domingo, 20 de dezembro de 2009

Eu comandei o ataque a Pearl Harbor

Mitsuo Fuchida

Mitsuo Fuchida (Nara, 3 de dezembro de 1902 – Kashiwara, 30 de maio de 1976) foi um piloto e oficial da Marinha Imperial Japonesa, famoso na história da II Guerra Mundial por ter coordenado e comandado as esquadrilhas japonesas no ataque a Pearl Harbor, iniciando a Guerra do Pacífico.

Fuchida entrou para a academia naval em 1921, onde conheceu e se tornou amigo do colega de classe Minoru Genda, pelo interesse mútuo em aviões. Os dois, vinte anos depois, se tornariam peças fundamentais no planejamento e execução do ataque aéreo japonês às ilhas do Havaí.

Especializando-se em bombardeios aéreos horizontais, ele se destacou a ponto de se tornar instrutor da academia. Considerado um dos mais hábeis aviadores do Japão, Fuchida ganhou experiência em combates aéreos na China, na segunda metade dos anos 30, durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa, sendo promovido a tenente-comandante e integrando o colégio do estado-maior naval. Em 1939, foi designado como piloto-comandante para a tripulação aérea embarcada do porta-aviões Akagi. Nesta época, já era um piloto experiente com mais de 3.000 horas de vôo, muitas delas em combate real, no curriculo.

Tora! Tora! Tora!

Em 7 de dezembro de 1941, após participar ativamente dos preparativos e dos treinamentos para a operação junto a seu colega de academia Minoru Genda, principal idealizador do plano de batalha, Mitsuo Fuchida liderou mais de quatrocentos aviões japoneses no ataque a Pearl Harbor, base naval dos Estados Unidos no Oceano Pacífico, forçando a entrada dos norte-americanos no conflito da II Guerra Mundial, agora levada a todos os cantos do planeta.

Comandando pessoalmente a primeira vaga aérea, Fuchida flanqueou a ilha de Oahu pelo seu lado leste, virando então diretamente sobre Honolulu, por acreditar que os radares do inimigo não lhe indicariam a presença ou lhes confundiria com aviões amigos voltando de treinamento. Ordenando Tenkai (“take attack position”) a seus comandados, a esquadrilha encontrou tudo calmo sobre a ilha havaiana numa bonita mannhã de um domingo de sol, ele soltou uma fumaça verde do tubo de escapamento de seu avião-torpedeiro, o sinal para o ataque.

As 07:53 da manhã, seu rádio-operador, à seu comando, enviou as palavras em código à nave capitânea do Almirante Nagumo, o porta-aviões Akagi, centenas de milhas ao largo, Tora ! Tora! Tora!, as três palavras em seguida indicando completa surpresa do inimigo frente ao ataque. ( Tora em japonês significa Tigre, mas nesta mensagem específica, ao contrário do eternizado pela história, elas significavam em código, uma junção de To, sílaba inicial da palavra japonesa para ataque (totsugeki) com Ra, primeira sílaba de raigeki, ou, ataque com torpedos.)

Após o devastador efeito da primeira onda de ataque, Fuchida permaneceu sozinho sobre Pearl Harbor, esperando a segunda vaga de aviões e analisando e anotando os danos causados à instalação militar, retornando ao porta-aviões junto com a também bem sucedida segunda vaga de atacantes. Após pousar, ele notou que seu avião tinha mais de vinte buracos de tiros na fuselagem, o que o fez acreditar que alguém espiritual e superior olhava por ele, algo destinado a influenciar sua decisão futura pela religião. O sucesso do ataque transformou Fuchida num herói nacional e o fez ser recebido em audiência pelo Imperador Hirohito.

No começo de 1942, ele participou dos ataques aéreos japoneses à Darwin, na Austrália, e ao Ceilão, destruindo importantes instalações militares britânicas na região do Oceano Índico. Em junho, participou de seu último combate, sendo ferido na Batalha de Midway, ao cair de uma escada durante incêndio no porta-aviões Akagi, atingido por aviões inimigos, quebrando os dois tornozelos e passando o resto da guerra fora da linha de frente como oficial de estado-maior.

Depoimento de Mitsuo Fuchida
O ataque à base naval americana no Pacífico, narrado pelo comandante japonês, o Capitão-de-Mar-e-Guerra Mitsuo Fuchida :
"Desejamos que o senhor comande a nossa força aérea, na hipótese de atacarmos Pearl Harbor".

Fiquei quase sem fôlego. Eram fins de setembro de 1941 e, se a situação internacional continuasse a agravar-se, o plano de ataque teria de ser executado em dezembro. Não havia tempo a perder para essa importantíssima missão.

Em meados de novembro, após o mais rigoroso treinamento, foram levados os aviões para bordo dos respectivos porta-aviões que, a seguir, aproaram para as ilhas Curilas, viajando isolados e seguindo rotas diferentes para não despertar atenção. Depois, às seis horas da manhã, uma manhã escura e nublada, em 26 de novembro, nossa força-tarefa de 28 navios, incluindo seis porta-aviões, deixou as Curilas.

O Vice-Almirante Nagumo comandava a Força de Ataque a Pearl Harbor. As instruções por ele recebidas, diziam: "No caso de as negociações com os Estados Unidos chegarem a conclusão satisfatória, a força-tarefa retornará imediatamente à pátria". Desconhecendo o fato, entretanto, as tripulações, lançando o que talvez fosse seu último olhar ao Japão, gritavam: "Banzai!". Podia-se perceber seu ardente entusiasmo e espírito combativo. Malgrado isso, eu não podia deixar de alimentar dúvidas quanto à confiança com que o Japão se lançava à guerra.

Nossa rota devia passar entre as ilhas Aleutas e a Ilha de Midway, de maneira a ficar fora do alcance de patrulhas aéreas americanas, que, em alguns casos, segundo se supunha, abrangiam uma extensão de 1.000 quilômetros. Enviamos à frente três submarinos para informar da presença de quaisquer navios mercantes, a fim de podermos alterar a rota e evitá-los. Mantínhamos um alerta permanente contra submarinos americanos.

Nossos rádios permaneciam em absoluto silêncio, mas ouvíamos as transmissões de Tóquio e Honolulu procurando alguma palavra sobre o início da guerra. Em Tóquio, uma conferência de coordenação do governo e do Alto Comando esteve em sessão, diariamente, de 27 a 30 de novembro, para discutir a proposta feita pelos EUA no dia 26. Chegou-se à conclusão de que a proposta era um ultimato destinado a subjugar o Japão e a tornar a guerra inevitável, mas que se deveria insistir nos esforços pela paz até o último momento.

A decisão a favor da guerra foi tomada na Conferência Imperial, realizada a 1º de dezembro. No dia seguinte, o Estado-Maior Geral deu a ordem: "O dia do ataque será 8 de dezembro (7 de dezembro no Havaí e nos Estados Unidos)". A sorte estava lançada: rumamos diretamente para Pearl Harbor.

Por que foi escolhido aquele domingo para o ataque? Porque estávamos informados de que a Esquadra Americana regressava a Pearl Harbor nos fins de semana, após um período de instrução no mar. E também porque o ataque deveria ser coordenado com nossas operações em Malaca, onde estavam previstos ataques e desembarques aéreos para a madrugada naquele dia.

De Tóquio foram-nos retransmitidos relatórios do Serviço de Informações sobre atividades da Esquadra Norte-Americana.

7 de dezembro (6 de dezembro, hora do Havaí): "Não há balões nem redes antitorpedos em torno dos encouraçados fundeados em Pearl Harbor. Todos os encouraçados estão na baía. Não há indicações, na atividade do rádio inimigo, de que estejam sendo feitos vôos de patrulha oceânica na região do Havaí. O Lexington deixou o porto ontem. Supõe-se que o Enterprise também esteja operando".

Nessa ocasião é que recebemos a mensagem do Almirante Yamamoto: "O apogeu ou declínio do Império depende desta batalha; todos devem dar o máximo de seu esforço no cumprimento do dever".

Estávamos a 230 milhas do norte de Oahu, onde está situada Pearl Harbor, pouco antes do alvorecer do dia 7 de dezembro (hora do Havaí), quando os porta-aviões manobraram na direção do vento norte. A bandeira de combate tremulava no topo de cada mastro. O mar estava muito agitado, o que nos fez hesitar quanto à decolagem no escuro. Achei que era viável. Os conveses de vôo vibraram com o ronco dos motores dos aviões acabando de aquecer.

Uma lâmpada verde foi agitada em círculos. "Decolar!". O rugido do motor do primeiro caça foi crescendo até que ele se elevou no ar, são e salvo. Havia grande aclamação cada vez que um avião decolava.

Dentro de 15 minutos, 183 caças, bombardeiros e torpedeiros tinham decolado dos seus porta-aviões e estavam entrando em formação no céu ainda escuro, guiados apenas pelas luzes de sinalizações dos aviões-guia. Após circularmos por cima da esquadra, tomamos a rota sul, para Pearl Harbor. Eram 6:15 h.

Sob meu comando imediato, havia 49 aviões de bombardeiro horizontal. À minha direita, e um pouco abaixo, estavam 40 aviões torpedeiros, à minha esquerda, cerca de 200 metros acima, 51 bombardeiros de mergulho; protegendo a formação, havia 43 caças.

Às 7:00 h calculei que deveríamos chegar à Oahu em menos de uma hora. Mas, voando por cima das espessas nuvens, não víamos a superfície do mar e, portanto, não podíamos controlar nossa deriva. Liguei o radiogoniômetro para a estação de Honolulu e não tardei a ouvir música. Girando a antena, encontrei a direção exata de onde vinha a transmissão, e corrigi nossa rota. Tivéramos uma deriva de cinco graus.

Ouvi então um boletim metereológico de Honolulu: "Nublado em parte, principalmente sobre as montanhas. Boa visibilidade. Vento norte, dez nós".

Que sorte a nossa! Não se poderia ter imaginado situação mais favorável. Devia haver brechas nas nuvens, sobre a ilha.

Cerca de 7:30 h as nuvens se abriram de repente e apareceu uma longa linha branca de litoral. Estávamos sobre a extremidade norte de Oahu. Era a hora de desdobrarmos a nossa formação.

Chegou um relatório de um dos dois aviões de reconhecimento que tinha ido à frente, dando a localização de dez encouraçados, um cruzador pesado e dez cruzadores leves. O céu ia ficando mais limpo à proporção que avançávamos para o alvo, e comecei a estudar nossos objetivos com auxílio do binóculo. Os navios estavam lá. "Dê ordem de ataque a todos os aviões", ordenei ao meu rádio-operador. Eram 7:49h.

As primeiras bombas caíram no aeródromo de Hickam, onde havia fileiras de bombardeiros pesados. Os pontos atingidos a seguir foram as ilhas Ford e o aeródromo de Wheeler. Em pouco tempo, imensos rolos de fumaça subiam dessas bases.

Meu grupo de bombardeiro horizontal manteve-se a leste de Oahu, para lá da extremidade sul da ilha. No ar só havia aviões japoneses. Os navios, na baía, pareciam ainda adormecidos. A estação de rádio de Honolulu continuava normalmente sua transmissão. Conseguíramos a surpresa!

Sabendo que o Estado-Maior Geral devia estar ansioso, ordenei que fosse enviada à esquadra a seguinte mensagem: "Conseguimos realizar ataque de surpresa. Peço retransmitir esta informação para Tóquio".

Começaram a aparecer esguichos de água em torno dos encouraçados. Eram os nossos aviões torpedeiros em ação. Era tempo de desencadearmos nossos bombardeios horizontais. Ordenei ao meu piloto que inclinasse o avião abruptamente. Era o sinal de ataque para o nosso grupo. Os meus dez esquadrões formaram em coluna por um, com intervalos de 200 metros - uma bela formação.

Enquanto meu grupo fazia a corrida para o bombardeio, a artilharia antiaérea americana, tanto de bordo dos navios, como as baterias terrestres, entrou subitamente em ação. Aqui e ali viam-se explosões de cor cinza-escura, até que o céu se encheu de abalos de tiros quase certeiros que faziam nossos aviões estremecer. Fiquei surpreendido com a rapidez do contra-ataque, que veio menos de cinco minutos depois de lançada a primeira bomba. A reação japonesa não teria sido tão pronta - o caráter japonês é apropriado à ofensiva, mas não se ajusta facilmente à defensiva.

