terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Batalha sem Tiro



Tolvajardi. Dois batalhões finlandeses cobrem a fronteira, defendendo-se desesperadamente do ataque da Divisão de Infantaria Russa 139. À noite, amparado pelas trevas, os grupos de vanguarda russos caem sobre os finlandeses, pela retaguarda.

Os defensores, surpreendidos pelo inesperado ataque sofrem uma momentânea desorganização, mas refazem as suas fileiras. Enquanto os combatentes mantêm-se firmes na frente, os cozinheiros, motoristas, assistentes, radiotelegrafistas, armeiros e etc, sem disparar um só tiro utilizando baionetas e facas, atacam os russos em sangrento corpo a corpo. Os atacantes são obrigados a renunciar as armas de fogo porque a escuridão é impenetrável e o lhes é desconhecido.
O combate é travado com armas brancas. Silenciosamente, várias centenas de homens lutam durante uma longa hora. Só gemidos isolados assinalam as baixas de um ou outro lado. Por fim, caçadores de nascença, os finlandeses impõem a sua habilidade no manejo da faca e no aproveitamento do terreno.
O batalhão soviético, na singular batalha em que não foi disparado um único tiro, é aniquilado.



Fonte: A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL – Vol.1

Editora codex

Hiroshima: Memórias De Um Sobrevivente




Desejo apagar esta repugnante e desagradável lembrança de minha memória. O seis de agosto vem de novo este ano [1993], como sempre. Sei que está é a minha última chance para registrar, em três partes, o que sofri.



No fatídico dia de 6 de agosto de 1945, eu era um terceiroanista do Departamento de Ciências, Faculdade de formação de professores de Hiroshima (hoje em dia, a licenciatura em matemática da Universidade de formação de Professores de Hiroshima). Em meados do meu primeiro ano [1943], ouvíamos muitas vezes que as condições da guerra estavam piorando e que a frente de guerra estava se expandindo sem limites. Quase todos os estudantes foram recrutados para o exército. Mas ainda havia alguns na faculdade, pois éramos aspirantes a Professores no futuro. Mas a situação mudou gradualmente. Estudantes de ciências humanas foram também recrutados, somente deixaram ficar os estudantes de ciências naturais como nós.

A guerra continuou a piorar. Finalmente fomos mobilizados em abril, como trabalhadores no estaleiro Mitsubishi na vila de Eba, na cidade de Hiroshima. O estaleiro construía transportes de tropas da classe de 10.000 toneladas. A primeira tarefa que me foi designada foi a de soldar placas de aço, usando volumosos macacões feitos de um tecido duro, contendo chumbo. Mas depois de um pouco, fui transferido para uma posição de treinamento para estudantes do ginásio Shudo e do curso secundário da Escola de Comércio de Hiroshima. Nosso alojamento era um hotel chamado Kinsuikan, situado em Miyajima, um local famoso por sua paisagem. Íamos diariamente ao estaleiro de barco. Levava uma hora para irmos. Estávamos sempre expostos aos perigos de ataques aéreos feitos por caças saindo dos porta-aviões americanos e ao contato com minas. Tínhamos prontos pedaços de tábuas de madeira no barco, para substituir os coletes salva-vidas. Duas horas gastas no ir e vir eram preciosas para descansar e ler livros. Quanto a comida, estávamos sempre com fome. Arroz misturado com soja triturada, ou bolinhos de Eba feitos de trigo moído e estragão eram uma festa para nós.


O seis de agosto

Saímos do porto de Miyajima e chegamos ao estaleiro de Eba uns poucos minutos depois das oito horas, como sempre. Estava quente e o céu limpo, sem nuvens. Pouco antes das oito, uma sirene de ataque aéreo soou. Nos abrigamos enquanto reclamávamos, porque já estávamos acostumados à sirene. Logo o alerta foi cancelado. O encontro da manhã foi feito como sempre e uma chamada dos alunos do ginásio foi feita também. Fui até o segundo andar acertar alguns papéis. Estava conferindo a presença dos alunos enquanto mantinha minhas costas diretamente para o epicentro. De repente, uma luz azulada brilhou como um arco voltaico, como a luz de uma máquina de solda, ou como magnésio queimando. O mundo ficou branco.

De forma instintiva, pensei que tivesse havido um grande acidente na companhia de fornecimento de gás no distrito de Kannon ou na subestação transformadora em Misasa. Corri para a janela que estava bem aberta ao exterior, para ventilar. Olhei na direção do possível acidente. Observei uma nuvem amarela-avermelhada subindo como fogo de artifício, alto para o céu, cercada por fumaça negra como carvão. (Naquela época, como não tinha idéia do que seria uma bomba atômica, nunca imaginaria que uma nuvem de cogumelo estava para surgir). No mesmo momento, de longe, casas voavam um pouco e então caiam, esmagando-se no chão como peças de um jogo de dominó. Era igual a branca arrebentação de uma onda, vindo em minha direção, enquanto ficava em pé na praia. A onda se aproximou de forma inabalável (mais tarde, isto seria chamado de onda de choque da explosão). Me senti terrível pela primeira vez. Tinha que fazer alguma coisa, o segundo andar onde estava logo seria esmagado. Um amigo próximo, o Sr. Soma ou o Sr. Yoshikawa gritaram algo. Corri para debaixo da mesa e segurei a respiração, esperando que alguma coisa acontecesse. Em apenas alguns segundos eu vi o relâmpago e me enfiei debaixo da mesa.

Então, de repente, o chão desabou com um imenso som. Uma maciça nuvem de poeira se levantou. Naquele momento, eu congelei. Senti que a bomba tinha explodido logo na minha frente. Mas nenhum explosão aconteceu. Senti sem sombra de dúvida que a bomba era uma granada cegante e arrastei-me lentamente. Descobri que o chão tinha desabado com a explosão.

Meu amigo gritou: “seu olho direito está ferido!” Toquei meu olho e somente senti um monte de sangue na minha palma. Mas não sentia nenhuma dor. A explosão tinha arrebentando os caixilhos das janelas em pedacinhos e estilhaços devem ter penetrado minha sobrancelha. O sangue correndo tinha caído no meu olho e perdi a visão. Apoie-me no ombro do meu amigo para correr para a sala de enfermaria do escritório, cambaleando. Surpreendentemente, duzentas ou trezentas pessoas já estavam na fila. Quase todos tinham sofrido queimaduras. Mais tarde soube que muitas das pessoas na fila tinham morrido. Tive sorte no meu azar, pois não fiquei exposto diretamente à explosão. Todos os ferimentos eram na minha face. Todas as tentativas de parar com o sangramento falharam. O sangue continuar a fluir. Minhas roupas estavam de tal forma manchadas pelo sangue derramado que poderiam dar a impressão que estava gravemente ferido. Fui levado para a frente da fila e fizeram quatro pontos, depois de desinfetarem de forma rápida a ferida. Quanto sorte tive. Meus olhos estavam bem. Só quando minha sobrancelha foi cortada, a pele caiu e o sangue entrou no olho, causando uma cegueira temporária.

Foi dito que não havia maneiras de ajudar as vítimas de queimadura, só aplicar ungüento branco. Então fui colocado em uma tábua de madeira e deixado no chão de um prédio que estava inclinado pelo sopro da explosão. No meu peito estava uma etiqueta de papel em que estava escrito o meu nome, local de nascimento, idade e tipo sangüíneo. Ao meu redor estavam muitas vítimas de queimadura, gemendo de dor. As peles das pessoas vivas estava apodrecendo e soltando um cheiro intolerável. As pessoas estavam agonizando e morrendo lentamente, gemendo “ai, ai, água, água”. Fui deixado entre eles. Não sabia ao certo que horas eram, mas uma vez vi um céu azul sem nuvens, coberto por uma nuvem negra como carvão na direção de Koi e parecia que era uma chuva torrencial. Por volta das três da tarde, o ferry Enamimaru chegou para nos apanhar. Voltei aos meus alojamentos em Miyajima. Na manhã seguinte, o dia sete de agosto, as pessoas saudáveis foram para Hiroshima para limpar a cidade. Mas deixou-se que os feridos descansassem nos alojamentos.






O oito de agosto

Hoje, fui ao estaleiro em Eba, junto com alguns amigos meus. Meu rosto estava quase que totalmente embrulhado em bandagens, exceto o meu olho esquerdo. Então fui ao centro de Hiroshima. Como não haviam meios de transporte, tive que fazer toda a distância a pé. Primeiro visitei o Sr. Matsuoka, no distrito Minami Kan-non, onde estava me hospedando. Nada restava lá. Mandado pelos ares ou queimado, não sabia. Não havia nenhum traço. Naturalmente, minhas coisas, tais como cama, livros e outras coisas, não existiam. Não sabia se meu tio e minha tia Matsuoka tinham sobrevivido ou não. Mesmo hoje, não sei de seus destinos. Não tinha escolha, a não ser perambular até a escola em Higashisendamachi. Tanto quanto a vista alcançava, tudo estava totalmente incinerado em cinzas. Somente muros destruídos de concreto pontilhavam a paisagem. A esquerda e direita havia incontáveis corpos, ainda não removidos. Algumas pessoas olhavam os cadáveres, procurando seus parentes. Outros empilhavam a madeira meio queimada das casas, para incinerar os restos. Fiquei vagando pela cidade, cheia dos cheiros da morte.

Quando cheguei na ponte, soldados das tropas Akatsuiki estavam recuperando um imenso número de cadáveres do fundo do rio, usando barcos de desembarque. Todos os corpos estavam completamente nus. Alguns dos corpos permaneciam com as mão para cima, outros com as pernas torcidas em agonia. Estavam inchados pela água, branco-pálidos. A cena era muito lúgubre para lembrar, mesmo hoje em dia.

Finalmente cheguei na faculdade, passando pela ponte Takano. Todos os prédios de madeira da faculdade e os dormitórios estavam totalmente queimados, em ruínas. Somente a biblioteca na direita e a estrutura externa dos prédios do laboratório de ciências, nos fundos, foram poupados. Ao lado da entrada da frente, o corpo queimado de um cavalo fora deixado, soltando um fedor insuportável.

Percebendo que nada restara, fui até o endereço queimado dos Hasimotos, meus amigos, cujo marido tinha ido para a guerra e somente as mulheres tinham ficado para trás. Como os tinha ajudado a construir um abrigo de bombas subterrâneo e colocado coisas importantes lá, estame me preocupando com eles.

Fiquei mais calmo ao achar provas de coisas enterradas terem sido escavadas, pois isto era um sinal que meus amigos tinham sobrevivido. (Muitos anos atrás, fui a Hiroshima, mas lá não havia pistas para perguntar sobre o destino da família Hashimoto).

Então caminhei para Shiragamisha, pela avenida do bonde, para obter na praça municipal um certificado de flagelado. Não me preocupava de forma alguma com a minha cara miserável, embrulhada em bandagens, pois quase todas as pessoas estavam feridas e também perambulavam pelas ruas como zumbis em bandagens. Um bonde queimado, somente com a estrutura de aço restando, estava largado no meio da rua. Postes elétricos estavam inclinados e fios queimados balançavam dentro da janela.

