domingo, 16 de maio de 2010

Arapuca de guerra (relato de um oficial alemão)


Panzer V Panther – Rússia
“A aldeia estava muito bem fortificada e muitos tanques haviam sido postados entre as casas, para servir como casamatas. Os carros blindados eram difíceis de descobrir e eliminar. Nosso primeiro ataque havia fracassado ao enfrentar o fogo dos tanques, embora nossas perdas tenham sido reduzidas, pois nossas tropas, veteranas, ante o perigo, haviam sabido retirar-se a tempo.

Para desfechar o segundo ataque, era necessário fazer os tanques saírem - a maioria dos quais estava entrincheirada na parte sul da aldeia - de suas posições protegidas. Com o fim de conseguir isto, o fogo de toda nossa artilharia foi concentrado no setor nordeste da aldeia, e um ataque simulado foi efetuado nesse setor por carros blindados e veículos semilagartas, acobertados por uma cortina de fumaça. Então, inesperadamente, o fogo da artilharia foi orientado sobre o setor sul da aldeia e concentrado, maciçamente, sobre o ponto pelo qual nos propúnhamos irromper. Apenas uma bateria continuava apoiando, com bombas de efeito moral, o ataque simulado. Enquanto os projéteis estavam ainda caindo sobre as posições inimigas, os tanques do 15o Regimento Panzer se lançaram sobre a aldeia e superaram, de sul a norte, a defesa russa. Os tanques russos que haviam deixado os seus abrigos, deslocando-se para o setor norte da aldeia, foram atacados pela retaguarda, pelos nossos Panzer e destruídos depois de encarniçada luta.

A infantaria russa abandonou a localidade e se retirou desordenadamente, seguida pelos nossos atiradores motociclistas. Vinte tanques russos foram destruídos na ação e 600 soldados ficaram mortos os feridos”.


PzKpfw I

Coloquei duas fontes diferentes, pois cada texto contém alguns detalhes que se completam.

Histórico 1

O Veículo de Combate Blindado I ou Panzerkampfwagen I (PzKpfw I) Sdkfz 101 foi desenhado em 1932, como um veículo de ataque leve e de treinamento, permitindo a motorização do Exército Alemão com um veículo barato e rápido de ser construído, enquanto os modelos III e IV não ficavam prontos. O Departamento de Armas do Exército Alemão comprou um tanquete Carden-Loyd Mk IV inglês, secretamente, na Rússia, para testar a possibilidade de se instalar, neste chassi, um canhão de 20 mm em uma torreta de giro de 360°.


Tanquete inglês Carden-Loyd Mk IV

Após extensivos testes de campo, ficou provado que o desempenho era muito melhorado com o uso de um armamento mais leve, sendo proposta a torreta com duas metralhadoras de 7,92 mm. Enquanto isso, o Departamento de Armas emitiu especificações de concorrência para cinco firmas alemãs (Rheinmetall Borsig, Daimler-Benz, MAN, Henschel e Krupp) para a construção de um protótipo de um tanque leve de treinamento de 5 toneladas, com uma torreta de rotação completa, armado com um par de metralhadoras de 7,92mm MG13. Em dezembro de 1933, o Exército alemão selecionou a torreta e a superestrutura da Daimler-Benz e o chassi da Krupp para o desenvolvimento do futuro carro de combate. A Krupp foi contratada para construir três diferentes protótipos, com a condição que as outras fábricas participassem da produção para que todas ganhassem experiência vital na construção de tanques. Em fevereiro de 1934, a Krupp entregou o protótipo LKA1.


Tanque LKA1 Krupp

Depois dos testes, o LKA1 melhorado foi denominado Las IA Landwirtschaflicher Schlepper (Trator Agrícola, para confundir os termos do Tratado de Versalhes), entrando em produção em abril de 1934, como PzKpfw I Ausf A (modelo A). No final desse mês, quinze PzKpfw I Ausf A foram produzidos e apresentados a Adolf Hitler por Heinz Guderian. O Alto Comando Alemão especificou um número de inventário (Sonderkraftfährzeug) para o veículo: Sdkfz 101 Ausf A (mais tarde, surgiria o Ausf B, maior e mais potente, embora com o mesmo armamento).



Tanques leves Sdkfz I Ausf A e B - profiles


Em 1934, a Alemanha recriou suas Forças Blindadas, em desafio ao Tratado de Versalhes. O Sdkfz 101 Ausf A, por ser pequeno, apresentava problemas de espaço, com apenas um receptor de rádio em sua torreta. Precisando de um veículo de comando para seus dois primeiros Regimentos Panzer, o Alto Comando decidiu modificar o Sdkfz 101, removendo sua torreta artilhada e aumentando sua superestrutura para receber mais um rádio (emissor) FuG-2 e seu operador, elevando a tripulação deste carro para três. Assim nascia o Kleiner Panzerbefehlswagen 1 KLA (Carro Comando Leve 1), baseado no chassi do Sdkfz 101 Ausf A , do qual foram construídas pouquíssimas unidades (apenas seis exemplares).


Kleiner Panzerbefehlswagen 1 KLA - KlPzBfWg 1 KLA - Versão desarmada

Primeiras apresentações dos Panzers (1935) - KLA 1A lidera um grupo de Sdkfz 101 Ausf A - (Panzer Colors II - Squadron Signal Pub.)


De início, estes Carros Comando não apresentavam armamento, entrando em ação na Guerra Civil da Espanha e nos estágios iniciais da Campanha Polonesa da Segunda Guerra Mundial.


Kleiner Panzerbefehlswagen 1 KLA – Guerra Civil Espanhola

Após experiências de combate, viu-se a necessidade de se acrescentar armamento ao veículo, instalando-se uma metralhadora MG-13 de 7,92mm na porção anterior da superestrutura do veículo, que em alguns veículos, foi estendida em toda a largura do casco (KLA late).


Kleiner Panzerbefehlswagen 1 KLA (late) Espanhol - observe o armamento e a superestrutura


Kleiner Panzerbefehlswagen 1 KLA (early) - Campanha da Polônia e França - versão armada

Este veículo teve uma carreira breve, pois o chassi era curto e sub-potencializado, sendo substituído pelo Carro Comando baseado no chassi do Sdkfz 101 Ausf B. O veículo resultante foi o Sdkfz 265 Kleiner Panzerbefehlswagens 3 KLB (KlPzBfWg 3KLB).


SdKfz 265 Kleiner Panzerbefehlswagen 3 - KlPzBfWg 3 KLB



Especificações Técnicas:
Kl.Pz.Bf.Wg 1A
Peso (pronto para ação): 5,4 ton.
Tripulação: 3.

Dimensões:
comprimento: 4,02 m

largura: 2,06 m
altura: 1,72 m
altura livre do solo: 25 cm
Blindagem (espessura da blindagem em mm / ângulo de inclinação em graus):

frontal do casco: 13 mm / 22°
lateral e ré do casco: 13 mm / 22°
fundo: 6 mm / 90º
teto do casco: 6 mm / 90°
superestrutura: 13 mm / 10°
Velocidade máxima (rod.) 57 Km/h.

Autonomia:

rodovia: 145 km
off-road: 100 Km.

Capacidade de superação de obstáculos:

ângulo de subida máxima: 30°
largura de trincheira: 1,4 m
altura de obstáculo: 0,36 m
profundidade de vau: 0,58 m

Motor:

Krupp M305 (Boxer) 57hp (42 Kw) / 2500 rpm
Capacidade de combustível: 144 l.

Armamento:

metralhadora MG13 Dreyse de 7.92mm





Histórico 2



Em 1933, o Departamento de Armas do Exército Alemão lançou um requerimento para um veículo de blindagem leve que pesasse em torno de 5.000kg e que pudesse ser utilizado para treinamento. Cinco companhias apresentaram seus protótipos. Após os testes, o projeto da Krupp foi aceito para desenvolvimento, sendo a Krupp responsável pelo chassi e a Daimler-Benz responsável pelo resto da estrutura. A produção do primeiro lote de 150 veículos iniciou-se em Julho de 1934 sob a designação Pzkpfw I Ausf A com um motor M 305, Krupp, que desenvolvia apenas 57 cavalos de força. Mas, no próximo lote, Ausf B, tinham um motor mais forte, e isso significava que o veículo teria de ser mais comprido. Este modelo era um pocuo mais pesado, mas seu motor mais forte, dava-o uma velocida de 40km/h na estrada. Em 1935, 800 destes já encontravam-se em serviço.

