domingo, 20 de dezembro de 2009

Relatório do Esquadrão de Reconhecimento da FEB na Itália

1ª DIVISÃO DE INFANTARIA EXPEDICIONÁRIA
1º ESQUADRÃO DE RECONHECIMENTO
RELATÓRIO ORGANIZAÇÃO
[Pelo Capitão Plínio Pitaluga]

Com a criação da 1ª D.I.E. [Divisão de Infantaria Expedicionária-FEB] em fins de 1943, o 2º Regimento Moto-Mecanizado, então sediado na Capital Federal, recebeu ordens para preparar um de seus Esquadrões para participar da Campanha da Itália. Foi designado o 3º Esquadrão de Reconhecimento e Descoberta. Somente em 4 de fevereiro de 1944 foi dada autonomia administrativa à nova Unidade que passou a ocupar um pavilhão de madeira ao lado do picadeiro da Escola das Armas, ficando entretanto subordinado ao 2º Regimento Moto-Mecanizado quanto à alimentação. Embora não dispondo de todo o material orgânico foi iniciada a instrução, visando inicialmente ao preparo moral e cívico. Em fevereiro e março de 1944, foram distribuídas 5 viaturas blindadas de reconhecimento e viaturas de rolamento misto [meia-lagartas], facilitando assim a formação dos motoristas. O selecionamento [sic] dos homens não foi completo, não se levando em conta especialização da Unidade. Isso prejudicou seriamente a formação dos motoristas, principalmente pela falta de reservas. A 9 de fevereiro de 1944 o 1º Esquadrão de reconhecimento foi incorporado a 1ª D.I.E. e a 11, deslocou-se para a região de Barra de Guaratiba onde realizou o 1º acampamento, visando principalmente o melhoramento do estado físico. Um oficial do Exército Americano, da reserva, foi designado para permanecer adido ao Esquadrão, orientando o emprego e manutenção do material de origem americana.

Com a mudança da Unidade para os pavilhões do Capistrano, muito embora sem o conforto necessário, a alimentação foi melhorada, procurando se adapta ao regimem americano. A instrução de tiro foi intensificada e as medidas burocráticas de declaração de herdeiros e fichas de desconto foram ultimadas. O Esquadrão participou do desfile do dia 24 de maio e realizou um exercício de emprego de Pelotão como demonstração ao Exmo. Snr. Cmt. Da 1ª D.I.E. Quando do embarque do 1º Escalão, O Esquadrão menos o 2º Pelotão, deslocou-se para o Retiro dos Bandeirantes onde esteve durante 4 dias, realizando principalmente exercícios de tiro de canhão, a.a. [armas automáticas] e morteiro 81mm.

Neste relatório aparecem duas fases de treinamento e entrada em ação correspondente ao 2º Pelotão que embarcou o 1º Escalão, e a outra fase ligada ao grosso do Esquadrão. Uma revisão do estado sanitário da Unidade, afastou 20% do efetivo. Esse claro foi preenchido, na véspera do embarque, por elementos do Depósito de Pessoal da F.E.B. O 2º Pelotão embarcou no dia 30/VI/1944, fazendo parte do 1º Escalão, no transporte americano - "Gen. Mann", tendo chegado a Nápoles no dia 16/VII/1944, dirigindo-se para Bagnoli, onde acampou.

2ª Parte

a) Fase de treinamento na Itália

O 2º Pelotão permaneceu em Bagnoli até o dia 30/VII/1944, quando foi transportado, em trem, para Tarquinia, onde começou a receber o material e intensificar a instrução de motorista e serviço em campanha. Um oficial [O comandante do destacamento, Capitão Flávio Franco Ferreira] e 5 praças foram [aperfeiçoar?] os conhecimentos sobre armamento e minas, em Caserta. No dia 5 de agosto o 1º Escalão da F.E.B. era incorporado ao Vº [sic] Exército Americano, de onde passou a receber as diretivas para a instrução, que entrou em uma fase intensiva, exigindo um esforço diário de 10,00 horas.

No dia 18/VIII/1944, o 2º Pelotão seguiu para Vada, entrando na 2ª fase de treinamento tendo participado de grande exercício realizado no norte de Vada. O oficial e praças fizeram estágio junto as unidades americanas que estavam em contato com os alemães.

3ª Parte

Transporte - (b)

O grosso do Esquadrão embarcou com o 2º escalão no dia 20 de setembro de 1944, no transporte americano Gen. Mann, desatracando o navio a 22.

No dia 6 de outubro de 1944 chegou a Nápoles, e a 9 em lanchas americanas o Esquadrão foi transportado para Livorno, onde chegou a 11. No mesmo dia, em viaturas seguiu para a área de estacionamento em Pisa, onde acampou. Todos os deslocamentos foram feitos em segurança e o estado sanitário da tropa não apresentou alteração sensível.

4ª Parte

Treinamentos

O Vº Exército, com os deslocamentos de elementos para a invasão do sul da França, atravessava uma crise de efetivos e também devido as condições topográficas encontrava-se na defensiva, detido nos contrafortes dos Apeninos.

Não havia necessidade de tropa de reconhecimento e daí a decisão de se deixar o Esquadrão em último lugar na ordem de preferência para o recebimento de material. Inicialmente foram entregues algumas viaturas de 1/4 Ton. [Jipes] para o transporte e instrução. O armamento somente nos primeiros dias de novembro, começou a ser distribuído atrasando assim o início da instrução de tiro. O esforço foi voltado para o preparo físico e moral, tendo em vista que a mudança de ambiente, a vida em comum em grande acampamento, os problemas sexuais e outros estavam concorrendo para o afrouxamento dos laços disciplinares.

Nesta fase, foi feita uma nova inspeção de saúde visando as doenças venéreas e o tratamento odontológico. Oficiais e praças freqüentaram cursos de informações ministrados por oficiais americanos e curso de minas e armadilhas quer na área do estacionamento ou em Caserta. A tropa ficou acampada utilizando-se as barracas para 2 praças levadas do Brasil e que não apresentavam boa vedação a água. A alimentação toda americana não foi aceita inicialmente com agrado por parte dos praças. As condições de limpeza e higiene do acampamento, no do Esquadrão eram satisfatórias.

No dia 6 de novembro o Esquadrão recebeu ordens para apressar o recebimento de material de diversas procedências, tendo em vista o seu emprego imediato sem passar pela fase de readaptação e treinamento prevista. Dentro de uma semana, quase todo o equipamento achava-se nas mãos da tropa e praticamente sem a realização de exercícios de conjunto no âmbito do Pelotão. O esquadrão era dado como pronto para entrar em ação. As últimas viaturas e reconhecimento e transporte de rolamento misto foram entregues com [sic] 4 horas antes da partida do Esquadrão para a frente, recebidas da Companhia de Manutenção sem a devida revisão. Os morteiros 60 mm recebidos na véspera não foram utilizados em exercícios de tiro por absoluta carência de tempo, agravada a situação pelo fato de não ter ainda no Brasil, feito o emprego dessa arma, por falta de munição. Muito auxiliaram o recebimento desse material a ação de oficiais americanos e a capacidade da 1ª Companhia de Manutenção. O volume de material recebido ultrapassava a capacidade de transporte das viaturas orgânicas da unidade, daí a necessidade de se conseguir do G4 [Seção do Estado Maior responsável pela Logística, na FEB chefiado pelo Major Aguinaldo José Senna Campos], 2 viaturas de 2 1/2 toneladas para auxiliar o deslocamento.

Principalmente na parte de transmissão o aumento de acessórios e sobressalentes foi considerável. O espírito combativo da tropa era bom, mostrando-se o homem ansioso por entrar em ação. Não foi possível proporcionar a turmas de praças estágio na linha de frente, pois o 2º Pelotão que se encontrava a disposição do Destacamento General Zenóbio, nessa ocasião achava-se em reserva. No dia 13 de novembro os oficiais reconheceram a região de reunião, em Granaglione, e no dia 15 o Esquadrão, em 2 colunas, deslocava-se para Granaglione. No dia 16, o 2º Pelotão reuniu-se ao Esquadrão, continuando porém em Capugnano.

[A ação em Collechio-Fornovo]
Ligação:

Pelo rádio o Snr. Cmt. Da 1ª D.I.E., teve ordem de procurar, no Q.G. o G3 [Seção de Operações do Estado Maior, no caso da FEB, chefiada pelo Ten. Cel. Humberto de Alencar Castello Branco], para receber nova missão e esclarecer a situação do Esquadrão.

Perseguição
Passagem do Panaro

No dia 23, pela calma apresentada nas posições e por informações de civis sobre a retirada do inimigo, o 3º Pelotão foi lançado, às 11 horas, sobre Marano, tendo realizado a travessia, a vau, sem qualquer oposição. O grosso do Esquadrão reuni-se em Marano entrando mais tarde em ligação com a direita, com o III/11º R.I. e a esquerda II/6º R.I. Pela ordem transmitida pelo rádio, o Esq. aguardou em Marano nova missão, para o dia 24.

Ordem de descoberta nº 29 - (G2) [Seção de Informações do Estado Maior]

(Extrato)

I) - Situação:

a) - O inimigo retraiu-se do corte de Parano segundo o eixo:
1 - Vignola - Castelvetro - Sassuolo.
2 - Pavulo - Montesino - Prignano.

e) Tropa amiga:
Elementos da 897 T.D. [Tank Destroyers - batalhão norte-americano de Carros de Combate], agindo segundo o eixo Vignola-Fornigine atingiram no fim da jornada de 23 esta última localidade, levando os reconhecimentos a Sassuolo.

II - MISSÃO DO ESQUADRÃO

1) Lançar-se pelo eixo: Marano - Castelvetro - Sassuolo de modo a esclarecer, por meios de golpes de sonda, as transversais que vem a ter a este eixo por S.W.
2) Embora informações de que o inimigo tenha empregado destruição maciça ao longo do eixo: Marano - Croseta - Montesinoj - Pelegrineto - Malacoda - Ponte Nuova [sic] - cumpre lançar um elemento ligeiro afim de reconhecer o mesmo. Instalar-se em fim de jornada com o grosso na região de Ponte Nuovo. O 2º Pelotão deu diversos golpes de sonda e pelas informações colhidas, a zona achava-se completamente limpa de inimigo organizado. As 10 horas as vanguardas atingiram Sossuolo - Ponte Nuovo e entrou em ligação com elementos do Esquadrão de Reconhecimento da 34 D.I. [Divisão de Infantaria] Americana.

Prisioneiros

Foram feitos quatro prisioneiros na região de Ponte Nuovo. Não se constatando a presença de inimigo organizado, o 1º Pelotão foi lançado para Cavalgrande - Scandiano e reconhecer região de M. Evangelo - Montebabbio - Castellarano - reunindo-se em Ponte Nuovo com o grosso do Esquadrão.

Transposição do Enza

As 15 horas de 24, o Esquadrão recebeu em Ponte Nuova, a ordem de Descoberta nº 30.

I – Situação

a) O inimigo dispõe dos restos das Divisões 232 – 114 – 334 que foram batidas pelo IVº Corpo.
É possível encontro com resistências retardadoras.

b) Tropa amiga:

A D.I.E. prosseguirá na ofensiva para NE devendo atingir no fim da jornada de hoje as margens E da Torrente Tresinaro.

II – MISSÃO DO ESQUADRÃO:

Descoberta do eixo – Sassuolo – Scandiano – Albinea – Quatro Castelo – atingindo em primeiro lanço a transversal Reggio – Casloa, reconhecer a estrada número 63, de albinea [sic] a Casina e levar a descoberta ao corte da Torrente Enza, ocupando a ponte S. Polo, sobre a mesma.

III – LIGAÇÕES E TRANSMISSÃO-

Pelo rádio posto a posto, em escuta permanente; informação mesmo negativa nas horas cheias.

IV – EXECUÇÃO – Imediata -

O movimento foi iniciado às 16 horas.

O 1º Pelotão continuou na vanguarda e as 17 horas informava que tropas americanas já se encontravam em contato com uma resistência em Vassano, na estrada 63, entre Casino e Albinea.

Em vista da situação, o comandante do Esquadrão resolveu continuar a missão diretamente sobre S. Polo d’Enza, não realizando o reconhecimento de Cassina.

O 2º Pelotão ultrapassou o 1º Pelotão que se reagrupou nas proximidades de S. Polo e o 3º Pelotão foi lançado sobre Bebiano, de onde saíra uma coluna inimiga em direção a Montecchio de Emilia – O esquadrão passou a noite de 24 para 25 guardando as passagens de S. Polo Enza.

