terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Sobrevivente do inferno nazista



Polonês naturalizado brasileiro que escapou do Holocausto conta como foram os cinco anos passados em campos de concentração.

Quantas vezes você já teve a oportunidade de ficar frente a frente com um sobrevivente do Holocausto? Na semana passada, por iniciativa da Cruz Vermelha Brasileira, filial de Volta Redonda, o escritor polonês naturalizado brasileiro Aleksander Henryk Laks, de 72 anos, fez palestra no Teatro Gacemss contando sua história. Em cerca de duas horas ele relatou o verdadeiro inferno que viveu, durante cinco anos, nos campos de concentração mantidos pelos alemães, inclusive em Auschwitz, na Polônia, invadida em 1939.

Na tarde da terça-feira, dia 19, cerca de três horas antes do evento, Laks recebeu o FOCO REGIONAL no hotel onde ficou hospedado para uma conversa que durou mais de uma hora. Uma parte deste encontro está descrito nestas páginas pelo próprio escritor, em forma de depoimento. Afinal, como ele mesmo ressalta, o tempo não pode apagar um dos piores momentos da história da Humanidade, com o extermínio de cerca de seis milhões de judeus pelas tropas nazistas na Segunda Guerra Mundial.

No Brasil, Laks trabalhou como vendedor, casou-se "com uma brasileira", como faz questão de frisar, e teve dois filhos. É presidente da Associação Brasileira dos Israelitas Sobreviventes da Perseguição Nazista. Cidadão benemérito do estado do Rio e agraciado com a Medalha Pedro Ernesto, pela cidade do Rio de Janeiro, o escritor recebeu também na semana passada a Medalha de Direitos Humanos da Organização Benei Brit, que tem representação no Brasil.

Em suas palestras, Laks não se apresenta como vítima. Apenas conta o que testemunhou. Ao repórter, assegurou que não carrega o ódio pelo passado. Sua própria experiência resultou no livro "Sobrevivente – Memórias de um brasileiro que escapou de Auschwitz", lançado em 2007 pela Editora Record, que foi indicado ao Prêmio Jabuti e está em sua sétima edição. A entrevista é um resumo da história de um senhor simpático e afável, que, à primeira vista, não traz qualquer sensação de ter vivido os horrores que enfrentou.

"Costumo dizer que nunca vi ninguém voltar do céu, mas eu voltei do inferno. Tinha 12 anos quando fui preso, em 1º de maio de 1940. Meu pai (Jacob) era gerente de um frigorífico. Minha cidade, Lodz, foi transformada num gueto. Os alemães fecharam tudo e não se podia sair de lá. Todos os meus parentes foram mortos em campos de extermínio. Quando acabaram com o gueto, eu e meus pais fomos levados para Auschwitz, onde minha mãe pereceu na câmara de gás e depois foi cremada no crematório.

Em Auschwitz, eu e meu pai fomos vendidos para trabalho escravo a outro campo, em Gross Rossen (Alemanha). Quando a frente dos aliados chegou perto deste campo, fomos levados para a Marcha da Morte. Tínhamos que andar sem rumo, sempre juntos, sem poder fazer as nossas necessidades, comer ou beber. Era inverno e ficávamos sempre ao relento. A maioria morria congelada. À noite ganhávamos quatro ou cinco batatas cozidas e só. Para beber, tínhamos que pegar neve. Saímos 600 prisioneiros do campo e em pouco tempo fomos reduzidos a 50 pessoas.

Quem ficava para trás era fuzilado. Quem sentava era fuzilado. Quem encostava no outro porque já não tinha forças era fuzilado. Na Marcha da Morte morreram mais de dois milhões de judeus. Chegamos a pé no campo de Flossenburg. Era também um campo de extermínio e grassava a desinteria. Meu pai pegou a doença. Por ser muito fraco e doente, foi assassinado a pauladas, aos 45 anos de idade. Eu era filho único. Vi o que nenhum ser humano devia assistir ou ver. Quando meu pai morreu o crematório não suportava mais queimar cadáveres, tantos que tinham lá. Meu pai foi queimado numa pira".

‘Vi o que nenhum ser humano deveria assistir’

Neste momento, os olhos de Laks ficaram marejados. O repórter pede então que ele comente como foi voltar à Alemanha, especialmente a Flossenburg, há pouco mais de um mês. "Foi a segunda vez que estive lá, no encontro de ex-prisioneiros de Flossenburg. Havia umas 80 pessoas do mundo todo. Fiz várias palestras, inclusive nas escolas alemãs, sobre o Holocausto. Revivi tudo, claro, desabei. Quando voltei para o Rio fiquei dois dias internado. Durante 60 anos eu disse que não pisaria na Alemanha, principalmente onde mataram meu pai. Mas há três anos senti vontade de retornar ao lugar onde as cinzas dele foram espalhadas.

Fui libertado dois dias depois da morte do meu pai. Houve uma ordem para que o campo fosse evacuado e que nenhum prisioneiro caísse nas mãos dos aliados. Fomos levados de trem para sermos afogados em Bodensenn, no sul da Alemanha, mas, no meio do caminho, o trem foi bombardeado pelos aliados. Pegamos outro trem, na estação de Emmendingen, mas ele não chegou a sair. Fui libertado pelos franceses. Tinha 17 anos e pesava 28 quilos. Estava sem pai, sem pátria, sem dinheiro, sem amigos.

‘Fui libertado aos 17 anos, pesando 28 quilos’

Os aliados fizeram campos de refugiados e fiquei num deles, americano, onde ganhei roupa e comida. Depois fui para Nova York, onde morei quase um ano. Então me lembrei que havia uma irmã de meu pai, que vivia no Rio, viera antes da guerra. Sabendo que eu sobrevivi, ela queria me ver. Vim como turista e não voltei aos Estados Unidos. Me apaixonei pelo Brasil, pelo Rio e pelo povo brasileiro. Hoje sou brasileiro com muita honra.


Aleksander Henryk Laks, aos 72 anos.

Minhas palestras são bem recebidas porque não me apresento como vítima. Conto o que aconteceu, mas o intuito não é ser vítima. O intuito é recontar para nunca mais acontecer isso com ninguém. O livro que escrevi teve o mesmo intuito: contar a verdade e alertar que isso nunca, nunca mais, pode acontecer com ninguém. Nas minhas palestras, os mais jovens são quase sempre mais interessados que os adultos. Eles são mais sensíveis. Faço em escolas, universidades, igrejas e a quem se interessar. É um testemunho que trago, ninguém me contou, eu vi.

Uma das perguntas que mais me fazem é qual foi o pior momento. Todos eles, respondo. Também perguntam se tenho ódio. Não carrego, por isso estou vivo. Disse isso aos alunos nas escolas alemãs. Disse que eles não têm culpa e realmente não têm. Esta é uma passagem da história que o tempo não vai apagar, embora alguns digam que não existiu. Sabem que estão mentindo, mas dizem que não existiu. A estes eu pergunto: onde estão os seus parentes e onde estão os meus?".


Creditos: http://focoregional.com.br

A agonia de Sebastopol

A cidade-fortaleza em ruinas

O jornalista soviético Boris Voyetekhov relata a face da guerra na cidade-fortaleza, durante os últimos dias do cerco alemão :

A noite caía rapidamente quando nosso destróier se aproximava da arruinada Sebastopol. O Farol de Kherson irradiava seus primeiros sinais luminosos. Era a única luz que não estava camuflada de modo permanente. Mal tinha começado a cumprir sua abnegada missão quando os seus flancos se iluminaram também, mas com os estampidos das granadas.

Os nossos marinheiros sabiam que o acolhimento daquela luz familiar não os convidava ao repouso nem ao calor de um lar feliz. Aquele resplendor hesitante dizia: "Em breve atravessareis os umbrais das nossas casas destruídas. Em breve vereis o que os alemães fizeram da nossa cidade."

Diminuímos a velocidade e iniciamos a travessia do canal pelo dédalo dos campos de minas. No começo da ofensiva, os alemães haviam minado o porto cheio de barcos. Mas os marinheiros russos tinham-se atirado à água, empurrando as minas flutuantes até a margem. Muitos morreram, despedaçados pela explosão das minas, para abrir uma passagem que permitisse aos nossos navios sair de Sebastopol e voltar carregados de munições destinadas aos seus defensores.

Quando por fim chegamos ao porto interior, vimos Sebastopol envolta em chamas e fumaça dos incêndios provocados pelos projéteis inimigos. O punhal nazista ameaçava a garganta da desditosa cidade. Em cima, no céu, centenas de projetores, russos e alemães, cruzavam num duelo aéreo as suas luzes, semelhantes a espadas de prata. As balas teciam os seus fios mortíferos. A superfície aprazível da baía refletia o inferno que se desencadeava ao longo das duas margens. À esquerda do cais em que atracamos, quartéis e depósitos pegavam fogo. Enquanto observava o espetáculo, vi desmoronar-se lentamente, sobre o mar, a única parte de um edifício que estivera até então de pé.

- Temos sorte, a noite está tranqüila - disse o nosso capitão.
- O senhor chama isso de tranqüilidade?! Que acontece quando não há?
- Amanhã de manhã terá a resposta - replicou.

O desembarque dos homens e das munições, bem como o carregamento do destróier com feridos e evacuados, realizou-se de forma incrivelmente rápida. Eu tinha ainda alguns assuntos a resolver no almirantado; um comissário de bordo levou-me até lá.

A entrada para o posto de comando do Estado-Maior da Marinha, centro nevrálgico da defesa de Sebastopol, era um túnel perfurado nos rochedos. Dentro, galerias estreitas conduziam ao coração da rocha. O débil resplendor das lâmpadas elétricas mal ajudava a caminhar, quase às cegas, na penumbra. Dos corredores o olhar penetrava, através de numerosas portas, em pequenos quartos onde gente ativa vivia e trabalhava, com os nervos à flor da pele. Ouviam-se breves trechos de conversas telefônicas, o matraquear das máquinas de escrever, os gritos dos feridos, entremeados com as respostas secas dos oficiais de serviço e o ruidoso ressonar dos que dormiam.
Prisioneiros sendo feitos pelos alemães

Os aparelhos de rádio ditavam mensagens urgentes; escutei alguns fragmentos ao passar: "Grupo de projetores O-24: ilumine a entrada da baía para um transporte que entra. Mulheres e crianças retiradas do transporte afundado são recolhidas pelos navios de guerra. Os alemães atiram sobre o porto. Dêem instruções à 35ª Bateria para bombardear os alemães."

Estes compartimentos subterrâneos estavam providos, nos pontos mais profundos da rocha, de condutos de água potável, esgotos, um restaurante, um salão de cabeleireiro e muitas outras instalações. Mas o ar rareava e, quando os ventiladores avariavam, a respiração tornava-se difícil. Havia muitas mulheres entre o pessoal; assistir ao seu corajoso trabalho era um trágico espetáculo. Os seus olhos claros estavam cheios de olheiras e injetados de sangue. Respiravam penosamente diante dos telefones ou das máquinas de escrever. De vez em quando, revezando-se, tomavam nos braços os filhos adormecidos e suados e subiam às trincheiras exteriores para aspirar profundamente o ar do mar. Mas estes momentos de descanso eram escassos e interrompidos freqüentemente pelos shrapnels ou pelas bombas.

Sob a terra, todas as vozes, todos os sons, eram abafados pelo ruído espantoso das explosões na superfície. O bombardeio (que recomeçava todos os dias precisamente ao amanhecer) era tão intenso que, em alguns locais, abrira fendas na rocha. Parecia que, de um instante para outro, aqueles corredores, aqueles quartos, aqueles refúgios mal instalados, iam desfazer-se, sepultando tantas pessoas que ali trabalhavam sem repouso.

Durante os quatro dias seguintes não abandonei o subterrâneo e nada vi do que acontecia no exterior. Mas um oficial - que saíra no cumprimento de ordens recebidas - descreveu-me horrorizado o aniquilamento da cidade.

- Já não existe Sebastopol. As casas já não têm telhados e as ruas estão bloqueadas por montões de escombros.