PzKpfw I na Espanha.
 
O Panzerkampfwagen I foi primeiramente utilizado na Guerra Civil Espanhola. No início da invasão da Polônia, em 1939, 1.445 estavam em serviço. Os Alemães ja haviam notado era mal adaptado para o serviço nas linhas de frente por causa de seu baixo poder de fogo e de sua leve blindagem. Na invasão da França, em 1940, apenas 523 PzKpfw foram utilizados, ainda que muitos ainda estevissem em serviço na Alemanha e na Polônia. Em 1941, o PzKpfw I ja havia sido retirado das linhas de frente, apesar que o modelo de comando Panzerbefehlwagen I continuou em serviço.

Uma vez que o tanque leve tornou-se obsoleto, o seu chassi passou por conversões para executar outros tipos de serviços. Carregar munições e outras tipos de cargas era um de seus serviços. Uma arma tcheca de 47-mm foi instalada em alguns destes tanques e foram utilizados no Norte da África. Mas logo esta arma tornou-se obsoleta conforme os tanques tornavam-se mais blindados. Outro modelo era um que tinha uma arma de 15cm instalada em uma nova estrutura, mas por ser muito pesada, apenas 40 foram feitas.

A torre localizava-se no centro do veículo, equipada com duas metralhadoras de 7,92mm, 525 cartuchos eram carregados para cada uma. O motorista sentava-se a esquerda da torre.



Especificações do Pzkpfw I Ausf B

Tripulação: 2
Peso: 6.000kg
Dimensões: comprimento: 4,42m; largura: 2,06m; altura: 1,72m
Motor: um motor Maybach NL38TR de seis cilindros desenvolvendo 100hp
Performance: velocidade máxima na estrada: 40km/h; alcance máximo: 140km
Armamento: 2 x MG34 7.92 mm

sábado, 15 de maio de 2010

Biografia de Vasili Zaitsev


Vassili Zaitsev e Vasily Chuikov - Stalingrado

O início da 2ª Guerra Mundial foi marcado pelo avanço das tropas hitleristas na Europa. Usando-se de uma estratégia conhecida como Blitzkrieg, o III Reich ampliava suas fronteiras a cada dia, chegando à conquistar quase metade da França, ocupar a Polônia, Tchecoslováquia, Romênia, Iugoslávia, Grécia e Hungria, partindo então para cima da União Soviética em uma operação conhecida como Barbarossa(homenagem ao imperador do Sacro Império Romano-Germânico que liderou uma expedição católica contra o Leste Europeu ortodoxo). Adentrando território soviético os fascistas alemães escravizavam as populações subjugadas e marchavam em direção ao leste, chegando nos portões de Moscou e cercando Leningrado, todavia resistia heroicamente uma cidade às margens do rio Volga, tida como um dos símbolos da URSS, essa cidade era conhecida como Stalingrado.

Durante o início da batalha de Stalingrado as condições que os russos enfrentavam eram extremamente difíceis, pois os alemães queriam os campos de petróleo do sul da Rússia, do Cáucaso e o controle do rio Volga. Era uma região de extrema importância econômica, industrial e política, o que fazia com que os nazistas levassem não só infantaria bastante numerosa, mas também tanques, aviões de caça, bombardeiros, canhões e infantaria blindada. Visto que a cidade industrial de Stalingrado não tinha grande concentração de efetivos militares, as condições eram extremamente difíceis e a vitória alemã parecia iminente. Todavia os efetivos para Stalingrado foram aumentados, contando com o comando de vários generais soviéticos, unidades da NKVD e a chegada de soldados de todas as partes da URSS. Hitler chegou a declarar uma guerra pessoal entre ele e Stalin, tornando-se assim um conflito entre o Vozhd e o Fürrer.

A população civil fugia, todavia não era possível que uma boa parte escapasse, fazendo com que muitos civis sofressem com a guerra ou se juntassem à luta como partizans(guerrilheiros comunistas). Um esforço sobrenatural era feito, cada fábrica, cada casa, cada rua era disputada arduamente. Efetivos não paravam de chegar, chegou-se a fazer uma ponte alguns centímetros abaixo do rio Volga(a primeira da história), trens blindados chegavam trazendo divisões do Exército Vermelho, uma dessas, a 284ª divisão do 62º exército, trazia dentre vários soldados um pastor de ovelhas siberiano que habitava a região dos Montes Urais. Nascido em Katav-Ivanovskogo, era órfão desde cedo e foi ensinado à atirar desde os 5 anos de idade por seu avô caçador de lobos, esse grande soldado que passaria imortal para a história se chamava Vassili Grigorievitch Zaitsev("lebre" em russo), que chegava à Stalingrado no dia 20 de setembro de 1942. De feições delicadas e olhos azuis o jovem pastor de 27 anos descia no solo de Stalingrado sem um rifle, tudo o que precisava para abater os fascistas.

Devido à falta de munições muitos soldados tinham de ficar atrás de outro que tivesse um rifle para pegá-lo quando este morresse, recebendo apenas uma tira de balas. Vassili recebeu apenas as balas, mas não ficou com o rifle. Avançando pela cidade junto da sua pequena tropa(que foi facilmente vencida pelos alemães entrincheirados), Vassili escondeu-se entre os cadáveres dos seus camaradas mortos e segundo relatos do livro Enemy at the gates("O Círculo de Fogo", transformado em filme) através do camarada comissário Igor Danilov apossou-se de um rifle e atirando apenas quando soava o som das explosões(afim de que não fosse ouvido o barulho do rifle), abateu 5 fascistas que estavam em um estabelecimento próximo sem ser percebido e sem levar um só tiro, o que conquistou a atenção do camarada comissário Danilov.

Naquele momento em que o jovem soldado Vassili mostrava proezas heróicas abatendo os soldados hitleristas, o camarada Nikita Khruschev chegava à Stalingrado para cobrar dos líderes militares e dos comissários. Uma das sugestões para um melhor desempenho dos soldados, agoniados com a provável vitória das tropas do III Reich, partiu do camarada Igor Danilov, comissário e jornalista que sugeriu publicação do jornal militar novamente e a exaltação do sacrifício pessoal e a dedicação à causa comunista, mostrando como exemplo aquele que conhecera de perto, o lendário atirador de elite Vassili Zaitsev.


O Moisin-Nagant 91/30, o modelo do rifle usado por Vassili(que hoje está no museu de Stalingrado)

Tal proeza funcionou e Vassili foi promovido para a divisão dos atiradores de elite, seu nome foi publicado nos jornais militares e ainda se tornou a grande sensação das primeiras páginas do jornal "Pravda", o qual era lido por milhões de pessoas na URSS, dando grandes esperanças ao povo soviético e aos soldados do Exército Vermelho. De fato as proezas de Zaitsev eram lendárias, por exemplo, no período de apenas 10 dias ele já havia eliminado cerca de 40 oficiais alemães de alta patente, corajosa atitude essa que fizera dele também o mais falado nas rádios soviéticas e o mais popular soldado da cidade e um dos mais da URSS(senão o mais popular). Foi devido à necessidade de mais soldados como ele, que Danilov encarregou Vassili de treinar e instruir outros atiradores de elite, dentre os quais a oficial russa-americana Tatiana Tchernova, que voltou dos EUA para a URSS quando a guerra havia começado. Obcecada pelo desejo de vingança contra os nazistas que executaram seus avós, Tania perdera também seus pais durante a guerra, e por isso sob instruções de Vassili Zaitsev tornou-se uma exímia franco-atiradora, matando um grande número de soldados alemães junta com seu instrutor.

Tania Tchernova também veio a tornar-se a namorada de Zaitsev, vindo a iniciar um relacionamento duradouro. Além de Tania, Vassili também deu eficaz treinamento à outros atiradores, procurando sempre compartilhar com estes seu conhecimento e táticas que utilizava na taiga siberiana. Vassili Zaitsev era um exímio atirador de elite, com seu rifle Moisin-Nagant 91/30(na época um dos melhores do Exército Vermelho) foi capaz de abater só em Stalingrado 242 nazistas, dentre soldados, oficiais e até atiradores de elite alemães, com os quais travou árduas lutas, sendo a mais épica dessas a luta com o major alemão Heintz Thorvald, também conhecido como Major König. Esse rico caçador de veados da Bavária foi enviado apenas com a missão de abater Vasha(como também era conhecido Vassili), fato que comprovava sua fama até mesmo entre os soldados alemães, o que fazia dele um arcanjo para os soviéticos e demônio para os alemães.

