quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A marcha sobre o Reno - a tomada de Estrasburg

O General Paul de Langlade na torre de um blindado de seu GT.

De Langlade, comandante de um dos quatro grupamentos táticos da 2ª Divisão Blindada, conta a tomada de Estrasburgo, na Alsácia :

No dia 15 de dezembro de 1944, para acompanhar do mais perto possível os lentos progressos da sua divisão, o general norte-americano, junto ao qual estou destacado, transferiu seu quartel general para Migneville. A artilharia alemã, ainda ativa, disparava sobre a localidade. Para instalar meu posto de comando, encontrei apenas a estação de muda de Migneville, sobre uma via férrea secundária, desde há muito inutilizada. Era um cubículo abominável, com o teto esburacado, mas com uma cave profunda, cuja vantagem principal residia em ter uma temperatura relativamente suportável, pois o termômetro descera para -10º.
O dia vai passando. Resolvo libertar Morel-Deville, apesar da lentidão com que progride a 79ª Divisão. Os spahis partem imediatamente e, penetrando em Nonhigny e Montreux, efetuam atrevidos reconhecimentos de um e outro lado da estrada de Cirey, que encontram ocupada e defendida na altura de Petit-Mont. No entanto, esse avanço de Morel-Deville, a nordeste, protege a 79ª Divisão pelo flanco direito e facilita seu avanço. Dou conta da situação ao General Leclerc... Fazem-se progressos! A 44ª Divisão de Infantaria avança na direção de Réchicourt ao norte da estrada nº 4. Não obstante, a 79ª Divisão de Infantaria é retida por uma violenta reação da artilharia inimiga. Os canhões troam toda a noite.
A 16 de novembro, o dispositivo das defesas alemãs é perfurado, pela primeira vez, profundamente.
A 18, a linha defensiva diante dos Vosgues rompeu-se completamente na frente francesa. A única estrada por onde poderiam chegar reforços alemães, a que une Badonviller com a estrada de Donon, foi interceptada com a tomada de Badonviller. Os alemães vêem-se obrigados à retirada para evitar a catástrofe. Durante o dia 18 a aviação esteve muito ativa e pela primeira vez desde há muito tempo, viu-se aparecer quatro Messerschmitt, um dos quais foi derrubado.
A 19 de novembro, a única ordem que recebo do General Leclerc, à minha passagem por Cirey é a seguinte:
"Prossiga o mais rapidamente possível!"

No dia seguinte, Niderhoff é ocupada às 8h 15min e Minjonnet avançava sobre Voyer, onde uma forte resistência o detém. A dificuldade de vencer este obstáculo explica-se pelo fato de que Voyer, ponto fortificado da segunda linha de defesa alemã, é uma povoação rodeada de colinas a que se chega por um estreito vale e por um bosque impenetrável.
É preciso, portanto, sair do bosque e manobrar sob violento e certeiro fogo inimigo. A situação foi crítica durante longas horas; mas Minjonnet é um lutador que sabe encaixar os golpes admiravelmente. Seu grupo tem total confiança nele. Combatendo todo o dia, com intensidade cada vez maior, consegui por fim apoderar-se da povoação, cheia de mortos e feridos.

As tropas de Langlade progridem próximas a Voyer, em meio a neve

Este combate, um dos mais duros da Batalha de Estrasburgo, permitiu ao grupo de Massu lançar-se sobre Dabo. Enquanto o grupo Minjonnet se bate em Voyer, Massu realiza, pelo seu lado, uma manobra magnífica. Visto que não podia vencer aquela barreira sólida e colossalmente fortificada, resolveu deixar inativos seus carros de combate e lançou todo o seu batalhão a pé pelo bosque, com a missão de contornar obstáculo pelos cumes, passar o Sarre Branco e ocupar a posição pela retaguarda. Apesar da resistência dos caçadores alemães, sua intrépida e inteligente manobra alcançou pleno êxito. O Sarre Branco foi tomado pela retaguarda, com a ponte intacta. Os alemães que conseguiram escapar fugiram em todas as direções. Ultrapassada esta barreira, o Grupo Massu atira-se para frente como um cavalo a galope - e chega, à noite, à encruzilhada de Réthel, na ramificação da estrada de Dabo.
A brecha está aberta e bem aberta. O caminho de Massu fica coberto de cadáveres de homens e cavalos, de canhões derrubados e viaturas destruídas.
E foi assim que, durante toda a noite do dia 20 para 21 e todo o dia 21, uma torrente de carros de combate e infantaria motorizada, seguida de dois grupos de artilharia sobre tratores, rodou através da montanha, inundando ao entardecer, como um maremoto, a planície da Alsácia.
O inimigo, completamente desorganizado e em plena derrota, retira-se para Donon ou o Saverne, lançando-se na direção de Phalsbourg, ao norte da estrada nº 4.
Ao entardecer de 22 de novembro, tomamos Saverne; a brecha de Saverne, bloqueada em Phalsbourg por um inimigo solidamente instalado, já está em nossas mãos; a ligação entre os elementos norte-americanos (44ª Divisão) e o Grupamento Tático Dio fica praticamente estabelecida.
A manhã de 23 começa com uma verdadeira carga que ultrapassa todas as previsões. Infelizmente, para três das quatro colunas, as coisas vão em breve mudar.


Coluna de abastecimento da 2ª DB avança pelos Vosgues
Às 9h 30min, Massu comunica-me a sua posição a cinco quilômetros de Estrasburgo. Deteve-o uma vigorosa resistência, a um quilômetro a oeste de Mittelhausbergen. Encontra-se ante uma série de velhas fortificações solidamente defendidas, fechando-lhe o caminho. São os fortes Pétain, ao sul e Foch, ao norte.
Também as colunas do Coronel De Guillebon são detidas pela linha dos fortes, entre os quais se destaca especialmente o forte Kléber. Deste modo, os elementos da 2ª Divisão Blindada estão bloqueados.
Àquela hora ainda não tínhamos recebido informações do destacamento do Coronel Rouvillois. Evidentemente continua a avançar.
Fracassa uma primeira operação tentada por Massu que pretendia contornar a posição, pois os carros de combate atolam e os seus canhões não são utilizáveis, ante a impossibilidade de os colocarem em bateria. É preciso forçar com granadas ou tomar a baioneta este último baluarte, defendido por atiradores escolhidos que causam graves perdas ao Grupo Massu. Será que vamos ficar parados e obrigados a manter uma operação lenta e sangrenta?
Nesse instante, quer dizer, às 10h 10min, chega a mensagem triunfal de Rouvillois, que se tornou célebre na divisão: "O tecido está no iodo", que em linguagem clara significa: "Rouvillois está em Estrasburgo".
Imediatamente o coronel que comanda o grupamento tático L dá ordem a Massu para se lançar no rastro de Rouvillois e voar até Estrasburgo.
Às 10h 30min recebemos nova mensagem de Rouvillois, ainda mais saborosa do que a primeira. Diz assim:

"Deixei reservas na Kommandantur e lanço-me contra a ponte de Kehl".

Às 2h 30min todo o Grupamento Tático L está em Estrasburgo. Quando a cúpula da catedral apareceu ante os olhos maravilhados dos soldados, um entusiasmo inaudito invadiu as nossas almas: o mesmo devem ter sentido os cruzados à vista de Jerusalém.
A universidade, o palácio dos Correios e a ponte da Bolsa são ocupados. O posto de comando funciona em La Maison Rouge. Todos os quartéis estão cheios de boches que resistem firmemente e cobnvertem os principais centros de comunicações da cidade em verdadeiros infernos, batidos por armas de todos os calibres.
O oficial de estado-maior do Grupamento Tático L, o Tenente Bissirier, a quem servia de guia um FFI de Estrasburgo, não regressou. No dia seguinte pela manhã, vimos seu carro de combate crestado pelo fogo e o seu cadáver, no extremo da Avenida dos Vosges. Por um comovedor capricho do destino, este magnífico oficial, de religião protestante, foi enterrado em Kronenbourg, à direita de um túmulo que em nada se distinguia dos restantes. O comandante do Grupamento Tático L, que, com o coração opresso, se inclinou sobre a cruz de madeira e leu com espanto:

"Aqui repousa Kléber, General Francês"

À esquerda e do mesmo lado da sepultura de Kléber, tinham acabado de fechar outro túmulo: o do Rev. Pe. Houchney, dos Padres do Espírito Santo, capelão-mor da 2ª Divisão Blindada, caído a 22 de novembro, na vanguarda mais avançada, quando dava assistência a um moribundo. Deste modo, a um século de distância, outros dois africanos, vindos também dos desertos do Egito, montavam guarda junto ao grande soldado, na terra santa da Alsácia.


Um obús M8 do 3° RMSM (maroquino) durante a liberação de Estrasburgo. Novembro de 1944.

O coronel do Grupamento Tático L reuniu os comandantes dos grupos e, de acordo com eles, dividiu a cidade em setores, determinando as responsabilidades de cada um. Depois, estabeleceu contato com Rouvillois que continuava a lutar furiosamente na margem do Reno; regressa a Estrasburgo e corre a Kommandantur; sobe a escada monumental e chega ao gabinete de Leclerc que o recebe de pé, no imenso aposento, em cujo solo jaz, feito em pedaços, um retrato de Hitler.
O general e o coronel apertam as mãos. É um minuto prodigioso o que decorre entre este homem, chegado do Chade pelo deserto, pela Tripolitânia e pela Inglaterra, e um de seus lugar-tenentes, procedente do Senegal. Desde as 6h da tarde, uma enorme bandeira tricolor flutua no alto da catedral.
Foram extraordinários aqueles dias, assinalados pela captura de milhares de soldados alemães que desfilavam enquanto o General Leclerc passava em revista as tropas na Praça Kléber e, ante o silêncio de uma multidão dominada pela comoção, declarava cumprido o juramento, prestado em Kufra, de libertar Estrasburgo.