Efetivamente não havia um só lugar que não estivesse ameaçado pelas bombas, as ruínas terrestres ou os projéteis. Tudo aquilo que se movia - trenós, automóveis ou motocicletas - era perseguido e atacado. As esquadrilhas inimigas descobriam as mulheres e as crianças que, perto da margem, ao abrigo das rochas, esperavam ser evacuadas: potentes explosivos os enterravam sob as ruínas.

Todos os dias os mergulhadores informavam ao almirantado o material recuperado no fundo do porto. Estes especialistas dos mistérios submarinos realizavam incursões noturnas e, rebuscando entre toda a espécie de restos e cadáveres, carregavam os recipientes que levavam com as bombas e os projéteis que não tinham chegado a explodir.

O comissário era insaciável. Folheava as listas do material recuperado nos barcos afundados e perguntava constantemente:

- Onde estão esses seis motores de aviação? Onde estão as ataduras, o algodão e os remédios? Que fazem vocês debaixo da água?! Será que jogam xadrez com os mortos?!
- Exatamente - retorquiu o chefe dos mergulhadores - E o senhor faria muito bem se fosse dar uma volta por lá, para compreender que é impossível trazer esses motores para a superfície. Estão no porão, cobertos por montões de cavalos mortos. Quanto aos medicamentos... - hesitava - Não! Não é possível chegar até lá.
- Por quê?
- Olhe: há mais de trinta anos que sou mergulhador; tenho visto coisas que fizeram perder a cabeça aos que trabalhavam comigo. Mas, entrar naquela cabina, onde mal a porta se abre, há cadáveres de crianças que chocam conosco... não! Não posso fazer isso.
- Bem! - replica o comissário - Quer dizer: você prefere deixar morrer as outras crianças por falta de remédios e alimentos!

Estas discussões terminavam sempre da mesma maneira: os mergulhadores voltavam ao fundo do mar. No dia seguinte, pela manhã, levavam os motores de avião para o aeródromo; as ataduras secavam ao sol e, no céu de Sebastopol, os projéteis recuperados voavam contra o inimigo.

Noite após noite, os nossos barcos penetravam no porto, trazendo reforços, víveres e munições e evacuando as mulheres e as crianças. Os alemães iluminavam com seus foguetes e projetores os pontos de atracagem e nos bombardeavam sem piedade. O espetáculo era indescritível: os depósitos de petróleo voavam pelos ares; os cunhetes de munição explodiam; caminhões transbordando atravessavam a toda a velocidade as chamas e a fumaça, enquanto os soldados de engenharia se esforçavam por dominar os incêndios.

Uniam-se os esforços de todos para manter incessantemente o ritmo formidável de carga e descarga. Era preciso andar depressa, sempre mais depressa. Era preciso que, ao amanhecer, todos os barcos estivessem no mar alto. Como o que estava em jogo tinha muita importância os meios empregados revestiam-se de extrema dureza. Entre os trabalhadores do cais havia certo número de condenados. Um deles reunira um grupo de descontentes que atrasavam o trabalho. Um oficial de transmissões aproximou-se do cabeça e gritou-lhe:

- Abre a boca e diz: Ah!

E imediatamente disparou sobre ele um tiro de revólver. Os seus dentes voaram, misturados com sangue e pedaços de cérebro. Depois, voltando-se para os outros, o oficial disse:

- O que eu quero é um bom rendimento.

Quando, por fim, ganhei a coragem suficiente para sair em pleno dia do refúgio subterrâneo do almirantado, senti-me desfalecer perante o panorama gigantesco e espantoso que se estendia ante os meus olhos. Barcos meio submersos, dos quais se via sobressair a popa ou a proa, retinham ainda, colhidos na armadilha, o seu carregamento de infelizes fugitivos. Uma escuna, carregada até à borda, jazia sobre o costado, apontando para a margem os seus mastros inclinados sobre a água, como um homem que se afoga e estende os braços pedindo auxílio.

Os habitantes das casas mais próximas do mar procuravam geralmente abrigo entre esses cascos, durante as incursões aéreas. Acreditavam ingenuamente que as bombas não caem duas vezes no mesmo lugar. Enganavam-se porque os alemães bombardeavam também os destroços.

Na cidade não havia tempo para enterrar os mortos. Eram cobertos com uma fina camada de terra. Num túmulo onde jazia um avião avariado, li estas palavras escritas num pedaço de hélice: "Também vós, os mortos, tendes que deixar um espaço livre nas vossas tumbas! Apertai-vos uns contra os outros, velhos soldados! Um recém-vindo se junta agora a vós para demonstrar seu amor ao combate. Acolhei-o nos vossos túmulos, era um valente."
Porto de Sebastopol destruido

Os alemães, que procuravam localizar certos depósitos de petróleo, tinham devastado completamente um cemitério. Os restos dos mortos da guerra da Criméia estavam espalhados e as suas cinzas impregnadas de sangue fresco. Por trás do cemitério estendia-se uma zona tão duramente bombardeada que era impossível saber onde antes tinham existido casas ou ruas. Ali, nas crateras cheias de água sanguinolenta, flutuavam mãos, membros, troncos de crianças.

Fiquei assombrado ao ver nestes espantosos lugares uma mulher jovem, modestamente vestida, que, com o passo prudente e seguro, abria caminho através das ruínas levando nos braços um ramo de flores frescas. Andava pelas ruas bombardeadas com a cabeça erguida, sem pestanejar. Contaram-me que todos os dias atravessava a Sebastopol em ruínas para ir ao cemitério colocar flores sobre a campa do seu marido, herói anônimo morto durante a defesa da cidade. Recomendava-se a ela que se juntasse aos evacuados, mas repelia a sugestão dizendo: "Permanecerei no lugar onde repousa o meu marido." Os combatentes sentiam orgulho por ela, orgulho pela sua firmeza, orgulho por verem que permanecia ao seu lado essa russa silenciosa e modesta, cujo amor era tão belo e resplandecente.

As fotografias tiradas por aviões de reconhecimento proporcionavam ao comando alemão a prova indiscutível de que Sebastopol deixara de existir. Dissera-se aos soldados que, decorridos dois dias no máximo, tomariam banho na baía e que, em seguida, teriam uma longa licença.

Apesar disso, Sebastopol continuava vivendo. Fervendo de ódio e energia, roía a terra, mordendo-a com as suas gengivas sangrentas. Privada da vida ao ar livre, Sebastopol continuava existindo e lutando nas covas, nas pedreiras abandonadas, nos refúgios improvisados.

Nada mais exemplificativo desta situação do que a fábrica subterrânea que eu visitei. Ali, a barafunda era incrível. O imenso porão estava dividido em compartimentos por pesados tabiques metálicos, atrás dos quais centenas de tornos zumbiam. Um motor de trator, rugindo e fumegando, servia de gerador. Quando o motor parava, as luzes se apagavam: instantaneamente todos os operários acendiam um cigarro e centenas de fracas luzinhas brilhavam na escuridão. Tinham combinado que só fumariam quando o trabalho fosse interrompido por falta de corrente.
O morteiro THOR de 600mm em bombardeia a cidade

As máquinas funcionavam 24 horas por dia. Todas as pessoas trabalhavam. Defronte de mim, uma mulher já idosa permanecia em frente de uma máquina de imprimir. Faltava-lhe a mão direita. A onda explosiva de uma bomba a tinha arrancado. Ao sair do hospital, não permitira que a evacuassem. Ao seu lado, uma mulher nova e bonita dava de mamar a um bebê, vigiando ao mesmo tempo uma máquina perfuradora. Às vezes distraía seus camaradas cantando uma canção de embalar.

Em beliches de três andares, colocados ao longo das paredes, dormiam operários dos grupos que tinham sido rendidos, amontoados entre os seus objetos pessoais e as bagagens para as quais não se encontrara arrumação possível. Na parte inferior dos beliches, crianças pálidas e enfermiças brincavam com os soldados. As meninas enrolavam granadas em panos de cores vivas e faziam bonecas com elas. Agentes de ligação, chefes de serviço, jornalistas, operadores de noticiários cinematográficos atravessavam as fileiras de beliches e percorriam apressadamente os corredores.

De joelhos ante uma pequena mesa, um engenheiro fazia a barba. O caixa pagava os salários. Um telefonista - que estava no seu período de descanso - tocava violão.

Era assim que vivia e trabalhava essa gente. E outras. E outras...

Fuga desesperada!







Saburo Sakai, o maior ás japonês que sobreviveu à II guerra, relata sua perseguição por 15 Hellcats :

Para onde quer que eu olhasse, só via caças, longos rastros de fumaça, explosões e chamas. Perdi muito tempo a olhar. Balas traçadoras despejaram-se diretamente sob minha asa e, instintivamente, puxei o manche para a esquerda, fazendo um rolamento para trás, a fim de atacar o avião pela traseira e disparei uma rajada. Errei. Ele mergulhou, saindo do meu alcance tão rapidamente que eu não podia acompanhá-lo. Praguejei por ter me deixado surpreender e, com igual veemência, amaldiçoei meu olho esquerdo, que deixava quase metade da minha área de visão no escuro. O mais depressa que pude, desembaracei-me das tiras do pára-quedas, para me deixar livres o s movimentos, de modo que eu pudesse compensar a perda de visão lateral.

E olhei sem perda de tempo; havia pelo menos meia dúzia de Hellcats atrás de mim, tentando tomar posição de tiro. De suas asas saíram vivas cintilações, quando eles abriram fogo. Outro rolamento para a esquerda – depressa! – e as traçadoras passaram sem me atingir. Os seis caças passaram perto das minhas asas e subiram para a direita. Desta vez, não! Comprimi o afogador e fiz um rolamento para trás e para a direita, indo atrás dos seis caças à velocidade que o Zero me podia dar. Lancei um olhar à retaguarda – não havia nenhum caça a perseguir-me. Um deles seria meu, praguejei! Aproximei-me rapidamente do avião que estava mais próximo. A uns 50 metros de distância, abri fogo contra ele de canhão, observando que, depois de as granadas, penetrarem a fuselagem do avião atingido, surgiam clarões e fumaça dentro da cúpula de vidro; no instante seguinte, o Hellcat guinou loucamente e inclinou-se para um lado, soltando um rolo de fumaça que a cada instante aumentava.

Porém, havia mais caças atrás de mim! De repente, eu não quis mais lutar contra eles. O cansaço me envolveu inteiramente. Nos velhos tempos, em Lae, ainda teria saído com o Zero atrás deles. Mas agora, parecia que meu vigor se esgotara, eu não queria lutar. Mergulhei e fugi. Naquelas condições, combater os Hellcats seria suicídio. Um pequeno erro, o menor atraso no movimento do manche ou da barra do leme...e seria o fim. Desejava tempo para recuperar o fôlego, livrar-me da tontura repentina, resultante, sem dúvida, da tentativa de ver com apenas um olho tanto quanto com dois; eu sabia que não podia lutar. Fugi para o norte, usando o overboost para escapar. Os Hellcats me deixaram e foram em busca de novas presas.

Sobrevoei lentamente o norte de Iwo Jima, aspirando profundamente e tentando relaxar. Passada a tonteira, voltei para a área de batalha. A luta terminara. Ainda havia Zeros e Hellcats no céu, mas muito afastados uns dos outros, tentando reunir-se aos respectivos grupos. À frente e à direita, avistei 15 Zeros voando em formação e aproximei-me para reunir-me a eles. Entrei sob a formação e...

Hellcats! Agora eu compreendia a razão porque o cirurgião protestara com tanta veemência contra meu retorno ao combate. Com apenas um olho, minha perspectiva estava muito deficiente. Escapavam-me, à distância, os detalhes que orientam a identificação. Somente quando as estrelas brancas nas asas azuis se tornaram nítidas é que percebi meu erro. Não perdi tempo em combater o medo que tomou conta de mim. Fiz um rolamento para a esquerda e, depois, uma curva fechada, mergulhando para ganhar velocidade, esperando que os pilotos inimigos não me tivessem visto. Não tive essa sorte, a formação de Hellcats se desfez e partiram em minha perseguição. Que podia eu fazer? Parecia que não teria chance alguma de escapar.