Ação em Parma – No dia 25 o 1º Pelotão foi lançado sobre Traversetolo, ocupando [esta?] localidade e vigiando as saídas para Parma e Laghirano. Uma patrulha, comandado [sic] pelo próprio comandante do Esquadrão esteve em Panocchio e Laghirano, onde estabeleceu ligação com chefes dos partesanos [sic] e com oficiais ingleses pára-quedistas que afiam com os combatentes italianos. Informações foram prestadas sobre presença de alemães em Colecchio e o deslocamento de 2 batalhões de Berceto para Fornovo.

A ordem de descoberta nº 31 de 25, recebida às 14 horas, em S. Polo d’Enza, previa os reconhecimentos já realizados em Laghiano e como a zona compreendida entre o Enzo e o Parma estava livre do inimigo, o Esquadrão foi lançado para a região de Porpurano e entrou em ligação com o Esquadrão de Reconhecimento da 34 D.I. (americana) – o 3º Pelotão foi reconhecer as orlas de Parma e atacou, com elementos a pé, um posto avançado inimigo que foi dominado, tendo os alemães as seguintes baixas:

Prisioneiro..............1
Morto..............1
Ferido..............1

Essa ação concorreu para facilitar a progressão da infantaria da 34 D.I.

AÇÃO DE VANGUARDA EM COLLECCHIO

Por oficial de ligação do G2 [Informações], o Esquadrão recebeu as 12 horas do dia 26, ordem para se lançar sobre Collecchio, para guardar as passagens do Taro –

O Esquadrão cumpriu a missão, com o 3º Pelotão em vanguarda pelo eixo:

Proporano – Gaione – S. Martino –

Ao atingir as orlas de Collecchio o 3º Pelotão foi detido por fogos de a.a. e carros de reconhecimento inimigos.
O 2º Pelotão desbordou pelo flanco esquerdo, tentando penetrar na cidade, sendo repelido por forte fogo de carros blindados.

O 1º Pelotão em reserva guardando a estrada para Sala Baganza.

Uma patrulha do 2º Pelotão tentou o flanqueamento de Collecchio e entrou em ligação em Vino Fertili, com uma Cia. de Infantaria americana.

O contato foi mantido e o Esquadrão foi reforçado inicialmente às 16 horas por uma Companhia do III/6º R.I. transportada em viatura e às 18 por elementos do II/11º R.I.

Às 17 horas os 2º e 3º Pelotões protegidos por elementos do 11º R.I. e do 6º R.I. penetraram na cidade, retirando-se para as orlas da cidade.

A Sec. de Eng. Nessa jornada organizou a defesa de Sola Bagaza, auxiliando a defesa do flanco do Esquadrão, tendo preparado a estrada para destruição.

No dia 27, o Esquadrão auxiliou a dominar um núcleo de resistência em Collecchio.

Às 9 horas o G2 da 1ª D.I.E. [Ten. Cel. Amaury Kruel] pessoalmente transmitiu, verbalmente, a nova missão do Esquadrão.
“Um destacamento de descoberta, formado por uma Cia.de Infantaria do 1º Regimento de Infantaria, o Esquadrão de Reconhecimento – uma Sec. de Engenharia, deveria se deslocar para a região de Castel de S. Giovani para guardar a ponte do rio Pó; lançar patrulhas para Borgonoro; aprisionar elementos inimigos dispersos”.

Foi marcada uma região de reunião na ponte de Taro, estrada número 10 e o Esquadrão deslocou-se às 10 horas de Collecchio. Somente às 14 horas apresentou-se o Major Comandante do Destacamento que ao tomar as primeiras providências, no ponto reunião recebeu ordem, com nova missão ao Esquadrão.

“Remanescente [sic] inimigos, batidos em Collecchio, retiram-se apressadamente pelo eixo Fornovo-Noceto.

Deveis interromper missão e lançar-se imediatamente sobre o eixo Castelguelfo – Noceto – Fornovo de maneira a exterminar o inimigo que desordenado retira-se na direçào da via Emilia”.

Imediatamente, o Esquadrão lançou-se em 2 colunas, deixando o T.C. em Ponte de Taro.

1) – Grosso – pelo eixo Noceto – Medesano – 1º e 3º Pelts.
2) – Flanco guarda – 2º Pel. pelo eixo Stradela – Belicchi – Medesano.

Foi estabelecido ligação com carros de combate americanos, na altura de Noceto e nas saídas de Medesano para Felegara, o 3º Pel., vanguarda foi hostilizado com fogos de a.a. – o 1º Pel. foi lançado pelo eixo de S. Andre, no flanco direito e chegando a essa localidade onde se entregaram cerca de 800 prisioneiros.

Em Medesano 3º e 2º Pelotões apeiaram para o combate as 22 horas as resistências reveladas foram vencidas.
Prisioneiros

Em Medesao..............120
Em S.Andre..............800
Feridos..............12

Além disso grande quantidade de armamento foi capturado, que por falta de tempo e de pessoal não foi avaliado.
Uma casa foi incendiada pelo fogo dos M 8

- Noite de 27/28 – O esquadrão permanceu patrulhando as saídas para Flegara e o Vale do Rio Taro.

Na manhã de 28, o Esq. Montou uma ação sobre Felegara com o seguinte dispositivo:

2º Pel. – no eixo Medesano-Felegara.
1º Pel. – de S. Andre para Felegara.
3º Pel. – de reserva no eixo Medesano, Felegara.

Na entrada de Felegara o 2º Pelotao entrou em contato, não podendo prosseguir pela ameaça de envolvimento no flanco esquerdo e por resistência revelada nas elevações a N de Felegara – o 3º Pel. foi lançado no flanco esquerdo, vale do Taro e 1 Pel. da 7ª Cia. do III/6º R.I. foi transportado de Medesano para a região, progredindo pelas alturas.

Os alemães se retiraram, deixando grande quantidade de armamento (Mtrs. Anti-carros [sic]-fuzis), 5 viaturas automóveis e viaturas hipomóveis, animais. Foram feitos cerca de 30 prisioneiros.

O Esquadrão sofreu as seguintes baixas: -
Feridos
Soldado..............1

Viatura incendiada
M 8..............1

Essa viatura foi atingida por um tiro de “lança rojão” na entrada de Felegara. A guarnição, sob o apoio de outro M 8, abandonou-a sem maiores conseqüências.

O Esquadrão reuniu-se em Felegara e uma patrulha a pé teve contato na estrada de Fornovo. A 7ª Cia. do III/6º R.I. cerrou sobre o Esquadrão.

Para a jornada de 29, o Esquadrão recebeu a seguinte ordem:
“Retomar a progressão, para ocupar Croceta e entrar em ligação com o 6º R.I., em Fornovo; lançar elementos de captura de prisioneiros sobre Varano e estrada que passa por Rubiano”.

A noite de 28 para 29, transcorreu sem qualquer alteração e na manhã de 29 às 10 horas, quando o Esquadrão se preparava para continuar a missão, apoiado pela Cia. de Infantaria, foi procurado por um Coronel alemão acompanhado de um Capitão para entrar entendimento sobre a suspensão da luta naquele setor. Encaminhados os parlamentares ao P.C. do III/6º R.I., em Collecchio entendimentos já estavam se realizando para a rendiçào da 148ª Divisão Alemã e os remanescentes da Divisão Itália.

Os parlamentares retornaram as linhas alemãs e toda atividade cessou na frente de Felegara.

Às 14 horas o Esquadrão deslocou-se menos o Pel. Extra que permaneceu em Ponte de Taro, para Collecchio com o objetivo de colocar a retaguarda da 148ª D. Alemã, para protege-la de ataques de partesanos e entrar em ligação com as vanguardas das tropas americanas.

O Snr. Chefe do E.M. determinou que somente um pelotão (1º Pelotão) acompanhasse o comandante do Esquadrão, a Fornovo, onde se realizaram entendimento com o Chefe do E.M. da Divisão Alemã, sobre a ação dos partisanos, que ignorando a suspensão das hostilidades continuavam atacando as retaguardas. Foram realizadas outrossim, ligações com chefe dos partesanos e ainda 150 prisioneiros alemães foram devolvidos pelos italianos, a 148ª Divisão, sob a responsabilidade do Comandante do Esquadrão.

O 3º Pelotão pernoitou em Fornovo, e o comandante do Esquadrão é chamado às duas horas do dia 30 para receber nova missão no Q.G. em Montecchio.

(...)

Hans-Ulrich Rudel - Uma lenda de bravura quase insana da Luftwaffe





Hans-Ulrich Rudel (Konradswaldau, 2 de julho de 1916 — Rosenheim, 18 de dezembro de 1982) foi um militar alemão.

Nascido na Silésia, era filho de um pastor. Quando criança nada indicava que seria especialmente corajoso; realmente dizia-se que sua mãe ainda segurava sua mão quando trovejava. Mas sempre esteve apto a prática de esportes, e talvez este tenha sido um fato oportuno para que pudesse desenvolver suas atividades esportivas em serviço militar.

Em 1936 ele entrou para a Luftwaffe como oficial-cadete. Após ser aprovado em seu curso de treinamento de vôo e qualificado como piloto, Rudel, então, foi voluntário para treinos futuros com bombardeiros de mergulho e não foi bem visto pelos instrutores destes treinamentos. Teve seu pedido rejeitado e - para sua humilhação - foi mandado para um curso de observação de reconhecimento aéreo.

Participou, na campanha da Polônia como observador em missões de reconhecimento de longo alcance. Rudel, desejava pertencer ao que era então encarado pelos muitos jovens pilotos como o mais atraente da força aérea - voar em um Junkers Ju 87 Stuka. Continuou tendo seus pedidos de transferência para a divisão aérea de bombardeio e mergulho dos Stukas sistematicamente negados até 1940, quando preencheu uma vaga em um dos cursos de vôo do Ju 87. Após completá-lo, foi transferido para uma brigada de treinamento do Stuka (I/St.G.2) próximo à Stuttgart, de onde observou a campanha na França e nos Países Baixos.


Em seu uniforme de vôo.No início da Operação Barbarossa, o I/St.G.2 foi para o "front " russo e executava missões quase vinte e quatro horas por dia. Todas as tripulações eram necessárias e Rudel foi transferido para o esquadrão cujo líder interessou-se imediatamente por ele. "O Rudel é o melhor homem do meu esquadrão" disse ele duas ou três semanas depois, "apesar de ser um sujeito louco, não viverá muito tempo".

Em seu uniforme de vôo.

Rudel levantou vôo na sua primeira missão de bombardeio de mergulho às 3 horas da manhã do dia 23 de junho de 1941, e ainda estaria voando 18 horas depois, tendo estado fora em quatro missões diferentes. O ritmo das operações era tal que os pilotos saíam para até 8 missões em um só dia, e isso dia após dia, semana após semana.

Missões e façanhas
A maior façanha individual de Rudel foi em Setembro de 1941. Duas brigadas do seu Geschwander (esquadrão, grupo aéreo) haviam se deslocado para Tyrkovo ao sul de Luga para uma ofensiva direta à Leningrado. Por volta do fim do mês, entretanto, um avião de reconhecimento avistou os encouraçados soviéticos October Revolution e Marat, além de dois cruzadores e algumas embarcações menores da Armada Soviética do Báltico, no porto de Kronstadt.

O Geschwander de Rudel decidiu atacar os três esquadrões, levando bombas especiais de 1.000 kg. Sorrateiramente levantaram vôo na manhã do dia 23 de setembro. Rudel estava pilotando um Stuka da esquadrilha líder; e quando o ataque começou ele estava diretamente atrás do líder de esquadrão que havia dito que ele era "louco". O dia estava claro com o céu sem nuvens. Naquele estágio da guerra, os caças russos raramente levantavam vôo e, como que para confirmar isso, nenhum apareceu no dia 23 de setembro.