Ambos assistenciados, o duelo entre o comunista pastor de ovelhas e o nazista caçador de veados seria um dos épicos episódios da batalha de Stalingrado, pois além de sua extensa duração foi marcado por momentos em que ambos estiveram próximos da morte, momentos em que a sorte esteve presente, em que a ânsia e a angústia estiveram presente nos corações daqueles que aguardavam os resultados daquele duelo, fossem civis ou militares, enquanto que com toda cautela, mas sobretudo com calma os atiradores souberam levar tal conflito. Uma das desvantagens de Vasha era o fato de que seus atos haviam sido observados, sendo levados ao conhecimento de König, daí o fato de que ninguém sabia em que lugar o major fascista iria estar. Justamente por tal fato ajudarou a Vassili um garoto russo que fazia as botas do major para fingir estar do lado alemão mas na verdade marcar os encontros do soldado do Exército Vermelho e do major da Wermatch. Além do garoto ajudou-o também Nikolay Kulikov, que conheceu o major na Alemanha durante a época do tratado de não-agressão, buscando durante dois dias sinais do alemão e observando seus hábitos.

Acompanhando Vassili, Kulikov usou-se de binóculos para scannear as linhas inimigas quando estas travavam nas ruas batalhas e desferiam ataques contra as tropas soviéticas, sempre escondendo-se em prédios ou outras edificações. No terceiro dia quem o acompanhou foi o camarada comissário Igor Danilov, que acreditando ter avistado o alemão levantou-se e levou um tiro no ombro. Zaitsev queria saber aonde o major estava escondido e sobre isso William Craig relata no livro "Inimigo nos portões" que "para testar sua teoria, Zaitsev pôs uma luva em um pedaço de madeira e a exibiu, tendo esta imediatamente recebido um tiro, quando após esse momento Zaitsev verificou e percebeu que König estava abaixo de uma chapa de ferro".

Após muito tempo de espera com a sua paciência de siberiano, Vassili finalmente estava pronto para abater o nazista, quando então seu amigo Kulikov deixou a amostra um capacete do Exército Vermelho e Konig atirou e veio a verificar se Zaitsev estava morto, mas pelo ressentimento de ter seu amigo Danilov atingido e sua namorada Tania Tchernova ferida por uma mina atirada pelos nazistas, Zaitsev com todo o ressentimento e sede de justiça esperou o major chegar perto e disparou a bala de seu Moisin-Nagant diretamente em sua cabeça. Thorvald estava morto e o camarada Vassili apanhara então seu rifle K-98 como troféu do duelo. Este foi um dos mais épicos episódios de sua vida. Após o duelo o camarada Vassili Zaitsev veio a matar vários outros fascistas que infernizavam a vida dos cidadãos de Stalingrado. Indomável e audacioso ficaria conhecido em toda a cidade por seus feitos heróicos, tanto pelos comunistas quanto pelos nazistas, por quem era tão temido. Para se ter uma idéia muitos exércitos ficaram desmoralizados pelas perdas de oficiais que Vasha matou, daí a razão de ter sido designado um "super-atirador" alemão para matá-lo.

Vassili seria designado posteriormente como comandante dos atiradores de elite, que viam nele uma inspiração e um grande professor que procurava repassar aos alunos todos os conhecimentos aprendidos. Em janeiro de 1943 Vassili Zaitsev veio a ser gravemente ferido, sendo levado para Moscou e tratado no principal hospital da cidade com o professor universitário Filatov, um dos melhores médicos do país. Zaitsev pôde no mesmo ano retornar a Stalingrado e reecontrar seus amigos atiradores de elite e sua companheira Tania Tchernova.

À pedido seu veio a atuar no front de batalha como soldado comum, demonstrando clara determinação e heroísmo de um soldado exemplar. Após Stalingrado, Zaitsev atuou em Dniestre já com a patente de capitão. Nesse período o camarada capitão veio a escrever dois famosos manuais para atiradores de elite. Condecorado com a Ordem da Guerra Patriótica, duas Ordens da Bandeira Vermelha, várias vezes condecorado com a Ordem de Lenin, além de medalhas menores, Vassili Zaitsev recebeu então a medalha da Estrela Dourada e o status de "Herói da União Soviética", vindo a ser condecorado ainda outras vezes por ser veterano de guerra de Stalingrado.

Após o término da guerra Zaitsev desmobilizou-se e passou a ser um veterano de guerra, trabalhando como diretor de uma fábrica de construção de carros em Kiev, tendo terminado esse trabalho somente em 15 de dezembro de 1991, quando apenas o corpo físico deste grande herói nos deixava, enquanto sua memória, feitos e atitudes permanecem vivos na história daqueles que tão duramente em Stalingrado lutaram, que lêem esta curta biografia e que vivem hoje nas cidades aonde Zaitsev lutou e nos deu o exemplo de que podemos com determinação, coragem, vontade de avançar, otimismo, humanismo e luta, vencer os obstáculos que nos impõem dificuldades, levar a frente a luta de classes em direção a vitória do ideal popular comunista! Vassili Zaitsev foi um grande herói que a história dos homens jamais pode esquecer e que deve permanecer sempre vivo em nossas mentes, que se manteve leal ao ideal de Lenin e Stalin à todo tempo!


Túmulo de Vasily Grigoryevich Zaitsev


Bibliografia: Za Volgoi Zemliy dlya nas ne bylo. M., 1981 i dr. - Velikaya Otechestvenaya Voyna 1941-1945: Entsik.-M.: Sov. entsiklopediya - Geroi Sovietskogo Soyuza: Kratkiy Biograficheskiy Slovar. T. I. M.: Voyeniz. 1987. - Samsonov, A. M. Stalingrad Bitva. M. Nauka. 1968 - Enemy at the Gates: The History Behind the Movie(documentário do The History Channel) - http://www.warheroes.ru

terça-feira, 11 de maio de 2010

Pogrom

Pogrom é uma palavra russa que significa "causar estragos, destruir violentamente". Historicamente, o termo refere-se aos violentos ataques físicos da população em geral contra os judeus, tanto no império russo como em outros países. Acredita-se que o primeiro incidente deste tipo a ser rotulado pogrom foi um tumulto anti-semita ocorrido na cidade de Odessa em 1821. Como termo descritivo, a palavra "pogrom" tornou-se de uso comum durante as grandes revoltas anti-semitas que aconteceram na Ucrânia e no sul da Rússia, entre 1881 e 1884, após o assassinato do Czar Alexandre II. Durante o período do nazismo na Alemanha e no leste europeu, assim como havia acontecido na Rússia Czarista, os pretextos para os pogroms eram ressentimentos econômicos, sociais, e políticos contra os judeus, reforçando o já tradicional anti-semitismo religioso.

Cidadãos ucranianos espancam um judeu durante um pogrom em Lvov. Polônia, entre 30 de junho e 3 de julho de 1941.


Os perpetradores dos pogroms os organizavam localmente, algumas vezes com o incentivo do governo e da polícia. Eles estupravam e matavam suas vítimas, além de vandalizar e roubar suas propriedades. Durante a guerra civil que se seguiu à Revolução Bolchevique de 1917, nacionalistas ucranianos, autoridades polonesas, e soldados do Exército Vermelho se engajaram em violentos pogroms na região oeste da Bielorrússia e na província da Galícia, na Polônia (atualmente Ucrânia ocidental), matando dezenas de milhares de judeus entre 1918 e 1920.

Após á chegada dos nazistas ao poder na Alemanha, em 1933, Adolf Hitler declarou publicamente que desencorajava a "desordem" e atos de violência. Porém, na verdade, a violência nas ruas contra os judeus era tolerada e até encorajada durante certos períodos, quando os líderes nazistas calculavam que a violência prepararia a população alemã para as severas medidas jurídicas e administrativas que seriam implementadas, ostensivamente para "restabelecer a ordem". As badernas violentas pelas ruas tiveram início com revoltas ocorridas em Viena após a Anschluss, a Anexação da Áustria, no mês de março. A onda de violência nas ruas, orquestradas por todo o território alemão entre os dias 9 e 10 de novembro de 1938 tornou-se conhecida como a Noite dos Cristais, o ápice de um longo período de violência esporádica contra os judeus. A Noite dos Cristais foi seguida por um dramático aumento de leis de cunho anti-semita no final de 1938 e início de 1939. Outro período de violência nas ruas ocorreu nos dois primeiros meses do regime nazista e culminou em uma lei, proclamada em 7 de abril de 1933, que demitia os judeus e comunistas de seus empregos públicos. Alguns meses antes de se anunciarem as Leis Raciais de Nuremberg, em setembro de 1935, ocorreram inúmeros atos de violência contra os judeus em diversas cidades alemãs. Tais atos envolviam a queima de sinagogas, destruição de casas e de negócios judeus,além de agressão física. A Noite dos Cristais foi, com certeza, o mais destrutivo e o mais claramente coordenado destes "pogroms".

