quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Hugo Boss lamenta uso de trabalhadores forçados durante o nazismo

 Livro sobre história da grife revela que trabalhadores foram obrigados a fabricar uniformes para o regime de Hitler. Empresa diz que financiou pesquisa para ter mais clareza sobre seu passado.

 

Hugo Boss era conhecido como 'alfaiate de Hitler'

Sinônimo de moda e elegância, a grife mundialmente famosa Hugo Boss desculpou-se por ter maltratado pessoas que trabalhavam forçadamente na fábrica de uniformes nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

O pedido de desculpas foi divulgado na última quinta-feira (22/09) após revelações feitas no livro Hugo Boss, 1924-1945 – Eine Kleiderfabrik zwischen Weimarer Republik und "Drittem Reich" (Uma Fábrica de Roupas entre a República de Weimar e o Terceiro Reich), financiado pela companhia, que conta a história da empresa e sua relação com o regime nacional-socialista.

De acordo com o pesquisador Roman Köster, autor do livro, a confecção de Hugo Ferdinand Boss, que funcionava na cidade de Metzingen, sul da Alemanha, empregava mão de obra forçada durante a guerra.
A firma Hugo Boss, que já foi chamada de "alfaiate de Hitler", afirma que financiou a pesquisa de Köster com o intuito de acrescentar "clareza e objetividade" às discussões sobre sua história.
"A empresa também lamenta profundamente por aqueles que sofreram ofensas e passaram por dificuldades na fábrica dirigida por Hugo Ferdinand Boss sob o jugo do nazismo", afirma a marca em sua página na internet.

 Boss Nazista

Boss entrou para o Partido Nacional Socialista em 1931, quando a empresa começou a sentir o impacto da crise econômica no país. A Hugo Boss escapou da falência graças à produção de uniformes para soldados alemães das forças paramilitares SA e SS, além da Juventude Hitlerista.

Como era difícil encontrar mão de obra durante a guerra, a fábrica se beneficiou de 140 trabalhadores forçados – a maioria deles, mulheres. Outros 40 prisioneiros de guerra franceses trabalharam para a Hugo Boss entre 1940 e 1941.
 "O fato de se tornar membro do partido em 1931 certamente não o incomodou, mas se você olhar para o resto da carreira de Boss, aí fica claro que ele não entrou para o partido apenas por causa de cálculos financeiros. É possível ver claramente que ele era um nazista convicto", afirma Köster, que realizou pesquisas sobre a vida de Hugo Boss na Universidade das Forças Armadas Alemãs em Munique.
 Hugo Boss começou sua carreira como um simples alfaiate. Após a Primeira Grande Guerra, aos 33 anos de idade, ele fundou sua própria confecção em Metzingen. Nesta época, a produção contava apenas com 30 funcionários e tinha um relativo êxito – longe do atual sucesso internacional da grife, que veio a ser alcançado anos mais tarde.
 De início, paralelamente à fabricação de uniformes, que era compartilhada com outras alfaiatarias, a Hugo Boss também produzia roupas normais para trabalhadores e camisas. Em 1938, conta Köster, a situação mudou com o reinício do recrutamento militar na Alemanha. O foco passou a ser exclusivamente a confecção de uniformes para as forças nazistas. A empresa chegou a contar com 300 funcionários nesta época.

Outros passados
A Hugo Boss não é a única empresa a encomendar estudos independentes para resgatar os laços com o nazismo no passado. Este ano, a Quandts, família de industriais e acionista majoritária da BMW, quebrou seu silêncio. Ela admitiu ter feito uso de milhares de trabalhadores forçados e de terem fechado vários negócios com o governo nazista.
Em 1999, o Deutsche Bank encomendou uma investigação interna sobre as práticas de empréstimo da companhia durante o período nazista. Foi revelado que créditos do banco foram usados para erguer o campo de concentração de Auschwitz.
Firma de Hugo Boss não foi a única fábrica de uniformes nazistas
 O Ministério alemão de Assuntos Estrangeiros também fez uma busca sobre seu passado e descobriu que muitos de seus diplomatas dos anos 1950 e 1960 tiveram passado nazista.
Segundo estudos, cerca de 90% das empresas alemãs se beneficiaram do trabalho escravo ou semiescravo durante a Segunda Guerra Mundial. Calcula-se que no final de 1944 havia, em toda a Alemanha, 7,7 milhões de trabalhadores forçados em todo o país.
Para compensar as vítimas, o governo alemão estabeleceu um fundo de reparação no final dos anos 1990. Empresas com passado nazista disponibilizaram recursos para o fundo, entre elas a Hugo Boss.

Fabricação de ternos
Durante o período de desnazificação, com o fim do regime, em 1945, Boss foi considerado como "reponsável". Apesar disso, ele foi autorizado a continuar tocando sua fábrica, afirma o estudo de Köster.
Boss não viveu tempo suficiente para ver sua empresa virar uma grife mundialmente famosa. Ele morreu em 1948 em Metzingen, sua cidade natal. Gerenciada pelos filhos, a Hugo Boss, passou a se dedicar à produção de ternos bem cortados, pelos quais atualmente é conhecida. Há alguns anos a empresa foi vendida e seus atuais donos não têm mais relação com a família Boss.

Autores: Friedel Taube / Mariana Santos
Revisão: Carlos Albuquerque
Fonte: http://www.dw-world.de/dw/article/0,,15415050,00.html

domingo, 11 de setembro de 2011

A extensa discriminação aos judeus orientais(Ostjuden) pelos judeus-alemães

Polonia, Judeus em Olkusz em foto com alemães, numa situação irônica.

Judeus Orientais (Ostjuden) versus Judeus-Alemães

O exame do trágico conflito entre judeus-alemães e judeus orientais(Ostjuden) antes da chegada de Hitler ao poder ajuda a explicar a confusão dos Mischlinge sobre o que significa ser judeu. Antes da ascensão do nazismo, muitos judeus-alemães, infelizmente, discriminavam os Ostjuden.  Muitos achavam que os pobres, culturalmente atrasados e "sujos" Ostjuden davam má fama aos bens sucedidos Jeckes alemães. Embora muitos judeus-alemães desprezassem os Ostjuden, alguns os ajudavam filantropicamente. Sentiam pena daqueles judeus que deixavam o Leste por causa do comunismo, progroms e luta econômica. Infelizmente, esses judeus-alemães que ajudavam os Ostjuden eram minoria. Muitos judeus-alemães achavam que os Ostjuden  viviam em guetos anacrônicos e só aprendiam "barbarismo talmúdico polonês", em comparação com a refinada Bildung (educação). Para eles, esses "judeus do gueto" vindos do leste seguiam uma religião irracional e supersticiosa dos misticos judeus, que não mais podia funcionar direito num mundo baseado numa religião da razão e do conhecimento. A maioria dos Ostjuden  achava que seus heréticos irmãos daitsch (alemães) haviam deixado a Yddishkeit(judeidade) raspando a barba e não mantendo o santo shabat. Muitos deles denunciavam os movimentos reformistas iniciado na Alemanha. Na Áustria, muitos judeus vienenses também não acolhiam os Ostjuden e demonstravam desprezo por aqueles "pessoas barbudas, vestidas com caftãs".

Assim, muitos judeus e Mischlinge alemães pensavam que Hitler baseava suas diatribes anti-semitas nos Ostjuden que haviam emigrados da "terra do bolchevismo". Os nazistas reforçavam esse engano quando emitiram decretos contra os Ostjuden em 1933 e depois, quando obrigaram 1800deles a deixar o Reich em 1938. Wolf Zuelzer, 75% judeu, explicou  que os judeus-alemães mantinham o preconceito contra os Ostjuden  devido ao isolamento e estilo de vida "primitivo" deles. Zuelzer escreveu que, "para a maioria dos judeus-alemães, os Ostjuden  ortodoxos vestidos de caftã, com chapéu de pele e suíças rituais eram uma aparição assustadora, vindos da Idade Media". No inicio do seculo XX, "muitas das comunidades judaicas locais na Alemanha recusavam-se a permitir que judeus orientais votassem em eleições comunitárias, com base  em que não eram nacionais alemães. O Dr. Max Naumann, judeu, major reformado do Exército da Primeira Guerra Mundial e fundador da organização militante direitista dos Judeus-Alemães Nacionais, escreveu a Hitler a 20 de março de 1935, dizendo que ele e seus seguidores haviam lutado para manter os Ostjuden fora da Alemanha. Achava que aquelas "hordas de judeus meio asiáticos" eram "hospedes perigosos" e deviam ser implacavelmente expulsos".