Hans-Rudel a bordo de um Stuka G-2, na Rússia.
Os Stukas se aproximaram de Kronstadt a uma altitude de 3.000 mil metros, e a 15 km do seu alvo, entraram numa tempestade de fogo antiaéreo. Alguns Stukas tentaram escapar do fogo, e, ao fazê-lo, as esquadrilhas e esquadrões se misturaram. Mas o líder do esquadrão de Rudel decididamente manteve seu rumo com Rudel colado a sua cauda. Quando Rudel viu que seu líder tinha acionado os freios aerodinâmicos de seu avião, ele fez o mesmo, e ambos os Stukas começaram seus mergulhos em ângulos cujas medidas estavam entre 70 e 80º. Descendo estridentemente em direção ao Marat, Rudel viu que seu líder estava recolhendo seus freios aerodinâmicos; portanto, como antes, ele fez o mesmo. O efeito foi dramático; a velocidade…


Marat

Em 23 de setembro de 1941, os dois Staffeln do I/St.G 2 (Gruppe I do St.G 2) atacaram a frota soviética ancorada no porto de Kronstadt (na área de Leningrado), defendido por mais de 1.000 armas antiaéreas. Entre os navios lá ancorados, estava o encouraçado "Marat", de 26.500 toneladas - um dos dois únicos navios de grande porte da esquadra vermelha. Mais tarde, Rudel se recordaria:

" Foi terrível. Havia explosões por todos os lados. O céu parecia estar repleto de cascalhos. Eu estava me sentindo muito mal e o vôo foi uma tortura. (…) O mergulho, num ângulo de 70º a 80º, tirou o meu fôlego. Eu tinha o "Marat" em minha mira, ele se aproximava cada vez mais rápido. O navio se tornava cada vez maior. Eu via as bocas de suas armas antiaéreas apontando ameaçadoramente para mim. (…)
Não havia tempo para me preocupar com o fato de que um tiro direto de FlaK poderia me partir em pedaços. O "Marat" já preenchia completamente meu visor. Os marinheiros corriam pelo deck do navio, alguns carregando munições. Um dos canhões virou em minha direção e começou a disparar. Neste momento eu apertei o botão que liberava a bomba. Puxei o manche para trás com toda minha força, na tentativa de tirar o avião do mergulho, já que minha altitude era de apenas 300 metros.

A bomba de 1.000kg que tinha acabado de soltar não poderia ser lançada de uma altitude inferior a 1.000 metros sob o risco de destruir o bombardeiro. Mas eu não estava me importando com isso. Eu queria atingir o "Marat" – nada mais. Embora eu puxasse o manche como um louco, eu tinha a sensação que o avião não estava me obedecendo. Eu estava quase perdendo os sentidos. Havia uma sensação terrível em minha cabeça e estômago, quando eu escutei a voz excitada de meu artilheiro-de-ré:

— Herr Oberleutnant, o navio explodiu !

Eu me virei lentamente. Lá estava o "Marat" atrás de uma nuvem de fumaça quase impenetrável de 400 metros. "



Ao finalizar seu mais bem sucedido ataque, Rudel, descendo dos céus em um ângulo de 90º, saiu do mergulho a apenas 4 metros da superfície da água! "Somente nesse momento eu percebi que ainda estava vivo" - ele afirmou bem depois.

Com este feito poderia ter sido condecorado, ocasião que não ocorreu. Hauptmann Steen, que comandou todo o Gruppe que participou daquele ataque disse a ele:

"eu tenho certeza de que você compreenderá que eu não posso condecorar um único homem depois desta corajosa missão na qual o Gruppe inteiro tomou parte (…) eu considero o valor da equipe como um time, o que é mais importante do que recomendá-lo para a Cruz de Cavaleiro".

Vitórias
2.530 missões de combate, 9 vitórias (7 caças em combate) +519 tanques destruídos, 800 veículos de todos os tipos, 150 peças de artilharia, inúmeras pontes, 70 embarcações anfíbias, um encouraçado, um cruzador, um destroyer. Josef Stálin ofereceu uma recompensa de 100.000 Rublos a quem conseguisse abatê-lo.


Condecorações
11 de outubro de 1939 - Cruz de Ferro de 2ª classe
18 de julho de 1941 - Cruz de Ferro de 1ª classe
30 de dezembro de 1941 - Cruz Germânica em ouro
6 de janeiro de 1942 - Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro
14 de abril de 1943 - Folhas de Carvalho da Cruz de Cavaleiro
25 de novembro de 1943 - Espadas da Cruz de Cavaleiro
29 de março de 1944 - Diamantes da Cruz de Cavaleiro
29 de dezembro de 1944 - Folhas de Carvalho douradas
29 de dezembro de 1944 - Clasp de vôo em ouro com diamantes

Condecoração especial
Em 29 de Dezembro de 1944, Hitler instituiu aquela que seria a mais alta condecoração militar por bravura entregue durante o III Reich: a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro com Folhas de Carvalho Douradas, Espadas e Diamantes ou: Ritterkreuz des Eisernen Kreuzes mit Goldenem Eichenlaub, Schwertern und Brillanten. Essa condecoração era idêntica aos Diamantes, com exceção que era feita em ouro ao invés de prata.

O único recebedor desta condecoração foi o Oberst Hans-Ulrich Rudel, que como um piloto de Stuka no Front Russo voou surpreendentes 2.530 missões, tendo destruído mais de 519 tanques, 800 veículos de todos os tipos, 150 peças de artilharia, inúmeras pontes, 70 embarcações anfíbias, um encouraçado, um cruzador, um destroyer e nove aviões soviéticos, incluíndo sete caças abatidos em combates.



Rudel perdeu a perna direita em 9 de fevereiro de 1945 após ser atingido por artilharia anti-aérea próximo a Frankfurt an der Oder. É visto aqui regressando ao serviço seis semanas depois.

Nesta ocasião foi comunicado que ele estava sendo proibido de voar em missões de combate, o que Rudel não estava disposto a aceitar. Já havia conseguido evitar esta ordem outras vezes, mas nesta ocasião Hitler parecia irredutível. Para ele, o jovem Oberst já havia feito o suficiente. Foi então que Rudel disse:

"Mein Führer, eu não aceitarei esta condecoração e a promoção se não me for permitido que continue a voar com minha Gesch-wader!" Um longo silêncio se seguiu. Ninguém contrariava Hitler!!! O Führer olhou-o por um longo período e finalmente disse: "Muito bem. Se você realmente precisa voar... vá em frente. Mas se cuide. Eu preciso de você. O povo alemão precisa de você".

Cinco semanas depois, a sorte de Rudel acabou. Atingido na parte em sua coxa direita por um tiro de uma bateria antiaérea de 40mm, em 09 de fevereiro de 1945, próximo a Frankfurt am der Oder, ele sangrou quase até a morte com seu osso estilhaçado. Pousando em aeródromo alemão e levado rapidamente a um hospital de campo, sua perna direita foi amputada na altura do joelho. Levado posteriormente a um hospital em Berlim, lá ele receberia uma prótese. Mas, mesmo assim, Rudel não desistiu.

Ele voltaria a voar antes do final da guerra utilizando sua prótese, destruindo mais 13 outros tanques e co-mandando a mais antiga e mais conhecida das unida-des de apoio terrestre: a Schlachtgeschwader 2 "Immel mann", já equipada com os novos Fw 190D-9.

Em 08 de maio de 1945, quando a Alemanha se ren-deu, Oberst Rudel, que estava na região da Bohemia, voou sua 2530ª e derradeira missão, em direção às tropas americanas situadas no aeroporto de Kitzingen, próximo a Wurzburg, escapando pela última vez à captura pelos soviéticos. Seu derradeiro ato, foi destruir os aviões à medida que iam pousando, mediante uma aterrissagem forçada.

Rudel seria interrogado primeiro na Inglaterra e, posteriormente, na França, retornando finalmente a um hospi-tal na Bavária, para convalescer de seus ferimentos. Após sua alta em 1946, ele trabalhou por um tempo co-mo empreiteiro no negócio de transporte de cargas e, em 1948, ele emigrou para a Argentina, onde trabalhou para o governo daquele país como assessor da Força Aérea, mas estendendo seus negócios também no Para guai e Brasil. Neste último, onde esteve por várias vezes na região de Santa Catarina e passou alguns de seus últimos dias de vida, o mais bem sucedido piloto da Luftwaffe e de toda a Segunda Guerra Mundial só deixou ótimas recordações: "O Sr.Rudel esteve inúmeras vezes aqui em nossa região, era uma pessoa explendida." - Anônimo.

Rudel retornou para a Alemanha nos anos 50, envolvendo-se na política onde não foi muito bem sucedido devido à suas posições excessivamente conservadoras, ainda atreladas ao pensamento totalitário dos anos 30. Ele escreveu sua biografia, chamada "Trotzdem", que foi traduzida para oito línguas (inclusive o português, "Piloto de Stuka") e se tornou um dos grandes clássicos da literatura sobre aviação da II Guerra Mundial.


Mas mesmo em tempos de paz, Rudel continuou prati-cando esportes. Esquiava, corria e chegou a escalar o monte Llullay-Yacu na Argentina (6.902 mts). Ele tam-bém era muito respeitado nos EUA, onde foi entrevistado em várias ocasiões por militares americanos durante o desenvolvimento do avião A-10 Wartog (um novo tank-buster, movido a jato e equipado com um canhão rotativo Gatlin de 20mm - muito usado na Guerra do Golfo). Suas atividades só diminuiriam após um derrame em 1970, que o deixou com o braço direito paralisado.

Ainda assim, apoiar Rudel podia se revelar algo muito perigoso. Em 1976, durante o encontro de veteranos do St.G 2 Immelmann com os jovens pilotos alemães da mesma unidade da Bundesluftwaffe, Rudel foi levado à reunião e realizou um bem sucedido discurso para os presentes. Criticado duramente, Rudel foi publicamente defendido pelo então General Walter Krupinski - que foi sumariamente demitido.

O balanço matemático de sua carreira é formidável: Rudel voou 2530 missões de combate (das quais 400 foram a bordo de um Fw 190D-9), sendo abatido em cerca de 30 ocasiões. Em seis anos, ele destruiu cerca de 150 peças de artilharia, 519 tanques e aproximadamente 1000 veículos variados. Além do couraçado "Marat", ele afundou dois cruzadores e um destróier e danificou seriamente outro encouraçado, como já foi descrito. Sob outra perspectiva, devemos ainda considerar que seus vôos cobriram uma distância de mais de 600.000km e usaram mais de 5.000.000 de litros de combustível. Em adição a estes números, Rudel despejou mais de 1.000.000kg de bombas, disparou mais de 1.000.000 de projéteis de metralhadoras, e efetuou mais de 150.000 disparos de 20mm e mais de 5.000 disparos de 37mm.

Sem sombra de dúvida, a despeito de sua controvertida figura, é ine-gável que Hans-Ulrich Rudel foi um piloto experiente, que amava voar e combater. Ele odiava estar em licença ou em repouso médico e mesmo quando teve sua perna amputada, ele não se deixou deprimir e continuou a voar e destruir.

Ele demonstrou um poder, firmeza, destemor e determinação sem paralelos, mas nenhuma das imagens que temos dele durante a gue-rra nos mostra qualquer sinal das difíceis situações vividas em com-bate em seu rosto. Sua bravura pessoal está, portanto, além de qual-quer questionamento, e seu lugar na história da aviação militar é plenamente merecido.


Morte
Rudel faleceu em Rosenheim em 18 de dezembro de 1982 aos 66 anos de idade. A seu pedido, todas as suas condecorações (inclusive a Goldenem Eichenlaubes) foram doadas por sua viúva para um Museu Alemão, onde repousam até esta data, já que Rudel não queria vê-las leiloadas nos Estados Unidos.

Como Rudel, durante toda a sua vida, declarou-se um Nacional Socialista convicto, o Governo Alemão proibiu qualquer manifestação ou homenagem. A Bundesluftwaffe proibiu a presença de seus pilotos nos funerais. Apesar dessas ordens, vários pilotos fizeram-se presentes à cerimônia e, no momento em que seu ataúde baixava à sepultura, caças McDonnell-Douglas F-4F Phantom II da Luftwaffe fizeram um sobrevôo rasante sobre o cemitério, numa última saudação a uma das maiores lendas da aviação militar alemã. Os pilotos dos Phantom, por sinal, justificaram-se depois dizendo que "sobrevoaram o local por acaso" …



Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hans-Ulrich_Rudel

Sobre os céus de Kursk


Hans-Ulrich Rudel narra a atuação de sua esquadrilha de Stukas durante a batalha de Kursk, a última ofensiva alemã na Rússia :

A defesa soviética acirrou-se consideravelmente; pela primeira vez a caça russa intervém com um vigor bastante desagradável. Dois ou três dias depois do início da Ofensiva Cidadela, vejo, pouco antes de chegar a Bjelgorod, uma formação de Heinkel 111 voando mais alto do que nós, ligeiramente à nossa esquerda. Bruscamente, a DCA (Destacamento de Canhões Antiaéreos) abre fogo e um Heinkel, atingido em cheio, se desagrega literalmente numa chuva de destroços. Essa imagem me persegue o dia inteiro, e cada vez que mergulho sobre uma bateria soviética tenho a impressão de rever o horroroso espetáculo. Na mesma tarde, um Capitão me comunica que, naquela manhã, um de meus primos foi abatido. Quando lhe pergunto se o pobre rapaz não pilotava um Heinkel 111, a noroeste de Bjelgorod, ele arregala os olhos; com certeza me julga dotado de uma espécie de dupla visão. Esse primo é o terceiro filho que meu tio perde desde o início da guerra; às vezes a desgraça se abate sobre a mesma família, pois, alguns meses depois, meu próprio tio é quem desaparece.

