sexta-feira, 7 de maio de 2010

Cães de Guerra

 
Gene Long durante a celebração de um dia dos veteranos
 
As memórias de Gene Long, treinador de um pelotão de batedores caninos, sobre seu companheiro e missões durante a guerra :

Estava de volta ao Pacífico sul, quando Bill Barker, um de meus parceiros batedores, e eu fomos designados para a linha de frente. Na primeira noite tivemos que cavar nossos "foxholes" para nos protegermos dos bombardeios. Naquela noite de setembro, os japoneses estavam bombardeando nossas posições com granadas de morteiros, enquanto nossa companhia de morteiros de campanha fazia o possível para responder o fogo durante toda a noite. Eu estava tão assustado que me encolhi e rezei.

Na manhã seguinte, o coronel chamou os cães batedores a fim de tentar descobrir onde se escondiam os japoneses. Fomos enviados em uma patrulha de combate, onde eu e Bill éramos a vanguarda. Chegamos então a uma península na trilha Nau mu Nau ma. O tenente decidiu que deveríamos nos separar, para ampliar a área de busca, e disse a Bill que havia um ninho de metralhadora sobre a montanha, aproximadamente a meia milha do sopé. “Pegue um homem e veja se seus cães conseguem localizar a posição”, e continuou, “Long, você assume a patrulha principal de vinte homens e começa a vasculhar pela península”. Barker disse ao tenente que seu cão estava doente: ele sabia que eu já fora ferido em uma ação similar. Bill insistiu que temia que seu cão não pudesse subir a montanha... Eu o disse que na patrulha anterior eu tinha sido o responsável e que agora era sua vez. O tenente ouviu o que Bill dizia e mudou os planos. Esta alteração fez-me ter que subir a montanha para tentar localizar o ninho de metralhadora. O sargento responsável disse para que quando chegássemos (eu e meu cachorro) ao topo ou tivéssemos qualquer contato com o inimigo, entrássemos em contato pelos "walky-talkies" reportando-nos.
Marines e seus cães de guerra

Quanto mais perto nos aproximávamos do topo, mais acreditávamos que os inimigos se haviam retirado. Contatamos a patrulha lá embaixo. O sargento nos mandou procurar e observar se havia algum movimento antes de continuar nosso avanço pelo rio e em torno da península. Desci uns 750 pés da montanha, mantendo-me em contato com a patrulha, enquanto principiava a chover (o que prejudicava muito nossa visão). Esperamos durante duas horas. O sargento contatou-me novamente pelo rádio e ordenou-me verificar se tudo estava limpo, ao que respondi dando-lhe um "OK" para prosseguir pelo rio. De longe vejo Bill na vanguarda, com Garcia logo atrás. Eles haviam acabado de fazer a curva do sopé da montanha quando observei o cachorro de Bill fazer o sinal de que havia alguma coisa nas proximidades. Assim que os homens começaram a cruzar o rio o inferno caiu sobre eles. Os japoneses os haviam emboscado. Bill e Garcia foram mortos na primeira rajada. O cachorro de Bill foi ferido e correu desesperadamente para a curva. Os homens mergulharam no rio tentando se salvar. Eu me vi morrendo e sendo despedaçado pelo fogo das metralhadoras. A mudança na ordem da patrulha, com Bill, salvara minha vida.

Mais tarde, eu e meu parceiro voltamos pela montanha, de volta à posição original. Os japoneses nos haviam arrasado. Somente depois de escurecer conseguimos reforços e cavamos nossas trincheiras. Abríamos fogo em qualquer coisa que víssemos naquela direção. O rio começara a transbordar de seu leito e isto nos forçou a retroceder. Encontrei "Tuffy", o cachorro de Bill, alguns metros abaixo. Ele fora atingido no focinho. Mediquei-o e o levei de volta ao acampamento onde os outros treinadores já sabiam que um dos homens fora morto. Ao chegar ao acampamento, todos os meus homens estavam esperando impacientes e correram para mim chorando e me abraçando. Eu nunca esquecerei este momento enquanto viver. Era isso que significa a insígnia que usávamos - Veteranos: amor fraternal até o dia de nossa morte.

Mais tarde em minha vida, fui internado em um hospital psiquiátrico, pois não conseguia me eximir da culpa de que minha decisão havia causado a morte de Bill e Garcia. Tentei esquecer esse fato, mas ele me persegue sempre quando vejo nossa insígnia e lembro como rezamos pela vida naquele dia. Ela sempre me traz de volta memórias desagradáveis. Eu só tinha dezenove anos. Amém.

Nossos cães, 1944

Quando deixamos Frisco a bordo do USS John Isacson, os cães tinham celas especiais. Tínhamos pequenas caixas que deveríamos utilizar para que os animais se aliviassem. Os cães estavam no auge da sua forma antes de embarcarmos, pois os comandantes haviam nos dito o que esperar quando chegássemos ao nosso destino.

No navio, os cachorros deviam ser retirados das jaulas e exercitados no fundo da embarcação. Os cachorros de ataque tinham que ser agitados constantemente para mantê-los treinados. Tudo que fazíamos a bordo do navio, a respeito dos animais, era altamente confidencial. Cada homem só podia cuidar de seu próprio cão. Nenhum outro soldado, aparte os treinadores, era permitido na área do canil. Aos cachorros era dado do bom e do melhor. Seu bem estar era muito importante.

Doberman de guarda enquanto o fuzileiro dorme no abrigo, que os donos chamavam de "foxhole" .

Quando chegamos a nosso destino, Guadalcanal, os cães estavam muito agitados por ver novamente uma árvore depois de 32 dias no mar. Éramos o 25º Pelotão de Cães de Combate e nossa unidade consistia de 27 homens e 30 cachorros. Fomos primeiramente anexados à 298ª Companhia Filipina e Havaiana. Nossa tarefa principal era expulsar os japoneses desgarrados da floresta. Cada homem tinha que ficar ao lado de seu cão o tempo todo. Quando estávamos na linha de frente, tínhamos que cavar abrigos grandes o suficiente para nós e os cães. Essa era uma tarefa complicada para mim, pois meu cão, Bim, era um Pastor Alemão de 55 Kg. Tínhamos que alimentar e dar água para os animais dentro dos "foxholes" e os amarrávamos aos nossos braços na hora de dormir.

Eles foram ensinados a não latir, não obstante, estavam sempre alerta. Quando a nossa ração escasseava, os cachorros deveriam comer dia sim, dia não; mas eu, amando os cães como amava, sempre dividia qualquer naco de comida que possuísse com meu amigo canino. Quando saíamos em patrulha, eu tinha que carregar a comida dele e a minha própria nas costas; quando estávamos na selva, caso ele se cortasse, tínhamos que fazer um curativo, pois do contrário, fungos poderiam infectá-lo, causando doenças e podendo até mesmo matá-lo. Suas orelhas eram outro ponto que necessitava de muita atenção, pois as moscas ali pousavam e as mordiscavam, éramos, portanto, obrigados a sempre colocar repelentes nelas. Na verdade nós mesmos tínhamos que nos impregnar de repelente para evitar as mordidas dos milhões de insetos que habitam as selvas do Pacífico.

 Foto 1: Treinamento de um cão de ataque.    /      Foto 2: Descendo o cachorro para o bote.


Campo de Lejeume, treinamento de desembarque, 1943.


Fuzileiro e um cão de guerra da raça Doberman na ilha de  Saipan, 1944.

Depois de dois meses em Guadalcanal, fomos enviados para Bougainville, também nas ilhas Salomão, sendo anexados à 37ª Divisão de Infantaria. A ilha de Bougainville possui vários vulcões, que provocam horríveis terremotos muito freqüentemente. O primeiro que presenciei, assustou-me de morte. Nossa primeira baixa desde a chegada a este novo setor foi a de dois dos melhores cães mensageiros. Durante um dos tremores, uma árvore caiu sobre o canil e feriu vários animais, matando os dois. Ainda guardo fotos dos animais que morreram neste dia.

Quando íamos para a trilha Nau Mau Nau Mau, onde as linhas de frente se localizavam, éramos transportados pelos caminhões do exército. Os cães eram treinados para não brigarem com os outros cachorros e não morder as tropas amigas, porém a ninguém, exceto o seu próprio treinador, era permitido acariciá-los. Os cães eram ensinados a somente atacar quando estivessem com suas coleiras especiais, que colocávamos neles somente quando chegavam nas linhas de frente. Os cachorros trabalhavam mais nas tarefas de guarda de abrigos e patrulha noturna, onde tinham grande vantagem devido aos seus sentidos apurados e por estarem sempre alerta. Cada movimento ou cheiro diferente representava o inimigo.

Nessas incursões pela linha de frente os cães perdiam muito peso. Da mesma forma que a comida dos treinadores era escassa, também era a deles. Uma das coisas mais importantes a fazer era manter o focinho dos nossos companheiros úmido. Para tanto, colocávamos alguns goles de água de nossos cantis no capacete e os dávamos de beber. Conforme o tempo passava nas linhas de frente, os animais se tornavam mais irritadiços devido ao calor sufocante, insetos e a falta de comida e água, mas ainda assim conseguiam se manter alerta e pacientes. Fazer com que os cachorros se aliviassem era outro problema que enfrentávamos, pois tínhamos que montar escalas a fim de não atrair a atenção do inimigo e manter a guarda.

Quando nós voltamos das linhas de frente, lhes dávamos grandes recompensas: carne de cavalo, bastante liberdade, e os deixávamos nadar no oceano. A água salgada era boa para os cortes e contusões. O cachorro, uma vez que tira a coleira de trabalho, torna-se novamente dócil e controlado. Nós deixávamos vários correrem juntos e brincarem de brigar. Nós os protegíamos com nossas vidas, da mesma forma que eles faziam conosco.

Marines e seus cães em Guam.