A bandeira francesa tremula em Belfort, libertada em 20/11/44
Poder-se-iam relatar milhares de pormenores pitorescos. Como, por exemplo, o caso do Tenente Braun, estrasburguês, do serviço de informações do meu estado-maior, o qual, a partir de 22 novembro, com o seu perfeito conhecimento do alemão e da ordem de batalha do inimigo, semeou cientificamente a mais terrível confusão, telefonando sossegadamente para os diversos estados-maiores alemães e dando-lhes as mais espantosas notícias que foram acolhidas com a maior gratidão! Graças a esse fato, vimos um batalhão alemão, composto de cerca de 400 homens, abandonar seu posto de combate, atirando fora suas armas e, em passo de ganso com seu oficial à frente, apresentar-se ao chefe do Grupamento Tático L!
Ou como o caso do Capitão Briot, que, ao entrar em Estrasburgo à testa dos elementos de Rouvillois, disparava sobre os oficiais alemães que desciam dos bondes bruscamente parados e passavam sem a menor transição do assombro para a morte.
Haveria de citar também a prodigiosa atividade do General Leclerc, infundindo um entusiasmo crescente às unidades já fanatizadas. Encontrava-se em todos os lados ao mesmo tempo e sempre no momento oportuno.
Recordemos, por exemplo, o seguinte fato, ocorrido em 22 de novembro, pela manhã. Um oficial de ligação, o Tenente Cristol, que durante 30 horas não deixou seu jipe, noite e dia, chega a um cruzamento onde se encontra o general. Conduz ele próprio sua viatura, desobedecendo às ordens, pois Leclerc determinara que as viaturas fossem guiadas pelos motoristas. Trava-se entre eles esse diálogo:

- Ah! Você por aqui! E, antes do mais, por que razão é você mesmo quem dirige?
- Meu general, veja o meu motorista - respondeu Cristol - está estourado... Dormindo.

Efetivamente, ao lado do tenente, o chofer, morto de cansaço, dorme pesadamente. O general olha para ele, bate no chão com seu famoso bastão, e depois, voltando-se para seu ajudante-de-ordens, o Tenente Girard, exclama levantando os braços ao céu e apontando o dorminhoco:

- Girard! Conquistamos Estrasburgo e este sujeito dorme!



Leclerc passa em revista as tropas vitoriosas em Estrasburgo

Baixas alemãs no front oriental


1941
Junho 25.000
Julho 63.099
Agosto 46.066
Setembro 51.033
Outubro 41.099
Novembro 36.000
Dezembro 40.198

Total: 302.495 (11,0%)


1942
Janeiro 48.165
Fevereiro 44.099
Março 44.132
Abril 23.066
Maio 38.099
Junho 29.033
Julho 38.066
Agosto 62.165
Setembro 45.033
Outubro 25.000
Novembro 31.198
Dezembro 78.759

Total: 506.815 (18,4%)


1943
Janeiro 180.310
Fevereiro 68.330
Março 46.066
Abril 16.000
Maio 19.066
 Junho 13.066
Julho 71.231
Agosto 59.198
Setembro 57.429
Outubro 53.264
Novembro 67.363
Dezembro 49.330

Total: 700.653 (25,6%)


1944
Janeiro 70.330
Fevereiro 64.429
Março 93.660
Abril 73.264
Maio 48.363
Junho 142.079
Julho 169.881
Agosto 277.465
Setembro 70.561
Outubro 92.528
Novembro 45.363
Dezembro 85.253

Total: 1.232.946 (45,0%)

Total de baixas no Leste Europeu: 2.742.909

Link do Feldgrau, que mostra melhor os numeros:
http://www.feldgrau.com/stats.html



quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O campeão dos verdugos(carrascos)

O homem da foto abaixo chamava-se Vasili Mikhailovich Blokhin e tem a terrível e truculenta honra de ser o carrasco mais eficiente da história, ao menos no que se refere a quantidade de pessoas executadas por ele próprio. Suas execuções podem chegar a dezenas de milhares e sua (triste) maior marca está estabelecida em 7 mil pessoas em 28 noites.


Ainda que as primeiras mostras de suas habilidades começaram a aparecer durante o Expurgo Stalinista, foi durante a invasão soviética da Polônia em 1940 que este carniceiro passou a dar o melhor de si mesmo.
Sob o amparo da Ordem Nº00485, emitida pela temida NKVD (Comissariado popular de assuntos internos,) e que dava luz verde à execução de oficiais poloneses, Vasili montou seu açougue particular em um campo de prisioneiros de guerra.

Ordem Nº00485 assinada por Stalin, Voroshilov, Molotov e Mikoyan. Esta ordem foi o estopim do Massacre de Katyn

Primeiro fazia os prisioneiros passarem, um a um, em uma habitação pintada de vermelho conhecida como a Casa Stalinista. Ali realizava uma identificação superficial do prisioneiro e seguidamente fazia-o ir a uma habitação contígua que tinha as paredes acolchoadas e o piso inclinado para um sumidouro para sua melhor limpeza.

Soldados poloneses conduzidos ao campo de concentração.

Ali Vasili esperava, vestido com um avental de couro -igual ao utilizado pelos açougueiros- e luvas que cobriam até os ombros para proteger seu uniforme contra o salpique de sangue. Sem nenhum preâmbulo, colocava o prisioneiro contra a parede e desfechava um único disparo na cabeça. Vasili tinha um maleta com diversas pistolas, todas alemãs da marca Walther . Dizia que as soviéticas não aguentavam o seu ritmo e que as alemãs eram mais fiáveis e resistentes.
Depois o cadáver era retirado e entrava o seguinte. Com este sistema a intenção de Vasili era conseguir 300 executados por noite, em 10 horas de trabalho, mas ficou muito chateado por não conseguir a produção de 250 por noite, isto é, uma pavorosa média de um morto a cada dois minutos aproximadamente.
A cada noite eram necessários dois caminhões para transportar os corpos e tinham que cavar mais de vinte trincheiras em um bosque próximo para enterrá-los.

Stalin concedeu-lhe a Ordem da bandeira vermelha por "...sua habilidade e organização no cumprimento das tarefas especiais encomendadas..."(sic).
Após a morte de Stalin e apesar de sua baixa com honras por seus "irretocáveis serviços", a Vasili sendo esquecido e encurralado assim como o período escuro do stalinismo. Morreu só, alcoólatra e por motivos não muito claros.

A retirada de Dunquerque

As memórias do primeiro-ministro Winston S. Churchill sobre a Operação Dínamo, que salvou 338 mil homens do cativeiro em 1940 :


Escreveram-se relatos bastante precisos e excelentes sobre a evacuação dos Exércitos britânicos e franceses de Dunquerque. Desde o dia 20, a concentração de navios e pequenas embarcações vinha prosseguindo sob o controle do Almirante Ramsay, que estava no comando em Dover. No entardecer do dia 26, um sinal do Almirantado pôs a Operação Dínamo em funcionamento. As primeiras tropas foram trazidas para casa naquela noite. Depois da perda de Boulogne e Calais, apenas o que estava do porto de Dunquerque e as praias próximas da fronteira belga estavam em nosso poder. Nesse momento, achava-se que em dois dias conseguiríamos resgatar no máximo cerca de 45 mil homens. Logo no começo da manhã seguinte, 27 de maio, tomaram-se as providências de emergência para encontrar pequenas embarcações adicionais "para uma necessidade especial". Tratava-se de nada mais nada menos do que a retirada completa da Força Expedicionária Britânica. Estava claro que um grande número dessas embarcações seria necessário para o trabalho nas praias, além de navios maiores que pudessem carregar no porto de Dunquerque. Por sugestão do sr. H. C. Riggs, do Ministério da Navegação, as várias marinas, de Teddington e Brightlingsea, foram vasculhadas por oficiais do Almirantado e produziram mais de quarenta barcos a motor ou lanchas aproveitáveis, que foram reunidas em Sheerness no dia seguinte. Ao mesmo tempo, reunimos botes salva-vidas dos cargueiros de linha das docas de Londres, rebocadores do Tâmisa, iates, barcos pesqueiros, chatas, barcaças e barcos de passeio - tudo o que pudesse ser útil ao longo das praias foi requisitado. Na noite de 27 de maio, uma grande profusão de embarcações de pequeno porte começou a deslizar em direção ao mar, primeiro para nossos portos da Mancha e dali para as praias de Dunquerque e o amado Exército.
Uma vez relaxada a necessidade de sigilo, o Almirantado não hesitou em dar livre curso ao movimento espontâneo que se espalhou pela população navegante de nosso litoral sul e sudeste. Todos os que tinham qualquer tipo de embarcação, a vapor ou vela, zarparam para Dunquerque, e os preparativos felizmente iniciados uma semana antes foram então auxiliados pela brilhante improvisação dos voluntários, numa escala surpreendente. O número que chegou no dia 29 foi pequeno, mas foi o precursor de quase quatrocentas embarcações de pequeno porte que a partir do dia 31 estariam fadadas a desempenhar um papel vital em transportar das praias para os navios ancorados ao largo quase 100 mil homens. Nesses dias, senti falta do chefe de minha sala dos mapas no Almirantado, o Capitão Pim, e de mais um ou dois rostos familiares. Eles haviam conseguido um schuit holandês, que em quatro dias retirou 800 soldados. Ao todo, foram em socorro do Exército, sob incessante bombardeio aéreo, cerca de 860 embarcações, das quais quase 700 eram inglesas e as demais, aliadas.