As semanas seguintes trazem à nossa esquadra uma série de duros golpes. Um de meus companheiros do curso de instrução, o Capitão Wutka, chefe da oitava esquadrilha, abate-se em chamas, bem como o Tenente Schmidt, cujo irmão também foi abatido, dias antes, sobre a Sicília. Todavia nenhum deles foi atingido pela DCA; seus aviões explodiram em pleno ar, e ficamos a conjeturar sobre se a deflagração ocorreu no momento de entrar em piqué ou no instante em que o piloto apertou o botão de lançamento das bombas. Teria uma sabotagem provocado um curto circuito que, por sua vez, teria determinado a explosão? Meses depois, por ocasião de um acidente idêntico, voltamos à mesma indagação, sem descobrir o menor indício que nos permitisse confirmar nossas suspeitas.

Em terra firme, a perder de vista, desenvolvem-se gigantescos combates de tanques - espetáculo extraordinário que, desde 1941, quase não tínhamos a oportunidade de observar. Nos amplos espaços descobertos, massas compactas de blindados se enfrentam, como num campo de manobras: imediatamente atrás de cada campo, as baterias antitanque tomam posição, com sua camuflagem pintada. Às vezes os tanques se enterram, sobretudo quando, imobilizados por um tiro feliz, conservam toda a sua potência de fogo. Do ponto de vista numérico, os soviéticos possuem, como sempre, esmagadora superioridade; no que respeita à qualidade, porém, imediatamente se constata que suas armas estão longe de equiparar-se aos nossos tanques e canhões de assalto. Pela primeira vez aparecem aqui, nos pontos nevrálgicos, importantes formações de nossos tanques "Tigre", infinitamente mais poderosos que tudo quanto os russos podem alinhar. De resto, no conjunto, todos os nossos tipos de tanques regulam seu tiro com mais rapidez e precisão que os russos. É fora de dúvida que essa eficácia provém, em parte, da excelência do material, mas, sobretudo, do valor dos homens que manejam estas armas.

Muito mais temíveis que os tanques russos são seus canhões antitanques. Muito potentes e extraordinariamente precisos. O exército soviético deve dispor de enormes quantidades desses canhões, pois eles podem ser vistos em todos os pontos nevrálgicos do imenso campo de batalha. Aliás, exagero ao dizer que "podem ser vistos": os russos são verdadeiros artistas da camuflagem, o que torna a descoberta e destruição de sua artilharia extremamente difícil.

Vendo desfilar sob minhas asas essas enormes massas de tanques, lembro-me do meu avião-canhão, que tive a feliz idéia de levar comigo quando deixamos a Criméia. Diante dessa maré de tanques, que parecem oferecer-se aos nossos golpes, uma nova tentativa se impõe, penso comigo mesmo. A DCA sobre os destacamentos russos é de terrificante intensidade, é verdade, mas como o espaço entre suas linhas e as nossas raramente excedem os 1.500 ou 1.800 metros, julgo que poderei me safar sem grande risco: é certo que vou receber alguns projéteis, mas, a menos que caia como uma pedra, provavelmente terei tempo de conduzir meu avião até nossas posições e de aterrissar da maneira possível. Em todo o caso, é um risco a ser corrido.

Certa manhã, levanto vôo com meu avião-canhão, escoltado por todos os aviões da primeira esquadrilha. Meu sucesso excede minhas esperanças mais extravagantes. Logo à primeira passagem, quatro tanques russos explodem sob os obuses bem ajustados dos meus canhões. À noite, posso inscrever doze tanques no meu quadro de caça. Fico exultante. Mais que todas as demonstrações teóricas, esse resultado porá por terra as objeções dos pessimistas rabugentos que desejam relevar o avião-canhão ao museu das invenções inúteis.

Nessa noite nossos mecânicos quase não podem descansar; é preciso reparar meu avião, rudemente castigado pela DCA. É certo que nenhum avião-canhão viverá muito tempo; o avião é terrivelmente vulnerável. Mas essa é uma consideração secundária: o que importa, antes de tudo, é que agora dispomos de uma arma suscetível de ser deslocada rapidamente ao longo do fronte, para compensar, nos pontos ameaçados, a superioridade numérica dos tanques russos. Na esquadrilha, na esquadra e até no QG da luftwaffe, uma confiança total sucede à dúvida, para não dizer as apreensões dos últimos meses. Os diferentes grupos do "Comando de experiência" espalhados por toda a parte, recebem ordem de enviar-me imediatamente todos os aviões-canhão em condições de vôo. Assim, no espaço de poucos dias, nasce a esquadrilha cuja chefia ficará sob minhas ordens.

Durante os dias seguintes aperfeiçoamos nossa tática, sempre registrando novos sucessos. No momento, os aviões-canhão e Stukas bombardeiros dividem a tarefa entre si; enquanto os primeiros mergulham contra os tanques, metade dos Stukas ataca as baterias de DCA, enquanto a outra, escalonada em várias altitudes, fica dando voltas para nos cobrir contra uma intervenção repentina da caça inimiga.

Pouco a pouco descubro todos os segredos. Às vezes pagamos caro essas lições práticas. Assim é que perdemos vários aviões num ponto onde, por assim dizer, não há DCA russa, porque cometemos a imprudência de rodar numa zona onde se entrecruzam os obuses da artilharia soviética e da nossa. Ficamos sabendo, então, que se não quisermos ser abatidos "por acaso" o melhor é evitar as trajetórias das "marmitas".

Sempre engenhosos, os russos não tardam em elaborar várias manobras contra nossos ataques. Sempre que podem, transportam sua DCA até os pontos mais avançados. Por outro lado, distribuem a suas equipagens cartuchos fumígenos; o tanque pode então, ou envolver-se em uma nuvem artificial, ou aparentar que está em chamas, para que o Stuka, julgando tê-lo destruído, abandone a presa. De início, somos iludidos, mas ao cabo de dois ou três dias compreendemos tudo, e Ivan não nos pega mais. De um tanque realmente incendiado saem chamas de um vermelho vivo cuja imitação seria muito perigosa. No mais das vezes, um tanque incendiado explodirá, pois o fogo acaba atingindo as munições. Se a explosão ocorre imediatamente, quando o avião sobrevoa o tanque a cinco ou, no máximo, dez metros, o piloto passa um mau momento. É o que me acontece por duas vezes: bruscamente meu avião atravessa um muro de chamas e penso: "Desta vez estou frito". Contudo, saio indene do outro lado; evidentemente a pintura da camuflagem se funde na fornalha, e meus planos ficam crivados pelos estilhaços do tanque.

Mergulhamos incansavelmente sobre os monstros de aço, por vezes de lado, mas, sempre que possível, por detrás. O ângulo de mergulho é relativamente agudo; dessa maneira, podemos descer até poucos metros do solo sem correr o risco de que o avião se abata bruscamente no momento de se reerguer. Uma queda, embora ligeira, bastaria para nos fazer tocar a terra, o que significa a destruição do avião e, provavelmente, a morte da equipagem. Procuramos sempre atingir os tanques nos pontos vulneráveis. Sob esse aspecto os diversos tipos de tanques se assemelham: o lugar mais fortemente blindado é a frente - e por isso é que o tanque sempre procura ficar de frente para o adversário. A blindagem nos flancos é nitidamente mais fraca, mas o verdadeiro "calcanhar de Aquiles" é a traseira. Aí fica o motor que, para facilitar o resfriamento, só é protegido por uma blindagem bem fina. Além disso, essa placa, pelo mesmo motivo, é toda furada. Um obus que penetre na traseira provocará infalivelmente uma explosão, pois perto do motor há que haver combustível. Os flancos também constituem alvos interessantes, embora mais bem protegidos, pois ali se localizam, de modo geral, as reservas de munição e carburante. Portanto, só o ataque frontal oferece riscos e nenhum resultado.

Freqüentemente grupos de soldados de infantaria se dependuram nos "Stalin" que tentam passar; mas, nos setores onde já nos conhecem, deixam-se cair logo que surgimos, mesmo que o tanque vá a toda velocidade. Manifestamente Ivan prefere sentir o chão sólido sob seus pés, para suportar nosso ataque.

Desde 15 de julho a resistência russa enrijeceu bastante; nossas divisões se chocam contra um completo sistema de ferrolhos, dotados de formidável artilharia antitanque, de maneira que nosso avanço se torna cada vez mais lento. Dia após dia, decolamos ao amanhecer, esgotamos nossas munições, regressamos para nos reabastecer, e tornamos a partir imediatamente, a fim de apoiar constantemente nossas pontas blindadas que, ao longo da via férrea Bjelgorod-Kursk, tentam penosamente abrir passagem para o norte. Os primeiros destacamentos conseguiram formar uma cabeça-de-ponte na margem setentrional do Pskoll, mas já há vários dias sua progressão está completamente paralisada. É visível que os russos decidiram não mais recuar, e nossos golpes não conseguem abalar esta resolução.

Certa manhã, quando nos preparamos para uma partida, poderosa formação de aviões de combate soviético, em vôo rasante, surge repentinamente sobre nosso campo e nos cai literalmente em cima. Precipitamo-nos para os aviões e decolamos, em todas as direções, numa indescritível confusão, para nos afastar do campo e nos dispersar. Por milagre, não ocorre nenhuma colisão nem perdemos nenhum avião, o que é tanto mais espantoso quando nossa DCA, refeita da surpresa, atira furiosamente. Essa resposta impressiona visivelmente os russos, que procuram afastar-se à toda velocidade. Contudo, seus aviões são suficientemente blindados para que os projéteis comuns, de 20 mm, ricocheteiem em sua fuselagem, sem causar dano; por outro lado, uma bateria leve, que usa munições antitanques do mesmo calibre, consegue atingir vários aviões, dois dos quais se abatem na margem do campo.

A emoção provocada por essa visita desamistosa só se acalma quando recebemos ordem de partir - "urgentemente", como é óbvio - para Orel, no flanco norte da saliência, onde os russos passaram à ofensiva e já ameaçam a cidade. Nossa viagem dura apenas algumas horas. Logo que chego procuro informar-me sobre a situação, que não é nada brilhante: as tropas soviéticas atacam do norte, de leste e do sul, e nossa defesa está prestes a ser vencida.

De resto, em toda a extensão da saliência, nossa ofensiva está prestes a paralisar-se. Vimos muito bem como o impulso de nossas tropas foi refreado e, a seguir, detido por acontecimentos independentes de sua vontade: o desembarque aliado na Sicília, a queda da Itália. Em ambas as vezes, foi preciso retirar da frente leste as melhores, para enviá-las a outros teatros de operações. Em nossas discussões, chegamos sempre à mesma conclusão (que é, de fato, irrefutável): é unicamente graças a seus aliados ocidentais que a Rússia soviética ainda existe como grande potência militar.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Sobrevivente do inferno nazista



Polonês naturalizado brasileiro que escapou do Holocausto conta como foram os cinco anos passados em campos de concentração.

Quantas vezes você já teve a oportunidade de ficar frente a frente com um sobrevivente do Holocausto? Na semana passada, por iniciativa da Cruz Vermelha Brasileira, filial de Volta Redonda, o escritor polonês naturalizado brasileiro Aleksander Henryk Laks, de 72 anos, fez palestra no Teatro Gacemss contando sua história. Em cerca de duas horas ele relatou o verdadeiro inferno que viveu, durante cinco anos, nos campos de concentração mantidos pelos alemães, inclusive em Auschwitz, na Polônia, invadida em 1939.

Na tarde da terça-feira, dia 19, cerca de três horas antes do evento, Laks recebeu o FOCO REGIONAL no hotel onde ficou hospedado para uma conversa que durou mais de uma hora. Uma parte deste encontro está descrito nestas páginas pelo próprio escritor, em forma de depoimento. Afinal, como ele mesmo ressalta, o tempo não pode apagar um dos piores momentos da história da Humanidade, com o extermínio de cerca de seis milhões de judeus pelas tropas nazistas na Segunda Guerra Mundial.