Na retaguarda, os cachorros eram sempre re-treinados. Eles tinham que ser capazes de rastejar próximo ao treinador e ainda assim se manter sob comando: ficar em silêncio, atacar quando ordenado ou quando alguém tenta chegar perto de você. Os cachorros mensageiros faziam um excelente trabalho. Eles eram ensinados a cheirar um trapo que contivesse óleo de linhaça - o treinador sempre levava este trapo quando saía em patrulha - e um colarinho especial era colocado, para que ele pudesse carregar uma mensagem. Quando saíam em patrulha, se fôssemos emboscados, era dita a palavra: "relatório" (N.T.: "report") para o cão. Ele, então, seguiria o cheiro de linhaça pelo caminho percorrido, até o local do acampamento. Eu vira vários desses cães mensageiros com as patas sangrando e hemorragias no rabo, feitas nas videiras afiadas e pedras.
Ao cumprir sua tarefa, todo cachorro era recompensado com um pedaço de carne e um elogio. Elogio é outra coisa muito importante em treinamento de animais. O treinamento básico para cães mensageiros consistia em correr em um caminho de um lado para outro. Treinadores estavam em cada extremo. Durante as corridas de uma ponta a outra do percurso, eles eram agitados e os treinadores tentavam persuadi-lo a abandonar a tarefa. Quando finalmente completavam o percurso por várias vezes, os treinadores os consideravam aptos. Alguns eram treinados a carregar um pombo, para o mesmo propósito de levar mensagens. O treinamento desses animais requer um bocado de paciência. Depois de uma corrida de teste nas montanhas de San Carlos, Califórnia, eles eram avaliados tanto em velocidade como resistência, estando então prontos para o combate.

Patrulha, 1944

Estávamos em Bougainville, ilhas Salomão. Bim, meu fiel cão batedor, e eu fomos convocados para ir à vanguarda da 37ª Divisão de Infantaria. Devíamos encontrar a tropa em certo local antes de avançar para a linha de frente. Fomos deixados próximos a um rio, onde o sargento ordenou que aguardássemos, pois eles chegariam a qualquer momento. Já se passara uma hora e ninguém se aproximava, portanto decidimos a seguir para o norte, subindo uma montanha. Logo estávamos perdidos em território inimigo, acredito que andáramos cinco ou seis milhas. Subitamente Bim ficou em alerta e eu me joguei no chão, achando que poderiam ser soldados japoneses se aproximando. Ouvi um chamado de "Isqueiro" (N.T.: "Lighter") e então silêncio. Por sorte, sabia a senha, se tratava de nossas tropas. Gritei rapidamente "fluído de isqueiro" (N.T.: "lighter fluid"), a contra-senha, caso contrário poderia ser atacado. Eles especulavam o que acontecera comigo, mandando então uma patrulha para me procurar, "graças a Deus".

No dia seguinte, fomos enviados em patrulha por uma trilha próximo ao Rio Torakina. Foi-nos dito que havia um ninho de metralhadoras nas imediações. Andamos por quatro milhas em torno da montanha sem nenhum contato com o inimigo. Meu segundo batedor, um australiano, pediu que esperássemos um tempo por ali até que o restante dos homens nos alcançassem. De repente, Bim levantou as orelhas em postura de alerta, mas eu não ouvia qualquer ruído. Eu disse a Brown, o australiano, que daria uma olhada e segui uns 30 metros a frente. Neste momento Bim postou-se em posição de alerta total. Lá em cima vi um japonês alto perscrutando a montanha na minha direção. Deitei-me o mais discretamente possível. Se não fosse por Bim, todos teríamos sido mortos. Comecei a rastejar lentamente para trás, sabia que havia alguém ali. Foi quando começaram a atirar na minha direção. Eu e Bim nos colamos ao solo, as balas passavam zunindo sobre nossas cabeças. O australiano gritou para que eu corresse em direção a ele, pois ele me manteria coberto. Bim e eu corremos como loucos, zigue-zagueando, conforme aprendera no futebol (N.T.: futebol americano, "football"). Brown mantinha fogo contínuo e todos os outros soldados (que já haviam se aproximado o suficiente de nós) começaram a disparar suas armas enquanto eu corria para salvar minha pele.

Um dos nativos que carregava nossos suprimentos largou uma grande caixa e, correndo, não a vi. Tropecei nela com muita força e quase quebrei a perna. Pensei que havia sido atingido e que não podia me mexer. Bim deitou-se ao meu lado e eu o agradecia por não me deixar sozinho lá.
 Fuzileiros câes de guerra em  Bougainville.

Enquanto isso, granadas de morteiro de nossa patrulha destruíam o ninho de metralhadora. Quando os soldados chegaram ao topo da montanha, havia corpos japoneses espalhados por todos os lados. Nenhum de nossos homens foi morto, somente uns três ou quatro se feriram.

Fui levado para a planície nas costas de um dos nativos. Bati tão forte na caixa que não consegui andar. Meus joelhos estavam em carne viva e, olhando para Bim, notei que ele havia cortado as patas e também sangrava. Rasguei parte de minha camisa e limpei suas patas com a água de meu cantil, colocando, a seguir, iodo nos machucados. Ele era mais forte do que eu e continuou caminhando ao meu lado, mancando levemente.

Mais tarde, ao chegar em nossa área de acampamento, os médicos tomaram conta das minhas pernas, no entanto, fiquei sem poder andar por alguns dias. Os veterinários também cuidaram das feridas de Bim.

Todos os homens da patrulha vieram até nós agradecer e dizer que Bim era seu herói. Todos vieram afagá-lo por salvá-los de uma emboscada certa.


O herói sem condecorações

Depois que eu e meu cão, Bim, nos recuperamos dos ferimentos nos pés/patas e pernas, fomos mandados de volta para fazer guarda em um entreposto da infantaria.

Eu sempre tinha que cavar um abrigo para mim e Bim, mas a parte mais difícil era convencer Bim a fazer suas necessidades do lado de fora de nosso "foxhole". Eu o colocava em um dos lados enquanto ele se esforçava por "se aliviar". Lembrem-se também que na linha de frente, nem os combatentes humanos possuem banheiros.

Era muito desagradável quando os ratos tentavam entrar em nossa trincheira se havia qualquer sinal de comida. As moscas estavam sempre voando em torno dos olhos dos cães. Os mosquitos se banqueteavam em nossa pele o dia inteiro, até o dia em que peguei malária. Não conseguia levantar de meu buraco, chorava e ardia em febre. Bim sempre estava ao meu lado, tentando me confortar e protegendo-me.
Depois do que me pareceu uma eternidade, um dos médicos carregou-me até uma cratera, onde cuidavam dos feridos. Fui então levado, de maca, em um caminhão, ao hospital do setor. Bim foi levado ao canil da companhia. Por dias estive internado com disenteria, perdendo muito peso (cheguei a 54 quilos). Um outro treinador assumiu a "tutela" de Bim. Meus dias de batedor estavam terminados.


Lápide do cemitério dos fuzileiros caninos da 2ª Guerra

Mais tarde, o 25º foi enviado às Filipinas, onde desempenhei o papel de guarda - sem o cachorro - quando a febre voltou. Fui mandando para um hospital militar na Nova Guiné e estava prestes a voltar para casa quando me trouxeram Bim para se despedir. Eu caí de joelhos, beijando-o no focinho e chorando. Mas que despedida final dolorosa foi aquela. Quando subi no caminhão, ele começou a latir e tentava vir atrás de mim; nunca, enquanto viver, me esquecerei do seu olhar de "não me abandone".

Anos mais tarde eu soube que ele lograra voltar aos Estados Unidos, onde falecera. Estou certo de que se há um paraíso para os cães, Bim estará lá. Agora posso descansar em paz. Tenho 70 anos e sempre quis escrever sobre esses verdadeiros heróis que foram os cachorros marines.

Por Gene Long

Para ver mais fotos dos cães de guerra:
 http://community-2.webtv.net/Hahn-50thAP-K9/K9History4/

A partida

Rubem Braga : durante a Segunda Guerra Mundial atuou como correspondente de guerra junto à F.E.B. (Força Expedicionária Brasileira).


Setembro, 1944

Escrevo do Rio, em uma tarde de setembro de 1944. Não, isto não é mais o Rio. Depois que subimos a escada de bordo, vergados ao peso das malas, não mais estamos no Rio. O Rio está bem ali perto, atrás do feio armazém sujo; e está definitivamente longe. Os americanos da tripulação entram em forma: pela última vez antes da partida têm licença para sair: irão à Praça Mauá, à Glória, ao Beach Club. Um oficial passa-os em revista, lentamente. Um deles leva uma caixa debaixo do braço. É, certamente, um presente. Leio o rótulo: ''Ilusão - Meias de Seda''. Ele desce três degraus, volta-se para a popa, faz uma continência à bandeira americana e dispara escada abaixo. Outros homens, centenas, milhares de homens, sobem por várias escadas para os navios. Vistos do alto parecem estranhos bichos verdes, formigas humanas, cada um carregando um grande saco verde às costas, subindo lentamente. Vamos para o outro lado, olhamos a água suja e quase imóvel. A tarde cai. Vejo, boiando na água, um gorro de marinheiro. É triste, esse gorro branco perdido na água suja do cais: faz pensar em abandono, em afogamento.
Os homens sobem para os navios. Sobem por várias escadas, em fila indiana; sobem lentamente. Passam-se os minutos, as horas, os dias, os anos, os séculos, e o navio não sai. Os homens sobem. No salão há ordens, organização da rotina de bordo, leitura de regulamentos, e conversa. A esta hora, eu... A esta hora, lá em casa... A esta hora, ela... Mas é absurdo: Estamos falando do Rio como se estivéssemos longe. E estamos aqui, estamos no Rio. Na verdade estamos presos.

Nem mesmo os oficiais podem ir ao convés que dá para a terra. Ninguém deve ficar ali, para não perturbar a faina do embarque. Arranjo uma licença, vou ver os homens de perto. Não estão tristes nem alegres: sobem calados, aparentemente muito preocupados com a bagagem e a ficha que cada um carrega e que indica o seu lugar a bordo.

E como não há ninguém se despedindo de ninguém no cais, ninguém chora nem ri. Faz calor, e isso é aborrecido. Há quantos anos estamos a bordo? Hoje é segunda-feira ou março de 1953? Os compartimentos dos praças e os camarotes dos oficiais se enchem. Esperamos, esperamos. E lá fora, na cidade proibida, passa o tempo, a ronda das estrelas e da lua e do sol, e as mulheres que vão e vêm, a vida que vai e volta, e nós estamos eternamente neste enorme navio imóvel.