Enquanto isso, em terra, nas imediações de Dunquerque, a ocupação do perímetro era efetuada com precisão. As tropas chegavam do caos e eram ordeiramente dispostas ao longo das defesas que, mesmo em dois dias, já haviam crescido. Os homens que estavam em melhores condições faziam meia-volta para formar a linha. Divisões como a 2ª e a 5ª, que haviam sofrido mais, eram mantidas de reserva nas praias e embarcadas tão logo possível. A princípio, tinha que haver três unidades no front, mas, no dia 29, com os franceses tendo uma participação maior na linha de defesa, bastaram duas. O inimigo havia seguido de perto a retirada, e os combates violentos eram incessantes, especialmente nos flancos próximos de Nieuport e Bergues. À medida que prosseguia a evacuação, a redução sistemática no número de tropas, tanto inglesas quanto francesas, era acompanhada por uma retração correspondente da defesa. Nas praias, entre as dunas de areia, durante três, quatro ou cinco dias, dezenas de milhares de soldados ficaram sob ataque aéreo implacável. A crença de Hitler - de que a Força Aérea Alemã impossibilitaria a fuga impossível e, portanto, ele devia reservar suas formações blindadas para o ataque final da campanha - constituira um erro, mas não tinha sido absurda.
Três fatores desmentiram suas expectativas. Primeiro, o incessante bombardeio aéreo causou poucos danos às massas de tropas ao longo da costa. As bombas afundavam na areia macia, que abafava suas explosões. Nos estágios iniciais, depois de um bombardeio devastador, os soldados ficavam atônitos ao constatar que praticamente ninguém fora ferido ou morto. Tinha havido explosões por toda a parte, mas quase ninguém fora atingido. Um litoral rochoso teria produzido resultados muito mais mortíferos. Em pouco tempo, os soldados encaravam os ataques aéreos com desdém. Agachavam-se nas dunas de areia com compostura e crescente esperança. Diante deles estava o mar escuro, mas não inamistoso. Mais além, os navios de resgate - e a pátria.
O segundo fator que Hitler não previu foi a matança de seus aviadores. A qualidade aérea britânica e alemã foi diretamente testada. Através de um esforço intenso, o Comando de Caças manteve um patrulhamento sucessivo acima do cenário e combateu o inimigo com grande vantagem. Hora após hora, eles investiam contra as esquadrilhas alemãs de caças em bombardeiros, dispersando-as e afugentando-as com um número pesado de baixas. Dia após dia isso continuou, até ser conquistada a gloriosa vitória da Real Força Aérea. Onde quer que se deparasse com aeronaves alemãs, às vezes em grupos de quarenta ou cinqüenta, elas eram instantaneamente atacadas, muitas vezes por esquadrilhas solitárias ou até menos, e derrubadas às dezenas, que em pouco tempo começaram a somar centenas. Toda a Força Aérea metropolitana, nossa última e sagrada reserva, foi utilizada. Houve casos em que pilotos de caças fizeram quatro investidas por dia. O resultado obtido foi claro. O inimigo superior foi derrotado ou morto e, apesar de toda a sua bravura, subjugado e até mesmo intimidado. Foi um embate decisivo. Infelizmente, as tropas nas praias viram muito pouco desse conflito épico no ar, muitas vezes a milhas de distância ou acima das nuvens. Elas não tinham nenhum conhecimento das perdas impostas ao inimigo. Tudo o que sentiam eram as bombas flagelando as praias, lançadas pelo inimigo que havia conseguido passar, mas que talvez não voltasse. Houve até intensa raiva no Exército contra a Força Aérea, e alguns dos soldados, ao desembarcarem no porto de Dover ou do Tâmisa, em sua ignorância, insultaram os homens de uniforme da Aeronáutica. Deveriam ter-lhes apertado as mãos, mas como poderiam saber? No Parlamento, empenhei-me em difundir a verdade.
Mas toda a ajuda da areia e todas as proezas aéreas teriam sido inúteis sem o mar. As instruções dadas dez ou doze dias antes, sob a pressão e a emoção dos acontecimentos, haviam frutificado de maneira surpreendente. Uma perfeita disciplina prevaleceu em terra e a bordo. O mar estava calmo. De um lado para o outro, entre a praia e os navios, os barquinhos trabalhavam com afinco, apanhando homens nas praias quando eles caminhavam para o mar ou recolhendo-os da água, com total indiferença pelo bombardeio aéreo, que volta e meia fazia suas vítimas. O simples número das embarcações desafiava os ataques aéreos. Era impossível afundar a Armada dos Mosquitos. Em meio à nossa derrota, a glória refulgiu para a gente da ilha, unida e inconquistável; e a história das praias de Dunquerque há de brilhar em qualquer registro que se preserve de nossas aventuras.
Não obstante o corajoso trabalho das pequenas embarcações, não se deve esquecer que o fardo mais pesado coube aos navios que zarpavam do porto de Dunquerque, onde 2/3 dos homens foram embarcados. Os contratorpedeiros desempenharam o papel principal, como mostra a relação de baixas. Tampouco se deve esquecer o grande papel desempenhado pelos navios de transporte de tropas, com suas tripulações da Marinha mercante.
O processo de evacuação foi observado com olhos ansiosos e com esperança crescente. Na noite de 27 de maio, a situação de Lord Gort pareceu crítica às autoridades navais, e o Capitão Tennant, um oficial da Marinha Real lotado no Almirantado, que assumira as funções de oficial naval superior em Dunquerque, enviou sinais para que todas as embarcações disponíveis fossem enviadas às praias imediatamente, "pois a retirada amanhã à noite será problemática". O quadro apresentado foi sombrio, até desesperador. Fizeram-se esforços extremos para atender ao pedido. Um cruzador, oito contratorpedeiros e outros 26 navios foram enviados. O dia 28 foi de tensão, mas ela amainou aos poucos, à medida que a situação em terra foi estabilizada, com a poderosa ajuda da Real Força Aérea. Os planos navais foram executados, apesar de graves perdas no dia 29, quando três contratorpedeiros e 21 outros navios foram afundados, além de muitos outros danificados.
No dia 30, fiz uma reunião com os três ministros militares e com os chefes do Estado-Maior na sala de guerra do Almirantado. Examinamos os acontecimentos do dia na costa belga. O número total de tropas retiradas havia-se elevado para 120 mil homens, incluindo apenas 6 mil franceses; 860 embarcações de todos os tipos estavam em ação. Uma mensagem do Almirante Wake-Walker, em Dunquerque, dizia que apesar do intenso bombardeio e dos ataques aéreos, 4 mil homens tinham sido embarcados nos sessenta minutos anteriores. Ele também considerava que a própria Dunquerque seria provavelmente insustentável no dia seguinte. Enfatizei a necessidade urgente de retirar mais soldados franceses. Deixar de fazê-lo poderia causar danos irreparáveis às relações entre nós e nossos aliados. Também afirmei que, quando a força britânica estivesse reduzida a uma unidade, deveríamos dizer a Lord Gort que embarcasse e voltasse para a Inglaterra, deixando no comando um chefe de unidade. O Exército britânico teria que agüentar o máximo de tempo possível para que a retirada dos franceses pudesse prosseguir.
Conhecendo bem o caráter de Lord Gort, redigi de próprio punho a seguinte ordem destinada a ele, que foi oficialmente enviada pelo Ministério da Guerra às 14:00h do dia 30:
Continue a defender com todo o empenho o perímetro atual, a fim de cobrir a máxima retirada, que agora corre bem. Informe a cada três horas, através de La Panne. Se ainda pudermos comunicar-nos, vamos mandar-lhe uma ordem de retornar à Inglaterra com os oficiais de sua escolha, no momento em que julgarmos seu comando suficientemente reduzido para que possa ser passado a um comandante de unidade. Você deve nomear esse comandante agora. Se as comunicações forem rompidas, você deverá passar o comando e retornar como especificado, quando sua força efetiva de combate não ultrapassar o equivalente a três divisões. Isso está de acordo com o procedimento militar correto e não lhe é deixada nenhuma opção pessoal nesta questão. Politicamente, seria uma vitória desnecessária para o inimigo que ele o capturasse quando apenas uma pequena força continuasse sob suas ordens. O comandante de unidade definido por você deverá receber ordens de dar prosseguimento à defesa, em conjunto com os franceses, e à retirada de Dunquerque ou das praias, mas quando, a seu juízo, já não for possível uma retirada organizada e nenhum outro dano proporcional puder ser infringido ao inimigo, ele está autorizado, em consulta com o oficial francês no comando, a capitular formalmente, para evitar uma matança desnecessária.
É possível que essa mensagem final tenha influenciado outros grandes acontecimentos e a sorte de outro bravo comandante. Quando estive na Casa Branca no fim de dezembro de 1941, fui informado pelo presidente e pelo sr. Stimson do infortúnio que se acercava do General MacArthur e da guarnição norte-americana em Corregidor. Julguei apropriado mostrar-lhes de que maneira havíamos lidado com a situação de um comandante-em-chefe cuja força havia sido reduzida a uma pequena fração do seu comando original. O presidente e o sr. Stimson leram o telegrama com profunda atenção e fiquei surpreso com a impressão que ele pareceu causar-lhes. Pouco mais tarde, nesse dia, o sr. Stimson voltou e pediu uma cópia do texto, que lhe forneci imediatamente. É possível (pois não sei dizer) que isso os tenha influenciado na decisão acertada que tomaram, ao ordenarem que o General MacArthur passasse o comando a um de seus generais subordinados, assim salvando, para todos os seus futuros serviços gloriosos, o grande comandante que, de outro modo, teria perecido ou passado a guerra como prisioneiro dos japoneses. Agrada-me pensar que isso ocorreu.
Nesse mesmo 30 de maio de 1940, os membros da equipe de comando de Lord Gort, reunidos com o Almirante Ramsay, em Dover, informaram-no de que o alvorecer de 1º de junho seria o último momento até o qual se poderia esperar que o perímetro oriental resistisse. Assim, a evacuação foi instada com a máxima urgência, para assegurar, tanto quanto possível, que uma retaguarda de não mais de cerca de 4 mil homens permanecesse em terra. Verificou-se depois que esse número seria insuficiente para defender as últimas posições de cobertura e se decidiu manter o setor britânico até a meia-noite de 1-2 de junho, prosseguindo a retirada, nesse meio tempo, em bases de plena igualdade entre as forças francesas e inglesas.
Era essa a situação quando, na noite de 31 de maio, seguindo suas ordens, Lord Gort passou o comando ao general-de-divisão Alexander e retornou à Inglaterra.
Os dias 31 de maio e 1º de junho assistiram ao clímax, mas não ao fim de Dunquerque. Nesses dois dias, mais de 132 mil homens foram desembarcados em segurança na Inglaterra, tendo quase 1/3 deles sido trazidos das praias em pequenas embarcações, sob furioso ataque aéreo e fogo de artilharia. Desde o amanhecer do dia 1º de junho, os bombardeiros inimigos fizeram seus maiores esforços, muitas vezes programados para os momentos em que nossos caças haviam-se retirado para abastecer. Esses ataques cobraram um tributo pesado das embarcações repletas, que sofreram quase tanto quanto em toda a semana anterior. Nesse único dia, nossas perdas por ataques aéreos, minas, embarcações costeiras ou outros infortúnios foram de 31 navios afundados e onze danificados. Em terra, o inimigo aumentou a pressão na cabeça-de-ponte, fazendo tudo para rompê-la. Foi detido pela resistência desesperada da retaguarda aliada.
A fase final foi executada com muita habilidade e precisão. Pela primeira vez tornou-se possível planejar com antecedência em vez de sermos forçados a depender de improvisações a cada hora. No amanhecer de 2 de junho, cerca de 4 mil ingleses, com sete canhões antiaéreos e doze canhões antitanque, permaneceram nas imediações de Dunquerque, com forças francesas ainda consideráveis defendendo o perímetro, cada vez mais contraído. A retirada, a essa altura, só era possível na escuridão, e o Almirante Ramsay determinou a descida em massa para o porto naquela noite, com todos os recursos disponíveis. Além de rebocadores e barcos de pequeno porte, 44 navios foram enviados da Inglaterra naquela noite, inclusive onze contratorpedeiros e quatorze caça-minas. Quarenta navios franceses e belgas também participaram. Antes da meia-noite, a retaguarda inglesa foi embarcada.
Mas esse não foi o fim da história de Dunquerque. Havíamo-nos preparado para transportar um número consideravelmente maior de franceses naquela noite do que os se apresentaram. O resultado foi que, quando nossos navios, muitos deles ainda vazios, tiveram que recuar ao amanhecer, grande número de soldados franceses, muitos ainda em combate com o inimigo, continuou em terra. Era preciso fazer mais um esforço. Apesar do esgotamento das tripulações dos navios, depois de tantos dias sem descanso ou alívio, o apelo foi atendido. Em 4 de junho, 26.175 franceses foram desembarcados na Inglaterra, mais de 21 mil deles trazidos por navios ingleses. Infelizmente, vários milhares ficaram para trás, continuando a lutar na cabeça-de-ponte, que se contraía, até a manhã do dia 4, quando o inimigo chegou aos arredores da cidade. Eles haviam esgotado as suas forças. Tinham lutado valentemente, durante muitos dias, para cobrir a retirada de seus companheiros ingleses e franceses. Passariam os anos subseqüentes no cativeiro. Lembremo-nos de que, não fosse a existência da retaguarda de Dunquerque, a recriação do Exército da Grã-Bretanha para a defesa interna e a vitória final teria sido grandemente prejudicada.
Finalmente, às 14:23h de 4 de junho, o Almirantado, em concordância com os franceses, anunciou que a Operação Dínamo estava concluída. Mais de 338 mil soldados ingleses e aliados tinham sido desembarcados na Inglaterra.
Fonte: http://www.grandesguerras.com.br/