Virei à esquerda no cruzamento do quarteirão Kamiya e caminhei pelos destroços do Pavilhão de Promoção Industrial da Prefeitura de Hiroshima (depois chamado de cúpula da Bomba Atômica), a ponte em forma de “T” de Aioi, Dobashi e o distrito de Fukushima. Continuei a caminhar em direção ao distrito Ibi.

Tão longe quanto a vista alcançava, toda a cidade estava queimada até as cinzas, pontilhada de muros de concreto que antes tinham sido prédios. Chapas de zinco queimadas soltavam rangidos nas janelas radioativas. Passei pelas ruínas e destroços, evitando os corpos dos mortos, cobertos com tapetes.

Finalmente cheguei na estação Ibi passando pela cidade morta, onde não havia sinais de uma só vida, cheia do cheiro dos cadáveres. Peguei um bonde em Miyajima e voltei para o hotel. Caminhei ao redor da cidade morta por oito dias, várias horas todos os dias. Como era bobo. Me arrependo de meu comportamento tolo de perambular. Nunca mais. Não desejo ver de novo tal inferno na terra. Não desejo mesmo me lembrar dele. Este é o limite do que posso descrever.

Deixem-me dizer uma última palavra: agora é um mundo pacífico. Vivemos em riqueza material e liberdade de palavra. As vezes acho estranho: porque estou vivo? Provavelmente posso estar “ficando vivo”. Só tenho um sentimento de gratidão, nenhuma reclamação ou insatisfação. Sempre agradeço a sociedade. Gostaria de dar alguma coisa de volta à sociedade.

Takeharu Terao

Treinamento De Um Piloto - Heinz Knoke


31 de janeiro de 1940
A 8 de janeiro de 1940 sou designado a ocupar uma vaga na Academia Militar (Kriegschule). A vida aqui não é fácil para os candidatos a oficial. As formações de parada prosseguem com contínua rigidez, na melhor tradição prussiana; mas agora eu já estou acostumado a isto. "Aqui você tem que ser forte", eles continuam a nos dizer, "tão forte quanto o aço Krupp. Qualquer um que fraqueje será eliminado".

No entanto, nossa vida se resume somente em intervalos entre o pátio de paradas e a sala de leitura. Temos que estudar e trabalhar sobre os livros no alojamento, geralmente até tarde da noite. Possuímos instrutores, oficiais, sargentos e técnicos de primeira classe e eles nos ensinam tudo que podem sobre tópicos como: táticas de combate no ar e no solo, aeronáutica, engenharia, armaria e meteorologia. Um curso de liderança júnior também faz parte da grade.

Agora estamos esperando somente que o tempo se torne mais estável para então começar nosso treino de vôo.

17 de fevereiro de 1940
Às 13:05h tenho minha primeira lição de vôo em um Focke-Wulf 44, um avião de treino com duplo controle, cujas letras de identificação são TQBZ. Van Diecken é meu instrutor.

23 de fevereiro de 1940
Semana passada completei 35 vôos de treino. O solo está coberto com neve profunda, portanto as aeronaves foram equipadas com esquis no lugar das rodas.

O trigésimo sexto vôo é um teste: estou com o Tenente Sênior Woll, instrutor-chefe do curso. Ele faz pouco caso dos meus progressos no vôo.

1º de abril de 1940
Completei 83 vôos de treinamento. O Tenente Sênior Woll testou-me de novo nas últimas duas decolagens. "Você certamente não pode chamar isto de um pouso: eles são só vagamente melhores do que uma queda controlada". Ele balança a cabeça.

Junto a isso eu também me enfiei em uma enrascada enquanto fazia um circuito sobre o campo. O avião estava sem controle, depois que eu me enrolei com o manche, afogador e leme. Entramos em parafuso antes que eu tivesse tempo de notar, descendo em direção a uma igreja. Woll agarrou o afogador e recuperou o controle do avião, virando-se para mim, logo a seguir e gritando: "O que você está tentando fazer? Está tentando transformar minha mulher em viúva? Maldito idiota"!

Será-me dada mais uma chance, positivamente a última chance, depois de dez novas lições com Van Diecken. Os alunos que falham em completar o curso de vôo na Academia Militar, são designados para o Comando Antiaéreo (Flakartillerie). Um prospecto amargo.

2 de abril de 1940
O Sargento Van Diecken me leva para as minhas últimas dez lições hoje. Todos os outros alunos do curso já decolaram para seus vôos solo há muito tempo. Amanhã será o dia do meu teste final com o Tenente Sênior Woll.

O grupo de instrução sob tutela de Van Diecken inclui três outros candidatos a oficial além de mim: Geiger, Menapace e Hain. Nós quatros dividimos o mesmo alojamento.

Geiger é da Alemanha do Norte, reservado, mas intensamente bem preparado. Seu pai é um trabalhador braçal. Uma vaga conquistada na "Escola Adolf Hitler" deu a este rapaz muito inteligente sua chance. Tendo obtido sua matrícula Sênior, ele está apto a ser comissionado como oficial.

Menapace e Hain são austríacos. Ambos vieram das montanhas do Tirol. Sepp Menapace é o melhor de nós em vôo, parecendo que pilota instintivamente. Pequeno, escuro e muito forte, ele é um tipo que vive ao ar livre. Entretanto ele é tímido e socialmente inapto e, no chão, seu corpo musculoso parece desajeitado, como um daqueles robôs dos filmes; mas uma vez nos céus, ele está em seu elemento, movendo-se tão sensivelmente quanto um gato. Sua aptidão natural o permite controlar o avião como se tivesse feito isso por toda a sua vida.

Hain voou seu solo depois da sua quadragésima decolagem com Van Diecken. Todos os três observaram minhas últimas instruções e me encorajaram. Até mesmo Geiger abriu a boca para dizer meramente: "Você vai se dar bem".

3 de abril de 1940
Precisamente às 13:00h decolei para meu primeiro vôo solo.

"Quando você se aproximar para o pouso, é melhor você nivelar dez pés para cima do que um pé para baixo da terra"!, grita sua última advertência o Tenente Sênior Woll, sobre o barulho do motor, e sorri sardonicamente enquanto se afasta.

Aperto o cinto de segurança, abro o afogador lentamente, começando a me mover, seguro o manche para frente enquanto a velocidade aumenta. O TQBI praticamente decola sozinho e estou subindo antes que o fim da pista se aproxime.

Faixas vermelhas nas asas avisam a todos que possam se interessar: "Cuidado! Este é um aluno no seu primeiro solo. Saia de perto se você dá valor à vida".

Por vários minutos eu circulo o campo. A tensão gradualmente se dispersa e começo a relaxar. Não é necessário fazer um grande esforço para manter o avião sob controle. Olho para baixo e vejo a sombra das nuvens se delineando sobre a terra. Estou realmente voando, livre como um pássaro.

Já é hora de pousar. Começo a planar e o chão vem de encontro a mim. Afogador para trás, nivelado, cuidadosamente agora; e... Opa! Estou de volta à terra firme e, de alguma forma, a aeronave não se destruiu.

Meu primeiro pouso solo não pode ser descrito como um bom pouso, nem mesmo nos quatro seguintes consegui melhorar muito. Mas, pelo menos, as rodas não se desprenderam.

10 de maio de 1940
Nossos exércitos, na frente oeste, iniciaram a grande ofensiva contra a França, mas eu temo que vá me atrasar para estar na ação.

16 de maio de 1940
Várias semanas estáveis de bom tempo nos permitiram fazer progressos reais em nosso treinamento. Completei praticamente 250 vôos. Agora estamos sendo adestrados em acrobacias aéreas no Focke-Wulf 44 e no Bücker Jungmann. Também aprendemos a voar em aeronaves operacionais, interceptadores obsoletos e tipos de reconhecimento de curto alcance, aviões como o Arado 65 e 68 e os Heinkel 45 e 46. Usamos o Junkers W. 34 no qual Kohl e Hünefeld voaram pelo Atlântico, e um Focke-Wulf Weihe especialmente adaptado para vôo de longo alcance, a fim de prática de navegação.

Ontem eu estava em um vôo à leste da Prússia em um remendado e velho GO. 145 quando o motor falhou. O duto principal de abastecimento estourou. Estava somente a poucas centenas de pés naquele momento, e não havia grandes oportunidades para encontrar um campo de emergência para uma aterrissagem forçada. Desci em um campo cultivado. O trem de pouso se despedaçou, o avião capotou e tive que sair da carlinga me arrastando, com um corte na cabeça.

Retornei a base de trem. Tenho uma grande bandagem na cabeça. As pessoas na plataforma me olham, evidentemente assumindo que eu deva ter sido ferido na guerra contra a França. É embaraçoso admitir que eu só caí de um avião de treinamento.

19 de maio de 1940
Parece que estou emaranhado em uma fase de má sorte. Hoje meu trem de pouso quebrou quando tentava pousar em Altdamm. Um vento de través muito forte estava soprando no momento do pouso, e ele se mostrou fatal para o velho KL. 35.

Mais uma vez sou obrigado a voltar de trem.

16 de agosto de 1940
Finalmente tenho meu certificado de piloto e o período de treino está encerrado.

No dia 1º de junho fui promovido a cabo.

Neste meio tempo, a guerra continua. A França rendeu-se em junho. Os franceses não puderam fazer muito contra a moral superior e os equipamentos modernos dos exércitos alemães. Eles tiveram que usar armamentos que já eram obsoletos há tempos; de fato, algumas de suas peças de artilharia pesada foram utilizadas durante a Primeira Guerra Mundial.

Aparentemente as divisões britânicas mantiveram-se mais ou menos intactas, embora tenham perdido uma vasta quantidade de material em Dunquerque. Habilidosas operações por parte do Alto Comando Britânico possibilitaram à maioria das suas unidades o retorno à ilha sem sofrer pesadas baixas. A Força Aérea Alemã perdeu, evidentemente, uma oportunidade de ouro ao deixá-los fugir de nossas mãos em Dunquerque.

Os britânicos não parecem estar suficientemente armados para combater em uma guerra, e a Força Aérea Real conduz suas operações em uma escala muito pequena. Não consigo entender por que não pressionamos imediatamente nosso avanço contra a Grã-Bretanha: significaria, certamente, o fim da guerra.

A Força Aérea Francesa também foi incapaz de ter uma postura decisiva na luta. Aqui, como na Polônia, a Luftwaffe deu outra demonstração de superioridade incontestável em seu equipamento e treinamento. Isso não significa, contudo, que faltasse coragem aos pilotos britânicos e franceses. Significa, outrossim, que eles operavam sob as piores condições possíveis.

Na minha opinião, a velocidade do colapso francês se deve, fundamentalmente, a baixa moral em suas divisões de combate. Os oficiais franceses admitiram, subseqüentemente, o mesmo, com amargura. O soldado francês de 1940 não era nada parecido com seu antecessor, o "poilu", que lutou tão tenaz e bravamente na defesa de cada polegada de sua pátria na Primeira Guerra Mundial. Creio que nos últimos vinte anos, a França descansou tranqüilamente nos louros da vitória de Versailles. Este é o grande perigo da vitória em qualquer guerra.

