes na minha própria unidade. Posteriormente os americanos corrigiram esse defeito de modo que a escotilha se levantasse e depois deslizasse para o lado, como nos tanques modernos.

Outra grande vantagem do Sherman era seu sistema de recarga da bateria. Em nossos T-34 era necessário ligar o motor, no seu máximo de 500 cavalos, a fim de recarregar as baterias. No compartimento da tripulação do Sherman havia um motor auxiliar a gasolina, pequeno como o de uma motocicleta. Era só liga-lo e recarregar as baterias. Essa era uma grande vantagem para nós.

Por muito tempo depois da guerra uma pergunta me perseguiu. Se um T-34 começasse a pegar fogo, nós tentávamos correr para o mais longe dele possível, mesmo que isso fosse proibido, porque a munição interna explodia. Por um breve período eu combati em um T-34 nas proximidades de Smolenks. O comandante de uma de nossas companhias teve seu tanque atingido. A tripulação conseguiu escapar do tanque, mas não pode fugir porque os alemães estavam varrendo o campo com metralhadoras. Então eles se jogaram sob o campo de trigo e o tanque explodiu. Ao anoitecer quando a batalha havia se acalmado, nós fomos até lá. Eu encontrei o comandante deitado no chão com um enorme pedaço da blindagem do tanque saindo de sua cabeça. Quando um Sherman pegava fogo a munição interna não explodia. Por quê?

Isso ocorreu uma vez na Ucrânia. Nosso tanque foi atingido. Nós saímos dele, mas os alemães estavam atirando morteiros em volta de nós. Nós nos deitamos debaixo do tanque enquanto ele queimava. Nós ficamos lá por um longo tempo, sem lugar pra ir. Os alemães estavam varrendo em volta do tanque com tiros de metralhadora e morteiros. Nós ficamos lá. A parte de trás do meu uniforme começou a esquentar. Nós pensamos que estávamos acabados. Ouviríamos um grande estrondo e tudo estaria acabado. Um túmulo de irmãos. Ouvimos vários barulhos vindos da torre. Era a munição perfuradora de blindagem explodindo. Logo o fogo atingiria as cargas de alto explosivo e tudo viraria um inferno. Mas nada aconteceu. Por quê? Porque nossas cargas de alta explosão explodiam e as americanas não? Depois descobri que era porque a munição americana tinha explosivos mais refinados. Nossa munição tinha algum tipo de componente que aumentava o poder da explosão conseqüentemente aumentando o risco de detonação da munição.

É considerado notável o fato de que o Sherman era muito bem equipado do lado de dentro. Isso é verdade?

- É verdade. Não são boatos! Eles eram lindos! Como eles dizem hoje "Euro-repair"! Era um tipo de retrato europeu. Em primeiro lugar: ele era pintado lindamente. Segundo: os assentos eram confortáveis, cobertos por um tipo de couro artificial. Se o tanque fosse abatido ou danificado e abandonado literalmente por apenas alguns minutos, a infantaria iria roubar todo o seu estofamento. Com ele se fazia excelentes botas. Simplesmente lindas!

Como você vê os alemães? Como fascistas e invasores ou não?

- Quando alguém está na sua frente com uma arma nas mãos e é uma questão de quem vai matar quem, há apenas uma resposta. Ele era o inimigo. Assim que um alemão jogava fora sua arma e nós os capturávamos, então a coisa era outra. Eu não estive na Alemanha. Eu já te disse onde eu combati. Ai vai um incidente que ocorreu na Hungria. Nós tínhamos um "letuchka" (uma espécie de caminhão) alemão. Nós penetramos na retaguarda alemã em formação de coluna. Então um outro caminhão alemão, como o nosso, uniu-se a nossa coluna. Pouco depois nossa coluna parou. Eu estava andando pela coluna, checando os veículos. Tudo estava em ordem. Eu me aproximei do ultimo veículo e perguntei "Sasha, está tudo ok?". Em resposta eu recebi um "WAS?". Que diabos? Eram alemães. Eu imediatamente pulei pro lado e gritei "Alemães!". Nós os cercamos, um motorista e dois outros. Nós os desarmarmos e só então nosso caminhão que deveria estar por ultimo apareceu na estrada. Eu disse "Sasha, onde vocês se meteram?". Ele respondeu "Nós nos perdemos". "Bom" eu disse "aqui está outro caminhão para você".

Então você não os odiava?

- Não, claro que não. Nós entendíamos que eles eram seres humanos.

E como era sua relação com os civis?

- Quando o 2º Front Ucraniano alcançou a fronteira romena em Março de 1944 nós paramos, e ficamos no mesmo local em agosto. De acordo com as leis de guerra, toda a população civil tinha que ser removida para no mínimo 100 quilômetros da linha de frente. Esse povo já havia feito suas plantações. As autoridades anunciaram a evacuação da população e enviou caminhões para pegá-los na manhã seguinte. Com lágrimas nos olhos os moldávios se sentiam impotentes. Como poderia? Eles tinham que abandonar suas plantações! O que restaria quando retornassem? A evacuação foi feita como exigido, e não tivemos praticamente nenhum contato com a população civil. Naquela época eu era Chefe de Estado-Maior do batalhão, encarregado do suprimento de munição. O comandante da brigada me convocou e disse "Loza, você é descendente de camponeses?", ao que eu respondi afirmativamente, e ele disse "Foi o que pensei. Estou nomeando-o chefe de grupo! Você será responsável por cultivar essas plantações e se assegurar de que tudo cresça. E Deus impeça que até mesmo um pepino se perda. Não toque em nada! Se necessário, plante sua própria colheita".

Grupos foram organizados; em minha brigada havia 25 homens. Por toda a primavera e verão nós trabalhamos nessas plantações. No outono, quando as tropas partiram, nos foi ordenado que convidássemos o presidente de uma kolkhoz ao qual foram designadas todas as plantações. Quando a dona da casa onde eu fiquei voltou, ela imediatamente correu para fora checar seu jardim e o que ela viu a deixou estupefata. Havia enormes abóboras, tomate e melões. Ele retornou para dentro da casa, caiu aos meus pés, e começou a beijar minhas botas. "Meu filho! Nós pensamos que tudo teria secado e sido destruído, mas tudo está em ordem. Tudo que temos que fazer agora é cuidar das plantações." Este é um exemplo de como lidávamos com a população.