Cartas da operação Torch

As cartas abertas do General Patton sobre seu desembarque no Marrocos, a ocupação de Casablanca e seu encontro com o sultão :

29 de outubro de 1942: O portador desta é o Capitão-de-Mar-e-Guerra Gordon Hutchins, do Augusta. Quando ele chegar aí, tudo o que aconteceu já terá sido noticiado pelos jornais. Saímos de Norfolk às 8h10min do dia 24; a largada foi notável pela impecável eficiência da organização. Navegamos em coluna através do campo de minas, utilizando um canal varrido e sinalizado. Adotamos uma formação com cinco colunas, com o Augusta na frente.

2 de novembro: A comida é a melhor possível. Acho que vou engordar. Todas as manhãs faço ginástica, inclusive flexões do tronco e corrida no mesmo lugar - 480 passadas (400 metros) dentro do meu camarote. Durante os exercícios matinais de combate vestimos os coletes salva-vidas e colocamos o capacete de aço; não preciso apressar-me porque meu posto de combate é no meu próprio camarote. Depois, vou até a ponte de comando esperar a hora do café da manhã. Acabei de ler o Alcorão - um livro interessante e bom.
Dei aos subordinados uma diretriz de guerra simplificada. Empregar a estratégia do rolo compressor, isto é, decidir a forma e a direção do ataque e ater-se à decisão tomada. Na parte tática, não empregar o rolo compressor. Atacar os pontos vulneráveis. Segurar o inimigo pelo pescoço e chutar-lhe o traseiro.

6 de novembro: Entrarei em combate dentro de 40 horas, dispondo de poucas informações e tendo que tomar decisões importantes ao sabor dos acontecimentos. Acho que a responsabilidade aumenta a capacidade de cada um; com a ajuda de Deus tomarei as decisões que me competem e decidirei corretamente. Sinto-me como se minha vida inteira estivesse orientada para este momento. Depois de cumprir esta missão, acho que avançarei para o degrau seguinte da escada do destino. Se cumprir com todas as minhas obrigações, os outros tratarão de fazer o mesmo.

8 de novembro: Na noite passada deitei-me uniformizado e dormi a partir das 22h30min. Não foi fácil adormecer. Subi para o convés às 2 horas e vi acesas as luzes de Fedala e Casablanca; também vi luzes na praia. O mar está calmo - nenhum balanço. Deus está conosco (N.E: durante o planejamento da operação Torch, chegou-se à conclusão, com base no conhecimento das condições locais, que, dos 365 dias do ano, só existiam 12 dias que permitiriam a realização do desembarque).
Estamos metidos em um combate naval desde as 8 horas; parece que vai ser um grande dia. Por volta das 7h15min seis contratorpedeiros inimigos saíram de Casablanca; dois atiravam. Todos os nossos navios abriram fogo e o inimigo recuou. Durante 30 minutos, o Massachusetts bombardeou o Jean Bart. Eu ia para a praia às 8 horas; minha embarcação estava suspensa nos turcos com todas as nossas coisas dentro, inclusive minhas pistolas com cabo de madrepérola. Mandei um ordenança apanhá-las; naquele exato momento, um cruzador ligeiro e dois contratorpedeiros saíram de Casablanca, navegando junto ao litoral, com a finalidade de tentar atingir os nossos navios de transporte. O Augusta aumentou a velocidade para 20 nós e abriu fogo. O primeiro disparo da torre fez a nossa embarcação virar; perdemos tudo exceto as minhas pistolas. Por volta das 8h20min os bombardeiros inimigos atacaram os navios de transporte e o Augusta correu para protegê-los. Depois, voltamos ao combate contra os navios franceses e a luta durou cerca de três horas. Achava-me no convés principal quando uma granada inimiga caiu tão perto que a coluna de água levantada molhou-me todo. Mais tarde, já na ponte de comando, outra granada caiu ainda mais perto, mas eu achava-me a uma altura que não foi alcançada pela coluna de água. O tempo estava nublado e o inimigo utilizava a fumaça com maestria. Mal podia avistá-lo, bem como os impactos dos nossos tiros; todos os navios americanos atiravam e descreviam grandes zigue-zagues e curvas.

Às 12h42min partimos em direção à praia: eu, o Almirante Hall, chefe do Estado-Maior do Almirante Hewitt, meu chefe de Estado-Maior, Coronel Gay, os Coronéis Johnson e Ely, do Estado-Maior da força de desembarque anfíbia da esquadra do Atlântico, meus ajudantes-de-ordens Jenson e Stiller e o Sargento Meeks; quando nossa embarcação afastou-se do navio os marinheiros debruçaram-se sobre a amurada e aplaudiram. Pisamos na praia às 13h20min, completamente molhados por causa da passagem na arrebentação das ondas. O combate ainda se mantinha vivo, mas não recebemos nenhum tiro.
Harmon conquistara Safi antes do alvorecer, mas a notícia só chegou até nós depois do meio-dia.
Anderson apossou-se dos dois rios e do terreno elevado na parte da tarde; prendeu oito integrantes da Comissão Alemã de Armistício. Eles só souberam do desembarque às 6 horas; logo, a surpresa foi completa.
Quando ainda estávamos em Washington, o Coronel W. H. Wilbur oferecera-se como voluntário para ir a Casablanca e solicitar a rendição. Por este motivo, desembarcou na primeira vaga e dirigiu-se para aquela cidade, ainda no escuro, conduzindo uma bandeira branca. Durante o trajeto foi alvo de vários disparos, mas, em Casablanca, os franceses respeitaram a bandeira branca, embora se recusassem a aceitar a rendição.

11 de novembro: Decidi atacar Casablanca nesta data, empregando a 3ª Divisão e um batalhão de carros de combate. Foi preciso um certo sangue-frio, uma vez que Truscott e Harmon pareciam em má situação; senti que deveríamos manter a iniciativa. Na oportunidade, o Almirante Hall veio à terra para combinarmos o apoio de fogo naval e aéreo e trouxe-nos boas notícias. Truscott conquistara o campo de pouso de Port Lyautey e já haviam aterrado lá 42 caças P-40. Harmon avançava sobre Casablanca.

Anderson queria atacar de madrugada, mas fixei a hora para as 7h30min, pois não desejava que ocorresse nenhum equívoco por causa da escuridão. Às 4h30min chegou um oficial francês anunciando que as forças localizadas em Rabat haviam cessado de atirar; o Estado-Maior queria suspender o ataque, mas determinei que se cumprisse o planejado. Lembrei-me de 1918, quando paramos cedo demais. Enviei o oficial francês para Casablanca com a missão de comunicar o Almirante Michelier, comandante da área, que o melhor que ele poderia fazer para não ser destruído era desistir da luta imediatamente, porque eu ia atacar - só não disse quando. Depois enviei mensagem ao Almirante Hewit informando que transmitiria a ordem de cessar fogo caso os franceses desistissem no último instante. Isto aconteceu às 5h30min. Às 6h40min o inimigo desistiu. Felizmente desistiu a tempo, mas os bombardeiros já estavam sobrevoando os alvos e os encouraçados ocupavam as posições de tiro. Determinei que Anderson penetrasse na cidade e que atacasse, se alguém tentasse detê-lo. Ninguém o deteve, mas o período entre 7h30min e 11 horas foi o mais longo de minha vida.
Às 14 horas, o Almirante Michelier e o General Noguès vieram tratar dos termos de rendição. Abri a reunião elogiando os franceses pela bravura demonstrada e encerrei-a com champanha e brindes. Também os recebi com uma grande guarda de honra - não adianta nada tripudiar sobre um homem derrotado.
Eu e Noguès visitaremos o sultão daqui a um ou dois dias.