E como o Brasil é uma grande aldeia, descubro ligações. No beliche embaixo do meu vejo uma cara conhecida, não sei de onde. Ele diz que se chama Renato, é do Banco do Brasil, e afinal apuramos que nos conhecemos de vista: somos ambos "inocentes do Leblon", colegas dos ônibus 66 e 67. No primeiro beliche à minha direita - 90 centímetros a boreste - estica-se um jovem tenente desconhecido; mas logo fico sabendo que é casado, há alguns meses, com Jussara, aquela menina loura de minha terra, filha, pelos dois lados, de gente de Cachoeiro de Itapemirim. Pesa sobre mim a terrível ameaça da Justiça Militar: o beliche bem acima do meu verga-se ao peso sensacional do jornalista capitão Amador Cisneiros, promotor militar.

Deus quis certamente proteger este tão degradado filho de Eva: entre os 18 homens do meu camarote há sete santos homens: cinco padres católicos e dois pastores protestantes. Se eu morrer aqui, se um torpedo me estraçalhar, se Amador Cisneiros me esmagar, morrerei em grande odor de santidade.

Se este navio não sair amanhã, enjoarei.

O Presidente da República vem se despedir da tropa: depois vem o arcebispo. Alguém traz jornais: avançamos para eles com ares famélicos, como se estivéssemos há anos longe da pátria. E temos licença para escrever cartas; tristes cartas que só serão entregues, a alguns quilômetros daqui, depois que o navio chegar à Europa.

Às seis horas da manhã o pessoal do camarote começou a se arrumar depressa: o navio está saindo! Subimos para o convés superior. Todos correm alegremente; o armazém odioso sumiu, estamos navegando, a cidade se desenrola aos nossos olhos, avançamos pela baía. Olhamos a cidade, mas de repente entramos numa cerração e não vemos coisa alguma. O fotógrafo, decepcionado, pragueja. Depois paramos novamente. Passa o tempo. Afinal o navio se move. Agora vamos. "A cobra fumou!" Durante meses todos hesitamos: a cobra fumará? Na tropa não se falava de outra coisa: a cobra não vai fumar, quebraram o cachimbo da cobra etc., etc. E essa cobra mitológica, essa cobra de gíria obscura dos cariocas, está finalmente fumando. Isso quer dizer: vamos mesmo, estamos saindo. "A cobra fumou”.Lá vamos pelos mares, para a guerra, para voltar ou não voltar, pouco importa; o que importa é que a "cobra fumou". E os piores praças, os mais rebeldes, os que sumiam de repente, os que nunca chegavam na hora, todos estão presentes. Não faltou um só homem, não houve uma só vaga tentativa de deserção. Os homens que vieram de reserva voltaram do cais, não havia lugar para eles a bordo, porque na hora da "cobra fumar" todo mundo compareceu.

Adeus, Rio de Janeiro! Adeus, oh! Clara, oh! Magnânima, oh! Soberba e leal cidade do Rio de Janeiro. Uma barca da Cantareira passa perto, e alguém me chama a atenção: "veja, é a Quinta! É a QuintaColuna!” As fortalezas, embandeiradas, nos desejam boa viagem. Homens que passam em lanchas acenam adeus. A voz gordurosa de um padre, ampliada pelo alto-falante de bordo, convida-nos a erguer os olhos para Deus. Mas olhamos a cidade, olhamos obstinadamente para a Cidade dos Homens. Que Cidade dos Homens sobre a terra é mais humana que vós, Rio de Janeiro? Todos cantam o Hino Nacional. Alguns homens correm para bombordo; é a turma de Niterói que se despede. Mas antes de passarmos o Pão de Açúcar e de se desdobrar aos nossos olhos Copacabana, vejo uma tocante despedida. O comboio de navios enormes passa junto de um pequeno barco de pesca. Um pescador solitário fica em pé e acena com a mão. Seu barquinho balança fortemente com as ondas que os navios vão formando. Mas ele continua de pé, acenando lentamente a mão. Olho-o por um binóculo: é um velho pescador de camisa esfarrapada. Entre os monstros armados do oceano, sua canoa é humilde e frágil, mas ele tem uma estranha imponência. E fica lá para trás, indiferente aos balouços fortes da canoa, de pé, acenando lentamente a mão como quem cumpre um dever, como quem transmite sua pobre mensagem. Uma grande mensagem.

Setembro, 1944

A bordo, o oficial ou praça que trabalha come três vezes ao dia; quem não trabalha come duas vezes. Quem come duas vezes faz o pequeno almoço as nove e o jantar às quatro da tarde. Os americanos resolveram abrasileirar a comida, mas a comida foi mal traduzida. Não é comida brasileira nem americana; é, provavelmente, a comida típica de alguma parte do Atlântico. Come-se.

O que impressiona a bordo é a limpeza. O comandante americano, tenente-coronel McNair, declarou que tem transportado muita tropa nesta guerra e até agora não transportou nenhuma tão limpa e disciplinada como a nossa. Não sei se é costume dele dizer isso, mas que há limpeza há. Às 10 da manhã há inspeção geral dos camarotes e compartimentos. Há prêmios para o compartimento mais limpo e bem-arrumado, e os praças disputam esses prêmios. Como todos estão rigorosamente em ordem, a imaginação trabalha para ganhar o prêmio: os homens começam a enfeitar seus compartimentos, inventam coisas, dispõem os cobertores em V da Vitória. Os mais desleixados são vigiados pelos mais cuidadosos. O homem que acende um cigarro num camarote é imediatamente impedido de fumar pelos outros, porque só se pode fumar no banheiro ou no convés. E esses homens quando fumam fazem esta coisa absurda: jogam os palitos de fósforos e os tocos de cigarro exatamente nos cinzeiros ou nas latas de lixo.


Rubem Braga (esquerda em pé) com os correspondentes de guerra da FEB em 1944

Depois do equador ninguém enjoou mais. O "moral da tropa" ergueu-se. Os praças formam choros e cantam sambas e canções. Os oficiais fazem o mesmo, porém com menos bossa. Pelas seis horas fecha-se o navio; ninguém mais pode ir ao convés. As seis e meia funciona o "cabaré da Cobra”. Tem números variados, mas num cabaré há duas espécies de coisa que sempre fazem alguma falta - senhoras e álcool. A proibição de beber foi rigorosamente seguida: não entrou a bordo uma gota de cachaça sequer.

Às sete e meia os oficiais têm direito a uma sessão de cinema. O salão fica mais cheio do que qualquer "poeira"; há gente sentada no chão e gente trepada nas cadeiras. Não há legendas em português, e quem não entende pergunta a quem entende o que é que houve na tela.

Pelas nove e pouco acaba o cinema e logo depois se apagam as luzes do salão, ficando só algumas lâmpadas vermelhas muito fracas.

É hora de dormir. Nas noites de calmaria, isso era difícil. Os banheiros enchiam-se, e, depois, os oficiais, uns em calças de pijama, outros em calção de física, vinham para o salão, onde se pode fumar e conversar. E ali ficavam conversando na penumbra avermelhada, até o sono bater.

Descobriram que nos corredores e escadas sempre há algum vento. E na noite mais quente da viagem formaram-se essas filas que o carioca não conhece, e que devem servir de consolo aos que esperam o ônibus, a carne ou o leite; as filas do ar...

E enquanto estamos trancados aqui na escuridão avermelhada, lá fora é a noite.

Desde que o navio saiu não vimos mais a noite. A noite nos é proibida, com sua lua e suas estrelas. Navegamos para outro hemisfério.Certamente a lua está ficando mais cheia, noite após noite. Certamente algumas constelações morreram para as bandas do sul; o Cruzeiro deve ter mergulhado nas águas. Certamente estrelas virgens para os nossos olhos subiram do horizonte. Não sabemos. Fumamos na escuridão, trancados, e conversamos sem vontade e sem fé. Uma noite, correndo os compartimentos do navio, subindo e descendo escadas, vi de repente uma estranha claridade azul. Eu estava sozinho e não havia ali nenhum PM - o polícia militar que está a todo o momento em toda parte dizendo o que devemos fazer e por onde devemos seguir, e principalmente o que NÃO devemos fazer, por onde NÃO devemos seguir.

Hesitei um instante e galguei a escada estreita e escura. Tropecei numa soleira e dei mais dois passos. Aquela desconhecida claridade azul era a noite. Saltei para o ar livre sem fazer ruído. Um guarda estava ali perto, no convés, mas não me pressentiu. Há 10 dias eu não via a noite: lá estavam as estrelas e em alguma parte devia estar a lua, porque o céu era azul. Noite! Livre noite sobre a terra e sobre o mar, noite nas montanhas e no charco, no deserto e na rua, abençoada sede! Os homens que fumam cachimbo na triste escuridão vos saúdam: do fundo de nosso torpe salão vos abençoamos, oh! Lua, oh! Nuvens, oh! Estrelas do norte, oh! Grande noite azul.

Setembo, 1944

O soldado inglês é um tommie, o francês é um poilu, o brasileiro é o pracinha. Agora o pracinha vai para a guerra. O pracinha está num compartimento onde há muitos pracinhas. Há um pracinha no beliche de lona embaixo do seu e há dois pracinhas nos dois beliches acima do seu. Dentro do compartimento, a bombordo, a boreste, a ré, a vante, por baixo e por cima, há mais 379 pracinhas empilhados, todos seminus. Abaixo daquele, há outro compartimento, e abaixo desse outro há ainda outro, e acima e ao lado há outros compartimentos, todos absolutamente cheios de pracinhas do chão ao teto. Mas o pracinha mal pode ver dois ou três companheiros. As luzes foram apagadas, e só restam algumas baças lâmpadas vermelhas. Um americano me explicou o uso da luz vermelha dentro do navio trancado: a luz branca ou azul ou de qualquer outra cor apresenta grandes inconvenientes para o homem que subitamente tem de sair do interior do navio para ocupar seu posto em algum canhão ou metralhadora. Ele levará muito tempo sem conseguir enxergar nada na escuridão do mar. Se, porém, sai de um ambiente de luz vermelha, seus olhos em poucos segundos estão funcionando tão bem como se ele já estivesse há muito tempo na escuridão.