Na Guerra a medicina funcionou bem, mas havia certos casos que tudo que os médicos podiam fazer era sacudir suas cabeças. Companheiro, naquela época a Romênia era o poço venéreo de toda a Europa! Nós tínhamos um ditado "Se você tem 100 Lei (moeda romena) você pode dormir com uma rainha". Certa vez um grupo de prisioneiros de guerra alemão caiu em nossas mãos. Seus bolsos estavam cheios de preservativos. Uns cinco ou 10. Nosso oficial político criou um grande caso "Vejam! Eles têm isso para poder estuprar nossas mulheres!". Mas na verdade esses alemães eram mais espertos que nós, pois compreendiam o que doenças venéreas podiam fazer com um exército. Eu queria que nossos médicos tivessem nos avisado dessas doenças. Mesmo tendo ficado pouco tempo na Romênia, nós tivemos um terrível surto de doenças venéreas em nossa unidade. Nosso Exército tinha dois hospitais: um para casos cirúrgicos e o outro para ferimentos leves. Eles foram obrigados a abrir uma seção para cuidar de doenças sexualmente transmissíveis mesmo estando sem equipamentos necessários.

Nós interagíamos com a população húngara da seguinte maneira. Quando entramos na Hungria em outubro de 44, vimos praticamente apenas vilarejos desertos. Quando entravamos nas casas encontrávamos fogões, com comida quente dentro, mas nenhuma pessoa na casa. Lembro-me que em uma cidade havia uma faixa enorme pendurada na parede de uma casa. Ela retratava um soldado soviético comendo um bebê. Esse povo estava tão aterrorizado que quando podiam, fugiam. Abandonaram todas as suas posses. Depois, com o passar do tempo, quando começaram a entender que tudo isso era propaganda sem sentido, começaram a voltar.

Lembro-me de uma ocasião em que paramos no norte da Hungria, na fronteira com a Tchecoslováquia. Àquela altura eu já era Chefe do Estado-Maior do batalhão. Um dia fui informado que uma velha senhora húngara havia entrando em um celeiro na noite passada. Nós tínhamos pessoal da contra-inteligência em nosso Exército que trabalhava para o SMERSH (Smert Shpionam, ou "morte aos espiões"). Havia um oficial da SMERSH em cada batalhão, e nas unidades de infantaria um para cada regimento e acima. Eu disse ao meu oficial da SMERSH para ir checar. Eles procuraram e encontraram uma garota de 18 ou 19 anos. Quando eles a trouxeram para fora ela estava toda coberta de arranhões e tossia. A velha senhora estava em lagrimas pensando que iríamos estuprar sua filha. Besteira! Ninguém encostou um dedo nela! Pelo contrário, nós a demos tratamento médico. Ela passou a nos visitar muito, passando mais tempo conosco do que em casa. Quando estive na Hungria 20 anos depois, eu a encontrei. Que mulher bonita! Ela havia se casado e tinha filhos.

Então vocês não cometeram nenhum excesso com a população civil?

- Não. Uma vez eu tinha que ir a algum lugar na Hungria. Tomamos um húngaro como guia para que não nos perdêssemos, afinal era um país estrangeiro. Ele fez seu trabalho pelo qual pagamos com dinheiro e comida enlatada.

Em seu livro "Commanding the Red Army's Sherman Tanks" você escreveu que os tanques M4A2 Sherman da 233ª Brigada eram armados não só com 75 mm de cano curto, mas também com 76 mm de cano longo em janeiro de 1944. Não era um pouco cedo? Esses tanques não apareceram mais tarde? Explique mais uma vez que canhões eram montados sobre os Shermans da 233ª Brigada.

- Hmm, eu não me lembro. Nós tínhamos bem poucos Shermans com o canhão de cano curto. No geral nossos canhões eram longos. Não foi só a nossa brigada que lutou com Shermans. Talvez estes de cano curto estivessem em outras. Em algum lugar no nosso Corpo eu vi tais tanques, mas em nossa Brigada a grande maioria era de cano longo.

Havia submetralhadoras Thompson (Tommy gun) em cada Sherman que chegava na URSS. Eu li que essas armas eram roubadas e que poucos tanques chegavam a vocês com as armas. Que tipo de armamento pessoal vocês tinha? Americano ou soviético?

- Cada Sherman vinha com duas submetralhadoras Thompson, calibre 11.43mm (.45), uma munição boa. Mas a submetralhadora era inútil. Nós tivemos vários problemas com ela. Alguns de nossos homens se envolveram em uma discussão. Eles acabaram atirando uns nos outros. Como ambos estavam usando jaquetas acolchoadas, a munição acabou ficando alojada nas jaquetas. Uma metralhadora inútil. Pegue uma submetralhadora alemã de coronha dobrável [submetralhadora MP-40]. Nós a amávamos, uma arma compacta. A Thompson era grande. Não podia se mover dentro de um tanque com ela.

O Sherman tinha uma metralhadora antiaérea Browning M2 calibre.50 . Vocês a usavam com freqüência?

- Eu não sei o porquê, mas alguns tanques chegaram até nós com essas metralhadoras, outros não. Nós as usamos contra alvos terrestres e aéreos. Nós a usávamos menos contra alvos aéreos porque os alemães não eram tolos. Eles nos bombardeavam ou de grande atitude ou executando mergulhos. A metralhadora era boa até uns 400 ou 600 metros na vertical. Os alemães lançavam suas bombas de uns 800 metros ou mais alto. Tente abater o safado! Sim, nós a usávamos, mas não era muito efetiva. Nós usávamos até nosso canhão contra aviões. Colocávamos o tanque na elevação de uma colina e atirávamos. Mas nossa impressão geral da metralhadora era boa. Elas foram de grande utilidade na guerra contra o Japão, contra os kamikazes. Nós atirávamos tanto neles que eles pegavam fogo e cozinhavam. Até hoje eu tenho um fragmento de um projétil de uma metralhadora antiaérea na minha cabeça.

Em seu livro você fala de uma batalha em Tinovka que envolveu unidades do 5º Corpo Mecanizado. Você escreveu que a batalha foi em 26 de janeiro de 1944. Alguém foi até lá e escavou alguns mapas alemães, que indicavam que em 26 de janeiro de 1944 Tinovka já estava em mãos soviéticas. Além disso, esse homem também encontrou um relatório da inteligência alemã, baseado no interrogatório de um tenente soviético de um batalhão antitanque da 359ª Divisão de Infantaria. Esse relatório indicava que havia T-34s e tanques médios americanos, assim como alguns KVs camuflados com palha em Tinovka. Esse homem gostaria de saber se você poderia estar enganado a respeito da data. Ele indica que uma semana mais cedo Tinovka estava, de fato, sob domínio alemão.