No Brasil, Laks trabalhou como vendedor, casou-se "com uma brasileira", como faz questão de frisar, e teve dois filhos. É presidente da Associação Brasileira dos Israelitas Sobreviventes da Perseguição Nazista. Cidadão benemérito do estado do Rio e agraciado com a Medalha Pedro Ernesto, pela cidade do Rio de Janeiro, o escritor recebeu também na semana passada a Medalha de Direitos Humanos da Organização Benei Brit, que tem representação no Brasil.

Em suas palestras, Laks não se apresenta como vítima. Apenas conta o que testemunhou. Ao repórter, assegurou que não carrega o ódio pelo passado. Sua própria experiência resultou no livro "Sobrevivente – Memórias de um brasileiro que escapou de Auschwitz", lançado em 2007 pela Editora Record, que foi indicado ao Prêmio Jabuti e está em sua sétima edição. A entrevista é um resumo da história de um senhor simpático e afável, que, à primeira vista, não traz qualquer sensação de ter vivido os horrores que enfrentou.

"Costumo dizer que nunca vi ninguém voltar do céu, mas eu voltei do inferno. Tinha 12 anos quando fui preso, em 1º de maio de 1940. Meu pai (Jacob) era gerente de um frigorífico. Minha cidade, Lodz, foi transformada num gueto. Os alemães fecharam tudo e não se podia sair de lá. Todos os meus parentes foram mortos em campos de extermínio. Quando acabaram com o gueto, eu e meus pais fomos levados para Auschwitz, onde minha mãe pereceu na câmara de gás e depois foi cremada no crematório.

Em Auschwitz, eu e meu pai fomos vendidos para trabalho escravo a outro campo, em Gross Rossen (Alemanha). Quando a frente dos aliados chegou perto deste campo, fomos levados para a Marcha da Morte. Tínhamos que andar sem rumo, sempre juntos, sem poder fazer as nossas necessidades, comer ou beber. Era inverno e ficávamos sempre ao relento. A maioria morria congelada. À noite ganhávamos quatro ou cinco batatas cozidas e só. Para beber, tínhamos que pegar neve. Saímos 600 prisioneiros do campo e em pouco tempo fomos reduzidos a 50 pessoas.

Quem ficava para trás era fuzilado. Quem sentava era fuzilado. Quem encostava no outro porque já não tinha forças era fuzilado. Na Marcha da Morte morreram mais de dois milhões de judeus. Chegamos a pé no campo de Flossenburg. Era também um campo de extermínio e grassava a desinteria. Meu pai pegou a doença. Por ser muito fraco e doente, foi assassinado a pauladas, aos 45 anos de idade. Eu era filho único. Vi o que nenhum ser humano devia assistir ou ver. Quando meu pai morreu o crematório não suportava mais queimar cadáveres, tantos que tinham lá. Meu pai foi queimado numa pira".

‘Vi o que nenhum ser humano deveria assistir’

Neste momento, os olhos de Laks ficaram marejados. O repórter pede então que ele comente como foi voltar à Alemanha, especialmente a Flossenburg, há pouco mais de um mês. "Foi a segunda vez que estive lá, no encontro de ex-prisioneiros de Flossenburg. Havia umas 80 pessoas do mundo todo. Fiz várias palestras, inclusive nas escolas alemãs, sobre o Holocausto. Revivi tudo, claro, desabei. Quando voltei para o Rio fiquei dois dias internado. Durante 60 anos eu disse que não pisaria na Alemanha, principalmente onde mataram meu pai. Mas há três anos senti vontade de retornar ao lugar onde as cinzas dele foram espalhadas.

Fui libertado dois dias depois da morte do meu pai. Houve uma ordem para que o campo fosse evacuado e que nenhum prisioneiro caísse nas mãos dos aliados. Fomos levados de trem para sermos afogados em Bodensenn, no sul da Alemanha, mas, no meio do caminho, o trem foi bombardeado pelos aliados. Pegamos outro trem, na estação de Emmendingen, mas ele não chegou a sair. Fui libertado pelos franceses. Tinha 17 anos e pesava 28 quilos. Estava sem pai, sem pátria, sem dinheiro, sem amigos.

‘Fui libertado aos 17 anos, pesando 28 quilos’

Os aliados fizeram campos de refugiados e fiquei num deles, americano, onde ganhei roupa e comida. Depois fui para Nova York, onde morei quase um ano. Então me lembrei que havia uma irmã de meu pai, que vivia no Rio, viera antes da guerra. Sabendo que eu sobrevivi, ela queria me ver. Vim como turista e não voltei aos Estados Unidos. Me apaixonei pelo Brasil, pelo Rio e pelo povo brasileiro. Hoje sou brasileiro com muita honra.


Aleksander Henryk Laks, aos 72 anos.

Minhas palestras são bem recebidas porque não me apresento como vítima. Conto o que aconteceu, mas o intuito não é ser vítima. O intuito é recontar para nunca mais acontecer isso com ninguém. O livro que escrevi teve o mesmo intuito: contar a verdade e alertar que isso nunca, nunca mais, pode acontecer com ninguém. Nas minhas palestras, os mais jovens são quase sempre mais interessados que os adultos. Eles são mais sensíveis. Faço em escolas, universidades, igrejas e a quem se interessar. É um testemunho que trago, ninguém me contou, eu vi.

Uma das perguntas que mais me fazem é qual foi o pior momento. Todos eles, respondo. Também perguntam se tenho ódio. Não carrego, por isso estou vivo. Disse isso aos alunos nas escolas alemãs. Disse que eles não têm culpa e realmente não têm. Esta é uma passagem da história que o tempo não vai apagar, embora alguns digam que não existiu. Sabem que estão mentindo, mas dizem que não existiu. A estes eu pergunto: onde estão os seus parentes e onde estão os meus?".


Creditos: http://focoregional.com.br

A agonia de Sebastopol

A cidade-fortaleza em ruinas

O jornalista soviético Boris Voyetekhov relata a face da guerra na cidade-fortaleza, durante os últimos dias do cerco alemão :

A noite caía rapidamente quando nosso destróier se aproximava da arruinada Sebastopol. O Farol de Kherson irradiava seus primeiros sinais luminosos. Era a única luz que não estava camuflada de modo permanente. Mal tinha começado a cumprir sua abnegada missão quando os seus flancos se iluminaram também, mas com os estampidos das granadas.

Os nossos marinheiros sabiam que o acolhimento daquela luz familiar não os convidava ao repouso nem ao calor de um lar feliz. Aquele resplendor hesitante dizia: "Em breve atravessareis os umbrais das nossas casas destruídas. Em breve vereis o que os alemães fizeram da nossa cidade."

Diminuímos a velocidade e iniciamos a travessia do canal pelo dédalo dos campos de minas. No começo da ofensiva, os alemães haviam minado o porto cheio de barcos. Mas os marinheiros russos tinham-se atirado à água, empurrando as minas flutuantes até a margem. Muitos morreram, despedaçados pela explosão das minas, para abrir uma passagem que permitisse aos nossos navios sair de Sebastopol e voltar carregados de munições destinadas aos seus defensores.

Quando por fim chegamos ao porto interior, vimos Sebastopol envolta em chamas e fumaça dos incêndios provocados pelos projéteis inimigos. O punhal nazista ameaçava a garganta da desditosa cidade. Em cima, no céu, centenas de projetores, russos e alemães, cruzavam num duelo aéreo as suas luzes, semelhantes a espadas de prata. As balas teciam os seus fios mortíferos. A superfície aprazível da baía refletia o inferno que se desencadeava ao longo das duas margens. À esquerda do cais em que atracamos, quartéis e depósitos pegavam fogo. Enquanto observava o espetáculo, vi desmoronar-se lentamente, sobre o mar, a única parte de um edifício que estivera até então de pé.

- Temos sorte, a noite está tranqüila - disse o nosso capitão.
- O senhor chama isso de tranqüilidade?! Que acontece quando não há?
- Amanhã de manhã terá a resposta - replicou.

O desembarque dos homens e das munições, bem como o carregamento do destróier com feridos e evacuados, realizou-se de forma incrivelmente rápida. Eu tinha ainda alguns assuntos a resolver no almirantado; um comissário de bordo levou-me até lá.

A entrada para o posto de comando do Estado-Maior da Marinha, centro nevrálgico da defesa de Sebastopol, era um túnel perfurado nos rochedos. Dentro, galerias estreitas conduziam ao coração da rocha. O débil resplendor das lâmpadas elétricas mal ajudava a caminhar, quase às cegas, na penumbra. Dos corredores o olhar penetrava, através de numerosas portas, em pequenos quartos onde gente ativa vivia e trabalhava, com os nervos à flor da pele. Ouviam-se breves trechos de conversas telefônicas, o matraquear das máquinas de escrever, os gritos dos feridos, entremeados com as respostas secas dos oficiais de serviço e o ruidoso ressonar dos que dormiam.
Prisioneiros sendo feitos pelos alemães

Os aparelhos de rádio ditavam mensagens urgentes; escutei alguns fragmentos ao passar: "Grupo de projetores O-24: ilumine a entrada da baía para um transporte que entra. Mulheres e crianças retiradas do transporte afundado são recolhidas pelos navios de guerra. Os alemães atiram sobre o porto. Dêem instruções à 35ª Bateria para bombardear os alemães."

Estes compartimentos subterrâneos estavam providos, nos pontos mais profundos da rocha, de condutos de água potável, esgotos, um restaurante, um salão de cabeleireiro e muitas outras instalações. Mas o ar rareava e, quando os ventiladores avariavam, a respiração tornava-se difícil. Havia muitas mulheres entre o pessoal; assistir ao seu corajoso trabalho era um trágico espetáculo. Os seus olhos claros estavam cheios de olheiras e injetados de sangue. Respiravam penosamente diante dos telefones ou das máquinas de escrever. De vez em quando, revezando-se, tomavam nos braços os filhos adormecidos e suados e subiam às trincheiras exteriores para aspirar profundamente o ar do mar. Mas estes momentos de descanso eram escassos e interrompidos freqüentemente pelos shrapnels ou pelas bombas.

Sob a terra, todas as vozes, todos os sons, eram abafados pelo ruído espantoso das explosões na superfície. O bombardeio (que recomeçava todos os dias precisamente ao amanhecer) era tão intenso que, em alguns locais, abrira fendas na rocha. Parecia que, de um instante para outro, aqueles corredores, aqueles quartos, aqueles refúgios mal instalados, iam desfazer-se, sepultando tantas pessoas que ali trabalhavam sem repouso.

Durante os quatro dias seguintes não abandonei o subterrâneo e nada vi do que acontecia no exterior. Mas um oficial - que saíra no cumprimento de ordens recebidas - descreveu-me horrorizado o aniquilamento da cidade.

- Já não existe Sebastopol. As casas já não têm telhados e as ruas estão bloqueadas por montões de escombros.

Efetivamente não havia um só lugar que não estivesse ameaçado pelas bombas, as ruínas terrestres ou os projéteis. Tudo aquilo que se movia - trenós, automóveis ou motocicletas - era perseguido e atacado. As esquadrilhas inimigas descobriam as mulheres e as crianças que, perto da margem, ao abrigo das rochas, esperavam ser evacuadas: potentes explosivos os enterravam sob as ruínas.

Todos os dias os mergulhadores informavam ao almirantado o material recuperado no fundo do porto. Estes especialistas dos mistérios submarinos realizavam incursões noturnas e, rebuscando entre toda a espécie de restos e cadáveres, carregavam os recipientes que levavam com as bombas e os projéteis que não tinham chegado a explodir.

O comissário era insaciável. Folheava as listas do material recuperado nos barcos afundados e perguntava constantemente:

- Onde estão esses seis motores de aviação? Onde estão as ataduras, o algodão e os remédios? Que fazem vocês debaixo da água?! Será que jogam xadrez com os mortos?!
- Exatamente - retorquiu o chefe dos mergulhadores - E o senhor faria muito bem se fosse dar uma volta por lá, para compreender que é impossível trazer esses motores para a superfície. Estão no porão, cobertos por montões de cavalos mortos. Quanto aos medicamentos... - hesitava - Não! Não é possível chegar até lá.
- Por quê?
- Olhe: há mais de trinta anos que sou mergulhador; tenho visto coisas que fizeram perder a cabeça aos que trabalhavam comigo. Mas, entrar naquela cabina, onde mal a porta se abre, há cadáveres de crianças que chocam conosco... não! Não posso fazer isso.
- Bem! - replica o comissário - Quer dizer: você prefere deixar morrer as outras crianças por falta de remédios e alimentos!