16 de novembro: Às 9h45min, partimos de Casablanca, uma cidade que mistura Holywood e a Bíblia, em direção a Rabat. Depois de ultrapassar Fedala deparei-me com o melhor terreno jamais visto para o emprego de carros de combate: suavemente ondulado e limpo, salpicado de casas de pedra que serviriam de abrigo para a infantaria, mas que não resistiriam ao canhão de 105mm.
De modo geral a região parece com o litoral de Kona, no Havaí. A vegetação é idêntica e o mar tem a mesma cor azul. Cruzamos com rebanhos de ovelhas e gado, todos eles de raça não identificada. Toda a estrada e as pontes rodoviárias estavam guardadas por um tipo de combatente irregular marroquino chamado goons (N.E: Goumiers) - pelo menos é assim que o nome soa. Vestem um roupão listrado de preto e branco, usam um turbante que provavelmente foi branco alguns anos atrás e estão armados com fuzis antigos e baionetas.
Para além de Fedala, os caminhões e viaturas blindadas destruídos e obstruindo a estrada constituíam prova concreta da eficiência da marinha e da aviação. Em Rabat, o General Harmon (N.E: Comandante da 2ª Divisão Blindada, uma parte da qual desembarcara no Marrocos) providenciara uma escolta para mim, composta de carros de reconhecimento e carros de combate. Todavia, julguei que seria muita ostentação de minha parte chegar à sede da Residência francesa do General Noguès (N.E: General do exército Auguste Noguès, Residente-Geral francês) com tal escolta; dispensei-a.
Ao chegarmos à Residência, fomos recebidos por um esquadrão de cavalaria marroquino, no qual só os oficiais tinham montaria. A guarda pessoal do Residente-Geral, também marroquina, trajava uniforme branco com equipamento de couro vermelho. O porta-pistolas e as cartucheiras ficavam na altura do estômago, sustentados por talabartes cruzados.
Ambas as tropas eram garbosas, cada uma com sua banda de música própria, composta de cornetas, tambores e um guarda-chuva de metal com sinos pendurados nas pontas e que rodava durante a execução da marcha batida.
Passei em revista as duas unidades e cumprimentei os oficiais franceses que as comandavam, realçando o garbo de cada uma - em termo de 1914, constituíam verdadeiras unidades militares. Lembrei-me com espanto, que um único carro de combate de escolta que dispensara poderia destruir facilmente todos aqueles soldados garbosos que me prestavam honras militares.
A Residência era um prédio bonito, todo em mármore, construído pelo Marechal Lyautey (N.E: Marechal Lyautey, nascido em 1854 e falecido em 1934) seguindo o modelo do Alhambra (N.E: Palácio dos reis mouros em Granada, Espanha); compreendi perfeitamente por que o General Noguès não queria abandoná-lo. Recebeu-nos com muita cordialidade e conversamos durante vinte minutos, depois, dirigimo-nos ao palácio do sultão.
A área do palácio abrangia alguns hectares e era cercada por um muro de quase 6 metros de altura; dizia-se que o palácio fora construído no ano de 1300, mas tenho sérias dúvidas a respeito, embora fosse uma edificação bastante antiga.
Depois de atravessarmos o portão, viajamos cerca de 800 metros por entre as cabanas dos nativos, todas parecendo alojar famílias numerosas. O palácio é um prédio branco de três andares construídos em arquitetura mourisca e cujo portão de entrada mal dava para passar um automóvel.
No interior, a guarda do sultão estava formada em volta de uma praça; os soldados tinham pele escura, estavam armados com fuzil e usavam um uniforme de túnica vermelha, calça vermelha e perneira branca. Avaliei a existência de uns 400 homens em forma.
Ao descermos do carro uma outra banda de música, composta por tambores, pratos, cornetas e o guarda-chuva de metal, começou a tocar com muita desenvoltura.
Para que entra no palácio, do lado esquerdo acha-se a bandeira verde do Profeta. Trata-se de uma bandeira de veludo, bordado a ouro e tendo no centro algumas palavras em árabe. Depois de atravessar o segundo portão entramos em um ambiente do Velho Testamento, um pátio amplo e totalmente cercado por homens trajando as vestes brancas descritas na Bíblia. Neste local fomos recebidos pelo grão-vizir (pelo menos pensei que era ele). Vestia um robe branco, com um capuz que encobria um turbante bordado a ouro. Além de apresentar uma barba irregular, o homem ostentava o maior conjunto de dentes de ouro até então visto por mim. Declarou-nos que o sultão concedera a graça de nos receber, o que já era evidente diante dos preparativos realizados.
Subimos três lances de escada e ao chegarmos no alto o nosso guia descalçou os sapatos. Penetramos em uma sala comprida e observei, do lado esquerdo, os doze apóstolos e mais alguns reservas, enquanto do lado direito havia um bom número de cadeiras douradas, estilo Luiz XIV. O chão era coberto pelos tapetes mais grossos e mais bonitos que eu já vira. O sultão estava sentado na extremidade da sala, em uma plataforma mais elevada; tratava-se de um jovem de fisionomia atraente e muito expressiva, mas de aparência muito frágil.
Logo na entrada, faz-se uma parada e uma reverência, inclinando o tronco para a frente; caminha-se até o meio da sala e repete-se o gesto. Depois avança-se até a borda da plataforma e executa-se a terceira reverência. O sultão levantou-se, apertou a minha mão e a do General Noguès e sentamo-nos todos.
Falando em árabe, embora fosse fluente em francês, o sultão disse ao grão-vizir que me comunicasse em francês a sua alegria por receber-me. Através de dois intérpretes manifestei-lhe meu contentamento por estarmos reunidos mais uma vez, seu povo, os franceses e nós, e garanti-lhe que o nosso único desejo era unirmo-nos ao seu povo e aos franceses em uma frente comum contra o inimigo. Era engraçado ver que ele entendia perfeitamente a conversa em francês, mas tinha que esperar até ser traduzida para o árabe, pois sua dignidade não lhe permitia admitir o conhecimento de uma língua estrangeira.
Terminada esta conversa inicial, o sultão informou-me que esperava ver os soldados americanos respeitarem as instituições maometanas, uma vez que se achavam em país maometano. Respondi que esta ordem fora expedida, em termos muito precisos, nos Estados Unidos, antes de nossa partida, e que seria rigorosamente obedecida. Declarei-lhe ainda que esperava receber dele a comunicação de qualquer transgressão religiosa praticada por americanos, uma vez que reconhecia existirem pessoas desmioladas em todos os exércitos, inclusive no dos Estados Unidos. Respondeu-me que não ocorreria nenhum acidente, mas que, em caso de necessidade, faria chegar ao meu conhecimento qualquer episódio desagradável, por intermédio do General Noguès.
Concluí cumprimentando o sultão pela beleza natural do país, pela disciplina dos seus súditos e pela bela aparência das cidades. Levantamo-nos, o sultão ergueu-se do trono, apertou nossas mãos e convidou-me para um chá na quarta-feira, comemorativo de sua ascensão ao trono. Inicialmente fora minha intenção visitá-lo naquele dia; entretanto, como eu representava o Presidente dos Estados Unidos e o Comandante Geral das Forças Aliadas, havia comunicado ao General Noguès que não ficaria bem realizar a visita em dia de festa. Todavia, o convite formulado indicava claramente que o sultão valorizava a minha posição.
Terminada a audiência encontramo-nos com os doze sábios e seus reservas. Eram os paxás das diversas províncias e cidades do Marrocos. Creio que paxá era um cargo vitalício; o mais velho tinha 92 anos de idade e o mais jovem, cerca de 70 anos. Estavam todos vestidos de branco e com meias, mas sem sapatos; representavam um grupo de homens nitidamente habituados a mandar.
Na saída do palácio recebemos, mais uma vez, as honras militares prestadas pela guarda. Dirigimo-nos à residência do General Noguès, onde fomos recebidos pela senhora Noguès e sua sobrinha. Serviram-nos um almoço suntuoso e saborosíssimo. Impressionou-me o fato do General Noguès jamais haver hospedado, nem homenageado, qualquer autoridade alemã durante o tempo da ocupação germânica.
Mantivemos uma breve conversa após o almoço e regressamos a Casablanca, onde chegamos às 15 horas.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A coragem do Sgt Lucian Adams

Posto: Sargento, Exército dos Estados Unidos, 30º Regimento de Infantaria, 3ª Divisão de Infantaria.

Local e data: Near St. Die, França, 28 de Outubro de 1944.

Quando sua companhia foi enviada para reabrir a linha interrompida para o fornecimento e avanço do terceiro batalhão através de Mortagne Forest, o Sgt. Adams enfrentara o fogo concentrado da metralhadora alemã num solitário assalto de sua tropa.
Embora sua companhia tivesse evoluído menos de 10 km e com saldo de três mortos e seis feridos, o Sargento Adams seguia em frente, progredindo de árvore em árvore, disparando um BAR apoiado no quadril.
Apesar do intenso fogo das metralhadoras, o inimigo também usava contra eles fuzil e granadas, fato que proporcionou uma chuva de galhos quebrados e pontudos, devido às árvores atingidas. O Sgt. Adams se aproximou a 10 metros da metralhadora mais próxima e a silenciou com uma granada de mão. Um soldado alemão, respondendo ao ataque, lançou-lhe granadas; porém o sargento também o acertou; desta vez com um único disparo de seu BAR.
Correndo contra fogo inimigo, o sargento calou outra metralhadora que estava 15 metros a sua frente com outra granada, forçando dois soldados inimigos se render. Em desespero, o restante do grupo alemão concentrava toda a sua força em disparos de armas automáticas sob o objetivo de parar Adams e seus homens. Porém o sargento se moveu através da mata, encontrou e tirou de combate mais cinco alemães. E quando a terceira metralhadora inimiga abriu fogo sobre ele, duma distância de 20 metros, o sargento completou sua façanha pessoal e fez tombar outro metralhador.
No decorrer da ação, ele matou 9 alemães, eliminou 3 metralhadoras, vencendo inimigos especializados e de alto vigor, portando armas automáticas e lançadores de granadas. O sucesso da operação reabriu as linhas de abastecimento cortados no assalto da companhia de seu batalhão.

Fonte: http://www.history.army.mil

Ações na Terra de Ninguém (FEB)

Durante o período em que o I/11º RI defendeu o Quarteirão de Iola, lançou inúmeras patrulhas de reconhecimento e emboscada, em que se procurava delinear as posições ocupadas pelo inimigo e as unidades que as mantinham, o que procurava grande reação por parte dos alemães, constituindo-se na zona mais batida de toda a FEB, como bem assinalavam os boletins de informações da 1º DIE.
A posição por nós ora ocupada dominava inteiramente o vale do Rio Panaro, descortinando novos horizontes, tal côo ocorrera com os alemães, em relação ao Rio Reno, durante o tempo que dominaram essas mesmas alturas.