Naumann queria que Hitler retirasse à força os Ostjuden da Alemanha. Lutou por aceitação pelos nazistas, exibindo a adesão de sua organização ao que julgava fosse a Weltanschauung de Hitler. Naumann esperava ganhar a aprovação de Fuhrer para sua organização. Não reconheceu como isto era impossível. Sua organização não era a unica. A Deustsche Vortrupp (vanguarda Alemã), grupo de estudantes universitários liderados por Hans Joachim Schoeps, acreditava que o que estava no centro do nazismo era a regeneração da sociedade alemã, "não racismo nem ódio racial". Ele e seu grupo queriam fazer parte do apoio aos nazistas na reconstrução da Alemanha. Queriam que os nazistas vissem que eles, como judeus nacionalistas alemães, eram partes da nação alemã. Admitiam que existiam problemas entre judeus e arianos, mas, o que não surpreende, "culpavam os Ostjuden por isso". Os nazistas iam dissolver as organizações de Naumann e Schoeps em 1935. Muitos judeus-alemães viam como um grave perigo para a sua posição os Ostjuden, que,se se deixassem que permanecessem na Alemanha, só iriam intensificar sentimentos anti-semitas. Em várias declarações públicas nas décadas de 1920e 1930, judeus-alemães liberais rotulavam de "inferiores" os Ostjuden, e pediam ajuda do Estado para combater a imigração deles. Muitos alemães, incluindo judeus, achavam que Hitler ia deter a imigração de Ostjuden, que aumentou dramaticamente após a Primeira Guerra Mundial, e aprovaram essa politica. na década de 1920, algumas estimativas dizem que bem mais de cem mil judeus estrangeiros, a maioria poloneses, viviam na Alemanha. Muitos judeus-alemães provavelmente achavam que o grande numero de Ostjuden, que trabalhavam por salários mais baixos, ameaçavam seus empregos. Talvez alguns judeus-alemães também assim reagissem porque os Ostjuden  representavam uma partes deles mesmos que queriam negar. Todos os judeus-alemães sabiam que, numa época da historia, eles ou seus ancestrais tinham a aparência que condenavam nos Ostjuden. Este fato constrangia a maioria, e muitos reagiam aos Ostjuden com desdem e arrogância. Os Ostjuden  simplesmente representavam tudo de que muitos judeus-alemães haviam lutado para distanciar-se.

Polonia, Galicia , Gorlice 1939


Polonia, Radom
Polonia, Judeu em Olkusz. O Ostjuden(judeu do leste) com tefilin.

Robert Braun lembrou que seu pai judeu, o Dr. Leopold Braun, era um anti-semita que não gostava dos Ostjuden. Muitos judeus e Mischlinge alemães achavam que, como suas famílias tinham vivido na Alemanha por varias gerações, deviam ser tratadas de forma diferentes dos Ostjuden. Por exemplo, o tenente-coronel reformado Albert Benary, meio judeu e conhecido escritor militar, escreveu ao governo nazista a 25 de setembro de 1933, em resposta ao Arienparagraph (leis raciais que perseguiam "não-arianos"[Nichtarier] no serviço publico).  Sentia-se indignado pelo fato de um oficial testado em combate, cuja família vivia na Alemanha havia mais de um seculo, fosse excluído da "construção da Alemanha no momento mesmo de sua realização". Exigia que ele e sua família fossem reconhecidos como cidadãos alemães que, pelo contato com o Blut und Boden alemão,  haviam se tornado alemães. repetiu seu pedido a 16 de outubro de 1933:
Minha família não vem dos guetos orientais. Veio do Ocidente para a Alemanha pelo Norte da Africa e a Espanha, e certamente não pegou sangue judeu no caminho. Contudo, minha família não se envergonha de seu sangue judeu. podemos remontar nossas origens judias à casta sacerdotal do povo judeu, e o lema de nossa família, grito de guerra se quiserem, vem do Livro de Macabeus: "Se chegar a nossa hora, morramos como cavalheiros por nossos irmãos, para preservar nossa honra". Acredito que este lema ressoa também no coração nacional-socialista (...). Acredito que tenho o direito de pedir para não ser tratado como um alemão de segunda classe.
Benary não entendeu as intenções nazistas. Eles não ligavam para a honorabilidade dos ancestrais dele, como ele se comportara ou de que classe ou religião tinha vindo sua família. Para os nazistas, ele era um não-ariano. Embora o fato de o tratarem como um "alemão de segunda classe" devesse torna-lo mais consciente das drásticas mudanças que ocorriam na Alemanha, ele ainda não entendia que, enquanto Hitler mantivesse o poder, sua ancestralidade o excluía da sociedade ariana. talvez por senso de lealdade a um  irmão oficial, o chefe do departamento ministerial da Reichswehr, Coronel Walter von Reichenau, escreveu em favor de Benary, dizendo que seu notável serviço à pátria devia permitir-lhe permanecer em seu posto. Aparentemente, apesar da ajuda de Reichneau, Benary continuou enfrentando problemas. A maioria dos nazistas não simpatizavam com ele e pouca atenção dava ao que judeus ocidentais e orientais pensavam uns dos outros, ou ao que um meio judeus-alemão julgava ter direito.


Transcrição: Daniel Moratori (avidanofront.blogspot.com)
Fonte: RIGG,Bryan Mark, Os Soldados Judeus de Hitler, ed. Imago, pg 36-39.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A captura do general Vlasov (Exercito de Liberação Russa - POA)

Coloquei abaixo um trecho da obra de Beevor, assunto esse que muitíssimo me interessa, sobre a luta de povos colaboracionistas, entre eles os russos (e consequentemente as altas traições), e que infelizmente (como sempre) carece de assunto em língua portuguesa, sendo necessário a buscar fontes em outras línguas (uma dificuldade para aqueles que não tem domínio de outro idioma) . 

O relato abaixo é sobre a captura do general Andrey Vlasov,  general russo que comandava o POA - Exercito de Libertação Russa (POA vem do cirílico Русская освободительная армия  - Outra sigla, do russo: ROA Russkaya osvoboditel'naya armiya). Mais comumente chamado de Exercito de Vlasov.


Gen. Vlasov e soldados do POA
A 1ª Frente Ucraniana de Konev recebera  ordens de infletir para o sul e tomar Praga. Ali, a resistência tcheca, ajudada pelos soldados do general Vlasov, numa virada condenada ao fracasso, levantou-se em revolta  contra as tropas do marechal-do-campo Schörner. Churchill pedira aos americanos, em 30 de abril, que mandassem o Terceiro Exercito do general Patton para garantir a cidade antes que o Exercito Vermelho ali chegasse, mas o general Marshall recusara. Viena, Berlim e Praga estavam todas caindo em mãos soviéticas e toda a Europa Central com elas. As autoridades da ocupação soviética da Áustria tinham criado um governo provisório sem consultar os aliados. Breslau, capital da Silésia, rendeu-se em 6 de maio depois de um sitio pavoroso que durou quase três meses.

O próprio Vlasov rejeitara inicialmente a idéia de trair os alemães na undécima hora, mas não tinha escapatória, fizesse o que fizesse. "Em 12 de maio de 1945, perto da cidade de Pilsen, na Tchecoslováquia", relatou o chefe do departamento político da 1ª Frente Ucraniana, "tanquistas do 25º Corpo Blindado capturaram o traidor da pátria general Vlasov. As circunstâncias foram as seguintes: um dos tenentes-coronéis do 25° Corpo Blindado foi abordado por um homem do exército de Vlasov, com o posto de capitão, que afirmou, apontando para um carro que vinha sozinho pela estrada que ia para oeste, que o general Vlasov estava no carro. Uma perseguição foi organizada imediatamente e os tanquistas do 25° Corpo Blindado pegaram o traidor." Disseram que Vlasov, que aparentemente tentara esconder-se sob alguns cobertores, foi encontrado levando um "passaporte americano em seu nome" (item que pode ter sido acrescentado à lista por razões de propaganda antiocidental), "seu cartão do partido, que preservara, e urna cópia de suas ordens às tropas de parar de lutar, depor as armas e render-se ao Exército Vermelho". O próprio Vlasov foi mandado de avião do quartel-general de Konev para Moscou. Lá, fizeram-se mais tarde bravatas sobre sua morte sob tortura terrível e prolongada. Em 13 e 14 de maio, 20.000 de seus homens foram recolhidos na região de Pilsen e enviados para campos especialmente preparados para serem interrogados pela SMERSH.