Estas discussões terminavam sempre da mesma maneira: os mergulhadores voltavam ao fundo do mar. No dia seguinte, pela manhã, levavam os motores de avião para o aeródromo; as ataduras secavam ao sol e, no céu de Sebastopol, os projéteis recuperados voavam contra o inimigo.

Noite após noite, os nossos barcos penetravam no porto, trazendo reforços, víveres e munições e evacuando as mulheres e as crianças. Os alemães iluminavam com seus foguetes e projetores os pontos de atracagem e nos bombardeavam sem piedade. O espetáculo era indescritível: os depósitos de petróleo voavam pelos ares; os cunhetes de munição explodiam; caminhões transbordando atravessavam a toda a velocidade as chamas e a fumaça, enquanto os soldados de engenharia se esforçavam por dominar os incêndios.

Uniam-se os esforços de todos para manter incessantemente o ritmo formidável de carga e descarga. Era preciso andar depressa, sempre mais depressa. Era preciso que, ao amanhecer, todos os barcos estivessem no mar alto. Como o que estava em jogo tinha muita importância os meios empregados revestiam-se de extrema dureza. Entre os trabalhadores do cais havia certo número de condenados. Um deles reunira um grupo de descontentes que atrasavam o trabalho. Um oficial de transmissões aproximou-se do cabeça e gritou-lhe:

- Abre a boca e diz: Ah!

E imediatamente disparou sobre ele um tiro de revólver. Os seus dentes voaram, misturados com sangue e pedaços de cérebro. Depois, voltando-se para os outros, o oficial disse:

- O que eu quero é um bom rendimento.

Quando, por fim, ganhei a coragem suficiente para sair em pleno dia do refúgio subterrâneo do almirantado, senti-me desfalecer perante o panorama gigantesco e espantoso que se estendia ante os meus olhos. Barcos meio submersos, dos quais se via sobressair a popa ou a proa, retinham ainda, colhidos na armadilha, o seu carregamento de infelizes fugitivos. Uma escuna, carregada até à borda, jazia sobre o costado, apontando para a margem os seus mastros inclinados sobre a água, como um homem que se afoga e estende os braços pedindo auxílio.

Os habitantes das casas mais próximas do mar procuravam geralmente abrigo entre esses cascos, durante as incursões aéreas. Acreditavam ingenuamente que as bombas não caem duas vezes no mesmo lugar. Enganavam-se porque os alemães bombardeavam também os destroços.

Na cidade não havia tempo para enterrar os mortos. Eram cobertos com uma fina camada de terra. Num túmulo onde jazia um avião avariado, li estas palavras escritas num pedaço de hélice: "Também vós, os mortos, tendes que deixar um espaço livre nas vossas tumbas! Apertai-vos uns contra os outros, velhos soldados! Um recém-vindo se junta agora a vós para demonstrar seu amor ao combate. Acolhei-o nos vossos túmulos, era um valente."
Porto de Sebastopol destruido

Os alemães, que procuravam localizar certos depósitos de petróleo, tinham devastado completamente um cemitério. Os restos dos mortos da guerra da Criméia estavam espalhados e as suas cinzas impregnadas de sangue fresco. Por trás do cemitério estendia-se uma zona tão duramente bombardeada que era impossível saber onde antes tinham existido casas ou ruas. Ali, nas crateras cheias de água sanguinolenta, flutuavam mãos, membros, troncos de crianças.

Fiquei assombrado ao ver nestes espantosos lugares uma mulher jovem, modestamente vestida, que, com o passo prudente e seguro, abria caminho através das ruínas levando nos braços um ramo de flores frescas. Andava pelas ruas bombardeadas com a cabeça erguida, sem pestanejar. Contaram-me que todos os dias atravessava a Sebastopol em ruínas para ir ao cemitério colocar flores sobre a campa do seu marido, herói anônimo morto durante a defesa da cidade. Recomendava-se a ela que se juntasse aos evacuados, mas repelia a sugestão dizendo: "Permanecerei no lugar onde repousa o meu marido." Os combatentes sentiam orgulho por ela, orgulho pela sua firmeza, orgulho por verem que permanecia ao seu lado essa russa silenciosa e modesta, cujo amor era tão belo e resplandecente.

As fotografias tiradas por aviões de reconhecimento proporcionavam ao comando alemão a prova indiscutível de que Sebastopol deixara de existir. Dissera-se aos soldados que, decorridos dois dias no máximo, tomariam banho na baía e que, em seguida, teriam uma longa licença.

Apesar disso, Sebastopol continuava vivendo. Fervendo de ódio e energia, roía a terra, mordendo-a com as suas gengivas sangrentas. Privada da vida ao ar livre, Sebastopol continuava existindo e lutando nas covas, nas pedreiras abandonadas, nos refúgios improvisados.

Nada mais exemplificativo desta situação do que a fábrica subterrânea que eu visitei. Ali, a barafunda era incrível. O imenso porão estava dividido em compartimentos por pesados tabiques metálicos, atrás dos quais centenas de tornos zumbiam. Um motor de trator, rugindo e fumegando, servia de gerador. Quando o motor parava, as luzes se apagavam: instantaneamente todos os operários acendiam um cigarro e centenas de fracas luzinhas brilhavam na escuridão. Tinham combinado que só fumariam quando o trabalho fosse interrompido por falta de corrente.
O morteiro THOR de 600mm em bombardeia a cidade

As máquinas funcionavam 24 horas por dia. Todas as pessoas trabalhavam. Defronte de mim, uma mulher já idosa permanecia em frente de uma máquina de imprimir. Faltava-lhe a mão direita. A onda explosiva de uma bomba a tinha arrancado. Ao sair do hospital, não permitira que a evacuassem. Ao seu lado, uma mulher nova e bonita dava de mamar a um bebê, vigiando ao mesmo tempo uma máquina perfuradora. Às vezes distraía seus camaradas cantando uma canção de embalar.

Em beliches de três andares, colocados ao longo das paredes, dormiam operários dos grupos que tinham sido rendidos, amontoados entre os seus objetos pessoais e as bagagens para as quais não se encontrara arrumação possível. Na parte inferior dos beliches, crianças pálidas e enfermiças brincavam com os soldados. As meninas enrolavam granadas em panos de cores vivas e faziam bonecas com elas. Agentes de ligação, chefes de serviço, jornalistas, operadores de noticiários cinematográficos atravessavam as fileiras de beliches e percorriam apressadamente os corredores.

De joelhos ante uma pequena mesa, um engenheiro fazia a barba. O caixa pagava os salários. Um telefonista - que estava no seu período de descanso - tocava violão.

Era assim que vivia e trabalhava essa gente. E outras. E outras...

Fuga desesperada!







Saburo Sakai, o maior ás japonês que sobreviveu à II guerra, relata sua perseguição por 15 Hellcats :

Para onde quer que eu olhasse, só via caças, longos rastros de fumaça, explosões e chamas. Perdi muito tempo a olhar. Balas traçadoras despejaram-se diretamente sob minha asa e, instintivamente, puxei o manche para a esquerda, fazendo um rolamento para trás, a fim de atacar o avião pela traseira e disparei uma rajada. Errei. Ele mergulhou, saindo do meu alcance tão rapidamente que eu não podia acompanhá-lo. Praguejei por ter me deixado surpreender e, com igual veemência, amaldiçoei meu olho esquerdo, que deixava quase metade da minha área de visão no escuro. O mais depressa que pude, desembaracei-me das tiras do pára-quedas, para me deixar livres o s movimentos, de modo que eu pudesse compensar a perda de visão lateral.

E olhei sem perda de tempo; havia pelo menos meia dúzia de Hellcats atrás de mim, tentando tomar posição de tiro. De suas asas saíram vivas cintilações, quando eles abriram fogo. Outro rolamento para a esquerda – depressa! – e as traçadoras passaram sem me atingir. Os seis caças passaram perto das minhas asas e subiram para a direita. Desta vez, não! Comprimi o afogador e fiz um rolamento para trás e para a direita, indo atrás dos seis caças à velocidade que o Zero me podia dar. Lancei um olhar à retaguarda – não havia nenhum caça a perseguir-me. Um deles seria meu, praguejei! Aproximei-me rapidamente do avião que estava mais próximo. A uns 50 metros de distância, abri fogo contra ele de canhão, observando que, depois de as granadas, penetrarem a fuselagem do avião atingido, surgiam clarões e fumaça dentro da cúpula de vidro; no instante seguinte, o Hellcat guinou loucamente e inclinou-se para um lado, soltando um rolo de fumaça que a cada instante aumentava.

Porém, havia mais caças atrás de mim! De repente, eu não quis mais lutar contra eles. O cansaço me envolveu inteiramente. Nos velhos tempos, em Lae, ainda teria saído com o Zero atrás deles. Mas agora, parecia que meu vigor se esgotara, eu não queria lutar. Mergulhei e fugi. Naquelas condições, combater os Hellcats seria suicídio. Um pequeno erro, o menor atraso no movimento do manche ou da barra do leme...e seria o fim. Desejava tempo para recuperar o fôlego, livrar-me da tontura repentina, resultante, sem dúvida, da tentativa de ver com apenas um olho tanto quanto com dois; eu sabia que não podia lutar. Fugi para o norte, usando o overboost para escapar. Os Hellcats me deixaram e foram em busca de novas presas.

Sobrevoei lentamente o norte de Iwo Jima, aspirando profundamente e tentando relaxar. Passada a tonteira, voltei para a área de batalha. A luta terminara. Ainda havia Zeros e Hellcats no céu, mas muito afastados uns dos outros, tentando reunir-se aos respectivos grupos. À frente e à direita, avistei 15 Zeros voando em formação e aproximei-me para reunir-me a eles. Entrei sob a formação e...

Hellcats! Agora eu compreendia a razão porque o cirurgião protestara com tanta veemência contra meu retorno ao combate. Com apenas um olho, minha perspectiva estava muito deficiente. Escapavam-me, à distância, os detalhes que orientam a identificação. Somente quando as estrelas brancas nas asas azuis se tornaram nítidas é que percebi meu erro. Não perdi tempo em combater o medo que tomou conta de mim. Fiz um rolamento para a esquerda e, depois, uma curva fechada, mergulhando para ganhar velocidade, esperando que os pilotos inimigos não me tivessem visto. Não tive essa sorte, a formação de Hellcats se desfez e partiram em minha perseguição. Que podia eu fazer? Parecia que não teria chance alguma de escapar.

Agora eu percebia a velocidade desses novos caças. Em segundos, tão velozes eram, estavam já próximos. Era inútil continuar fugindo... Retornei, numa curva fechada. A manobra espantou os pilotos inimigos, ao me verem subir, em sua direção, numa espiral. Fiquei surpreso: eles não se separaram. O caça da frente respondeu com idêntica espiral, acompanhando à perfeição a minha manobra. Tornei a entrar em espiral, desta vez aproximando-me mais. Os caças adversários recusaram-se a ceder um palmo sequer. Isto era novidade. Um Airacobra ou um P40 se teria perdido, na tentativa de acompanhar-me assim. Nem mesmo um Wildcat poderia manter-se em espiral, durante tanto tempo, contra o Zero. Mas estes novos Hellcats eram os aviões mais manobráveis que já havia encontrado. Saí da espiral e caí numa armadilha. Os 15 caças saíram de suas espirais e formaram uma longa coluna e, no momento seguinte, encontrei-me a circular dentro de um gigantesco anel formado por 15 aviões inimigos. Por todos os lados, só asas largas com suas estrelas brancas. Se algum dia um piloto se viu cercado, no ar, por todos os lados, fui eu.

Mas não deram muito tempo para pensar na minha desgraça. Quatro Hellcats deixaram o círculo e mergulharam contra mim. Eles estavam por demais ávidos. Saí facilmente do caminho com um rolamento e eles passaram por mim, descontrolados. Mas o que eu julgara ser apenas um simples rolamento, me colocara contra vários outros caças. Um segundo quarteto de aviões saiu do anel, bem atrás de mim.

Fugi. Obriguei o motor a dar-me toda a potência possível e pus-me fora do alcance das armas do inimigo, por instantes. Os quatro aviões que me perseguiam, não me preocupavam; era o primeiro quarteto. Eu estava certo. Eles saíram do mergulho e logo se colocaram acima de mim, mergulhando para outros disparos. Meti o pé direito na barra do leme, desviando o Zero para a esquerda, fazendo um rolamento fechado. Luzes cintilantes apareceram debaixo da minha asa direita e um Hellcat caiu.

