sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

O massacre de judeus do gueto de Kaunas, Lituânia (1941)

Dois meninos orfãos puxam e empurram uma carroça no gueto de Kovno. Seus pais foram assassinados no início da guerra. Fonte: https://collections.ushmm.org/search/catalog/pa11965

Dois guetos com cancelas e arame farpado tinham sido implantados, em julho de 1941, no arruinado distrito de Slobodka, de Kaunas, para os judeus dessa cidade da Lituânia central, um Gueto Grande, que abrigou aproximadamente 27.500 pessoas, e um Gueto Pequeno, ligado por uma ponte de madeira através de uma rua intermediaria, que confinava outras 2.500. Um hospital havia sido montado em diversos edifícios do Gueto Pequeno, com maternidade, alas médicas e cirúrgicas; pacientes com doenças contagiosas foram alojados num edifício separado, de dois andares. Um orfanato também foi instalado no Gueto Pequeno para as várias centenas de crianças judias cujos pais já haviam sido assassinados pelos alemães ou em pogroms.

Em 4 de outubro de 1941, o sabá depois do Yom Kippur, um destacamento do Einsatzkommando 3, de Jäger, tendo à frente o Obersturmführer Joachim Hamann, começou a destruir o Gueto Pequeno. Um rabino, Ephraim Oshry, foi testemunha ocular:

 

De manhã cedo, uns 50 soldados alemães, juntamente com uns 100 colaboradores lituanos muito mais do que víamos habitualmente, o que achamos aterrorizante se amontoaram no Gueto Pequeno e expulsaram as pessoas, sem exceção, de suas casas. Escorraçaram as pessoas da cama, sem mesmo lhes dar a oportunidade de se vestirem. Nas ruas, empurravam os velhos e fracos, as crianças, as mulheres e homens. Usando as coronhas dos fuzis como porretes, espetavam as pessoas a torto e a direito. O sangue jorrava como água. Os judeus foram perseguidos até a praça Sajungos, outrora o mercado de cavalos de Sobodja. Ali, os alemães começaram a dividir os judeus da maneira como sorteiam carneiros para o abate: “Direita! Esquerda!” Morte! Vida!

 

A seleção durou várias horas. Pessoas que apresentavam salvo-condutos de trabalho - apenas cinco mil tinham sido emitidos nos dois guetos inteiros - eram separadas das que não os possuíam. Pacientes foram evacuados das alas médica e cirúrgica. Na ala da maternidade, o jovem a advogado de Kaunas Avraham Tory registrou em seu diário da época: "Os alemães queriam ver os bebês que tinham acabado de nascer. Alcançaram a sacada da janela em que os bebês estavam deitados e ficaram ali, por algum tempo, observando os bebês. Os olhos de um dos alemães se enevoaram. "Nós os deixaremos ficar?” perguntou ao amigo. Os dois saíram do cômodo, deixando as mães e os bebês. Dessa vez eles sobreviveram".

Os órfãos não tiveram tanta sorte, continua Tory:

 

Os alemães, então, passaram a apanhar as crianças do abrigo feito para elas. Das 153 existentes, apenas 12 foram deixadas na casa. Foram somente esquecidas. As enfermeiras também foram tiradas. As crianças que estavam só com roupa de envolver foram levadas para fora e colocadas no chão do pátio de pedra do hospital com os pequeninos rostos voltados para o céu. Soldados do terceiro pelotão da polícia alemã passaram entre elas. Pararam por um momento. Alguns chutaram os bebés com as botas. Os bebês rolaram um pouco para o lado, mas logo em seguida recuperaram a posição de barriga para cima, os rostos voltados para o céu. Foi um raro espetáculo de crueldade e indiferença. Um caminhão pesado se aproximou. Primeiro as crianças e depois as enfermeiras foram lançadas dentro dele. O caminhão foi coberto com uma lona e partiu em direção do Forte IX.

 

Os judeus do Gueto Pequeno que tinham sido selecionados foram formados em coluna de cem e saíram. As pessoas com salvo-condutos de trabalho que haviam sido poupadas foram mandadas pela ponte para o Gueto Grande. William Mishell observou a seleção do Gueto Grande. "Um terrível drama humano estava se desenrolando diante dos olhos dos judeus de ambos os lados da cerca”, recorda. "Era claro: as pessoas do lado ruim estavam sendo levadas para o Forte IX, para uma execução em massa. Todos os de ambos os lados da rua começaram a gritar e os do lado do Gueto Grande procuravam desesperadamente ver de relance os entes queridos que estavam sendo levados embora.” Em seu resumido relatório de 1 de dezembro de 1941, Jäger relacionaria “315 homens judeus, 1.107 mulheres judias, 496 crianças judias” executados em 4 de outubro de 1941 no Forte IX, sustentando absurdamente que a seleção foi uma “ação punitiva pelo fato de um policial alemão ter sido morto a tiros no gueto”.