O pracinha não sabe de nada disso. Apenas vê, nas ilhas de fraca luz rubra que são vagas manchas de sangue na grande escuridão, vultos de dois ou três companheiros mais próximos. A luz vermelha espelha-se nos corpos suados. Faz um calor infernal: estamos na zona das calmarias, e quem não está de cuecas está de calção de ginástica.

Antes, pouco depois que se saiu do Rio, havia vento forte, e uma parte da tropa enjoou horrivelmente. Havia pracinhas chegados há pouco tempo do interior e que nunca tinham visto o mar em sua vida; e alguns, com o perdão da palavra, "restituíram" até a alma. Mas isso em certos lugares: não para fora do navio. Não se pode lançar nada fora do navio, nem uma ponta de cigarro; os detritos são jogados fora a uma hora certa, ao escurecer. Dizem que já houve o caso de transportes de tropas que foram seguidos pelos submarinos que se guiavam pelos detritos lançados ao mar.

O pracinha só mexe em seu beliche. São 10 horas, e às nove e meia deu o toque de silêncio. Que calor! Durante o dia o mar esteve parado, chato, como se fosse de aço mole, e do céu vinha um mormaço geral.

Foi evitando essas calmarias que Cabral descobriu o Brasil - diziam os compêndios de meu tempo. Eu também seria capaz de descobrir qualquer coisa, fosse o que fosse, para fugir a essa calmaria. O pracinha também descobre uma fuga: tomar banho.

O banheiro é grande, mas está cheio. Dezenas, centenas de pracinhas nus e seminus estão nos banheiros iluminados; são pretos, brancos, mulatos, amarelos, de todas as cores do Brasil e do mundo. Há muitos chuveiros de água salgada e apenas um de água doce em cada banheiro. Isso também é a única vantagem que pracinha leva sobre oficial, que não tem chuveiro de água doce. O pracinha toma banho e, saindo da claridade do banheiro, mergulha outra vez na escuridão do compartimento, tateando entre as pilhas de corpos nus, arrastando seu salva-vidas. É um pesado colete de lona impermeável cheio de paina, que a gente tem de carregar dia e noite. É grosso, incômodo, sujo. Uns o chamam de "pára-quedas" outros de "tatu", outros, mais elegantes de “renard”.

O pracinha consegue, afinal, acertar com o seu beliche. Amarra o salva-vidas ao lado do saco verde e sobe. E sua.

Sua-se, meus senhores, sua-se aos litros, sua-se aos potes, sua-se a cântaros neste navio trancado. Há ventiladores, há sistema de renovação do ar, e tudo isso é muito interessante. Mas o pracinha sua. Seu corpo está pegajoso, porque ele só conseguiu tomar banho de água salgada, e o sal do suor se mistura com o sal da água do banho, e o pracinha não pode dormir. Na escuridão de raras manchas rubras, ele fica pensando na vida - e, ocasionalmente, na morte. Se a distinta senhora minha leitora descesse àquele compartimento desmaiaria; é, à primeira vista, fúnebre. Aquela pretidão com manchas de sangue no ar, os homens em inumeráveis pilhas de quatro, quase nus, suando. Mas, coragem, minha senhora. Estamos no 203. Desçamos ao 303. Mais uma escada, senhora: vamos ao 403, e agora acabamos nossa viagem; é só ir ao 503. Porque além do C-503-L não há mais nada, é o próprio fundo do mar. E a escada que desce para o C-503-L é diferente das outras; ela se abre de repente, como um alçapão, dando para o profundo escuro baixo abismo, no fundo de outras escuridões que se acumulam negras lá para cima; além, mais uma escada e escuridão, e outra escada e escuridão, e outra escada e escuridão, e em cada escuridão, homens, homens e homens empilhados do teto ao chão, suando, suando, suando. Assim é o C-503-L.

Mas o pracinha agüenta. Arranja-se mais um ventilador, desce-se um cano de lona que traz ar. O pior é a impressão. E o pracinha guarda para si mesmo as suas impressões. Se tem medo, não diz. Vai para lá e fica. Depois se acostuma. Quando descobre que está vivo, e afinal de contas tem ar para respirar, e banheiro para tomar banho, se acostuma. Ali, naquele mesmo beliche onde está esticado o corpo suado do nosso pracinha, já esteve o corpo de um soldado americano que ia atravessando o Atlântico para leste, ou o Pacífico, para oeste, para lutar. Ali já esteve o corpo de um soldado francês que ia lutar pela sua terra escravizada. Ali já esteve o corpo de um italiano que ia preso para a América, depois de lutar pelo seu Duce ridículo. Este navio tem andado por muitos mares e levado muitos homens para a guerra ou para a paz. Na pobre lona onde se agita o nosso pracinha, agitaram-se, nestes últimos anos, sonhos e pesadelos, resmungos em várias línguas de homens de várias espécies. Alguns estão mortos; outros estão lutando, ou metidos em campos de concentração: ou gemendo em hospitais. O pracinha talvez não saiba disso. No meio dessa grande e tormentosa humanidade, o pracinha é um homem, é apenas um homem.

E agora ele vai dizer a sua palavra, vai intervir, como homem, no destino da humanidade. Saiba ou não saiba disso, o pracinha vai.

E isso é o que serve.

Amanhece. O pracinha toma banho, faz seu pequeno almoço, sobe para o convés, para o ar livre. Há espumas no mar, acabou-se a calmaria, não haverá mais calor. O navio marcha. E com o navio marcha o pracinha, marcha para as neves onde vai lutar por um mundo em que ninguém mais precise viajar no compartimento C-503-L.

Por Rubem Braga

Nordpol: o maior blefe da guerra secreta

Introdução:
Abwehr, nome do serviço de informação do exército alemão, ativo de 1925 a 1944. O líder da Abwehr chamava-se Wilheim Canaris e ocupava o posto de almirante. Reportava diretamente ao OKW (Oberkommando der Wehrmacht), alto comando das forças armadas alemãs. O termo Abwehr significa defesa.

Serviço secreto de rádio na OKW(Amt Ausland/Abwehr)

H. J. Giskes

Como o serviço secreto do Exército Alemão lubridiou os aliados através de suas redes de contatos subterrâneos na Holanda :

Em dezembro de 1943, os Aliados tinham uma esmerada rede de espionagem e uma organização subterrânea de cerca de 1.500 sabotadores que agiam na Holanda ocupada pelos alemães ou assim acreditavam eles. Na realidade, os rádios "subterrâneos" que respondiam aos chamados de Londres estavam nas mãos de operadores alemães há quase dois anos. Os homens e a enorme quantidade de armas e explosivos que o Serviço Secreto anglo-holandês lançara de pára-quedas na Holanda, em quase 200 operações, foram todos esperados, ao chegar, por comissões de recepção alemãs. Cinqüenta e quatro agentes secretos treinados em Londres estavam na prisão, enquanto os contra-espiões alemães inventavam histórias fabulosas sobre as atividades deles e as transmitiam para a Inglaterra. Foi uma das mais gigantescas mistificações perpetradas contra os Aliados em toda a "guerra secreta".

Na qualidade de major do Abwehr (serviço secreto do Exército Alemão), recebi ordem de apresentar-me em Haia, no outono de 1941, para assumir o comando da contra-espionagem militar nos Países Baixos. Tinham corrido boatos de comunicações radiofônicas clandestinas com Londres. Nossa função era descobrir os agentes inimigos e invalidar seus planos de levarem a guerra à retaguarda das linhas alemãs.

Nosso primeiro golpe de sorte ocorreu em fins de novembro. Um de nossos agentes secretos, que conseguira introduzir-se na resistência holandesa, informou que estava sendo organizada em Haia, por dois agentes britânicos, uma nova rede de espionagem. Tal informação foi confirmada em janeiro de 1942, quando o Tenente Heinrichs, do nosso serviço de escuta, ouviu um novo transmissor, com prefixo RLS, operando em Haia.

Começamos a controlar a RLS, anotando todos os detalhes da técnica de transmissão. Nosso objetivo não era eliminar a estação, e sim utilizá-la, isto é, operá-la nós mesmos, fingindo-nos de agentes aliados. Isso nos faria conhecer por dentro as operações do serviço secreto inimigo.

Em 6 de março, o nosso radiogoniômetro indicou a situação exata da RLS e na mesma noite nós prendemos o seu operador - um inglês, H. M. G. Lauwers. Dentro de algumas horas havíamos prendido todos os colaboradores do grupo de espionagem, de maneira a não deixar elementos que pusessem em perigo a nossa mistificação.

Com os códigos apreendidos no momento da prisão e outras informações fornecidas pelo nosso agente no grupo de espionagem, não tardamos a desvendar o código secreto de Lauwers. Mas Lauwers recusou-se a transmitir as nossas mensagens falsas para Londres, e nós relutávamos em fazê-lo nós mesmos - por enquanto.

No terceiro domingo de março, procurei Lauwers e disse-lhe que só ele poderia facilitar o meu plano de salvá-lo e ao agente Thijs, seu colega, de condenação à morte por um tribunal militar alemão. Disse-lhe que teria apenas de transmitir as três mensagens que não pudera mandar no dia da sua prisão.

Lauwers mostrou-se interessado, mas conservou-se em silêncio. Modifiquei minha maneira de tratá-lo.

- Como soldado, respeito sua coragem e seu senso de dever - disse eu - mas deploro a missão que Londres lhe confiou, pois importa em armar civis para que nos alvejem pelas costas. Todo exército de ocupação é obrigado a sufocar tramas dessa espécie com a captura de reféns. Usarei, portanto, de todos os meios ao meu alcance para impedir o fornecimento de armas a fanáticos desse país, pois o uso delas só poderá resultar num banho de sangue para a população holandesa.

Vesti o sobretudo.

- Está na hora de se preparar a transmissão de hoje - disse eu - você vem?