Saí do rolamento numa curva fechada. O segundo Hellcat estava a uns 700 metros atrás de mim, com suas asas já pontilhadas de chamas amarelas das suas metralhadoras. Certifiquei-me, então, de uma coisa que me poderia favorecer: os pilotos inimigos eram tão inexperientes quanto os meus aviadores... e isso talvez me salvasse a vida.

O segundo caça continuava a aproximar-se enchendo o céu de balas traçadoras, sem me atingir. Não pare! – berrei. Vamos, gaste toda a munição; você será uma preocupação a menos. Tornei a fazer uma curva e fugi, com o Hellcat aproximando-se rapidamente. Quando ele estava a uns 300 metros atrás de mim, fiz um rolamento para a esquerda e o Hellcat passou por baixo ainda disparando no vazio. Perdi a paciência: porque fugir de um piloto tão canhestro? Sem pensar, fiz o rolamento para trás e fiquei na sua cauda. À distância de 50 metros, disparei o canhão. Em vão. Eu não corrigira a glissagem causada pela curva abrupta que fiz. E, de repente, não me importava mais com o que acontecesse com o caça à minha frente... outro vinha atrás de mim, disparando sem cessar. Outro rolamento para a esquerda – manobra que não falhava nunca. O Hellcat passou barulhentamente, seguido dos dois outros aparelhos do quarteto.

Mais quatro aviões estavam quase acima de mim, prontos para mergulhar. Às vezes, a gente tem de atacar para se defender. Entrei numa subida vertical, diretamente sob os quatro caças. Os pilotos inclinavam as asas de um lado para outro, tentando encontrar-me. Não tinha tempo de dispersá-los. Três Hellcats vieram contra mim, da direita e, por pouco, escapei às suas traçadoras, ao fugir com o mesmo rolamento para a esquerda.

Os caças haviam reconstituído o seu grande anel. Qualquer movimento que eu fizesse para escapar, atrairia vários Hellcats de diferentes direções. Fiquei a circular no meio do anel, à procura de uma saída. Eles não pretendiam deixar-me escapar, um após outro, os caças abandonaram o círculo e vieram contra mim, disparando no curso da aproximação. Não me lembro de quantas vezes os caças me atacaram, nem quantos rolamentos fiz. Eu estava encharcado de suor, que me corria pelo rosto e praguejava quando o líquido salgado me caía no olho esquerdo... Não tinha mãos para esfregá-lo, para remover o sal, para tentar ver.

Eu estava cada vez mais cansado. Não sabia como escapar ao cerco. Mas era evidente que estes pilotos não eram tão bons quanto os aviões que tinham nas mãos. Uma voz parecia sussurrar me meu ouvido, repetindo sempre as mesmas palavras... velocidade... mantenha a velocidade... aqueça o motos, queime-o, mantenha a velocidade!... continue fazendo rolamentos... não pare de fazer rolamentos. Meu braço começava a ficar dormente com os rolamentos, a fim de escapar às traçadoras dos Hellcats. Se eu diminuísse a velocidade por um instante sequer, ao guinar para a esquerda, seria o fim. Mas durante quanto tempo poderia manter a velocidade necessária, nos rolamentos, para escapar?



Tenho de continuar fazendo rolamentos! Enquanto os Hellcats mantivessem intacto o anel que formaram, somente um caça de cada vez poderia atacar-me e eu não temia escapar a qualquer avião que, sozinho, viesse ao meu encontro. As balas traçadoras passavam perto, mas tinham de atingir-me com precisão para me derrubar. Não importava que passassem a 100 metros ou a 10 centímetros de distância. O que importava é que não me atingissem.

Fiz o rolamento. Manche todo para a direita.
Aí vem outro!
Rolamento rápido. O mar e o horizonte rodando como loucos.
Glisse! Outro! Puxa, esse passou perto!
Traçadoras brilhantes, cintilantes, faiscantes.
Sempre sob a asa.
Mantenha a velocidade!
Rolamento para a esquerda.
Rolamento.
Meu braço! Mal posso senti-lo, está todo dormente!

Se qualquer dos pilotos dos Hellcats tivesse escolhido uma aproximação diferente para fazer a passagem de tiro ou se concentrado na pontaria, é certo que teria me derrubado. Mas, em momento algum, os pilotos inimigos apontaram para onde meu avião estava indo. Se um dos caças tivesse despejado as suas traçadoras no espaço vazio, à minha frente, para o lado em que eu fazia sempre os rolamentos, isto é, para a esquerda, teria acertado todas. Mas os aviadores têm um peculiaridade. Adotam estranha psicologia. Excetuando aqueles raros que se sobressaem e se transformam em grandes ases, 99 % dos pilotos apegam-se à formula que aprenderam na escola. Treine-os para seguir certo padrão e, aconteça o que acontecer, eles jamais pensarão em sair dele, quando numa batalha de vida ou morte.

Assim, aquela contenda se resumia num teste de resistência entre a reserva de combustível dos Hellcats e a força de meu braço, para permitir os golpes de fuga no momento certo. Se esgotasse o combustível dos Hellcats, eles teriam de retornar aos seus porta-aviões.

Olhei o indicador de velocidade do ar. Quase 560 Km/h, o melhor que um Zero podia dar.

Precisa de resistência não só para o braço. O caça também tinha seus limites. Eu temia pelas asas, pois elas estavam se dobrando muito sob a violência das repetidas manobras que vinha aplicando para escapar. Havia o risco de fadiga do material que, se se verificasse, poderia fazer com que se soltassem as asas do Zero, mas eu tinha de continuar voando, de forçar o avião nos rolamentos evasivos ou aceitar a morte.

O altímetro estava no zero e o oceano, logo abaixo do meu avião. Mantenha as asas levantadas, Sakai, ou elas acabarão por bater numa onda. Onde começara a luta? A 4.200 m de altitude. Mais de 4 Km de glissagens e rolamentos para escapar às traçadoras, descendo cada vez mais. Agora, não tinha mais altitude alguma. Mas os Hellcats não podiam mais fazer suas corridas de tiro como antes. Não podiam mergulhar, pois não lhes sobraria espaço para sair do mergulho. Eles tentariam outra coisa, o que me dava alguns momentos. Segurei o manche com a mão esquerda, sacudi a direita com força. Doeu.
Tudo doía, e a dormência era cada vez maior.

Lá vêm eles, saindo do anel. Estão cautelosos, agora, receosos do que eu possa fazer de repente. Será difícil sair do caminho? Glisse para a esquerda, cuidado... as traçadoras. Elas fazem levantar borrifos de água e espuma. Aí vem outro. Quantas vezes me atacaram? Perdi a conta. Quando é que desistirão? O combustível deles DEVE estar acabando!

Mas eu não podia mais rolar direito. Meus braços começavam a ceder à fadiga. Não tinha mais tato. Em vez de um movimento de rolamento rápido e fechado, o Zero fez um curva oval, malfeita, que aumentava a cada manobra. Os Hellcats perceberam o que se passava e forçaram os ataques, agora mais arrojados. Suas passagens eram tão rápidas, que eu mal podia respirar. Não conseguiria manter esse ritmo por mais tempo. Tenho que escapar! Saí de outro rolamento para a esquerda, empurrei a barra do leme à esquerda e puxei o manche todo para a esquerda. O Zero respondeu com firmeza e eu atirei contra um caça, para abrir caminho, e subi. Os Hellcats ficaram por instantes confusos e saíram, a seguir, em minha perseguição. Procurei escapar, mergulhando e voltei à superfície do mar.

Metade dos aviões formou uma barricada acima de mim, enquanto os outros, a vomitar balas, vinham à minha retaguarda. Os Hellcats eram velozes demais. Em poucos segundos, eu estava ao alcance de suas balas. Continuei rápido para a direita, sem parar, forçando o Zero, que sacudia a cada manobra. À esquerda, esguichos de água pontilhavam o mar, marcando os pontos em que batiam as traçadoras, que por pouco não me acertavam.

Eles recusavam-se a desistir. Os caças que estavam acima de mim saíram em minha perseguição, tentando antecipar-se aos meus movimentos, nos mergulhos que faziam, enquanto que, os que deslizavam atrás de mim, não paravam de disparar. Mal podendo mover pernas e braços, parecia-me difícil escapar. Eu continuava voando baixo e seria apenas questão de minutos, quando eu seria lento em acionar o manche. Por que esperar pelo abraço da morte, correndo como um covarde? Puxei o manche todo para trás, as mãos quase tocando o estômago. O Zero subiu ruidosamente e, a apenas 100 m à minha frente, estava o Hellcat com o piloto, à minha procura. Os caças que vinham atrás de mim já se preparavam para atacar de novo. Não importava o número deles. Só queria aquele caça. O Hellcat tremeu loucamente para fugir. Agora! Apertei o gatilho, numa rajada de traçadoras. Meus braços estavam dormentes demais. O Zero vibrou todo e o Hellcat rolou abruptamente e subiu, em fuga.

O loop ajudara. Os outros caças sobrevoavam o local, confusos. Tornei a subir para fugir. Os Hellcats estavam atrás de mim. Os idiotas estavam disparando de uma distância de 500 m. Desperdicem a munição, vamos, desperdicem-na, gritei. Mas eles eram tão velozes! As traçadoras passaram perto das minhas asas e eu rolei desesperadamente.

Iwo Jima apareceu de repente lá embaixo. Sacudi as asas, esperando que os artilheiros em terra vissem as marcas vermelhas. Foi um erro; a manobra reduziu-me a velocidade e os Hellcats estavam novamente em cima de mim. Onde estava o fogo antiaéreo? O que estava acontecendo com os homens na ilha? Atirem, idiotas, vamos!

Iwo irrompeu em chamas. Clarões cortavam a ilha. Eles estavam disparando todos os canhões, vomitando traçadoras para o alto. As explosões sacudiram o Zero. Rolos de fumaça apareceram no ar, no meio dos Hellcats. Eles fizeram uma curva fechada e mergulharam para sair do alcance das armas.

Eu continuava à toda. Apavorado, não parava de olhar para trás, temeroso de que eles voltassem, de que, a qualquer momento, suas traçadoras me varassem a carlinga e me jogassem no chão. Passei por Iwo Jima, empurrei o afogador, forçando ao avião a voar mais depressa, encaminhando-me rapidamente para uma gigantesca nuvem cúmulos, bem no alto. Não me importavam as correntes de ar, só queria escapar daqueles caças e mergulhei nela a grande velocidade.

Um punho tremendo pareceu agarrar o Zero e sacudi-lo em todas as direções. Não havia nada a não ser clarões vívidos dos relâmpagos. Depois, trevas. Perdera o controle. O Zero mergulhou e empinou-se. Ele estava de cabeça para baixo, caindo; rolou depois sobre as asas e começou a subir de ré. Consegui sair. A tempestade que varria o interior da nuvem cuspiu o Zero com uma sacudidela violenta. Eu estava de cabeça para baixo e recuperei o controle a menos de 500 metros. Bem aos sul, vislumbrei os 15 Hellcats voltando para seu porta-aviões. Era inacreditável que tudo tivesse terminado e que eu ainda estivesse vivo. Desejava desesperadamente aterrissar; sentir terra firme sob os pés...

História de uma missão de guerra que terminou em vodka

O Tenente Rui Moreira Lima em seu P-47 Thunderbolt

O relato do piloto Tenente Rui Moreira Lima de uma das suas missões de ataque na área de Casarsa durante a Segunda Guerra :

No dia 11 de março de 1945, decolaram duas esquadrilhas do 1º Grupo de Caça sob o comando do Capitão Lagares, com a finalidade de bombardear a muito conhecida ponte de Casarsa, localizada ao norte de Veneza. Completava eu a 59ª missão de guerra. A ponte era conhecida por motivos óbvios. Ali, alguns companheiros trouxeram a marca da acurada artilharia alemã. Um deles, o Ten Armando de Souza Coelho, teve seu avião atingido, saltando de pára-quedas em território amigo. O Ten Othon Correia Neto, que não teve a sorte do Armando, saltou sobre a área de Casarsa, sendo feito prisioneiro. Eu mesmo já havia recebido meu quinhão, quando o meu P-47 foi atingido na asa, por estilhaços de 88. A verdade é que esse não era o lugar mais aprazível para ser "visitado". Quando nos designavam para ir até lá, não havia entusiasmo de nossa parte. Casarsa soava, para nós pilotos, como Bolonha, Ferrara, Legnago, Udine, Lavis, Piacenza, Isola di Scala e mais uma dezena de bem defendidos alvos do Vale do Pó. Lançar bombas em alvos como esses, se bem que fôssemos voluntários - o 1º Grupo era constituído somente de voluntários - causava-nos profundo respeito.