Meu esquadrão dirigia-se para o Nevada, que estava fundeado na extremidade norte do cais dos encouraçados, na parte leste da ilha Ford. Estava quase no momento de soltar as bombas quando penetramos numa formação de nuvens. Nosso bombardeador-guia abanou as mãos para trás e para frente para indicar que teríamos que passar em branco, e demos uma volta sobre Honolulu para aguardar outra oportunidade. Nesse ínterim, outros esquadrões fizeram suas corridas, tendo alguns realizados três tentativas antes de lograrem êxito.

Repentinamente, colossal explosão verificou-se no cais dos encouraçados. Uma imensa coluna de fumaça se elevou a uns 300 metros, e uma violenta onda de choque atingiu o nosso avião. Devia ter explodido um paiol de pólvora. O ataque estava no auge; a fumaça dos incêndios e explosões enchia quase todo o céu de Pearl Harbor.

Observando com o binóculo o cais dos encouraçados, vi que a grande explosão havia sido no Arizona. Este continuava ardendo furiosamente, e como a fumaça cobria o Nevada, alvo do meu grupo, procurei algum outro navio para atacar. O Tennessee já estava pegando fogo, mas junto dele encontrava-se o Maryland. Dei ordem para mudar, tomando o Maryland como alvo, e voamos em direção ao fogo antiaéreo.

Quando o bombardeador do nosso avião-guia largou sua bomba, os pilotos observadores e radioperadores dos demais aviões gritaram: "Lançar!" e lá se foram as nossas bombas. Imediatamente me deitei de bruços no chão para observar através de uma fresta. Quatro bombas, formando um desenho perfeitamente simétrico, caíam a prumo como demônios da destruição. Foram diminuindo de tamanho até se transformarem em pontinhos, e finalmente desapareceram, dando lugar a quatro minúsculos clarões no navio e perto dele.

De grande altitude, os tiros perdidos são mais perceptíveis que os impactos diretos, pois produzem ondas circulares na água, fáceis de ver. Percebendo duas dessas ondas e mais dois pequenos clarões, bradei: "Dois certeiros!". Tive a convicção de que havíamos produzido danos consideráveis. Dei ordens aos bombardeiros que haviam completado suas missões que retornassem aos porta-aviões. O meu, porém, permaneceu sobre Pearl Harbor para observar e dirigir as operações ainda em curso.

Pearl Harbor e arredores estavam convertidos num caos. O Utah havia emborcado. O West Virginia e o Oklahoma, com os cascos quase arrancados pelos torpedos, adernavam perigosamente em meio a uma inundação de óleo grosso. O Arizona estava muito adernado e ardia furiosamente. Os encouraçados Maryland e Tennessee ardiam também. O Pennsylvannia, que estava no dique, ficara intacto - evidentemente o único encouraçado que não fora atacado.

Durante o ataque, muitos dos nossos notaram os valentes esforços dos pilotos americanos para decolar com seus aviões. Apesar da grande inferioridade numérica, voaram diretamente sobre nossos aparelhos para travar combate. Os resultados foram ínfimos, mas sua coragem impôs admiração e respeito.

Os aviões de nosso primeiro ataque levaram uma hora para concluir sua missão. Quando iniciaram o regresso aos porta-aviões, após terem perdido três caças, um bombardeiro de mergulho e cinco aviões torpedeiros, entrou em cena a nossa segunda vaga de 171 aviões.



O céu agora estava tão coberto de nuvens e de fumaça que era difícil localizar os alvos. Para dificultar ainda mais a missão, o fogo da artilharia antiaérea, naval e terrestre tornara-se intensíssimo.

O segundo ataque conseguiu excelente dispersão, atingindo os encouraçados menos danificados, bem como cruzadores, e contratorpedeiros não atingidos anteriormente. Durou também cerca de uma hora, mas, em virtude da intensificação do fogo da defesa, houve novas baixas, seis caças e 14 bombardeiros de mergulho.

Depois que a segunda onda iniciou a viagem de retorno aos porta-aviões, dei novamente uma volta sobre Pearl Harbor para observar e fotografar os resultados. Contei quatro encouraçados positivamente afundados, três seriamente avariados. Outro encouraçado parecia consideravelmente desmantelado, e haviam sido destruídos numerosos navios de outros tipos. A base de hidraviões da ilha Ford estava presa das chamas, bem como os aeródromos, especialmente o de Wheeler.

Densa cortina de fumaça tornava impossível determinar os estragos sofridos pelos aeródromos. Era evidente, todavia, que boa percentagem do poderio aéreo da ilha fora destruído: nas três horas em que meu avião permaneceu naquela região, não encontramos um único avião inimigo. No entanto, vários hangares estavam ilesos, e era possível que alguns deles contivessem aviões utilizáveis.

Meu avião foi talvez o último a voltar para a esquadra, onde outros aparelhos, reabastecidos e rearmados, estavam-se alinhando, preparando-se para outro ataque. Fui chamado sem demora à ponte de comando. O Estado-Maior do Almirante Nagumo, enquanto aguardava meu relatório, estivera entretido em uma discussão intensa sobre a conveniência de lançar novo ataque.

- Quatro encouraçados positivamente afundados - informei. - Alcançamos elevado grau de destruição nas bases aéreas e nos aeródromos. Há, contudo, muitos alvos por atingir.

Insisti por novo ataque. O Almirante Nagumo, porém - numa decisão que desde então tem sido alvo de muita crítica por parte de peritos navais - preferiu voltar à base. Imediatamente foram alçadas as bandeirolas de sinais e nossos navios aproaram para o norte a grande velocidade.


Fonte: Depoimento de M. Fuchida
http://pt.wikipedia.org/wiki/Mitsuo_Fuchida

A vida no Stalag 7A, Moosburg. FEB

Relato de um tenente do 11o Regimento de Infantaria capturado no Monte Castelo e sua estadia na Alemanha em 1945 :


Odisséia dum “Krige” (1)

Por Emílio Varoli, tenente da Reserva, nascido em São Paulo em 1912, era médico veterinário na vida civil. Comandou um pelotão do 11º R.I. na guerra, sendo condecorado com a Cruz de Combate de 1ª Classe, Bronze Star, Medalhas de Campanha e de Guerra do Brasil e promovido a Capitão ao retornar a reserva. Foi o único oficial de infantaria a ser capturado pelos alemães, no terceiro ataque ao Monte Castelo.

Torre principal na entrada do campo

1) Interrogatório

Capturado no ataque de 12 de dezembro em Abetaia, fui levado para uma das casas desse povoado, onde fui tratado com certa deferência mesmo antes de ter-me identificado como oficial.

À noitinha fizeram-me subir o Monte Castello, obrigando-me a andar, apesar do congelamento dos pés. Desnecessário é dizer o sofrimento que me causava aquela subida, que nada mais era que um arrastar miserável dos pés insensibilizados, logo seguido de uma queda na lama. Só mais tarde, entre os americanos, que me explicaram o congelamento com todos os detalhes e seu tratamento, é que percebi que aquela caminhada me salvara os pés restabelecendo paulatinamente a circulação.

Chegados ao comando da Cia., situado a uns dez metros abaixo do solo no cume dum morrote, encontrei seis soldados do 1º R.I. [Regimento de Infantaria] que também haviam sido capturados naquele dia.

Fui recebido amigavelmente pelo Capitão alemão, que se achava com um oficial médico atendendo aos feridos alemães. Ofereceram-me um pouco de conhaque e puseram-se a conversar comigo em inglês.

A um dado momento o Capitão diz-me:

- Francamente, vocês brasileiros ou são loucos ou muito bravos. Nunca vi ninguém avançar sobre metralhadoras e posições bem defendidas com tanto desprezo pela vida.

- Capitão, nós cumprimos as ordens recebidas.

- Eu sei disso. Mas a tropa brasileira perdeu no ataque de hoje uma centena de homens entre mortos e feridos [na verdade foram 145 baixas], contra cinco mortos e treze feridos nossos.

- Capitão, os brasileiros não fogem à luta, haja o que houver.

- Vocês são uns verdadeiros diabos. Na minha opinião, depois do soldado alemão que incontestavelmente é o melhor do mundo, os brasileiros e os russos são os melhores lutadores que já vi.

- Essa é sua opinião, mas não a minha.

Em seguida, o Capitão pediu minha identificação e avisou-me que nessa mesma noite eu deveria ser encaminhado ao comando do Regimento [Reg. 1045, da 232 DI alemã], no outro lado do Monte Castelo.

Despedimo-nos e juntamente com os seis soldados brasileiros, retomei a subida.

Seriam umas três horas da madrugada quando chegamos ao P.C. do Regimento situado em Pavullo sul Frignano, onde fomos alojados num estábulo. De manhã fomos acordados por um alemão que falava o português corretamente e que contou ter vivido em Santa Catarina durante uns doze anos.

Avisou-nos que iríamos à presença do Comandante do Regimento e deu-nos instruções sobre como devíamos portar-nos diante dele.

Foi somente ai que pude observar bem os meus companheiros de prisão. Um 3º Sargento, dois cabos e três soldados. O Sargento, de cor parda, parecia não gozar da estima de seus colegas, porém não tive oportunidade de esclarecer isso no momento, pois logo a seguir fomos levados ao Comando e colocados em linha num corredor.

Abre-se a porta e aparece um major, tipicamente prussiano, de cabelos grisalhos e cara fechada. Olhou-nos em silêncio e ao deparar com o sargento rosnou depreciativamente “Ein nigger”. Dirigiu-nos várias perguntas vagas por intermédio do intérprete e retirou-se.

Logo depois fui interrogada por um jovem tenente e o que me deixou estupefato foi notar que ele sabia coisas a respeito da F.E.B. que eu absolutamente ignorava e que me pareciam verdadeiras. Procurei despistá-lo o mais possível; não sei se o consegui.

Fomos enviados em seguida a Albineri e posteriormente a Parma e Montova.

Aqui, pela primeira vez, entrei num campo provisório (Dulag) de prisioneiros, com os célebres armados farpados.

Separado dos soldados, fui alojado num barracão amplo onde encontrei dois majores, quatro capitães, dois tenentes ingleses e canadenses e quatro tenentes americanos.

Apresentei-me ao Major encarregado (que chamarei de Jones) e ele apresentou-se aos outros oficiais.

Entabulando conversa, verifiquei que, se até então tinha comido passavelmente, a partir desse momento devia aprender a apertar a cinta, pois a comida que nos serviam era escassa e resumia-se numa caneca de água quente com chicória, o café ersatz, pela manhã, uma concha de sopa no almoço e 250 gramas de pão com um pedaço de salsicha ou queijo à tarde. Isso tinha como finalidade manter-nos num estado de subnutrição, quebrando assim toda veleidade de resistência às ordens ou tentativas de fuga.

Pelo que me era dado observar, os meus companheiros já tinham alguma prática da venalidade dos carcereiros, pois já tinham conseguido trocar várias bugigangas como relógios e outras por alimentos.

Como possuo alguns parentes em Mantova, procurei logo um jeito de fugir e abrigar-me junto deles até achar oportunidade de atravessar as linhas. Estudando o lugar vi que a saída era possível pelo Lago de Mantova. Falei a respeito com o Major Jones mas ele logo discordou, dizendo que assim que os alemães dessem pela minha fuga vingar-se-iam nos que ficassem. Não mais discuti o assunto e fiquei aguardando uma oportunidade para fugir.



Entrada do Stalag 7A




(II) A caminho da Alemanha

No dia seguinte [duas semanas depois] pela manhã recebemos ordens para embarcar, pois íamos ser removidos para um campo definitivo e ai pelas nove horas saímos com forte escolta, passando pelas ruas de Mantova a caminho duma estaçãozinha de subúrbio.

Fomos embarcados, os oficiais, num vagão de transporte de animais, fechado no meio por uma rede de arame farpado e ocupamos uma das metades. O desconforto era imenso, pois não cabíamos todos sentados ao mesmo tempo naquele espaço exíguo e assim foi estabelecido um revezamento para sentar e deitar, de duas em duas horas. Porém o revezamento mais desagradável era o da caixa de necessidades, um caixão colocado a um canto, com um tampo, e sobre o qual um de nos devia ficar sentado devido à falta de espaço.

Na outra metade do vagão iam quatro guardas armados até os dentes.

Pouco antes da partida do trem ouvimos uma gritaria ao longo da composição, até que um sargento chegou à altura do nosso vagão.

- Tirem as botinas e joguem-nas para cá – gritou ele. Nós fingimos não tê-lo ouvido ou entendido.

O Homenzinho ficou rubro de cólera:

- Joguem as botinas, já disse, se não vou aí tirá-las à força.

Ninguém respondeu.