Agora eu percebia a velocidade desses novos caças. Em segundos, tão velozes eram, estavam já próximos. Era inútil continuar fugindo... Retornei, numa curva fechada. A manobra espantou os pilotos inimigos, ao me verem subir, em sua direção, numa espiral. Fiquei surpreso: eles não se separaram. O caça da frente respondeu com idêntica espiral, acompanhando à perfeição a minha manobra. Tornei a entrar em espiral, desta vez aproximando-me mais. Os caças adversários recusaram-se a ceder um palmo sequer. Isto era novidade. Um Airacobra ou um P40 se teria perdido, na tentativa de acompanhar-me assim. Nem mesmo um Wildcat poderia manter-se em espiral, durante tanto tempo, contra o Zero. Mas estes novos Hellcats eram os aviões mais manobráveis que já havia encontrado. Saí da espiral e caí numa armadilha. Os 15 caças saíram de suas espirais e formaram uma longa coluna e, no momento seguinte, encontrei-me a circular dentro de um gigantesco anel formado por 15 aviões inimigos. Por todos os lados, só asas largas com suas estrelas brancas. Se algum dia um piloto se viu cercado, no ar, por todos os lados, fui eu.

Mas não deram muito tempo para pensar na minha desgraça. Quatro Hellcats deixaram o círculo e mergulharam contra mim. Eles estavam por demais ávidos. Saí facilmente do caminho com um rolamento e eles passaram por mim, descontrolados. Mas o que eu julgara ser apenas um simples rolamento, me colocara contra vários outros caças. Um segundo quarteto de aviões saiu do anel, bem atrás de mim.

Fugi. Obriguei o motor a dar-me toda a potência possível e pus-me fora do alcance das armas do inimigo, por instantes. Os quatro aviões que me perseguiam, não me preocupavam; era o primeiro quarteto. Eu estava certo. Eles saíram do mergulho e logo se colocaram acima de mim, mergulhando para outros disparos. Meti o pé direito na barra do leme, desviando o Zero para a esquerda, fazendo um rolamento fechado. Luzes cintilantes apareceram debaixo da minha asa direita e um Hellcat caiu.

Saí do rolamento numa curva fechada. O segundo Hellcat estava a uns 700 metros atrás de mim, com suas asas já pontilhadas de chamas amarelas das suas metralhadoras. Certifiquei-me, então, de uma coisa que me poderia favorecer: os pilotos inimigos eram tão inexperientes quanto os meus aviadores... e isso talvez me salvasse a vida.

O segundo caça continuava a aproximar-se enchendo o céu de balas traçadoras, sem me atingir. Não pare! – berrei. Vamos, gaste toda a munição; você será uma preocupação a menos. Tornei a fazer uma curva e fugi, com o Hellcat aproximando-se rapidamente. Quando ele estava a uns 300 metros atrás de mim, fiz um rolamento para a esquerda e o Hellcat passou por baixo ainda disparando no vazio. Perdi a paciência: porque fugir de um piloto tão canhestro? Sem pensar, fiz o rolamento para trás e fiquei na sua cauda. À distância de 50 metros, disparei o canhão. Em vão. Eu não corrigira a glissagem causada pela curva abrupta que fiz. E, de repente, não me importava mais com o que acontecesse com o caça à minha frente... outro vinha atrás de mim, disparando sem cessar. Outro rolamento para a esquerda – manobra que não falhava nunca. O Hellcat passou barulhentamente, seguido dos dois outros aparelhos do quarteto.

Mais quatro aviões estavam quase acima de mim, prontos para mergulhar. Às vezes, a gente tem de atacar para se defender. Entrei numa subida vertical, diretamente sob os quatro caças. Os pilotos inclinavam as asas de um lado para outro, tentando encontrar-me. Não tinha tempo de dispersá-los. Três Hellcats vieram contra mim, da direita e, por pouco, escapei às suas traçadoras, ao fugir com o mesmo rolamento para a esquerda.

Os caças haviam reconstituído o seu grande anel. Qualquer movimento que eu fizesse para escapar, atrairia vários Hellcats de diferentes direções. Fiquei a circular no meio do anel, à procura de uma saída. Eles não pretendiam deixar-me escapar, um após outro, os caças abandonaram o círculo e vieram contra mim, disparando no curso da aproximação. Não me lembro de quantas vezes os caças me atacaram, nem quantos rolamentos fiz. Eu estava encharcado de suor, que me corria pelo rosto e praguejava quando o líquido salgado me caía no olho esquerdo... Não tinha mãos para esfregá-lo, para remover o sal, para tentar ver.

Eu estava cada vez mais cansado. Não sabia como escapar ao cerco. Mas era evidente que estes pilotos não eram tão bons quanto os aviões que tinham nas mãos. Uma voz parecia sussurrar me meu ouvido, repetindo sempre as mesmas palavras... velocidade... mantenha a velocidade... aqueça o motos, queime-o, mantenha a velocidade!... continue fazendo rolamentos... não pare de fazer rolamentos. Meu braço começava a ficar dormente com os rolamentos, a fim de escapar às traçadoras dos Hellcats. Se eu diminuísse a velocidade por um instante sequer, ao guinar para a esquerda, seria o fim. Mas durante quanto tempo poderia manter a velocidade necessária, nos rolamentos, para escapar?



Tenho de continuar fazendo rolamentos! Enquanto os Hellcats mantivessem intacto o anel que formaram, somente um caça de cada vez poderia atacar-me e eu não temia escapar a qualquer avião que, sozinho, viesse ao meu encontro. As balas traçadoras passavam perto, mas tinham de atingir-me com precisão para me derrubar. Não importava que passassem a 100 metros ou a 10 centímetros de distância. O que importava é que não me atingissem.

Fiz o rolamento. Manche todo para a direita.
Aí vem outro!
Rolamento rápido. O mar e o horizonte rodando como loucos.
Glisse! Outro! Puxa, esse passou perto!
Traçadoras brilhantes, cintilantes, faiscantes.
Sempre sob a asa.
Mantenha a velocidade!
Rolamento para a esquerda.
Rolamento.
Meu braço! Mal posso senti-lo, está todo dormente!

Se qualquer dos pilotos dos Hellcats tivesse escolhido uma aproximação diferente para fazer a passagem de tiro ou se concentrado na pontaria, é certo que teria me derrubado. Mas, em momento algum, os pilotos inimigos apontaram para onde meu avião estava indo. Se um dos caças tivesse despejado as suas traçadoras no espaço vazio, à minha frente, para o lado em que eu fazia sempre os rolamentos, isto é, para a esquerda, teria acertado todas. Mas os aviadores têm um peculiaridade. Adotam estranha psicologia. Excetuando aqueles raros que se sobressaem e se transformam em grandes ases, 99 % dos pilotos apegam-se à formula que aprenderam na escola. Treine-os para seguir certo padrão e, aconteça o que acontecer, eles jamais pensarão em sair dele, quando numa batalha de vida ou morte.

Assim, aquela contenda se resumia num teste de resistência entre a reserva de combustível dos Hellcats e a força de meu braço, para permitir os golpes de fuga no momento certo. Se esgotasse o combustível dos Hellcats, eles teriam de retornar aos seus porta-aviões.

Olhei o indicador de velocidade do ar. Quase 560 Km/h, o melhor que um Zero podia dar.

Precisa de resistência não só para o braço. O caça também tinha seus limites. Eu temia pelas asas, pois elas estavam se dobrando muito sob a violência das repetidas manobras que vinha aplicando para escapar. Havia o risco de fadiga do material que, se se verificasse, poderia fazer com que se soltassem as asas do Zero, mas eu tinha de continuar voando, de forçar o avião nos rolamentos evasivos ou aceitar a morte.

O altímetro estava no zero e o oceano, logo abaixo do meu avião. Mantenha as asas levantadas, Sakai, ou elas acabarão por bater numa onda. Onde começara a luta? A 4.200 m de altitude. Mais de 4 Km de glissagens e rolamentos para escapar às traçadoras, descendo cada vez mais. Agora, não tinha mais altitude alguma. Mas os Hellcats não podiam mais fazer suas corridas de tiro como antes. Não podiam mergulhar, pois não lhes sobraria espaço para sair do mergulho. Eles tentariam outra coisa, o que me dava alguns momentos. Segurei o manche com a mão esquerda, sacudi a direita com força. Doeu.
Tudo doía, e a dormência era cada vez maior.

Lá vêm eles, saindo do anel. Estão cautelosos, agora, receosos do que eu possa fazer de repente. Será difícil sair do caminho? Glisse para a esquerda, cuidado... as traçadoras. Elas fazem levantar borrifos de água e espuma. Aí vem outro. Quantas vezes me atacaram? Perdi a conta. Quando é que desistirão? O combustível deles DEVE estar acabando!

Mas eu não podia mais rolar direito. Meus braços começavam a ceder à fadiga. Não tinha mais tato. Em vez de um movimento de rolamento rápido e fechado, o Zero fez um curva oval, malfeita, que aumentava a cada manobra. Os Hellcats perceberam o que se passava e forçaram os ataques, agora mais arrojados. Suas passagens eram tão rápidas, que eu mal podia respirar. Não conseguiria manter esse ritmo por mais tempo. Tenho que escapar! Saí de outro rolamento para a esquerda, empurrei a barra do leme à esquerda e puxei o manche todo para a esquerda. O Zero respondeu com firmeza e eu atirei contra um caça, para abrir caminho, e subi. Os Hellcats ficaram por instantes confusos e saíram, a seguir, em minha perseguição. Procurei escapar, mergulhando e voltei à superfície do mar.

Metade dos aviões formou uma barricada acima de mim, enquanto os outros, a vomitar balas, vinham à minha retaguarda. Os Hellcats eram velozes demais. Em poucos segundos, eu estava ao alcance de suas balas. Continuei rápido para a direita, sem parar, forçando o Zero, que sacudia a cada manobra. À esquerda, esguichos de água pontilhavam o mar, marcando os pontos em que batiam as traçadoras, que por pouco não me acertavam.

Eles recusavam-se a desistir. Os caças que estavam acima de mim saíram em minha perseguição, tentando antecipar-se aos meus movimentos, nos mergulhos que faziam, enquanto que, os que deslizavam atrás de mim, não paravam de disparar. Mal podendo mover pernas e braços, parecia-me difícil escapar. Eu continuava voando baixo e seria apenas questão de minutos, quando eu seria lento em acionar o manche. Por que esperar pelo abraço da morte, correndo como um covarde? Puxei o manche todo para trás, as mãos quase tocando o estômago. O Zero subiu ruidosamente e, a apenas 100 m à minha frente, estava o Hellcat com o piloto, à minha procura. Os caças que vinham atrás de mim já se preparavam para atacar de novo. Não importava o número deles. Só queria aquele caça. O Hellcat tremeu loucamente para fugir. Agora! Apertei o gatilho, numa rajada de traçadoras. Meus braços estavam dormentes demais. O Zero vibrou todo e o Hellcat rolou abruptamente e subiu, em fuga.

O loop ajudara. Os outros caças sobrevoavam o local, confusos. Tornei a subir para fugir. Os Hellcats estavam atrás de mim. Os idiotas estavam disparando de uma distância de 500 m. Desperdicem a munição, vamos, desperdicem-na, gritei. Mas eles eram tão velozes! As traçadoras passaram perto das minhas asas e eu rolei desesperadamente.

Iwo Jima apareceu de repente lá embaixo. Sacudi as asas, esperando que os artilheiros em terra vissem as marcas vermelhas. Foi um erro; a manobra reduziu-me a velocidade e os Hellcats estavam novamente em cima de mim. Onde estava o fogo antiaéreo? O que estava acontecendo com os homens na ilha? Atirem, idiotas, vamos!

Iwo irrompeu em chamas. Clarões cortavam a ilha. Eles estavam disparando todos os canhões, vomitando traçadoras para o alto. As explosões sacudiram o Zero. Rolos de fumaça apareceram no ar, no meio dos Hellcats. Eles fizeram uma curva fechada e mergulharam para sair do alcance das armas.

Eu continuava à toda. Apavorado, não parava de olhar para trás, temeroso de que eles voltassem, de que, a qualquer momento, suas traçadoras me varassem a carlinga e me jogassem no chão. Passei por Iwo Jima, empurrei o afogador, forçando ao avião a voar mais depressa, encaminhando-me rapidamente para uma gigantesca nuvem cúmulos, bem no alto. Não me importavam as correntes de ar, só queria escapar daqueles caças e mergulhei nela a grande velocidade.