Ele me olhou dentro dos olhos e respondeu:

- Vou.

Lauwers irradiou as três mensagens e depois recebeu vários despachos referentes a irradiações anteriores da RLS. Heinrichs, naturalmente, tinha um de seus agentes ouvindo a transmissão na chave de um aparelho de interferência, para o caso de Lauwers nos trair. Nada de suspeito ocorreu (1).

E assim começou o que denominamos "Operação Nordpol" (Pólo Norte).

Por quanto tempo seria possível manter essa comunicação radiofônica com Londres? Se houvesse no código sinais que desconhecíamos para confirmar a autenticidade do operador, a mistificação poderia muito bem ser descoberta na transmissão seguinte.

Na segunda vez que estivemos no ar, Londres fez um apelo urgente: preparação de uma zona onde pudesse ser lançada grande quantidade de material de sabotagem e um novo agente. A notícia perturbou Lauwers consideravelmente. Disse que não operaria mais a RLS, que não podia tornar-se responsável pela queda de camaradas seus em nossas mãos.

- Esse homem cairá nas nossas mãos, quer você coopere, quer não - disse-lhe eu. - Se você continuar as transmissões para nós, espero obter das autoridades superiores que não sejam condenados à morte os agentes que capturarmos (2).

Lauwers voltou para o transmissor.

O aviso do desembarque foi recebido em 27 de março, e às 11 horas da mesma noite uma pequena caravana de automóveis, com as luzes amortecidas, parou numa pequena mata perto do local onde deveriam cair os pára-quedistas e onde havia três homens com poderosas lanternas de luz vermelha dispostos num grande triângulo. Esperamos duas horas. Teriam os britânicos descoberto o nosso estratagema? Estariam a caminho do nosso triângulo iluminado com uma carga de bombas, para pulverizar-nos no pântano com TNT?

Finalmente ouvimos um ruído de motores e um avião passou por cima de nós a uns 200 metros de altura no máximo. De repente, bem sobre nós, apareceram, na esteira do avião, vários pontos escuros. Quatro pesados volumes, sustidos por pára-quedas, tocaram o solo com baques surdos. Um quinto pára-quedas trazia o agente. O bombardeiro ganhou altura, suas luzes piscaram numa saudação, e ele desapareceu.

Eu e Heinrichs apertamos as mãos em silenciosa congratulação.

Imediatamente após esta operação, radiografamos para Londres informando que o agente lançado de pára-quedas estava bem e em boas mãos. Seguiu-se um calmo intervalo de várias semanas. Isso nos pareceu de mau agouro, pois tínhamos provas de que o serviço secreto anglo-holandês estava realizando operações na Holanda sem o nosso auxílio. Entre outras coisas, ouviu-se um novo transmissor na área de Utrecht e em abril foi encontrado o corpo de um pára-quedista, perto de Holten, com o crânio fraturado; ao aterrar tinha batido com a cabeça numa pedra. Comecei a preocupar-me com nossas transmissões pela RLS. Teria Londres desconfiado?

A verdade é que nossa primeira vitória não poderia ter sido mantida por muito tempo se não fosse o que aconteceu depois: por mero acaso, caíram em nossas mãos todos os canais usados por Londres para controlar o serviço secreto anglo-holandês!

Sem o nosso conhecimento, seis agentes haviam descido aos pares, cada par com um aparelho de rádio. Viemos a saber depois que, nas aterragens, morrera um operador de rádio, de nome Maartens (era seu o corpo encontrado junto à pedra) e que só um aparelho chegara intacto. À vista disso, os agentes se entrosaram, transmitindo seus comunicados por esse único aparelho, que funcionava e respondia pela cifra de Trumpet. Quando Londres deu ordem para que a RLS entrasse em contato com um dos agentes da Trumpet, ficamos conhecendo toda a rede.

A Trumpet caiu em nosso poder completa, com seu plano de, sinalização e seus códigos. Utilizamo-la para iniciar uma segunda linha de comunicação Nordpol com Londres e sugerimos para esse grupo um novo local para o lançamento de pára-quedas. Aceitamos a primeira aterragem nesse ponto cerca de 15 dias depois.

Agente utilizando um aparelho de rádio
Enquanto isso, o plano de sinalização de Maartens, o operador morto, fora encontrado em poder de seu companheiro, Andringa. Anunciamos para Londres, via Trumpet, que Andringa descobrira na resistência um operador de confiança que podia servir-se da sinalização de Maartens com o aparelho deste já consertado. Londres mandou que o novo recruta fizesse uma transmissão de experiência para comprovar sua capacidade. O operador alemão que se submeteu à prova foi rapidamente aceito, e assim estabelecemos uma terceira linha de comunicação com Londres.

Em meados de maio. Heinrichs declarou suspeitar que Lauwers havia transmitido letras adicionais no fim de sua última mensagem. Esperamos ansiosamente para ver se Londres desconfiara de alguma coisa. Parecia que não. Entretanto pusemos termo às transmissões de Lauwers, propondo operadores de "reserva". Com espanto nosso, eles foram aprovados.

À medida que novos agentes iam sendo presos à chegada, nossos homens iam apanhando os transmissores e operando-os. Com isso corríamos o risco de que as características de transmissão de algum agente houvessem sido gravadas em Londres antes da partida. Se assim foi, eles nunca fizeram uma verificação cuidadosa. Em várias ocasiões, durante a Operação Nordpol, chegamos a ter 14 canais de comunicação radiotelegráfica com Londres e isso apenas com seis operadores alemães!

De junho em diante, a operação desenvolveu-se de maneira inacreditável. Os lançamentos de pára-quedas se sucediam quase ininterruptamente. A decisão tomada em Londres de mandar todos os futuros agentes e materiais por intermédio das articulações existentes foi o grande erro do nosso inimigo. Um só grupo de controle lançado às cegas, sem o nosso conhecimento, poderia ter desarticulado a Operação Nordpol.


H. J. Giskes

Em julho, Londres confiou ao grupo da RLS uma tarefa especialmente importante: um reconhecimento para ver se era possível fazer explodirem as torres do transmissor de Kootwijk, pelo qual o Almirantado Alemão se comunicava com os submarinos no Atlântico. O agente Thijs deveria comandar a turma encarregada da demolição. Mandei uma patrulha de reconhecimento e depois radiografei as conclusões exatas a que chegara: a demolição das torres não apresentaria grandes dificuldades; Thijs e seu grupo estavam de prontidão, à espera de ordens para levar a cabo a operação. Quando chegou a ordem, eu já tinha inventado motivos para o "insucesso". Dois dias depois a RLS transmitiu para Londres a seguinte mensagem: "Tentativa contra Kootwijk mal sucedida. Nossos homens encontraram campo de minas. Cinco homens desaparecidos. Thijs e os outros salvos, inclusive dois feridos". No dia seguinte: "Dois dos cinco desaparecidos voltaram. Três outros mortos em combate. Inimigo reforçou guarda de Kootwijk e outras estações".

Londres respondeu: "Lamentamos muito suas perdas. Sistema de defesa novo e imprevisível. Necessária a maior vigilância possível. Comunique qualquer anormalidade". Mandei noticiar o caso na imprensa holandesa. A notícia dizia que elementos criminosos haviam tentado fazer explodir uma estação de rádio. O material de sabotagem apreendido sugeria auxílio do inimigo. Eu esperava que meus adversários em Londres tivessem conhecimento dessa notícia por intermédio dos países neutros. Quinze dias depois, Londres mandava à RLS uma mensagem de congratulações pela tentativa de sabotar Kootwijk. Thijs deveria receber uma condecoração britânica como dirigente da operação.

A fase decisiva da Nordpol, de junho de 1942 até a primavera de 1943, foi a sua participação na Operação Marrow, de iniciativa anglo-holandesa. O chefe da operação Marrow era um agente chamado Jambroes, cuja missão - conforme soubemos quando os representantes da resistência lhe deram as boas-vindas antes de o prendermos - era estabelecer contato com os líderes da organização holandesa Ordedienst e fazer com que esta formasse 16 grupos de sabotagem e resistência com cem homens cada um.
Desenhos de radares alemães feito por agentes.

Não sabíamos quem eram os líderes da Ordedienst, de modo que comunicamos a Londres que havia desmoralização nas altas camadas da organização e que se haviam infiltrado espiões alemães entre os seus dirigentes. Sugerimos que Jambroes entrasse em contato com líderes de organizações de maior confiança.

A formação fictícia da organização Marrow começou em agosto de 1942. Os 16 grupos tiveram um desenvolvimento aparentemente tão grande que, em novembro, Londres havia mandado por nosso intermédio 17 agentes, cinco dos quais eram operadores de rádio, com seus próprios aparelhos e freqüência. Quando radiografamos que havia cerca de 1.500 homens recebendo instrução, lembramo-nos de que toda aquela gente precisaria com urgência de coisas tais como roupas, calçados, fumo, chá. E pedimos abastecimentos, recebendo certa noite uma remessa de cinco toneladas!


(1) Depois da guerra, Lauwers declarou que recebera instruções de Londres para cometer propositadamente um erro na 16ª letra de cada mensagem; a falta dessa "prova de identidade" indicaria que ele tinha caído nas mãos do inimigo. Conseguiu esconder de seus captores esse estratagema, inserindo, assim, uma advertência clara em todas as mensagens que irradiava para os alemães. Mas, por incrível que pareça, Londres não percebeu esses avisos.

(2) Nota do autor: Apesar disso, dos 54 agentes anglo-holandeses da Nordpol, 47 não sobreviveram à guerra. Investigações dos holandeses apuraram que eles foram fuzilados em 1944, no campo de Mauthausen. Sua eliminação foi um dos muitos crimes característicos dos processos de Himmler, que não podem ser justificados por quaisquer necessidades da guerra. A memória dessas vítimas de um infame abuso de confiança, que só posso recordar com vergonha e amargura, foi o que guiou a minha pena ao escrever esta narrativa.