Mas nesse dia foram mortos mais do que os que marcharam ou foram de caminhão para o Forte IX. Tinha havido sessenta e sete pacientes, médicos e enfermeiras no edifício do hospital de doenças contagiosas, naquela manhã. Um número desconhecido de residentes sãos do Gueto Pequeno havia-se juntado a eles ali, pensando que podia encontrar toda proteção. No começo da Aktion, os alemães tinham trancado os portões do hospital a pacientes e fugitivos da mesma forma. Transferiram para o hospital os pacientes cirúrgicos que tinham estado bastante doentes para comparecer à seleção e depois, pregaram as portas e janelas com tábuas. Puseram dez judeus cavar uma cova no pátio do hospital. Tory descreve o que se seguiu:

 

Defronte ao prédio do hospital, no outro lado da cerca, se situava uma fábrica de casaco de peles chamada Lape. Podia-se ver claramente, desse lugar, o pátio do hospital. Os trabalhadores da fábrica, nesse dia, viram dali os dez judeus cavando a cova; viram como os residentes da casa dos idosos foram descidos para ela, como pacientes foram jogados dentro dela e depois fuzilados em seu interior; viram como criancinhas também foram jogadas ali, assim como pacientes que mal se aguentavam em pé... À uma da tarde, podia-se ver fumaça subindo do edifício do hospital. Mais tarde, as chamas cresceram, saindo dele: o hospital ardeu. O fogo queimou por todo o dia e à noite. Pacientes, equipe e fugitivos, assim, foram queimados vivos.

 

Se não tivessem compreendido antes, as pessoas do gueto de Kaunas sabiam agora que nada as protegia da morte e que outras Aktionen se seguiriam. Começaram a se afastar umas das outras com um gracejo em iídiche, que o rabino Oshry relembra: "Auf Wiedersehn in yenner velt" - "Vejo você no próximo mundo". Mais tarde, em outubro de 1941, começaram a correr de novo, no gueto, rumores de grandes fossos sendo cavados no Forte IX por prisioneiros de guerra russos. Os otimistas especularam que eram armadilhas para tanque que antecipavam um contra-ataque do Exército Vermelho; os realistas sabiam que se destinavam a sepulturas em massa.

Cena de rua no gueto de Kovno. A força policial judaica do gueto de Kovno foi criada por ordem das autoridades de ocupação alemãs em julho de 1941, mesmo antes de o gueto ser selado.
Fonte: https://collections.ushmm.org/search/catalog/pa1047786

O Dia Negro, como os sobreviventes o chamariam, veio mais para o fim do mês, com uma ordem para todo o mundo no gueto comparecer á praça da Democracia, às seis da manhã de 28 de outubro de 1941, ou ser fuzilado. As pessoas tinham de se apresentar com suas famílias conforme suas atribuições profissionais: o conselho do gueto com um emblema; os trabalhadores que construíam uma base aérea para a Luftwaffe fora de Kaunas com outro; curtidores de couro, construtores de estrada, peleteiros, bombeiros, funileiros, cada um tinha de ser identificado como tal. Mishell trabalhava para conselho judeu e seu cunhado trabalhava na guarnição da base aérea, e tão crucial a família julgou a decisão sobre o emblema a ser ostentado que ficaram em claro a noite inteira debatendo-a, com a conclusão final de as pessoas que trabalhavam para os militares alemães seriam consideradas mais valiosas, recaindo pois a escolha na posição da base aérea. “Ninguém do gueto pregou um olho na noite de 27 de outubro, registra Tory. "Muitos choraram amargamente, muitos outros recitaram salmos. Houve também pessoas que fizeram o oposto: resolveram ter um bom momento, festejar e se fartar de comida, torrar toda a sua provisão. Moradores cujos apartamentos estavam abastecidos de vinhos e bebida beberam tudo o que puderam e até convidaram os vizinhos e amigos para essa macabra festa, “a fim de não deixar nada para os alemães”.

Como foi ordenado, vinte e oito mil pessoas deixaram suas portas destrancadas,fixaram avisos na porta se estivesse dentro alguém doente demais para se deslocar e caminharam pelas ruas do gueto nessa manhã, “muito fria”, lembra Mishell, “um típico dia de outono, com fina camada de neve cobrindo o terreno. Estava ainda escuro e o ar se mostrava extremamente úmido. As últimas estrelas visíveis desapareceram gradualmente, enquanto a multidão começava a crescer. Podiam-se ver mães com os filhos nos braços, pessoas idosas que mal conseguiam andar, crianças pequenas segurando a mão das mães, adultos dando apoio aos pais mais velhos ou aos avós, e até inválidos apoiados em bengalas. Algumas pessoas incapazes de caminhar eram transportadas em macas”. Tory descreve isso gravemente, como "uma procissão de gente enlutada, sofrendo consigo mesma”.

Um grupo de meninos segurando uma criança pequena no gueto de Kovno. 
Fonte:https://collections.ushmm.org/search/catalog/pa11952

Todo o mundo ficou esperando por três horas, enquanto a aurora finalmente irrompia. Tory viu, então, que “a cerca do gueto foi rodeada de metralhadoras e por um pesado destacamento de policiais alemães armados, comandados pelo capitão [Alfred] Tornbaum. Eles tinham também, à disposição, batalhões de guerrilheiros lituanos armados. Uma multidão de espectadores lituanos curiosos havia-se reunido nas colinas que dominavam o gueto. Acompanharam os acontecimentos, participando na praça com um grande interesse não isento de prazer, e não saíram dali por muitas horas”. O robusto e brutal SS-Hauptscharführer Helmut Rauca chegou às nove horas com o representante chefe da Gestapo, capitão Heinrich Schmitz, Tornbaum e o capitão SA Fritz Jordan.