- É bem possível. Pense na quão confusa era a situação por lá! Rapaz, foi uma bagunça e tanto! A situação não mudava diariamente, mas de hora em hora. Nós cercamos o grupamento alemão Korsun-Shevchenkovskiy. Eles começaram a nos atacar para escapar do cerco ao mesmo tempo em que alemães fora do cerco nos atacavam para ajudar os camaradas. Essas batalhas foram tão pesadas que Tinovka mudou de mãos várias vezes por dia.

Você escreveu que em 29 de janeiro o 5º Corpo Mecanizado avançou para o oeste para apoiar unidades do 1º Front Ucraniano, que estavam segurando o contra ataque alemão. Alguns dias depois, o Corpo Mecanizado estava na área de Vinograd. Logo em seguida, em 1 de fevereiro, estava no caminho do principal ataque das 16ª e 17ª Divisões Panzer, 3º Corpo Blindado. Esse ataque foi lançado da área de Rusakoika e Noiai Greblia ao norte e nordeste. Após alguns dias, os alemães capturaram Vinograd e Tinovka, forçaram passagem sobre o rio Gniloi Tikich e alcançaram Antonoika. Você poderia descrever o papel do seu Corpo na batalha?

- Nós cercamos os alemães e fechamos o bolsão. Eles imediatamente nos empurraram para a borda exterior do círculo. O clima era terrível; a lama degelava durante o dia. Eu pulei fora do meu tanque e caí direto na lama. Era mais fácil tirar meus pés das minhas botas que minhas botas da lama. À noite, a temperatura caiu e o barro congelou. Nós lutamos contra esse barro no anel exterior. Tínhamos poucos tanques restantes. A fim de criar a impressão de que ainda estávamos fortes, à noite ligamos os faróis de todos os caminhões e tanques e seguimos em frente. Todo o nosso Corpo estava na defesa. Os alemães achavam que nossas defesas estavam entrincheiradas. Na verdade, quase 30% do nosso Corpo éramos formados por tanques. Os combates haviam sido tão intensos que nossas armas ferviam. Algumas vezes a munição fundia. Você disparava e ela simplesmente caía no meio do barro a alguns metros do tanque. Os alemães lutavam por suas vidas e não tinham nada a perder. Alguns pequenos grupos conseguiram romper nossas linhas.

Aviões alemães chegaram a infligir danos significativos ao seu equipamento? Em particular, o que você poderia me dizer do Henschel Hs-129?

- Nem sempre, mas acontecia. Eu não me lembro do Henschel; talvez houvesse esse avião. Algumas vezes nós conseguíamos desviar das bombas. Você podia vê-las caindo em sua direção, sabe? Nós abríamos as escotilhas, espiávamos e instruíamos o motorista pelo interfone: "A bomba vai cair na nossa frente". Mas, em geral, havia casos de tanques sendo atingidos e explodindo. Perdas dessa natureza não ultrapassaram 3 ou 5 tanques no batalhão. Era mais fácil um único tanque ser destruído. O maior perigo eram os atiradores armados com panzerfausts escondidos em construções. Na Hungria eu me lembro de estar tão cansado que pedi ao meu subordinado que comandasse o batalhão enquanto eu dormia. Eu dormi bem lá no compartimento de combate do meu Sherman. Nas proximidades de Beltsy eles lançaram munição para de pára-quedas. Pegamos um pára-quedas para nós e eu o usava como travesseiro. O pára-quedas era de seda de modo que piolhos não conseguiam entrar no tecido. Eu estava dormindo profundamente! De repente, eu acordei. Por quê? Por causa do silêncio. Acontece que aviões haviam destruído dois tanques. O batalhão havia parado, desligado os motores e tudo ficou silencioso. Então eu acordei.

Vocês trancavam suas escotilhas durante combates em cidades e áreas construídas?

- Definitivamente. Quando invadimos Viena, eles estavam arremessando granadas contra nós do andar superior dos edifícios. Eu ordenei que todos os tanques parassem sob passagens de edifícios e pontes. Vez ou outra, eu tinha que ir com meu tanque até terreno aberto, a fim de estender a antena de comunicação para enviar e receber comunicados do alto comando. Em certa ocasião, um operador de rádio e um motorista-mecânico estavam fazendo algo dentro do tanque e esqueceram a escotilha aberta. Alguém abriu e jogou uma granada lá dentro. Ela bateu nas costas do operador de rádio e explodiu. Ambos morreram. De modo que nós sempre trancávamos as escotilhas quando estávamos em cidades ou áreas construídas.

O principal efeito destrutivo da munição HEAT (carga oca), categoria à qual o panzerfaust pertencia, é a alta pressão no tanque, que incapacita a tripulação. Se as escotilhas fossem mantidas semi-abertas, isso não daria um certo grau de proteção?

- Sim, mas, mesmo assim, nós as mantínhamos trancadas. Talvez tenha sido diferente em outras unidades. Os atiradores de panzerfaust geralmente atiravam contra o compartimento do motor, de forma a incendiar o tanque, forçando a tripulação a sair e ficando exposta ao tiro das metralhadoras alemãs.

Qual era a chance de sobreviver se o seu tanque fosse atingido?

- Meu tanque foi atingido no dia 19 de abril de 1945. Um Tiger meteu um buraco em nós. O projétil passou pelo compartimento de combate e então atingiu o compartimento do motor. Havia três oficiais no tanque: eu como comandante do batalhão, o comandante da companhia Sasha Ionov (cujo tanque havia sido atingido) e o comandante do tanque. Três oficiais, um motorista-mecânico e um operador de rádio. Quando fomos atingidos o piloto morreu na hora. Minha perna direita foi ferida, à minha direita Sasha Ionov teve sua perna amputada. O comandante do tanque se feriu e, abaixo de mim, estava o canhoneiro, Lesha Romanshkin. Suas duas pernas foram destruídas. Pouco tempo antes desse ataque nós estávamos sentados e Lesha me dise "Se eu perder minhas pernas eu vou me matar. Quem precisaria de mim?". Ele era órfão e não tinha parente. Numa ironia do destino foi exatamente o que acabou acontecendo a ele. Nós tiramos Sasha do tanque e, em seguida, Lesha e começamos a ajudar na evacuação dos outros feridos quando Lesha se matou. Em geral um ou dois homens eram sempre feridos ou mortos. Dependia do local onde o tiro o atingia.