Entre os fatos marcantes de nossa permanência no Quarteirão de Iola teve destaque especial a descoberta, por parte de nossas patrulhas um grande deposito de munições deixado pelos alemães quando da ofensiva aliada que os desalojou das alturas daquele divisor de águas. Tal depósito, de difícil acesso por nosso lado, encontrava-se localizado agora na “terra de ninguém’, a sudoeste de Montese e próximo as atuais linhas inimigas, protegido assim por sua vigilância e tiros.
A descoberta desse grande depósito de munição de artilharia de morteiro 88 mm, que os alemães deviam estar planejando recuperar, levando-o de volta ao interior de suas linhas, fez com que o Major Lisboa deliberasse ser de capital importância sua destruição, o mais rápido possível, embora não fosse nada fácil sua execução.
Tal destruição exigia homens calmos, inteligentes e especializados, pois não se tratava de uma missão de patrulha – pois bons patrulheiros o Batalhão estava cheio – mas de empreendimento que, alem das qualidades necessárias ao bom patrulhador, demandava uma grande dose de conhecimentos técnicos sobre explosivos. Não foi difícil achar quem iria dirigir tão perigosa incursão pela “terra de ninguém”, pois apesar daquele Tenente ter chegado ao batalhão a pouco tempo, já havia conquistado a amizade, o respeito e a admiração de todos nos, pois alem de seu modo respeitoso e simpático de a todos tratar, vinha demonstrando coragem, calma e sangue frio no cumprimento de sua difícil função – oficial responsável pela colocação e retirada de minas e armadilhas. O Ten. Adhemar de Lima Andrade havia concluído, com ótimo aproveitamento, um curso onde aprendera todos os segredos sobre minas e explosivos.
Eu já me entendia muito bem com aquele baiano, sereno, sem arrogância, disciplinado, leal, senhor dos seus nervos, que tão bem se amoldara ao ótimo ambiente reinante entre os oficiais do Estado Maior do I/11º RI. Como fui um dos poucos, a saber, que lhe coubera, pude sentir ao mesmo tempo em que pedia a Deus pelo seu sucesso, toda a sua serenidade e determinação. Ao vê-lo, reunindo e instruindo seus homens, dava-me a impressão de que ia executar o mais comum e rotineira das operações.
Numa noite intensa escuridão lá vai o Adhemar e seus homens. Ultrapassaram Iola, II Truffi e Bicocchi, Entram em contato com os nossos postos mais avançados e, cautelosos, silenciosos e determinados, sobem a primeira cota gêmea, que vasculham com cuidado, de modo a não serem percebidos pelo inimigo tão próximo. De repente, na contra-encosta, um sorriso de satisfação – lá estava o depósito.
Calmo, como que estivesse articulando uma simples brincadeira com o Yvon ou o Quintiliano, ele estudou a situação do depósito, investigou, calculou, prendeu cargas e detonadores com retardo e, terminada a missão, voltou ao PC, cansado, mas feliz, onde se apresentou ao Major Lisboa, simplesmente, sem jactância ou basófia:
- Pronto, Major, missão cumprida!
Nada vimos ou ouvimos até então, pelo que permaneci ansioso, na expectativa de um não desejado fracasso – os segundos parecendo horas – e nada, de explosão.
Mas, minutos após, tremenda explosão é ouvida, alertando brasileiros e alemães. De dentro do meu peito, liberto, rugiu todo o meu entusiasmo: Eta! Baianinho bom!
Os nossos telefones começam a chamar insistentemente, todos querem saber o que aconteceu, principalmente o E/2 da Divisão:
- Que houve na frente do Batalhão?
O Major Lisboa, calmo, o Deschamps, mais calmo ainda, mas tremendamente orgulhosos pela façanha, vão respondendo:
- Não foi nada. Os alemães acabam de ficar com o seu estoque de munição ainda mais diminuído.
O bravo baiano, antes de ir dormir e sem dar o devido valor à grandeza do ato que praticara, mas tremendamente senhor de si, ainda brinca com o Yvon:
- Viu Doutor, como é perigoso entrar em local cercado por tiras brancas.



Fonte:
Montese – Marco Glorioso de uma Trajetória
Coronel Adhemar Rivermar de Almeida
Editora: Bibliex
Pag:130, 131 e 133

A bravura frente ao aço


12 de dezembro de 1939 8:30h. Uma pequena colina coberta de neve encontra-se em poder da infantaria russa. O ponto, vital para a defesa da zona, deve ser tomado pelos finlandeses. Ainda está escuro. As primeras explosões mostram que começou o fogo de morteiros.
As tropas finlandesas iniciam o ataque. O bombardeio das posições inimigas prolonga-se por alguns minutos. Nada mais que minutos. Os poucos projéteis são preciosos. E também o tempo. Os finlandeses devem tomar a colina antes da chegada de reforços do inimigo. Também os homens escasseiam.
Dois batalhões finlandeses batem-se energicamente. Os russos, sitiados no cume da colina, defendem-se desesperadamente. Por fim, premido pelo tempo e a necessidade de economizar munições, os finlandeses lançam-se ao assalto direto. Na luta que se segue, corpo a corpo, as baionetas e as armas curtas cumprem a sua missão. Homem por homem, os soviéticos, apesar da sua encarniçada defesa, são aniquilados. Restam apenas alguns, feitos prisioneiros, na maioria feridos. Grande número de metralhadoras e fuzis automáticos caem nas mãos dos finlandeses. Substituirão os seus fuzis, modelo 1871, veneráveis armas com quase 70 anos de uso.
A conquista da colina, porém, não significa o fim da ação. Inesperadamente, dois tanques soviéticos aparecem a toda velocidade, levantando verdadeiras ondas de neve. Os finlandeses, sem armas antitanques, buscam desesperadamente um refúgio. Tudo inútil. Troncos de árvores, montículos de neve, fossos, trincheiras, tudo é procurado pelos soldados que não têm, para se defender mais do que as suas pequenas armas portáteis. Os projéteis das metralhadoras dos tanques varrem o terreno. Os fuzís respondem ao fogo, a mira em direção das vigias dos veículos. Afinal, num gesto de bravura extrema, o subtenente da reserva Huevinen, ajudante da capital Shvonen, chefe de um dos dois batalhões finlandeses retira do seu cinturão cinco grandas de mão, amarra-as formando um feixe e começa a arrastar-se penosamente entre a neve na direção dos tanques. Mas, não vai só. Alguém o segue. É o subtenente da reserva Virkki, que leva por única arma uma pistola Mauser. Instantes depois, já se encontra a 30 metros do monstro de aço. Levantando-se de um salto, Virkki aponta e descarrega a sua pistola contra a vigia de observação do primeiro tanque.
O seu objetivo é eliminar o tanquista e deixar o veículo sem controle. Virkki aperta o gatilho da arma durante dois segundos e se joga sobre a neve. Sobre a sua cabeça, instantaneamente, silvam as balas da metralhadora do tanque. A resposta foi imediata. De repente, a rajada disparada do tanque cessa. É apenas um segundo de trégua. Mas Virkki não o desperdiça. Salta novamente e, de pé frente ao blindado, esvazia novo pente. Rápida, a metralhadora do tanque gira para ele e responde ao fogo. Mas já Virkki está afundado na neve, apertando o seu rosto contra o solo, e mudando o pente da arma. Três vezes consecutivas repete-se o episódio. É um homem contra um tanque. Uma pistola contra uma metralhadora pesada calibre 50. Um uniforme branco, de pano, contra uma chapa blindada. Há algo mais: é a bravura do homem que defende a sua terra, os seus filhos o seu direito à liberdade. E isso é o mais importante.
Os tanques, entretanto, giram sôbre as esteiras e começan a se afastar. O subtenente Houvinen levanta-se e corre atrás do segundo, esgrimindo o seu feixe de granadas. É um espetáculo estranho. Dois gigantes de aço aumentando paulatinamente a velocidade e um homem, um só, correndo penosamente sobre a neve, atrás deles, com cinco granadas na mão direita. Finalmente os tanques se perdem na brancura das planícies, deixando para trás a bravura de um punhado de homens.

A armadilha no gelo


Viborg, a sudeste da linha defensiva finlandesa. Ponto vital, por onde cruza a estrada que liga Leningrado a Helsinki. A baia de Viborg é um mar de gelo. Os russos, tirando proveito da grande espessura da camada sólida que cobre as águas, usaram-na para mover unidades pesadas, inclusive tanques. Ao longe, surgem algumas ilhas. Sobre uma delas apontando para a baia, poderosos canhões costeiros dominam toda a zona gelada.

Tais os elementos que caracterizam uma estranha guerra. Sob tiros de artilharia finlandesa, que se repetirão diversas vezes batalhões inteiros são sepultados nas águas.
A primeira ação se realiza quando um batalhão soviético, apoiado por numerosos tanques, cruza a superfície gelada. Os grandes canhões, após a correção de tiros, começam a acertar exatamente ao redor da compactada unidade russa. Aquilo parece não ter sentido. As possantes granadas, disparadas diretamente sobre a formação, causariam baixas consideráveis. Porém, os finlandeses não disparam sobre os homens nem sobre os tanques. Disparam ao redor.
Poucos minutos bastam para os russos entenderem a extensão da tragédia. Tarde demais… Impossível salvar seus homens.
O gelo, fragmentado em enormes pedaços, cede sob o peso formidável dos tanques e estala com estrondo ensurdecedor. Um alarido de terror ecoa das unidades russas e logo em seguida se faz silêncio. Sobre a superfície gelada da baia, agora partida diversos pedaços, restam homens dispersos, aqui e ali, aferrando-se penosamente ao que flutua ao seu alcance.
Tudo o mais, tanque, canhões, artilharia, cavalos e homens, jazem no fundo das águas geladas.

Batalha sem Tiro



Tolvajardi. Dois batalhões finlandeses cobrem a fronteira, defendendo-se desesperadamente do ataque da Divisão de Infantaria Russa 139. À noite, amparado pelas trevas, os grupos de vanguarda russos caem sobre os finlandeses, pela retaguarda.

Os defensores, surpreendidos pelo inesperado ataque sofrem uma momentânea desorganização, mas refazem as suas fileiras. Enquanto os combatentes mantêm-se firmes na frente, os cozinheiros, motoristas, assistentes, radiotelegrafistas, armeiros e etc, sem disparar um só tiro utilizando baionetas e facas, atacam os russos em sangrento corpo a corpo. Os atacantes são obrigados a renunciar as armas de fogo porque a escuridão é impenetrável e o lhes é desconhecido.
O combate é travado com armas brancas. Silenciosamente, várias centenas de homens lutam durante uma longa hora. Só gemidos isolados assinalam as baixas de um ou outro lado. Por fim, caçadores de nascença, os finlandeses impõem a sua habilidade no manejo da faca e no aproveitamento do terreno.
O batalhão soviético, na singular batalha em que não foi disparado um único tiro, é aniquilado.



Fonte: A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL – Vol.1

Editora codex

Hiroshima: Memórias De Um Sobrevivente




Desejo apagar esta repugnante e desagradável lembrança de minha memória. O seis de agosto vem de novo este ano [1993], como sempre. Sei que está é a minha última chance para registrar, em três partes, o que sofri.