O sargento subiu no vagão e começou a dirigir-nos impropérios e ameaças apocalípticas. Então o Major Jones dirigiu-se a um capitão do nosso grupo que falava corretamente o alemão: “Diga a esse idiota que ele está se dirigindo a oficiais e que nenhum de nós tirará as botinas”; enquanto isso nos revidávamos as ‘gentilezas’ do bruto em várias línguas.

O recado foi transmitido na íntegra e o homem desceu furibundo voltando daí a pouco com um Capitão.

Este dirigiu-se delicadamente ao Major e disse-lhe: “Se os senhores me derem a palavra de honra de que não tentarão fugir, permitirei que conservem as botinas’.

O Major respondeu-lhe que não dávamos a palavra pedida, pelo contrário, garantiu-lhe que se se apresentasse à ocasião fugiríamos incontinenti e que não tiraríamos as botinas.

O Capitão sorriu e voltando-se para a guarda: ‘Se algum deles tentar fugir, atirem para matar’, e deu ordens de partida ao trem.

Efetivamente, à tarde [de 24 de dezembro, após quatro dias de viagem] o comboio seguiu e logo parou em Mossburg, onde descemos.

Fomos logo encaminhados a um imenso campo, que soubemos ser o Stalag 7-A.

III) Começa a vida de um prisioneiro no campo

Logo após o portão via-se uma espécie de arco de triunfo feito de madeira, no qual estavam esculpidas as figuras dos soldados das Nações Unidas, aprisionados e caminhando sob escolta por uma estrada onde havia uma placa com os dizeres ‘Nach Berlin’ (‘Para Berlim’) e em baixo em grandes caracteres: ‘Só assim é que chegarão a Berlim’.

Dirigimo-nos a um barracão amplo, onde ficamos amontoados no chão recoberto de palha e ai permanecemos durante seis dias, de quarentena.

Finalmente, no dia 31 de dezembro, somos enviados a um grande salão e obrigados a tirar toda a roupa, que foi revistada minuciosamente. A seguir passamos para uma sala de banhos, enquanto nossa roupa era esterilizada em vapor. Foi o primeiro banho que tomei desde 10 de dezembro e passariam mais de 40 dias antes de receber outro.

Depois do banho, em troca das carteiras de identidade recebemos uma placa numerada; a partir desse momento eu era o prisioneiro nº 143.040 da Stalag 7-A.

Foi-nos então dado papel para que enviássemos uma mensagem à família por intermédio da Cruz Vermelha Internacional, porém o Major Jones nos fez notar que o impresso dizia que a mensagem seria irradiada na hora de propaganda que a Alemanha emitia para todos os países inimigos e todos recusamos.

Atravessando cinco cercas de arame farpado, chegamos a um barracão situado bem no meio do campo, onde fomos apresentados ao Major Smith, encarregado dos prisioneiros, que designou as camas e o block.

O block era uma turma de 4 ou 5 prisioneiros que recebiam em bloco tudo que fosse distribuído tal como rações alimentares, pacotes da Cruz Vermelha, cobertores, cigarros, etc.

O regime de ‘abundância’ alimentar era idêntico ao de Mantova e não fora os pacotes da Cruz Vermelha, creio que poucos de nós teriam saído de lá com vida.

O meu block era composto de um Major, um Capitão-Médico e um tenente das tropas de De Gaule e eu.

O Capitão parece que não gostou muito de mim e queixou-se ao Major por me terem colocado no block; respondi-lhe logo, em francês, que eu é que iria solicitar a mudança para outro block.

Passada a surpresa, ele caiu em si e pediu mil desculpas pela grosseria, enquanto o Major ria a bandeiras despregadas.

Depois da refeição encheram-me de perguntas sobre o Brasil e foi então que comecei a notar o quanto o nosso país é ‘um grande desconhecido’. Surpreenderam-se ao saber que no Brasil o ensino da língua francesa é obrigatório nos ginásios, bem como com muitas outras coisas, das quais não tinham a mínima noção.

Para encurtar, tornamo-nos muito bons amigos, especialmente do Major, dono dum bom humor inalterável.

Começou então aquela vida monótona; alvorada às 7 horas, formatura às 7,30 água quente às 8, sopa às 11 e jantar às 5.

A sopa consistia numa concha de água quente onde nadavam algumas verduras e acidentalmente uma migalha de carne de cavalo. O único dia em que o ‘menu’ melhorava era às quintas-feiras quando recebíamos uma sopa de cevada com certa consistência.

O assim chamado jantar constava de 200 grs. de pão de batatas, 300 grs. de batatas em estado próprio para serem jogadas fora e um pedacinho de queijo ou salsicha.

Não fora os pacotes da Cruz Vermelha e muitos entre nós teriam morrido de pura inanição, pois o cálculo de calorias alimentares fornecidas diariamente pela comida alemã mal atingia a 600, segundo avaliação feita pelos nossos médicos.

O barracão onde fui alojado era dividido em duas partes pela cozinha, a qual era mantida só para o representante da ‘Potência protetora’ (A Suíça) ver que nós éramos bem tratados e dispúnhamos de tudo.

Em cada uma das metades alojava-se uma centena de homens.

A princípio, não sei por que razão, os alemães nos forneciam um pouco de carvão e lenha que eram utilizados na cozinha para aquecer a comida e fazer um pouco de chá assim como na estufa do alojamento. O frio era terrível, tendo chegado a 20o abaixo de zero, mas como a cozinha e a estuda funcionando em breves períodos ainda podíamos tolerar a temperatura mantendo-nos na campa a maior parte do tempo.



Placa de identificação de prisioneiro

Fila de rancho no campo


IV) Incidentes na rotina do campo de prisioneiros
Eis que um dia alguns prisioneiros conseguiram fugir. Foi um Deus nos acuda!

Os alemães fazendo uma tremenda exibição de força, armados de metralhadoras portáteis e acompanhados de matilhas de ‘dogues’ nos puseram para fora dos alojamentos e ficamos ao ar livre expostos à neve que caía em abundância, enquanto eles revistavam a barraca.

Depois disso começou a chamada que se prolongou durante uma hora. Conferência de números, soma, cochichos entre os encarregados da chamada.

Nova chamada, nova conferência e novos cochichos.

Afinal o Capitão alemão encarregado do serviço chamou o Major Smith e entabularam este curioso diálogo:

- Major, faltam três prisioneiros.

- Sim – respondeu o Major.

- Mas não podem faltar.

- Porém a verdade é que estão faltando – retruca o Major.

- Mas não é possível que faltem prisioneiros – insiste o Capitão.

- O Sr. não contou os prisioneiros que faltam? Não faltam três? Ai está o fato.

- Aviso-o que enquanto não esclarecermos o seu paradeiro, vocês não voltarão para a barraca.

- Capitão, não tenho a mínima idéia a respeito.

Depois de muitas confabulações entre os guardas, nós começamos a lançar-lhes impropérios e então nos permitiram que voltássemos aos alojamentos. A revista repetiu-se mais duas vezes durante o dia e uma vez pela madrugada, sempre com o mesmo aparato.

Nos dias que seguiram continuou a importunação, mas aos poucos foram se acalmando e tudo voltou ao normal.

(1) Krige – abreviatura de Kriegsgefangen (Em alemão – prisioneiro de guerra) usada pelos norte-americanos e ingleses.

V) Chegam mais prisioneiros

Em fins de janeiro soubemos que um forte contingente de aviadores deveria chegar a Moosburg e começou uma azáfama tremenda para preparar outros barracões destinados a alojá-los.

Eram perto de 4.000 oficiais da A.A.F., R.A.F., R.C.A.F. e alguns de infantaria que vinham do Stalag Luft-3 em Sagan no norte da Alemanha, evacuados diante do avanço russo naquele setor.

Chegaram cansadíssimos e muitos, doentes de tanto caminhar, pois o deslocamento fora efetuado a pé por umas centenas de quilômetros, tendo sido embarcados num ponto próximo de Moosburg.

A caminhada fora tão penosa que, segundo me contaram mais tarde alguns desses oficiais, os guardas que os escoltavam não agüentaram carregar suas armas tendo-as entregado aos próprios prisioneiros.

Vinham comandados pelo Coronel Goodrich, da A.A.F., um dos oficiais mais enérgicos que jamais encontrei.

A lufa-lufa era tremenda, pois os alojamentos tiveram que comportar 400 homens em lugar de 200 e todo o espaço disponível foi ocupado num abrir e fechar de olhos. Não havia outra solução; devido ao Stalag 7-A ter recebido muitos prisioneiros evacuados de outros setores, abrigava naquela ocasião mais de 100.000 prisioneiros de todas as categorias e nações. Tornou-se, creio eu, o campo mais importante da Alemanha naquela ocasião. [Na verdade, em 1 de janeiro de 1945, o campo contava com 76.248 prisioneiros, a maior parte deles franceses – c. 38.000, isso numa área de 350.000 m2].

Eu postara-me junto à entrada para apreciar o movimento e quando regressei ao meu catre, uma surpresa me aguardava. O meu colchão estava repleto de cigarros, meias e outras coisas utilíssimas que os recém-chegados haviam deixado. Mal podia crer n que via e tratei logo de procurar os doadores para agradecer-lhes a gentileza e fui travando conhecimento com um grupo de ótimos companheiros. Eram aviadores que haviam conhecido o Brasil na passagem, quando de suas viagens da parte dos nossos patrícios do norte, aproveitaram aquela ocasião para retribuí-las a um brasileiro.

Daí por diante o meu nome nas barracas passou a ser ‘Brasil’.

VI) A admirável organização americana

Dois dias depois o Coronel Goodrich assumiu o comando dos prisioneiros e começaram várias modificações na distribuição interna e na organização dos grupos.

Fiquei altamente surpreendido ao ter conhecimento do Estado-maior do Coronel Goodrich, que passou a controlar e proteger toda a nossa vida no campo. Logo os americanos que encontrara em Mantova e eu fomos à presença do Tenente-Coronel X, Chefe do Serviço de Segurança e ai começou a investigação de todos nós. Os meus companheiros tiveram que identificar-se por meio de outros oficiais que já estavam fora de qualquer suspeita; todos tinham companheiros que os identificaram. Quando percebi que o Coronel X ia passar a outro assunto, como eu não tivesse sido investigado, perguntei-lhe: ‘Coronel, e eu?’ – ‘Ora, Brasil, você já foi investigado. Além do mais os alemães não seriam tão ingênuos para colocaram um ‘phony’ que chamasse tanto a atenção.

Passou então a falar-nos sobre a organização sumária do Estado-Maior, que constava de vários serviços, tais como segurança, Informações, Fuga, Alimentação, e outros que não me ocorrem e sobre as precauções que devíamos tomar.

Era preciso tomar cuidado com o que disséssemos, pois os alemães costumavam introduzir ‘phonies’ (espiões disfarçados em prisioneiros) entre os ‘Kriges’ para saber o que se passava entre eles e essas ocasiões de mudança de campo eram aproveitadas, devido à confusão e à mistura de vários grupos primitivos.

Não devíamos fazer comentários sobre o boletim recebido diariamente da B.B.C. (só no dia da libertação é que vim a saber que eles tinham conseguido introduzir no campo, um aparelho completo de rádio que funcionou no forro da nossa barraca).

Qualquer que fosse o serviço que alguns companheiros estivessem fazendo, devíamos bancar os três macacos, isto é, não ver, não ouvir, não falar e muito menos fazer perguntas que aliás não seriam respondidas.

Falou-nos depois do Serviço de Fugas. Se alguém se candidatasse a uma ‘mudança de ares’ devia apresentar suas credenciais e um plano aos oficiais para isto destacados. Se o plano fosse considerado viável, o oficial que ia fugir receberia mapas da região a atravessar, dinheiro, alimentos e uma carteira de identidade falsificada com habilidade até nos mínimos detalhes, além de endereços em várias cidades da Alemanha e Áustria.

Os mapas eram copiados duma coleção que havia sido tomada por empréstimo no Gabinete do Comando Alemão em Sagan.

Estando tudo pronto movimentava-se o plano. Quebrava-se uma porta ou danificava-se a instalação elétrica e lá vinha uma turma de soldados encarregados do conserto. Entre eles já vinha um, escalado para substituir o oficial e este, terminado o trabalho saía com a turma. Uma vez nas barracas dos soldados, o sargento americano que fazia parte do Serviço de Fuga arranjava facilmente jeito de enviá-lo para trabalhar em Munique, Freising ou outro lugar qualquer, onde ele desaparecia.

[Nota: Varoli era 1º Tenente e, como todos os oficiais prisioneiros, era separado dos soldados, como uma forma de retirar a liderança da tropa. Pela convenção de Genebra os oficiais não são obrigados a trabalhar, de forma que eles não saíam do campo, como os soldados, empregados em trabalhos. Isto explica o porquê da necessidade de se disfarçar como soldado para iniciar a fuga].