Os soldados ou suboficiais recebiam algum dinheiro para gastos na frente?

- Em comparação com as unidades regulares não de Guardas, os soldados e sargentos, até sargento sênior, recebiam pagamento dobrado, e os oficiais recebiam 1,5 vezes a mais em unidades da guarda. Por exemplo, meu comandante de companhia recebia 800 rublos. Quando me tornei comandante do batalhão passei a receber 1200 ou 1500 rublos, não me lembro da quantia exata. Em todo caso nós não recebíamos todo o pagamento. A maior parte era mantida em poupanças em uma conta pessoal. Nós podíamos guardar o dinheiro ou enviar para nossa família. Não carregávamos dinheiro no bolso. Nisso o governo era esperto. O que faríamos com dinheiro no meio de uma batalha, afinal?

O que vocês podiam comprar com o dinheiro que tinham?

- Certa vez, estávamos nos reunindo em Gorkiy. Eu fui a um mercado com o meu amigo Kolya Averkiev. Ele era um bom sujeito, mas morreu em seus primeiros combates! Nós estávamos dando algumas voltas por lá e encontramos um sujeito vendendo pão de centeio. Ele segurava um em uma mão e os outros dois em outra. Kolya perguntou "Quanto você quer pelo pão?" ao que o sujeito respondeu: "Três kosykh" (Kosaya é uma gíria russa, que significa 100 rublos, de forma que o sujeito estava pedindo 300 rublos por um pão). Kolya não sabia o que era "kosaya", então, tirou três rublos e entregou ao homem. Ele disse "Você está louco?", Kolya respondeu "Qual o problema? Você pediu três kosykh e eu te dei três rublos!", o homem disse "Três kosykh são trezentos rublos!" e Kolya respondeu "Você é uma pestilência! Você está aqui explorando as pessoas enquanto nós estamos derramando sangue por você!". Como oficiais, nós sempre portávamos nossas armas pessoais. Kolya puxou sua pistola. O homem agarrou os três rublos e bateu em retirada.

Além do dinheiro, uma vez ao mês os oficiais recebiam um pacote suplementar. Ele continha 200 gramas de manteiga, uma caixa de bolachas, um pacote de biscoitos e, creio eu, um pouco de queijo. Alguns dias depois do incidente no mercado nós recebemos nosso pacote. Nós cortamos o pão, passamos manteiga e cobrimos com queijo. Foi uma festa!

Que tipo de comida vocês recebiam em seus pacotes suplementares? Soviética ou americana?

- Ambas. Uma vez uma, outra vez a outra.

Soldados ou suboficiais recebiam alguma coisa por serem feridos? Dinheiro, comida, dispensa ou qualquer outra forma de compensação?

- Não.

Que tipo de recompensa era dada pela destruição de tanques, canhões, etc.? Alguém determinava essa recompensa ou haviam regras específicas? Toda a tripulação era premiada ou somente um indivíduo em especial?

- O dinheiro era dado à tripulação e dividido igualmente entre os membros.

Na Hungria, em 1944, em um de nossos encontros, nós decidimos que pegaríamos todo o dinheiro que recebêssemos como recompensa por abate de equipamento inimigo e faríamos uma "vaquinha" para, mais tarde, enviar às famílias dos nossos camaradas mortos. Depois da guerra, quando eu trabalhava nos arquivos, eu encontrei listas endossadas por mim com os dados da transferência do dinheiro para as famílias: três mil rublos, cinco mil rublos e assim por diante.

Na região do lago Balaton nós rompemos a retaguarda alemã e atacamos uma coluna de tanques, destruindo 19 deles, 11 dos quais eram tanques pesados. Muitos outros veículos também foram destruídos. Ao todo nós contamos 29 veículos de combate destruídos. Nós recebemos 1000 rublos por cada veículo.

Nossa brigada foi formada em Naro-Fominks [uma pequena cidade nas proximidades de Moscou, Valera], de modo que nela havia um grande número de homens de Moscou. Dessa forma, quando, após a guerra, fui estudar na Academia Militar Frunze, eu tentei encontrar as famílias dos soldados mortos. A conversa era triste, claro, mas era necessária, pois eu sabia como seu filho, pai ou irmão havia morrido. Muitas vezes eu sabia os detalhes, até a data. Eles se lembravam do dia em que foram notificados e de como isso mudou suas vidas. Lembrava-se de quando receberam o dinheiro. Algumas vezes conseguíamos mandar além do dinheiro, embrulhos contendo troféus (itens capturados).

Então quando um tanque era destruído ele era creditado individualmente para cada membro da tripulação?

- Sim.

Quem registrava as baixas inimigas?

- O Estado Maior e os comandantes de batalhão e companhia. O vice-comandante de manutenção também fazia registros. Nós criamos um grupo para fazer a evacuação dos tanques destruídos. Não confundir com grupos de retaguarda. Esse grupo normalmente consistia de 3 a 5 homens com um veículo de resgate [tanque sem torre, Valera] comandado pelo vice-comandante de manutenção. Eles se moviam por trás das formações de combate, registrando e anotando nossas baixas e as dos alemães.

Como se determinava quem destruiu um tanque ou canhão? O que acontecia se mais de uma tripulação afirmava ter destruído o mesmo tanque?

- Isso acontecia ocasionalmente, mas não com muita freqüência. Normalmente o tanque era creditado a ambas as tripulações e notificado como "em conjunto" de forma que no relatório contava como um só tanque abatido. O dinheiro era dividido. 500 rublos para cada tripulação.

Como a tripulação deveria agir se seu tanque fosse danificado em combate?

- Deveria tentar salvá-lo, tentar concertá-lo. Se faltassem recursos para concertá-lo, deveria ser armada uma defesa em torno dele. Era categoricamente proibido abandonar o tanque. Eu já mencionei que havia um oficial da SMERSH em cada batalhão. Deus te proteja se você abandonar um tanque! Nós tivemos um caso em que, antes de um ataque, um membro da tripulação afrouxou a esteira do tanque. Não foi difícil para o motorista-mecânico tirá-la dos roletes. Mas nosso oficial da SMERSH tomou nota do ocorrido e prendeu os culpados. Foi um caso de covardia descarada!