Um punho tremendo pareceu agarrar o Zero e sacudi-lo em todas as direções. Não havia nada a não ser clarões vívidos dos relâmpagos. Depois, trevas. Perdera o controle. O Zero mergulhou e empinou-se. Ele estava de cabeça para baixo, caindo; rolou depois sobre as asas e começou a subir de ré. Consegui sair. A tempestade que varria o interior da nuvem cuspiu o Zero com uma sacudidela violenta. Eu estava de cabeça para baixo e recuperei o controle a menos de 500 metros. Bem aos sul, vislumbrei os 15 Hellcats voltando para seu porta-aviões. Era inacreditável que tudo tivesse terminado e que eu ainda estivesse vivo. Desejava desesperadamente aterrissar; sentir terra firme sob os pés...

História de uma missão de guerra que terminou em vodka

O Tenente Rui Moreira Lima em seu P-47 Thunderbolt

O relato do piloto Tenente Rui Moreira Lima de uma das suas missões de ataque na área de Casarsa durante a Segunda Guerra :

No dia 11 de março de 1945, decolaram duas esquadrilhas do 1º Grupo de Caça sob o comando do Capitão Lagares, com a finalidade de bombardear a muito conhecida ponte de Casarsa, localizada ao norte de Veneza. Completava eu a 59ª missão de guerra. A ponte era conhecida por motivos óbvios. Ali, alguns companheiros trouxeram a marca da acurada artilharia alemã. Um deles, o Ten Armando de Souza Coelho, teve seu avião atingido, saltando de pára-quedas em território amigo. O Ten Othon Correia Neto, que não teve a sorte do Armando, saltou sobre a área de Casarsa, sendo feito prisioneiro. Eu mesmo já havia recebido meu quinhão, quando o meu P-47 foi atingido na asa, por estilhaços de 88. A verdade é que esse não era o lugar mais aprazível para ser "visitado". Quando nos designavam para ir até lá, não havia entusiasmo de nossa parte. Casarsa soava, para nós pilotos, como Bolonha, Ferrara, Legnago, Udine, Lavis, Piacenza, Isola di Scala e mais uma dezena de bem defendidos alvos do Vale do Pó. Lançar bombas em alvos como esses, se bem que fôssemos voluntários - o 1º Grupo era constituído somente de voluntários - causava-nos profundo respeito.

Decolaram as esquadrilhas Verde e Marrom. Na primeira, comandada pelo Cap Lagares, voavam o Ten Tormin, como nº 2, eu como líder de elemento, e o Ten Coelho como nº 4; a Marrom, também sob o comando de Lagares, formada pelo Cap Pessoa Ramos, o Ten Meira como nº 2, o Ten Perdigão como líder de elemento e o Ten Paulo Costa como nº 4. Todos veteranos. O menos experiente era o Tormin, mas que se tornou veterano nas suas primeiras missões, conquistando este título por bravura, precisão nos ataques, descontração no vôo sob o fogo antiaéreo e mais um punhado de qualidades que o tornaram um dos mais hábeis pilotos de caça de nossa Unidade.

A rota escolhida até o alvo saiu da rotina, pois ao invés de voarmos diretamente para o objetivo, o Lagares, para evitar o Flak de Bolonha, voou sobre nossas linhas até Florença, rumando daí para Casarsa. Nessa ocasião, parte da "Estrada 9" tinha caído nas mãos do VIII Exército Inglês. Ao cruzá-la, deixamos à nossa esquerda a cidade de Forli, recentemente conquistada pelos ingleses, estando ocupada por um esquadrão de aviões de ataque A-20, formada de poloneses da RAF. Para esta história, este detalhe é importante.

Chegamos a Casarsa na hora estabelecida, e iniciamos o ataque. Era uma ponte ferroviária sobre o rio Madunna, que só poderia ser considerado como tal na época das águas. Parecia um desses nossos rios do nordeste que, na seca, vira estrada.

Mergulharam o Lagares e o garoto Tormin, vindo eu em seguida. No momento em que iniciava o mergulho, descobri uma bateria de 88 alemã, localizada a uns 200 metros da ponte. Avisei pelo rádio: - "Jambock Verde, de Jambock Verde, nº 3, localizei uma bateria, vou atacá-la, antes de lançar minhas bombas". - "Boa sorte", replicou o Lagares.

Como era de esperar, fui recebido "festivamente", não somente pela bateria que estava atacando, mas por outras armas de menor calibre, inclusive canhões antiaéreos de 40 e 20 mm. Deixei tudo em volta e me fixei na bateria. Mais ou menos a uns 3000 pés, fui atingido no motor, perdendo dois cilindros. O motor começou a pegar fogo. Novo aviso ao Lagares: - "Jambock Verde, fui atingido, o avião está pegando fogo, vou continuar o ataque sobre a bateria, saltando de pára-quedas em seguida". Sem aguardar a resposta, desci mais sobre o alvo, que somente parou de atirar quando o seu último artilheiro foi eliminado. Honra à memória daqueles bravos alemães. Tudo isso correu no relógio em segundos. A velocidade de mergulho andava pelas 420 mph. Transmiti nova mensagem: - "Jambock Verde, estou com fogo a bordo, vou agora lançar minhas bombas sobre a ponte, 'entregando-as a domicílio', e depois saltarei".

Por sorte, no momento em que sobrevoávamos o alvo, estava parado sobre a ponte um trem alemão. As bombas dos setes aviões que me antecederam pegaram a aérea do alvo, mas não atingiram a ponte. Como fui fazer aquelas entregas, acertei em cheio. O trem era de munições. Uma festa pirotécnica. A explosão das duas bombas de 500 lbs do meu D-4, "o Poderoso" (eram esses o número e o nome do meu Thunderbolt), misturou-se à explosão da munição do trem.

Como ataquei a baixa altitude, fui atingido pelos estilhaços. Trouxe mais de 28 marcas no avião, sendo que em duas delas poderia passar uma bola de futebol de salão.

Cumprida a missão, com a ponte destruída, transmiti nova mensagem: - "Jambock Verde, é o Jambock Verde 3, vou saltar, a visibilidade é zero, pois, além do fogo, há óleo sobre o pára-brisa, cobrindo também o canopy e fumaça na nacele". Com o excesso de velocidade, levantei o nariz do avião, atingindo a altura de 8000 pés. Agora, só saltar e esperar o bicho que ia dar.

Nesse instante, ouvi a voz clara do Lagares: - "Não vai saltar coisa nenhuma, o fogo antiaéreo te pegará durante a queda, toma o rumo 150º que te avisarei quando deves saltar". - "E o fogo? Achas que devo virar churrasco ou explodir feito o trem lá embaixo?" - "É uma ordem, não salta agora, há Flak demais em torno do teu avião, estão te caçando, é burrice saltar agora". Outras vozes chegaram aos meus ouvidos. O estribilho era o mesmo, - "Não salta Arataca!" A solidariedade dos companheiros e a voz experiente do Lagares clarearam minha cabeça. - "Está bem, Jambock Verde, leva-me para outro local, que o canopy está começando a fundir, e eu estou vendo a hora de dar o último grito".

Voei na reta, sempre subindo, seguindo as instruções do Lagares. Não se via nada para o exterior. A labareda que vinha do motor lambia o lado esquerdo do canopy. O óleo, a fumaça tudo impedia que eu visse o azul lá fora. O vôo era por instrumentos, coisa que, na época, não era meu forte.

- "Agora salta, estás sobre o Adriático. Já pedi socorro. Dentro de duas horas terás um Catalina que te apanhará. Usa bem a cabeça e teu barco de emergência."

Acontece que, naquele instante, meu ímpeto de saltar já estava bem arrefecido. Afinal de contas, não era pára-quedista. Iria tentar um meio de apagar o fogo. Avisei, caprichando no timbre de voz, dando a impressão de que estava calmo de que não iria saltar enquanto não tentasse uma manobra para apagar o fogo. Minha decisão caiu como uma bomba sobre o pessoal. Entre as palavras que me chegavam aos ouvidos, quase todos me chamavam de burro, xingavam minha mãe, diziam que eu iria virar churrasco, que eu estava era com medo de saltar, etc. Ouvi o diabo, mas não dei bola. Aproveitei um intervalo e entrei no ar declarando: - "Estou a 12000 pés, vou cortar a gasolina, mistura, bateria, gerador e magnetos. Picarei em seguida até atingir 350 mph. O fogo deve apagar. Darei partida no motor outra vez, se o fogo voltar, saltarei. Caso contrário voarei até onde der". Pararam de falar, naturalmente para observar-me. Executei a manobra planejada, a labareda extinguiu-se. Ao dar nova partida, ela não voltou. Aumentou a fumaça, talvez por ter aumentado o vazamento de óleo.

Com o fogo apagado, o Lagares deu-me o rumo direto de Forli, a tal base de poloneses da RAF. Atendendo ao comando do Lagares, fui guiado até lá. Quando estava mais ou menos a um minuto da cabeceira da pista, em altura conveniente, o Lagares disse-me que estava alinhado com a pista, devendo cortar o motor à sua ordem.

Aí entrou São Tomé. Quis conferir. Pus o óculos de vôo, abri o canopy e estiquei o pescoço para fora. Um jato quente de óleo cobriu-me os óculos. Num gesto pouco inteligente, tirei os óculos e insisti. Desta vez paguei caro. A vista esquerda foi atingida com óleo quente. Já estava quase no chão. A ordem para cortar o motor veio rápida. Fazê-lo e deslizar de barriga sobre a pista foi questão de um piscar de olhos. Fiz uma aterrissagem sem rodas, pois tanto eu quanto o Lagares não queríamos correr o risco de "varar" a pista com uma possível explosão. O avião correu o suficiente para parar a uns dez metros do seu final. Depois daquele barulho infernal da lataria deslizando sobre uma pista de emergência feita de grades de ferro, e passado o susto momentâneo, chamei o Lagares, quase implorando que ele não me deixasse naquela base desconhecida, de aliados desconhecidos também, onde teria que me entender com poloneses falando inglês, língua cuja pronúncia arataca (sou nortista do Maranhão) não pegaria bem falando com gente da Polônia, que só conhecia através do rádio, quando Batatais engoliu 5 frangos e Leônidas e Hércules fizeram 6 gols em Majewski, no campeonato de futebol de 1938.

Meus apelos foram em vão. As esquadrilhas retornaram a Pisa. Fiquei entregue à minha própria sorte e sabedoria. Deixei o avião às carreiras. Ainda havia o perigo de uma explosão. Afastei-me o quanto pude. Sentei-me sobre o pára-quedas a uns 100 metros, tremendo, mas tremendo mesmo, a vista esquerda no escuro, aguardando o socorro de um carro contra-incêndio, uma ambulância e um jipão. Quem me descobriu primeiro foi o jipão. Sobre o capô vinha sentado um oficial da RAF. Louro, 1,88 m, uniforme bem posto, com algumas condecorações que, de longe, me perguntou: - "Brasileiro?" Como não imaginava que àquela altura dos acontecimentos fosse encontrar um inglês da RAF falando português, dei uma de inteligente e respondi: - "Yes". - "Yes, coisa alguma, seu sacana, como vão as mulheres de Copacabana? Que é que houve contigo?"

Caí das nuvens de alegria. Respondi-lhe com outra pergunta: - "E tu, que é que estás fazendo com esse uniforme da RAF?" - "Sou filho de inglês, nasci em Curitiba, e aqui estou nessa merda dessa guerra maluca". - "Mas por que estás aqui com os poloneses?"

Aí veio a explicação. Na véspera, dois aviões Focke Wulf-190 fizeram um ataque de surpresa, matando alguns tripulantes de A-20 que assistiam a um cinema ao ar livre. Por solicitação do comando polonês, a RAF mandou uma esquadrilha de Spitfires para fazer a defesa aérea de Forli. Comandando essa esquadrilha, veio o Frederick C. Tate, de Curitiba, Paraná, filho de inglês e tão louco quanto a guerra louca que já estava chegando ao fim.