A moral do povo alemão em casa é muito bom - talvez bom até demais.

Fonte: I Flew For The Führer (Heinz Knoke)


domingo, 27 de dezembro de 2009

Majdanek - Uma Fábrica Nazista de Cadáveres


Majdanek — o campo de extermínio onde os alemães
sistematizaram a eliminação em massa.

William H. Lawrence*
fevereiro de 1945
(Transcrito do New York Times)

Acabo precisamente de ver o lugar mais terrível do mundo — o campo de extermínio alemão em Majdanek, na Polônia, que foi, em verdade, uma fábrica para a produção de morte. As autoridades soviéticas e polonesas calculam em 1 milhão e 500 mil o número de pessoas, de quase todos os países da Europa, que os nazistas ali mataram nestes últimos três anos.

Há que ver para acreditar! Já estive presente a numerosas investigações acerca de atrocidades cometidas pelos alemães; nunca, porém, vi tão clara a evidência dos seus crimes. Depois da inspeção de Majdanek, estou propenso a dar como verídico tudo o que me contem em matéria de barbaridades germânicas, por mais selvagens, cruéis e depravadas que sejam.

Percorri todo o campo; examinei as câmaras de gás, fechadas hermeticamente, em que muitas das vítimas morreram asfixiadas, e os fornos em que os seus restos foram cremados; vi grande número de esqueletos, e mais de 20 cadáveres que os alemães não tiveram tempo de queimar, antes da chegada do Exército Vermelho às imediações de Lublin; vi muita cinza de ossos, amontoada nas proximidades dos fornos, afim de ser levada para os campos, e aí espalhada como adubo para as plantações de couve. Em Krempitski, a uns quinze quilômetros a leste, vi reabrirem-se túmulos onde se haviam feito sepultamentos em massa, e contei 368 corpos, decompostos parcialmente, de homens, mulheres, e crianças, executadas em Maidanek por vários meios e modos, cada qual mais desumano. Só naquela floresta, ao que estimam as autoridades, o número de sepultados é maior de 300 mil.

Fazendo parte de um grupo de correspondentes estrangeiros que foi à Polônia a convite do Comitê Polonês de Libertação Nacional, sentei-me com a comissão Russo-Polonesa de Investigação de Atrocidades, e interroguei testemunhas, entre as quais três oficiais alemães que serviram no campo. Estes homens admitiram francamente que Majdanek era um posto para eliminação altamente sistematizada — embora negassem, como era de esperar, qualquer participação pessoal nos homicídios, o que os não livrará, provavelmente, do devido processo pela parte que tiveram no monstruoso episódio.

Segundo o depoimento das testemunhas, a produção de morte culminou no dia 3 de novembro de 1943, quando o número de execuções subiu a 18 e 20 mil, a tiro, gás, forca, e por outros meios.

Quem se aproxima de Majdanek tem a mesma impressão, mais ou menos, que os filmes americanos nos transmitem, quando figuram na tela um campo de concentração. O que primeiro se vê, é uma dupla cerca de arame farpado, de 3 a 4 metros de altura, que estava carregada de eletricidade. Dentro, um após outro, grupos de edifícios verdes, de aspecto austero — mais de 200 construções, ao todo. Do lado de fora da cerca, 14 altas torres de metralhadoras, e, a uma extremidade, canis, com capacidade para acolher uns 200 cães bravos, especialmente treinados para perseguir prisioneiros que tentassem fugir.



Perto da entrada, encontra-se a casa de banho, onde os presos, que tinham de ser mortos mediante inalação de gases venenosos, tiravam as roupas, e tomavam um banho de "chuveiro". Era costume, em tais casos, aplicar um banho às vítimas, antes da execução, porque a água quente abria os poros, e assim se tornava mais rápido o efeito dos gases. Alguns passavam dali à sala imediata, hermeticamente fechada, e de onde saiam para a cremação. Através de aberturas no telhado, os alemães despejavam latas abertas de um gás venenoso (Ziklon B) à base de ácido prússico, que mata rapidamente.




– Um soldado soviético, no campo de extermínio de Majdanek, tira a tampa da abertura no teto de uma câmara de gás, onde pela qual o Zyklon B era jogado. London Press, outubro de 1944.

Vizinhas à casa de banho, há mais duas câmaras de morte, apropriadas para este gás, ou óxido de carbono. Uma delas mede, em área, 17 metros quadrados, e lá, ao que nos disseram, 100 a 110 pessoas eram executadas de uma vez. Ao redor do piso das salas, estende-se um tubo de aço, com aberturas a intervalos de 25 centímetros, para dar escapamento ao óxido de carbono. Nestas câmaras de morte, há também espaços abertos, com cobertura de vidro, pelos quais os alemães podiam observar o efeito do gás nas vítimas, e determinar o momento de remover os cadáveres.


A cerca de quilômetro e meio das câmaras de gás, vê-se um enorme crematório de tijolo. Dir-se-ia um pequeno alto-forno para uma usina de aço. O combustível (carvão) era atiçado por um fole, de funcionamento elétrico. Havia de cada lado cinco aberturas; por um lado entravam os corpos, e por outro saiam as cinzas, e acendia-se o fogo. A bateria de fornos tinha uma capacidade, só que se calcula, para cremar 1.900 cadáveres por dia.

Não longe dos fornos, havia uma grande quantidade de urnas de barro que, segundo disseram testemunhas, eram destinadas a receber as cinzas de algumas das vítimas, que os alemães vendiam às respectivas famílias, por preços que subiam até a soma de 2.500 marcos.

Vimos ainda uma mesa de concreto, onde se depositavam, antes da cremação, os cadáveres, para o fim de tirar o ouro que acaso tivessem nos dentes. Nenhum corpo era aceito no forno, se não trouxesse no peito a marca indicadora de ter passado pelo exame dos dentes.

Estive num imenso armazém, onde se espalhavam pelo chão dezenas de milhares de sapatos, inclusive de crianças, até de um ano, e todos em mau estado. É que os alemães usavam o campo, não só para exterminar as suas vítimas, senão também como um meio de obter vestuário, de modo que, se aqueles sapatos ali ficaram, terá sido talvez pelo fato de os não julgarem, os nazistas, suficientemente bons. Alguns aliás eram evidentemente dos mais caros.

Noutro armazém, em Lublin, vi outras dezenas de milhares de peças de roupa, que haviam pertencido aos mortos. Interroguei um oficial alemão, e ele me declarou que tinha dirigido a expedição, para a Alemanha, durante um período de dois meses, de roupas das vítimas de Maidanek, em proporções que deram para encher 18 vagões.

A identidade dos nazistas, responsáveis pelos crimes aqui mencionados, é perfeitamente conhecida. Os poloneses, com quem conversamos, são todos de opinião que eles devem ser executados no mesmo campo terrível onde cometeram as atrocidades. O vice-presidente Andrey Vitos, do Comitê Polonês de Libertação Nacional, lamenta que certos círculos americanos, favoráveis a uma paz de suavidade com o Reich, não tenham uma oportunidade de examinar mais de perto a brutalidade germânica. O comitê pretende conservar, tal como está, a parte principal de Majdanek, para que perdure pelo tempo, através das gerações, aquela prova incontestável da crueldade alemã.

Curiosidades

-Adolf Hitler era abstêmio, vegetariano e um não fumante.


-O Brasil foi o único país da América Latina que participou diretamente da guerra (participando de batalhas).

-A Alemanha leiloou no dia 23 de setembro de 2004, o prédio que serviu de sede ao centro de desenvolvimento e produção nazista dos temíveis foguetes V2, uma das armas secretas de Hitler. O imóvel fica em Peenemuende, na ilha de Usedom, no mar Báltico. São 11 hectares que abrigam o edifício, no qual estava instalada a fábrica de oxigênio líquido que servia de combustível para os foguetes. O centro pertencia ao Instituto de Experimentação do Exército alemão, cujo diretor técnico entre 1937 e 1945 foi o cientista Wernher von Braun (1912-1977). Depois da 2ª Guerra, Von Braun continuou nos Estados Unidos seus trabalhos científicos iniciados em 1932 e dirigiu a Nasa entre 1959 e 1972.

-A Alemanha, em 1944, montou mais de 1.000 jatos ME-262, que atingiam 512 milhas por hora (cerca de 120 milhas a mais que os jatos aliados), mas, como Hitler queria bombardeiros e não jatos de defesa, somente 100 foram aos céus, no final do mesmo ano.

-A fabricante de alimentos Heinz Ltda. criou, durante a guerra, uma sopa de letrinhas com suásticas para o exército alemão.

-A Gestapo escolhia algumas crianças e lhes davam apitos e um fardamento da polícia, para que quando eles encontrassem um judeu, apitassem e o segurassem até que a polícia viesse prendê-lo. E também, em 1945, formou-se o Volksturn, o "Exército do Povo", composto de crianças de 12 a 16 anos e idosos.

-A primeira bomba derrubada pelos Aliados em Berlim durante a Segunda Guerra matou o único elefante do Jardim Zoológico de Berlim.

-A saudação nazista de estender o braço e gritar "Heil Hitler" era usado apenas entre os membros do partido, o povo, as SS e a Gestapo. As forças armadas não, mas o exército (As SS não faziam parte do exército) foi obrigado a fazê-lo depois do atentado a Hitler em 1944.

-A Tropa americana que dividiu acampamento com a FEB (Força Expedicionária Brasileira) em 1944, nem imaginava o pelotão casca-grossa que estava a seu lado. O pelotão da FEB chega a uma clareira no Vale Garfagnana, no Norte da Itália. O acampamento fica próximo a outro pelotão aliado, formado por uma divisão americana e alguns poucos soldados ingleses. As barracas brasileiras estão a cerca de 200m do acampamento aliado, mas há liberdade total de ir e vir entre os soldados, que tentam se enturmar. Os brasileiros percebem que coisas estão sumindo da dispensa da tropa. Caixas com latas de comida, rapadura, cachaça, cobertores e até munição desaparecem. Os responsáveis pela cozinha pedem para falar com o comandante e reclamam. Soldados americanos foram vistos rondando as barracas. O coronel brasileiro foi falar com os oficiais americanos e recebe como resposta risadas "Isto aqui é uma guerra, não um colégio. Os homens estão tensos, precisam extravasar seus instintos. Vocês que saibam proteger seu material e pronto" e a reunião é encerrada. Contrariado, o comandante brasileiro retorna e relata o encontro a seus soldados. Ao terminar, fica um pouco em silêncio, enquanto os homens resmungam e cochicham. "Essas são as regras. Quer dizer, não há regras aqui. Façam então o que devem fazer", conclui o comandante. Dias depois, o oficial americano visita os brasileiros e, humilde, pede: "Quanto aos alimentos, às roupas e às munições, tudo bem. Mas, por favor, devolvam nosso TANQUE!" O coronel brasileiro, que soube do roubo do veículo na noite anterior, viu que o americano finalmente descobrira com quem estava se metendo.

-Adolf Hitler ficou radiante com a notícia do bem-sucedido ataque japonês a Pearl Harbor. Sua alegria se transformou em ataque histérico ao descobrir que nenhum de seus conselheiros militares sabia onde se situava este porto.