Não poderia acontecer que a tripulação deixasse a esteira frouxa por descuido e ser acusada de covardia mesmo assim?

- Sim. A tripulação tinha que cuidar de seu tanque ou eles poderiam simplesmente acordar em um batalhão penal. Era obrigação de cada comandante de tanque e do comandante da companhia checar a tensão nas esteiras antes do combate.

Você já disparou contra seus próprios soldados ou tanques?

- Companheiro, tudo pode acontecer na Guerra. Tal fato ocorreu a oeste de Yuknov. Nossa brigada chegou ao local e parou em uma floresta. Uma batalha estava sendo travada três quilômetros à frente. Os alemães haviam capturado uma cabeça de ponte em algum rio e estavam começando a expandi-la. O comandante do nosso Corpo enviou a companhia de Matildas da nossa Brigada vizinha para contra atacar. Os alemães não tinham tanques de forma que foi fácil para os matildas eliminar a cabeça de ponte e forçar os alemães através do rio. Agora os nossos Matildas retornavam do combate. Um pouco antes, temendo um avanço alemão, nosso comandante destacou um batalhão de artilharia antitanque. Eles foram colocados 300 metros a nossa frente e estavam se entrincheirando. Os artilheiros não sabiam que nós estávamos lá e nem que estávamos usando veículos estrangeiros. Quando viram os Matildas retornando, eles abriram fogo destruindo três ou quatro deles. Os tanques restantes recuaram rapidamente em busca de abrigo. O comandante do batalhão, um artilheiro, correu até os tanques destruídos, olhou lá dentro e viu nossos homens. Um deles tinha o peito coberto de medalhas.

Em outra ocasião, quando o 1º e o 2º Fronts Ucranianos se uniram em Zvenigorodka e fecharam o cerco em torno do bolsão de Korsun-Shevchenkovskiy, o 5º Exército equipado com T-34s aproximou-se pelo sul enquanto nossos Shermans vinham do norte. Nossas tropas nos T-34s não haviam sido avisadas que haviam Shermans na área e atiraram no tanque do comandante do meu batalhão, Nikolay Nikolaevich Malyukov. Ele morreu dentro do tanque.

Alguém era punido por isso?

- Eu não sei, talvez eles punissem alguém. Cada caso era investigado.

Como vocês cooperavam com a infantaria durante o combate?

- A Brigada de Tanques tinha três Batalhões de Tanques, cada um com 21 tanques, e um Batalhão de Sub-Metralhadoras. Um Batalhão de Sub-Metralhadoras tinha três Companhias uma para cada Batalhão de Tanques. Nós tínhamos essa estrutura de três batalhões apenas no final de 1943 e inicio de 1944. O resto do tempo nós tínhamos apenas dois batalhões de tanques para cada brigada. Os homens das companhias de submetralhadoras eram como irmãos para nós. Durante as marchas eles pegavam caronas em nossos tanques. Eles ficavam aquecidos, secavam suas coisas e dormiam um pouco. Nós dirigíamos e então parávamos em algum lugar. Os tanquistas podiam dormir e os homens das companhias de submetralhadoras tomariam conta. Com o decorrer do tempo muitos deles se tornavam membros da tripulação de algum tanque, começando geralmente como carregador ou operador de rádio. Nós dividíamos os espólios igualmente. De formar que as coisas eram um pouco mais fáceis para eles que para homens de uma companhia de infantaria regular.

Durante os combates eles se sentavam sobre os tanques até o fogo começar. Quando os alemães começavam a atirar sobre os tanques, eles pulavam fora e corriam para se proteger atrás deles.

Se em alguma situação os tanques estivessem limitados em suas manobras e velocidade, você manobrava a infantaria ou os faziam parar?

- Nenhum dos dois. Nós não prestávamos atenção a eles. Nós manobrávamos e eles vinham atrás. Não havia problemas.

A velocidade do tanque era limitada durante o ataque? Pelo que?

- Claro! Nós precisávamos atirar!

Como vocês atiravam? Fazendo pequenas paradas ou em movimento?

- De ambas as maneiras. Se atirássemos em velocidade a velocidade do tanque nunca excedia 12km/h. Mas nós raramente o fazíamos, só quando queríamos criar pânico entre as tropas inimigas. Basicamente nós atirávamos parados. Corríamos até uma posição, parávamos, atirávamos e então seguíamos.

O que você pode dizer sobre o Tiger alemão?

- Era um veículo extremamente pesado. O Sherman nunca poderia derrotá-lo em um ataque frontal. Nós tínhamos que força-lo a expor seu flanco. Se estivéssemos defendendo, tínhamos uma tática especial. Dois Shermans eram designados para cada Tiger. O primeiro Sherman atirava em sua esteira, quebrando-a. Por um curto espaço de tempo o Tiger continuava a se mover com a outra esteira, o que o fazia se virar de lado. Nesse momento o segundo Sherman acertava-o de lado, tentando atingir tanque de combustível. É assim que fazíamos. Um tanque alemão era derrotado por dois dos nossos e creditado à tripulação dos dois. Há uma história a esse respeito intitulada "Hunting With Borzois" em meu livro.

O freio de boca tem uma desvantagem significante: uma nuvem de poeira é levantada durante o disparo, revelando a posição. Alguns artilheiros tentam contornar isso, por exemplo, molhando o solo em frente dos seus canhões. Que tipo de medida vocês empregavam para atenuar esse efeito?

- Você está certo! Nós amassávamos o chão, de forma a ficar duro, e cobríamos com nossos casacos.

A vista do tanque era dificultada pela poeira, sujeira ou neve?

- Não havia nenhuma dificuldade em especial. A neve, é claro, podia nos cegar. Mas não a poeira. A viseira do Sherman não era pra fora, ficava na torre. Dessa forma ficava bem protegida conta esses elementos.

Tanquistas que lutaram nos Churchills ingleses apontaram o fraco aquecimento interno como uma deficiência. O sistema padrão de aquecimento era inadequado para o inverno russo. Como o Sherman era equipado nesse sentido?