O médico polonês que me atendeu foi gentilíssimo e eficiente. Ali mesmo fez a faxina no olho esquerdo. Com um chumaço de algodão embebido em líquido amarelo, limpou-me a vista. A impressão que tive é que ele usava um esfregão desses de encerar cerâmica S. Caetano. Doeu pra burro. Antes que eu visse qualquer coisa, pôs-me um tampão no olho esquerdo, ficando com aquela cara que tem hoje o Moshe Dayan.

Meu pensamento voava nesse momento para o Brasil. Pronto, acabou-se minha guerra e vou ter que voltar caolho. Que falta de sorte, de tantas me livrei nessa missão e agora fico cego pela metade. Fui interrompido pela voz amiga do Fredy, que me declarou estar tudo bem, inclusive com minha vista esquerda. Talvez passasse a um grau menor de visão, mas estava salva. Respirei, mas sem tranqüilidade. Somente no primeiro curativo, no dia seguinte, no Hospital Central de Livorno, é que tive a certeza que não estava cego.

Ainda foi o Frederick que me falou outra vez: - "Agora é que vai começar a tua guerra com esses poloneses. Toda a vez que alguém se safa de uma dessas como tu te safaste, é obrigado a tomar um pileque. E a bebida deles é vodka!"

Entramos no Jipão, passamos pelo centro médico de emergência, para uma limpeza corporal rápida (ficara todo sujo de óleo ao deixar o avião) e levaram-me para a cidade de Forli, onde estava localizado o cassino de oficiais dos poloneses. Lembro-me que encheram de vodka um copo próprio para uísque, que foi tomado de um só fôlego, ao som de uma bela canção guerreira polonesa. Nessa hora meu estado moral era o pior possível: dor de cabeça, a tremedeira que ainda não havia passado, um tampão no olho esquerdo, com todas as características que estava cego, aqueles alegres companheiros de língua diferente, um copo de vodka já bebido, que caiu garganta abaixo sem uma interrupção, não há dúvida que minha tábua de salvação ainda era o mesmo grande gozador Frederick Tate, o brasileiro rafeano que Deus mandou para me salvar.

Bebido o primeiro copo, encheram outro. Nova canção e pimba! Tive que tomá-lo. Não adiantaram meus rogos ao Fredy. O bandido estava ali para ver o circo pegar fogo. Não teve um gesto de pena. Lembro-me só o que me disse ao iniciar o segundo copo: -"Agora, meu velho, estás..."

Apaguei. Acordei no dia seguinte no Hospital Central de Livorno. Sofri uma coma alcoólica. Não morri por pura sorte.

Fonte deste artigo: Senta a Pua! - Rui Moreira Lima - Editora Itatiaia

O desembarque dos canadenses em Dieppe



Dieppe foi uma vitória ou uma derrota? O correspondente de guerra Ross Munro descreve os diferentes aspectos desta aventura :

Estávamos deitados na relva de um jardim público perto de um desses portos quando o oficial encarregado da organização da imprensa nos veio anunciar que, naquela noite, efetuaríamos um reide sobre a França com a 2ª Divisão. Juntamo-nos às nossas diferentes unidades. Eu estava adjunto do regimento Royal, de Toronto.

O porto, às 6 da tarde, formigava de atividade. Os útimos caminhões de canadenses, munidos com seu equipamento, chegavam sem provocar emoção especial; os operários davam pouca atenção às tropas que, tantas vezes, viam chegar e partir para manobras.

Às 7 horas estava a bordo do Queen Emma, um dos muito navios que faziam a travessia da Mancha e que fôra transformado em transporte de tropas. Enquanto o navio se afastava do cais, numa tarde calma, o meu pensamento voltava-se para os últimos meses - esses meses de treino rigoroso, de esperança e decepções. E interrogava-me sobre o que nos esperaria. Estava muito perturbado, até desconcertado, pela maneira imprevista com que se retomara as operações.

Os balões cativos brilhavam na suave luz do entardecer e uma frota completa largava para o mar, sem que ninguém se despedisse de nós, sem a menor aclamação.E nós partíamos a caminho da França.

Era uma tarde maravilhosa de verão; o mar calmo, o céu límpido. Os soldados foram jantar antes de se entregarem aos últimos preparativos. Na sala de jantar os oficiais sentaram-se em volta das mesas onde vinham bater os últimos raios do pôr do sol. Ao vê-los, nenhuma pessoa poderia pensar que iam defrontar-se com a maior provação de toda a sua vida. Verificaram-se as armas e as munições e, em seguida, os homens estenderam-se no convés para dormir. Na escuridão, o Queen Emma avançava pesadamente para o seu encontro com o restante da frota.

Um campo de minas flutuante protegia o litoral de Dieppe mas os caça-minas precediam-nos desempedindo e balizando, na escuridão, os corredores. Assim, atravessamos a zona minada sem perder um único barco.

Da ponte do Queen Emma avistavam-se, vagamente, as sombras dos outros navios. Uma salutar neblina reinava sobre a Mancha. O mar continuava calmo e o céu cravejado de estrelas. A lua apareceu, mais tarde. À meia-noite recebemos ordens de tomar lugar nas lanchas de desembarque. O Queen Emma transportava lanchas de desembarque nas quais os homens do regimento Royal tinham que efetuar o trajeto final até a praia de Puys, a leste de Dieppe, que lhes fôra assinalada como objetivo.

Estávamos, aproximadamente, a 15 milhas da costa francesa e até então não houvera o menor contratempo. O Queen Emma parou, jogou a âncora e desceram-se as embarcações carregadas de soldados de infantaria. Ninguém falava. A ordem de silêncio era imperiosa. Contudo, no momento em que a nossa barcaça, onde se amontoavam 80 homens, se afastava do Queen Emma, um marinheiro debruçou-se na amurada e desejou-nos a meia-voz: "Até breve, meus rapazes, e felicidade! Dêem uma boa surra nesses porcos!" Depois seguimos e o nosso timoneiro prescutava a escuridão para nos juntarmos ao restante da flotilha.

Já fizéramos isso tantas vezes, em manobras, que sentíamos dificuldade em nos convencermos que se tratava, agora, de uma operação verdadeira, que homens cairiam mortos e feridos, que os alemães estavam diante de nós.

Já nos aproximávamos a cerca de 12 milhas de Dieppe quando um alerta nos fez estremecer. À nossa esquerda balas tracejantes - pontinhos azuis e brancos - listravam a noite enquanto estourava o matraquear raivoso das metralhadoras. Isto não entrava no plano e, a bordo, cada pessoa pulou como uma mola elástica e depois abaixou a cabeça. Mas a embarcação estava de tal maneira carregada que ninguém podia se abaixar sem esmagar um outro. Sentei-me em um monte de obuses.

Aquela sombra ali, na noite, a menos de 200 metros, era um barco inimigo. Segundo a trajetória das balas, deveriam ser uns quatro que nos estavam barrando o caminho. E nós nada podíamos fazer contra eles. Nestas lanchas de desembarque não havia nenhum armamento que permitisse entrar em combate. Aparentemente íamos ser cortados em pedaços. O nosso comboio já devia estar fracionado.

Enchi um pouco mais o meu cinto de salvação. Novas descargas de balas passaram assobiando. Depois estourou um tiro de canhão, mesmo por detrás de nós. À luz do relâmpago avistamos um dos nossos destróieres que avançava a toda a velocidade para nos socorrer. Disparou uma dúzia de salvas sobre os navios inimigos que deram meia volta e desapareceram em direção à costa francesa.

Mas isto atrasara tanto a nosso flotilha que, em breve, se tornou evidente que não atingiríamos, sem grande atraso, a praia de Puys. Mas era necessário que ali chegássemos antes da madrugada, sem o que não teríamos nenhuma possibilidade de sucesso. O fator surpresa era essencial.

Nesse momento os bombardeiros ingleses sobrevoaram-nos, dirigindo-se para Dieppe. Voavam muito alto, com o ronronar monótono e característico dos aparelhos da RAF. Alguns minutos mais tarde a artilharia antiaérea alemã entrou em ação. Os obuses tracejantes cruzavam-se e entrecruzavam-se por cima da cidade e, visto do mar, o espetáculo tornava-se impressionante. Os projetores varriam o céu. Acima do estrondo da artilharia, que repercutia na água, ouvia-se o rebentar das bombas. Explodiam com uma luz vivíssima e assim consegui entrever o comprido molhe do cais.

Sempre sentado no monte de obuses, observava a praia principal, diante da cidade. Ainda estava escuro mas a madrugada, que tanto temíamos, aproximava-se rapidamente. Os nossos sete destróieres castigavam os edifícios da frente defensiva sobre o mar. Várias esquadrilhas de caças Hurricane, transformados em bombardeiros, sobrevoando as embarcações que se aproximavam da praia, mergulhavam neste inferno, descarregavam suas bombas e varriam a esplanada com fogo das metralhadoras.

O ataque atingiu o ponto culminante com o desembarque e, antes de chegar a Puys, distingui vagamente, a 500 ou 600 metros, as barcaças que alcançavam a praia principal. Mas depois, uma cortina de fumaça encobriu a cena.

O regimento Royal atrasara-se muitíssimo. Devia ter acostado antes do amanhecer mas a luz cinzenta da alvorada já nos envolvia. Os aviões, ao verem a nossa situação crítica, largaram uma tonelada de bombas fumígenas. A fumarada, espalhando-se pelo mar em turbilhões, cobriu-nos, momentaneamente, para o ataque final.

A história dessa praia Puys, embebida em sangue, é um verdadeiro pesadelo. Por causa de uma manobra errada o nosso barco foi um dos últimos a atingir a costa. A fumaça adelgaçava-se e percorremos os últimos 30 metros completamente a descoberto. Diante de nós uma saraivada de obuses levantavam repuxos de água. Por milagre nenhum nos atingiu. O estrépito da artilharia antiaérea alemã sobre a falésia era tão ensurdecedor que nem gritando nos ouvíamos.

A bordo, os homens de rostos crispados enrodilhavam-se. Era seu primeiro contato com o tumulto de uma batalha e estavam aterrorizados por este desencadeamente inesperado da defesa inimiga. De mãos crispadas nas armas, esperavam que se abaixasse a rampa de desembarque.




A barcaça bateu contra a praia, a rampa abriu-se e os primeiros soldados de infantaria atiraram-se para a frente. Saltaram com 50 centímetros de água e logo foram ceifados por uma rajada de metralhadora. Começaram a empilhar-se os corpos sobre a rampa. Alguns homens, aos tropeções, ainda avançaram até a praia antes de serem abatidos. As balas choviam também dentro do barco.

Eu estava na retaguarda e, através da proa aberta e por cima dos corpos amontoados na rampa, avistei um terreno, em declive que se elevava até o muro de pedra juncado de feridos e mortos. Deviam ser uns sessenta, caídos ali sobre a erva verde e a terra castanha, abatidos ainda antes de terem podido disparar um tiro.

Uma dúzia de canadenses corria ao longo da falésia em direção ao muro, alguns já feridos, com os uniformes ensangüentados e rasgados. Destes, uns, mesmo correndo, disparavam, mas iam caindo, uns atrás dos outros, e rolavam pela encosta abaixo até o mar.

Não sei quanto tempo ficamos assim, com a proa descida sobre a areia. Talvez cinco minutos, talvez vinte. Nunca e em nenhuma frente eu fôra testemunha de tal carnificina. Era brutal, o monstruosoo espetáculo daqueles amontoados de mortos, e a idéia de que o nosso ataque, nesta fase, estava destinado ao fracasso enchia-nos de um tal horror que raiava pela insensibilidade.

Os alemães encontravam-se, em massa, no cimo da falésia e concentravam o fogo sobre a encosta que se elevava em direção à crista. O muro que atravessava esta encosta era encimado por arame farpado e junto ao muro os homens do regimento Royal agonizavam.

Da nossa embarcação, que se encontrava ao centro deste fogo de inferno, novos soldados saíram, mas duvido que qualquer um deles tenha atingido o muro; as granadas de morteiro que estouravam na encosta dizimavam aqueles que haviam escapado às metralhadoras.