-Além dos métodos tradicionais de transporte usados pela Segunda Corporação polaca que lutavam na batalha do Monte Cassino, existia também um urso castanho chamado Wojtek que ajudava a transportar as munições.

-Antes da Segunda Guerra, a lista telefônica de Nova York tinha 22 Hitlers. Depois, não tinha mais nenhum.

-Antes da Segunda Guerra, negros não eram aceitos no Exército Americano.

As cinco regras do espião são:

1º) não falar, seja com quem for, a respeito do seu trabalho;

2º) não tomar notas por escrito;

3º) sendo obrigado a tomar notas por escrito, utilizar-se de papel de seda, de dimensões extremamente pequenas, para que possa ser introduzido num cigarro; em caso de perigo, fuma-se o cigarro;

4º) não entrar em relações com outros agentes, nem contrair amizades "verdadeiras" com quem quer que seja, ainda que o "amigo" esteja, sabidamente, às ordens do mesmo chefe;

5º) abster-se de bebidas alcoólicas; quando se torna indispensável beber - para acompanhar a pessoa que se deseja embriagar, afim de que esta preste as informações procuradas - beber de modo a não perder o controle.

-Benito Mussolini, durante a Primeira Guerra, era um editor de um jornal italiano financiado parcialmente pelos britânicos e pelos franceses. Nessa altura era um opositor aos poderes germânicos (ele também pertenceu ao exército italiano até ser ferido).

-Caso houvessem casamentos durante a guerra, as noivas não podiam usar vestidos feitos de seda, pois eles eram utilizados para fazer os pára-quedas dos militares (lembre-se de que a década era de 40 e ainda não existiam essas malhas usadas hoje em dia).

-Conta-se que dois pára-quedistas britânicos estavam nas ruínas de Arnhem, durante a batalha de Market Garden, cercados pelas tropas alemãs. Estavam escondidos no andar inferior de uma casa protegendo-se de um intenso bombardeio de artilharia. um deles volta-se para o seu camarada e diz: "Estão jogando tudo em cima da gente, só falta jogarem o fogão!" Mal termina esta frase e eles ouvem um estrondo, o piso superior cedeu e os Red Devils ficaram cobertos de entulho e, quando a poeira abaixa, eles olham estarrecidos e diante de seus olhos está um fogão perfeitamente intacto sobressaindo-se entre os destroços. O soldado que havia dito a frase acima olha mais uma vez e diz: "Eu sabia que os alemães estavam perto, mas não que estivessem escutando a nossa conversa."

-Depois de ter sofrido grandes perdas durante o assalto e a captura de Creta, Hitler nunca mais comprometeu as suas tropas aerotransportadas em operações de larga escala, usando-os em vez disso como infantaria.

-Devido à escassez de metal, as estatuetas do Oscar entregues aos vencedores durante a Segunda Guerra eram feitas de madeira.

-Durante a batalha da inglaterra, um piloto de Hurricane estava em combate com um 109 alemão, e teve seu avião atingido, não conseguindo mais lutar. A alternativa do piloto ingês era um mergulho no gelado canal da mancha, o que fatidicamente significaria a morte, mas o piloto alemão, percebendo a dificuldade do Hurricane, emparelhou com ele e "escoltou" a sua aeronave até a costa da Inglaterra, permitindo ao piloto escapar com vida. Algum tempo depois, este mesmo 109 estava em apuros depois de um combate. Desta vez um grupo de Hurricanes retribuiu a gentileza, escoltando o 109 até a costa da França.

-Durante a guerra, aviões da Força Aérea Norte-Americana sobrevoavam céus alemães quando teriam se deparado com uma série de estranhos fenômenos aéreos na área entre Hagenau, em Alsace-Lorraine e Neustadt An Der Weinstrasse, em Rhine Valley. Eram discos-voadores que foram apelidados de Foo Fighters (afooa é uma gíria para a palavra francesa afeua, que quer dizer fogo), daí o nome da banda :)

-Em 17 de janeiro de 1942, Churchill foi quase assassinado pelo inimigo e, igualmente, pela sua força aérea. Durante a viagem de regresso dos Estados Unidos, o hidroavião onde se encontrava desviou-se da rota predefinida e aproximou-se das antiaéreas alemãs situadas em França e, após se ter dado conta do erro e ter sido corrigido, os operadores dos radares britânicos detectaram o avião onde se encontrava Churchill como sendo um bombardeiro alemão. Seis aviões da RAF estiveram praticamente a aniquilar o avião, mas felizmente não foram capazes de o encontrar.

-Em 1942, a marinha americana lançou uma camiseta de algodão como parte dos uniformes. Daí surgiu a camiseta (T-shirt. T, por causa do formato da letra que forma quando é aberta).

-Em 1944 um B-17 avariado invadiu o espaço aéreo suíço. Eles resolveram escoltá-lo para fora de lá, fornecendo uma rota que o levaria até uma região da França já liberada pelos Aliados. A escolta helvética era um par de Messerschmitts BF-109E, comprados da Alemanha antes da Segunda Guerra. Tudo ia bem, mas assim que estavam para sair do espaço aéreo suíço, um P-51 americano os atacou, abatendo os dois caças antes que eles pudessem dizer oi. Um dos pilotos morreu. Mais tarde, os americanos apresentaram um pedido oficial de desculpas e uma indenização à família do piloto abatido, mas o piloto do P-51 ficou com os dois Bf-109s em seu placar.

-Frank Foley, um agente do serviço secreto britânico salvou a vida de milhares de judeus na Alemanha e foi homenageado na embaixada da Grã-Bretanha em Berlim, sendo comparado com Oskar Schindler.

-Há uma super coincidência entre o código Morse e os quatro primeiros toques da 5ª Sinfonia de Beethoven: eles significam a letra "V", no código.

-Heinrich Himmler, a mente diabólica das SS, foi um criador de galinhas.

-John Kennedy, ex-presidente dos EUA, fazia parte da tripulação de um navio PT-109 que foi afundado pelos japoneses em 1943. JK, bastante ferido, sobreviveu e salvou a maioria de sua tripulação. Os destroços do PT-109 foram localizados em maio de 2002, numa expedição da National Geographic. O último sobrevivente do navio, Gerald Zinger, morreu em 2003.

-Mapas de fuga, bússolas e documentos foram contrabandeados dentro de caixas do jogo "Banco Imobiliário", para prisioneiros de guerra na Alemanha durante a segunda guerra, bem como dinheiro de verdade, escondido no meio das cédulas de brincadeira.

-Militares americanos retiraram os bens de um trem conhecido como "trem de ouro nazista", que se dirigia da Hungria para a Alemanha em maio de 1945. O trem estava carregado com ouro, prata, porcelana, jóias, 1.200 quadros e 3 mil tapetes orientais tomados pelos nazistas de famílias judias húngaras.

-Na batalha de El-Alamein, Rommel utilizou um motor de avião para fazer a poeira subir e dar a impressão de o grosso de suas tropas se aproximavam pelo litoral, quando na verdade, eles atacariam pelo interior. Os ingleses caíram direitinho.

-No ataque à Nagasaki, a cidade não era o alvo original - o alvo pretendido era a cidade de Kokura, que escapou pelo fato de os pilotos do bombardeiro terem ordens para só atacar a cidade caso esta estivesse claramente visível. Como Kokura se encontrava sob um denso nevoeiro, Nagasaki foi a primeira alternativa para o lançamento da bomba atômica.

-No final de 44 um dos assistentes teve a coragem de contar a Hitler uma piada que corria entre a população de Berlim: "Göering e Goebbels morreram e foram para o céu. Lá chegando, São Pedro os esperava e chegou junto a Göering e disse: - O Sr. está vendo aquela nuvenzinha lá longe? Pois bem, agora você vai correr até ela e voltar dez vezes por todas as mentiras que contou na Terra... Aí voltou-se para Goebbels e ele não estava mais lá, e então perguntou para o anjo ao lado: - Cadê o rapazinho manco que estava aqui agora há pouco? E o anjo respondeu: - Ele voltou à Terra pois disse que tinha esquecido sua moto na garagem..." Fala-se que Hitler riu muito da piada e o assistente foi enviado para o front russo.

-O clipe, desenhado em 1899 pelo norueguês Johan Vaaler, foi usado na Segunda Guerra na lapela como protesto contra o domínio nazista.

-O exército vermelho chegou a treinar cães com o intuito de destruir os tanques inimigos. Os pastores alemães (irônico não?) eram treinados a pegar comida debaixo dos tanques e nas suas costas eram presos cerca de 26 libras de explosivo. Quando estes se encontravam por baixo dos tanques era acionado o explosivo, destruindo o tanque (e, obviamente, o cão). Infelizmente isto nem sempre funcionava com previsto, uma vez que os cães eram treinados usando os tanques soviéticos, executando a tarefa mas facilmente com os tanques deles do que com os alemães, mas mais de 25 tanques alemães foram seriamente danificados desta forma durante as batalhas de Stalingrado e Kursk.

-O famoso tanque T-34, mais poderoso da guerra, era tão apertado que em caso de incêndio, quase sempre morriam todos os tripulantes. Os soldados russos usavam as cápsulas deflagradas para fazerem ali suas necessidades fisiológicas sem precisar descer do veículo.

-O líquido contido no interior de alguns cocos pode ser usado como substituto do plasma do sangue em situações de emergência. Esta propriedade foi descoberta e muito utilizada durante a Segunda Guerra.

-O nome original de Stalin era Josef Djugashvili. Em 1913 começou a usar o pseudônimo Stalin (ou Estaline) que significa "Homem de Aço".

-O quadro Guernica, de Picasso (pintado em 1937), foi transferido para Nova York durante a segunda guerra, pois recebeu do pintor a ordem de que, apenas quando a Espanha fosse um país democrático poderia ser levado para lá. Ficou sob a guarda do Museu de Arte Moderna de Nova York (MOMA). Isso ocorreu apenas em 09 de setembro de 1981, sendo a obra retirada do MOMA rumo à Madrid. Tinha chegado ao final a peregrinação da obra que os espanhóis chamavam de "el ultimo exiliado".

-O saudoso ator cômico Stan Laurel (O magro, da dupla o Gordo e o Magro), lutou na Segunda Guerra junto com a FEB. Ele operava uma engenhoca de fazer fumaça, que era usada para camuflar a passagem de tropas de um ponto para outro, confundindo os alemães.

-O significado do D em "Dia D" e H em "Hora H", é simplesmente por causa das iniciais: Dia (D) e Hora (H). Quando essas palavras são utilizadas, combinadas com sinais de mais ou menos e números, indicam quanto tempo falta ou passou de uma determinada ação. Exemplo: H-3 significa que faltam 3 horas para a Hora H (determinada anteriormente); D+3 significa 3 dias após o Dia D. H+75 significa 1 hora e 15 minutos após a Hora H.


-O tanque mais pesado de todos os tempos foi construído pelas alemãs Maus II, que pesava 192 toneladas. No final da guerra este tanque ainda não tinha alcançado o estado operacional (Fonte: Livro dos Recordes do Guinness).