Transcrição: Daniel Moratori (avidanofront.blogspot.com)
Fonte: BEEVOR, Antony - Berlim 1945 - A queda, pg 492

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Túmulo de Rudolf Hess é destruído para pôr fim à peregrinação neonazista

Esta foto de 1938 mostra o chanceler alemão, Adolf Hitler
e seu representante pessoal Rudolf Hess durante um desfile em Berlim.
O túmulo de Rudolf Hess em Wunsiedel, no sul da Alemanha, foi destruído depois de os restos mortais do líder nazista terem sido exumados, confirmaram nesta quinta-feira (21/07) representantes da igreja evangélica local. A informação havia sido publicada pelo jornal Süddeutsche Zeitung.

Os restos mortais de Hess, que na condição de representante de Hitler foi o número dois na hierarquia nazista, foram exumados no início da manhã desta quarta-feira. Eles foram incinerados logo em seguida e serão lançados ao mar, atendendo a pedido dos descendentes do líder nazista.

A comunidade evangélica de Wunsiedel decidiu negar à família a prorrogação do arrendamento do túmulo, vencido desde 2007. A neta de Hess chegou a entrar na Justiça contra a decisão, mas acabou cedendo e concordando com a remoção da sepultura.

O túmulo de Hess foi durante mais de duas décadas local de peregrinação de grupos neonazistas. Com a remoção da sepultura, a comunidade espera que as marchas neonazistas na cidade tenham fim.

Condenado em Nurembergue

Hess foi condenado à prisão perpétua nos Julgamentos de Nurembergue, ao final da Segunda Guerra Mundial. Ele cometeu suicídio em 17 de agosto de 1987 na sua cela na prisão berlinense de Spandau, aos 93 anos.

Os restos mortais foram sepultados em Wunsiedel, atendendo a desejo do próprio Hess. Desde então, o túmulo se converteu em local de peregrinação para a extrema direita alemã. Principalmente nos dias 17 de agosto, quando centenas de neonazistas se dirigiam à pequena cidade de 10 mil habitantes. Na cena neonazista alemã, Hess era considerado um mártir.

Nos últimos anos, os desfiles neonazistas em Wunsiedel tinham sido sistematicamente proibidos pelas autoridades, mas a extrema direita obtinha a autorização nos tribunais, invocando o direito à liberdade de manifestação, constitucionalmente protegido. Os tribunais alemães impunham como condição, no entanto, que não houvesse quaisquer referências a Hess.

Novidade sobre o livro Glória ao Esquecimento


O Palácio das Águias esteve em festa, na noite de sexta-feira, 15 de Abril, com o lançamento do livro “Da Glória ao Esquecimento: os socorrenses na Segunda Guerra Mundial – resgatando a memória da cidade”, escrito pelo historiador Derek Destito Vertino. 

Com a presença de dezenas de amigos, dos pais Clara e Cido, e parentes dos pracinhas socorrenses, a noite de autógrafos teve início com as palavras do autor, que fez uma rápida explicação dos motivos que o levaram a escrever o livro. 

O primeiro objetivo de sua pesquisa histórica, foi o de levantar um monumento aos heróis socorrenses, a exemplo do que existe em outras cidades da região. Esbarrou com uma série de dificuldades, entre elas a falta de dados, fotos e documentos da época, as quais perderam-se com a grande enchente de 1970. Da memória dos pracinhas, seus descendentes também não tinham muito a contar. Os jornais locais devem ter falado dessa epopéia dos socorrenses, também rodaram com as águas da enchente. 

“Como o monumento era uma incerteza, a curto prazo, há dois anos comecei a pesquisa sobre a participação do Brasil na II Guerra Mundial e, em especial, da participação dos socorrenses, para escrever o livro que resgata um pouquinho da História”, disse Derek que, agora, aguarda o cumprimento do compromisso da prefeita Marisa, em levantar o Monumento aos Pracinhas, conforme o acordo feito com ele e descendentes dos soldados. 


No vídeo que passou, em seguida, feito por alunos da Universidade Anhembi Morumbi, com depoimento de expedicionários que participaram a guerra, ficou bem clara a vontade da ditadura Vargas em colocar esse episódio no esquecimento. Depois da tomada de pontos estratégicos na Itália, com a rendição de soldados inimigos, a FEB – Força Expedicionária Brasileira, foi destituída e seus soldados dispensados, antes mesmo de voltarem ao Brasil. 

E mesmo recebidos com festas, em seus municípios, não receberam nenhuma ajuda governamental durante anos. Nossos pracinhas foram esquecidos, pois a ditadura de Getúlio Vargas, não interessava ressaltar feitos heróicos realizados em nome da democracia. 

Após a apresentação do vídeo, as viúvas dos veteranos receberam botões de rosas. A filha de Thomas Marcelino Borim, Neusenice, ficou muito emocionada ao agradecer, em nome dos demais parentes, pelo trabalho desenvolvido por Derek, em seu livro: 

“Meu pai sempre dizia não entender o porquê desse esquecimento por parte das autoridades, de um feito tão importante de nossa História. Ele sempre participava de eventos em outras cidades, feitos em homenagens aos pracinhas. Para nós, esse é um momento muito importante e tenho certeza que meu pai está feliz, com esse resgate da história. Muito Obrigada!”, disse ela. 

Em seguida foi servido um coquetel aos convidados, enquanto Derek autografava os livros, para os amigos que formaram uma longa fila para adquirir um exemplar. O autor agradece a fotos os que compareceram ao evento e aos patrocinadores do livro. 

E com a internet, o livro chegou aos Estados do Paraná, MINAS GERAIS, Rio de Janeiro, interior de São Paulo, Brasília, Rio Grande do Norte, Alagoas, Belém do Pará e em outros países, também na comunidade brasileira em Angola e Alemanha. 

Quem não compareceu e quer conhecer um pouco dessa parte da II Guerra Mundial, da participação da FEB e dos pracinhas socorrenses, o livro está sendo vendido por R$17 no Mercado Livre: http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-188032679-da-gloria-ao-esquecimento-os-socorrenses-na-segunda-guerra-_JM ou por outros contatos: derekdvertino@gmail.com / derekdvertino@hotmail.com / (19) 8126 9182 e (19) 8170 9858. 

Colaboradores: Derek Destito Vertino e Maria Tereza Ferraz 

Fotos: Maria Tereza Ferraz do Carmo e Isabela Fernandes Rosa

O livro, alem de tudo, impulsionou certas atitudes em relação a lembrança aos soldados que foram esquecidos. Devido a certas palestras ministradas em escolas, um publico jovem já tem a noção do que antigos cidadãos da cidade lutaram para combater o nazismo. Segue abaixo algumas fotos de noticias e documentos que não poderiam faltar nessa postagem. É só clicar na imagem para melhor visualização:

 


quinta-feira, 7 de julho de 2011

Regulamento dos campos de concentração

Chegada dos presos políticos no campo de concentração
 de Oranienburg. Oranienburg, Alemanha, 1933.

Uma caixa pescada no lago Toplitz pelo governo austríaco continha vários resumos de matrículas referentes ao campo de Oranienburg, e diferentes notas ou circulares da administração interna. Em meio a esses papéis, um documento surpreendente de se ler: o Regulamento do campo de concentração, datado de 6 de novembro de 1942.


Quando se sabe que todos os "regulamentos" foram queimados nas horas que precederam a libertação dos campos, que todos eles eram calcados em um modelo único preparado pelos assessores de Heinrich Himmler, contendo somente a sua assinatura, e que, enfim o modelo original "inaugurado" em Oranienburg em 1933 sempre foi imposto a todos os comandantes de campos, esse exemplar pescado em Toplitz sublinha a gigantesca defasagem que existia entre a ficção da direção central e a realidade cotidiana nos campos. Um regulamento semelhante ao que se vai ler (provavelmente com codicilos próprios de Mauthausen) estava afixado no vestíbulo do comandante Ziereis. 


I. PARTE GERAL 

Os detentos dos campos de concentração, sem distinção de idade, origem e classe, estão colocados em uma situação subalterna e são obrigados a obedecer, imediatamente e sem discussão, às ordens de seus superiores. Tratando-se de detentos, são também superiores os agentes de escolta das empresas SS (reconhecíveis por suas braçadeiras vermelhas), bem como os detentos encarregados de manter a ordem no campo, reconhecíveis por sua braçadeira especial. Os detentos rebeldes, refratários às instruções recebidas e que, de uma maneira qualquer, põem em perigo e perturbam o silêncio e a ordem no campo, serão punidos em virtude do regulamento disciplinar, de acordo com a gravidade do delito. 