O fundo da barcaça cobria-se de feridos. O oficial que estava junto a mim foi atingido na cabeça e caiu sobre os meus joelhos, inundando-me de sangue. Ao lado agonizava um marinheiro com a garganta rasgada por uma ferida medonha de se ver. Alguns homens, ainda indenes, respondiam furiosamente ao tiro dos alemães. Agora já era inútil que eles chegassem à praia. A maneira como estes homens resistiam, quando não havia dúvida nenhuma sobre o desastre de nosso ataque, testemunhava uma coragem extraordinária. A maior parte foi, mais tarde, condecorada.

As ordens dadas à Marinha eram para desembarcar as tropas e se afastarem. O oficial de Marinha que nos acompanhava dominou rapidamente a situação. A nossa bracaça era a única que ainda estava ali. De nada servia nos oferecermos por mais tempo como alvo do inimigo. Todos os que conseguiram desembarcar foram ceifados, diante dos nossos olhos. O oficial deu ordem de voltarmos para o mar.

A mão de Deus devia estar sobre a nossa embarcação porque, mesmo estando a proa presa na areia, o barco recuou quando se fez marcha à ré, como se alguma coisa o arrastasse para o largo; lentamente, pesadamente virou de bordo. Dando uma última olhada para a praia só vejo uma grande mancha cor de caqui.

Percorremos muitas centenas de metros envolvidos pelo brilhante sol matinal. Os poucos homens válidos, que se conservavam entre nós, continuavam apalermados. Dos 80 homens embarcados à saída, restavam mais ou menos 20, dos quais metade feridos. E que feridas! Alguns haviam sido atingidos uma dúzia de vezes!

Ninguém previra semelhantes perdas. Não sabíamos para onde levar os feridos. A princípio pensamos em parar na praia principal de Dieppe, onde se previra a instalação de um posto de socorros; mas o nosso rádio tentou, em vão, estabelecer contato com a estação da praia e não obteve resposta. Para nós foi o primeiro indício de que também por lá as coisas não tinham corrido bem. Alcançamos então um destróier, para o bordo do qual transportamos os feridos mais graves.

No restante da manhã perdeu-se a noção do tempo. Era impossível ter idéia do desenrolar da batalha. Apesar do desastre do desembarque em Puys, pensava-se que o ataque, lançado contra a praia principal por três batalhões de infantaria apoiados por carros, poderia ter tido melhor resultado. As barcaças margeavam a costa, revezando-se, e eu saltei de umas para as outras na esperança de me informar.

Finalmente, aquela onde me encontrava raspou pelos calhaus, em declive, da praia de Dieppe com cerca de 60 metros de largura. Para além dela ficava o cais, a esplanada, e depois a cidade. A fumaça espalhada pelos aviões envolvia tudo, e muitos marinheiros saltaram em terra para recolher os feridos de perto do arame farpado da praia e arrastá-los até o navio. Avancei em direção ao molhe chapinhando na lama xistosa. Mais ao longe, do lado do cassino, havia um fogo forte de metralhadoras; um grupo de soldados estendido a vinte metros abrigava-se com o molhe.

A fábrica de cigarros queimava. Julguei que os nossos soldados de infantaria tivessem penetrado na cidade, mas a esplanada estendia-se, deserta e nua. Na praia não existia nenhuma organização. Os mortos continuavam atirados pelo chão. Também aqui o ataque não se dera como previsto. Um rosário de obuses esburacava a esplanada. Os marinheiros fizeram-me sinal para voltar e, enquanto regressava à barcaça, a batalha encarniçava-se cada vez mais. Vários barcos explodiram. Uma embarcação pegava fogo perto da praia. Um casco vazio flutuava, não longe, à deriva.

Apesar de tudo tinha dificuldades em acreditar que o desastre também se estendesse até aqui. Mas os homens do Essex Scottish, assim que desembarcaram, ficaram envolvidos por um fogo destruidor. Conseguiram atravessar o arame farpado e chegar ao molhe, mas aí terminou o seu ataque. Bateram-se palmo a palmo, toda a manhã, até que não restava mais nada por que se baterem. E apenas um punhado de homens, no último minuto, conseguiu reembarcar.

Do lado direito da praia, o Regimento Royal de infantaria ligeira, de Hamilton, debateu-se com oposição igualmente dura. Também conseguiram alcançar o molhe, e, depois de um combate encarniçado, desalojaram os alemães do cassino. Dali algumas seções puderam penetrar na cidade onde se travaram combates de rua. Os fuzileiros de Mont-Royal, de Montreal, desembarcaram, numa segunda onda, sobre a praia e alguns pelotões, apesar de grandes baixas, entraram na cidade de onde ainda alguns homens regressaram.

Para os carros de combate de Calgary tudo correu mal, desde o princípio. As barcaças que os transportavam ofereciam grandes alvos e uma saraivada de obuses os destruíam a medida que se acostavam. Alguns carros atolaram-se na areia logo que desembarcaram. Outros conseguiram avançar em direção ao cassino, atravessaram o molhe, que neste lugar só se elevava uns 50 centímetros, e alcançaram a esplanada. Outros ainda irromperam pelas ruas da cidade. Mas da janela das casas e dos hotéis os alemães os alvejavam à queima-roupa. Vários esquadrões não desembarcaram e ficaram toda a manhã ao largo da praia.

Em Pourville, a oeste de Dieppe, o South Saskatchewan Regiment conhceu uma sorte melhor. Os homens desembarcaram sem encontrar resistência, escalaram o molhe e penetraram na aldeia. Aqui, o efeito da surpresa foi total. Antes que os alemães compreendessem o que lhes acontecia, já os Saskatchewan tinham estabelecido uma pequena cabeça-de-praia. Pouco depois os Cameron Highlanders, de Winnipeg, juntaram-se a eles e levaram um avanço de uns 5 quilômetros para o interior. Mas os dois batalhões logo compreenderam que o ataque principal malograra e, pelo fim da manhã receberam ordens de de bater em retirada. Assisti os homens retrocedendo, arremessando-se para dentro das embarcações, debaixo de fogo dos morteiros inimigos, transportando o máximo possível de feridos e até mesmo alguns prisioneiros.

Foi então, neste momento, que a luftwaffe desencadeou seu mais violento ataque. Durante toda a manhã os caças ingleses e canadenses não pararam de patrulhar por cima dos navios e das praias, dando voltas e reviravoltas em um céu coberto de nuvens esbranquiçadas. Praticamente os combates aéreos sucediam-se sem interrupção. Era a maior batalha aérea desde 1940, e tanto a RAF quanto a RCAF testemunharam uma esmagadora superioridade. Estas vitórias, neste momento, apareciam como a principal compensação do desastre do reide.

Contudo, essa poderosa proteção não pudera impedir a aviação inimiga de bombardear os nossos navios. O último ataque, pelas 11 da manhã, foi o mais feroz de todos. Não tenho a menor idéia do número de aparelhos que tentaram, nesse momento, dar um golpe mortal na frota, mas foram pelo menos sete a bombardear nossa pequena embarcação. Uma dezena de vezes me agarrei ao fundo do barco convencido de que chegara meu último momento. Perto de nós explodiram várias barcaças sem que ficasse nada delas - tinham-se simplesmente desintegrado. No entanto, tão rapidamente quanto se iniciara, o ataque terminou, o meio-dia aproximava-se e não possuíamos rádio para captar as ordens do QG.

Na praia, contudo, a calma voltava pouco a pouco. Um véu de fumaça planava sobre Dieppe. As baterias costeiras cessaram. O reide aproximava-se lentamente do seu fim trágico.

À 1 hora retomamos o caminho para a Inglaterra. Já não podíamos fazer mais nada. O único navio que ficava perto da costa francesa era o destróier do quartel-general, que, num último esforço, tentava recolher as tropas.

Como um balanço da tragédia em Dieppe podemos considerar que a vitória aérea foi um fato tangível. E no mesmo momento se pode dar conta dela. Nessa altura não se tornou tão evidente a ação do exército. O número das perdas era aterrador: 667 mortos, 218 feridos e 1.894 prisioneiros; isto em um total de 5.000 canadenses. A princípio estas perdas esmagadoras apagaram qualquer outra consideração; mal se poderia acreditar tirar-se do reide qualquer vantagem pelo preço de tal sacrifício e, no entanto, foi o plano completo dos desembarques que, nesta terrífica manhã de 19 de agosto de 1942 - e graças a 2ª Divisão Canadense - , veio a tomar forma. Já em 1943, pode dizer-se que as operações no Mediterrâneo tinham sido o prêmio de Dieppe. E o êxito do desembarque em 1944, foi testemunha disso.

Heinz Knoke, um ás alemão



+400 missões de combate, 33 vitórias (19 quadrimotores)

Heinz Knoke nasceu em Hameln, Alemanha, em 24 de março de 1921. Tendo tido uma boa base escolar em sua juventude - quando aprendeu a falar inglês - ele se voluntariou para servir na Luftwaffe em 1939. Após a conclusão de seu treinamento como piloto de caça, em 20.05.1941, o agora Leutnant Knoke foi designado para servir inicialmente junto ao 6./JG 52 (6º Staffel da Jagdgeschwader 52), então lutando na frente russa.

Knoke permaneceria pouco tempo na frente oriental, sendo transferido em 02.07.1941 para o 2./JG 1, então baseado na chamada Baía Ale-mã, onde atuou protegendo os portos germânicos no Mar do Norte. A partir de 25.10.1941, Knoke foi indicado Staffelführer de sua unidade e, seis dias depois, obteve sua primeira vitória confirmada, ao abater um bombardeiro Blenheim da RAF sobre o Mar do Norte. Uma semana mais tarde, ele acrescentaria outro abate ao seu score, ao destruir um De Havilland Mosquito.

Mas foi após início da ofensiva de bombardeiros conduzida pela 8ª For0ça Aérea americana que Knoke se destacaria nos combates da Defe-sa do Reich, tornando-se um dos grandes destruidores de quadrimo-tores (“Viermottorer”). Sua quinta vitória ocorreu em 22.03.1943 contra um B-17 e, em 01.04.1943, sua unidade foi redesignada 5./JG 11. Sua 10ª vítima (outro B-17) caiu em 11.06.1943 e, no dia, 27.09.1943, após um combate onde derrubou mais um B-17 e um caça de escolta P-47 Thunderbolt, Knoke atingiu sua 15ª vitórias confirmada.


Até o final daquele ano, ele acumularia nada menos que 19 vitórias aéreas, sendo condecorado com a Cruz Germânica em 17 de novembro de 1943. Dentre suas vitórias nesse ano, encontra-se um Boeing B-17 abatido com um foguete de 21cm. Sua 20ª vitória ocorreu em 10.02.1944 contra uma Fortaleza Voadora e, no curso do mês de março, ele obteve outras três vitórias: um P-51 Mustang (no dia 03) e dois B-17 (nos dias 06 e 08).

No dia 29.04.1944, o agora Oberleutnant Knoke participou de um dos capítulos mais pitorescos da História da aviação. Durante uma missão de interceptação de bombardeiros americanos sobre o rio Reno, os Bf 109 envolveram-se em um violento dogfight contra os caças North Ameri can P-51 Mustang de escolta. O avião de Knoke foi severamente atingi- do e, enquanto tentava abrir o canopy de seu avião, ele sentia os projé- teis da metralhadora .50 atingindo a blindagem atrás dele ao mesmo tempo em que os traçantes passando sobre seu cockpit, tornando o salto impossível. Em vias de perder o controle do avião, Knoke, reduziu drasticamente a velocidade, deixando o P-51 ultrapassá-lo. Ainda antes de saltar, já ferido, ele disparou uma última rajada com seus canhões, atingindo em cheio seu adversário!!

Ambos os aviões caíram no mesmo campo, sendo que o piloto america no também conseguiu saltar. Enquanto esperava o socorro, Knoke acendeu um cigarro e esperou... De repente ele vê outro piloto se aproxi mando: era o americano que ele acabara de abater! Ao invés de se en-

frentarem como inimigos, ambos sentaram-se lado a lado, dividiram cigarros e mostraram fotos de família. Con versaram em inglês sobre seus aviões e táticas e apreciaram o fato de ambos terem sobrevivido... Foi a 25ª vitória de Knoke.