Kauca, com sua farda verde-acinzentada, carregando um bastão, se colocou numa elevação num extremo da praça e a seleção começou. De luvas pretas, apontava com um dedo a esquerda e a direita, dirigindo grupos e famílias. Por algum tempo, não ficou claro que lado significava a vida e que lado a morte, e as pessoas às vezes pediam para mudar. Se a mudança era para a direita, diz Tory, “rindo sarcasticamente, Rauca a consentia”. Logo em seguida, como os doentes e idosos se acumularam no lado direito, o lado que significava a morte se tornou claro. “De quando em quando, Rauca se regalava com um sanduíche... ou apreciava um cigarro, realizando todo tempo seu trabalho perverso sem interrupção”. Às vezes, um auxiliar trazia um pedaço de papel que mostrava uma contagem dos mandados para a direita - eles eram rapidamente deslocados para o vazio Gueto Pequeno - o que indicava que Rauca tinha uma cota a preencher. Pessoas morriam à espera dessa escolha na praça. Como o dia passava e as contagens lhe mostrava pouco de sua cota, Rauca escolhia tanto pela aparência como pelo salvo-conduto de trabalho ou especialidade. Todos os quinhentos trabalhadores do turno da noite da base aérea que, atordoados e exaustos, tinham vindo diretamente do trabalho para a praça da Democracia ele mandava para a direita, mas os bem-dispostos trabalhadores do expediente diurno ele mandava para a esquerda.

Soldados alemães se preparam para um ataque no gueto de Kovno, enquanto alguns moradores judeus observam.
Fonte: https://collections.ushmm.org/search/catalog/pa1047792

A seleção se prolongou pelo dia todo. “Estava começando a escurecer”, escreve Tory, “e ainda milhares de pessoas permaneciam de pé na praça. O capitão Jordan então abriu outro local de seleção. Foi auxiliado pelo capitão Tornbaum”. A polícia do gueto judeu tentou deixar passar pessoas de um lado para o outro e, às vezes, conseguiu. Um deles salvou desse modo o cunhado de Michel, sua mulher e filho.

Estava escuro quando os alemães concluíram a seleção. Cerca de dez mil pessoas tinham sido transferidas para o Gueto Pequeno, onde se instalaram nos frios edifícios para passar a noite. As outras voltaram para a casa, diz Tory, “famintas, sedentas, oprimidas e desalentadas... a maioria enviuvada ou órfã, separada de um pai, de uma mãe, de filhos, irmão ou irmã, avô ou avó, tio ou tia. Um profundo pesar desabou sobre o gueto. Em cada casa, passara a haver cômodos vazios, camas desocupadas e os pertences dos que não haviam voltados das seleções. Um terço da população do gueto fora abatida. Todas as pessoas doentes que haviam permanecido em suas casas de manhã haviam desaparecido. Haviam sido transferidas para o Forte IX durante o dia”.

Na manhã seguinte, foi a vez dos dez mil. Um adolescente fugiu da carnificina resultante e voltou para Kaunas a fim de informar o conselho judaico. O resumo de Tory reflete o relato de testemunha ocular do rapaz:


A procissão, que somava umas 10.000 pessoas, e proveniente do Gueto Pequeno para o Forte IX, durou do amanhecer ao meio-dia. As pessoas idosas, e as que estavam doentes, sucumbiram na beira da estrada e morreram. Tiros de advertência eram dados incessantemente ao longo de todo o caminho e em torno do Gueto Grande. Milhares de curiosos lituanos se juntaram nos dois lados da estrada para assistir ao espetáculo, até a última das vítimas ser engolidas pelo Forte IX.

No forte, as desventuradas pessoas foram imediatamente atacadas pelos matadores lituanos, que as despojaram de todos os objetos de valor - brincos, braceletes de ouro. Obrigaram-nas a se despir, empurraram-nas para os fossos que tinham sido antecipadamente preparados e fizeram o fogo, para dentro do fosso, com metralhadoras ali previamente colocadas. Os assassinos não tinham tempo de atirar em todo o mundo de cada lote antes de o próximo chegar.

Era-lhes concedido o mesmo tratamento dos que os tivessem precedido. Eram empurrados para dentro do fosso, sobre o topo dos mortos, dos agonizantes e dos ainda vivos do grupo anterior. Assim continuou, lote após lote, até os 10.000 homens, mulheres e crianças terem sido chacinados.


Jader listou o massacre de 29 de outubro de 1941, no Forte IX, como de 2.007 homens judeus, 2.920 mulheres judias, 4.273 crianças judias, justificando-o como “remoção do gueto de judeus excedentes”.

Enquanto os judeus de Kaunas estavam sendo submetidos à seleção e assassinados aos lotes no Forte IX, Himmler estava pretendendo desfrutar de uma semana em Schönhof, a residência de caça do ministro alemão das Relações Exteriores, Joachim von Ribenntrop. O ministro das Relações Exteriores italiano, conde Galeazzo Ciano, era o hóspede de honra, e o massagista de Himmler, Felix Kersten, também era hóspede. Em 26 de outubro de 1941, o grupo abateu 2.400 faisões, 260 lebres, 20 gralhas e um corço. "O conde Ciano, sozinho, derrubou 620 faisões", escreve Kersten: “foi o campeão. Ribbentrop, 410 faisões, Himmler, somente 95. Himmler disse a Kersten que só se havia juntado à caçada porque “o Führer desejara expressamente que ele o fizesse”. Murmurou, sobre o sucesso de Ciano: “Quisera que os italianos na África fossem tão bons atiradores.. Onde não há perigo, os italianos são heróis”. Depois do jantar dessa noite, Ciano disse a Kersten em particular: “A guerra durará muito tempo”. Kersten acrescentou: “e Ciano observou que nós éramos os únicos a partilhar essa opinião. Aqui em Schönhof, todo o mundo está dizendo que a guerra acabará logo”.