Barracões do campo

Rua do campo
O serviço de informações funcionava perfeitamente. Todos os dias, às 11:30 horas, postávamos sentinelas em todas as entradas e janelas, enquanto os encarregados do boletim nos liam o comunicado diário da B.B.C. Esse comunicado era distribuído era aos encarregados pelo Chefe de Informação e registrado em código, um para cada encarregado, de modo que se os alemães apanhassem vários encarregados não podiam afirmar que aqueles documentos eram de natureza subversiva. Um dia, apesar da recomendação do Coronel X, pedi a um dos encarregados que me mostrasse o comunicado e ele satisfez a minha curiosidade; creio que o sânscrito ou o persa seriam mais inteligíveis que aquele amontoado de palavras sem nexo.

O Serviço de Cartografia por sua vez, havia feito um mapa da Alemanha de uns dois metros quadrados de papel, e desse modo acompanhávamos a marcha dos acontecimentos marcando as linhas das forças em combate. É lógico que essas linhas eram marcadas de acordo com o comunicado alemão fornecido quase que diariamente, porém durante meia hora por dia tínhamos o trabalho de ‘corrigi-las’ com os dados da B.B.C.

A princípio os alemães não se importaram com o mapa, porém depois de um certo tempo começaram a desconfiar de algo e numa daquelas arrancadas costumeiras nos desalojaram ‘manu militari’ e rasgaram o mapa. Três dias depois lá estava outro no lugar. Foi rasgado também. Passaram-se uns dias e apareceu outro ainda, mas desta vez pintado na própria parede. Os alemães desistiram.

Fora incluído no grupo americano e continuei na barraca do Comando.

Cedo verificamos que com a chegada dos prisioneiros do Luft-3 a atitude dos alemães para conosco piorou consideravelmente, apesar da energia do Coronel Goodrich, que diga-se de passagem, não tinha medo de coisa alguma.

Muitas vezes soubemos por vias travessas das entrevistas tempestuosas que ele mantinha como Kommandant do Campo, chegando mesmo a ameaça-lo de punição quando terminasse a guerra.

A apuração da existência dum desvio de pacotes da Cruz Vermelha por parte dos responsáveis do campo, provocou uma denúncia formal daqueles feita pelo Coronel Goodrich ao representante da “Potência protetora” e que deu em resultado a vinda apressada de três generais alemães para averiguações.

Correu então que a “Kommandatur” do campo estava envolvida numa extensa rede de câmbio negro dos produtos contidos nos pacotes da Cruz Vermelha e cuja origem a Gestapo até então não conseguira descobrir.

Ao mesmo tempo o Coronel Goodrich exigiu que fosse distribuído um pacote semanal cada prisioneiro e não meio como se fizera até então.

Como resposta, os alemães diminuíram ainda mais a ração que nos forneciam e, o que é pior, passaram a entregar os alimentos crus e da mais ínfima qualidade ao mesmo tempo que suspendiam todo e qualquer fornecimento de carvão ou lenha.

Evidentemente não podíamos ingerir a comida crua, de modo que passamos a fazer fogo utilizando-nos, de início, das tábuas dos catres, deixando nestes um número mínimo suficiente para que não caíssemos sobre o vizinho de baixo durante o sono.

Este material, como é bem de ver, durou pouco tempo.

Logo foram organizadas turmas para obter lenha donde fosse possível. Estudadas as barracas, verificamos que eram feitas a meio metro acima do solo e tinham um soalho duplo. Era mais que evidente que na situação atual um dos assoalhos era supérfluo e passamos a desmontar o inferior e distribuí-lo eqüitativamente.

O trabalho, penosíssimo, pois tínhamos que agir no porão gelado sem atrair a atenção dos guardas, era feito por escalas.

Essa ‘mina’ durou algum tempo, porém acabou.

Passaram então a ser feitos estudos no forro e telhado. Postas as sentinelas, subiram alguns oficiais, que na vida civil eram engenheiros construtores, a fim de calcularem –quantas vigas e barrotes podiam ser retirados sem provocar o desabamento do telhado e muitas vigas foram sendo utilizadas.

VII) Nosso Coronel Comandante

A vida, apesar das dificuldades alimentares e do frio reinante, tomou um apesto diferente em conseqüência das atividades dos americanos. Foram organizados cursos de línguas, mecânica, arqueologia, etc., e como vários companheiros estavam interessados em aprender português e espanhol, organizei várias turmas de alunos e assim nos entretínhamos utilmente: eles a aprenderem ou aperfeiçoarem o espanhol ou português e eu a praticar inglês.

Algum tempo depois o meu amigo Rodney chamou-se e pediu-me para acompanhá-lo até o portão onde havia alguém que desejava falar comigo e durante o trajeto deu-me a grata notícia de que lá estava um aviador da F.A.B. Corri para lá e deparei com o Tenente Josino de Maia Assis [1º Tenente Aviador abatido em 21/1/45] que havia sido derrubado em combate.

Abraçamo-nos e pusemo-nos a conversar durante uma hora, mais ou menos, matando a saudade que sentíamos do nosso linguajar. Finalmente, Josino teve que ir para a sua barraca que ficava a algumas dezenas de metros mais adiante e nos despedimos, contanto encontrar-nos em breve. Josino dissera-me que junto com ele estava o Tenente....... [1º Tenente Aviador Othon Corrêa Netto, derrubado em 26/3/45], também abatido na Itália. Travei conhecimento com esse companheiro poucos dias mais tarde, através das grades de arame.
Cartun satirizando tentativa de fuga


Capa de coleção de cartuns do campo

VIII) A libertação

Com a aproximação da Primavera, os exércitos aliados foram chegando cada vez mais perto de Moosburg e em princípios de abril soubemos que Hitler havia dado ordens para remover todos os oficiais do Stalag 7-A de Berchtesgaden, onde serviríamos de reféns na última batalha a ser travada.

O Comando Americano organizou-nos então em Companhias, e Batalhões para resistirmos a qualquer eventualidade. Poucos dias mais e o Comando Aliado irradiava uma advertência ao Comando Alemão proibindo todo e qualquer deslocamento de prisioneiros de guerra sob pena de terríveis represálias.

Correu logo a voz de que Hitler furioso com isso, ordenara ao S.S. que fizesse uma limpeza no nosso campo, tendo o Marechal Goering se oposto a isso, enviando apressadamente um contingente da luftwaffe para garantir nossas vidas.

O fato é que em meados de abril as tropas da Reichwehr foram substituídas pelas da Luftwaffe.

A manhã do dia 29 [de abril de 1945] raiava prometendo um dia lindo. Às nove horas, mais ou menos, um ratatá corta os ares seguido de alguns tiros esparsos de fuzil. Foi um corre-corre generalizado.

Algumas balas passavam assobiando pelo campo.

À uma hora da tarde um prisioneiro grita:

- Olhem lá na torre da igreja! A bandeira americana! – e saiu correndo como um doido.

Foi um delírio! Todos queriam subir nas barracas para vê-la mais de perto; muitos abraçavam-se chorando, gritando, pulando. Enfim, um verdadeiro pandemônio.”

Fonte deste artigo: Depoimento de oficiais de reserva sobre a FEB

Relatório do Esquadrão de Reconhecimento da FEB na Itália

1ª DIVISÃO DE INFANTARIA EXPEDICIONÁRIA
1º ESQUADRÃO DE RECONHECIMENTO
RELATÓRIO ORGANIZAÇÃO
[Pelo Capitão Plínio Pitaluga]

Com a criação da 1ª D.I.E. [Divisão de Infantaria Expedicionária-FEB] em fins de 1943, o 2º Regimento Moto-Mecanizado, então sediado na Capital Federal, recebeu ordens para preparar um de seus Esquadrões para participar da Campanha da Itália. Foi designado o 3º Esquadrão de Reconhecimento e Descoberta. Somente em 4 de fevereiro de 1944 foi dada autonomia administrativa à nova Unidade que passou a ocupar um pavilhão de madeira ao lado do picadeiro da Escola das Armas, ficando entretanto subordinado ao 2º Regimento Moto-Mecanizado quanto à alimentação. Embora não dispondo de todo o material orgânico foi iniciada a instrução, visando inicialmente ao preparo moral e cívico. Em fevereiro e março de 1944, foram distribuídas 5 viaturas blindadas de reconhecimento e viaturas de rolamento misto [meia-lagartas], facilitando assim a formação dos motoristas. O selecionamento [sic] dos homens não foi completo, não se levando em conta especialização da Unidade. Isso prejudicou seriamente a formação dos motoristas, principalmente pela falta de reservas. A 9 de fevereiro de 1944 o 1º Esquadrão de reconhecimento foi incorporado a 1ª D.I.E. e a 11, deslocou-se para a região de Barra de Guaratiba onde realizou o 1º acampamento, visando principalmente o melhoramento do estado físico. Um oficial do Exército Americano, da reserva, foi designado para permanecer adido ao Esquadrão, orientando o emprego e manutenção do material de origem americana.

Com a mudança da Unidade para os pavilhões do Capistrano, muito embora sem o conforto necessário, a alimentação foi melhorada, procurando se adapta ao regimem americano. A instrução de tiro foi intensificada e as medidas burocráticas de declaração de herdeiros e fichas de desconto foram ultimadas. O Esquadrão participou do desfile do dia 24 de maio e realizou um exercício de emprego de Pelotão como demonstração ao Exmo. Snr. Cmt. Da 1ª D.I.E. Quando do embarque do 1º Escalão, O Esquadrão menos o 2º Pelotão, deslocou-se para o Retiro dos Bandeirantes onde esteve durante 4 dias, realizando principalmente exercícios de tiro de canhão, a.a. [armas automáticas] e morteiro 81mm.

Neste relatório aparecem duas fases de treinamento e entrada em ação correspondente ao 2º Pelotão que embarcou o 1º Escalão, e a outra fase ligada ao grosso do Esquadrão. Uma revisão do estado sanitário da Unidade, afastou 20% do efetivo. Esse claro foi preenchido, na véspera do embarque, por elementos do Depósito de Pessoal da F.E.B. O 2º Pelotão embarcou no dia 30/VI/1944, fazendo parte do 1º Escalão, no transporte americano - "Gen. Mann", tendo chegado a Nápoles no dia 16/VII/1944, dirigindo-se para Bagnoli, onde acampou.

2ª Parte

a) Fase de treinamento na Itália

O 2º Pelotão permaneceu em Bagnoli até o dia 30/VII/1944, quando foi transportado, em trem, para Tarquinia, onde começou a receber o material e intensificar a instrução de motorista e serviço em campanha. Um oficial [O comandante do destacamento, Capitão Flávio Franco Ferreira] e 5 praças foram [aperfeiçoar?] os conhecimentos sobre armamento e minas, em Caserta. No dia 5 de agosto o 1º Escalão da F.E.B. era incorporado ao Vº [sic] Exército Americano, de onde passou a receber as diretivas para a instrução, que entrou em uma fase intensiva, exigindo um esforço diário de 10,00 horas.

No dia 18/VIII/1944, o 2º Pelotão seguiu para Vada, entrando na 2ª fase de treinamento tendo participado de grande exercício realizado no norte de Vada. O oficial e praças fizeram estágio junto as unidades americanas que estavam em contato com os alemães.

3ª Parte

Transporte - (b)

O grosso do Esquadrão embarcou com o 2º escalão no dia 20 de setembro de 1944, no transporte americano Gen. Mann, desatracando o navio a 22.

No dia 6 de outubro de 1944 chegou a Nápoles, e a 9 em lanchas americanas o Esquadrão foi transportado para Livorno, onde chegou a 11. No mesmo dia, em viaturas seguiu para a área de estacionamento em Pisa, onde acampou. Todos os deslocamentos foram feitos em segurança e o estado sanitário da tropa não apresentou alteração sensível.

4ª Parte

Treinamentos

O Vº Exército, com os deslocamentos de elementos para a invasão do sul da França, atravessava uma crise de efetivos e também devido as condições topográficas encontrava-se na defensiva, detido nos contrafortes dos Apeninos.

Não havia necessidade de tropa de reconhecimento e daí a decisão de se deixar o Esquadrão em último lugar na ordem de preferência para o recebimento de material. Inicialmente foram entregues algumas viaturas de 1/4 Ton. [Jipes] para o transporte e instrução. O armamento somente nos primeiros dias de novembro, começou a ser distribuído atrasando assim o início da instrução de tiro. O esforço foi voltado para o preparo físico e moral, tendo em vista que a mudança de ambiente, a vida em comum em grande acampamento, os problemas sexuais e outros estavam concorrendo para o afrouxamento dos laços disciplinares.