O campo de concentração é um estabelecimento de correção de um gênero todo particular. Boa conduta, assiduidade ao trabalho, constância na realização do dever e modo de pensar conformista são as condições preliminares para a libertação. O campo é mantido sob um regime essencialmente militar. 

O uniforme deve estar sempre limpo, arrumado e abotoado. É proibido ficar com as mãos nos bolsos, levantar a gola, escarrar, bem como jogar no chão papel, embalagens de cigarros e fósforos. 

Ficam proibidos: as conversas políticas, a invenção ou propagação de boatos, bem como os jogos de cartas e de dados e qualquer jogo de azar em geral. 

É proibido comerciar o que quer que seja, trocar ou emprestar dinheiro. 

Os objetos de valor, tais como relógios de pulso, anéis, canetas-tinteiro, etc, devem ser entregues à rouparia. 

O espírito de camaradagem é um dever. 


II. OS SUPERIORES 

Cada membro da SS é um superior. Deverá ser chamado de Herr Kommandant, Herr Lagerführer, Herr Rapportführer, Herr Arbeitsdienstführer, Herr Blockführer. 

Ao se aproximar um superior, prontamente seu chapéu deverá ser retirado, seis passos antes, o detento passará adotando uma postura estritamente militar, com os olhos voltados para a frente, e recolocará o chapéu seis passos depois. 

Quando um detento for chamado, deverá gritar: "Presente", parar a seis passos do superior e responder com voz alta e inteligível. Para se retirar, dará uma meia-volta impecável e voltará correndo ao seu lugar. Quando um membro da SS entrar em um barracão, gritará: Em seus lugares, fixos e cada detento se colocará em posição de sentido, com o olhar fixado no superior.

 Quando um detento entrar em um escritório, deverá anunciar em voz alta Peço permissão para entrar. É proibido dirigir a palavra a um superior sem ordem. Cada pedido de audiência a um superior será transmitido por intermédio do Blockälteste (chefe de Block). São considerados superiores os contramestres, os chefes de mesa, de quarto, de Block e de campo. 

No trabalho, os detentos só cumprimentam em determinadas circunstâncias por ordem do vigilante SS.

Em caso de motim, de ataque violento ou de evasão de de-tentos, os vigilantes e sentinelas farão uso de suas armas. Em caso de ataques violentos, atirar-se-á imediatamente e sem intimação. Sobre fugitivos, atirar-se-á após intimação.

É proibido fumar dentro dos barracões e nos locais em que haja risco de incêndio. 
A ingestão de álcool é proibida aos detentos. 


III. ZONA NEUTRA E ÁREA DE VIGILÂNCIA 

O campo será rodeado por uma cerca de arame percorrida dia e noite por uma corrente elétrica de alta tensão. Isto representa um perigo de morte! A cerca será precedida por uma "zona neutra". Quem nela penetrar estará exposto a fuzilamento sem intimação. O local de trabalho será cercado por uma linha de sentinelas. É proibido transpô-Ia sob risco de ser fuzilado após intimação. 


IV. CHAMADA 

Cada detento é obrigado a assistir sem falta e sob quaisquer circunstâncias à chamada nominal. Assim que tocar o sino, cada qual deverá se apresentar correndo na praça de chamada, no local reservado para seu Block, alinhar-se-á e permanecerá em posição de sentido. Nas filas, é proibido falar ou voltar-se. 

Nota: a página nº 3 não constava do maço pescado no lago Toplitz (portanto, estão faltando no regulamento os pontos 5, 6 e 7). 


VIII. KOMMANDOS DE TRABALHO 

Cada detento será designado para um Kommando de trabalho. É proibido mudar de Kommando por iniciativa própria. Cada um deverá efetuar conscienciosamente e da melhor maneira possível o trabalho de que estiver encarregado. Aquele que, sem autorização, deixar seu posto, será acusado de evasão e severamente punido. Não é permitido entrar nos barracões SS ocupados. É estritamente proibido entrar em contato com civis. Quando, após a chamada nominal, for dada ordem de se apresentar ao Kommando de trabalho, cada um deverá apressar-se, sem barulho e sem falar, para juntar-se àquele de que fizer parte, incorporando-se ao grupo e formando fila. A partida será executada em passo cadenciado. À ordem: Descubram-se, todo o Kommando retira os bonés, segura-os com a mão direita sem dobrá-los e permanece com as mãos fixas ao longo da costura da calça, a cabeça alta, o olhar fixo diante de si, alinhado na fila seguindo o homem da frente. O mesmo processo se aplica quando do retorno do trabalho. 


IX. CONSERVAÇÃO DOS ARMÁRIOS 

A prateleira superior é destinada às cartas, à escova de dentes, ao material de barba, ao tabaco, etc. Na prateleira inferior ficarão a gamela (limpa e emborcada) e por cima a marmita igualmente emborcada. Por trás e à direita, o pão e outros víveres. Colher e faca serão colocadas na ombreira da porta. Todos os objetos, bem como o próprio armário deverão estar sempre impecavelmente limpos. O casacão, cuidadosamente dobrado, com o número de matrícula nitidamente visível ao alto, será colocado no fundo do armário. Os sapatos deverão ser limpos todas as noites antes do primeiro toque da campainha a três passos do barracão, depois engraxados ligeiramente e colocados diante dos armários. As meias deverão ser colocadas sobre o cano dos sapatos. É proibido levar meias para o dormitório. 


X. CORRESPONDÊNCIA 

A correspondência só será entregue ou expedida após ter sido censurada. Cada detento tem direito a receber e a escrever duas cartas ou cartões-postais por mês. A escrita deve ser legível e nítida. Uma carta anunciando a chegada ao campo poderá ser escrita imediatamente. Cada detento tem o dever de manter sua família informada. É-lhe proibido tratar de assuntos relativos ao campo, a doenças, a piolhos e de pedidos de licença. É-lhe igualmente proibido falar de dinheiro. A escrita deverá seguir as linhas. É proibido abreviar ou sublinhar. Somente serão autorizadas as informações de caráter pessoal. A correspondência deverá ser entregue em mãos ao Blockführer competente, aberta e munida de um selo levemente colado. O envio pelos detentos a seus familiares de encomendas ou pequenos embrulhos é proibido.

 Desde já, os detentos têm a possibilidade de receber de seus parentes encomendas de víveres. O número de encomendas que um detento pode receber é ilimitado. Todavia, no próprio dia da chegada da encomenda ou no máximo no dia seguinte, o detento deverá ter consumido seu conteúdo. Em caso de impossibilidade, os víveres serão divididos com outros detentos.

 Se um detento abusar do envio de encomendas fazendo passar mensagens secretas, ferramentas ou qualquer outro objeto proibido, será imediatamente punido com a pena capital. Quanto aos seus companheiros de barracão, ficam automaticamente proibidos de receber encomendas por um período de três meses. 


XI. ENVIO DE DINHEIRO 

Os detentos estão autorizados a receber ordens de pagamento de seus familiares. Seu montante será guardado pela administração financeira do campo em conta do detento em questão. A fim de permitir compras na cantina, cada titular de conta poderá dispor de 15 RM por semana, mas nenhuma compra poderá ser feita sem que o pagamento seja efetuado por meio de bônus. É estritamente proibido aos detentos possuir dinheiro líquido (inclusive moeda estrangeira) ou escondê-lo nos barracões ou em qualquer outro lugar. Qualquer delito deste gênero será severa-mente punido e o dinheiro encontrado será confiscado em prol do Banco do Reich. 


XII. COLETA 

São proibidas coletas de qualquer espécie, com exceção de donativos voluntários para assinatura de jornais. Estes donativos devem ser registrados numa lista trazendo o número da matrí-cula e o nome e indicação da soma, seguindo-se a assinatura do interessado. O desconto dos jornais será também assinado pelo chefe de pavilhão e pelos dois chefes de quarto. Os documentos justificativos deverão ser regularmente submetidos ao Blockführer. 


XIII. REQUERIMENTOS E RECLAMAÇÕES 

Cada detento está autorizado a apresentar requerimentos e reclamações por escrito. Eles serão recolhidos pelo Blockführer que será obrigado a transmiti-los. Quando uma reclamação se referir a um Blockführer, ela poderá ser diretamente submetida ao Lagerführer. As reclamações coletivas, consideradas como atos de rebelião, são estritamente proibidas. Os detentos que desejarem se apresentar na reunião do alto-comando, devem informar, por escrito, aos seus Blockführer. 