Durante a Segunda Guerra Mundial, as Einsatzgruppen, popularmente conhecidas como unidades móveis de extermínio, receberam ordens do Chefe de Segurança da Polícia, Reinhard Heydrich, para aceitar e até mesmo incentivar as populações nativas do recém-conquistado território soviético a iniciarem pogroms. Os pogroms, em diferentes graus de espontaneidade, nas cidades de Bialystok, Kovno, Lvov e Riga completavam a política alemã de sistematicamente eliminar comunidades judaicas inteiras na União Soviética. No dia 29 de junho de 1941, enquanto a Alemanha nazista e sua companheira no Eixo, a Romênia, invadiram a União Soviética, autoridades e unidades militares romenas, por vezes auxiliadas pelos soldados alemães, mataram pelo menos 8.000 judeus durante um pogrom em Iasi, na província romena da Moldávia. No dia 10 de julho de 1941, poloneses de Jedwabne, uma pequena cidade localizada no distrito de Bialystok, antes ocupada pelos soviéticos e agora pelos alemães, participaram do assassinato de centenas de seus vizinhos judeus. Apesar da responsabilidade por este ”pogrom” não ter sido claramente estabelecida, existem documentos que provam que a polícia alemã estava presente naquela cidade durante os assassinatos.

No final do verão de 1941, o aumento de casos de corrupção, roubo, descontentamento, e reclamações, destruição de importantes recursos econômicos e a infiltração de antigos comunistas em grupos que perpetravam os "pogroms" fizeram com que as autoridades alemãs abandonassem aquela prática na Frente Oriental. As unidades das SS e da polícia alemã rapidamente purgaram as unidades auxiliares da polícia, e começaram a executar massacres sistemáticos e controlados de comunidades judaicas inteiras na União Soviética ocupada.

Apesar dos alemães terem abandonado os pogroms como uma ferramenta para a sua política de aniquilação, aqueles eventos não terminaram com o fim da Segunda Guerra Mundial. Em 4 de julho de 1946, em Kielce na Polônia, moradores locais iniciaram um pogrom contra os judeus sobreviventes que retornavam à cidade e tentavam reaver suas propriedades, já ocupadas pela população local. Multidões atacaram os judeus após ouvirem falsos rumores de que os mesmos haviam raptado uma criança cristã para sacrificá-la em um ritual religioso. Os assassinos mataram pelo menos 42 judeus e feriram cerca de 50 mais.

Caixões com corpos dos judeus assassinados durante o pogrom de Kielce. Polônia, 6 de julho de 1946.


O pogrom de Kielce foi um dos fatores que levaram centenas de milhares de judeus sobreviventes do Holocausto a migrarem do leste para o oeste da Europa. Um movimento, conhecido como Brihah, levou os judeus poloneses e de outros países do leste europeu para campos de deslocados de guerra, localizados em áreas no oeste da Alemanha e da Áustria ocupadas pelos Aliados, bem como na Itália. O medo dos violentos pogroms foi a motivação que levou a grande maioria dos judeus a sair da Europa após a Guerra.






Fotos sequenciais de um pogrom em Kovno, Lituânia, junho 25 - julho 8, 1941.

Fonte: United States Holocaust Memorial Museum 
http://www.ushmm.org

domingo, 9 de maio de 2010

Panzerfaust


Soldados Alemães com Panzerfausts e um carro de combate T-34Sovietico destruído na Batalha de Tali-Ihantala.


O Panzerfaust (punho blindado) foi desenvolvido a partir do Faustpatrone, como uma forma de prover o infante com um equipamento antitanque barato e de fácil uso – era só uma granada de carga oca, disparada de um tubo simples. Os primeiros modelos (Panzerfaust 30, 60 e 100, o número se referindo ao alcance em metros da arma) eram descartáveis, o último a ser adotado o 150, era reutilizável. Todos eles tinham capacidade mais do que suficiente para destruir o mais pesado tanque em serviço na Guerra.
Tambem chamado de arma suicida, pois as primeiras versões eram descartaveis, fazendo que o atirador estivesse muito perto do alvo e apenas um unico tiro para fazer o serviço, sendo que quase nenhum dos panzerfaust 150(os reutilizaveis) foram usados com frequencia na guerra, pois foram desenvolvido no final da guerra.

6.700.000 deles foram feitos durante a guerra, assim como 1.500.00 faustpatrones.


Dados tecnicos:

Modelo: Panzerfaust 60
Comprimento: 104,5 cm
Peso: 6,1 kg
Calibre: 50 mm (tubo lançador), 140 mm (granada)
Carga explosiva: carga oca, 800 grs.
Propelente: 145 grs
Alça de mira: fixas, reguladas para 30, 60 e 80 metros
Velocidade inicial: 45 m/s
Penetração: 200 mm





Panzergrenadiers da Divisão "Großdeutschland"


100m . No final do Panzerfaust tem instruções claras para o funcionamento e uso da arma.  As instruções incluem um aviso ou precaução (Vorsicht!)




Quatro Panzerfausts em uma embalagem original.












BU-181 usado com anti-tanque


Os diferentes modelos foram:
Panzerfaust 30: introduzido em outubro de 1943.

Panzerfaust 60 introduzido em setembro de 1944. Esta foi a versão mais amplamente utilizada.
Panzerfaust 100 introduzido em novembro de 1944.
Panzerfaust 150, introduzido em pequenas quantidades, em março de 1945. É apresentado um cabo de pistola e tubo do cartucho reutilizáveis.
Panzerfaust 250 foi uma versão recarregável que estava em desenvolvimento quando a guerra terminou.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Panzerfaust

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Cães de Guerra

 
Gene Long durante a celebração de um dia dos veteranos
 
As memórias de Gene Long, treinador de um pelotão de batedores caninos, sobre seu companheiro e missões durante a guerra :

Estava de volta ao Pacífico sul, quando Bill Barker, um de meus parceiros batedores, e eu fomos designados para a linha de frente. Na primeira noite tivemos que cavar nossos "foxholes" para nos protegermos dos bombardeios. Naquela noite de setembro, os japoneses estavam bombardeando nossas posições com granadas de morteiros, enquanto nossa companhia de morteiros de campanha fazia o possível para responder o fogo durante toda a noite. Eu estava tão assustado que me encolhi e rezei.

Na manhã seguinte, o coronel chamou os cães batedores a fim de tentar descobrir onde se escondiam os japoneses. Fomos enviados em uma patrulha de combate, onde eu e Bill éramos a vanguarda. Chegamos então a uma península na trilha Nau mu Nau ma. O tenente decidiu que deveríamos nos separar, para ampliar a área de busca, e disse a Bill que havia um ninho de metralhadora sobre a montanha, aproximadamente a meia milha do sopé. “Pegue um homem e veja se seus cães conseguem localizar a posição”, e continuou, “Long, você assume a patrulha principal de vinte homens e começa a vasculhar pela península”. Barker disse ao tenente que seu cão estava doente: ele sabia que eu já fora ferido em uma ação similar. Bill insistiu que temia que seu cão não pudesse subir a montanha... Eu o disse que na patrulha anterior eu tinha sido o responsável e que agora era sua vez. O tenente ouviu o que Bill dizia e mudou os planos. Esta alteração fez-me ter que subir a montanha para tentar localizar o ninho de metralhadora. O sargento responsável disse para que quando chegássemos (eu e meu cachorro) ao topo ou tivéssemos qualquer contato com o inimigo, entrássemos em contato pelos "walky-talkies" reportando-nos.
Marines e seus cães de guerra

Quanto mais perto nos aproximávamos do topo, mais acreditávamos que os inimigos se haviam retirado. Contatamos a patrulha lá embaixo. O sargento nos mandou procurar e observar se havia algum movimento antes de continuar nosso avanço pelo rio e em torno da península. Desci uns 750 pés da montanha, mantendo-me em contato com a patrulha, enquanto principiava a chover (o que prejudicava muito nossa visão). Esperamos durante duas horas. O sargento contatou-me novamente pelo rádio e ordenou-me verificar se tudo estava limpo, ao que respondi dando-lhe um "OK" para prosseguir pelo rio. De longe vejo Bill na vanguarda, com Garcia logo atrás. Eles haviam acabado de fazer a curva do sopé da montanha quando observei o cachorro de Bill fazer o sinal de que havia alguma coisa nas proximidades. Assim que os homens começaram a cruzar o rio o inferno caiu sobre eles. Os japoneses os haviam emboscado. Bill e Garcia foram mortos na primeira rajada. O cachorro de Bill foi ferido e correu desesperadamente para a curva. Os homens mergulharam no rio tentando se salvar. Eu me vi morrendo e sendo despedaçado pelo fogo das metralhadoras. A mudança na ordem da patrulha, com Bill, salvara minha vida.