Após sua recuperação, o já Hauptmann Knoke foi nomea do Gruppenkommandeur do III/JG 11 (Gruppe III da JG 11) em 13.08.1944, passando a lutar contra os Aliados que haviam desembarcado na França. Lutando contra um inimigo que desfrutava de uma gigantesca superioridade aérea, Knoke conseguiu derrubar nada menos que sete aviões inimigos nos violentos combates sobre os céus da Normandia. Dois P-47 tombaram respectivamente nos dias 14 e 15.08, seguidos de um Spitfire (16.08), um bom bardeiro B-26 (17.08), dois P-51 Mustangs (ambos no dia 18.08 - suas 30º e 31ª vitórias), outro P-51 no dia 25.08 e, por fim, um P-47 Thunderbolt em 28.08.1944 - sua 33ª vitória confirmada. Contudo, nesse último combate, ele foi mais uma vez abatido.

A despeito de seu sucesso nos combates aéreos, a carreira de Knoke foi bruscamente interrompida quando, em 09.10.1944, ele ficou gravemente ferido em um acidente automobilístico que o deixou fora da linha de fren- te até o final da guerra. Mesmo assim, em reconhecimen to aos seus feitos e à sua liderança, o Hauptmann Heinz Knoke foi condecorado com a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro em 27 de abril de 1945.

Knoke rendeu-se aos aliados ocidentais e permaneceu em cativeiro até 1946. Em 1953 ele lançou sua biografia “Die Grosse Jagd” que, ainda hoje, é vista como um dos melhores livros sobre a guerra aérea a partir da perspectiva dos alemães.

No pós-guerra atuou como Deputado Estadual em várias legislaturas até 1970. Após se afastar da política, Knoke atuou como gerente de uma fabricante de cervejas.


Tendo voado mais de 400 missões de combate, ao longo das quais obteve 33 vitórias aéreas (todas contra aliados ocidentais) - incluindo nada menos que 19 bombardeiros quadrimotores e um Mosquito - Heinz Knoke faleceu de causas naturais em 18 de maio de 1993, aos 72 anos de idade.

Depoimento de Heinz Knoke, um piloto de Me109 na frente ocidental contra os B17 americanos


Heinz Knoke, piloto de Me109 e detentor de 33 vitórias, relata alguns de seus encontros aéreos no front ocidental :

13 de junho de 1943

Hoje é o décimo terceiro dia do mês.

O grupo executa um ataque em formação contra uma esquadrilha consistindo de uns 120 bombardeiros pesados. Há uma Fortaleza maravilhosamente alinhada em minha mira. Eu aperto os dois botões de tiro e - nada acontece. Verifico meu pente de cartuchos e a presilha de segurança, aperto os botões novamente e - nada acontece ainda.

Espumando de raiva eu realizo uma espiral descendente para o banco de nuvens abaixo.

Hoje é dia treze!

25 de junho de 1943

Eu ainda me sinto morto quando me arrasto para o ponto de dispersão nesta manhã. Eu e os outros pilotos ficamos na cantina até o nascer do sol. O bar está coberto com um regimento inteiro de garrafas vazias.

O tempo está enevoado. Nós esperamos que este seja um dia que os Ianques nos deixem em paz. Na sala de operações do esquadrão nenhuma atividade inimiga é relatada. Eu me deito tentando tirar um cochilo na sala de espera adjacente à sala de reuniões.

O telefone me desperta às 7:00: concentração inimiga no mapa, referência de setor Dora-Dora.

Eles não podiam escolher um outro dia?

Os pilotos ainda dormem. Eu não os perturbo e vou para o lado de fora, para o avião. O engenheiro chefe relata que todas as aeronaves foram verificadas e estão disponíveis para serviço.

Indo para a sala de jantar, peço um ovo frito, pão branco e manteiga, os quais eu tento comer. A comida parece bastante sem gosto. Pela primeira vez eu não me sinto feliz em pensar na missão vindoura. Sinto um peso peculiar no estômago, será medo?

Não, não creio que seja exatamente medo, está mais para indisposição e indiferença. Nem mesmo uma visita ao banheiro traz algum alívio. Eu gasto quinze minutos correndo de um lado para o outro da pista tentando acertar as idéias. Turit, meu cachorro, trota junto comigo. Às vezes ele se afasta, latindo atrás de alguma gaivota.

Da sala de operações vem a ordem de preparação para um alerta. Os pilotos resmungam enquanto vêm para fora, um por um. Depois de comer alguma coisa eles calçam as botas de pele, vestem os casacos de vôo e coletes salva-vidas. Há pouca conversa. Eu guardo algumas rações de emergência e um kit de primeiros socorros no bolso do joelho.

Lentamente nós vagueamos em direção aos aparelhos. O alerta é esperado a qualquer momento. Os mecânicos estão juntos a nós. Meu chefe de guarnição de terra balança as pernas enquanto se espreguiça sobre uma asa e mastiga um pedaço de grama. Que exemplo de alerta!

Arndt aperta meu cinto enquanto visto meu capacete de vôo. Ele me passa a extensão telefônica: o Oficial Comandante está na linha.

Ele pergunta se nós estamos prontos. Os comandantes de grupo respondem em seqüência: Tenente Sommer, eu e o Capitão Falkensamer. O inimigo está se aproximando da costa: aparentemente hoje ele está se dirigindo para Wilhelmshaven de novo.

8 horas e 11 minutos: decolagem.

Os grupos decolam em sucessão, quarenta e quatro aeronaves ao todo. O teto de nuvens está a 6.000 pés. Nós o atravessamos próximo à costa. Ocasionalmente vemos relances de terra entre as camadas de nuvens.

15.000 pés: outra camada de nuvens se interpõe em nosso curso.

20.000 pés: não há conversas no rádio, somente a posição inimiga é anunciada.

22.000 pés: Nós esperamos a qualquer momento estabelecer contato com o inimigo.

Eu verifico minhas armas. Minha máscara de oxigênio está desconfortavelmente apertada. Eu afrouxo e a ajusto.

Nós voamos entre nuvens cumulus. Alto sobre nós espalha-se uma terceira camada de nuvens geladas. Voamos através de vales e cavernas, pelas gigantescas montanhas de nuvens. Os aviões parecem absurdamente pequenos, engolidos por este majestoso fundo.

"Lá estão eles!"

As Fortalezas estão aproximadamente 3.000 pés abaixo de nós. Eles não estão voando em formação cerrada hoje, mas voam isolados ou em grupos de 3 ou 4 através da deslumbrante camada de nuvens.

Atenção redobrada, nós descemos mergulhando.

"Atrás deles!" A caçada se inicia.

É uma surpresa perfeita, nosso ataque cria nos americanos um estado de grande confusão. Eles se esquivam, fazem curvas e mergulham para se abrigarem na camada de nuvens, tentando fugir de nós. É impossível estimar a quantidade deles. É quase como uma colméia que tenha sido agitada. Nós falamos, uns para os outros, as melhores posições de tiro pelo rádio.

Em pares os nossos pilotos atacam os grupos individuais de Fortalezas. Meu ala (N.T.: Wingman) de hoje é um jovem sargento com o qual eu nunca havia voado. Esta é sua primeira experiência em combate. Há também a chance de que seja sua primeira vitória aérea se ele mantiver a cabeça no lugar.

Eu escolho dois bombardeiros isolados voando em formação, asa com asa, e nós mergulhamos para atacá-los pela traseira.

"Dölling, você pega o da esquerda."

Eu chamo o sargento, mas ele continua voando em direção ao da direita e não parece ouvir minhas mensagens.

"Se aproxime, homem. Do outro lado - na sua ESQUERDA! Vá para lá e ataque!"

Eu abro fogo a pouca distância. Meus projéteis de canhão acertam perfeitamente o centro da fuselagem. O artilheiro de cauda persistentemente revida o fogo. Calmamente me aproximo mais, as armas cuspindo fogo. Buracos aparecem na minha asa esquerda conforme sou atingido. Aquele maldito artilheiro! Ele não vai me deixar - temos que ter muito estômago para isso.

Ainda próximo eu continuo disparando todas as armas na Fortaleza, me concentrando na torreta traseira. Ela desintegra sob as salvas dos meus canhões. Mais projéteis também colocaram a torreta dorsal fora de ação.

Nós estamos entre as nuvens, em uma ravina profunda, com paredes leitosas se elevando a cada lado. Definitivamente uma visão gloriosa. Dölling permanece voando obstinadamente na sua posição à minha direita, calmamente observando o combate. Porque diabos ele não vai atrás do segundo bombardeiro?

Eu perco a paciência com ele:

"Ataque, seu estúpido, ATAQUE!"

Ele ainda não se move.

Woomf! Woomf! Woomf!

Eu estou sob fogo pesado pelo lado. Os tiros vêm da torreta direita da segunda Fortaleza. Eu estou próximo ao artilheiro, praticamente a seu lado. O artilheiro dorsal também atira em mim com suas metralhadoras gêmeas. As traçadoras passam rente à minha cabeça.

Woomf! Eu sinto outro tiro. Nós passamos por uma abertura de nuvens. Meu cockpit embaça, então abro a janela lateral da cabina.

Minha Fortaleza está em chamas, próximo à traseira e no motor interno direito. Os dois artilheiros da segunda Fortaleza ainda descarregam suas armas em mim, eles estão a somente 100 pés de distância.

Continuo atirando em minha vítima. O bastardo tem que cair, nem que isso signifique meu próprio pescoço. Eu permaneço entre 150 a 200 pés atrás dele. Meus tiros agora se espalham pela asa direita.

Eu solto o manche por um momento e tento atrair a atenção de Dölling acenando e apontando o outro bombardeiro, então, de repente, vejo um clarão em frente aos meus olhos e sinto a mão que acenava ser projetada violentamente contra a parede lateral do cockpit. Totalmente alarmado eu seguro o manche novamente, para soltá-lo no mesmo segundo. Minha luva direita está em pedaços, com sangue pingando. Eu não sinto nenhuma dor.

Mais uma vez eu agarro o manche com minha mão ferida, acerto a mira no meu oponente e esvazio os pentes em uma longa rajada. Finalmente a Fortaleza é abatida, caindo das nuvens como uma tocha acesa.

Eu mergulho depois disso, em direção ao mar. Tudo que resta do bombardeiro é uma grande mancha de óleo na superfície do oceano.

Neste momento minha mão começa a doer. Seguro o manche com a mão esquerda, lambuzando-a de sangue. Pedaços de carne ficam pendurados na luva.

Eu perdi minha orientação algum tempo atrás, durante o tiroteio sobre as nuvens, contudo, seguindo para sul é provável que eu encontre terra em algum lugar. É um milagre que meu motor não tenha sido atingido. Por um golpe de sorte os artilheiros naquela Fortaleza não tinham muito boa mira.

A dor na mão machucada vai ficando pior. Estou perdendo muito sangue. Minha jaqueta de vôo está tão ensangüentada que parece que eu andei em um matadouro.

Quão longe, no mar, eu estou? Os minutos se arrastam; e ainda não há qualquer sinal da maldita costa. Eu começo a ter um pensamento pessimista e minha cabeça vai ficando leve, perco muito sangue e ainda esta horrível dor na mão.

Uma ilha se delineia a frente: Norderney. Só mais sete ou oito minutos e eu poderei pousar. O tempo parece interminável. Finalmente estou sobre Jever. A despeito da dor insuportável na mão, eu mergulho sobre a área de dispersão de vôo e executo uma rolagem de vitória.

Os mecânicos acenam suas mãos e quepes, tão deslumbrados quanto crianças. Agora preciso de ambas as mãos para pousar. Trinco meus dentes. Minha mão direita está completamente dormente.

Meu mecânico chefe fica horrorizado ao ver a minha mão e o sangue em minha jaqueta. Os mecânicos se amontoam em torno do meu avião: o Chefe foi ferido!

No posto de primeiros socorros, o oficial médico de serviço remove o resto da luva e coloca uma bandagem de emergência na mão. Também recebo uma injeção antitetânica por prevenção.

São somente 9:00. O último avião não retornaria até o meio-dia. Duas outras vitórias são anotadas no quadro negro do setor de dispersão.

Às 12:00 finalmente sou transferido para o hospital. Eles terão que me operar. Uma das falanges foi amputada, mas a mão ficará boa, a não ser que desenvolva gangrena.