Nesta fase, foi feita uma nova inspeção de saúde visando as doenças venéreas e o tratamento odontológico. Oficiais e praças freqüentaram cursos de informações ministrados por oficiais americanos e curso de minas e armadilhas quer na área do estacionamento ou em Caserta. A tropa ficou acampada utilizando-se as barracas para 2 praças levadas do Brasil e que não apresentavam boa vedação a água. A alimentação toda americana não foi aceita inicialmente com agrado por parte dos praças. As condições de limpeza e higiene do acampamento, no do Esquadrão eram satisfatórias.

No dia 6 de novembro o Esquadrão recebeu ordens para apressar o recebimento de material de diversas procedências, tendo em vista o seu emprego imediato sem passar pela fase de readaptação e treinamento prevista. Dentro de uma semana, quase todo o equipamento achava-se nas mãos da tropa e praticamente sem a realização de exercícios de conjunto no âmbito do Pelotão. O esquadrão era dado como pronto para entrar em ação. As últimas viaturas e reconhecimento e transporte de rolamento misto foram entregues com [sic] 4 horas antes da partida do Esquadrão para a frente, recebidas da Companhia de Manutenção sem a devida revisão. Os morteiros 60 mm recebidos na véspera não foram utilizados em exercícios de tiro por absoluta carência de tempo, agravada a situação pelo fato de não ter ainda no Brasil, feito o emprego dessa arma, por falta de munição. Muito auxiliaram o recebimento desse material a ação de oficiais americanos e a capacidade da 1ª Companhia de Manutenção. O volume de material recebido ultrapassava a capacidade de transporte das viaturas orgânicas da unidade, daí a necessidade de se conseguir do G4 [Seção do Estado Maior responsável pela Logística, na FEB chefiado pelo Major Aguinaldo José Senna Campos], 2 viaturas de 2 1/2 toneladas para auxiliar o deslocamento.

Principalmente na parte de transmissão o aumento de acessórios e sobressalentes foi considerável. O espírito combativo da tropa era bom, mostrando-se o homem ansioso por entrar em ação. Não foi possível proporcionar a turmas de praças estágio na linha de frente, pois o 2º Pelotão que se encontrava a disposição do Destacamento General Zenóbio, nessa ocasião achava-se em reserva. No dia 13 de novembro os oficiais reconheceram a região de reunião, em Granaglione, e no dia 15 o Esquadrão, em 2 colunas, deslocava-se para Granaglione. No dia 16, o 2º Pelotão reuniu-se ao Esquadrão, continuando porém em Capugnano.

[A ação em Collechio-Fornovo]
Ligação:

Pelo rádio o Snr. Cmt. Da 1ª D.I.E., teve ordem de procurar, no Q.G. o G3 [Seção de Operações do Estado Maior, no caso da FEB, chefiada pelo Ten. Cel. Humberto de Alencar Castello Branco], para receber nova missão e esclarecer a situação do Esquadrão.

Perseguição
Passagem do Panaro

No dia 23, pela calma apresentada nas posições e por informações de civis sobre a retirada do inimigo, o 3º Pelotão foi lançado, às 11 horas, sobre Marano, tendo realizado a travessia, a vau, sem qualquer oposição. O grosso do Esquadrão reuni-se em Marano entrando mais tarde em ligação com a direita, com o III/11º R.I. e a esquerda II/6º R.I. Pela ordem transmitida pelo rádio, o Esq. aguardou em Marano nova missão, para o dia 24.

Ordem de descoberta nº 29 - (G2) [Seção de Informações do Estado Maior]

(Extrato)

I) - Situação:

a) - O inimigo retraiu-se do corte de Parano segundo o eixo:
1 - Vignola - Castelvetro - Sassuolo.
2 - Pavulo - Montesino - Prignano.

e) Tropa amiga:
Elementos da 897 T.D. [Tank Destroyers - batalhão norte-americano de Carros de Combate], agindo segundo o eixo Vignola-Fornigine atingiram no fim da jornada de 23 esta última localidade, levando os reconhecimentos a Sassuolo.

II - MISSÃO DO ESQUADRÃO

1) Lançar-se pelo eixo: Marano - Castelvetro - Sassuolo de modo a esclarecer, por meios de golpes de sonda, as transversais que vem a ter a este eixo por S.W.
2) Embora informações de que o inimigo tenha empregado destruição maciça ao longo do eixo: Marano - Croseta - Montesinoj - Pelegrineto - Malacoda - Ponte Nuova [sic] - cumpre lançar um elemento ligeiro afim de reconhecer o mesmo. Instalar-se em fim de jornada com o grosso na região de Ponte Nuovo. O 2º Pelotão deu diversos golpes de sonda e pelas informações colhidas, a zona achava-se completamente limpa de inimigo organizado. As 10 horas as vanguardas atingiram Sossuolo - Ponte Nuovo e entrou em ligação com elementos do Esquadrão de Reconhecimento da 34 D.I. [Divisão de Infantaria] Americana.

Prisioneiros

Foram feitos quatro prisioneiros na região de Ponte Nuovo. Não se constatando a presença de inimigo organizado, o 1º Pelotão foi lançado para Cavalgrande - Scandiano e reconhecer região de M. Evangelo - Montebabbio - Castellarano - reunindo-se em Ponte Nuovo com o grosso do Esquadrão.

Transposição do Enza

As 15 horas de 24, o Esquadrão recebeu em Ponte Nuova, a ordem de Descoberta nº 30.

I – Situação

a) O inimigo dispõe dos restos das Divisões 232 – 114 – 334 que foram batidas pelo IVº Corpo.
É possível encontro com resistências retardadoras.

b) Tropa amiga:

A D.I.E. prosseguirá na ofensiva para NE devendo atingir no fim da jornada de hoje as margens E da Torrente Tresinaro.

II – MISSÃO DO ESQUADRÃO:

Descoberta do eixo – Sassuolo – Scandiano – Albinea – Quatro Castelo – atingindo em primeiro lanço a transversal Reggio – Casloa, reconhecer a estrada número 63, de albinea [sic] a Casina e levar a descoberta ao corte da Torrente Enza, ocupando a ponte S. Polo, sobre a mesma.

III – LIGAÇÕES E TRANSMISSÃO-

Pelo rádio posto a posto, em escuta permanente; informação mesmo negativa nas horas cheias.

IV – EXECUÇÃO – Imediata -

O movimento foi iniciado às 16 horas.

O 1º Pelotão continuou na vanguarda e as 17 horas informava que tropas americanas já se encontravam em contato com uma resistência em Vassano, na estrada 63, entre Casino e Albinea.

Em vista da situação, o comandante do Esquadrão resolveu continuar a missão diretamente sobre S. Polo d’Enza, não realizando o reconhecimento de Cassina.

O 2º Pelotão ultrapassou o 1º Pelotão que se reagrupou nas proximidades de S. Polo e o 3º Pelotão foi lançado sobre Bebiano, de onde saíra uma coluna inimiga em direção a Montecchio de Emilia – O esquadrão passou a noite de 24 para 25 guardando as passagens de S. Polo Enza.

Ação em Parma – No dia 25 o 1º Pelotão foi lançado sobre Traversetolo, ocupando [esta?] localidade e vigiando as saídas para Parma e Laghirano. Uma patrulha, comandado [sic] pelo próprio comandante do Esquadrão esteve em Panocchio e Laghirano, onde estabeleceu ligação com chefes dos partesanos [sic] e com oficiais ingleses pára-quedistas que afiam com os combatentes italianos. Informações foram prestadas sobre presença de alemães em Colecchio e o deslocamento de 2 batalhões de Berceto para Fornovo.

A ordem de descoberta nº 31 de 25, recebida às 14 horas, em S. Polo d’Enza, previa os reconhecimentos já realizados em Laghiano e como a zona compreendida entre o Enzo e o Parma estava livre do inimigo, o Esquadrão foi lançado para a região de Porpurano e entrou em ligação com o Esquadrão de Reconhecimento da 34 D.I. (americana) – o 3º Pelotão foi reconhecer as orlas de Parma e atacou, com elementos a pé, um posto avançado inimigo que foi dominado, tendo os alemães as seguintes baixas:

Prisioneiro..............1
Morto..............1
Ferido..............1

Essa ação concorreu para facilitar a progressão da infantaria da 34 D.I.

AÇÃO DE VANGUARDA EM COLLECCHIO

Por oficial de ligação do G2 [Informações], o Esquadrão recebeu as 12 horas do dia 26, ordem para se lançar sobre Collecchio, para guardar as passagens do Taro –

O Esquadrão cumpriu a missão, com o 3º Pelotão em vanguarda pelo eixo:

Proporano – Gaione – S. Martino –

Ao atingir as orlas de Collecchio o 3º Pelotão foi detido por fogos de a.a. e carros de reconhecimento inimigos.
O 2º Pelotão desbordou pelo flanco esquerdo, tentando penetrar na cidade, sendo repelido por forte fogo de carros blindados.

O 1º Pelotão em reserva guardando a estrada para Sala Baganza.

Uma patrulha do 2º Pelotão tentou o flanqueamento de Collecchio e entrou em ligação em Vino Fertili, com uma Cia. de Infantaria americana.

O contato foi mantido e o Esquadrão foi reforçado inicialmente às 16 horas por uma Companhia do III/6º R.I. transportada em viatura e às 18 por elementos do II/11º R.I.

Às 17 horas os 2º e 3º Pelotões protegidos por elementos do 11º R.I. e do 6º R.I. penetraram na cidade, retirando-se para as orlas da cidade.

A Sec. de Eng. Nessa jornada organizou a defesa de Sola Bagaza, auxiliando a defesa do flanco do Esquadrão, tendo preparado a estrada para destruição.

No dia 27, o Esquadrão auxiliou a dominar um núcleo de resistência em Collecchio.

Às 9 horas o G2 da 1ª D.I.E. [Ten. Cel. Amaury Kruel] pessoalmente transmitiu, verbalmente, a nova missão do Esquadrão.
“Um destacamento de descoberta, formado por uma Cia.de Infantaria do 1º Regimento de Infantaria, o Esquadrão de Reconhecimento – uma Sec. de Engenharia, deveria se deslocar para a região de Castel de S. Giovani para guardar a ponte do rio Pó; lançar patrulhas para Borgonoro; aprisionar elementos inimigos dispersos”.

Foi marcada uma região de reunião na ponte de Taro, estrada número 10 e o Esquadrão deslocou-se às 10 horas de Collecchio. Somente às 14 horas apresentou-se o Major Comandante do Destacamento que ao tomar as primeiras providências, no ponto reunião recebeu ordem, com nova missão ao Esquadrão.

“Remanescente [sic] inimigos, batidos em Collecchio, retiram-se apressadamente pelo eixo Fornovo-Noceto.

Deveis interromper missão e lançar-se imediatamente sobre o eixo Castelguelfo – Noceto – Fornovo de maneira a exterminar o inimigo que desordenado retira-se na direçào da via Emilia”.

Imediatamente, o Esquadrão lançou-se em 2 colunas, deixando o T.C. em Ponte de Taro.

1) – Grosso – pelo eixo Noceto – Medesano – 1º e 3º Pelts.
2) – Flanco guarda – 2º Pel. pelo eixo Stradela – Belicchi – Medesano.

Foi estabelecido ligação com carros de combate americanos, na altura de Noceto e nas saídas de Medesano para Felegara, o 3º Pel., vanguarda foi hostilizado com fogos de a.a. – o 1º Pel. foi lançado pelo eixo de S. Andre, no flanco direito e chegando a essa localidade onde se entregaram cerca de 800 prisioneiros.

Em Medesano 3º e 2º Pelotões apeiaram para o combate as 22 horas as resistências reveladas foram vencidas.
Prisioneiros

Em Medesao..............120
Em S.Andre..............800
Feridos..............12

Além disso grande quantidade de armamento foi capturado, que por falta de tempo e de pessoal não foi avaliado.
Uma casa foi incendiada pelo fogo dos M 8

- Noite de 27/28 – O esquadrão permanceu patrulhando as saídas para Flegara e o Vale do Rio Taro.

Na manhã de 28, o Esq. Montou uma ação sobre Felegara com o seguinte dispositivo:

2º Pel. – no eixo Medesano-Felegara.
1º Pel. – de S. Andre para Felegara.
3º Pel. – de reserva no eixo Medesano, Felegara.