Mais tarde, eu e meu parceiro voltamos pela montanha, de volta à posição original. Os japoneses nos haviam arrasado. Somente depois de escurecer conseguimos reforços e cavamos nossas trincheiras. Abríamos fogo em qualquer coisa que víssemos naquela direção. O rio começara a transbordar de seu leito e isto nos forçou a retroceder. Encontrei "Tuffy", o cachorro de Bill, alguns metros abaixo. Ele fora atingido no focinho. Mediquei-o e o levei de volta ao acampamento onde os outros treinadores já sabiam que um dos homens fora morto. Ao chegar ao acampamento, todos os meus homens estavam esperando impacientes e correram para mim chorando e me abraçando. Eu nunca esquecerei este momento enquanto viver. Era isso que significa a insígnia que usávamos - Veteranos: amor fraternal até o dia de nossa morte.

Mais tarde em minha vida, fui internado em um hospital psiquiátrico, pois não conseguia me eximir da culpa de que minha decisão havia causado a morte de Bill e Garcia. Tentei esquecer esse fato, mas ele me persegue sempre quando vejo nossa insígnia e lembro como rezamos pela vida naquele dia. Ela sempre me traz de volta memórias desagradáveis. Eu só tinha dezenove anos. Amém.

Nossos cães, 1944

Quando deixamos Frisco a bordo do USS John Isacson, os cães tinham celas especiais. Tínhamos pequenas caixas que deveríamos utilizar para que os animais se aliviassem. Os cães estavam no auge da sua forma antes de embarcarmos, pois os comandantes haviam nos dito o que esperar quando chegássemos ao nosso destino.

No navio, os cachorros deviam ser retirados das jaulas e exercitados no fundo da embarcação. Os cachorros de ataque tinham que ser agitados constantemente para mantê-los treinados. Tudo que fazíamos a bordo do navio, a respeito dos animais, era altamente confidencial. Cada homem só podia cuidar de seu próprio cão. Nenhum outro soldado, aparte os treinadores, era permitido na área do canil. Aos cachorros era dado do bom e do melhor. Seu bem estar era muito importante.

Doberman de guarda enquanto o fuzileiro dorme no abrigo, que os donos chamavam de "foxhole" .

Quando chegamos a nosso destino, Guadalcanal, os cães estavam muito agitados por ver novamente uma árvore depois de 32 dias no mar. Éramos o 25º Pelotão de Cães de Combate e nossa unidade consistia de 27 homens e 30 cachorros. Fomos primeiramente anexados à 298ª Companhia Filipina e Havaiana. Nossa tarefa principal era expulsar os japoneses desgarrados da floresta. Cada homem tinha que ficar ao lado de seu cão o tempo todo. Quando estávamos na linha de frente, tínhamos que cavar abrigos grandes o suficiente para nós e os cães. Essa era uma tarefa complicada para mim, pois meu cão, Bim, era um Pastor Alemão de 55 Kg. Tínhamos que alimentar e dar água para os animais dentro dos "foxholes" e os amarrávamos aos nossos braços na hora de dormir.

Eles foram ensinados a não latir, não obstante, estavam sempre alerta. Quando a nossa ração escasseava, os cachorros deveriam comer dia sim, dia não; mas eu, amando os cães como amava, sempre dividia qualquer naco de comida que possuísse com meu amigo canino. Quando saíamos em patrulha, eu tinha que carregar a comida dele e a minha própria nas costas; quando estávamos na selva, caso ele se cortasse, tínhamos que fazer um curativo, pois do contrário, fungos poderiam infectá-lo, causando doenças e podendo até mesmo matá-lo. Suas orelhas eram outro ponto que necessitava de muita atenção, pois as moscas ali pousavam e as mordiscavam, éramos, portanto, obrigados a sempre colocar repelentes nelas. Na verdade nós mesmos tínhamos que nos impregnar de repelente para evitar as mordidas dos milhões de insetos que habitam as selvas do Pacífico.

 Foto 1: Treinamento de um cão de ataque.    /      Foto 2: Descendo o cachorro para o bote.


Campo de Lejeume, treinamento de desembarque, 1943.


Fuzileiro e um cão de guerra da raça Doberman na ilha de  Saipan, 1944.

Depois de dois meses em Guadalcanal, fomos enviados para Bougainville, também nas ilhas Salomão, sendo anexados à 37ª Divisão de Infantaria. A ilha de Bougainville possui vários vulcões, que provocam horríveis terremotos muito freqüentemente. O primeiro que presenciei, assustou-me de morte. Nossa primeira baixa desde a chegada a este novo setor foi a de dois dos melhores cães mensageiros. Durante um dos tremores, uma árvore caiu sobre o canil e feriu vários animais, matando os dois. Ainda guardo fotos dos animais que morreram neste dia.

Quando íamos para a trilha Nau Mau Nau Mau, onde as linhas de frente se localizavam, éramos transportados pelos caminhões do exército. Os cães eram treinados para não brigarem com os outros cachorros e não morder as tropas amigas, porém a ninguém, exceto o seu próprio treinador, era permitido acariciá-los. Os cães eram ensinados a somente atacar quando estivessem com suas coleiras especiais, que colocávamos neles somente quando chegavam nas linhas de frente. Os cachorros trabalhavam mais nas tarefas de guarda de abrigos e patrulha noturna, onde tinham grande vantagem devido aos seus sentidos apurados e por estarem sempre alerta. Cada movimento ou cheiro diferente representava o inimigo.

Nessas incursões pela linha de frente os cães perdiam muito peso. Da mesma forma que a comida dos treinadores era escassa, também era a deles. Uma das coisas mais importantes a fazer era manter o focinho dos nossos companheiros úmido. Para tanto, colocávamos alguns goles de água de nossos cantis no capacete e os dávamos de beber. Conforme o tempo passava nas linhas de frente, os animais se tornavam mais irritadiços devido ao calor sufocante, insetos e a falta de comida e água, mas ainda assim conseguiam se manter alerta e pacientes. Fazer com que os cachorros se aliviassem era outro problema que enfrentávamos, pois tínhamos que montar escalas a fim de não atrair a atenção do inimigo e manter a guarda.

Quando nós voltamos das linhas de frente, lhes dávamos grandes recompensas: carne de cavalo, bastante liberdade, e os deixávamos nadar no oceano. A água salgada era boa para os cortes e contusões. O cachorro, uma vez que tira a coleira de trabalho, torna-se novamente dócil e controlado. Nós deixávamos vários correrem juntos e brincarem de brigar. Nós os protegíamos com nossas vidas, da mesma forma que eles faziam conosco.

Marines e seus cães em Guam.

Na retaguarda, os cachorros eram sempre re-treinados. Eles tinham que ser capazes de rastejar próximo ao treinador e ainda assim se manter sob comando: ficar em silêncio, atacar quando ordenado ou quando alguém tenta chegar perto de você. Os cachorros mensageiros faziam um excelente trabalho. Eles eram ensinados a cheirar um trapo que contivesse óleo de linhaça - o treinador sempre levava este trapo quando saía em patrulha - e um colarinho especial era colocado, para que ele pudesse carregar uma mensagem. Quando saíam em patrulha, se fôssemos emboscados, era dita a palavra: "relatório" (N.T.: "report") para o cão. Ele, então, seguiria o cheiro de linhaça pelo caminho percorrido, até o local do acampamento. Eu vira vários desses cães mensageiros com as patas sangrando e hemorragias no rabo, feitas nas videiras afiadas e pedras.
Ao cumprir sua tarefa, todo cachorro era recompensado com um pedaço de carne e um elogio. Elogio é outra coisa muito importante em treinamento de animais. O treinamento básico para cães mensageiros consistia em correr em um caminho de um lado para outro. Treinadores estavam em cada extremo. Durante as corridas de uma ponta a outra do percurso, eles eram agitados e os treinadores tentavam persuadi-lo a abandonar a tarefa. Quando finalmente completavam o percurso por várias vezes, os treinadores os consideravam aptos. Alguns eram treinados a carregar um pombo, para o mesmo propósito de levar mensagens. O treinamento desses animais requer um bocado de paciência. Depois de uma corrida de teste nas montanhas de San Carlos, Califórnia, eles eram avaliados tanto em velocidade como resistência, estando então prontos para o combate.