O major da Abwehr, H. J. Giskes, narra as ações da contra-espionagem alemã e como se deu o fim da Operação Nordpol :

De janeiro a abril de 1943, outros 17 agentes caíram em nosso poder, compreendendo sete operadores com canais independentes de comunicação radiotelegráfica. Agora defrontava-me com o problema de dar informações a Londres sobre as atividades de quase 50 agentes. Não poderíamos manter a situação por muito tempo. Nossos seis radio-operadores não podiam dar conta do recado. Assim, obtivemos autorização de Londres, "por motivos de segurança", para encerrar as atividades de alguns dos transmissores Marrow.

Por um triz não fomos apanhados quando desembarcou um agente chamado Jongelie, cujo nome de guerra era "Arie". Preso, declarou que, para confirmar sua chegada são e salvo, devia imediatamente radiografar a Londres: "O expresso partiu na hora". Isso colocou os interrogadores num dilema. Estaria ele procurando enganar-nos?

Fui falar com Jongelie. Impassível ele respondia a todas as minhas perguntas com a declaração de que devia imediatamente transmitir o despacho: "O expresso partiu na hora", do contrário Londres compreenderia que ele caíra em poder dos alemães. Fingi, afinal, estar convencido. Aparentemente absorto nos meus pensamentos, disse-lhe que transmitiríamos a sua mensagem. E então, levantando os olhos de repente, surpreendi uma expressão de triunfo nos dele. Era realmente um estratagema.

Na primeira transmissão de rotina, mandamos o seguinte despacho: "Houve um acidente. Arie caiu mal e está desacordado. Médico diagnostica traumatismo grave". Três dias depois radiografamos: "Arie recuperou os sentidos ontem, por algum tempo. Médico espera melhoras". E no dia seguinte: "Arie faleceu. Esperamos prestar-lhe homenagens condignas depois da vitória".

Tivemos sorte: Londres tomava precauções normais, mas não podia supor que toda a sua rede de comunicações na Holanda e todos os seus agentes tivessem caído nas mãos dos alemães.

Pouco depois desse incidente, o quartel-general anglo-holandês começou a insistir que mandássemos de volta à Inglaterra, a fim de prestar informações, o agente Jambroes, chefe do grupo Marrow. Tínhamos que arranjar pretextos constantes para conservá-lo na Holanda: o principal era que a rota de comunicações para a Espanha andava difícil e perigosa. Reforçávamos essas informações dizendo que de vez em quando um agente partia para a França e não chegava a parte alguma. Quando Londres pedia informações sobre terrenos da Holanda onde poderia descer um avião para apanhar Jambroes, respondíamos que não conseguíamos achar lugar conveniente, ou então, quando parecia iminente um vôo especial, declarávamos à última hora que o local marcado era perigoso. Finalmente, tomamos a única atitude ainda possível: anunciamos que Jambroes estava desaparecido, "depois de uma incursão da polícia alemã em Roterdã".

Para remediar a situação, foi desembarcado na Holanda o Grupo Golf. Visava preparar rotas de comunicação e linhas de fuga seguras, através da França, Espanha e Suíça. Deixamos passar seis semanas e depois Golf radiografou a Londres que fora aberta uma rota segura até Paris e que o emissário seria um homem experimentado chamado "Arnaud". Na realidade, Arnaud era o nosso Unteroffizier Arno. Fingindo-se de refugiado francês, ele já havia entrado em contato com elementos da resistência e conseguira realmente penetrar nas rotas de comunicação do inimigo.

Para "experimentar a segurança" da linha de fuga do Grupo Golf, mandamos para a Espanha dois aviadores ingleses que viviam escondidos na Holanda. Três semanas depois, Londres confirmou que eles haviam chegado bem. Esse sucesso deu grande prestígio ao Grupo Golf e a Arnaud em Londres, e assim obtivemos informes sobre três estações do Serviço Secreto britânico em Paris, que serviam as linhas de fuga. A contra-espionagem alemã não tomou medidas contra essas estações, partindo do princípio de que obter informações - como passamos a obter em quantidade - era mais valioso do que a eliminação.

Nos meses seguintes, o Grupo Golf prestou realmente alguns serviços aos Aliados. Muitos aviadores inimigos que tinham sido abatidos na Holanda e na Bélgica foram encaminhados numa aventurosa viagem clandestina para a Espanha, sem saberem que estavam sob a asa da contra-espionagem alemã. Anunciávamos continuamente essas viagens, dando nomes e patentes, e quando os aviadores chegavam à Inglaterra realizávamos o nosso propósito: aumentar o prestígio do Grupo Golf, sem prejudicar a Nordpol.
Nessa altura eu começava a recear que as informações obtidas pelo inimigo nos países neutros não confirmassem as notícias que transmitíamos sobre movimentadas atividades de sabotagem na Holanda. Promovemos, então, uma série de atentados fictícios nas estradas de ferro. Hora e local eram planejados de maneira a evitar acidentes de trem, mas o assunto era muito comentado nos meios ferroviários holandeses.

Fizemos, também, explodir um navio em pleno dia, no Rio Maas, em Roterdã. Escolhemos uma barcaça de mil toneladas, que fazia o percurso para a Alemanha pelo Reno, com uma carga de peças de aviões destroçados e uma tripulação da Marinha de Guerra alemã. Pouco depois do meio-dia, numa bela tarde de agosto, houve uma explosão no momento exato em que a barcaça passava sob a grande ponte do Maas. Subiu ma enorme nuvem de fumaça e a embarcação começou a afundar. Homens a meu serviço tinham embarcado nela passando por engenheiros da luftwaffe e, sem despertarem as suspeitas da tripulação, fizeram detonar a carga de explosivos no lugar e no momento que convinham.

A lancha do capitão do porto "estava por caso nas proximidades", comigo a bordo. Tocamos depressa para o local do desastre e salvamos a tripulação da barcaça. Os destroços foram arrastados para a terra, pela correnteza, com a carga de velhas fuselagens e asas de aviões. Nas margens, milhares de habitantes de Roterdã aplaudiam e gritavam de alegria. A publicidade teve um êxito retumbante.

O capitão do porto, um honrado oficial alemão, passou uma semana interrogando febrilmente a tripulação da barcaça, num grande esforço para descobrir a origem da sabotagem. Mas nunca soube a verdade.

Em 31 de agosto de 1943, Ubbink e Dourlein, dois dos cinqüenta e tantos agentes que detínhamos na prisão de Haaren, conseguiram fugir e desapareceram. Eu estava convencido que aqueles homens corajosos e resolutos encontrariam algum meio de voltar à Inglaterra. Se conseguissem, trairiam a nossa organização.

Durante os dez primeiros dias de dezembro, as mensagens de Londres tornaram-se de repente monótonas e desinteressantes. Parecia que Ubbink e Dourlein tinham alcançado seu objetivo. Agora Londres procuraria enganar-nos a nós. Não deixamos transparecer que sabíamos que o grande logro fora, afinal, descoberto e continuamos as atividades normais. As mensagens de Londres apenas se tornavam cada vez mais desinteressantes.

Em março de 1944, propus a Berlim que puséssemos termo à farsa das operações Nordpol por meio de uma última mensagem. E assim foi que radiografamos aos homens que sabíamos estarem à testa do serviço secreto anglo-holandês:

Srs. Pancrácio, Simplório & Cia. Ltda., Londres. Sabemos que V. Sras. há algum tempo vêm procurando fazer negócios na Holanda, sem nosso auxílio. Lamentamos esse fato, pois fomos por tanto tempo seus únicos representantes no país em condições mutuamente satisfatórias. Asseguramo-lhes, não obstante, que, no caso de pretenderem fazer-nos alguma visita no continente, em escala considerável, dispensaremos aos seus emissários a mesma atenção de sempre, e uma acolhida sempre cordial.
O texto, em linguagem comum, foi radiografado para Londres no dia 1º de abril, por todos os dez canais. A data não podia ser mais indicada.

Na tarde seguinte, nossos radioperadores informaram que Londres aceitara a mensagem em quatro canais, mas que não respondera aos chamados dos outros seis. E assim foi encerrada a operação Nordpol.


Fonte: História Secreta Da Última Guerra  - Seleções Do Reader S. Digest
Autor: H.J. CISKES
http://pt.wikipedia.org/wiki/Abwehr



quinta-feira, 6 de maio de 2010

Divulgadas imagens de documentos do massacre de Katyn


As imagens dos documentos secretos que detalham a decisão do governo soviético de assassinar 22 mil oficiais poloneses em Katyn, em 1940, foram divulgadas nesta quinta-feira pelas agências internacionais. A decisão de divulgar os documentos foi tomada ontem pelo presidente russo Dmitri Medvedev em um gesto de solidariedade em relação à Polônia, que recentemente foi abalada pela morte do presidente Lech Kaczynski.

Os documentos mostram como o líder Joseph Stálin aprovou o massacre comandado por Lavrenty Beria, seu homem de confiança dentro da polícia secreta, durante a Segunda Guerra Mundial.
O documento principal tem quatro páginas e foi enviado a Stálin por Beria, chefe da NKVD, precessora da KGB. Nele, o oficial expõe sua proposta de “rapidamente examinar o uso dos meios mais duros de punição - a morte a tiros”. A assinatura de Stálin e um carimbo de “top secret” ilustram a primeira página. A iniciativa, diz o jornal britânico Times, é mais uma tentativa de Moscou de resolver as polêmicas com Varsóvia em relação a Katyn. No entanto, mais de 100 volumes relacionados à investigação ainda seguem restritos.
Os documentos divulgados são cópias eletrônicas. No site http://rusarchives.ru/publication/katyn/spisok.shtml (o endereço está disponível, mas logo abaixo, na continuação da postagem, coloquei  ele traduzido, para facilitar) é possível encontrar sete documentos da chamada “pasta para guardar papéis especiais Nº1″, como era chamado o arquivo máximo da chefia soviética. O documento principal, com data de 5 de março de 1940 e com um sinal verde de Stálin e outros membros da cúpula soviética, acrescenta que estes casos devem ser vistos “sem pedir o comparecimento dos detidos e sem apresentação de acusações”.
Os russos ainda não reconheceram oficialmente o crime cometido em Katyn como um massacre. Primeiro, o regime soviético atribuiu as mortes aos nazistas. Depois da queda do comunismo, Mikhail Gorbachev e Boris Yeltsin abriram os arquivos do caso e a Rússia assumiu a responsabilidade. Mas ainda há um impasse sobre a “descrição legal do crime”. Putin, ao assumir o poder, endureceu novamente a posição de Moscou. O premiê chegou a dizer que se tratava de um “crime político”. Em 2008, jornais russos chegaram a atribuir o crime mais uma vez à Alemanha de Hitler.