No fim da caçada de Schönhof, na noite de 28-29 de outubro de 1941, enquanto os dez mil de Kaunas estavam fazendo suas camas nos frios edifícios do Gueto Pequeno, sabendo o que a manhã lhes traria, Kersten falou com Himmler sobrea caça enquanto lhe fazia uma massagem:


Eu disse que a adorava e que nunca me sentia tão bem como na caça de tocaia. Tornava-me uma pessoa totalmente diferente, quando estava ao ar livre, espreitando o cervo horas a fio, e continuava a colher o benefício desses dias de caça por um considerável tempo depois. 

Himmler respondeu que era certamente a melhor parte da caça, mas o objetivo real da caça de tocaia, dar um tiro num desventurado cervo, contrariava a sua natureza. “Como você pode encontrar qualquer prazer, sr. Kersten, atirando por trás de um esconderijo em pobres criaturas que pastam à beira de um bosque, inocentes, indefesas e confiantes? Pensando bem, é puro assassinato”.


TRANSCRIÇÃO: Daniel Moratori
FONTE: RHODES, Richard. Mestres da Morte: A invenção do Holocausto pela SS Nazista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. 210-215 p.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Por que há tantos grupos neonazistas em Santa Catarina?

 Levantamento indica aumento de células extremistas de direita no estado, que tem a maior concentração desses grupos no país. Pesquisadores apontam ligação com valorização de identidade branca e descendente de europeus.


Em quatro meses houve um crescimento de 23% na quantidade de células neonazistas em SC, aponta levantamento

O tema neonazismo veio à tona na última semana, com a posse da governadora interina de Santa Catarina, Daniela Reinehr. Seu pai, o professor aposentado Altair Reinehr é conhecido no estado por suas posturas negacionistas em relação ao Holocausto — ele foi colaborador de uma editora que sistematicamente publicava obras negando crimes da Alemanha nazista.

Após inicialmente se esquivar de responder se compactuava ou não com pensamentos neonazistas e negacionistas do Holocausto, a governadora interina  publicou no sábado (31/10) um artigo no jornal Folha de S.Paulo intitulado Não compactuo com o nazismo. No texto, ela diz discordar das posições do pai, apesar de amá-lo como filha.

Em outro episódio famoso de Santa Catarina, em 2014, um voo da Polícia Civil sobre a cidade de Pomerode avistou a imagem de uma suástica no fundo de uma piscina particular. O assunto repercutiu nacionalmente. Neste ano, o dono da piscina, o professor Wandercy Pugliesi, tornou-se candidato a vereador pelo Partido Liberal.

Em outubro, contudo, ele acabou expulso do partido e, em seguida, renunciou à candidatura. Nos anos 1990 ele teve objetos nazistas apreendidos em sua casa e se declarou "admirador" do regime de Adolf Hitler (1889-1945).

Também em 2014, dois jovens foram presos em flagrante em Itajaí por colarem cartazes nazistas na cidade. Eles acabaram absolvidos pela Justiça no ano passado.

Mas, afinal, há uma onda neonazista em Santa Catarina? Ela é maior do que no restante do Brasil? Especialistas ouvidos pela DW Brasil acreditam que sim.

A antropóloga Adriana Dias, doutora pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisadora do tema, monitora há 18 anos movimentos de células extremistas de direita no país.

De acordo com ela, o estado tem atualmente 85 células neonazistas organizadas em ação. Em junho, o estudo dela indicava que eram 69 — ou seja, em quatro meses houve um crescimento de 23% na quantidade desses grupos.

Em número absolutos, Santa Catarina só tem menos células neonazistas do que São Paulo, onde estão em atividade 89 grupos. Considerando as populações, os catarinenses têm a maior concentração desses grupos em atividade. São 11,8 células neonazista por milhão de habitante no estado do Sul, contra 1,9 por milhão no do Sudeste.

Dias comenta que tem verificado um aumento na quantidade de participantes por célula. Até o ano passado, os grupos catarinenses costumavam ter entre quatro e 40 membros, conforme sua análise. Agora, muitos chegam a 100, e a média está em 40, aponta.

"Branco e herói"

"O cenário de Santa Catarina acaba se tornando propício para a emergência de grupos neonazistas porque existe a valorização de uma identidade específica e o apagamento da diferença e da diversidade. E, de forma descontextualizada e generalizada, a imigração europeia acaba permanecendo na base dessa construção identitária", analisa a historiadora Eloisa Rosalen, pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Ela ressalta, contudo, que não se pode simplificar a questão pelo fato de a imigração alemã ter sido preponderante no estado catarinense.

"Não compreendo como uma simples transferência temporal e espacial, da Alemanha para Santa Catarina, da ideologia nazista", enfatiza. Para a pesquisadora, houve uma construção identitária do estado "pautada na branquitude, nas narrativas heroicas do processo migratório e na ideia de descendência europeia" que acabou servindo como base para a "invenção catarinense de supremacia branca" ou para a maior aceitação de ideias neonazistas.

Isso teria sido reforçado ao longo do tempo com festas comemorativas em alusão aos imigrantes e também pelos relatos dos memorialistas locais que, segundo Rosalen, "supervalorizam o 'pioneirismo'".