Patrulha, 1944

Estávamos em Bougainville, ilhas Salomão. Bim, meu fiel cão batedor, e eu fomos convocados para ir à vanguarda da 37ª Divisão de Infantaria. Devíamos encontrar a tropa em certo local antes de avançar para a linha de frente. Fomos deixados próximos a um rio, onde o sargento ordenou que aguardássemos, pois eles chegariam a qualquer momento. Já se passara uma hora e ninguém se aproximava, portanto decidimos a seguir para o norte, subindo uma montanha. Logo estávamos perdidos em território inimigo, acredito que andáramos cinco ou seis milhas. Subitamente Bim ficou em alerta e eu me joguei no chão, achando que poderiam ser soldados japoneses se aproximando. Ouvi um chamado de "Isqueiro" (N.T.: "Lighter") e então silêncio. Por sorte, sabia a senha, se tratava de nossas tropas. Gritei rapidamente "fluído de isqueiro" (N.T.: "lighter fluid"), a contra-senha, caso contrário poderia ser atacado. Eles especulavam o que acontecera comigo, mandando então uma patrulha para me procurar, "graças a Deus".

No dia seguinte, fomos enviados em patrulha por uma trilha próximo ao Rio Torakina. Foi-nos dito que havia um ninho de metralhadoras nas imediações. Andamos por quatro milhas em torno da montanha sem nenhum contato com o inimigo. Meu segundo batedor, um australiano, pediu que esperássemos um tempo por ali até que o restante dos homens nos alcançassem. De repente, Bim levantou as orelhas em postura de alerta, mas eu não ouvia qualquer ruído. Eu disse a Brown, o australiano, que daria uma olhada e segui uns 30 metros a frente. Neste momento Bim postou-se em posição de alerta total. Lá em cima vi um japonês alto perscrutando a montanha na minha direção. Deitei-me o mais discretamente possível. Se não fosse por Bim, todos teríamos sido mortos. Comecei a rastejar lentamente para trás, sabia que havia alguém ali. Foi quando começaram a atirar na minha direção. Eu e Bim nos colamos ao solo, as balas passavam zunindo sobre nossas cabeças. O australiano gritou para que eu corresse em direção a ele, pois ele me manteria coberto. Bim e eu corremos como loucos, zigue-zagueando, conforme aprendera no futebol (N.T.: futebol americano, "football"). Brown mantinha fogo contínuo e todos os outros soldados (que já haviam se aproximado o suficiente de nós) começaram a disparar suas armas enquanto eu corria para salvar minha pele.

Um dos nativos que carregava nossos suprimentos largou uma grande caixa e, correndo, não a vi. Tropecei nela com muita força e quase quebrei a perna. Pensei que havia sido atingido e que não podia me mexer. Bim deitou-se ao meu lado e eu o agradecia por não me deixar sozinho lá.
 Fuzileiros câes de guerra em  Bougainville.

Enquanto isso, granadas de morteiro de nossa patrulha destruíam o ninho de metralhadora. Quando os soldados chegaram ao topo da montanha, havia corpos japoneses espalhados por todos os lados. Nenhum de nossos homens foi morto, somente uns três ou quatro se feriram.

Fui levado para a planície nas costas de um dos nativos. Bati tão forte na caixa que não consegui andar. Meus joelhos estavam em carne viva e, olhando para Bim, notei que ele havia cortado as patas e também sangrava. Rasguei parte de minha camisa e limpei suas patas com a água de meu cantil, colocando, a seguir, iodo nos machucados. Ele era mais forte do que eu e continuou caminhando ao meu lado, mancando levemente.

Mais tarde, ao chegar em nossa área de acampamento, os médicos tomaram conta das minhas pernas, no entanto, fiquei sem poder andar por alguns dias. Os veterinários também cuidaram das feridas de Bim.

Todos os homens da patrulha vieram até nós agradecer e dizer que Bim era seu herói. Todos vieram afagá-lo por salvá-los de uma emboscada certa.


O herói sem condecorações

Depois que eu e meu cão, Bim, nos recuperamos dos ferimentos nos pés/patas e pernas, fomos mandados de volta para fazer guarda em um entreposto da infantaria.

Eu sempre tinha que cavar um abrigo para mim e Bim, mas a parte mais difícil era convencer Bim a fazer suas necessidades do lado de fora de nosso "foxhole". Eu o colocava em um dos lados enquanto ele se esforçava por "se aliviar". Lembrem-se também que na linha de frente, nem os combatentes humanos possuem banheiros.

Era muito desagradável quando os ratos tentavam entrar em nossa trincheira se havia qualquer sinal de comida. As moscas estavam sempre voando em torno dos olhos dos cães. Os mosquitos se banqueteavam em nossa pele o dia inteiro, até o dia em que peguei malária. Não conseguia levantar de meu buraco, chorava e ardia em febre. Bim sempre estava ao meu lado, tentando me confortar e protegendo-me.
Depois do que me pareceu uma eternidade, um dos médicos carregou-me até uma cratera, onde cuidavam dos feridos. Fui então levado, de maca, em um caminhão, ao hospital do setor. Bim foi levado ao canil da companhia. Por dias estive internado com disenteria, perdendo muito peso (cheguei a 54 quilos). Um outro treinador assumiu a "tutela" de Bim. Meus dias de batedor estavam terminados.


Lápide do cemitério dos fuzileiros caninos da 2ª Guerra

Mais tarde, o 25º foi enviado às Filipinas, onde desempenhei o papel de guarda - sem o cachorro - quando a febre voltou. Fui mandando para um hospital militar na Nova Guiné e estava prestes a voltar para casa quando me trouxeram Bim para se despedir. Eu caí de joelhos, beijando-o no focinho e chorando. Mas que despedida final dolorosa foi aquela. Quando subi no caminhão, ele começou a latir e tentava vir atrás de mim; nunca, enquanto viver, me esquecerei do seu olhar de "não me abandone".

Anos mais tarde eu soube que ele lograra voltar aos Estados Unidos, onde falecera. Estou certo de que se há um paraíso para os cães, Bim estará lá. Agora posso descansar em paz. Tenho 70 anos e sempre quis escrever sobre esses verdadeiros heróis que foram os cachorros marines.

Por Gene Long

Para ver mais fotos dos cães de guerra:
 http://community-2.webtv.net/Hahn-50thAP-K9/K9History4/

A partida

Rubem Braga : durante a Segunda Guerra Mundial atuou como correspondente de guerra junto à F.E.B. (Força Expedicionária Brasileira).


Setembro, 1944

Escrevo do Rio, em uma tarde de setembro de 1944. Não, isto não é mais o Rio. Depois que subimos a escada de bordo, vergados ao peso das malas, não mais estamos no Rio. O Rio está bem ali perto, atrás do feio armazém sujo; e está definitivamente longe. Os americanos da tripulação entram em forma: pela última vez antes da partida têm licença para sair: irão à Praça Mauá, à Glória, ao Beach Club. Um oficial passa-os em revista, lentamente. Um deles leva uma caixa debaixo do braço. É, certamente, um presente. Leio o rótulo: ''Ilusão - Meias de Seda''. Ele desce três degraus, volta-se para a popa, faz uma continência à bandeira americana e dispara escada abaixo. Outros homens, centenas, milhares de homens, sobem por várias escadas para os navios. Vistos do alto parecem estranhos bichos verdes, formigas humanas, cada um carregando um grande saco verde às costas, subindo lentamente. Vamos para o outro lado, olhamos a água suja e quase imóvel. A tarde cai. Vejo, boiando na água, um gorro de marinheiro. É triste, esse gorro branco perdido na água suja do cais: faz pensar em abandono, em afogamento.
Os homens sobem para os navios. Sobem por várias escadas, em fila indiana; sobem lentamente. Passam-se os minutos, as horas, os dias, os anos, os séculos, e o navio não sai. Os homens sobem. No salão há ordens, organização da rotina de bordo, leitura de regulamentos, e conversa. A esta hora, eu... A esta hora, lá em casa... A esta hora, ela... Mas é absurdo: Estamos falando do Rio como se estivéssemos longe. E estamos aqui, estamos no Rio. Na verdade estamos presos.