XIV. RECREAÇÃO 

Durante a recreação, os detentos podem ficar à vontade, nas salas de estar de seus barracões, lendo, escrevendo cartas ou participando de jogos de salão. Os jogos de azar e a dinheiro, de qualquer espécie, são proibidos. 

É proibido penetrar em outros barracões, encostar-se nos prédios, fazer barulho, assoviar, cantar e jogar fora dos bar-racões, atravessar a zona de isolamento demarcada por pedras brancas (em torno dos Blocks 11 e 12), permanecer na alameda perto do jardim, bem como entre as barracas de vestiário e penetrar no campo novo. 

É permitido circular pelo local deixado livre para este fim dentro do recinto do campo. As reuniões e passeios de mais de três pessoas são proibidos. 

O rádio e a biblioteca do campo estão a serviço do estudo e das distrações. É permitido, com a prévia autorização do coman-dante do campo, receber jornais nacionais-socialistas. 


XV. USO DO TABACO 

É proibido fumar dentro dos barracões durante as horas de trabalho, bem como no decorrer do período que vai do retorno noturno até a chamada. É igualmente proibido fumar durante meia hora depois do despertar. 


XVI. DECLARAÇÃO DE DOENÇA E BANHOS 

Os detentos que estiverem doentes deverão se apresentar ao Blockführer. Um detento que se subtrair com premeditação ou intencionalmente ao tratamento, será punido, da mesma forma que aquele que simular uma doença. O tratamento na enfer-maria só poderá ser realizado antes e depois das horas de trabalho. O Blockführer divulgará as horas de consulta. Cada de-tento está obrigado a tomar parte dos banhos. A ida e a volta serão feitas em filas de cinco. 


XVII. INOBSERVÂNCIA DO REGULAMENTO 

Qualquer delito contra o regulamento do campo deve ser denunciado sem demora. Especialmente aquele que surpreender alguém preparando ou concordando com uma tentativa de evasão deve dar parte imediatamente, bem como de roubos, desvios fraudulentos, trapaças, contrabando de álcool, jogos de azar e atentado contra o artigo 175 do Código Penal alemão. 

Aquele que deixar de denunciar tais fatos sofrerá a mesma punição que o próprio delinqüente. 

Existe um caminho que leva à liberdade. Seus indicadores se chamam: 
obediência, assiduidade ao trabalho, honestidade, ordem, limpeza, sobriedade, preferência pela verdade, espírito de sacrifício e amor à pátria. 

Oranienburg, 8 de novembro de 1942.


Transcriação:  Daniel Moratori (avidanofront.blogspot.com)
Fonte: BERNADAC, Christian Bernadac - Dias Sem Fim, Ed. Otto Pierren Editores, pg 269-275

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Nota sobre a responsabilidade coletiva da população pelas ações de guerrilheiros

Theodor Adrian von Renteln.
Nota do Comissario Geral da Lituânia Von Renteln ao Primeiro Conselheiro Geral sobre a imposição da responsabilidade coletiva da população pelas ações dos guerrilheiros

Kaunas

10 de setembro de 1943

Oaumento do numero de ataques contra os caminhos de ferro, estarda e pontes obriga-me a tomar medidas enérgicas.

Dado que a realização dos ataques é impossível sem uma participação pelo menos passiva da população, sou obrigado a tornar esta responsável pela ordem e pela segurança. Não se pode continuar a admitir que a população, não só se defenda das guerrilhas mas também nada faça para informar as instâncias competentes sobre o seu aparecimento e sobre as pessoas suspeitas. Deve pois, por intermédio dos chefes de distrito, informar a população local de que, no futuro, os habitantes e as localidades serão considerados responsáveis por eventuais atos de sabotagem. Deixo a cargo dos chefes de distrito a responsabilidade de determinadas categorias de pessoas à medida que for sendo necessário. A população não deve ter dúvidas de que, no caso de atentados futuros, serão destruídos os quarteirões e as aglomerações vizinhas, e que a população será deportada. Proponho-lhe que dê a conhecer isto à população por meio de um aviso apropriado. Peço que o respectivo texto me seja apresentado antes de ser impresso. 

Doutor von Renteln 

(O original alemão encontra-se nos Arquivos Centrais de Estado da R. S. S. da Lituânia, fundo 729, registo 1, dossier 23, folha 105.)

Transcrição: Daniel Moratori - avidanofront.blogspot.com
Fonte: COELHO, Zeferino - O crime metódico. Ed. Inova Limitada - pg.97-98

sábado, 11 de junho de 2011

Os métodos de prisão e interrogatório da Gestapo

Plousk, Polónia, um homem da Gestapo com seu carro,1939.
Atrás de qualquer prisão feita pela Gestapo ocultava-se a perspectiva de interrogatório. A Gestapo foi criada para combater o crime de natureza política, diferindo bastante o seu procedimento do das demais polícias. Um dos mistérios que cercam a atividade deste órgão é o motivo pelo qual os membros mais evidentes da resistência alemã a Hitler, homens muito conhecidos por suas atividades subversivas, como Cari Goerdeler, não foram detidos mais cedo, para interrogatório. É verdade, que fazia parte da técnica da Gestapo dar um pouco de "linha" aos elementos suspeitos, para, através da vigilância a distância, pegar não só os suspeitos mas também os que com eles tivessem ligação. 

Uma vez presa e levada para o QG da Gestapo, na Prinz-Albrechtstrasse (se morasse em Berlim), a vítima estava totalmente desprotegida. As técnicas de interrogatório da Gestapo já foram tratadas pormenorizadamente em livros e filmes, em que os interrogadores sádicos são mostrados submetendo seus suarentos prisioneiros a interrogatório cerrado, sob lâmpadas fortes e ordenando, para quebrar a resistência da vítima, a frios torturadores profissionais o aumento da intensidade da dor. Os métodos usados eram tão variados quanto os homens que os aplicavam, e variavam também com o status do prisioneiro e conforme o "crime contra e estado" praticado. Um prisioneiro como o 

Pastor Ditrich Bonhoeffer foi interrogado sem tortura direta. Confinaram-no em circunstâncias cruéis por um período que foi de abril de 1943 até sua execução, realizada no campo de concentração de Flossenburg em abril de 1945. se alguém que possuísse uma ficha considerada importante pela facinorosa polícia, lhe caísse nas malhas por intermédio de outra qualquer organização nazista (subentendendo que o prisioneiro poderia vir a ser reclamado), tinha melhor oportunidade de receber um tratamento mais inteligente e menos bestial do que um qualquer que fosse preso pela Gestapo nos termos do decreto Nacht und Nebel, por exemplo. A Gestapo freqüentemente prendia gente relativamente sem importância e sem qualquer sombra de envolvimento submetendo-as a interrogatório intenso, mas inútil, apenas para ver se "pingava" do terror da vítima alguma coisa que lhe permitisse farejar mais adiante. 

Ninguém na Gestapo progrediu por expressar consideração pelo próximo. Assim como nenhum de seus membros "ascendeu" à condição de dirigente de inquérito sem haver antes cursado a universidade nazista da brutalidade. Todavia, a Gestapo permitia-se às vezes uma técnica diferente do habitual, que era basicamente o pescoção, o pontapé e a luz intensa nos olhos por horas e horas. Quando isso acontecia, o método era o seguinte: faziam tudo para pegar o prisioneiro desprevenido. Por exemplo, uma inquirição direta e de certo modo intelectual era repentinamente interrompida por um tratamento de choque, acompanhado de gritos e insultos. 

Mas sempre havia a possibilidade de o torturador medieval encontrar-se à espera, atrás da porta. Os interrogadores, homens de início treinados como investigadores de polícia ou mesmo advogados, normalmente não eram obrigados a aplicar pessoalmente as torturas, embora o fizessem também, e com grande eficiência. A Gestapo tinha em seus quadros especialistas para realizar os tipos mais variados de tortura. Uma pessoa submetida a interrogatório pela Gestapo, se passível de desconfiança de que soubesse alguma coisa, depois de chutada ou espancada, freqüentemente por vários homens ao mesmo tempo, era suspensa pelos braços previamente atados às costas; as unhas arrancadas; o corpo queimado com ponta de cigarro; despidos e torturados com choques elétricos aplicados às partes mais sensíveis do corpo; mergulhados em água fria até que os pulmões estivessem a ponto de explodir, depois de reanimados, falava tudo: o que fez, o que não fez, o que sabia e o que não sabia. Os torturadores masculinos não respeitavam as mulheres; também elas eram despidas, humilhadas e estupradas de modo a alquebrá-las com facilidade. 