"O que não quer dizer que essas festas ou livros têm caráter neonazista ou nazista", pondera. "O que se encontra nesses materiais é a valorização de uma identidade que vai ser tomada como referencial único para Santa Catarina: branca, descendente de europeus, com o seu centro no ‘pioneiro'. O erro está nessa tomada como único."

Para ela, acabou sendo forjada a história de um estado homogêneo, com "apagamentos das violências e das diversidades".

"Pouco se fala, na esfera pública, sobre a violência às populações indígenas durante a colonização", exemplifica. "Muito menos se registra a presença ou a descendência dos caboclos que ocupavam muitas terras na região serrana ou no Oeste Catarinense. Nada é dito sobre os insucessos migratórios que alguns colonos tiveram."

A historiadora Juliana Clasen lembra que o processo de colonização catarinense, no século 19, "se deu durante uma política de embranquecimento do Brasil, quando era muito desejável trazer famílias italianas e alemãs". Como muitos colonos se estabeleceram em locais distantes, pequenas vilas e cidades foram formadas e permaneceram isoladas.

"Essa ideia de que ‘somos alemães mesmo' acabou permanecendo", comenta Clasen. "Quando a pessoa é criada imersa nessa cultura, se chega a conhecer o nazismo pode vir a desenvolver uma predileção. Acaba muito mais suscetível a concordar com essas ideias, porque cresceu ‘longe do diferente' e ouvindo que ‘somos nós e eles'."

"São cidades pequenas muito avessas ao outro, ao migrante. [Ao longo do tempo], passaram a se sentir contaminadas por qualquer relação nova", completa a antropóloga Dias.

Desnazificação

Dias afirma, contudo, que é preciso tomar cuidado para não generalizar e acabar estigmatizando Santa Catarina.

"O povo catarinense não tem culpa", frisa. "Eles foram expostos a uma história por gente que ofereceu a eles um produto equivocado. E as pessoas que se imbuíram desse discurso e se tornaram hitleristas podem ser desnazificadas."

"Hoje há uma eficácia simbólica desse discurso em Santa Catarina. Enquanto não houver um governo que efetivamente discuta essas questões e faça um processo de desnazificação, não vejo saída", comenta a antropóloga.

Como a maior parte das ações e debates neonazistas são organizados pela internet, a DW Brasil solicitou à organização não governamental SaferNet Brasil, entidade brasileira que promove e defende os direitos humanos na rede, dados atualizados de denúncias recebidas sobre o tema.

Como os registros são anônimos, não foi possível fazer um recorte por estado. Mas, neste mês de outubro, a ONG recebeu 138 notificações relacionadas a neonazismo. Em outubro do ano passado tinham sido apenas 31 denúncias.

Fonte: https://www.dw.com/pt-br/por-que-h%C3%A1-tantos-grupos-neonazistas-em-santa-catarina/a-55471079

domingo, 7 de outubro de 2018

Hoje é eleição, e cabe aqui uma reflexão: "Assimilação na véspera do assassinato dos judeus".



Hoje é eleição, e cabe aqui uma reflexão!!

Reflexão? Sim, uma reflexão sobre a Alemanha pré Guerra; pois isso me leva a pensar na Vanguarda Alemã e na Associação de Judeus Nacionais Alemães (Der deutsche Vortrupp e Verband nationaldeutscher Juden, respectivamente). Movimentos judaicos que apoiaram Hitler.



Assimilação na véspera do assassinato dos judeus:
Apelo da Associação Nacional de Judeus Alemães  pelas eleições do Reichstag em 31 de julho de 1932


A tradução aproximada e resumidamente seria algo como:

“Camaradas nacionais alemães de ascendência judaica! O dia da eleição é o dia para afirmar que somos alemães. Onde nossa alma está, há nossa pátria. Somos solidários com a Alemanha. Esse apego inquebrantável ao povo alemão não pode ser roubado de nós. O senso de nacionalidade é o que importa, não a chamada "raça".

"Vote alemão!"


Transcrição:

Deutsche Volksgenossen jüdischer Abstammung!
Der Wahltag ist der Tag, unser Deutschtum zu bewähren.
Man verspricht uns von der einen Seite, daß wir Juden geschützt werden, wenn bestimmte Parteien zur Regierung kommen.
Man droht uns von anderer Seite, daß wir entrechtet werden, wenn bestimmte Parteien oder Gruppen zur Macht gelangen.
Jedem, der so unsere Gesinnung und unsere Wahlstimmen zu kaufen versucht, sei gesagt, daß wir bei Erfüllung unserer vaterländischen Pflicht nicht durch Drohungen und nicht durch Versprechen zu beeinflussen sind.
Nicht "ubi bene", nicht wo es uns gut ergeht, ist unser Vaterland.
Unser Vaterland ist dort, wo unsere Seele ist.

Mit Deutschland sind wir verbunden durch die deutsche Kultur, die seit Jahrhunderten in unseren Familien heimisch ist, durch die deutsche Muttersprache, durch die Liebe zum deutschen Heimatboden, durch das Wissen um unsere Zugehörigkeit zum deutschen Volke. Wir sind Deutsche nicht um irgendwelcher Vorteile willen, sondern durch den Zwang des Gefühls.

Diese unverbrüchliche Verbundenheit mit dem deutschen Volke kann uns nicht geraubt werden, nicht durch Drohungen irregeleiteter Judenfeinde, nicht durch Hirngespinste einiger dem Deutschtum künstlich entfremdeter Zionisten, nicht durch Angstpolitik einer kleinen wurzellosen Zwischenschicht.