-O Ten. Carlos Alberto Martins Torres, integrante do 1º GAV na Itália (onde voou 99 missões), teve a honra de ser o único piloto brasileiro a afundar um submarino alemão, o U-199, ao largo da Baía da Guanabara, quando pilotava o Catalina da FAB Arará em 1943.

-O Tenente Carlos Alberto Martins Torres, integrante do 1º GAV na Itália, onde voou 99 missões, teve a honra de ser o único piloto brasileiro a afundar um submarino alemão, o U-199, ao largo da Baía da Guanabara, quando pilotava o Catalina da FAB "Arará" em 1943.

-Os dois presidentes americanos, Franklin e Theodore Roosevelt, eram primos de quinto grau.

-Os Estados Unidos pagaram US$ 25,5 milhões a famílias de vítimas húngaras do holocausto como compensação por saques de jóias e outros valores durante a guerra.

-Os pilotos kamikazes japoneses recebiam tratamento privilegiado, bem como eram considerados heróis. Todos eram voluntários, rigorosamente treinados e preparados para as missões suicidas. Se eles se recusassem a permanecer na tropa, eram executados como traidores.

-Quando os russos chegaram a Berlin, eles aprenderam a dizer a seguinte frase em alemão: "Alô, o Ivan Chegou" (algo como "Heloo, Ivan kam an"). Por pura gozação, eles entravam em algumas casa em que os telefones ainda funcionavam e ligavam aleatoriamente para outros fones em Berlim e anunciavam sua presença: "Alô, o Ivan Chegou!"

-Se você já assistiu o filme "O Pianista", viu a parte em que Wladislaw Szpilman e um oficial alemão se encontram num sótão, em Varsóvia, onde o pianista se escondia após ter escapado de um embarque para Treblinka. Depois que Szpilman toca o "Noturno", de Chopin, o oficial alemão passa a fornecer comida e a visitá-lo até que um dia ele se despede. Bem, o nome desse oficial era Wilhelm Hosenfeld e essa história aconteceu realmente.

-Um destróier alemão foi atingido pelo próprio torpedo, quando atacava comboio aliado com destino à Rússia. Ao largo da Noruega o mar estava tão frio que congelou os controles do torpedo e ele virou e atingiu o barco alemão.

-Um destróier alemão foi atingido pelo próprio torpedo, quando atacava comboio aliado com destino à Rússia. Ao largo da Noruega o mar estava tão frio que congelou os controles do torpedo e ele virou e atingiu o navio alemão.

-Um dos filhos de Stalin, Yakov Dzugashvili, serviu no Exército Vermelho e foi capturado pelos alemães em 1941. Os alemães ofereceram trocá-lo por um general alemão, mas Stalin recusou a oferta alegando que quem se rende é um covarde. Yakov foi fuzilado durante uma tentativa de fuga do campo de Sachsenhausen em 1943.

-Um piloto do 1° Grupo de Caça, Danilo Moura, foi abatido a 600Km de Pisa, base usada pelo grupo Brasileiro. Cansado de espera (após a ejeção) e desacreditado em seu resgate, resolveu voltar por conta própria para Pisa. Vivendo uma verdadeira odisséia, a mais engraçada foi quando ele disse que na Itália ninguém bebia água, toda vez que ele pedia água a alguém, davam-lhe vinho, e depois de alguns vinhos resolveu cortar o cabelo. Ao entrar na barbearia, percebeu que a mesma era do exército alemão e estava "lotada", por sinal, imediatamente o efeito do vinho passou e ele tratou de sair de lá o mais discreto e rápido possível.

-Uma bala de fuzil viaja a 2.400 km/h e demora em média 1 milésimo de segundo para acertar um alvo.

Memórias De Uma Sobrevivente de Auschwitz

Desde que retornei de Auschwitz, em maio de 1945, senti que tinha que escrever o que aconteceu com minha família e comigo – todas as minhas experiências. Só a lembrança daquilo traz-me dores e lágrimas. Tentando permanecer sã, fui adiando isto. Hoje, se passaram mais de 50 anos desde o genocídio planejado por Hitler contra nosso povo. Sinto-me forçada a registrar da forma que me lembro. O tempo está acabando. Tenho 67 anos. Meus filhos, a quem tentei educar da forma mais normal possível, e com quem tentei não falar sobre o passado, hoje são homens crescidos. E têm o direito de conhecer a história de sua família. Portanto, dedico minhas memórias a meus maravilhosos filhos e netos.



Veronika Schwartz, Montreal, 1994.



Nasci em seis de junho de 1927, na Hungria, em uma pequena cidade chamada Kisvárda, no condado de Szabolcs. A população total em 1941 era por volta de 15.000. A população judia era de cerca de 4.000. Naqueles tempos, os bebes nasciam em casa, com o auxílio de uma parteira e, provavelmente, de alguns membros da família. O meu tio Mikós Ösztreicher me disse que minha mãe tinha ficado grávida sete vezes; quatro permaneciam vivos.

O nome de meu pai era Schwartz Mór. O nome de minha mãe era Ösztreicher Irén. Meu irmão, Zoltán, era o mais velho, nascido em 19 de novembro de 1923. Minha irmã, Klára, era dois anos mais velha do que eu. Minha irmã, Éva, era dois anos mais jovem que eu.

Meus pais tinham um armazém em Fö utza, que significa a rua principal. Vendiam móveis, material de jardinagem, sapatos e roupas prontas. Trabalhavam muito duro. A vida não era fácil. Tanto quanto posso me lembrar, senti pena de minha mãe. Ambos os seus joelhos eram machucados, mas nunca desejou falar sobre uma operação, temendo que não fosse bem sucedida e que pudesse terminar pior do que antes. Só continuava a colocar bandagens nos pés o dia todo, tentando fazer o melhor para atender os fregueses e, naturalmente, sua família. Ela cozinhava antes de ir para a loja. (...)



Não me lembro de ter tido brinquedos, como uma bicicleta ou bonecas, mas não me lembro de ter sentido falta deles também. Éramos uma família. A alegria era ver minha mãe segurando as mãos de meu pai, sorrindo. Nunca estávamos entediados. Sempre havia coisas a fazer: regar flores, limpar o jardim, jogar bola ou a escola (eu era a “professora” e reunia as crianças mais jovens e brincava de escola com elas), trazer lenha para a casa, alimentar o cão, conversar com meus amigos na rua ou com nossos inquilinos ou vizinhos. Gostavam muito de nós. Estávamos em casa. Apesar de modesta, era nosso castelo. Como jovens crianças, tudo que precisávamos era de um monte de areia para ficarmos ocupados e felizes. Amávamos também nosso país. Lembro-me que quando soldados Húngaros a cavalo passavam pela rua próxima, corria para juntar um buquê de flores de nosso quintal e corria toda distância para dar-lhes flores. (...)

Tudo mudou no ginásio. Senti o anti-semitismo. Não me lembro do nome de minha professora, mas chamava as garotas gentias pelos seus nomes e as garotas judias pelo nome de suas famílias. Não podia me concentrar, isso me preocupava muito. Comecei a sentir o ódio. Isto foi em 1939 e tinha somente doze anos. Minha avó costumava dizer como era horrível para o povo judeu. Como, durante uma rebelião ou revolução, sempre colocavam a culpa nos judeus. Eu só sentia pena por terem sofrido tanto.

O ódio somente aumentava, as coisas não melhoravam. Um dia, minha avó veio a nossa casa gritando que um dos seus vizinhos tinha ameaçado matar meu tio Miklós. Eu sabia onde meu tio estava, corri todo o caminho, cinco ou seis quilômetros, para achá-lo em uma vila próxima, chamada Ajak. Ele se escondeu, mas para o Grande Feriado foi à sinagoga. Os gendarmes (a polícia de elite) estavam procurando por ele e entraram na sinagoga. Meu tio escapou por uma janela, e a Sra. Rooz, que era uma parente distante, escondeu-o em sua casa. Quando as coisas acalmaram, conseguiu embarcar em um navio e escondeu-se no carvão. Chegou ao Canada em 1939 como um clandestino, quase morto. Nunca soube porque os gendarmes queriam prendê-lo ou porque o homem (seu nome era Orgován), que supostamente era seu amigo, queria matá-lo. Tudo que sabia era que meu tio vendia terras naquele tempo. Talvez algum negócio de terras não o tenha agradado. Toda nossa família ficou contente quando recebemos uma carta do Canadá de nosso tio.

Parecia que, para a população judia, a vida estava ficando bem apavorante. Meu pai tinha que fazer trabalhos forçados. Por sorte, foi desqualificado devido a uma hérnia. Meus pais decidiram que deveríamos aprender uma profissão ao invés de continuarmos nossa educação. Pagaram a um relojoeiro bem conhecido para ensinar meu irmão a consertar relógios. Minha irmã mais velha estudou para ser cabeleireira, também de forma privada, o que era bem caro. Meu irmão e irmã terminaram seus estudos. Meus pais compraram uma bicicleta para minha irmã. Tinha fregueses particulares e pedalava para suas casas. Era muito popular, algumas pessoas gostavam muito dela. Encontraram uma costureira para me ensinar a costurar. Tentei, mas além de aprender uns poucos pontos diferentes, nunca consegui terminar um vestido.

Enquanto isso, meus pais sabiam que a vida para nós estava piorando. O anti-semitismo era muito pavoroso. Sabendo que, acontecesse o que acontecesse, precisaríamos de comida, compraram várias vacas, um cavalo, cabras, gansos, patos e galinhas. Neste ponto não fazia muitas costuras, ajudava muito com os animais. Adorava andar a cavalo. Ordenhava as vacas e alimentava o resto dos animais. Meu avô, Lajos, vinha todos os dias para ajudar e tínhamos alguns empregados.

A situação política estava piorando, especialmente para nós, o povo judeu. Minha mãe fazia visitas mais freqüentes ao Rabino, para rezar por nossa segurança e bem-estar e para termos paz. O Rabino nos abençoava, dizia-nos para rezar, e para ter fé em D-us [nota: judeus ortodoxos não escrevem o nome do Senhor de forma alguma, usando este tipo de recurso]. Sempre a acompanhava nessas visitas.

Manter o negócio aberto não era uma tarefa fácil. Mas era difícil conseguir mercadorias têxteis como seda, linho, algodão e flanela. Minha mãe nunca desistiu. Viajava para Budapeste para encontrar seus fornecedores e tinha confiança que não voltaria de mãos abanando. O nome da firma de negócios ao atacado era Mandel Gustav e Sandor. Ela não podia deixar de falar dessas pessoas, como tinham sido boas com ela. Por ter os joelhos doentes, desejavam ajudá-la de forma especial. Vendiam-lhe mercadorias têxteis. Foi convidada para a casa deles. Um dia nos disse, “vi um belo banheiro de azulejos, isto é o que teremos um dia. Vamos instalar encanamento em nossa casa”. Nunca abandonamos a esperança. De fato, tínhamos eletricidade instalada e um novo piso de cerâmica na cozinha.