Na entrada de Felegara o 2º Pelotao entrou em contato, não podendo prosseguir pela ameaça de envolvimento no flanco esquerdo e por resistência revelada nas elevações a N de Felegara – o 3º Pel. foi lançado no flanco esquerdo, vale do Taro e 1 Pel. da 7ª Cia. do III/6º R.I. foi transportado de Medesano para a região, progredindo pelas alturas.

Os alemães se retiraram, deixando grande quantidade de armamento (Mtrs. Anti-carros [sic]-fuzis), 5 viaturas automóveis e viaturas hipomóveis, animais. Foram feitos cerca de 30 prisioneiros.

O Esquadrão sofreu as seguintes baixas: -
Feridos
Soldado..............1

Viatura incendiada
M 8..............1

Essa viatura foi atingida por um tiro de “lança rojão” na entrada de Felegara. A guarnição, sob o apoio de outro M 8, abandonou-a sem maiores conseqüências.

O Esquadrão reuniu-se em Felegara e uma patrulha a pé teve contato na estrada de Fornovo. A 7ª Cia. do III/6º R.I. cerrou sobre o Esquadrão.

Para a jornada de 29, o Esquadrão recebeu a seguinte ordem:
“Retomar a progressão, para ocupar Croceta e entrar em ligação com o 6º R.I., em Fornovo; lançar elementos de captura de prisioneiros sobre Varano e estrada que passa por Rubiano”.

A noite de 28 para 29, transcorreu sem qualquer alteração e na manhã de 29 às 10 horas, quando o Esquadrão se preparava para continuar a missão, apoiado pela Cia. de Infantaria, foi procurado por um Coronel alemão acompanhado de um Capitão para entrar entendimento sobre a suspensão da luta naquele setor. Encaminhados os parlamentares ao P.C. do III/6º R.I., em Collecchio entendimentos já estavam se realizando para a rendiçào da 148ª Divisão Alemã e os remanescentes da Divisão Itália.

Os parlamentares retornaram as linhas alemãs e toda atividade cessou na frente de Felegara.

Às 14 horas o Esquadrão deslocou-se menos o Pel. Extra que permaneceu em Ponte de Taro, para Collecchio com o objetivo de colocar a retaguarda da 148ª D. Alemã, para protege-la de ataques de partesanos e entrar em ligação com as vanguardas das tropas americanas.

O Snr. Chefe do E.M. determinou que somente um pelotão (1º Pelotão) acompanhasse o comandante do Esquadrão, a Fornovo, onde se realizaram entendimento com o Chefe do E.M. da Divisão Alemã, sobre a ação dos partisanos, que ignorando a suspensão das hostilidades continuavam atacando as retaguardas. Foram realizadas outrossim, ligações com chefe dos partesanos e ainda 150 prisioneiros alemães foram devolvidos pelos italianos, a 148ª Divisão, sob a responsabilidade do Comandante do Esquadrão.

O 3º Pelotão pernoitou em Fornovo, e o comandante do Esquadrão é chamado às duas horas do dia 30 para receber nova missão no Q.G. em Montecchio.

(...)

Hans-Ulrich Rudel - Uma lenda de bravura quase insana da Luftwaffe





Hans-Ulrich Rudel (Konradswaldau, 2 de julho de 1916 — Rosenheim, 18 de dezembro de 1982) foi um militar alemão.

Nascido na Silésia, era filho de um pastor. Quando criança nada indicava que seria especialmente corajoso; realmente dizia-se que sua mãe ainda segurava sua mão quando trovejava. Mas sempre esteve apto a prática de esportes, e talvez este tenha sido um fato oportuno para que pudesse desenvolver suas atividades esportivas em serviço militar.

Em 1936 ele entrou para a Luftwaffe como oficial-cadete. Após ser aprovado em seu curso de treinamento de vôo e qualificado como piloto, Rudel, então, foi voluntário para treinos futuros com bombardeiros de mergulho e não foi bem visto pelos instrutores destes treinamentos. Teve seu pedido rejeitado e - para sua humilhação - foi mandado para um curso de observação de reconhecimento aéreo.

Participou, na campanha da Polônia como observador em missões de reconhecimento de longo alcance. Rudel, desejava pertencer ao que era então encarado pelos muitos jovens pilotos como o mais atraente da força aérea - voar em um Junkers Ju 87 Stuka. Continuou tendo seus pedidos de transferência para a divisão aérea de bombardeio e mergulho dos Stukas sistematicamente negados até 1940, quando preencheu uma vaga em um dos cursos de vôo do Ju 87. Após completá-lo, foi transferido para uma brigada de treinamento do Stuka (I/St.G.2) próximo à Stuttgart, de onde observou a campanha na França e nos Países Baixos.


Em seu uniforme de vôo.No início da Operação Barbarossa, o I/St.G.2 foi para o "front " russo e executava missões quase vinte e quatro horas por dia. Todas as tripulações eram necessárias e Rudel foi transferido para o esquadrão cujo líder interessou-se imediatamente por ele. "O Rudel é o melhor homem do meu esquadrão" disse ele duas ou três semanas depois, "apesar de ser um sujeito louco, não viverá muito tempo".

Em seu uniforme de vôo.

Rudel levantou vôo na sua primeira missão de bombardeio de mergulho às 3 horas da manhã do dia 23 de junho de 1941, e ainda estaria voando 18 horas depois, tendo estado fora em quatro missões diferentes. O ritmo das operações era tal que os pilotos saíam para até 8 missões em um só dia, e isso dia após dia, semana após semana.

Missões e façanhas
A maior façanha individual de Rudel foi em Setembro de 1941. Duas brigadas do seu Geschwander (esquadrão, grupo aéreo) haviam se deslocado para Tyrkovo ao sul de Luga para uma ofensiva direta à Leningrado. Por volta do fim do mês, entretanto, um avião de reconhecimento avistou os encouraçados soviéticos October Revolution e Marat, além de dois cruzadores e algumas embarcações menores da Armada Soviética do Báltico, no porto de Kronstadt.

O Geschwander de Rudel decidiu atacar os três esquadrões, levando bombas especiais de 1.000 kg. Sorrateiramente levantaram vôo na manhã do dia 23 de setembro. Rudel estava pilotando um Stuka da esquadrilha líder; e quando o ataque começou ele estava diretamente atrás do líder de esquadrão que havia dito que ele era "louco". O dia estava claro com o céu sem nuvens. Naquele estágio da guerra, os caças russos raramente levantavam vôo e, como que para confirmar isso, nenhum apareceu no dia 23 de setembro.



Hans-Rudel a bordo de um Stuka G-2, na Rússia.
Os Stukas se aproximaram de Kronstadt a uma altitude de 3.000 mil metros, e a 15 km do seu alvo, entraram numa tempestade de fogo antiaéreo. Alguns Stukas tentaram escapar do fogo, e, ao fazê-lo, as esquadrilhas e esquadrões se misturaram. Mas o líder do esquadrão de Rudel decididamente manteve seu rumo com Rudel colado a sua cauda. Quando Rudel viu que seu líder tinha acionado os freios aerodinâmicos de seu avião, ele fez o mesmo, e ambos os Stukas começaram seus mergulhos em ângulos cujas medidas estavam entre 70 e 80º. Descendo estridentemente em direção ao Marat, Rudel viu que seu líder estava recolhendo seus freios aerodinâmicos; portanto, como antes, ele fez o mesmo. O efeito foi dramático; a velocidade…


Marat

Em 23 de setembro de 1941, os dois Staffeln do I/St.G 2 (Gruppe I do St.G 2) atacaram a frota soviética ancorada no porto de Kronstadt (na área de Leningrado), defendido por mais de 1.000 armas antiaéreas. Entre os navios lá ancorados, estava o encouraçado "Marat", de 26.500 toneladas - um dos dois únicos navios de grande porte da esquadra vermelha. Mais tarde, Rudel se recordaria:

" Foi terrível. Havia explosões por todos os lados. O céu parecia estar repleto de cascalhos. Eu estava me sentindo muito mal e o vôo foi uma tortura. (…) O mergulho, num ângulo de 70º a 80º, tirou o meu fôlego. Eu tinha o "Marat" em minha mira, ele se aproximava cada vez mais rápido. O navio se tornava cada vez maior. Eu via as bocas de suas armas antiaéreas apontando ameaçadoramente para mim. (…)
Não havia tempo para me preocupar com o fato de que um tiro direto de FlaK poderia me partir em pedaços. O "Marat" já preenchia completamente meu visor. Os marinheiros corriam pelo deck do navio, alguns carregando munições. Um dos canhões virou em minha direção e começou a disparar. Neste momento eu apertei o botão que liberava a bomba. Puxei o manche para trás com toda minha força, na tentativa de tirar o avião do mergulho, já que minha altitude era de apenas 300 metros.

A bomba de 1.000kg que tinha acabado de soltar não poderia ser lançada de uma altitude inferior a 1.000 metros sob o risco de destruir o bombardeiro. Mas eu não estava me importando com isso. Eu queria atingir o "Marat" – nada mais. Embora eu puxasse o manche como um louco, eu tinha a sensação que o avião não estava me obedecendo. Eu estava quase perdendo os sentidos. Havia uma sensação terrível em minha cabeça e estômago, quando eu escutei a voz excitada de meu artilheiro-de-ré:

— Herr Oberleutnant, o navio explodiu !

Eu me virei lentamente. Lá estava o "Marat" atrás de uma nuvem de fumaça quase impenetrável de 400 metros. "



Ao finalizar seu mais bem sucedido ataque, Rudel, descendo dos céus em um ângulo de 90º, saiu do mergulho a apenas 4 metros da superfície da água! "Somente nesse momento eu percebi que ainda estava vivo" - ele afirmou bem depois.

Com este feito poderia ter sido condecorado, ocasião que não ocorreu. Hauptmann Steen, que comandou todo o Gruppe que participou daquele ataque disse a ele:

"eu tenho certeza de que você compreenderá que eu não posso condecorar um único homem depois desta corajosa missão na qual o Gruppe inteiro tomou parte (…) eu considero o valor da equipe como um time, o que é mais importante do que recomendá-lo para a Cruz de Cavaleiro".

Vitórias
2.530 missões de combate, 9 vitórias (7 caças em combate) +519 tanques destruídos, 800 veículos de todos os tipos, 150 peças de artilharia, inúmeras pontes, 70 embarcações anfíbias, um encouraçado, um cruzador, um destroyer. Josef Stálin ofereceu uma recompensa de 100.000 Rublos a quem conseguisse abatê-lo.


Condecorações
11 de outubro de 1939 - Cruz de Ferro de 2ª classe
18 de julho de 1941 - Cruz de Ferro de 1ª classe
30 de dezembro de 1941 - Cruz Germânica em ouro
6 de janeiro de 1942 - Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro
14 de abril de 1943 - Folhas de Carvalho da Cruz de Cavaleiro
25 de novembro de 1943 - Espadas da Cruz de Cavaleiro
29 de março de 1944 - Diamantes da Cruz de Cavaleiro
29 de dezembro de 1944 - Folhas de Carvalho douradas
29 de dezembro de 1944 - Clasp de vôo em ouro com diamantes

Condecoração especial
Em 29 de Dezembro de 1944, Hitler instituiu aquela que seria a mais alta condecoração militar por bravura entregue durante o III Reich: a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro com Folhas de Carvalho Douradas, Espadas e Diamantes ou: Ritterkreuz des Eisernen Kreuzes mit Goldenem Eichenlaub, Schwertern und Brillanten. Essa condecoração era idêntica aos Diamantes, com exceção que era feita em ouro ao invés de prata.

O único recebedor desta condecoração foi o Oberst Hans-Ulrich Rudel, que como um piloto de Stuka no Front Russo voou surpreendentes 2.530 missões, tendo destruído mais de 519 tanques, 800 veículos de todos os tipos, 150 peças de artilharia, inúmeras pontes, 70 embarcações anfíbias, um encouraçado, um cruzador, um destroyer e nove aviões soviéticos, incluíndo sete caças abatidos em combates.



Rudel perdeu a perna direita em 9 de fevereiro de 1945 após ser atingido por artilharia anti-aérea próximo a Frankfurt an der Oder. É visto aqui regressando ao serviço seis semanas depois.

Nesta ocasião foi comunicado que ele estava sendo proibido de voar em missões de combate, o que Rudel não estava disposto a aceitar. Já havia conseguido evitar esta ordem outras vezes, mas nesta ocasião Hitler parecia irredutível. Para ele, o jovem Oberst já havia feito o suficiente. Foi então que Rudel disse:

"Mein Führer, eu não aceitarei esta condecoração e a promoção se não me for permitido que continue a voar com minha Gesch-wader!" Um longo silêncio se seguiu. Ninguém contrariava Hitler!!! O Führer olhou-o por um longo período e finalmente disse: "Muito bem. Se você realmente precisa voar... vá em frente. Mas se cuide. Eu preciso de você. O povo alemão precisa de você".