Das Volksgefühl gibt den Ausschlag, nicht die sogenannte "Rasse".

Wer in seinem Gefühl zum deutschen Volke gehört, wählt am 31. Juli nicht für den vermeintlichen Vorteil der Juden, er wählt für die deutsche Kultur und die deutsche Zukunft.

Wählt deutsch!
Verband nationaldeutscher Juden e.V., Bln. W35, Blumeshof 9

Fonte da reprodução: Gidal, Nachum Tim. Die Juden in Deutschland von der Römerzeit bis zur Weimarer Republik.  p. 420

Fonte: http://www.payer.de/judentum/jud06.htm

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Como a mídia 'mainstream' branqueia a al-Qaeda e os Capacetes brancos na Síria (4/4), por Eva Bartlett

Parte 4/4

Eva Bartlett article 1 1-4.jpg


Eva Bartlett POLITICA SOCIEDADE 

O The Guardian branqueia a imagem dos Capacetes Brancos
Que temas poderiam ter sido investigados pelo The Guardian, caso a história de Solon não fosse predeterminada e caso ela tivesse abordado o tema de forma honesta com o intuito de investigar os Capacetes Brancos?

- Solon foi muito infeliz na sua escolha de sublinhar o vídeo "mannequin challenge" dos Capacetes Brancos, escrevendo que o vídeo tinha sido "tirado do seu contexto". E qual era o contexto? Que os Capacetes Brancos, supostamente, de forma frenética trabalham o tempo inteiro resgatando civis sob constantes bombardeios e que ainda assim têm tempo para realizar um vídeo encenando um heroico resgate? Este vídeo revela o mais que óbvio fato de que os Capacetes Brancos podem claramente produzir vídeos muito convincentes de "resgates". Mas Solon ignora este fato, visto que este não encaixa na sua história russofóbica baseada no nada. Mais, eu não consigo imaginar os socorristas palestinos com quem trabalhei desperdiçando precioso tempo produzindo tão absurdo vídeo. 

- Apesar do lema dos Capacetes Brancos ser: "salvar uma vida é salvar a humanidade inteira", membros desta organização participaram de forma voluntária na execução de civis. Quanto a Solon, esta escreveu que os membros dos Capacetes Brancos apanhados com armas na mão ou em cima de cadáveres ou entoando cânticos da Al-Qaeda  eram casos "isolados" e "malvados", apesar da esmagadora quantidade de provas no sentido contrário. E a melhor parte? Não foi a Rússia que os fotografou, as fotos vêm das suas próprias contas de redes sociais, nas quais eles expuseram, muito orgulhosos, a sua lealdade aos grupos terroristas

- Na sua tentativa de explicar a acusação de "malvados", Solon apresenta a conversa de Raed Saleh, o líder dos Capacetes Brancos, mas não informa que Raeh Saleh viu negado o seu pedido de entrada em território norte-americano em Abril de 2016 e que, Mark Toner, porta-voz do departamento de estado dos EUA, afirmou que aquele tem ligações a extremistas

Aqui está um exemplo bem perturbante de um "malvado" ator com ligações com a liderança dos Capacetes Brancos: 
"Muawiya Hassan Agha estava presente em Rashideen, e mais tarde ficou conhecido pela sua infame participação na execução de dois prisioneiros de guerra em Alepo. Devido ao seu excepcional mau comportamento,  Agha foi supostamente despedido dos Capacetes Brancos, embora depois tenha voltado a ser fotografado na companhia de membros dos Capacetes Brancos. Agha foi também fotografado comemorando a "vitória" da Frente Al-Nusra em Idlib ".

- Os soldados que o The Guardian chama de "combatentes pró-Assad" são na realidade membros das Forças Armadas Sírias. O léxico é importante e, ao denegrir membros das forças armadas do país, o The Guardian joga um jogo muito velhinho e pouco imaginativo: sacar da cartada lexical por norma utilizada por países membros da ONU que violam o protocolo desta organização e, na sede desta, apelidam o governo sírio de "regime" (algo que Solon também faz...) em vez de "governo".

- Não é a totalidade do Conselho de Segurança da ONU que acredita que a Síria cometeu os crimes os quais Solon se refere, mas sim uma parte desses membros que têm um admitido interesse em derrubar o governo sírio.

A cartada química
Numa tentativa de legitimar os Capacetes Brancos e de deslegitimar aqueles que os põem em questão, o artigo do The Guardian apresenta como se fossem fatos as alegações de que o governo sírio teria usado armas químicas contra o seu povo em Khan Shaykhoun a Abril de 2017, e acrescenta que os Capacetes Brancos apresentaram provas válidas sobre o fato e que eu e Vanessa Beeley somos umas das "vozes céticas mais barulhentas" contra a narrativa oficial.

De forma divertida, de acordo com o artigo do canal Al-Jazeera do Catar, que o The Guardian forneceu para respaldar a afirmação de culpabilidade do governo sírio (em vez de fornecer o Relatório da ONU de Setembro de 2017, em si mesmo questionável, e uma leitura bem mais longa para Solon): (destacado em negrito por mim) 
"Todas as provas disponíveis levam a Comissão a concluir que existem bases razoáveis para acreditar que as forças sírias largaram uma bomba que espalhou gás sarin sobre Khan Shaykhoun."

Bases razoáveis para acreditar não é exatamente uma confirmação de prova, é apenas uma crença.