- O Sherman tinha dois motores conectados por duas juntas de união paralelas. Isso era bom e ruim. Havia ocasiões em que um desses motores parava durante a batalha. A junta podia ser solta e o tanque podia se arrastar para longe em apenas um motor. Por outro lado havia grandes ventiladores encima dos motores. Nós costumávamos dizer "Abra sua boca e o ar vai sair pelo seu rabo!". Como diabos podiam ficar aquecidos? Havia correntes de ar muito fortes. Talvez viesse algum calor dos motores, mas não foi lhe dizer que aquilo era o suficiente. Quando parávamos, nós imediatamente cobríamos o compartimento do motor com nossos casacos. Então o tanque se aquecia por várias horas; nós dormíamos nele. Nada no mundo fez com que os americanos nos dessem macacões forrados de lã.

Havia alguma norma para o consumo de munição?

- Sim, havia. Em primeiro lugar, nós levávamos um carregamento básico [BK - boekomplekt - um carregamento completo de munição, um BK do Josef Stalin II era igual a 28 cápsulas - Valera] conosco para batalha. Nós levávamos um BK adicional do lado de fora dos tanques durante grandes jornadas. Quando fomos para Viena, por exemplo, meu comandante nos ordenou pessoalmente que levássemos dois BK: um dentro e o segundo fora sobre a blindagem. Em adicional nós levamos duas caixas de chocolate e provisão adicional em cada tanque. Nós estávamos sós, por assim dizer. Isso significava que se tivesse que conduzir um ataque em algum lugar nós teríamos que nos livrar das rações e colocar a munição em seu lugar. Todos os nossos veículos de suprimentos eram Studebakers americanos de duas toneladas. Eles sempre traziam munição para o batalhão.

Há uma coisa que eu gostaria de dizer. Como nós preservávamos nossa munição soviética? Vários cartuchos cobertos de graxa, em caixas de madeira. Alguém tinha que ficar limpando a graxa dos cartuchos por horas. A munição americana era empacotada em tubos de papelão, três cartuchos pra cada. Os cartuchos ficavam limpos e brilhantes dentro dos tubos. Nós os tirávamos e imediatamente guardávamos dentro do tanque.

Que tipo de munição você levava em seu tanque?

- Perfurante de blindagem e munição de alto-explosivo. Mais nada. A proporção era de um terço de Alta Explosão para dois terços de perfuradora de blindagem.

Talvez a proporção varie com o tanque. Nos JS era o contrário!

- Sim, você está certo. Mas o poder de fogo do JS era tamanho que um tiro era suficiente. Quando fomos para Viena, eles nos deram uma bateria de JSU-152s, três deles (em seu livro Loza os chamada de SAU-152, eu o perguntei sobre esses veículos e ele disse que eram baseados no chassi do JS, então só poderiam ser JSU-152). Eles nos atrasaram muito. Na auto-estrada nós podíamos fazer 70km/h com os Shermans enquanto os JSUs mal se moviam. Quando entramos em Viena sucedeu-se um incidente que eu descrevo em meu livro. Os alemães nos contra-atacaram com vários Panthers. O Panther era um tanque pesado. Eu ordenei que um JSU avançasse para combater os Panthers. "Bem, dê um tiro", e oh, eles atiraram! Devo dizer que as ruas de Viena eram estreitas, as construções altas e muitos queriam assistir esse combate entre o JSU e o Panther. As pessoas ficaram nas ruas. O JSU disparou e atingiu o Panther atrás (de uma distancia de 400 ou 500 metros). Sua torre foi arrancada e voou alguns metros. Com a força do tiro todos os vidros das casas em volta quebraram e caíram em nossas cabeças. Esse dia eu me culpei por não ter previsto isso. Muitos foram feridos. Foi bom que estivéssemos usando capacetes, mas nossos braços ficaram todos cortados. Essa foi minha primeira experiência em combate urbano, e foi triste. Nós ainda dizemos "Um homem inteligente não entra numa cidade, ele a contorna". Mas nesse caso eu tinha ordens específicas para entrar na cidade.

Em geral, Viena foi muito destruída?

- Não, não muito. Não em comparação com Varsóvia, por exemplo. Minha missão era capturar o centro da cidade e o banco. Foram capturadas 18 toneladas de ouro, o que não era mixaria. Os homens brincavam comigo "Se ao menos você pudesse pegar só uma bolsa" e eu respondia "Homens, por quantos anos eu quebraria pedras por esse roubo?".

Como vocês reabasteciam?

- Cada batalhão tinha vários caminhões tanque. Antes de qualquer batalha os caminhões tinham que ser esvaziados. Se estivéssemos em marcha, então levávamos tanques extras sobre os tanques, e antes do combate nós os largávamos. Os caminhões vinham pela retaguarda e traziam combustível pra gente. Nunca eram trazidos todos os caminhões de combustível de uma só vez. Assim que um caminhão era esvaziado ele voltava para a brigada e recarregava e o próximo vinha, e assim por diante. Na Ucrânia tínhamos que rebocar esses caminhões com nossos tanques por causa da lama. A lama lá era terrível. Na Romênia os alemães cortaram nossos suprimentos. Fizemos um coquetel, uma mistura de gasolina com querosene (os M4A2 Shermans era a diesel). Os tanques conseguiam andar com esse coquetel, mas os motores superaqueciam-se.

Vocês tinham tanquistas sem tanques em sua unidade? O que era feito deles?

- Certamente nós tínhamos. Normalmente um terço do total de homens não tinham tanques. Eles faziam de tudo. Ajudavam na manutenção, suprimento de munição, reabastecimento e qualquer coisa que fosse preciso. Eles o faziam.

Vocês tinham veículos camuflados em sua unidade?

- Alguns, mas eu não me lembro deles. Tínhamos de tudo. No inverno nós pintávamos nossos tanques de branco em um sistema obrigatório com tinta ou com cal.

Era preciso permissão para instalar camuflagem? Vocês precisavam de autorização para pintar qualquer tipo de slogan no tanque, por exemplo, "Za rodinu" - Pela Pátria?

- Não, nenhum tipo de permissão era necessário. A escolha era sua - se você quisesse pintar, você pintava. Se não queria camuflar seu tanque, você não camuflava. Quanto aos escritos eu acredito que eles tinham que ser aprovados pelos representantes políticos. Afinal era algum tipo de propaganda.

Os alemães fizeram um amplo uso de camuflagem. Isso ajudava?

- Sim, ajudava muito. Em algumas ocasiões isso foi crucial para eles.

Então porque vocês também não usavam camuflagem tanto quanto eles?