A sede da Gestapo em Berlim, Prinz-Albrecht-Strasse 8

Rostow, Rússia, Inverno 1943, no pátio da cadeia da Gestapo
Prisioneiros dotados de espírito muito forte se preparavam para receber as lacerações e as agonias infligidas por acessos de dor e procuravam relaxar momentaneamente durante os intervalos entre os ataques sucessivos dirigidos contra seus corpos. Ou então desmaiavam, depois do que eram violentamente reanimados com um balde de água fria. Os muito fortes conseguiam resistir a tais tratamentos, e a resistência significava não revelar informações essenciais, fossem quais fossem as agonias inventadas para dobrá-los. 

O Dr. Fabian von Schlabrendorff, membro da resistência alemã a Hitler e que foi aprisionado depois do fracasso atentado contra a vida do Fuhrer em julho de 1944, fez um relato minucioso das torturas progressivas a qu foi submetido no QG da Gestapo, em Berlim. Schalabrendorff, homem de grande coragem e que conservou a mente lúcida quando sob coação, aplicou sua habilidade de advogado ao resistir aos ataques de Habecker, seu interrogador. Ele conhecia os truques que primeiro seriam usados para alquebrá-lo - a pretensa evidencia contra ele existente na pasta aberta sobre a mesa e cujo conteúdo não lhe permitiam ver, as ameaças à sua família e amigos, a apresentação de depoimentos forjados e etc. Em sua cela, onde sempre ficava de mãos e pés acorrentados, ele estava sempre pronto para a chamada súbita, para enfrentar as luzes e o interrogatório intensos a qualquer momento do dia ou da noite. A alimentação que recebia era totalmente inadequada. Mas ele estava na determinação de negar qualquer conhecimento que fosse útil para a Gestapo e esperava alcançar algum tipo de impasse. De certo modo, foi ele quem venceu a resistência de Habecker, e não o inverso. 

A equipe de Habecker, que incluía uma jovem, pôs-se a trabalhar nele. O próprio Habecker o golpeou e instigou a jovem a fazer o mesmo. Outros inquiridores utilizaram a técnica da mudança súbita de tratamento, alternando perguntas com acusações e ofensas em altos brados, uma sensação enervante, a menos que se esteja muito bem preparado para ela. A calma de Schlabrendorff serviu apenas para aumentar a raiva de Habecker, que fez questão de lhe aplicar os primeiros castigos físicos, acorrentando as mãos de Schlabrendorff às costas e prendendo seus dedos, um a um, num torno que lhe introduzia cravos nas pontas. Mais tarde, ele foi atado a uma estrutura em que havia um torno maior que o anterior, que lhe meteu farpas metálicas nas coxas e pernas. A seguir, foi acorrentado numa maquina de tortura medieval que lhe distendia lentamente o corpo ou esticava em safanões violentamente dolorosos. Durante esse sofrimento, nada lhe conseguiram arrancar. Por várias vezes desmaiou, sendo, quando isso acontecia, levado para sua cela a fim de recuperar-se. Em uma dessas sessões de suplício, seu corpo ficou empapado de sangue e ele sofreu um ataque cardíaco. Até mesmo Schlabrendorff estava surpreso com tanta resistência, e no fim, quando já pensava em suicidar-se, lembrou-se do artifício de inventar uma confissão que não pudesse prejudicar qualquer pessoa ainda viva. As torturas cessaram imediatamente; ele fez uma espécie de confissão que não satisfez a Gestapo. Depois disso, ele só teve de suportar o que todos os seus companheiros de prisão sofriam - fome e dormir fortemente acorrentado em sua cela, com a luz intensa ferindo-lhe os olhos.


Alguns métodos de tortura usados.
Como as SS, a Gestapo encontrava-se em toda parte da Europa controlada pelos alemães. Por exemplo, em seu livro sobre a Gestapo, Jacques Delarue descreve sobretudo a organização da polícia secreta na França. Suas operações em grande escala estenderam-se por todo o país durante 1942, quando assumiram oficialmente o controle da chamada zona não-ocupada da França de Vichy. Naturalmente, o QG da Gestapo estava localizado em Paris e os 17 escritórios regionais incluíam centros em Bordéus, Nancy, Ruão, Lião, Marselha, Montpellier e em Vichy propriamente dita e que, por sua vez, controlavam mais de 50 subseções e mais de 20 estações e postos de fronteira. A França estava coberta por uma rede cuidadosamente organizada de mecanismos de controle da Gestapo, incluindo suas equipes de assassinos, agentes e colaboracionistas ativos infiltrados em todos os níveis da sociedade francesa. Esses colaboracionistas eram sobretudo recrutados no rebotalho da polícia francesa e no submundo dos traficantes de tóxicos, mulheres e mercado-negro. A Gestapo na França obteve grande ajuda desses facínoras, fechando os olhos às suas atividades criminosas, e mesmo participando de seus ganhos. Fortunas incomensuráveis foram feitas na época, que, ao que "consta, sustentam até hoje os potentados do tráfico de tóxicos e lhes dão seu enorme poder.

Transcrição por: Daniel Moratori - avidanofront.blogspot.com
Fonte: MANVELL, Roger- SS e Gestapo - A caveira sinistra - Ed. Renes; pg.82-85

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Aviso sobre a execução de camponês por audição de emissões de radio



Aviso do chefe da Policia de Segurança e do SD a execução do camponês Roberts Brakmanis por audição de emissões de radio

Liepaja

Não antes de 31 de março de 1945¹

Foi avisado por varias vezes que a audição e a difusão de informações transmitidas pelos emissores de radio inimigo era proibida sob pena das mais pesadas sanções.

Por audição frequente das emissões de radio inimiga e difusão de falsas noticias transmitidas pela radio, o camponês Roberts Brakmanis, nascido a 21/08/1908 na comuna de Grencu, foi condenado à morte no dia 31/03/1945 e fuzilado.
O chefe da Policia de Segurança e do SD no Leste

Nota: 
1 - Datado segundo o conteúdo do documento.

(O original alemão encontra-seno Museu da revolução da R.S.S. da Letónia, peça nº 14495?15568-VII).


Transcrição: Daniel Moratori - avidanofront.blogspot.com
Fonte: COELHO, Zeferino - O crime metódico. Ed. Inova Limitada - pg.92

sábado, 14 de maio de 2011

Encontro da ANVFEB em Juiz de Fora

Olá pessoal, esses dias estou sem tempo, mas arrumei alguns minutos para postar, e estou colocando aqui o evento que vai ocorrer na minha cidade, em Juiz de Fora - MG. O  encontro irá abordar  a historia dos nossos pracinhas na Itália.

Abaixo segue a programação:

 Do dia 16/05 a 20/05 terá a exposição permanente:
“Homens da FEB: tópicos verídicos de uma história brasileira na II Guerra Mundial na Itália (1944/45)"

No dia 18/05, as 15 horas terá a exibição do documentário "Lapa Azul" e um momento de  interação com os pracinhas e a platéia.

O endereço está no banner abaixo:
A errata é o telefone: (32) 3215-0083

Aproveitando, será o momento de quem quiser conversar comigo dar um pulo lá, mais exatamente no dia 18, onde estarei presente  na exibição do documentário. Mas qualquer coisa, me mandem email ou comentem aqui que combinamos.



quarta-feira, 27 de abril de 2011

Otto Rasch


Otto Rasch nasceu 7 de dezembro de 1891 na Friedrichsruh e se formou em Direito. Ele também estudou economia e filosofia, e recebeu seu doutorado em direito e economia política. Ele trabalhava como advogado, em Leipzig. Lutou na Primeira Guerra Mundial na Marinha e foi premiado com a Cruz de Ferro de 2 ª Classe.

Ele se juntou ao Partido Nazista em outubro de 1933 e ingressou na SS 10 de março de 1933. 

Foi utilizado no Serviço Central de Segurança do Reich e era o chefe do Serviço de Segurança em agosto de 1939 em Königsberg (hoje Kaliningrado).

Participou da campanha polonesa em um Einsatzgruppe mas, mais importante, desempenhou um papel fundamental na organização do falso ataque polonês, que deu aos alemães uma desculpa para atacar a Polónia.

Entre 1942 e 1945 foi diretor do Öl Kontinental (Continental Oil).

Entre junho e outubro de 1941, ele foi o comandante do "Einsatzgruppen C"  e dos massacre dessa unidade móvel na Ucrânia.

Rasch, nesta qualidade, foi responsável pela morte de 40.669 pessoas documentadas por relatórios enviados para Berlim.