O mesmo artigo realça que os investigadores não se deslocaram até à Síria e que "as suas conclusões baseiam-se em fotografias de fragmentos das bomba, imagens de satélite e testemunhos."

Testemunhos vindos de uma zona controlada pela Al-Qaeda? Muito credível. Mustafa al-Haj Yussef, o líder dos Capacetes Brancos em Khan Shaykhoun, é um extremista que não esconde o seu apoio às ações da Al-Qaeda. Como escreveu Vanessa Beeley:
"Yussef apelou ao bombardeio de civis, à execução de todos os que não jejuarem durante o Ramadã, a execução de todos os que forem considerados Shabihas, o extermínio de soldados sírios e a pilhagem dos seus pertences... Ele claramente apoia a Frente Al-Nusra, uma organização internacionalmente considerada terrorista, e apoia o Ahrar Al Sham… Yussef está muito longe de ser neutro, imparcial ou humanitário."
Na sua análise inicial sobre a declaração de Abril de 2017 da Casa Branca a propósito de Khan Shaykhoun, Theodore Postol,  Professor Emérito de Ciência, de Tecnologia e de Política de Segurança Nacional no MIT, chegou à conclusão que: (destacado em negrito por mim) 
"Acredito que pode ser demonstrado, sem nenhuma margem de dúvidas, que o documento não fornece nenhum tipo de prova de que o governo dos EUA tenha conhecimento concreto de que o governo sírio seja responsável pelo ataque químico de Khan Shaykhun (na Síria, entre as 6 e as 7 da manhã do dia 4 de Abril de 2017).
As análises de Postol levam a concluir que as supostas provas
"apontam para um ataque que foi executado por indivíduos no solo, e não a partir de um avião, ma manhã de 4 de Abril", e realçam que "o relatório não tem absolutamente nenhuma prova de que este ataque tenha sido o resultado de uma bomba lançada do ar."
O jornalista investigativo Seymour Hersh analisou também as acusações oficiais, e reparou que as alegações realizadas pela MSF contradizem a versão oficial que acusa o governo sírio de ter bombardeado a área com gás sarin. Hersh escreveu: (destacado em negrito por mim)
"Uma equipa dos Médicos Sem Fronteiras (MSF), tratando vítimas do ataque de Khan Sheikhoun numa clínica 60 km a norte, relatou que 'oito pacientes mostravam sintomas de pupilas contraídas, espasmos musculares e defecação involuntária, típicas reações de exposição a um agente neurotóxico como o gás sarin e compostos similares'. A MSF visitou também outros hospitais que tinham recebido vítimas e descobriu que alguns pacientes 'cheiravam a lexívia', sugerindo que estes tinham sido expostos ao cloro.' Ou seja, os fatos sugerem que houve mais do que um artefato químico responsável pelos sintomas observados, o que não teria sido o caso se de fato tivesse sido a Força Aérea Síria a largar uma bomba com gás sarin (tal como insistem alguns ativistas da oposição), visto que uma bomba com gás sarin não tem percussão ou poder de ignição para desencadear uma explosão secundária. A gama de sintomas é, no entanto, consistente com a libertação de uma mistura de produtos químicos, incluindo cloro e organofosforados utilizados em muitos fertilizantes, os quais podem causar efeitos neurotóxicos semelhantes aos do gás sarin ".

O segundo artigo ao qual Solon faz referência é um artigo do New York Times que classifica o relatório de "investigação politicamente independente". Isto deve levar os leitores a fazerem uma pausa para darem uma gargalhada, já que o mecanismo de investigação incluiu a OPAQ, que é financiada de forma bem questionável, e que, por entre os entrevistados nesta investigação, havia socorristas da Al-Qaeda.

Em relação ao relatório em questão, o Professor Marcello Ferrada de Noli (fundador e presidente da Swedish Professors and Doctors for Human Rights ), em Novembro de 2017, refutou-o e classificou-o de "impreciso" e de "politicamente parcial". Aqui ficam algumas das suas afirmações:  (destacado em negrito por mim)
- O mesmo autor do Mecanismo de Investigação Conjunta reconhece que os rebeldes de Khan Shaykhun entretanto destruíram provas ao encher a "cratera" de impacto com cimento. Por que é que os "rebeldes" o fizeram e que consequências tiveram esta sabotagem sobre as investigações, são questões que não foram levantadas pelo relatório." 
- "Ao reconhecer que Khan Shaykhun estava na altura sob controle de Al-Nusra, o relatório do Mecanismo de Investigação Conjunta demonstra outra contradição metodológica: a de que a Al-Nusra e os seus aliados jihadistas, ao controlar a área, controlavam também a informação "oficial" vinda de Khan Shaykhun sobre o alegado incidente. E isto exigiria um interrogatório sobre a confiabilidade/credibilidade (parcialidade) das principais fontes que o comitê usou nas suas alegações ".
@Syricide pegou uma das mais alarmantes irregularidades alegadas pelo Mecanismo de Investigação Conjunta [JIM, em inglês], tuitando:

Syricide
(TRADUÇÃO: 57 "pacientes" chegaram a 5 hospitais para serem tratados ANTES do incidente ter ocorrido em Khan Shaykhun)

Até o The Nation publicou em Abril de 2017 um artigo insistindo na necessidade de se fazer uma verdadeira investigação sobre as reivindicações de uso de armas químicas, fazendo referência à investigação de Postol e pondo em destaque o seguinte ponto: (destacado em negrito por mim)
"Philip Giraldium antigo funcionário da CIA e dos serviços de informação do exército, disse no dia 6 de Abril a um apresentador de rádio (Scott Horton) que esteve ouvindo o que têm a dizer fontes no terreno no Oriente Médio, pessoas que estão intimamente familiarizadas com as informações disponíveis, pessoas essas que afirmam que a base da narrativa que temos ouvido sobre sírios e russos usando armas químicas é uma fraude."