- Faltava-nos material. Nós não tínhamos uma ampla opção de cores. Havia uma cor de proteção e nós a pintávamos. Precisa-se muita tinta para se pintar todo um tanque. Talvez se tivéssemos tido acesso a outros cores de tinta, nós tivéssemos feito maior uso de camuflagem. Em geral havia várias coisas a se fazer: concertos, reabastecimento e assim por diante.

Os alemães eram mais ricos. Eles não tinham apenas camuflagem, mas também usavam zimmerit em seus tanques pesados.

A tripulação recebia contussões quando o tanque era atingido, mesmo se o projétil não penetrasse a blindagem?

- Geralmente, não. Depende de onde o projétil atingia. Digamos que eu estivesse sentando no lado esquerdo da torre e um projétil atingisse o tanque perto de mim. Eu ouvia o impacto, mas não me machucava. Se ele atingisse em algum lugar do corpo do tanque, talvez eu nem mesmo o ouvisse. Isso acontecia com freqüência. Nós saíamos depois de um combate para inspecionar o tanque e encontrávamos marcas de impactos na blindagem, como manteiga cortada por uma faca quente. Algumas vezes o motorista gritava "Eles estão atirando da esquerda", mas não havia nenhum som que sobressaísse. É claro que se uma arma poderosa como um JSU-152 nos atingisse, nós ouviríamos, e em seguida perderíamos a cabeça junto com a torre.

Eu gostaria de acrescentar que a blindagem do Sherman era forte. Havia casos de T-34s serem atingidos, mas a bala não penetrar, mas mesmo assim a tripulação era ferida por estilhaços da blindagem que voam da parte interna do tanque. Isso nunca aconteceu em um Sherman.

Qual o oponente mais perigoso? Um canhão, tanque ou avião?

- Todos eram perigosos até que o primeiro tiro fosse disparado. Mas em geral os mais perigosos são os canhões antitanque. Eles eram muito difíceis de distinguir e de derrotar. Os artilheiros os enterravam no chão até que seus canos ficassem literalmente deitados sobre o solo. Você podia ver apenas alguns centímetros do escudo. O canhão atirava. Era bom quando tinha freio de boca e o tiro fazia a poeira subir. Mas se fosse inverno ou se tivesse chovendo!

Havia casos em que você não podia ver de onde o fogo vinha, mas a infantaria sim? Se sim, como eles lhes guiavam?

- Algumas vezes eles batiam na torre e gritavam. Às vezes eles atiravam na direção do inimigo com balas traçantes ou atiravam um foguete sinalizador em sua direção. E geralmente o comandante olhava pela torre. Nenhum dos periscópios, mesmo os da torre de comando, nos dava boa visibilidade.

Como você mantinha contato com seu comandante e os outros tanques?

- Por radio. Os Shermans tinha dois rádios, HF e UHF, de excelente qualidade. Usávamos o HF para comunicação com nossos superiores e o UHF para comunicação dentro do batalhão ou da companhia. Para comunicação dentro do tanque nós usávamos o sistema de interfone. Funcionava muito bem.

Entrevista feita por Valera Potapov e Artem Drabkin
Tradução para o português de Gustavo Caetano (www.totalkrieg.com.br)
Fonte deste artigo: www.iremember.ru

domingo, 13 de dezembro de 2009

Viagem na memória: o inferno de Auschwitz.





Em meados de 1944, em plena Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o jovem combatente da Resistência francesa Charles Gottlieb, então com 18 anos, foi detido e colocado em um trem rumo a um destino desconhecido. Ao desembarcar em seu paradeiro final, se viu diante de um portal que dava acesso a uma enorme área cercada de arame farpado, vigiada por guardas armados e povoada de farrapos humanos, a maioria vestida com uniformes listrados. A primeira frase que ouviu ressoa até hoje em sua memória: "Aqui você entra por esse portão e sai por aquela chaminé", disse seu interlocutor, apontando para a fumaça que saía ao longe do topo de uma torre de tijolos. Quem lhe deu as boas-vindas foi um dos prisioneiros do campo de Auschwitz-Birkenau, na Polônia. A fumaça a que se referia provinha de um dos fornos crematórios do complexo, um dos instrumentos da "solução final", o meticuloso plano de extermínio dos judeus arquitetado pelos nazistas.

O macabro campo hoje é uma extensa área deserta de ruidoso silêncio. Uma grama verde substitui o lodaçal de outrora. Das câmeras de gás, onde os detentos eram asfixiados pelo vapores do Zyklon B em uma morte lenta de até 20 minutos, pensando que se dirigiam para uma ducha, restam ruínas. Foi o último ato de destruição dos carrascos do Reich ao abandonarem o campo, para tentar esconder do mundo a sua barbárie. Passados mais de 60 anos, os visitantes de Auschwitz - 1,2 milhão só no ano passado -, ao retornarem por algumas horas a esse doloroso passado, são capazes de vislumbrar a tragédia no campo como se estivessem em um filme de terror. Mas, longe de ser uma ficção, Auschwitz é um real e infeliz capítulo da história da humanidade.

O sobrevivente Charles Gottlieb, hoje com 83 anos, é uma prova. Desde que um assistente do cineasta Steven Spielberg desembarcou em Nice, onde vive atualmente, para recolher seu depoimento para as pesquisas do filme A Lista de Schindler, decidiu usar o sofrimento do passado para alertar as consciências futuras. Estimulado também pelo crescimento na França das teses negacionistas em relação ao Holocausto, desde 2003 participa das "Viagens da Memória", excursões pedagógicas organizadas pelo Conselho Regional dos Alpes-Marítimos francês, em que centenas de alunos de escolas da região visitam o campo localizado nas cercanias de Cracóvia - 70 quilômetros a oeste. Só entre o último dezembro e março deste ano, estão previstas oito viagens, cada uma levando cerca de 150 adolescentes com idade em torno de 14 anos. Em dezembro passado, acompanhei uma dessas viagens ao passado do horror nazista, que neste 2009 voltará a ser lembrado pela data dos 120 anos do nascimento de Adolf Hitler (no 20 de abril de 1889, em Braunau am Inn, cidade austríaca a 60 quilômetros ao norte de Salzburg).

O jovem resistente Charles foi detido pela milícia francesa durante uma manifestação na praça Bellecour, no centro de Lyon, em julho de 1944. Interrogado por oficiais da Gestapo, sob as ordens do temível Klaus Barbie - conhecido como "o carniceiro de Lyon" por suas crueldades cometidas na luta contra a Resistência francesa e na perseguição aos judeus - foi torturado e em seguida deportado em um comboio para Auschwitz.