Decolaram as esquadrilhas Verde e Marrom. Na primeira, comandada pelo Cap Lagares, voavam o Ten Tormin, como nº 2, eu como líder de elemento, e o Ten Coelho como nº 4; a Marrom, também sob o comando de Lagares, formada pelo Cap Pessoa Ramos, o Ten Meira como nº 2, o Ten Perdigão como líder de elemento e o Ten Paulo Costa como nº 4. Todos veteranos. O menos experiente era o Tormin, mas que se tornou veterano nas suas primeiras missões, conquistando este título por bravura, precisão nos ataques, descontração no vôo sob o fogo antiaéreo e mais um punhado de qualidades que o tornaram um dos mais hábeis pilotos de caça de nossa Unidade.

A rota escolhida até o alvo saiu da rotina, pois ao invés de voarmos diretamente para o objetivo, o Lagares, para evitar o Flak de Bolonha, voou sobre nossas linhas até Florença, rumando daí para Casarsa. Nessa ocasião, parte da "Estrada 9" tinha caído nas mãos do VIII Exército Inglês. Ao cruzá-la, deixamos à nossa esquerda a cidade de Forli, recentemente conquistada pelos ingleses, estando ocupada por um esquadrão de aviões de ataque A-20, formada de poloneses da RAF. Para esta história, este detalhe é importante.

Chegamos a Casarsa na hora estabelecida, e iniciamos o ataque. Era uma ponte ferroviária sobre o rio Madunna, que só poderia ser considerado como tal na época das águas. Parecia um desses nossos rios do nordeste que, na seca, vira estrada.

Mergulharam o Lagares e o garoto Tormin, vindo eu em seguida. No momento em que iniciava o mergulho, descobri uma bateria de 88 alemã, localizada a uns 200 metros da ponte. Avisei pelo rádio: - "Jambock Verde, de Jambock Verde, nº 3, localizei uma bateria, vou atacá-la, antes de lançar minhas bombas". - "Boa sorte", replicou o Lagares.

Como era de esperar, fui recebido "festivamente", não somente pela bateria que estava atacando, mas por outras armas de menor calibre, inclusive canhões antiaéreos de 40 e 20 mm. Deixei tudo em volta e me fixei na bateria. Mais ou menos a uns 3000 pés, fui atingido no motor, perdendo dois cilindros. O motor começou a pegar fogo. Novo aviso ao Lagares: - "Jambock Verde, fui atingido, o avião está pegando fogo, vou continuar o ataque sobre a bateria, saltando de pára-quedas em seguida". Sem aguardar a resposta, desci mais sobre o alvo, que somente parou de atirar quando o seu último artilheiro foi eliminado. Honra à memória daqueles bravos alemães. Tudo isso correu no relógio em segundos. A velocidade de mergulho andava pelas 420 mph. Transmiti nova mensagem: - "Jambock Verde, estou com fogo a bordo, vou agora lançar minhas bombas sobre a ponte, 'entregando-as a domicílio', e depois saltarei".

Por sorte, no momento em que sobrevoávamos o alvo, estava parado sobre a ponte um trem alemão. As bombas dos setes aviões que me antecederam pegaram a aérea do alvo, mas não atingiram a ponte. Como fui fazer aquelas entregas, acertei em cheio. O trem era de munições. Uma festa pirotécnica. A explosão das duas bombas de 500 lbs do meu D-4, "o Poderoso" (eram esses o número e o nome do meu Thunderbolt), misturou-se à explosão da munição do trem.

Como ataquei a baixa altitude, fui atingido pelos estilhaços. Trouxe mais de 28 marcas no avião, sendo que em duas delas poderia passar uma bola de futebol de salão.

Cumprida a missão, com a ponte destruída, transmiti nova mensagem: - "Jambock Verde, é o Jambock Verde 3, vou saltar, a visibilidade é zero, pois, além do fogo, há óleo sobre o pára-brisa, cobrindo também o canopy e fumaça na nacele". Com o excesso de velocidade, levantei o nariz do avião, atingindo a altura de 8000 pés. Agora, só saltar e esperar o bicho que ia dar.

Nesse instante, ouvi a voz clara do Lagares: - "Não vai saltar coisa nenhuma, o fogo antiaéreo te pegará durante a queda, toma o rumo 150º que te avisarei quando deves saltar". - "E o fogo? Achas que devo virar churrasco ou explodir feito o trem lá embaixo?" - "É uma ordem, não salta agora, há Flak demais em torno do teu avião, estão te caçando, é burrice saltar agora". Outras vozes chegaram aos meus ouvidos. O estribilho era o mesmo, - "Não salta Arataca!" A solidariedade dos companheiros e a voz experiente do Lagares clarearam minha cabeça. - "Está bem, Jambock Verde, leva-me para outro local, que o canopy está começando a fundir, e eu estou vendo a hora de dar o último grito".

Voei na reta, sempre subindo, seguindo as instruções do Lagares. Não se via nada para o exterior. A labareda que vinha do motor lambia o lado esquerdo do canopy. O óleo, a fumaça tudo impedia que eu visse o azul lá fora. O vôo era por instrumentos, coisa que, na época, não era meu forte.

- "Agora salta, estás sobre o Adriático. Já pedi socorro. Dentro de duas horas terás um Catalina que te apanhará. Usa bem a cabeça e teu barco de emergência."

Acontece que, naquele instante, meu ímpeto de saltar já estava bem arrefecido. Afinal de contas, não era pára-quedista. Iria tentar um meio de apagar o fogo. Avisei, caprichando no timbre de voz, dando a impressão de que estava calmo de que não iria saltar enquanto não tentasse uma manobra para apagar o fogo. Minha decisão caiu como uma bomba sobre o pessoal. Entre as palavras que me chegavam aos ouvidos, quase todos me chamavam de burro, xingavam minha mãe, diziam que eu iria virar churrasco, que eu estava era com medo de saltar, etc. Ouvi o diabo, mas não dei bola. Aproveitei um intervalo e entrei no ar declarando: - "Estou a 12000 pés, vou cortar a gasolina, mistura, bateria, gerador e magnetos. Picarei em seguida até atingir 350 mph. O fogo deve apagar. Darei partida no motor outra vez, se o fogo voltar, saltarei. Caso contrário voarei até onde der". Pararam de falar, naturalmente para observar-me. Executei a manobra planejada, a labareda extinguiu-se. Ao dar nova partida, ela não voltou. Aumentou a fumaça, talvez por ter aumentado o vazamento de óleo.

Com o fogo apagado, o Lagares deu-me o rumo direto de Forli, a tal base de poloneses da RAF. Atendendo ao comando do Lagares, fui guiado até lá. Quando estava mais ou menos a um minuto da cabeceira da pista, em altura conveniente, o Lagares disse-me que estava alinhado com a pista, devendo cortar o motor à sua ordem.

Aí entrou São Tomé. Quis conferir. Pus o óculos de vôo, abri o canopy e estiquei o pescoço para fora. Um jato quente de óleo cobriu-me os óculos. Num gesto pouco inteligente, tirei os óculos e insisti. Desta vez paguei caro. A vista esquerda foi atingida com óleo quente. Já estava quase no chão. A ordem para cortar o motor veio rápida. Fazê-lo e deslizar de barriga sobre a pista foi questão de um piscar de olhos. Fiz uma aterrissagem sem rodas, pois tanto eu quanto o Lagares não queríamos correr o risco de "varar" a pista com uma possível explosão. O avião correu o suficiente para parar a uns dez metros do seu final. Depois daquele barulho infernal da lataria deslizando sobre uma pista de emergência feita de grades de ferro, e passado o susto momentâneo, chamei o Lagares, quase implorando que ele não me deixasse naquela base desconhecida, de aliados desconhecidos também, onde teria que me entender com poloneses falando inglês, língua cuja pronúncia arataca (sou nortista do Maranhão) não pegaria bem falando com gente da Polônia, que só conhecia através do rádio, quando Batatais engoliu 5 frangos e Leônidas e Hércules fizeram 6 gols em Majewski, no campeonato de futebol de 1938.

Meus apelos foram em vão. As esquadrilhas retornaram a Pisa. Fiquei entregue à minha própria sorte e sabedoria. Deixei o avião às carreiras. Ainda havia o perigo de uma explosão. Afastei-me o quanto pude. Sentei-me sobre o pára-quedas a uns 100 metros, tremendo, mas tremendo mesmo, a vista esquerda no escuro, aguardando o socorro de um carro contra-incêndio, uma ambulância e um jipão. Quem me descobriu primeiro foi o jipão. Sobre o capô vinha sentado um oficial da RAF. Louro, 1,88 m, uniforme bem posto, com algumas condecorações que, de longe, me perguntou: - "Brasileiro?" Como não imaginava que àquela altura dos acontecimentos fosse encontrar um inglês da RAF falando português, dei uma de inteligente e respondi: - "Yes". - "Yes, coisa alguma, seu sacana, como vão as mulheres de Copacabana? Que é que houve contigo?"

Caí das nuvens de alegria. Respondi-lhe com outra pergunta: - "E tu, que é que estás fazendo com esse uniforme da RAF?" - "Sou filho de inglês, nasci em Curitiba, e aqui estou nessa merda dessa guerra maluca". - "Mas por que estás aqui com os poloneses?"

Aí veio a explicação. Na véspera, dois aviões Focke Wulf-190 fizeram um ataque de surpresa, matando alguns tripulantes de A-20 que assistiam a um cinema ao ar livre. Por solicitação do comando polonês, a RAF mandou uma esquadrilha de Spitfires para fazer a defesa aérea de Forli. Comandando essa esquadrilha, veio o Frederick C. Tate, de Curitiba, Paraná, filho de inglês e tão louco quanto a guerra louca que já estava chegando ao fim.

O médico polonês que me atendeu foi gentilíssimo e eficiente. Ali mesmo fez a faxina no olho esquerdo. Com um chumaço de algodão embebido em líquido amarelo, limpou-me a vista. A impressão que tive é que ele usava um esfregão desses de encerar cerâmica S. Caetano. Doeu pra burro. Antes que eu visse qualquer coisa, pôs-me um tampão no olho esquerdo, ficando com aquela cara que tem hoje o Moshe Dayan.

Meu pensamento voava nesse momento para o Brasil. Pronto, acabou-se minha guerra e vou ter que voltar caolho. Que falta de sorte, de tantas me livrei nessa missão e agora fico cego pela metade. Fui interrompido pela voz amiga do Fredy, que me declarou estar tudo bem, inclusive com minha vista esquerda. Talvez passasse a um grau menor de visão, mas estava salva. Respirei, mas sem tranqüilidade. Somente no primeiro curativo, no dia seguinte, no Hospital Central de Livorno, é que tive a certeza que não estava cego.

Ainda foi o Frederick que me falou outra vez: - "Agora é que vai começar a tua guerra com esses poloneses. Toda a vez que alguém se safa de uma dessas como tu te safaste, é obrigado a tomar um pileque. E a bebida deles é vodka!"

Entramos no Jipão, passamos pelo centro médico de emergência, para uma limpeza corporal rápida (ficara todo sujo de óleo ao deixar o avião) e levaram-me para a cidade de Forli, onde estava localizado o cassino de oficiais dos poloneses. Lembro-me que encheram de vodka um copo próprio para uísque, que foi tomado de um só fôlego, ao som de uma bela canção guerreira polonesa. Nessa hora meu estado moral era o pior possível: dor de cabeça, a tremedeira que ainda não havia passado, um tampão no olho esquerdo, com todas as características que estava cego, aqueles alegres companheiros de língua diferente, um copo de vodka já bebido, que caiu garganta abaixo sem uma interrupção, não há dúvida que minha tábua de salvação ainda era o mesmo grande gozador Frederick Tate, o brasileiro rafeano que Deus mandou para me salvar.

Bebido o primeiro copo, encheram outro. Nova canção e pimba! Tive que tomá-lo. Não adiantaram meus rogos ao Fredy. O bandido estava ali para ver o circo pegar fogo. Não teve um gesto de pena. Lembro-me só o que me disse ao iniciar o segundo copo: -"Agora, meu velho, estás..."

Apaguei. Acordei no dia seguinte no Hospital Central de Livorno. Sofri uma coma alcoólica. Não morri por pura sorte.

Fonte deste artigo: Senta a Pua! - Rui Moreira Lima - Editora Itatiaia
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