Cinco semanas depois, a sorte de Rudel acabou. Atingido na parte em sua coxa direita por um tiro de uma bateria antiaérea de 40mm, em 09 de fevereiro de 1945, próximo a Frankfurt am der Oder, ele sangrou quase até a morte com seu osso estilhaçado. Pousando em aeródromo alemão e levado rapidamente a um hospital de campo, sua perna direita foi amputada na altura do joelho. Levado posteriormente a um hospital em Berlim, lá ele receberia uma prótese. Mas, mesmo assim, Rudel não desistiu.

Ele voltaria a voar antes do final da guerra utilizando sua prótese, destruindo mais 13 outros tanques e co-mandando a mais antiga e mais conhecida das unida-des de apoio terrestre: a Schlachtgeschwader 2 "Immel mann", já equipada com os novos Fw 190D-9.

Em 08 de maio de 1945, quando a Alemanha se ren-deu, Oberst Rudel, que estava na região da Bohemia, voou sua 2530ª e derradeira missão, em direção às tropas americanas situadas no aeroporto de Kitzingen, próximo a Wurzburg, escapando pela última vez à captura pelos soviéticos. Seu derradeiro ato, foi destruir os aviões à medida que iam pousando, mediante uma aterrissagem forçada.

Rudel seria interrogado primeiro na Inglaterra e, posteriormente, na França, retornando finalmente a um hospi-tal na Bavária, para convalescer de seus ferimentos. Após sua alta em 1946, ele trabalhou por um tempo co-mo empreiteiro no negócio de transporte de cargas e, em 1948, ele emigrou para a Argentina, onde trabalhou para o governo daquele país como assessor da Força Aérea, mas estendendo seus negócios também no Para guai e Brasil. Neste último, onde esteve por várias vezes na região de Santa Catarina e passou alguns de seus últimos dias de vida, o mais bem sucedido piloto da Luftwaffe e de toda a Segunda Guerra Mundial só deixou ótimas recordações: "O Sr.Rudel esteve inúmeras vezes aqui em nossa região, era uma pessoa explendida." - Anônimo.

Rudel retornou para a Alemanha nos anos 50, envolvendo-se na política onde não foi muito bem sucedido devido à suas posições excessivamente conservadoras, ainda atreladas ao pensamento totalitário dos anos 30. Ele escreveu sua biografia, chamada "Trotzdem", que foi traduzida para oito línguas (inclusive o português, "Piloto de Stuka") e se tornou um dos grandes clássicos da literatura sobre aviação da II Guerra Mundial.


Mas mesmo em tempos de paz, Rudel continuou prati-cando esportes. Esquiava, corria e chegou a escalar o monte Llullay-Yacu na Argentina (6.902 mts). Ele tam-bém era muito respeitado nos EUA, onde foi entrevistado em várias ocasiões por militares americanos durante o desenvolvimento do avião A-10 Wartog (um novo tank-buster, movido a jato e equipado com um canhão rotativo Gatlin de 20mm - muito usado na Guerra do Golfo). Suas atividades só diminuiriam após um derrame em 1970, que o deixou com o braço direito paralisado.

Ainda assim, apoiar Rudel podia se revelar algo muito perigoso. Em 1976, durante o encontro de veteranos do St.G 2 Immelmann com os jovens pilotos alemães da mesma unidade da Bundesluftwaffe, Rudel foi levado à reunião e realizou um bem sucedido discurso para os presentes. Criticado duramente, Rudel foi publicamente defendido pelo então General Walter Krupinski - que foi sumariamente demitido.

O balanço matemático de sua carreira é formidável: Rudel voou 2530 missões de combate (das quais 400 foram a bordo de um Fw 190D-9), sendo abatido em cerca de 30 ocasiões. Em seis anos, ele destruiu cerca de 150 peças de artilharia, 519 tanques e aproximadamente 1000 veículos variados. Além do couraçado "Marat", ele afundou dois cruzadores e um destróier e danificou seriamente outro encouraçado, como já foi descrito. Sob outra perspectiva, devemos ainda considerar que seus vôos cobriram uma distância de mais de 600.000km e usaram mais de 5.000.000 de litros de combustível. Em adição a estes números, Rudel despejou mais de 1.000.000kg de bombas, disparou mais de 1.000.000 de projéteis de metralhadoras, e efetuou mais de 150.000 disparos de 20mm e mais de 5.000 disparos de 37mm.

Sem sombra de dúvida, a despeito de sua controvertida figura, é ine-gável que Hans-Ulrich Rudel foi um piloto experiente, que amava voar e combater. Ele odiava estar em licença ou em repouso médico e mesmo quando teve sua perna amputada, ele não se deixou deprimir e continuou a voar e destruir.

Ele demonstrou um poder, firmeza, destemor e determinação sem paralelos, mas nenhuma das imagens que temos dele durante a gue-rra nos mostra qualquer sinal das difíceis situações vividas em com-bate em seu rosto. Sua bravura pessoal está, portanto, além de qual-quer questionamento, e seu lugar na história da aviação militar é plenamente merecido.


Morte
Rudel faleceu em Rosenheim em 18 de dezembro de 1982 aos 66 anos de idade. A seu pedido, todas as suas condecorações (inclusive a Goldenem Eichenlaubes) foram doadas por sua viúva para um Museu Alemão, onde repousam até esta data, já que Rudel não queria vê-las leiloadas nos Estados Unidos.

Como Rudel, durante toda a sua vida, declarou-se um Nacional Socialista convicto, o Governo Alemão proibiu qualquer manifestação ou homenagem. A Bundesluftwaffe proibiu a presença de seus pilotos nos funerais. Apesar dessas ordens, vários pilotos fizeram-se presentes à cerimônia e, no momento em que seu ataúde baixava à sepultura, caças McDonnell-Douglas F-4F Phantom II da Luftwaffe fizeram um sobrevôo rasante sobre o cemitério, numa última saudação a uma das maiores lendas da aviação militar alemã. Os pilotos dos Phantom, por sinal, justificaram-se depois dizendo que "sobrevoaram o local por acaso" …



Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hans-Ulrich_Rudel

Sobre os céus de Kursk


Hans-Ulrich Rudel narra a atuação de sua esquadrilha de Stukas durante a batalha de Kursk, a última ofensiva alemã na Rússia :

A defesa soviética acirrou-se consideravelmente; pela primeira vez a caça russa intervém com um vigor bastante desagradável. Dois ou três dias depois do início da Ofensiva Cidadela, vejo, pouco antes de chegar a Bjelgorod, uma formação de Heinkel 111 voando mais alto do que nós, ligeiramente à nossa esquerda. Bruscamente, a DCA (Destacamento de Canhões Antiaéreos) abre fogo e um Heinkel, atingido em cheio, se desagrega literalmente numa chuva de destroços. Essa imagem me persegue o dia inteiro, e cada vez que mergulho sobre uma bateria soviética tenho a impressão de rever o horroroso espetáculo. Na mesma tarde, um Capitão me comunica que, naquela manhã, um de meus primos foi abatido. Quando lhe pergunto se o pobre rapaz não pilotava um Heinkel 111, a noroeste de Bjelgorod, ele arregala os olhos; com certeza me julga dotado de uma espécie de dupla visão. Esse primo é o terceiro filho que meu tio perde desde o início da guerra; às vezes a desgraça se abate sobre a mesma família, pois, alguns meses depois, meu próprio tio é quem desaparece.

As semanas seguintes trazem à nossa esquadra uma série de duros golpes. Um de meus companheiros do curso de instrução, o Capitão Wutka, chefe da oitava esquadrilha, abate-se em chamas, bem como o Tenente Schmidt, cujo irmão também foi abatido, dias antes, sobre a Sicília. Todavia nenhum deles foi atingido pela DCA; seus aviões explodiram em pleno ar, e ficamos a conjeturar sobre se a deflagração ocorreu no momento de entrar em piqué ou no instante em que o piloto apertou o botão de lançamento das bombas. Teria uma sabotagem provocado um curto circuito que, por sua vez, teria determinado a explosão? Meses depois, por ocasião de um acidente idêntico, voltamos à mesma indagação, sem descobrir o menor indício que nos permitisse confirmar nossas suspeitas.

Em terra firme, a perder de vista, desenvolvem-se gigantescos combates de tanques - espetáculo extraordinário que, desde 1941, quase não tínhamos a oportunidade de observar. Nos amplos espaços descobertos, massas compactas de blindados se enfrentam, como num campo de manobras: imediatamente atrás de cada campo, as baterias antitanque tomam posição, com sua camuflagem pintada. Às vezes os tanques se enterram, sobretudo quando, imobilizados por um tiro feliz, conservam toda a sua potência de fogo. Do ponto de vista numérico, os soviéticos possuem, como sempre, esmagadora superioridade; no que respeita à qualidade, porém, imediatamente se constata que suas armas estão longe de equiparar-se aos nossos tanques e canhões de assalto. Pela primeira vez aparecem aqui, nos pontos nevrálgicos, importantes formações de nossos tanques "Tigre", infinitamente mais poderosos que tudo quanto os russos podem alinhar. De resto, no conjunto, todos os nossos tipos de tanques regulam seu tiro com mais rapidez e precisão que os russos. É fora de dúvida que essa eficácia provém, em parte, da excelência do material, mas, sobretudo, do valor dos homens que manejam estas armas.

Muito mais temíveis que os tanques russos são seus canhões antitanques. Muito potentes e extraordinariamente precisos. O exército soviético deve dispor de enormes quantidades desses canhões, pois eles podem ser vistos em todos os pontos nevrálgicos do imenso campo de batalha. Aliás, exagero ao dizer que "podem ser vistos": os russos são verdadeiros artistas da camuflagem, o que torna a descoberta e destruição de sua artilharia extremamente difícil.

Vendo desfilar sob minhas asas essas enormes massas de tanques, lembro-me do meu avião-canhão, que tive a feliz idéia de levar comigo quando deixamos a Criméia. Diante dessa maré de tanques, que parecem oferecer-se aos nossos golpes, uma nova tentativa se impõe, penso comigo mesmo. A DCA sobre os destacamentos russos é de terrificante intensidade, é verdade, mas como o espaço entre suas linhas e as nossas raramente excedem os 1.500 ou 1.800 metros, julgo que poderei me safar sem grande risco: é certo que vou receber alguns projéteis, mas, a menos que caia como uma pedra, provavelmente terei tempo de conduzir meu avião até nossas posições e de aterrissar da maneira possível. Em todo o caso, é um risco a ser corrido.

Certa manhã, levanto vôo com meu avião-canhão, escoltado por todos os aviões da primeira esquadrilha. Meu sucesso excede minhas esperanças mais extravagantes. Logo à primeira passagem, quatro tanques russos explodem sob os obuses bem ajustados dos meus canhões. À noite, posso inscrever doze tanques no meu quadro de caça. Fico exultante. Mais que todas as demonstrações teóricas, esse resultado porá por terra as objeções dos pessimistas rabugentos que desejam relevar o avião-canhão ao museu das invenções inúteis.

Nessa noite nossos mecânicos quase não podem descansar; é preciso reparar meu avião, rudemente castigado pela DCA. É certo que nenhum avião-canhão viverá muito tempo; o avião é terrivelmente vulnerável. Mas essa é uma consideração secundária: o que importa, antes de tudo, é que agora dispomos de uma arma suscetível de ser deslocada rapidamente ao longo do fronte, para compensar, nos pontos ameaçados, a superioridade numérica dos tanques russos. Na esquadrilha, na esquadra e até no QG da luftwaffe, uma confiança total sucede à dúvida, para não dizer as apreensões dos últimos meses. Os diferentes grupos do "Comando de experiência" espalhados por toda a parte, recebem ordem de enviar-me imediatamente todos os aviões-canhão em condições de vôo. Assim, no espaço de poucos dias, nasce a esquadrilha cuja chefia ficará sob minhas ordens.

Durante os dias seguintes aperfeiçoamos nossa tática, sempre registrando novos sucessos. No momento, os aviões-canhão e Stukas bombardeiros dividem a tarefa entre si; enquanto os primeiros mergulham contra os tanques, metade dos Stukas ataca as baterias de DCA, enquanto a outra, escalonada em várias altitudes, fica dando voltas para nos cobrir contra uma intervenção repentina da caça inimiga.