Após a guerra ele foi preso e foi incluído no processo de Nuremberg contra os membros dos Einsatzgruppen. No entanto, logo vitimado com a doença de Parkinson e impediu o julgamento. Ele morreu pouco depois de 1 de novembro de 1948.

Tradução: Daniel Moratori (avidanofront.blogspot.com)

domingo, 24 de abril de 2011

A decisão de Kurt Gerstein de entrar para as Waffen-SS

Kurt Gerstein


A DECISÂO

Ouvindo falar dos massacres dos débeis e alienados em Grafeneck, Hadamar, etc., chocado e ferido no meu intimo, tendo um caso desses na minha familia, só tinha um desejo: ver, ver claro todo esse maquinismo e então gritá-lo ao povo inteiro! Mesmo que a minha vida estivesse em perigo, não tinha escrúpulos: por duas vezes, agentes do S. D. que se tinham infiltrado nos meios mais privados da Igreja protestante e rezavam ao meu lado tinham-me enganado. Pensava eu: O que vocês são capazes de fazer, saberei eu fazê-lo melhor do que vocês, e apresentei-me como voluntário nas S.S. Era um estimulo o facto de a minha cunhada, Bertha Ebeling, ter sido assassinada em Hadamar. Fui apresentado por dois agentes da Gestapo que se tinham ocupado do meu caso, e aceite facilmente pelas S.S. Uma vez, um S.S. disse-me: Um idealista como você devia ser um membro fanático do nosso partido.(1)


Interrogatório de 26 de Junho de 1945:
G:Em 1940 soube por intermédio do bispo de Estugarda da execução de alienados em Hadamar e Grafeneck. A minha cunhada Bertha Ebellng figurava entre as vitimas. Decidi então entrar para as Waffen-S. S. 
P: Entrou para a. Waffen-S. S. para espiar e assim servir os seus ideais religiosos? 
G:Sim, para poder travar um combate ativo e conhecer melhor os objetivos dos nazis e os segredos deles.
P: Como pode entrar para a organização depois de ter sido preso pela Gestapo por várias vezes?G: —Aceitei simplesmente as propostas que a Gestapo me fez quando da minha segunda prisão.(2)


Nos pontos principais‚ o relatório Gerstein e o interrogatório coincidem: o que o leva a tomar a decisão com mais consequências de toda a sua vida são os rumores quanto a eutanásia, e mais especificamente a morte de Bertha Ebeling em Hadamar.

 A execução dos doentes e dos débeis mentais tinha sido secretamente decidida por Hitler em Setembro de 1939. A aplicação da eutanásia está submetida ao controle direto da chancelaria do Fuhrer e camuflada com os maiores cuidados. Nos fins de 1939 e estabelecido o primeiro centro de execução em Brandeburgo; em 1940 começam a funcionar mais cinco‚ entre os quais os de Grafeneck e Hadamar. 0 comissário da polícia criminal de Estugarda, Christian Wirth, é o encarregado das execuções. 

A principio, Wirth executa os doentes a revólver, mas depressa se aperfeiçoa uma técnica: fazem-se as primeiras câmaras de gás que trabalham com óxido de carbono:
A sua instalação era, simples, escreve Léon Poliakov, e facilitada  pelo débitos relativamente pouco importante das estações de eutanásia. Em cada estabelecimento foi hermeticamente isolada uma sala, disfarçada em sala de chuveiros. Tinha uma canalização à qual estavam adaptados cilindros que continham óxido de carbono. Antes de serem conduzidos em grupos de dez ou quinze para essas câmaras de gás, os doentes eram adormecidos com injeções de morfina ou escopolamina, ou drogados com soporíferos. As estações de eutanásia tinham também um crematório pequeno onde os cadáveres eram incinerados. As famílias eram avisadas por cartas estereotipadas do falecimento do doente por debilidade cardíaca ou pneumonia. (3)
Entre Janeiro de 1940 e Agosto de 1941, foram mortos 70.273 doentes mentais. 

É importante a utilização das primeiras câmaras de gás: porque é uma das bases de ordem técnica do extermínio em massa dos judeus, que começa já nos fins de 1941. 

Mas se o programa de eutanásia era ultra-secreto, como é que Kurt Gerstein ou o Bispo de Estugarda (Stuttgart), que o teria informado, poderiam conhecer os seus pormenores? De fato, propagaram-se por toda a Alemanha rumores sobre isto. A freqüência de falecimentos nas clinicas psiquiatras a partir de 1940, as circunstâncias sempre misteriosas dessas mortes, levantam suspeitas. As indiscrições fazem o resto. A acreditar num protesto enviado em Maio de 1941 pelo tribunal de Francforte(Frankfurt) ao Ministério da Justiça do Reich, Gürtner, a eutanásia é do domínio publico: as crianças de Hadamar dizem quando vêem os autocarros que transportam os doentes: Outros que vão para as câmaras de gás. O fumo dos crematórios era visível muitas léguas ao redor (4). Pouco depois, os prelados católicos e protestantes tomam uma posição cada vez mais aberta:
Aonde se chegará no extermínio das vidas indignas?, escreve o pastor Braune num memorando à chancelaria do Reich. As ações maciças em curso demonstraram que foram incluídas muitas pessoas intelectualmente lúcidas e conscientes (...) Visar-se-ão exclusivamente os casos completamente desesperados, como os idiotas e imbecis? (...) Parar-se-á perante os tuberculosos? O programa de eutanásia é já aplicado aos presos. Passar-se-á depois aos outros anormais e associais? Onde está o limite? Quem é anormal, quem é associal, quais são os casos desesperados? Qual será o destino dos soldados que na luta pela paria podem contrair doenças incuráveis? Alguns já põem a sí próprios estas perguntas (...)? (5)
 O pastor Braune é preso pelas Gestapo. É posto em liberdade três meses depois. A agitação continua. É então que, a 3 de Agosto de 1941, o bispo de Münster, Mons, von Galen, toma publicamente partido contra a eutanásia num sermão pronunciado na igreja de Saint-Lambert:

Há obrigações de consciência a que ninguém nos pode subtrair e que temos de respeitar, mesmo à custa, da própria vida. Não há pretexto que justifique um homem matar um inocente, exceto em caso de guerra ou de legitima defesa. Já no dia 6 de Julho acrescentei às palavras da carta pastoral comum os seguintes esclarecimentos: Sabemos que já há uns meses, por ordem de Berlim, os doentes mentais há muito tempo em tratamento e que parecem ser casos incuráveis são levados  à força para clínicas psiquiátricas. Regularmente a família recebe pouco tempo depois um aviso dizendo que o doente morreu, que o corpo foi queimado e que as cinzas podem ser retiradas. De uma, maneira geral, há quase a certeza de que todas essas mortes inesperadas dos doentes mentais não são naturais, mas provocadas artificialmente de acordo com a doutrina que permite a supressão de vidas indignas e consequentemente a morte de inocentes, cuja existência se considera que nada pode trazer ao povo nem ao Estado. É uma concepção assustadora que pretende justificar o assassínio de inocentes e consente a execução de inválidos incapazes de trabalhar, de aleijados, de doentes incuráveis, de velhos atingidos pela senilidade. Perante esta doutrina, os bispos alemães declaram: O homem não tem o direito de matar um inocente sob nenhum pretexto, exceto em caso de guerra ou de legitima defesa (...) (6)
Pouco tempo depois do sermão de von Galen, deixa de praticar-se a eutanásia. Ao bispo de Münster, nada lhe acontece. 
No dia 21 de fevereiro de 1941, irá contar Karl Gerstein, foi enterrada em Sarrebruck a urna contendo as cinzas da minha cunhada. O meu irmão Kurt estava também presente na cerimônia. As circunstanciais desta morte súbita eram estranhas. Tinham escrito à mãe uma carta dizendo que a filha tinha levada repentinamente da clínica de Sarre para a de Hadamar onde morrera em conseqüência de uma epidemia. Devido á luta contra as epidemias, tinham tido de queimar o corpo imediatamente, mesmo antes de consultar os pais; as cinzas tinham sido enviadas para a administração da cidade de Sarrebruck e podiam ser retiradas. Por mais espantados que tivéssemos ficado, suspeitávamos de nada. Foi o meu irmão Kurt que, no regresso, depois do enterro, nos explicou, à minha mulher e a mim. A nossa confusão aumentou quando Kurt nos revelou que pretendia entrar para as Waffen-S. S. (...) Podia assim tirar a limpo o que havia de verdade nos diversos rumores e o que realmente se passava entre as S. S. Confesso que não tomamos a sério as palavras de Kurt (...) (7) 
O pastor Wehr, que celebrou o oficio dos defuntos, fala também com Gerstein: 
(...) Comunicou-me então a sua decisão de verificar fosse por que preço fosse a verdade dos rumores que circulavam sobre esse gênero de crimes. Desaconselhei-o a penetrar no campo das forças demoníacas, mas opôs minhas objeções uma resolução apaixonada e irrevogável. (8) 
Helmut Franz diz: 
Fiquei evidentemente horrorizado quando me informou da sua decisão. Disse-lhe que era uma louca tentação a Deus, uma provocação do destino que para ele podia acabar numa catástrofe.(9) 
O testemunho do pastor Rehling é do mesmo teor. Gerstein tornou a vê-lo em 1941 e ter-lhe-ia dito: 
Se ouvir coisas estranhas a meu respeito, não pense que mudei. Pode dizê-lo também ao presidente Koch. Não quero que tenham uma má opinião sobre mim. Estou nas SS e presentemente acontece-me falar a linguagem deles. Faço-o por duas razões: haverá a derrocada. De certeza, Deus julgará. Esses desesperados sem consciência tentarão matar todos os que consideram inimigos.  Não é do exterior que se poderá tentar impedi-los; a ajuda só poderá vir de alguém que faça desaparecer as ordens ou que as transmita truncadas. É essa a minha função! A outra razão é a seguinte: estou no rasto de muitos crimes! A minha tia foi morta em Hadamar. Quero saber quem ordena esses assassínios.
Não podia ocultar-lhe o receio e a preocupação que me causavam essa entrada na boca do lobo, acrescenta, Rehling, mas ele estava seguro do seu caminho. (10)
Se nos limitarmos aos documentos citados, o motivo da decisão de Kurt Gerstein parece simples e inequívoco. No entanto, o que sabemos sobre a sua atitude hesitante em relação ao regime durante os anos precedentes leva a crer que os motivos da sua entrada para as Waffen-SS são mais complexos do que as declarações que acabamos de ler permitem supor. É provável que a morte de Bertha Ebeling tenha sido um elemento para a decisão; mas não foi com certeza o único. De resto, há outras declarações menos concordantes do que as precedentes.