Nem mesmo os oficiais podem ir ao convés que dá para a terra. Ninguém deve ficar ali, para não perturbar a faina do embarque. Arranjo uma licença, vou ver os homens de perto. Não estão tristes nem alegres: sobem calados, aparentemente muito preocupados com a bagagem e a ficha que cada um carrega e que indica o seu lugar a bordo.

E como não há ninguém se despedindo de ninguém no cais, ninguém chora nem ri. Faz calor, e isso é aborrecido. Há quantos anos estamos a bordo? Hoje é segunda-feira ou março de 1953? Os compartimentos dos praças e os camarotes dos oficiais se enchem. Esperamos, esperamos. E lá fora, na cidade proibida, passa o tempo, a ronda das estrelas e da lua e do sol, e as mulheres que vão e vêm, a vida que vai e volta, e nós estamos eternamente neste enorme navio imóvel.

E como o Brasil é uma grande aldeia, descubro ligações. No beliche embaixo do meu vejo uma cara conhecida, não sei de onde. Ele diz que se chama Renato, é do Banco do Brasil, e afinal apuramos que nos conhecemos de vista: somos ambos "inocentes do Leblon", colegas dos ônibus 66 e 67. No primeiro beliche à minha direita - 90 centímetros a boreste - estica-se um jovem tenente desconhecido; mas logo fico sabendo que é casado, há alguns meses, com Jussara, aquela menina loura de minha terra, filha, pelos dois lados, de gente de Cachoeiro de Itapemirim. Pesa sobre mim a terrível ameaça da Justiça Militar: o beliche bem acima do meu verga-se ao peso sensacional do jornalista capitão Amador Cisneiros, promotor militar.

Deus quis certamente proteger este tão degradado filho de Eva: entre os 18 homens do meu camarote há sete santos homens: cinco padres católicos e dois pastores protestantes. Se eu morrer aqui, se um torpedo me estraçalhar, se Amador Cisneiros me esmagar, morrerei em grande odor de santidade.

Se este navio não sair amanhã, enjoarei.

O Presidente da República vem se despedir da tropa: depois vem o arcebispo. Alguém traz jornais: avançamos para eles com ares famélicos, como se estivéssemos há anos longe da pátria. E temos licença para escrever cartas; tristes cartas que só serão entregues, a alguns quilômetros daqui, depois que o navio chegar à Europa.

Às seis horas da manhã o pessoal do camarote começou a se arrumar depressa: o navio está saindo! Subimos para o convés superior. Todos correm alegremente; o armazém odioso sumiu, estamos navegando, a cidade se desenrola aos nossos olhos, avançamos pela baía. Olhamos a cidade, mas de repente entramos numa cerração e não vemos coisa alguma. O fotógrafo, decepcionado, pragueja. Depois paramos novamente. Passa o tempo. Afinal o navio se move. Agora vamos. "A cobra fumou!" Durante meses todos hesitamos: a cobra fumará? Na tropa não se falava de outra coisa: a cobra não vai fumar, quebraram o cachimbo da cobra etc., etc. E essa cobra mitológica, essa cobra de gíria obscura dos cariocas, está finalmente fumando. Isso quer dizer: vamos mesmo, estamos saindo. "A cobra fumou”.Lá vamos pelos mares, para a guerra, para voltar ou não voltar, pouco importa; o que importa é que a "cobra fumou". E os piores praças, os mais rebeldes, os que sumiam de repente, os que nunca chegavam na hora, todos estão presentes. Não faltou um só homem, não houve uma só vaga tentativa de deserção. Os homens que vieram de reserva voltaram do cais, não havia lugar para eles a bordo, porque na hora da "cobra fumar" todo mundo compareceu.

Adeus, Rio de Janeiro! Adeus, oh! Clara, oh! Magnânima, oh! Soberba e leal cidade do Rio de Janeiro. Uma barca da Cantareira passa perto, e alguém me chama a atenção: "veja, é a Quinta! É a QuintaColuna!” As fortalezas, embandeiradas, nos desejam boa viagem. Homens que passam em lanchas acenam adeus. A voz gordurosa de um padre, ampliada pelo alto-falante de bordo, convida-nos a erguer os olhos para Deus. Mas olhamos a cidade, olhamos obstinadamente para a Cidade dos Homens. Que Cidade dos Homens sobre a terra é mais humana que vós, Rio de Janeiro? Todos cantam o Hino Nacional. Alguns homens correm para bombordo; é a turma de Niterói que se despede. Mas antes de passarmos o Pão de Açúcar e de se desdobrar aos nossos olhos Copacabana, vejo uma tocante despedida. O comboio de navios enormes passa junto de um pequeno barco de pesca. Um pescador solitário fica em pé e acena com a mão. Seu barquinho balança fortemente com as ondas que os navios vão formando. Mas ele continua de pé, acenando lentamente a mão. Olho-o por um binóculo: é um velho pescador de camisa esfarrapada. Entre os monstros armados do oceano, sua canoa é humilde e frágil, mas ele tem uma estranha imponência. E fica lá para trás, indiferente aos balouços fortes da canoa, de pé, acenando lentamente a mão como quem cumpre um dever, como quem transmite sua pobre mensagem. Uma grande mensagem.

Setembro, 1944

A bordo, o oficial ou praça que trabalha come três vezes ao dia; quem não trabalha come duas vezes. Quem come duas vezes faz o pequeno almoço as nove e o jantar às quatro da tarde. Os americanos resolveram abrasileirar a comida, mas a comida foi mal traduzida. Não é comida brasileira nem americana; é, provavelmente, a comida típica de alguma parte do Atlântico. Come-se.

O que impressiona a bordo é a limpeza. O comandante americano, tenente-coronel McNair, declarou que tem transportado muita tropa nesta guerra e até agora não transportou nenhuma tão limpa e disciplinada como a nossa. Não sei se é costume dele dizer isso, mas que há limpeza há. Às 10 da manhã há inspeção geral dos camarotes e compartimentos. Há prêmios para o compartimento mais limpo e bem-arrumado, e os praças disputam esses prêmios. Como todos estão rigorosamente em ordem, a imaginação trabalha para ganhar o prêmio: os homens começam a enfeitar seus compartimentos, inventam coisas, dispõem os cobertores em V da Vitória. Os mais desleixados são vigiados pelos mais cuidadosos. O homem que acende um cigarro num camarote é imediatamente impedido de fumar pelos outros, porque só se pode fumar no banheiro ou no convés. E esses homens quando fumam fazem esta coisa absurda: jogam os palitos de fósforos e os tocos de cigarro exatamente nos cinzeiros ou nas latas de lixo.


Rubem Braga (esquerda em pé) com os correspondentes de guerra da FEB em 1944

Depois do equador ninguém enjoou mais. O "moral da tropa" ergueu-se. Os praças formam choros e cantam sambas e canções. Os oficiais fazem o mesmo, porém com menos bossa. Pelas seis horas fecha-se o navio; ninguém mais pode ir ao convés. As seis e meia funciona o "cabaré da Cobra”. Tem números variados, mas num cabaré há duas espécies de coisa que sempre fazem alguma falta - senhoras e álcool. A proibição de beber foi rigorosamente seguida: não entrou a bordo uma gota de cachaça sequer.

Às sete e meia os oficiais têm direito a uma sessão de cinema. O salão fica mais cheio do que qualquer "poeira"; há gente sentada no chão e gente trepada nas cadeiras. Não há legendas em português, e quem não entende pergunta a quem entende o que é que houve na tela.

Pelas nove e pouco acaba o cinema e logo depois se apagam as luzes do salão, ficando só algumas lâmpadas vermelhas muito fracas.

É hora de dormir. Nas noites de calmaria, isso era difícil. Os banheiros enchiam-se, e, depois, os oficiais, uns em calças de pijama, outros em calção de física, vinham para o salão, onde se pode fumar e conversar. E ali ficavam conversando na penumbra avermelhada, até o sono bater.

Descobriram que nos corredores e escadas sempre há algum vento. E na noite mais quente da viagem formaram-se essas filas que o carioca não conhece, e que devem servir de consolo aos que esperam o ônibus, a carne ou o leite; as filas do ar...