No entanto, nos últimos tempos a Rússia vem tentando dar alguns passos para confrontar seu passado. Isso se acelerou depois do acidente que matou o presidente Lech Kaczynski e outras 95 pessoas a caminho de uma cerimônia de homenagem aos mortos em Katyn, mas algumas iniciativas já haviam sido tomadas. A própria cerimônia que participaria Kaczynski era uma. Outra foi a exibição do filme Katyn, do diretor polonês Andrzej Wajdas, pela primeira vez na televisão russa. Além disso, Medvedev participou pessoalmente o funeral do presidente, onde recebeu o pedido do cardeal Stanislaw Dziwisz para resolver a dificuldade história dos dois países.

Fonte: Site Terra



Por decisão do presidente da Federação da Rússia, DA  Medvedev colocou imagens eletrônicas de documentos de arquivo original sobre o problema "de Katyn" do pacote "N 1"



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(clique nas imagens para ampliá-las)

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(clique nas imagens para ampliá-las)
 
Fonte: http://rusarchives.ru/publication/katyn/spisok.shtml


sábado, 1 de maio de 2010

Passaporte para a vida

A luta de um homem corajoso que salvou milhares de judeus durante a Guerra.
 
Chiune (Sempo) Sugihara acordou com os gritos do lado de fora do consulado japonês em Kovno, na Lituânia. Através de uma janela, o diplomata de 40 anos de idade, viu, incrédulo, centenas de homens, mulheres e crian-ças. Muitos destes homens tinham barba e usavam longos casacos e chapéus de pele. Algumas pessoas seguravam bebês ou ajudavam os parentes mais idosos. A maioria carregava tudo o que possuía em trouxas.

"São refugiados judeus" – um contínuo do consulado disse a Sugihara. "Querem que o senhor salve suas vidas."

Era 27 de julho de 1940. No mês de setembro anterior a Alemanha invadira a Polônia e relatórios horríveis dos crimes alemães contra os judeus se espalhavam. Mas o que isto tinha a ver com um obscuro diplomata japonês na Lituânia? Sugihara pe-diu um encontro e Zorach Warhaftig, um advogado na casa dos 30, explicou a situação de seu povo.

Famílias inteiras estavam sendo assassinadas pelos nazistas, Warhaftig contou a Sugihara. Os refugiados conseguiram chegar à Lituânia dominada pelos russos, mas era apenas uma questão de tempo antes da guerra estourar ali também.

Sobrava apenas uma rota de fuga – por terra através da União Soviética. Mas os russos nunca os deixa-riam passar sem prova de que os judeus seriam recebidos por outro país depois de cruzar a União Soviética. Outros con-su-la-dos na Lituânia ou foram omissos ou fecharam.

Milhares de vistos seriam necessários. "Quero ajudá-los" – disse Sugihara – "mas tenho que pedir permissão a Tóquio."
Warhaftig ficou preocupado. Poucos países em 1940 queriam ajudar os judeus deserdados e o Japão era quase um aliado formal da Alemanha.

Na multidão naquele dia estava Yehoshua Nishri, 20 anos. Ele ouviu o relato de Warhaftig. É nossa única esperança – pensou. O tempo está correndo.

Sugihara telegrafou ao Ministro do Exterior em Tóquio, explicando a situação dos judeus. "Estou pedindo permissão para emitir vistos de trânsito imediatamente" – escreveu.

Dois dias mais tarde veio a resposta. Decepcionado, Sugihara leu: "Você não pode conceder vistos de trânsito para pessoas sem destino conhecido."

Naquela noite, Sugihara andou para lá e para cá até a alvorada. "Preciso fazer alguma coisa" – disse à esposa, Yukiko, que ficou acordada com ele.

"Sim" – Yukiko disse. "Precisamos." Ela pensou, triste, no aviso do parque de "Proibido para judeus." Como as pessoas podem fechar seu coração por ódio cego? ela pensava. O olhar de desespero nos olhos daqueles refugiados – especialmente daqueles com crianças pequenas – tocou a jovem mãe de três meninos.
Sugihara telegrafou novamente a Tóquio, explicando que aquele refugiados precisariam de 20 dias para cruzar a União Soviética. Partindo de barco do porto russo de Vladivostok, em 30 dias chegariam ao Japão. Com certeza, em 50 dias, ele argumentou, um destino final seria encontrado.

A resposta ainda era não.

Casal Sugihara 

Sugihara mandou um terceiro telegrama para Tóquio explicando que com um avanço nazista iminente, os judeus não tinham mais para onde se voltar. De novo, negativo. A escolha para Sempo Sugihara era óbvia: tinha de obedecer a seu governo ou a sua cons-ciên-cia.

Sempo Sugihara sempre agia independentemente. Formou-se no colégio com notas brilhantes e seu pai insistiu que fosse médico. Mas o sonho de Sempo era estudar literatura e morar no exterior.

Na manhã do vestibular de medicina, o jovem Sugihara saiu de casa com o conselho de seu pai para dar o melhor de si. Mas quando as provas foram entregues, ele escreveu seu nome no cabeçalho e colocou o lápis de lado. Quando o teste terminou, entregou uma folha em branco.

Sugihara foi estudar inglês na conceituada Universidade Waseda. Pagou seus estudos trabalhando meio-período como estivador, professor particular e puxador de riquixá.

Certo dia, ele viu um anúncio intrigante nos classificados. O Ministério das Relações Exteriores estava procurando jovens que quisessem estudar no exterior como início para a carreira diplomática. Caía como uma luva para o jovem sonhador. Um dos únicos a passar o teste eliminatório, Sugihara foi enviado para Harbin, na China. Lá estudou russo.

Depois de se formar com louvor, entrou a serviço do governo da Mandchúria controlada pelos japoneses, no nordeste da China. Chegou a vice-ministro de Relações Exteriores. Certa vez, quando o governo soviético queria vender uma ferrovia aos japoneses, Sugihara pesquisou o negócio. Depois de descobrir que o preço pedido era o dobro do valor da ferrovia, conseguiu cortar o preço pela metade.

Tal iniciativa logo colocou Sugihara a um passo de se tornar Ministro das Relações Exteriores da Mandchúria. Mas ele ficou desalentado com a maneira cruel com que seus concidadãos tratavam a população local. Sugihara renunciou ao cargo de vice-ministro e voltou ao Japão em 1934.

Uma vez que era um funcionário do governo japonês que dominava o russo como ninguém, o Chanceler esperava colocá-lo na embaixada em Moscou. Mas os soviéticos se lembraram do negócio da ferrovia e recusaram as credenciais de Sugihara. Em vez disso, Tóquio enviou-o a Lituânia para abrir uma represen-tação consular em 1939. Lá poderia relatar as atividades soviéticas e os planos alemães de guerra. Seis meses mais tarde, a guerra eclodiu e a União Soviética anexou a Lituânia. Todos os consulados deveriam ser fechados. E a multidão de judeus nos portões de Su-gihara aumentava a cada instante.

Sugihara e sua esposa discutiram o que aconteceria se ele desobedecesse ordens. "Poderia ser o fim de minha carreira" – ele disse. Mas no final, Sugihara sabia que caminho seguir.

"Vou ter de desobedecer a meu governo" – disse a Yukiko. "Mas se não o fizer, estarei desobedecendo a Deus."

Fora do consulado, Sugihara anunciou à multidão: "Vou conceder vistos de trânsito a quem quiser."
Houve um silêncio chocante, depois uma explosão de alegria. Muitos choravam, rezando. Uma fila longa e desorganizada se formou enquanto as pessoas se acotovelavam por um lugar.

Uma vez que os vistos japoneses eram apenas de trânsito, as pessoas deveriam ter de declarar um destino final. Curaçao, uma possessão holandesa no Caribe, foi uma sugestão. Warhaftig obteve uma declaração de que não era necessário visto para entrar nesta colônia.

Sugihara começou a emitir vistos naquela manhã, 1º de agosto. Primeiro, ele fazia as perguntas de praxe: se tinham passagem para fora do Japão; se tinham dinheiro suficiente para a viagem. Mas quando se tornou óbvio que muitos refugiados fugiram com a roupa do corpo, Sugihara omitiu estas perguntas.

Igo Feldblum, 12 anos, e sua família, escaparam de Cracóvia, Polônia. Quando foi sua vez de entrar no escritório de Sugihara, um dos assistentes do cônsul sussurrava uma frase a cada membro da família de Igo: "Banzai Nipon!" (Vida longa ao Japão!). Com estas palavras, Sugihara podia confirmar que os refugiados "falavam japonês".

Cada visto levava quinze minutos. Sugihara deixara de almoçar para emitir tantos quanto possível. Mesmo assim, quando finalmente parou naquela primeira noite, a multidão não diminuiu.

Ele trabalhou dia e noite e quando acabaram os formulários oficiais, escreveu mais à mão. À medida que passavam os dias, ele começou a ficar fraco. Seus olhos se tornaram injetados pela falta de sono. "Penso se não deveria parar já" – disse, exausto, à sua esposa uma noite.

"Vamos salvar o mais que pudermos" – Yukiko respondeu baixinho.

Na terceira semana de agosto, Sugihara recebeu telegramas ordenando-o a parar. Grande número de refugiados poloneses chegava ao Japão nos portos de Yokohama e Kobe, provocando confusão. Sugihara ignorou as ordens.

No final de agosto, os soviéticos exigiam que o consulado fosse fechado. Tóquio instruiu Sugihara a se mudar para Berlim. Porém centenas de judeus ainda estavam chegando. As faces suplicantes na multidão eram demais para ele. "Vou ficar uma noite num hotel aqui" – anunciou. "Vou conceder o máximo de vistos que puder antes de partir."