Pouco a pouco descubro todos os segredos. Às vezes pagamos caro essas lições práticas. Assim é que perdemos vários aviões num ponto onde, por assim dizer, não há DCA russa, porque cometemos a imprudência de rodar numa zona onde se entrecruzam os obuses da artilharia soviética e da nossa. Ficamos sabendo, então, que se não quisermos ser abatidos "por acaso" o melhor é evitar as trajetórias das "marmitas".

Sempre engenhosos, os russos não tardam em elaborar várias manobras contra nossos ataques. Sempre que podem, transportam sua DCA até os pontos mais avançados. Por outro lado, distribuem a suas equipagens cartuchos fumígenos; o tanque pode então, ou envolver-se em uma nuvem artificial, ou aparentar que está em chamas, para que o Stuka, julgando tê-lo destruído, abandone a presa. De início, somos iludidos, mas ao cabo de dois ou três dias compreendemos tudo, e Ivan não nos pega mais. De um tanque realmente incendiado saem chamas de um vermelho vivo cuja imitação seria muito perigosa. No mais das vezes, um tanque incendiado explodirá, pois o fogo acaba atingindo as munições. Se a explosão ocorre imediatamente, quando o avião sobrevoa o tanque a cinco ou, no máximo, dez metros, o piloto passa um mau momento. É o que me acontece por duas vezes: bruscamente meu avião atravessa um muro de chamas e penso: "Desta vez estou frito". Contudo, saio indene do outro lado; evidentemente a pintura da camuflagem se funde na fornalha, e meus planos ficam crivados pelos estilhaços do tanque.

Mergulhamos incansavelmente sobre os monstros de aço, por vezes de lado, mas, sempre que possível, por detrás. O ângulo de mergulho é relativamente agudo; dessa maneira, podemos descer até poucos metros do solo sem correr o risco de que o avião se abata bruscamente no momento de se reerguer. Uma queda, embora ligeira, bastaria para nos fazer tocar a terra, o que significa a destruição do avião e, provavelmente, a morte da equipagem. Procuramos sempre atingir os tanques nos pontos vulneráveis. Sob esse aspecto os diversos tipos de tanques se assemelham: o lugar mais fortemente blindado é a frente - e por isso é que o tanque sempre procura ficar de frente para o adversário. A blindagem nos flancos é nitidamente mais fraca, mas o verdadeiro "calcanhar de Aquiles" é a traseira. Aí fica o motor que, para facilitar o resfriamento, só é protegido por uma blindagem bem fina. Além disso, essa placa, pelo mesmo motivo, é toda furada. Um obus que penetre na traseira provocará infalivelmente uma explosão, pois perto do motor há que haver combustível. Os flancos também constituem alvos interessantes, embora mais bem protegidos, pois ali se localizam, de modo geral, as reservas de munição e carburante. Portanto, só o ataque frontal oferece riscos e nenhum resultado.

Freqüentemente grupos de soldados de infantaria se dependuram nos "Stalin" que tentam passar; mas, nos setores onde já nos conhecem, deixam-se cair logo que surgimos, mesmo que o tanque vá a toda velocidade. Manifestamente Ivan prefere sentir o chão sólido sob seus pés, para suportar nosso ataque.

Desde 15 de julho a resistência russa enrijeceu bastante; nossas divisões se chocam contra um completo sistema de ferrolhos, dotados de formidável artilharia antitanque, de maneira que nosso avanço se torna cada vez mais lento. Dia após dia, decolamos ao amanhecer, esgotamos nossas munições, regressamos para nos reabastecer, e tornamos a partir imediatamente, a fim de apoiar constantemente nossas pontas blindadas que, ao longo da via férrea Bjelgorod-Kursk, tentam penosamente abrir passagem para o norte. Os primeiros destacamentos conseguiram formar uma cabeça-de-ponte na margem setentrional do Pskoll, mas já há vários dias sua progressão está completamente paralisada. É visível que os russos decidiram não mais recuar, e nossos golpes não conseguem abalar esta resolução.

Certa manhã, quando nos preparamos para uma partida, poderosa formação de aviões de combate soviético, em vôo rasante, surge repentinamente sobre nosso campo e nos cai literalmente em cima. Precipitamo-nos para os aviões e decolamos, em todas as direções, numa indescritível confusão, para nos afastar do campo e nos dispersar. Por milagre, não ocorre nenhuma colisão nem perdemos nenhum avião, o que é tanto mais espantoso quando nossa DCA, refeita da surpresa, atira furiosamente. Essa resposta impressiona visivelmente os russos, que procuram afastar-se à toda velocidade. Contudo, seus aviões são suficientemente blindados para que os projéteis comuns, de 20 mm, ricocheteiem em sua fuselagem, sem causar dano; por outro lado, uma bateria leve, que usa munições antitanques do mesmo calibre, consegue atingir vários aviões, dois dos quais se abatem na margem do campo.

A emoção provocada por essa visita desamistosa só se acalma quando recebemos ordem de partir - "urgentemente", como é óbvio - para Orel, no flanco norte da saliência, onde os russos passaram à ofensiva e já ameaçam a cidade. Nossa viagem dura apenas algumas horas. Logo que chego procuro informar-me sobre a situação, que não é nada brilhante: as tropas soviéticas atacam do norte, de leste e do sul, e nossa defesa está prestes a ser vencida.

De resto, em toda a extensão da saliência, nossa ofensiva está prestes a paralisar-se. Vimos muito bem como o impulso de nossas tropas foi refreado e, a seguir, detido por acontecimentos independentes de sua vontade: o desembarque aliado na Sicília, a queda da Itália. Em ambas as vezes, foi preciso retirar da frente leste as melhores, para enviá-las a outros teatros de operações. Em nossas discussões, chegamos sempre à mesma conclusão (que é, de fato, irrefutável): é unicamente graças a seus aliados ocidentais que a Rússia soviética ainda existe como grande potência militar.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Sobrevivente do inferno nazista



Polonês naturalizado brasileiro que escapou do Holocausto conta como foram os cinco anos passados em campos de concentração.

Quantas vezes você já teve a oportunidade de ficar frente a frente com um sobrevivente do Holocausto? Na semana passada, por iniciativa da Cruz Vermelha Brasileira, filial de Volta Redonda, o escritor polonês naturalizado brasileiro Aleksander Henryk Laks, de 72 anos, fez palestra no Teatro Gacemss contando sua história. Em cerca de duas horas ele relatou o verdadeiro inferno que viveu, durante cinco anos, nos campos de concentração mantidos pelos alemães, inclusive em Auschwitz, na Polônia, invadida em 1939.

Na tarde da terça-feira, dia 19, cerca de três horas antes do evento, Laks recebeu o FOCO REGIONAL no hotel onde ficou hospedado para uma conversa que durou mais de uma hora. Uma parte deste encontro está descrito nestas páginas pelo próprio escritor, em forma de depoimento. Afinal, como ele mesmo ressalta, o tempo não pode apagar um dos piores momentos da história da Humanidade, com o extermínio de cerca de seis milhões de judeus pelas tropas nazistas na Segunda Guerra Mundial.

No Brasil, Laks trabalhou como vendedor, casou-se "com uma brasileira", como faz questão de frisar, e teve dois filhos. É presidente da Associação Brasileira dos Israelitas Sobreviventes da Perseguição Nazista. Cidadão benemérito do estado do Rio e agraciado com a Medalha Pedro Ernesto, pela cidade do Rio de Janeiro, o escritor recebeu também na semana passada a Medalha de Direitos Humanos da Organização Benei Brit, que tem representação no Brasil.

Em suas palestras, Laks não se apresenta como vítima. Apenas conta o que testemunhou. Ao repórter, assegurou que não carrega o ódio pelo passado. Sua própria experiência resultou no livro "Sobrevivente – Memórias de um brasileiro que escapou de Auschwitz", lançado em 2007 pela Editora Record, que foi indicado ao Prêmio Jabuti e está em sua sétima edição. A entrevista é um resumo da história de um senhor simpático e afável, que, à primeira vista, não traz qualquer sensação de ter vivido os horrores que enfrentou.

"Costumo dizer que nunca vi ninguém voltar do céu, mas eu voltei do inferno. Tinha 12 anos quando fui preso, em 1º de maio de 1940. Meu pai (Jacob) era gerente de um frigorífico. Minha cidade, Lodz, foi transformada num gueto. Os alemães fecharam tudo e não se podia sair de lá. Todos os meus parentes foram mortos em campos de extermínio. Quando acabaram com o gueto, eu e meus pais fomos levados para Auschwitz, onde minha mãe pereceu na câmara de gás e depois foi cremada no crematório.

Em Auschwitz, eu e meu pai fomos vendidos para trabalho escravo a outro campo, em Gross Rossen (Alemanha). Quando a frente dos aliados chegou perto deste campo, fomos levados para a Marcha da Morte. Tínhamos que andar sem rumo, sempre juntos, sem poder fazer as nossas necessidades, comer ou beber. Era inverno e ficávamos sempre ao relento. A maioria morria congelada. À noite ganhávamos quatro ou cinco batatas cozidas e só. Para beber, tínhamos que pegar neve. Saímos 600 prisioneiros do campo e em pouco tempo fomos reduzidos a 50 pessoas.

Quem ficava para trás era fuzilado. Quem sentava era fuzilado. Quem encostava no outro porque já não tinha forças era fuzilado. Na Marcha da Morte morreram mais de dois milhões de judeus. Chegamos a pé no campo de Flossenburg. Era também um campo de extermínio e grassava a desinteria. Meu pai pegou a doença. Por ser muito fraco e doente, foi assassinado a pauladas, aos 45 anos de idade. Eu era filho único. Vi o que nenhum ser humano devia assistir ou ver. Quando meu pai morreu o crematório não suportava mais queimar cadáveres, tantos que tinham lá. Meu pai foi queimado numa pira".

‘Vi o que nenhum ser humano deveria assistir’

Neste momento, os olhos de Laks ficaram marejados. O repórter pede então que ele comente como foi voltar à Alemanha, especialmente a Flossenburg, há pouco mais de um mês. "Foi a segunda vez que estive lá, no encontro de ex-prisioneiros de Flossenburg. Havia umas 80 pessoas do mundo todo. Fiz várias palestras, inclusive nas escolas alemãs, sobre o Holocausto. Revivi tudo, claro, desabei. Quando voltei para o Rio fiquei dois dias internado. Durante 60 anos eu disse que não pisaria na Alemanha, principalmente onde mataram meu pai. Mas há três anos senti vontade de retornar ao lugar onde as cinzas dele foram espalhadas.

Fui libertado dois dias depois da morte do meu pai. Houve uma ordem para que o campo fosse evacuado e que nenhum prisioneiro caísse nas mãos dos aliados. Fomos levados de trem para sermos afogados em Bodensenn, no sul da Alemanha, mas, no meio do caminho, o trem foi bombardeado pelos aliados. Pegamos outro trem, na estação de Emmendingen, mas ele não chegou a sair. Fui libertado pelos franceses. Tinha 17 anos e pesava 28 quilos. Estava sem pai, sem pátria, sem dinheiro, sem amigos.

‘Fui libertado aos 17 anos, pesando 28 quilos’

Os aliados fizeram campos de refugiados e fiquei num deles, americano, onde ganhei roupa e comida. Depois fui para Nova York, onde morei quase um ano. Então me lembrei que havia uma irmã de meu pai, que vivia no Rio, viera antes da guerra. Sabendo que eu sobrevivi, ela queria me ver. Vim como turista e não voltei aos Estados Unidos. Me apaixonei pelo Brasil, pelo Rio e pelo povo brasileiro. Hoje sou brasileiro com muita honra.


Aleksander Henryk Laks, aos 72 anos.

Minhas palestras são bem recebidas porque não me apresento como vítima. Conto o que aconteceu, mas o intuito não é ser vítima. O intuito é recontar para nunca mais acontecer isso com ninguém. O livro que escrevi teve o mesmo intuito: contar a verdade e alertar que isso nunca, nunca mais, pode acontecer com ninguém. Nas minhas palestras, os mais jovens são quase sempre mais interessados que os adultos. Eles são mais sensíveis. Faço em escolas, universidades, igrejas e a quem se interessar. É um testemunho que trago, ninguém me contou, eu vi.

Uma das perguntas que mais me fazem é qual foi o pior momento. Todos eles, respondo. Também perguntam se tenho ódio. Não carrego, por isso estou vivo. Disse isso aos alunos nas escolas alemãs. Disse que eles não têm culpa e realmente não têm. Esta é uma passagem da história que o tempo não vai apagar, embora alguns digam que não existiu. Sabem que estão mentindo, mas dizem que não existiu. A estes eu pergunto: onde estão os seus parentes e onde estão os meus?".


Creditos: http://focoregional.com.br
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