No fatídico dia de 6 de agosto de 1945, eu era um terceiroanista do Departamento de Ciências, Faculdade de formação de professores de Hiroshima (hoje em dia, a licenciatura em matemática da Universidade de formação de Professores de Hiroshima). Em meados do meu primeiro ano [1943], ouvíamos muitas vezes que as condições da guerra estavam piorando e que a frente de guerra estava se expandindo sem limites. Quase todos os estudantes foram recrutados para o exército. Mas ainda havia alguns na faculdade, pois éramos aspirantes a Professores no futuro. Mas a situação mudou gradualmente. Estudantes de ciências humanas foram também recrutados, somente deixaram ficar os estudantes de ciências naturais como nós.

A guerra continuou a piorar. Finalmente fomos mobilizados em abril, como trabalhadores no estaleiro Mitsubishi na vila de Eba, na cidade de Hiroshima. O estaleiro construía transportes de tropas da classe de 10.000 toneladas. A primeira tarefa que me foi designada foi a de soldar placas de aço, usando volumosos macacões feitos de um tecido duro, contendo chumbo. Mas depois de um pouco, fui transferido para uma posição de treinamento para estudantes do ginásio Shudo e do curso secundário da Escola de Comércio de Hiroshima. Nosso alojamento era um hotel chamado Kinsuikan, situado em Miyajima, um local famoso por sua paisagem. Íamos diariamente ao estaleiro de barco. Levava uma hora para irmos. Estávamos sempre expostos aos perigos de ataques aéreos feitos por caças saindo dos porta-aviões americanos e ao contato com minas. Tínhamos prontos pedaços de tábuas de madeira no barco, para substituir os coletes salva-vidas. Duas horas gastas no ir e vir eram preciosas para descansar e ler livros. Quanto a comida, estávamos sempre com fome. Arroz misturado com soja triturada, ou bolinhos de Eba feitos de trigo moído e estragão eram uma festa para nós.


O seis de agosto

Saímos do porto de Miyajima e chegamos ao estaleiro de Eba uns poucos minutos depois das oito horas, como sempre. Estava quente e o céu limpo, sem nuvens. Pouco antes das oito, uma sirene de ataque aéreo soou. Nos abrigamos enquanto reclamávamos, porque já estávamos acostumados à sirene. Logo o alerta foi cancelado. O encontro da manhã foi feito como sempre e uma chamada dos alunos do ginásio foi feita também. Fui até o segundo andar acertar alguns papéis. Estava conferindo a presença dos alunos enquanto mantinha minhas costas diretamente para o epicentro. De repente, uma luz azulada brilhou como um arco voltaico, como a luz de uma máquina de solda, ou como magnésio queimando. O mundo ficou branco.

De forma instintiva, pensei que tivesse havido um grande acidente na companhia de fornecimento de gás no distrito de Kannon ou na subestação transformadora em Misasa. Corri para a janela que estava bem aberta ao exterior, para ventilar. Olhei na direção do possível acidente. Observei uma nuvem amarela-avermelhada subindo como fogo de artifício, alto para o céu, cercada por fumaça negra como carvão. (Naquela época, como não tinha idéia do que seria uma bomba atômica, nunca imaginaria que uma nuvem de cogumelo estava para surgir). No mesmo momento, de longe, casas voavam um pouco e então caiam, esmagando-se no chão como peças de um jogo de dominó. Era igual a branca arrebentação de uma onda, vindo em minha direção, enquanto ficava em pé na praia. A onda se aproximou de forma inabalável (mais tarde, isto seria chamado de onda de choque da explosão). Me senti terrível pela primeira vez. Tinha que fazer alguma coisa, o segundo andar onde estava logo seria esmagado. Um amigo próximo, o Sr. Soma ou o Sr. Yoshikawa gritaram algo. Corri para debaixo da mesa e segurei a respiração, esperando que alguma coisa acontecesse. Em apenas alguns segundos eu vi o relâmpago e me enfiei debaixo da mesa.

Então, de repente, o chão desabou com um imenso som. Uma maciça nuvem de poeira se levantou. Naquele momento, eu congelei. Senti que a bomba tinha explodido logo na minha frente. Mas nenhum explosão aconteceu. Senti sem sombra de dúvida que a bomba era uma granada cegante e arrastei-me lentamente. Descobri que o chão tinha desabado com a explosão.

Meu amigo gritou: “seu olho direito está ferido!” Toquei meu olho e somente senti um monte de sangue na minha palma. Mas não sentia nenhuma dor. A explosão tinha arrebentando os caixilhos das janelas em pedacinhos e estilhaços devem ter penetrado minha sobrancelha. O sangue correndo tinha caído no meu olho e perdi a visão. Apoie-me no ombro do meu amigo para correr para a sala de enfermaria do escritório, cambaleando. Surpreendentemente, duzentas ou trezentas pessoas já estavam na fila. Quase todos tinham sofrido queimaduras. Mais tarde soube que muitas das pessoas na fila tinham morrido. Tive sorte no meu azar, pois não fiquei exposto diretamente à explosão. Todos os ferimentos eram na minha face. Todas as tentativas de parar com o sangramento falharam. O sangue continuar a fluir. Minhas roupas estavam de tal forma manchadas pelo sangue derramado que poderiam dar a impressão que estava gravemente ferido. Fui levado para a frente da fila e fizeram quatro pontos, depois de desinfetarem de forma rápida a ferida. Quanto sorte tive. Meus olhos estavam bem. Só quando minha sobrancelha foi cortada, a pele caiu e o sangue entrou no olho, causando uma cegueira temporária.

Foi dito que não havia maneiras de ajudar as vítimas de queimadura, só aplicar ungüento branco. Então fui colocado em uma tábua de madeira e deixado no chão de um prédio que estava inclinado pelo sopro da explosão. No meu peito estava uma etiqueta de papel em que estava escrito o meu nome, local de nascimento, idade e tipo sangüíneo. Ao meu redor estavam muitas vítimas de queimadura, gemendo de dor. As peles das pessoas vivas estava apodrecendo e soltando um cheiro intolerável. As pessoas estavam agonizando e morrendo lentamente, gemendo “ai, ai, água, água”. Fui deixado entre eles. Não sabia ao certo que horas eram, mas uma vez vi um céu azul sem nuvens, coberto por uma nuvem negra como carvão na direção de Koi e parecia que era uma chuva torrencial. Por volta das três da tarde, o ferry Enamimaru chegou para nos apanhar. Voltei aos meus alojamentos em Miyajima. Na manhã seguinte, o dia sete de agosto, as pessoas saudáveis foram para Hiroshima para limpar a cidade. Mas deixou-se que os feridos descansassem nos alojamentos.






O oito de agosto

Hoje, fui ao estaleiro em Eba, junto com alguns amigos meus. Meu rosto estava quase que totalmente embrulhado em bandagens, exceto o meu olho esquerdo. Então fui ao centro de Hiroshima. Como não haviam meios de transporte, tive que fazer toda a distância a pé. Primeiro visitei o Sr. Matsuoka, no distrito Minami Kan-non, onde estava me hospedando. Nada restava lá. Mandado pelos ares ou queimado, não sabia. Não havia nenhum traço. Naturalmente, minhas coisas, tais como cama, livros e outras coisas, não existiam. Não sabia se meu tio e minha tia Matsuoka tinham sobrevivido ou não. Mesmo hoje, não sei de seus destinos. Não tinha escolha, a não ser perambular até a escola em Higashisendamachi. Tanto quanto a vista alcançava, tudo estava totalmente incinerado em cinzas. Somente muros destruídos de concreto pontilhavam a paisagem. A esquerda e direita havia incontáveis corpos, ainda não removidos. Algumas pessoas olhavam os cadáveres, procurando seus parentes. Outros empilhavam a madeira meio queimada das casas, para incinerar os restos. Fiquei vagando pela cidade, cheia dos cheiros da morte.

Quando cheguei na ponte, soldados das tropas Akatsuiki estavam recuperando um imenso número de cadáveres do fundo do rio, usando barcos de desembarque. Todos os corpos estavam completamente nus. Alguns dos corpos permaneciam com as mão para cima, outros com as pernas torcidas em agonia. Estavam inchados pela água, branco-pálidos. A cena era muito lúgubre para lembrar, mesmo hoje em dia.

Finalmente cheguei na faculdade, passando pela ponte Takano. Todos os prédios de madeira da faculdade e os dormitórios estavam totalmente queimados, em ruínas. Somente a biblioteca na direita e a estrutura externa dos prédios do laboratório de ciências, nos fundos, foram poupados. Ao lado da entrada da frente, o corpo queimado de um cavalo fora deixado, soltando um fedor insuportável.

Percebendo que nada restara, fui até o endereço queimado dos Hasimotos, meus amigos, cujo marido tinha ido para a guerra e somente as mulheres tinham ficado para trás. Como os tinha ajudado a construir um abrigo de bombas subterrâneo e colocado coisas importantes lá, estame me preocupando com eles.

Fiquei mais calmo ao achar provas de coisas enterradas terem sido escavadas, pois isto era um sinal que meus amigos tinham sobrevivido. (Muitos anos atrás, fui a Hiroshima, mas lá não havia pistas para perguntar sobre o destino da família Hashimoto).

Então caminhei para Shiragamisha, pela avenida do bonde, para obter na praça municipal um certificado de flagelado. Não me preocupava de forma alguma com a minha cara miserável, embrulhada em bandagens, pois quase todas as pessoas estavam feridas e também perambulavam pelas ruas como zumbis em bandagens. Um bonde queimado, somente com a estrutura de aço restando, estava largado no meio da rua. Postes elétricos estavam inclinados e fios queimados balançavam dentro da janela.

Virei à esquerda no cruzamento do quarteirão Kamiya e caminhei pelos destroços do Pavilhão de Promoção Industrial da Prefeitura de Hiroshima (depois chamado de cúpula da Bomba Atômica), a ponte em forma de “T” de Aioi, Dobashi e o distrito de Fukushima. Continuei a caminhar em direção ao distrito Ibi.

Tão longe quanto a vista alcançava, toda a cidade estava queimada até as cinzas, pontilhada de muros de concreto que antes tinham sido prédios. Chapas de zinco queimadas soltavam rangidos nas janelas radioativas. Passei pelas ruínas e destroços, evitando os corpos dos mortos, cobertos com tapetes.