Documentos de viaje carimbados com o visto de Sugihara

Uma multidão seguiu a família até o hotel, onde Sugihara continuou a escrever. Na manhã seguinte, um grupo ainda maior seguiu Sugihara e sua família à estação do trem. No trem, ele continuou a escrever freneticamente, mas não conseguia dar vistos para todos. Começou a assinar seu nome em folhas em branco, esperando que o resto pudesse ser preen-chido. Ainda estava passando papéis quando o trem partiu.

"Sempo Sugihara" – um homem gritou nos trilhos – "nunca o esqueceremos."
Agarrando seus preciosos vistos, os refugiados partiram para o leste através da Sibéria. Quando se encontraram em segurança a bordo de um navio para o Japão, muitos estavam convencidos de que a pressa com que Sugihara escreveu e selou os pedaços de papel fora de algum modo abençoada.

Moshê Cohen, um estudante de religião de 17 anos, certamente o pensava. Quando seu grupo se preparava para subir no navio para Kobe, Cohen viu um oficial russo empurrar um rabino em direção a dois oficiais japoneses que verificavam os vistos. Quando o rabino abriu seu passaporte, o vento carregou o visto, levando-o num arco flutuante sobre a água.

"Todos olhamos, transfixados" – disse Cohen. "Voou a nosso redor até aterrissar na rampa, bem em frente aos pés do rabino. Ele o entregou aos japoneses, que acenaram para que seguisse."

No Japão, os judeus foram tratados sem discriminação. Quando seus vistos de trânsito expiraram, tiveram permissão para ir para Xangai esperar pelo fim da guerra. Curaçao estava fechado para eles. Depois da guerra, alguns ficaram no Japão. A maior parte dos outros foi para os Estados Unidos, América do Sul ou Palestina, o futuro Estado de Israel.

Sugihara estima que concedeu 3.500 vistos. Outros dizem que foram 6.000.


                   Judeus esperando por vistos em frente ao consulado japones em Kovno

Durante a guerra, Sugihara dirigiu os consulados na Tchecoslováquia, Romênia e Alemanha. Uma vez que seu governo nunca mencionou os vistos, achava que haviam esquecido.

Em 1945, Sugihara dirigia o consulado japonês em Bucareste, Romênia, quando ele e sua família foram presos pelas tropas soviéticas e levados a um campo de prisioneiros. Depois de 21 meses, a família retornou ao Japão.

De volta a Tóquio, Sugihara esperava que lhe oferecessem uma embaixada. Mas o vice-chanceler pediu sua renúncia. A costumeira carta de recomendação foi negada. Sugihara percebeu que se lembravam do que ele fizera na Lituânia.

Para sustentar a família, o diplomata de carreira primeiro tentou vender lâmpadas de porta em porta. Finalmente se mudou para Moscou para dirigir uma filial de uma empresa exportadora, deixando sua família para trás por longos períodos de tempo.

Os judeus cuja vida ele salvou nunca se esqueceram de Sugihara. Muitos tentaram encontrá-lo; suas investigações junto à Chancelaria de Tóquio foram infrutíferas.

Certo dia, em 1967, o filho de Sugihara, Hiroki, recebeu uma mensagem de um oficial da embaixada israelense em Tóquio que queria vê-lo. Era Yehoshua Nishri, que havia rastreado a família por meio de uma lista de universitários.

"Há anos procuro por seu pai" – Nishri contou a Hiroki. "Nunca esquecerei o homem que salvou minha vida."
Hiroki disse que seu pai estava trabalhando em Moscou. "Diga-lhe que Israel quer homenageá-lo pelo que ele fez" – Nishri falou.

Hiroki recebeu uma resposta típica de seu pai: estava ocupado com o trabalho e não tinha tempo para agradecimentos oficiais. Mas três meses mais tarde, Nishri convenceu Sugihara a ir para Israel.

Em Tel-Aviv, Sugihara foi recebido como herói. Houve festas para homenageá-lo organizadas por quem ele salvou – alguns deles desempenhavam papel importante na jovem história de Israel. Entre eles, Zorach Warhaftig que ajuda-ra a escrever a Declaração de Independência de Israel e era agora Ministro de Assuntos Religiosos.

"Sempre fiquei a pensar" – disse Warhaftig – "por que você fez aquilo."

Sugihara respondeu: "Vi pessoas em desespero e era capaz de ajudá-las e, então, por que não fazê-lo?"
Em 1984, o Departamento dos Mártires e Heróis do Holocausto de Israel concedeu a Sugihara o título de "Justo entre as Nações." Sugihara, com 85 anos, estava fraco demais para comparecer à cerimônia, assim sua esposa recebeu o prêmio. Um parque recebeu seu nome em 1992; Sugihara recebeu o título de cidadão honorário de Israel.

Sugihara foi homenageado nos Estados Unidos também. Recentemente, a Yeshivá de Mir celebrou o jubileu de ouro em Nova York. Todo o corpo docente e discente da escola – cerca de 300 rabinos, alunos e familiares – fugiu de Mir, Polônia e foi salvo por Sugihara. O aniversário foi comemorado com a criação do Sempo Sugihara Educational Fund em prol dos jovens eruditos judeus.
Igo Feldblum é atualmente médico em Haifa, Israel. "Um homem corajoso faz coisas difíceis" – reflete. "Um herói faz coisas que parecem impossíveis. Ele agiu mesmo sabendo que nada ganharia em troca."

Sugihara morreu no Japão em 1986 em relativa obscuridade. Apenas quando um grande número de judeus ortodoxos compareceu a sua casa para o funeral é que seus vizinhos perceberam que viviam ao lado de um herói.

Em 1991, o governo japonês emitiu um tardio pedido de desculpas a sua família por demiti-lo. Sua esposa e filhos ainda têm contato com judeus agradecidos que receberam um dos vistos de Su-gi-hara. Estima-se que se os descen-dentes dos que foram salvos fossem computados, haveria dezenas de milhares em todo o mundo que devem suas vidas ao corajoso diplomata.

Warhaftig, que tem 25 netos, olha para trás para o que aconteceu, e diz:

"Sempo Sugihara foi um emissário de Deus."

Por David Tracey
Fonte: http://www.chabad.org/
United States Holocaust Memorial Museum Photo Archive
http://www1.yadvashem.org/es/righteous/stories_sugihara.asp

Janusz Korczak,



Janusz Korczak, pseudônimo de Henryk Goldszmit (Varsóvia, 22 de julho de 1878 ou 1879 — Treblinka, agosto de 1942) foi um pediatra, autor infantil e pedagogo judeu polonês.

Biografia

Korczak nasceu na capital da Polônia, numa família judia. Seu pai Józef Goldszmit morreu em 1896 (provavelmente suicídio), deixando a família sem nenhuma fonte de renda. Durante os anos seguintes, Korczak, ainda adolescente, passou a sustentar sua mãe, irmã e avó.
Em 1898, usou pela primeira vez o nome Janusz Korczak como pseudônimo para participar de um concurso literário. O nome foi inspirado no livro Janasz Korczak and the pretty Swordsweeperlady escrito por Józef Ignacy Kraszewski. Entre 1898–1904 Korczak estudou medicina em Varsóvia e também escreveu para alguns jornais da Polônia.
Graduado em pediatria, durante dois anos (1905-1906) serviu como médico do exército na Guerra Russo-japonesa. Durante esse período, seu livro Child of the Drawing Room se tornou conhecido nos meios literários. Depois da guerra continuou a trabalhar como médico em Varsóvia
Entre 1907–1908, Korczak deu continuidade a seus estudos em Berlin. Enquanto trabalhava para o Orphan's Society, em 1909, conheceu Stefania Wilczyńska. Em 1911–1912 se tornou diretor do Dom Sierot, um orfanato para crianças judias na capital polonesa. Wilczyńska se tornou próxima a ele nessa empreitada. No orfanato ele criou uma espécie de república das crianças, com um parlamento, tribunal e jornal próprios.
Em 1914 Korczak voltou a atuar como médico do exército com a patente de tenente durante a I Guerra Mundial. Escreveu um ensaio pedagógico no tempo que tinha livre. Em Kiev conheceu Maryna Falska, que depois se tornou sua ajudante em Varsóvia. Retornou à sua cidade natal quando a Polônia recuperou a independência em 1918.

O orfanato da Krochmalna, onde Korczak trabalhou

Depois da guerra, fundou um outro orfanato chamado Nasz dom (Nosso lar) e deu continuidade a seu trabalho no Dom Sierot. Durante a guerra entre a Polônia e a União Soviética serviu novamente como médico do exército. Nesse período, contraiu tifo e sua mãe morreu dessa doença.
Em 1926 permitiu às crianças do orfanato começarem seu próprio jornal, o Mały Przegląd, que acompanhava semanalmente o jornal judeu Nasz Przegląd.
Entre 1934–1936 Korczak viajou anualmente para a Palestina para visitar os kibbutzim. Isso aumentou os ataques anti-semitas contra ele. O que o levou a parar de trabalhar no órfanato não judeu em que atuava. Apesar disso, não quis se mudar para a Palestina mesmo quanto Wilczyńska foi em 1938.
Em 1939, com o início da II Guerra Mundial, Korczak tentou se alistar no exército polonês mas foi recusado por causa da sua idade. Ele testemunhou a chegada do Wehrmacht (nome do exército alemão durante a segunda grande guerra) à Varsóvia. Quando os nazistas criaram o gueto de Varsóvia em 1940, seu orfanato foi obrigado a se mudar para dentro do gueto. Korczak foi junto, por sua vontade, para não abandonar suas crianças.
No dia 5 de agosto (para alguns 6 de agosto) de 1942, soldados alemães levaram as cerca de 200 crianças que estavam no orfanato, aproximadamente 12 funcionários e Janusz Korczak para o campo de concentração de Treblinka. Não se tem claro o que aconteceu com Korczak após entrar no trem para Treblinka, o mais provável é que tenha morrido numa câmara de gás ao chegar no campo de concentração.

                                          "Janusz Korczak e a criança" em Yad Vashem
 
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