Segundo o pastor Heinz Schmidt, Gerstein e ele teriam tido a idéia de entrar para as Waffen-S. S. em 1939, depois da campanha da Polônia, para ver as coisas de dentro. Nesta época, acrescenta o pastor, não levamos avante o projeto porque nos parecia ilusório(11). Se este testemunho foi exato, a eutanásia não pode ter sido a causa de tal decisão (as primeiras execuções se verificaram no inicio de 1940) e não se percebe o que é que Schmidt e Gerstein pretendiam descobrir nas Waffen-SS no Outono de 1939. Mas sabe-se que nessa época Gerstein pretendeu entrar para a Wehrmacht.

Em 1955, no caso Gerhard Peters (12), o tribunal de Francforte(Frankfut) põe também a claro algumas contradições no que diz respeito aos motivos da entrada da Gerstein para as Waffen-SS:

Segundo declarações da mulher, nota do tribunal, ele não lhe teria dado uma explicação e teria simplesmente dito:  Eles não me querem, mas no entanto tem de me aceitar, sem concretizar o sentido das palavras tem de. Não pode ser verdade que ele tenha entrado para as SS como contou à testemunha Nebelthau, depois de o ter combinado com o pastor Niemöller; este estava com efeito num campo de concentração desde 1937, e não estava em contato direto com Gerstein. à testemunha Eckhardt disse também que tinha entrado para as SS depois de consultar os seus diretores espirituais; porém, nenhuma testemunha confirmou este ponto. A sua declaração ao velho amigo Scharkowski contradiz em certa medida as explicações precedentes: disse-lhes que era constantemente vigiado pelos serviços de segurança; este ter-lhe-ia sugerido entrar para as SS. Gerstein teria interpretado isto como um sinal de Deus apontando-lhe a entrada no campo do inimigo (...) (13).
 Em 1940, Gerstein fazia ainda esforços para ser reintegrado no partido: numa carta para a Casa Castanha de Munique teria declarado sentir-se de novo um partidário integral do Führer e ter-se tornado um adversário resoluto da Igreja confessionista (14).

Não pomos em dúvida que tais declarações não tenham correspondido ao real estado de espírito de Gerstein. Mas continuava a preocupar-se com a sua reintegração  no partido e pode ser que uma entrada voluntária para as Waffen-S. S. lhe tenha parecido um meio de conseguir esse objetivo. A estas imprecisões vem acrescentar-se um elemento enigmático na declaração de Gerstein, quando interrogado em Junho de 1945. Recordemos os termos:
P: — Como pode entrar para a organização depois de ter sido preso pela Gestapo por várias vezes?
G: —Aceitei simplesmente as propostas que a Gestapo me fez quando da minha segunda prisão.(2)

De que propostas se trata? Nada nos permite explicar esta frase que aliás muito incompreensivelmente não provocou qualquer reação da parte do investigador.

De qualquer forma, quaisquer que tenham sido os motivos exatos de Gerstein e a data em que concebeu a ideia de entrar para as Waffen-SS, o seu pedido de admissão na organização  é anterior, e não posterior ao enterro de Bertha Ebeling. Com efeito, declarou no interrogatório de 10 de Julho de 1945:
 (...) Até 5 de Março de (1941), fiquei como civil nessa sociedade (de Limon Fluhme & Ca). Antes, isto é, em Dezembro (1940) tinha apresentado um pedido de admissão ao serviço nas Waffen-S. S, (...)
 De fato, segundo uma carta da inspeção do trabalho dirigida à empresa Wintershall onde Gerstein trabalhava nessa época, este teria feito o pedido de admissão em Setembro de 1940 (15).

 Os motivos da decisão de Gerstein e até a data em que ela foi tomada não são portanto completamente claros.

Mas, retomando as palavras do tribunal de Francforte(Frankurt), uma coisa é certa: Não foi por convicção nacional-socialista nem para dar o seu contributo ao nacional-socialismo que Gerstein entrou para as SS (...) (16)
 Alista-se a 10 de Margo de 1941.

 Até agora nada parece destinar Gerstein ao papel que vai desempenhar. É um alemão como muitos outros‚ que não se subtraiu completamente às influências que marcam a evolução da sociedade alemã durante os anos trinta. As origens, o meio e a educação não o prepararam de modo nenhum para o destino que haveria de ser o seu. Aquilo que virá a ser, milhões de alemães o poderiam ter sido também. Mas ele será o único.

Transcrição: Daniel Moratori (avidanofront.blogspot.com)
Obs: Mantive certas partes como nome de cidades e localização de documentação como no original do livro, exemplo "Arquivos da R. D. A.".

Notas:
- Relatório Gerstein.
2 - Interrogatório de Kurt Gerstein feito pelo major Beckhardt do 0. R. C. G., Paris. 26 de Junho de 1945. DOC.WC-90, CDJC, Paris
3 -  Léon Poliakov, Le Bréviaire de la haine, Calmann-Lévy, Paris, 1951, p.212.
4 - Gerald Reitlinger, The Final Solution, Barnes, Nova Iorque (1961). p. 131.
5 - Léon Poliakov, op. cit., p.217.
6 -  Sermão de von Galen, em 3 de Agosto de 1941, citado por H. A. Jacobsen e W. Jochmann, Ausgewählte Dokumente zur Geschichte dest National-Sozialismus, Bielefeld, 1961.
7 - Karl Gerstein, loc. cit.
8 - Testemunho de O. Wehr, Augenzeugenbericht zu den Massenvergasungen, Vierteljahrshefte für Zeitgeschichte, 1953, Nr. 2, nota 34.
9 - Helmut Franz, op. cit., p. 24.
10 -  Kurt Rohling, art. cit. 
11 - Testemunho de Heinz Schmidt. KGH. 
12 - Cf. infra, p. 141.
13 - Veredito do Tribunal de Francforte (Frankurt) no caso Gerhard Peters, 27 de Maio de 1955, p. 13, KGH. 
14 -  Relatório da. Gestapo, 4 de Janeiro de 1940, Arquivos da R. D. A.
15  - Carta do Arbeitsamt Eisenach, de 18 de Setembro de 1940, Arquivos da R. D. A. 
16 - Tribunal de Francforte (Frankurt), loc. cit., p. 14.

Transcrição: Daniel Moratori (avidanofront.blogspot.com)
Fonte: FRIEDLÄNDER, Saul - Kurt Gerstein: Entre e o homem e a Gestapo, Rio de Janeiro: Moraes Editora, 1968, p 67-74.

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