Finalmente cheguei na estação Ibi passando pela cidade morta, onde não havia sinais de uma só vida, cheia do cheiro dos cadáveres. Peguei um bonde em Miyajima e voltei para o hotel. Caminhei ao redor da cidade morta por oito dias, várias horas todos os dias. Como era bobo. Me arrependo de meu comportamento tolo de perambular. Nunca mais. Não desejo ver de novo tal inferno na terra. Não desejo mesmo me lembrar dele. Este é o limite do que posso descrever.

Deixem-me dizer uma última palavra: agora é um mundo pacífico. Vivemos em riqueza material e liberdade de palavra. As vezes acho estranho: porque estou vivo? Provavelmente posso estar “ficando vivo”. Só tenho um sentimento de gratidão, nenhuma reclamação ou insatisfação. Sempre agradeço a sociedade. Gostaria de dar alguma coisa de volta à sociedade.

Takeharu Terao

Treinamento De Um Piloto - Heinz Knoke


31 de janeiro de 1940
A 8 de janeiro de 1940 sou designado a ocupar uma vaga na Academia Militar (Kriegschule). A vida aqui não é fácil para os candidatos a oficial. As formações de parada prosseguem com contínua rigidez, na melhor tradição prussiana; mas agora eu já estou acostumado a isto. "Aqui você tem que ser forte", eles continuam a nos dizer, "tão forte quanto o aço Krupp. Qualquer um que fraqueje será eliminado".

No entanto, nossa vida se resume somente em intervalos entre o pátio de paradas e a sala de leitura. Temos que estudar e trabalhar sobre os livros no alojamento, geralmente até tarde da noite. Possuímos instrutores, oficiais, sargentos e técnicos de primeira classe e eles nos ensinam tudo que podem sobre tópicos como: táticas de combate no ar e no solo, aeronáutica, engenharia, armaria e meteorologia. Um curso de liderança júnior também faz parte da grade.

Agora estamos esperando somente que o tempo se torne mais estável para então começar nosso treino de vôo.

17 de fevereiro de 1940
Às 13:05h tenho minha primeira lição de vôo em um Focke-Wulf 44, um avião de treino com duplo controle, cujas letras de identificação são TQBZ. Van Diecken é meu instrutor.

23 de fevereiro de 1940
Semana passada completei 35 vôos de treino. O solo está coberto com neve profunda, portanto as aeronaves foram equipadas com esquis no lugar das rodas.

O trigésimo sexto vôo é um teste: estou com o Tenente Sênior Woll, instrutor-chefe do curso. Ele faz pouco caso dos meus progressos no vôo.

1º de abril de 1940
Completei 83 vôos de treinamento. O Tenente Sênior Woll testou-me de novo nas últimas duas decolagens. "Você certamente não pode chamar isto de um pouso: eles são só vagamente melhores do que uma queda controlada". Ele balança a cabeça.

Junto a isso eu também me enfiei em uma enrascada enquanto fazia um circuito sobre o campo. O avião estava sem controle, depois que eu me enrolei com o manche, afogador e leme. Entramos em parafuso antes que eu tivesse tempo de notar, descendo em direção a uma igreja. Woll agarrou o afogador e recuperou o controle do avião, virando-se para mim, logo a seguir e gritando: "O que você está tentando fazer? Está tentando transformar minha mulher em viúva? Maldito idiota"!

Será-me dada mais uma chance, positivamente a última chance, depois de dez novas lições com Van Diecken. Os alunos que falham em completar o curso de vôo na Academia Militar, são designados para o Comando Antiaéreo (Flakartillerie). Um prospecto amargo.

2 de abril de 1940
O Sargento Van Diecken me leva para as minhas últimas dez lições hoje. Todos os outros alunos do curso já decolaram para seus vôos solo há muito tempo. Amanhã será o dia do meu teste final com o Tenente Sênior Woll.

O grupo de instrução sob tutela de Van Diecken inclui três outros candidatos a oficial além de mim: Geiger, Menapace e Hain. Nós quatros dividimos o mesmo alojamento.

Geiger é da Alemanha do Norte, reservado, mas intensamente bem preparado. Seu pai é um trabalhador braçal. Uma vaga conquistada na "Escola Adolf Hitler" deu a este rapaz muito inteligente sua chance. Tendo obtido sua matrícula Sênior, ele está apto a ser comissionado como oficial.

Menapace e Hain são austríacos. Ambos vieram das montanhas do Tirol. Sepp Menapace é o melhor de nós em vôo, parecendo que pilota instintivamente. Pequeno, escuro e muito forte, ele é um tipo que vive ao ar livre. Entretanto ele é tímido e socialmente inapto e, no chão, seu corpo musculoso parece desajeitado, como um daqueles robôs dos filmes; mas uma vez nos céus, ele está em seu elemento, movendo-se tão sensivelmente quanto um gato. Sua aptidão natural o permite controlar o avião como se tivesse feito isso por toda a sua vida.

Hain voou seu solo depois da sua quadragésima decolagem com Van Diecken. Todos os três observaram minhas últimas instruções e me encorajaram. Até mesmo Geiger abriu a boca para dizer meramente: "Você vai se dar bem".

3 de abril de 1940
Precisamente às 13:00h decolei para meu primeiro vôo solo.

"Quando você se aproximar para o pouso, é melhor você nivelar dez pés para cima do que um pé para baixo da terra"!, grita sua última advertência o Tenente Sênior Woll, sobre o barulho do motor, e sorri sardonicamente enquanto se afasta.

Aperto o cinto de segurança, abro o afogador lentamente, começando a me mover, seguro o manche para frente enquanto a velocidade aumenta. O TQBI praticamente decola sozinho e estou subindo antes que o fim da pista se aproxime.

Faixas vermelhas nas asas avisam a todos que possam se interessar: "Cuidado! Este é um aluno no seu primeiro solo. Saia de perto se você dá valor à vida".

Por vários minutos eu circulo o campo. A tensão gradualmente se dispersa e começo a relaxar. Não é necessário fazer um grande esforço para manter o avião sob controle. Olho para baixo e vejo a sombra das nuvens se delineando sobre a terra. Estou realmente voando, livre como um pássaro.

Já é hora de pousar. Começo a planar e o chão vem de encontro a mim. Afogador para trás, nivelado, cuidadosamente agora; e... Opa! Estou de volta à terra firme e, de alguma forma, a aeronave não se destruiu.

Meu primeiro pouso solo não pode ser descrito como um bom pouso, nem mesmo nos quatro seguintes consegui melhorar muito. Mas, pelo menos, as rodas não se desprenderam.

10 de maio de 1940
Nossos exércitos, na frente oeste, iniciaram a grande ofensiva contra a França, mas eu temo que vá me atrasar para estar na ação.

16 de maio de 1940
Várias semanas estáveis de bom tempo nos permitiram fazer progressos reais em nosso treinamento. Completei praticamente 250 vôos. Agora estamos sendo adestrados em acrobacias aéreas no Focke-Wulf 44 e no Bücker Jungmann. Também aprendemos a voar em aeronaves operacionais, interceptadores obsoletos e tipos de reconhecimento de curto alcance, aviões como o Arado 65 e 68 e os Heinkel 45 e 46. Usamos o Junkers W. 34 no qual Kohl e Hünefeld voaram pelo Atlântico, e um Focke-Wulf Weihe especialmente adaptado para vôo de longo alcance, a fim de prática de navegação.

Ontem eu estava em um vôo à leste da Prússia em um remendado e velho GO. 145 quando o motor falhou. O duto principal de abastecimento estourou. Estava somente a poucas centenas de pés naquele momento, e não havia grandes oportunidades para encontrar um campo de emergência para uma aterrissagem forçada. Desci em um campo cultivado. O trem de pouso se despedaçou, o avião capotou e tive que sair da carlinga me arrastando, com um corte na cabeça.

Retornei a base de trem. Tenho uma grande bandagem na cabeça. As pessoas na plataforma me olham, evidentemente assumindo que eu deva ter sido ferido na guerra contra a França. É embaraçoso admitir que eu só caí de um avião de treinamento.

19 de maio de 1940
Parece que estou emaranhado em uma fase de má sorte. Hoje meu trem de pouso quebrou quando tentava pousar em Altdamm. Um vento de través muito forte estava soprando no momento do pouso, e ele se mostrou fatal para o velho KL. 35.

Mais uma vez sou obrigado a voltar de trem.

16 de agosto de 1940
Finalmente tenho meu certificado de piloto e o período de treino está encerrado.

No dia 1º de junho fui promovido a cabo.

Neste meio tempo, a guerra continua. A França rendeu-se em junho. Os franceses não puderam fazer muito contra a moral superior e os equipamentos modernos dos exércitos alemães. Eles tiveram que usar armamentos que já eram obsoletos há tempos; de fato, algumas de suas peças de artilharia pesada foram utilizadas durante a Primeira Guerra Mundial.

Aparentemente as divisões britânicas mantiveram-se mais ou menos intactas, embora tenham perdido uma vasta quantidade de material em Dunquerque. Habilidosas operações por parte do Alto Comando Britânico possibilitaram à maioria das suas unidades o retorno à ilha sem sofrer pesadas baixas. A Força Aérea Alemã perdeu, evidentemente, uma oportunidade de ouro ao deixá-los fugir de nossas mãos em Dunquerque.

Os britânicos não parecem estar suficientemente armados para combater em uma guerra, e a Força Aérea Real conduz suas operações em uma escala muito pequena. Não consigo entender por que não pressionamos imediatamente nosso avanço contra a Grã-Bretanha: significaria, certamente, o fim da guerra.

A Força Aérea Francesa também foi incapaz de ter uma postura decisiva na luta. Aqui, como na Polônia, a Luftwaffe deu outra demonstração de superioridade incontestável em seu equipamento e treinamento. Isso não significa, contudo, que faltasse coragem aos pilotos britânicos e franceses. Significa, outrossim, que eles operavam sob as piores condições possíveis.

Na minha opinião, a velocidade do colapso francês se deve, fundamentalmente, a baixa moral em suas divisões de combate. Os oficiais franceses admitiram, subseqüentemente, o mesmo, com amargura. O soldado francês de 1940 não era nada parecido com seu antecessor, o "poilu", que lutou tão tenaz e bravamente na defesa de cada polegada de sua pátria na Primeira Guerra Mundial. Creio que nos últimos vinte anos, a França descansou tranqüilamente nos louros da vitória de Versailles. Este é o grande perigo da vitória em qualquer guerra.

A moral do povo alemão em casa é muito bom - talvez bom até demais.

Fonte: I Flew For The Führer (Heinz Knoke)


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