A despeito de nossas esperanças e preces, o ódio parecia piorar. Acender velas nas noites de sexta-feira era arriscado. Nossas janelas foram quebradas. Pedras foram atiradas na casa de nossos avôs. Meu pai entaipou algumas de suas janelas. Os bandidos das cruzes flechadas ficavam nos insultando. Um homem jovem veio a nossa loja como um animal selvagem, xingando, pegando caixas de sapatos e jogando-as na rua. Minha mãe implorou-lhe para que levasse o que queria, mas o ódio era muito profundo. Tremíamos de medo.

Meu irmão foi convocado para o Exército. Meus pais não puderam vê-lo ir. Minha mãe fez uma jarra de café muito forte e ele bebeu tudo, então chamaram o doutor da família e disseram que ele não estava bem. O doutor ouviu o seu coração e escreveu uma carta dizendo que era incapaz de ir para o serviço, devido a uma doença cardíaca. (...)

Cerca eletrificada em Auschwitz

Leis e regras cruéis foram-nos impostas dia após dia. Era muito doloroso perceber que tínhamos sido extremamente otimistas por muito tempo. Era chocante quando visitava um dos nossos inquilinos, a família Posner, de origem russa. Tinham uma empregada, uma jovem cigana. Gostava de falar com ela, era sempre alegre e feliz. Perguntei, “Onde está ela?”. Disseram-me que tinha sido levada embora a força e afogada com muitos outros. “Como é possível matar pessoas inocentes. Devem ter sido enviados para trabalhar em outro local”, disse à Sra. Posner. Ela me disse suavemente, “queria que você estivesse certa”.

Não havia mais razão para ser otimista. Éramos proibidos de ouvir o rádio. Quando caminhava pela rua e tentava ouvir as notícias, fui apedrejada. Minha mãe adorava ir ao banho ritual (mikvah). Era um dos prazeres da vida dela, mas foi proibido.

Ouvia um monte de sussurros. Ouvi que falavam de uma rota de fuga, mas que não seríamos capazes de usá-la. Era muito tarde. Os judeus não podiam viajar. Minha mãe nunca concordaria com uma rota de fuga, a menos que toda a família pudesse escapar junta. Isto era impossível. Levamos para casa um monte de mercadorias (móveis, tecidos) de nossa loja. Cavamos buracos nos telheiros e enterramos os tecidos e roupas em caixas de madeira.

Sempre que meu pai ia a sinagoga, voltava para casa com péssimas notícias. Ouviu que um eminente doutor e toda a sua família tinham cometido suicídio. Em 19 de março de 1944, passou a ser compulsório usar uma estrela de David amarela. No mesmo dia, o exército alemão invadiu a Hungria. Além das expectativas dos alemães, os húngaros cooperaram integralmente e os receberam de braços abertos. Sentíamo-nos em uma armadilha.

Lembro-me do Sr. Fekete, que vinha a nossa casa ler o medidor de eletricidade. Quando entrou, olhou para todos nós. Começou a caminhar em direção de meus pais. Ele gostaria de falar-lhes, mas foi sobrepujado pelas emoções e começou a chorar. Só ficou chorando e saiu. Sabia que algo terrível iria acontecer. Certo como um relógio, poucos dias depois, um jovem veio a nossa casa e a casa de meus avós. Este jovem vivia em nossa rua. Minha avó e a avó dele eram amigas uma da outra. Seu nome era Bajor e tinha sido autorizado a inventariar nossos pertences. Não levou muito tempo para descobrir que teríamos que deixar nossas casas e ir viver juntos em um gueto, em Kisvárda. Todos tentamos nos consolar o melhor possível. Meus pais acharam que meu irmão deveria se alistar em um campo de trabalho. Talvez tivesse uma chance maior de ficar vivo. Aceitou a sugestão e partiu para se alistar. Foi de quebrar o coração vê-lo partir.

Meus pais deram nosso gado em confiança para as pessoas que usavam nossa propriedade como caminho para chegar à cidade. Mesmo que tivessem prometido tomar cuidado de todos os animais, era duro deixá-los para trás – os filhotes de cabrito que amava; o belo cavalo que adorava cavalgar; as vacas, gansos, patos e galinhas. Minha mãe trabalhou freneticamente preparando uma base de sopa, uma mistura de farinha e óleo ou gordura de galinha. Disse que enquanto pudéssemos conseguir um pouco de água, pelo menos poderíamos fazer uma sopa. Vi quando ela quebrou e começou a chorar. Implorei para que não chorasse. Ela disse: “não choro por mim, choro por todos vocês. Eu os amo muito”. Tentei dizer a que a nossa partida era só temporária. Era ingênua. Sabiam quão irracionais as pessoas ficavam com o ódio, inveja, vingança e poder, e ficaram com muito medo.

Meus pais trabalharam muito duro. Nunca fumaram ou beberam e economizavam cada centavo. O costume era dar a uma filha um dote quando se casava. Eles compravam pedras preciosas, diamantes e outro para nós três, para que quando nos cassássemos tivéssemos condições de começar uma vida nova sozinhas. Meu pai chamou-nos e todos descemos ao porão. Ali removeu alguns tijolos da parede, escondeu as jóias em uma garrafa e consertou a parede. Assim todos sabíamos onde estavam. Escondeu algumas jóias no sótão. Mesmo nossos vizinhos, os Fishers, do outro lado da rua, esconderam algumas jóias em nosso sótão.

Em meados de abril de 1944, fomos levados e aprisionados no gueto em Kisvárda. Fomos levados sob as condições mais cruéis pela gendarmerie Húngara. Todos estávamos apertados em um só quarto – minha avó, meus pais, minha tia Margit, tio Ernö e minhas duas irmãs, Klára e Éva. Abaixo de nosso quarto ficava um porão. Levavam para lá as pessoas para serem interrogadas, para descobrir onde tinham escondido o seu dinheiro e posses. Era sempre o chefe da família. Inicialmente torturaram os muito ricos e, mais tarde, a classe média. Era horrível ouvir os gritos.

Também nos preocupávamos com nosso pai. A comida era muito pouca e meu pai costumava sair escondido às 5 da manhã, antes do nascer do sol. Eu não sabia, mas uma família gentílica dava-lhe ovos, leite e pão. Ele corria um imenso risco para melhorar a qualidade de vida para sua família. As pessoas que lhe davam comida também eram muito especiais, desprendidas, gentis e desejosas de ajudar os necessitados. Era um ato corajoso, podiam entrar em grandes problemas ao ajudar judeus. Boas pessoas como elas nos davam incentivos para continuar tentando o máximo e prosseguir com nossas vidas. Era um esforço conjunto fazer o melhor que podíamos. Ajudávamos uns aos outros, compartilhando as tarefas domésticas. Éramos livres para ir para qualquer lugar dentro do gueto. Andava muito com minhas irmãs e todo mundo na família, conversando com nossos amigos e vizinhos, tentando descobrir novidades políticas. (...)

Mais uma vez, as novas eram pavorosas. Mais uma vez estraçalharam nossas esperanças que a guerra logo terminaria e que voltaríamos para nossos lares e negócios, recomeçando nossas vidas. As pessoas estavam dizendo que os alemães levariam todos para campos de trabalho. O gueto ficou como uma capela funerária. As pessoas choravam abertamente. Todos estavam apavorados. Não fazia sentido que a Alemanha quisesse avós, grávidas, bebês, pessoas doentes e crianças para trabalhar para eles. Na mente de todos havia a pergunta: “o que acontecerá a nós?” Da minha parte, fui educada no respeito a todos, seja qual for a sua religião. Assim era difícil entender a complexidade do ódio humano. Não acreditava que nos levariam para trabalhar. Minha avó, preocupada, perguntou-me: “que tipo de trabalho posso fazer para eles? Sou velha demais para trabalhar”. “Bem”, eu disse, “você pode ajudar na cozinha, descascando batatas, por exemplo ou no hospital, preparando ataduras. Todos podemos trabalhar”. (...)

Minha família e eu fomos levados em 31 de maio de 1944. Oitenta pessoas foram arrebanhadas em cada vagão. Não nos permitiram levar nada, somente as roupas que vestíamos. Havia um balde d’água, as portas fechadas e a jornada em direção a um destino desconhecido começou. Meu pai, minha mãe, minha avó, minhas irmãs, Klára e Éva, a tia Margit, tio Ernö – todos estavam muito quietos, tristes e sem palavras. Tentei muito alegrá-los. Encontrei um pequeno local de onde era possível olhar para fora e ver a paisagem. Pedi a todos para vir e ver. Não importa o quanto tentasse, ninguém se interessou. Minha avó ficava repetindo, “sou velha demais para trabalhar”. Se soubesse o que aconteceria com eles, eu teria passado cada minuto beijando e abraçando-os e fazendo o máximo para não ser separada deles.

Finalmente, o trem chegou em Birkenau, Polônia. As portas abriram. De alguma forma, fui empurrada para fora, de tal forma que me encontrei em pé sozinha e uma longa fila estava se formando atrás de mim. Olhei tudo em volta e podia ver que não havia ninguém de minha amada família. O medo e o pânico me atingiram. Chorei e me atirei ao chão, pensando que não levantaria, a menos que fosse colocada junto com minha família. Não me importava se me fuzilassem. Atrás de mim estavam as duas garotas Freed, de nossa rua, Vár utza. Estavam chorando, mas praticamente me levantaram e imploraram para que ficasse de pé ou seria fuzilada. Disseram que sua mãe estava grávida e não a podiam ver em lugar algum.

A longa fila foi formada e tivemos que começar a marchar. Era cerca de três quilômetros até Auschwitz. No caminho, vimos o arame farpado com a cerca de segurança de alta voltagem. Vimos um monte de pessoas dentro. Era um local medonho. Algumas pessoas caminhavam com longos paus e estavam batendo em outros. As roupas dessas pessoas eram trapos. Não podíamos imaginar o que este local poderia ser. Algumas pessoas diziam que deveria ser um asilo mental. Mas como podiam tratar doentes mentais de forma tão má?

Logo nossa marcha terminou e nos achamos no mesmo lugar – o Campo de concentração de Auschwitz. Este foi o pior dia de toda minha vida. A dor no coração de não saber o que aconteceria com minha família. Onde estavam? Sempre procurava com meus olhos tão longe quanto podia ver, em todas as direções, chegando a imaginar que podia ver meu pai.

As pessoas estavam exaustas mental e fisicamente. Começou a chover e estava frio. Durante todo o dia não recebemos comida, mas tínhamos que ficar na fila e esperar. Finalmente, um oficial SS veio e disse-nos que tentaria conseguir um pouco de chá. Isto não era um conforto para mim. Eu era uma alma perdida.

Mais tarde tivemos que ser desinfetados. Neste lugar, aparavam nossas cabeças. Tínhamos que nos despir. Faziam-nos passar por torturas humilhantes. Nossas roupas foram levadas e tínhamos que nos vestir de uma pilha de trapos. Enquanto andava por aquela área de desinfeção, como um milagre, observei minha prima em primeiro grau do lado paterno, Klein Magda. Ela reparou em mim ao mesmo tempo. Me disse que não tinha ninguém da sua família e que deveríamos tentar ficar juntas. Esperava que pudéssemos fazer isso.