E enquanto estamos trancados aqui na escuridão avermelhada, lá fora é a noite.

Desde que o navio saiu não vimos mais a noite. A noite nos é proibida, com sua lua e suas estrelas. Navegamos para outro hemisfério.Certamente a lua está ficando mais cheia, noite após noite. Certamente algumas constelações morreram para as bandas do sul; o Cruzeiro deve ter mergulhado nas águas. Certamente estrelas virgens para os nossos olhos subiram do horizonte. Não sabemos. Fumamos na escuridão, trancados, e conversamos sem vontade e sem fé. Uma noite, correndo os compartimentos do navio, subindo e descendo escadas, vi de repente uma estranha claridade azul. Eu estava sozinho e não havia ali nenhum PM - o polícia militar que está a todo o momento em toda parte dizendo o que devemos fazer e por onde devemos seguir, e principalmente o que NÃO devemos fazer, por onde NÃO devemos seguir.

Hesitei um instante e galguei a escada estreita e escura. Tropecei numa soleira e dei mais dois passos. Aquela desconhecida claridade azul era a noite. Saltei para o ar livre sem fazer ruído. Um guarda estava ali perto, no convés, mas não me pressentiu. Há 10 dias eu não via a noite: lá estavam as estrelas e em alguma parte devia estar a lua, porque o céu era azul. Noite! Livre noite sobre a terra e sobre o mar, noite nas montanhas e no charco, no deserto e na rua, abençoada sede! Os homens que fumam cachimbo na triste escuridão vos saúdam: do fundo de nosso torpe salão vos abençoamos, oh! Lua, oh! Nuvens, oh! Estrelas do norte, oh! Grande noite azul.

Setembo, 1944

O soldado inglês é um tommie, o francês é um poilu, o brasileiro é o pracinha. Agora o pracinha vai para a guerra. O pracinha está num compartimento onde há muitos pracinhas. Há um pracinha no beliche de lona embaixo do seu e há dois pracinhas nos dois beliches acima do seu. Dentro do compartimento, a bombordo, a boreste, a ré, a vante, por baixo e por cima, há mais 379 pracinhas empilhados, todos seminus. Abaixo daquele, há outro compartimento, e abaixo desse outro há ainda outro, e acima e ao lado há outros compartimentos, todos absolutamente cheios de pracinhas do chão ao teto. Mas o pracinha mal pode ver dois ou três companheiros. As luzes foram apagadas, e só restam algumas baças lâmpadas vermelhas. Um americano me explicou o uso da luz vermelha dentro do navio trancado: a luz branca ou azul ou de qualquer outra cor apresenta grandes inconvenientes para o homem que subitamente tem de sair do interior do navio para ocupar seu posto em algum canhão ou metralhadora. Ele levará muito tempo sem conseguir enxergar nada na escuridão do mar. Se, porém, sai de um ambiente de luz vermelha, seus olhos em poucos segundos estão funcionando tão bem como se ele já estivesse há muito tempo na escuridão.

O pracinha não sabe de nada disso. Apenas vê, nas ilhas de fraca luz rubra que são vagas manchas de sangue na grande escuridão, vultos de dois ou três companheiros mais próximos. A luz vermelha espelha-se nos corpos suados. Faz um calor infernal: estamos na zona das calmarias, e quem não está de cuecas está de calção de ginástica.

Antes, pouco depois que se saiu do Rio, havia vento forte, e uma parte da tropa enjoou horrivelmente. Havia pracinhas chegados há pouco tempo do interior e que nunca tinham visto o mar em sua vida; e alguns, com o perdão da palavra, "restituíram" até a alma. Mas isso em certos lugares: não para fora do navio. Não se pode lançar nada fora do navio, nem uma ponta de cigarro; os detritos são jogados fora a uma hora certa, ao escurecer. Dizem que já houve o caso de transportes de tropas que foram seguidos pelos submarinos que se guiavam pelos detritos lançados ao mar.

O pracinha só mexe em seu beliche. São 10 horas, e às nove e meia deu o toque de silêncio. Que calor! Durante o dia o mar esteve parado, chato, como se fosse de aço mole, e do céu vinha um mormaço geral.

Foi evitando essas calmarias que Cabral descobriu o Brasil - diziam os compêndios de meu tempo. Eu também seria capaz de descobrir qualquer coisa, fosse o que fosse, para fugir a essa calmaria. O pracinha também descobre uma fuga: tomar banho.

O banheiro é grande, mas está cheio. Dezenas, centenas de pracinhas nus e seminus estão nos banheiros iluminados; são pretos, brancos, mulatos, amarelos, de todas as cores do Brasil e do mundo. Há muitos chuveiros de água salgada e apenas um de água doce em cada banheiro. Isso também é a única vantagem que pracinha leva sobre oficial, que não tem chuveiro de água doce. O pracinha toma banho e, saindo da claridade do banheiro, mergulha outra vez na escuridão do compartimento, tateando entre as pilhas de corpos nus, arrastando seu salva-vidas. É um pesado colete de lona impermeável cheio de paina, que a gente tem de carregar dia e noite. É grosso, incômodo, sujo. Uns o chamam de "pára-quedas" outros de "tatu", outros, mais elegantes de “renard”.

O pracinha consegue, afinal, acertar com o seu beliche. Amarra o salva-vidas ao lado do saco verde e sobe. E sua.

Sua-se, meus senhores, sua-se aos litros, sua-se aos potes, sua-se a cântaros neste navio trancado. Há ventiladores, há sistema de renovação do ar, e tudo isso é muito interessante. Mas o pracinha sua. Seu corpo está pegajoso, porque ele só conseguiu tomar banho de água salgada, e o sal do suor se mistura com o sal da água do banho, e o pracinha não pode dormir. Na escuridão de raras manchas rubras, ele fica pensando na vida - e, ocasionalmente, na morte. Se a distinta senhora minha leitora descesse àquele compartimento desmaiaria; é, à primeira vista, fúnebre. Aquela pretidão com manchas de sangue no ar, os homens em inumeráveis pilhas de quatro, quase nus, suando. Mas, coragem, minha senhora. Estamos no 203. Desçamos ao 303. Mais uma escada, senhora: vamos ao 403, e agora acabamos nossa viagem; é só ir ao 503. Porque além do C-503-L não há mais nada, é o próprio fundo do mar. E a escada que desce para o C-503-L é diferente das outras; ela se abre de repente, como um alçapão, dando para o profundo escuro baixo abismo, no fundo de outras escuridões que se acumulam negras lá para cima; além, mais uma escada e escuridão, e outra escada e escuridão, e outra escada e escuridão, e em cada escuridão, homens, homens e homens empilhados do teto ao chão, suando, suando, suando. Assim é o C-503-L.

Mas o pracinha agüenta. Arranja-se mais um ventilador, desce-se um cano de lona que traz ar. O pior é a impressão. E o pracinha guarda para si mesmo as suas impressões. Se tem medo, não diz. Vai para lá e fica. Depois se acostuma. Quando descobre que está vivo, e afinal de contas tem ar para respirar, e banheiro para tomar banho, se acostuma. Ali, naquele mesmo beliche onde está esticado o corpo suado do nosso pracinha, já esteve o corpo de um soldado americano que ia atravessando o Atlântico para leste, ou o Pacífico, para oeste, para lutar. Ali já esteve o corpo de um soldado francês que ia lutar pela sua terra escravizada. Ali já esteve o corpo de um italiano que ia preso para a América, depois de lutar pelo seu Duce ridículo. Este navio tem andado por muitos mares e levado muitos homens para a guerra ou para a paz. Na pobre lona onde se agita o nosso pracinha, agitaram-se, nestes últimos anos, sonhos e pesadelos, resmungos em várias línguas de homens de várias espécies. Alguns estão mortos; outros estão lutando, ou metidos em campos de concentração: ou gemendo em hospitais. O pracinha talvez não saiba disso. No meio dessa grande e tormentosa humanidade, o pracinha é um homem, é apenas um homem.

E agora ele vai dizer a sua palavra, vai intervir, como homem, no destino da humanidade. Saiba ou não saiba disso, o pracinha vai.

E isso é o que serve.

Amanhece. O pracinha toma banho, faz seu pequeno almoço, sobe para o convés, para o ar livre. Há espumas no mar, acabou-se a calmaria, não haverá mais calor. O navio marcha. E com o navio marcha o pracinha, marcha para as neves onde vai lutar por um mundo em que ninguém mais precise viajar no compartimento C-503-L.

Por Rubem Braga
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