Seu testemunho pessoal, acrescido das informações dos guias locais, emociona os jovens estudantes, atentos ao seu relato. Ao desembarcar em Auschwitz, em agosto de 1944, Charles escapou da severa triagem da chegada, em que todos aqueles considerados inaptos para o trabalho eram enviados diretamente para as câmeras de gás, os pertences armazenados no bloco apelidado pelos prisioneiros de "Canadá", que para eles significava abundância e riqueza. Ele conta do onipresente e indigesto odor de carne queimada no campo. Arregaça a manga da camisa e mostra o número B9664 tatuado no braço, sua inscrição na chegada. Detalha o menu de magras rações diárias: um café "que era mais uma água suja" pela manhã, um sopa ao meio-dia e um pedaço de pão com um naco de gordura à noite. O escritor italiano Primo Levi (1919-1987), célebre sobrevivente de Auschwitz por seu livro "Se questo è un uomo" (Se isto é um homem - 1947), revelou ter lido um relatório nazista em que havia o cálculo de uma ração mínima de 1.600 calorias/dia para que um prisioneiro sobrevivesse de dois a três meses nas condições precárias do campo. "Era uma morte lenta por desnutrição", disse Levi em uma entrevista televisiva, em 1982. Charles Gottlieb acrescenta: "A única vez em que tivemos um sopa dupla foi quando Himmler (Heinrich Himmler, comandante das tropas especiais nazistas, as SS) visitou o campo com a Cruz Vermelha internacional".

A chamada dos detentos pela manhã, por volta das 4h, 4h30min, podia se estender por muitas horas de espera em pé, em temperaturas que chegavam a -20°C, até que a contagem de todos os nomes listados fosse completada. A demora era devida a ausência de muitos prisioneiros, mortos ou combalidos. O tempo mais longo de uma chamada de que se tem notícia em Auschwitz é de 19 horas. "Era terrível permanecer horas em pé no frio, vendo outros presos caírem e morrerem ali mesmo ao seu lado", conta.

No campo, não havia nenhuma amizade ou solidariedade entre os detentos, relembra Charles: "Era cada um por si. O que contava era permanecer vivo. Eu não tinha medo de morrer, me proibia de pensar nisso. Aqueles que perdiam o moral não duravam mais de uma semana. Mesmo um pai poderia roubar a comida do filho. Jamais vi uma cena de compaixão no campo. Aquilo nos transformou em verdadeiros animais, em bestas. Eu não tenho ódio dos alemães, mas ódio dos nazistas. Era algo inimaginável, uma vida no inferno". No caminho para o seu alojamento da época, o Bloco 14A, ele mostra o chão por onde hoje caminham os visitantes do campo: "Aqui mesmo, sob nossos pés, vi prisioneiros serem enterrados vivos".

Os detentos rumavam para o trabalho forçado ao som de uma orquestra, e Charles se lembra ainda das mulheres judias do "bordel" dos nazistas, no primeiro andar do bloco contíguo ao seu, que abanavam para os prisioneiros pela manhã. "Depois de 10 ou 15 dias, elas eram executadas e substituídas por outras", conta. Duas a três vezes por semana, no meio da madrugada, diz ele, os alemães fazerem uma inspeção nos dormitórios para "controle de pulgas". "Era tudo invenção para exterminar mais pessoas. Eles escolhiam alguns que diziam estar infectados, colocavam na parte traseira do caminhão, fechada, com o cano da descarga inserido no interior. Os prisioneiros morriam no caminho e os corpos era desovados diretamente nos fornos para incineração".

Muitos prisioneiros não suportavam o sofrimento diário e preferiam a morte imediata ao, em plena luz do dia e ao olhar de todos, simular uma fuga na tentativa de escalar as cercas do campo. "Tratava-se claramente de um gesto suicida, pois sabiam que seriam abatidos pelas certeiras balas dos numerosos e atentos guardas de vigia", diz.

Manon, uma das colegiais francesas do grupo, caminha perplexa pelo campo: "É impressionante, não esperava que fosse tão grande. Antes de vir, não achava que fosse sentir algo. É difícil acreditar que tudo isso possa ter existido e acontecido". Sua colega Marilou acrescenta: "Aqui sentimos algo diferente do que vemos nos livros ou na sala de aula".

No início de janeiro de 1945, com a aproximação do exército russo, os nazistas evacuaram o campo de concentração de Auschwitz, levando junto boa parte dos prisioneiros, no que ficou conhecido como as "marchas da morte". Milhares de prisioneiros morreram de fome e frio no caminho a outros campos ainda em atividade. Charles relembra que comia neve e urinava em suas próprias mãos para se esquentar. Levado para Mauthausen e depois Ebensee, foi mais tarde finalmente libertado pelas forças americanas.

Quando desembarcou em Auschwitz, Charles Gottlieb era um robusto jovem de quase 80 quilos. Seis meses depois, não passava de uma delgada silhueta de escassos 38 quilos. O período em que passou sem dentes no campo, hoje relembra com um humor negro: "Para a comida que nos serviam no campo não era preciso dentes". Os americanos ofereceram rações de carne em lata à vontade aos recém-libertados e ele diz que mais uma vez se salvou, pois muitos morreram por problemas de saúde provocados pela ânsia de saciar sua fome. "Um terço dos que foram recuperados comigo morreram por problemas decorrentes dessa comilança, visto o delicado estado de saúde em que nos encontrávamos".

Charles e sua futura mulher, Estelle, estavam juntos em Auschwitz, mas só foram se conhecer mais tarde, ao se inscreverem em um mesmo dia de 1946, após o final da guerra, na Federação Nacional dos Deportados e Internos Resistentes e Patriotas. Em 1948, por causa da crise econômica na época, foi obrigado a comprar farinha no mercado negro para fazer o pão para a modesta festa de casamento.

Entre 1,1 milhão e 1,5 milhão de pessoas deportadas para Auschwitz morreram no campo. Na França, na época, os pais de Charles ignoravam o paradeiro do filho e tampouco sabiam se estava vivo. O sobrevivente do inferno de Auschwitz recorda: "Nem eu mesmo sabia se estava vivo".


Creditos: Fernando Eichenberg.
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