Mais tarde fomos levadas para o C Lager (campo C). Permanecemos fora. Uma kapo (isto é, uma prisioneira feitora, designada para supervisionar um determinado grupo de trabalho de prisioneiras) veio falar conosco. Nos disse o seu nome, Toska. Acredito que fosse uma garota polonesa. Parecia ser muito honesta. Perguntou se tínhamos alguma pergunta. Muitas pessoas fizeram a mesma pergunta, “quando nos reuniremos com os membros de nossas famílias?” Com lágrimas nos olhos, apontou para o crematório. Passou um momento difícil ao falar. Depois de recuperar a compostura, continuou: “como vocês, fui trazida aqui com minha família, mas agora, estou sozinha”. Nos alertou para ficarmos alertas; não seria fácil ficar vivas. Depois disso, fomos arrebanhadas para dentro do barracão. Ali estava outra Kapo; seu nome era Éva. Era malvada. Uma garota judia bem apessoada, se comportava de forma desavergonhada, usando um pau para controlar as pessoas.

Fomos espremidos em uma posição sentada muito apertada para a noite. Em minha miséria, decidi seguir o conselho do Rabino: ter esperança e rezar. A cada noite, recitava preces em hebreu. Sabia-as bem e incluía cada membro de minha família e, naturalmente, Aisnley [o namorado de Vera]. De alguma forma, meu passado religioso deu-me forças. Mas também tinha um sentimento de culpa, “por que eu? Por que estou viva e minha família não?”. Me atormentava.

Antes do alvorecer, fomos acordadas por um alto som de apito. Tínhamos que correr e nos alinhar para inspeção. Duas vezes por semana, tínhamos que marchar nuas para dentro de um barracão, em frente a médicos, Mengele e alguns outros, para a seleção. Se alguém fosse removido da fila, isto significava a morte. Assim, tentávamos parecer o melhor possível.

Recebíamos uma fatia de pão e cerca de uma colher de chá de marmelada na manhã. À tarde, fazíamos um turno para pegar uma panela de comida, que não tinha sabor, muito pouco. Não havia pratos nem talheres. Desta forma, fazíamos uma fila e uma depois da outra bebíamos do mesmo copo. Muitas pessoas, inclusive eu, estavam pegando a doença das gengivas [escorbuto]. À tarde, novamente, tínhamos que ficar em fila por duas horas para sermos contadas. Algumas vezes vi corpos queimados, como carvão, contra a cerca. Era uma visão horrível.

Uma manhã, depois da contagem, deitei no chão. Um soldado SS pisou no meu estômago. A sobrevivência por mais um dia era uma conquista.

Cerca de três ou quatro semanas mais tarde, numa manhã, estávamos entrando em uma fila para termos nossos números de identificação tatuados nos antebraços, quando minha prima Magda foi removida da fila. Mais uma vez me senti perdida. Queria muito ficar com ela, era muito boa comigo. Ajoelhei-me e fui até uma janela, passei por ela e achei Magda. Entrei na fila atrás dela. Não tínhamos idéia do que aconteceria conosco, mas estávamos juntas mais uma vez e isto significava muito para ambas. Havia dezesseis pessoas. Entramos em pequenos vagões puxados por um trator. Depois de viajar por cerca de três horas e meia, chegamos em uma fazenda.

Foi-nos dado abrigo em um telheiro. Dormíamos na palha no chão. Mais tarde, colocaram alguns catres para nós. Quando estava ficando escuro, a porta era fechada e ficávamos trancadas. As 6:00 da manhã as portas abriam de novo. Recebíamos alguma comida e eram levadas por um caminhão até os campos, para trabalhar. Tínhamos que colher trigo e aveia, arrumar em feixes, amarrá-los e colocá-los em pé, como se formando pirâmides. Tínhamos dois supervisores: um homem, que era gentil. Se alguém tivesse dificuldade em fazer o trabalho, tentava ajudar e nunca ficava zangado. A mulher não gostava de nenhum de nós. Ouvi-a dizer ao supervisor que éramos judeus e que não merecíamos nenhuma ajuda. Todos tentamos dar o máximo de nós, este local era definitivamente melhor que Auschwitz. Aos domingos, para o jantar, nos davam purê de batatas com uma fatia de presunto, em um prato normal. Isto significava muito para todos.

Um dia, o proprietário cavalgou até o lugar onde trabalhávamos. Me chamou e outra garota para falar com ele. Nos disse que ao invés de trabalhar nos campos, iríamos trabalhar na cozinha. A outra menina tinha só treze anos. Normalmente eu a via engraxando sapatos. Acabei ajudando às duas empregadas, descascando vegetais, frutas e assim por diante. Era melhor que trabalhar nos campos. Enchia minhas roupas com as cascas das maçãs que descascava. Algumas vezes conseguia esconder algumas cenouras ou pequenas maçãs; eram compartilhadas com todos.

Via a família indo para a igreja nas manhãs de domingo. Lembrava-me de como costumava ir para a sinagoga junto com meus pais, irmão, irmãs e outros membros de minha família. Não tinha inveja deles, mas me magoava muito. A injustiça era tão horrenda. Aqui estava eu, trabalhando como uma escrava. Por quê? Não tinha feito nada de errado. Tinham nascido na fé cristã. Por acaso, eu nascera na fé judaica. Tinham tudo que possuíam. Tudo tinha-nos sido confiscado. Tinham sua família viva. Não sei o que aconteceu com a minha. Como se podia permitir que todos esses crimes acontecessem no século XX, sem que nem uma só nação tentasse nos salvar? Onde estava Deus? Teria Ele dormido? Estava perdendo minha fé na humanidade. Questionava a existência de Deus. Afinal de tudo, tinha visto o crematório soltando fumaça o dia todo em Auschwitz. As crueldades sádicas que testemunhara davam-me razões para acreditar que havia muito poucas chances de que veria todos de minha família de novo.

Depois de trabalhar na cozinha por cerca de três meses, escutei as duas empregadas mostrando preocupação sobre o quão próximo os russos estavam e sobre o que aconteceria com eles. Para nós, isto significava uma esperança, de que nossa liberdade se aproximava. (...)



Os russos estavam se aproximando. Tínhamos visto explosões de artilharia bem próximas. Nossas vidas estavam sob risco elevado. Todos estavam com medo. Continuamos a trabalhar mais umas duas semanas, mas uma manhã, ao invés de sermos levados para o trabalho, fomos transportados de volta para Auschwitz. Era muito difícil ainda ter esperança. As pessoas em Auschwitz pareciam esqueletos e tinham inveja por termos passado tempo trabalhando em uma fazenda. Nos disseram que tinha irrompido uma epidemia de tifo. Alguns dos barracões tinham sido queimados até as fundações. As pessoas morriam como moscas. Não podia achar palavras para explicar a intensidade do crime. Por aquela época, parecia que éramos os remanescentes de uma raça. Ficava dizendo a mim mesma para não desistir – se alguém de minha família tivesse sobrevivido, poderiam precisar de mim. Este sentimento de responsabilidade para minha família e com nossa raça mantinha-me lutando para ficar viva.

A fome, sujeira e tortura continuavam. Uma manhã, para meu espanto, recebi um pequeno pacote. A Kapo que me deu, disse que tinha que levar de volta uma resposta. Eu o abri: havia um pouco de pão, um lápis e um bilhete. O conteúdo do bilhete era o seguinte: “nasci na Polônia. Não sou judeu. Expressei publicamente a oposição ao governo; por isso fui enviado para Auschwitz. Sou um médico. Gostaria de saber se você se casaria fora de sua fé”. Não demorei muito a responder. Em meu coração, sabia que não casaria fora de minha fé, por respeito aos meus pais. Também, não tinha ainda abandonado a esperança com relação a Ainsley. Assim, expressei meus agradecimentos a ele e disse minhas razões. Nunca mais ouvi dele de novo, mas foi um tremendo apoio moral acreditar que havia algumas pessoas decentes lá fora e que eu deveria fazer o máximo para sobreviver.

Umas poucas semanas depois, Magda e eu, junto com muitas outras pessoas, fomos levados para outro campo de concentração. Quando chegamos, dois Kapos estavam encarregados de levar-nos para dentro do campo. Para nosso azar, tomaram liberdades por sua posição de superioridade, nos abraçando e agarrando. Foi embaraçoso e fiquei apavorada. Disseram que lembrávamos-lhes suas irmãs. Logo uma fila foi arrumada e caminhamos para o campo.

Quando entramos no campo, foi uma experiência pavorosa. No meio do terreno havia uma imensa vala. Tivemos que nos alinhar em um dos lados. Em nossa frente, no outro lado, os soldados SS estavam de pé, com seus fuzis apontando para nós. As pessoas ficaram em pânico, temendo que estivéssemos em frente a um pelotão de fuzilamento. Tentei acalmar as pessoas na minha frente com a explicação de que, se quisessem nos matar, isto teria sido feito em Auschwitz. No fim, era só um treinamento militar.

Fomos levados a um prédio onde tivemos que tomar uma ducha e foram-nos dados outras roupas, uniformes com listras cinzentas e azuis. Nós fizemos uma fila para a comida, que foi dada em um prato. Era mais no estilo militar e parecia muito melhor que Auschwitz.

Cedo a noite senti-me cansada e deitei-me em uma dos catres debaixo de um beliche. Enquanto descansava, minha prima correu e estava excitada. Disse-me que dois dos Kapos tinham trazido pão para nós. Não pretendia ir e implorei para não ir, mas ela só correu para fora, dizendo que precisávamos do pão. Apesar de não querer ir, corri atrás dela, para que não ficasse sozinha. Os dois jovens rapazes ficaram felizes em nos ver. Um deles estava segurando minha mão quando de repente as luzes apagaram. Diversas pessoas entraram. Fomos escoltadas de volta ao nosso barracão, mas levaram Magda com eles. Teve que se despir totalmente e esperaram. Pouco depois um oficial SS chegou e minha prima foi surrada com um bastão de borracha. Ouvi-a gritar e senti a sua dor. Em meu coração, sabia que ela queria apenas o bem para nós. Só queria um pouco de pão. Quando terminaram com ela, esperava que viessem me pegar, mas isso não aconteceu. Magda disse-lhes que eu só tinha corrido para lá para chamá-la de volta. Podíamos ver os dois Kapos fora, havia dois postes com uma corda grossa no meio. Cada homem estava amarrado pelos pés e braços e foi deixado lá, pendurado no poste, por horas.

Na manhã seguinte fomos amontoados como sardinhas em um vagão e fomos enviados para um campo de trabalhos forçados. Levou muitas horas para chegar lá. Lembro-me de dizer a Magda que as pessoas eram muito boas, pois tinha caído no sono em cima delas. O que não tinha percebido é que estava dormindo em cima de corpos mortos. Minha prima sofria de dores terríveis da surra. Quando o trem parou, finalmente, no destino designado e a porta abriu, fomos forçados a carregar os cadáveres.

Dormimos no chão em um barracão, com somente um pouco de palha espalhado em volta. A comida era horrível e muito pouca. Para descrever a extensão da fome, uma vez retirei uma migalha de pão da parede da latrina e a comi. Homens e mulheres usavam a mesma latrina. Não havia nada parecido com dignidade humana.