Uma freira me leva para um leito. Eles sugerem que eu fique internado até segunda ordem. Olho pela janela, meu carro ainda está lá embaixo, Jungmaier, meu motorista, está esperando. Cuidadosamente eu me esgueiro pelo longo corredor, ninguém à vista, nunca pude suportar o cheiro de desinfetante que os hospitais têm. Meia-hora depois eu estou de volta ao ponto de dispersão do grupo. Não posso evitar de rir: eles devem estar me procurando naquele hospital até hoje!

Patrulhas dos Sgts. Virgulino e Santino


Drei Brasilianische Helden - (TRÊS HEROIS BRASILEIROS)
Ao amanhecer do dia 24 de janeiro de 1945, o Cap. Waldir Sampaio, Cmt da 5ª Cia do 1º R.I, recebeu no seu PC, em Lissano, a seguinte missão, transmitida pelo S.3 do 2º BI, via telefônica: " Consta que o inimigo abandonou a frente e retirou-se durante a noite. Em conseqüência deveis lançar, imediatamente, patrulhas na direção de Castelnuovo e da Cota 720 ( Existente a 1500m a E de Torre di Nerone )." O Comandante da Companhia ponderou, informando que o contato havia sido mantido durante toda a noite e que , pela manhã, ainda havia indícios de que o inimigo permanecia na região. Uma vez porém confirmada a missão, determinou ao 3º/5º Cia, em posição na região de Montecavalloro, e ao 3º / 6º Cia, que se achava em reforço à sua Cia, na de Boscaccio, que lançassem cada um uma patrulha, respectivamente, sobre Castelnuovo e Cota 720. Ambas deveriam reconhecer estas regiões. O terreno estava recoberto de espessa camada de neve, a manhã clara e radiante. Após rápidos e incompletos reconhecimentos partiu o GC do Sargento Santino Assunção para Castelnuovo e o Sargento Virgulino Loyola para a Cota 720. O observador avançado da artilharia junto à 5ª Cia e o Comandante do Pelotão de Morteiros da Cia, mantinham-se alertas. Durante o movimento, as silhuetas escuras das duas patrulhas destacavam-se nitidamente do terreno, facilitando a identificação pelos observatórios inimigos.

A patrulha do Sargento Santino atingiu facilmente o objetivo, nada encontrando que revelasse a presença do inimigo na região. Todavia, a do Sargento Virgulino, ao ultrapassar a região de Precária, a caminho da Cota 720, foi apanhada por ajustados fogos de armas automáticas e morteiros, partidos de curta distância, matando uns , ferindo outros. O Comandante da Cia, que vinha acompanhando de perto a evolução dos acontecimentos, determinou imediatamente ao pelotão do Tenente Deschamps que procurasse acolhê-la, indo ele ocupar posições em Precária, donde poderia perfeitamente desemcumbir-se de sua missão. O deslocamento até esta região fez-se sem novidades, entretanto, não conseguiu aproximar-se do local onde se encontrava detida a patrulha, devido a forte reação do inimigo. Nesta situação começaram, então , a surgir os primeiros sobreviventes da patrulha do Sargento Virgulino. Uns após outros,, ao todo cinco, foram-se incorporando ao pelotão. Quatro, porém, não puderam retornar, permanecendo tombados no campo. Um deles era o próprio Sargento. Os outros três outros, o Cabo José Graciliano Carneiro da Silva e os soldados Clóvis Pais de Castro e Aristides José da Silva. Mais tarde, após a conquista de Castelnuovo, realizada a 5 de maio, encontraram-se os seus corpos intactos num pequeno e singelo túmulo erigido pelos alemães junto às suas posições na Cota 720, como tributo à valentia e ousadia desses bravos. Sobre a terra fria e úmida, que os cobria, cravaram uma tôsca cruz de madeira, com a seguinte legenda : " 3 tapfere - Brasil - 24/I/45 ". O Sargento Virgulino, gravemente ferido, fôra recolhido a um hospital alemão, só retornando ao convívio dos companheiros após o término da guerra. O Comandante do Batalhão, ciente dessas ocorrências, determinou que a patrulha do Sargento Santino retornasse às suas posições. O retraimento realizou-se, inicialmente, sem alteração, porém, ao atingir as proximidades de Montecavalloro começaram a hostilizá-la. Prisioneiros alemães feitos posteriormente, informaram que ficaram surpresos e perplexos diante da audácia dos brasileiros ao investirem as suas posições em plena luz do dia. No emprego destas duas patrulhas, há dois fatos que merecem destaque especial.

O primeiro prende-se à própria atuação dos homens que embora certos de que o inimigo se encontrava nas posições, não se intimidaram diante das ordens recebidas, progredindo, durante o dia, pelas encostas frias e brancas do maciço de Castelnuovo, até tombarem sem vida sob o fogo, à queima roupa, das suas armas automáticas. O outro aspecto culminante deste episódio, refere-se ao inimigo que , num preito de admiração e respeito pela bravura dos seus adversários, erguei junto às suas posições, um modesto túmulo, onde sepultou os corpos, sem vida, de três gigantes brasileiros : Graciliano, Clóvis, Aristides... Fato idêntico reproduzir-se-ia, frente à Zocca, com os soldados Arlindo Lúcio da Silva, Geraldo Rodrigues e Grealdo Baeta, todos do 11º RI, o que de algum modo destrói muitas das acusações aleivosas assacadas contra os alemães. Nesta nova cruz encontrava-se a legenda : " Drei Brasilianische Helden ". (TRÊS HEROIS BRASILEIROS).

Relato de um fotógrafo no Dia D

O fotógrafo Robert Capa nasceu na Hungria em 1913 e cobriu vários conflitos ao redor do mundo, como a guerra civil espanhola e a Segunda Guerra Mundial. Ele desembarcou com as tropas americanas na Normandia no dia D e tirou algumas das melhores fotos que ilustram este site. Robert Capa morreu em 1954 depois de pisar em uma mina quando cobria a guerra da Indochina. Leia a seguir um relato feito pelo próprio Capa do seu desembarque em Omaha Beach:






"Nosso breakfast da pré-invasão foi servido às 3h da manhã. Os serventes do U.S.S. Chase vestiam imaculadas jaquetas brancas e serviam bolos quentes, lingüiças, ovos e café com especial solicitude e polidez. Mas os estômagos pré-invasão estavam preocupados, e a maior parte do nobre esforço foi deixada nos pratos.

Às 4h, fomos reunidos no convés. As barcaças de invasão balançavam nos suportes, prontos para serem baixados. Esperando o primeiro raio de luz, os dois mil homens mantiveram-se em silêncio; o que quer que estivessem pensando devia ser algum tipo de oração.

Eu também me mantive quieto. Pensava em um pouquinho de tudo. Mas o sol não tinha como saber que este dia era diferente de todos os outros, e nasceu em seu horário de costume. Os pessoal da primeira leva saltou para as barcaças. O mar estava agitado e ficamos molhados antes que a barcaça se afastasse do navio-mãe. Já estava claro que o general Eisenhower não ia comandar seu pessoal através do Canal com pés secos ou qualquer parte seca.

A costa da Normandia ainda estava a milhas de distância quando o primeiro e inconfundível tiro alcançou nossos ouvidos atentos. Já havia luz suficiente para começar as fotos, e eu tirei minha primeira câmera Contax do oleado à prova d’água. O fundo chato da nossa barcaça aterrou no solo da França.

Minha bela França parecia sórdida e pouco convidativa, e uma metralhadora alemã, cuspindo balas ao redor da barcaça, estragou completamente meu retorno. Os da minha barcaça pularam na água. Fiz uma pausa sobre a areia pra tirar minha primeira foto real da invasão. O condutor, que estava com uma compreensível pressa de dar o fora dali, tomou minha pose de fotógrafo por uma explicável hesitação em sair, e me deu um bem mirado chute no traseiro. A água estava fria e a praia ainda a mais de cem jardas (cerca de 90 metros) de distância. As balas furavam as águas ao meu redor, e corri para o obstáculo mais próximo. Um soldado chegou lá ao mesmo tempo, e por uns poucos minutos compartilhamos aquele abrigo. Ele tirou a proteção contra água do rifle e começou a atirar, sem mirar muito, para a praia enfumaçada. O som e seu rifle lhe deu coragem o bastante para prosseguir e ele deixou o obstáculo para mim. Sobrou me um pé de largura, e me senti seguro o suficiente para tirar fotos dos outros caras que se escondiam como eu.

Terminei minhas fotos, e o mar estava gelado nas minhas calças. Cinqüenta jardas diante de mim, um dos nossos tanques anfíbios, parcialmente queimado, surgia da água e me oferecia uma nova tomada. Avaliei a situação e me dirigi ao tanque. Entre cadáveres flutuantes, eu o alcancei, fiz uma pausa para umas poucas fotos e mais, e reuni minhas forças para a última corrida até a praia.

Agora os alemães tocavam com todos os instrumentos e eu não ouvia espaços entre os tiros de bala de canhão que bloqueavam as últimas 25 jardas até a praia. Fiquei atrás do meu tanque, repetindo uma frase dos meus dias de Guerra Civil Espanhola. "Es una cosa muy seria. Es una cosa muy seria."

A maré estava subindo e já alcançara a minha carta de despedida para minha família, no meu bolso do peito. Atrás da cobertura humana dos dois últimos soldados, alcancei a praia. Joguei-me rente ao solo e meus lábios tocaram a terra da França. Eu não tinha nenhuma vontade de beijá-la.

St. Laurent-sur-Mer devia ter sido um balneário barato para professores primários franceses. Agora, em 6 de junho de 1944, era a praia mais feia do mundo. Rastejei até meu amigo Larry, o padre do regimento. Ele rosnou para mim: "Seu maldito meio-francês! Se não gosta daqui porque diabos voltou?" Assim consolado pela religião, tirei minha Segunda câmera Contax e comecei a tirar fotos sem erguer a cabeça.

O tiro de morteiro seguinte caiu entre o arame farpado e o mar, e cada estilhaço encontrou um corpo. O padre irlandês e um médico judeu, também meu camarada, foram os primeiros a se levantar e eu tirei a foto. Eu não me atrevia a tirar os olhos do visor da Contax e freneticamente tirei foto atrás de foto. Meio minuto, depois meu filme acabou. Busquei um novo rolo na bolsa, e minhas mãos molhadas, trêmulas, o estragaram antes que eu pudesse inseri-lo na câmera.

Fiz uma pausa... e então me senti mal.

A câmera vazia tremia nas minhas mãos. Um barco desembarcou médicos com cruzes vermelhas nos capacetes. Não pensei e não decidi, apenas me levantei e corri para o mar. Segurei minhas câmeras acima da cabeça com água pelo pescoço. Sabia que estava fugindo. Tentei voltar mas não consegui encarar a praia, e disse a mim mesmo: "Só vou secar minhas mãos naquele barco".

Alcancei o barco. Os últimos médicos estavam saindo. Subi a bordo. Ao alcançar o convés, senti um choque, e repentinamente meu corpo ficou coberto de penas. "Que é isto?", Pensei. "Alguém está matando galinhas?". Então vi que a superestrutura havia sido atingida e que as penas eram o enchimento das jaquetas dos homens. O comandante estava chorando. Seu assistente foi atingido pela explosão e seus pedaços voaram sobre ele.

Nosso barco estava fazendo água e lentamente nos afastamos para tentarmos alcançar o navio mãe antes de afundarmos. Desci à casa de máquinas e troquei os filmes. Voltei ao convés para uma última foto da praia enfumaçada. Uma barcaça de invasão parou ao nosso lado e nos tirou do barco danificado. A transferência de feridos de um barco para o outro em mar aberto foi uma operação complicada. A barcaça nos levou ao U.S.S. Chase, o mesmo navio que deixáramos 6 horas antes. A última leva da 16 de infantaria estava desembarcando e o convés já estava repleto de feridos e cadáveres.

Foi minha última chance de voltar à praia. Não fui. Os serventes que haviam nos oferecido café em jaquetas brancas agora estavam cobertos de sangue, costurando os mortos em sacos brancos.

Sete dias depois, soube que as fotos que tirei em Easy Red haviam sido as melhores. Mas o laboratorista entusiasmado, enquanto revelava o filme, usou muito calor, derretendo a emulsão (...)"

De 106 fotos, apenas 10 se salvaram.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...