O trabalho era duro. Recebemos uma picareta e tínhamos que cavar uma área montanhosa, para construir uma trincheira. Não recebemos roupas quentes. Embrulhávamos os pés em pedaços de trapos, tínhamos medo de congelamento. Algumas vezes gostaríamos de poder falar com alguém, mas um soldado SS aparecia imediatamente, gritando para parar de falar e continuar trabalhando.

Um dia, Magda ficou doente. Não conseguia ir para o trabalho. Fiquei preocupada o dia todo, o que aconteceria com ela? A mesma coisa aconteceu comigo também. Não havia um médico. Por sorte nossa, no dia seguinte conseguimos ir para o trabalho. As pessoas que ficavam afastadas do trabalho mais de duas vezes, nunca víamos de novo.

Eventualmente, à medida que os russos estavam avançando, este campo teve que ser eliminado. A marcha começou. Ainda era o inverno e estava muito frio. Marchamos o dia todo. Quando algumas pessoas estavam próximas do colapso e os próprios guardas estavam muito cansados, normalmente encontravam um local para nós onde podíamos passar a noite, normalmente em baias, como animais. Estávamos famintos. Lembro que, uma vez, quando marchávamos, reparei em algumas cascas de batatas congeladas na neve. Peguei algumas rapidamente e as comi.

Uma noite, depois de termos sido trancadas em uma baia, uns poucos de nós decidiram que deveríamos tentar escapar. Subimos ao sótão. Estava cheio de forragem. Nos enterramos na forragem. Na manhã, quando os guardas SS vieram nos levar, ficamos no sótão. Na primeira noite, alguém atirou algumas cenouras e foi isso que comemos. Mas na manhã seguinte, um grupo de rapazes, adolescentes fanfarrões, vieram até o sótão. Um a um, nos jogaram pela janela, gritando, “Juden, Juden!” [Judeu, Judeu!]. Caindo dois metros e meio, me concentrei em cair sobre meus pés. Todos ficamos doloridos e machucados. Em pouco tempo, um guarda SS veio e levou-nos de volta para o grupo, e mais uma vez a marcha continuou.

Uma noite, era bem tarde. Estávamos extremamente cansadas e minha prima sentia-se doente. Implorei-lhe para continuar a caminhar. Ela virou-se e disse: “Vera, continue você. Não posso caminhar mais” e caiu. Naquele momento, deitei-me ao lado dela, dizendo-lhe para fingir que estávamos mortas. O primeiro guarda gritou para que levantássemos, continuássemos a caminhar. Quando um segundo guarda veio e quis disparar contra nós, lhe disse, “estão mortas, não desperdice suas balas”.

Imóveis, ficamos ali até que não houvesse mais sons. Naquele momento, disse a Magda que tínhamos que continuar caminhando, ou congelaríamos até a morte. Lentamente rastejamos para fora da sarjeta. Com Magda se apoiando em mim, lentamente caminhamos. De repente percebemos uma luz. Logo percebemos que era uma casa. Neste ponto, não tínhamos escolha. Ninguém disse uma palavra para nós. Ficamos encolhidas embaixo de uma cama e caímos no sono ali. Na manhã, um homem nos cutucou com uma vassoura, gritando, “Juden heraus” (judeus, caiam fora). Rastejamos para fora. Após deixar a casa, jogou algumas migalhas de pão para nós. Parei para pegá-las e comemos tudo. Lembro de pensar que ainda havia alguma humanidade restante nele.

Continuamos a caminhar. Andamos por uma área mais povoada e de repente vimos um policial dirigindo o tráfego. Rapidamente fizemos uma volta e entramos em uma casa. Uma mulher veio a nós e perguntou se queríamos alguma comida. Naturalmente queríamos, estávamos famintas. Ela voltou com duas porções de presunto e purê de batata em pratos de porcelana, com talheres. Não sabíamos exatamente porque estavam sendo tão bons, mas logo outra mulher veio e nos disse que os russos tinham chegado na área e que, se os russos viessem até a casa, queriam que disséssemos que eram boas pessoas, que nos tinham protegido e dado comida. Agora entendíamos a situação em que estávamos. Ficamos felizes, pois finalmente ficaríamos livres.

Passados alguns minutos, soldados russos entraram na casa. O pai ou avô estava sentado com todas as suas condecorações militares em seu uniforme. Um soldado russo fuzilou-o imediatamente. Ficamos com medo. Não sabíamos o que aconteceria a nós. Uma das mulheres veio a mim, implorando para salvar a sua filha, dizendo que um soldado russo a tinha levado para um quarto e que a mataria. Pensando como nos tinham tratado bem, corri para o quarto. Ainda era muito ingênua, não percebia que estava estuprando-a. Comecei a explicar que essas pessoas nos tinham dado comida. Ia pegar sua arma. Minha prima correu para o quarto, me agarrou, deu um tapa na minha cara, e puxou-me para fora. Ela estava tremendo. Perguntou-me: “você não sabe a razão porque ele levou a garota para aquele quarto?” Naquele momento, eu não sabia. Estava tentando salvar uma vida, mas estava em estado de choque. Se não fosse por Magda, teria sido morta.

Também percebemos que corríamos perigo. A liberdade pela qual esperávamos não veio. Não havia lei e ordem. Estávamos sozinhas. Quando a noite veio, dormimos com nossas cabeças cobertas por um xale, para parecer menos atrativas. Mesmo assim, uma noite enquanto ambas dormíamos, um soldado me acordou. Com sua lanterna brilhando nos meus olhos, ordenou para ficar de pé e segui-lo. Eu estava aterrorizada. Gritei e chorei. Minha prima tentou explicar que tínhamos estado em um campo de concentração, que éramos judias. Ele disse que judeu era bom. Então Magda disse-lhe que eu era só uma criança. Neste momento ficou zangado e disse a Magda, “você não é uma criança”, e a forçou a ir com ele. Fiquei esperando atormentada, sem saber o que aconteceria com ela. Voltou logo e disse que não tinha conseguido estuprá-la, pois chorara e gritara muito. Ficou zangado e bateu nela com seu fuzil e deixou-a ir. O medo continuava todos os dias.

Continuávamos procurando por comida. Encontramos uma jovem garota e sua mãe de origem polonesa. Acharam algumas batatas, as cozinharam e insistiram em partilhá-las conosco. Também eram sobreviventes. Nunca pude esquecer delas. Uma vez nos escondemos em uma pilha de forragem para evitar alguns soldados. Devem ter reparado em nós e incendiaram a forragem, para forçar-nos a sair. Um oficial russo mais velho reparou na gente. Disse que parecia com sua filha. Ele mantinha uma camaradagem com uma mulher da mesma casa onde ficávamos. Tivemos sorte dele notar a situação em que estávamos.

Uma tarde encontramos uma jovem garota, também uma sobrevivente. Vinha de uma família muito religiosa. Disse-me como era grata por ter sobrevivido e que quando fosse para casa, esperava achar sua família. Bem, isso não aconteceu. Um soldado russo bêbado a estuprou durante a noite. Na manhã seguinte a garota estava morta, tinha sangrado até a morte. O soldado ainda estava ao lado dela, bêbado.

O oficial russo mais velho se tornou um bom amigo para nós. Algumas vezes trazia alguma comida. Lembro claramente do casaco de inverno bege e branco que me deu, também sapatos, mas, acima de tudo, lembro que provavelmente salvou nossas vidas. Cedo numa manhã, pessoas jovens foram reunidas. Magda e eu fomos escolhidas. Disseram para entrar em um caminhão do exército. Ambas tentamos explicar que não éramos o inimigo, que não éramos alemãs, que éramos sobreviventes judias, mas não fez diferença. Fomos forçadas a entrar no caminhão. Enquanto esperávamos no caminhão, reparamos que nosso amigo, o oficial russo, estava falando com os soldados, e logo depois vieram nos dizer para sair do caminhão. Não sabíamos como lhe agradecer o suficiente. Mas, este homem tinha um coração. Sabia de nosso sofrimento e só queria nos ajudar. Não esperava nada de nós. (...)

Semanas passaram, o clima estava ficando mais brando. Magda achou uma bicicleta. Decidimos procurar em dupla por comida nela. Conseguimos encontrar um pouco de comida e estávamos voltando quando em uma estrada de terra deserta quando ouvimos soldados russos nos chamando. Magda acelerou, pedalando o mais rápido que podia. Os soldados começaram a atirar. Se estavam só atirando para o ar ou se erraram o alvo, não sabíamos. O fato importante é que conseguimos fugir ilesas.

Várias semanas mais passaram, era a primavera. Estávamos imaginando como e quando seríamos capazes de voltar para a Hungria. Tinha medo, mas ainda esperava e rezava por algum milagre que fizesse ver minha família de novo. Em minha mente, não queria acreditar que o mundo permitiu o genocídio sem razão de nosso povo, somente por sermos membros da fé judia. Parecia ser criminoso, tão inacreditável mas, naturalmente, dado o que tinha visto e pelo que tinha passado, havia muitas razões para estar temerosa.

Em um dado momento em maio, nosso amigo, o oficial russo, veio ver-nos. Disse que a ferrovia para a Hungria tinha sido consertada. Disse o momento exato quando um trem estaria saindo. Aconselhou a tomá-lo e seguimos o seu conselho. Sabíamos que só queria o nosso bem. Queríamos muito voltar, apesar de que nunca mais pude chamar novamente a Hungria de lar. Amava o país; era bonito, mas ficava me lembrando da cooperação do governo húngaro com os alemães, e a vontade deles em fazer todas aquelas atrocidades horríveis contra nós.

Chegamos no trem. Foi difícil entrar no vagão de carga. Não havia plataforma; tínhamos que puxar-nos para dentro. Estava repleto de soldados russos, muitos deles bêbados. Com nossas cabeças cobertas – parcialmente cobríamos também nossos rostos – não olhávamos para nada, a não ser para o chão. A única cisa que vimos: soldados bêbados urinando no piso. Depois de várias horas, o trem parou em uma pequena cidade. Saltamos e nos transferimos para um trem de passageiros. Enquanto caminhávamos, procurando um assento, uma mulher cuspiu em frente a nós e disse o seguinte: “esses judeus sujos estão voltando”. Naquele momento fiquei muito feliz por termos sobrevivido e que os anti-semitas sentiam a derrota. (...)

Agora é outubro de 1999. Estamos nos preparando para passar os duros meses de inverno na Florida. Estou terminando minhas memórias. Foram muito difíceis de escrever. Estou cansada mental e fisicamente. É impossível aceitar esta indescritível tragédia que a humanidade deixou acontecer. A despeito de todo nosso sofrimento, sou grata às garotas Freed de Vár utza, Kisvárda. Elas me levantaram e me encorajaram a continuar a caminhar de Birkenau para Auschwitz. Elas tiveram suas grandes perdas, mas ainda assim se preocupavam com outro ser humano.

Na medida em que entramos em um novo milênio, desejo saúde, paz e prosperidade; liberdade para todas as religiões; igualdade para todos.

 
Fonte: Montreal Institute for Genocide and Human Rights Studies - Holocaust Survivors Memoirs
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