Giraldi salientou também que 'membros da agência [da CIA] e alguns militares a par das informações disponíveis estão enlouquecendo devido a isto, pois, basicamente, o que Trump fez foi desvirtuar aquilo que de fato aconteceu em Khan Shaykhun. Giraldi informa que estas fontes dentro das forças armadas e dos serviços de inteligência "estão espantadas com a forma com que esta invenção tem  sido tratada pela administração norte-americana e pela mídia do país."

O mesmo artigo inclui as palavras do ex-embaixador do Reino Unido na Síria, Peter Ford, quem afirmou:
"isto desafia a crença de que ele não teria levantado esta questão se não fosse por uma razão de vantagem militar." Ford afirma acreditar que as acusações contra a Síria "simplesmente não são credíveis."

Portanto, de fato não, alguns dos mais bem informados e céticos barulhentos não eram nem eu nem Beeley, mas sim Theodore Postol (professor emérito do MIT), o jornalista investigativo Seymour Hersh, o ex-embaixador do Reino Unido Peter Ford, e o ex-funcionário da CIA e dos serviços de informação do exército Philip Girldi, que não são propriamente exemplos de vozes "marginais". 

O jornalista de investigação Robert Parry, em Abril de 2017, escreveu sobre a tática de deflexão do New Iorque Times (também empregue por Solo): (destacado em negrito por mim)
"Em vez de se centrar na dificuldade em avaliar o que aconteceu de fato em Khan Sheikhoun, cidade sobre controle da Al-Qaeda da Síria e onde, portanto, toda e qualquer informação daí proveniente deva ser considerada altamente suspeita, Rutenberg apenas argumentou que a sabedoria tradicional ocidental só pode estar certa.
Para desacreditar possíveis céticos, Rutenberg associa-os a uma das personalidades de rádio mais excêntricas e adepta de "teorias da conspiração", o senhor Alex Jones, o que não é mais do que o exemplo mais recente da dependência do Times por falácias macartistas, utilizando não apenas a culpa por associação, mas refutando também o razoável ceticismo de alguém associando-o a alguém de outro que, num contexto completamente diferente, expressou algum tipo de ceticismo irracional."

E isto soa familiar. Vejam o que escreveu Solon:
"Beeley com muita frequência crítica os Capacetes Brancos na qualidade de editor do site 21st Century Wire, site criado por Patrick Henningsen que é também editor do Infowars.com.”

Infowars é o site de Alex Joens, em que Henningsen há muitos anos deixou de trabalhar para o Infowars.

Solon continuou este tópico utilizando outro argumento non sequitur sobre Beeley e o encontro do US Peace Council com o presidente sírio em 2016, fatos irrelevantes quer para o tema dos Capacetes Brancos quer para o tema dos alegados ataques químicos. Mas irrelevância é o que a mídia corporativa faz de melhor hoje em dia. 

A escritora de histórias do The Guardian não realizou trabalho de investigação absolutamente nenhum sobre as falácias que ela apresenta como sendo fatos. 

Fontes desprovidas de integridade citadas por Solon 
Além das já referidas, é interessante dar uma vista nas outras fontes que Solon utilizou na sua aveludada história:
Scott Lucas, cuja fidelidade aos Imperialistas é evidente no feed do seu twitter, uma coleção de russofobia e iranianofobia. Lucas contou com as palavras de um apoiante de terroristas como Mustafa Al-Haj Youssef para escrever o seu artigo de Agosto sobre os Capacetes Brancos (aparentemente plagiado por Solon). Solon contou com as difamações de Lucas para descredibilizar o trabalho e ferir a integridade daqueles que Solon ataca. Isso e o fato de Lucas ser um professor (de forma a incluir uma tentativa de legitimidade ao artigo), foram as únicas razões para a inclusão deste na história do The Guardian.

-Amnistia Internacional, o assim o chamado grupo de direitos humanos que, como Tony Cartalucci sublinhou em Agosto de 2012, é o "Departamento de Propaganda do Estado Norte-Americano", e recebe de fato dinheiro de governos e de interesses corporativo-financeiros, incluindo George Soros da Open Society, um "criminoso condenado financista":

Não são apenas "conspiracionistas como Cartalucci que têm escrito sobre o lado negro da Amnistia Internacional. Ann Wright, que serviu 29 anos como coronel das Forças Armadas e da Reserva dos EUA e 16 como diplomata norte-americana em vários países, incluindo o Afeganistão, e que "renunciou em 2003 em protesto contra a guerra do Iraque", e que "retornou ao Afeganistão entre 2007 e 2010 em missões de recolha de provas", também escreve sobre o tema. A sua coautora foi Coleen Rowley, "agente especial do FBI durante quase 24 anos", conselheira legal do FBI Field Office em Minneapolis entre 1990 e 2003, e uma denunciante "de algumas das falhas do FBI pré-9/11". Juntas escreveram, em Junho de 2012, sobre "o fascínio da Amnistia Internacional (AI) pelas guerras dos EUA". 

Francis Boyle, um professor de direito internacional que chegou a ser membro do quadro norte-americano da AI, escreveu sobre o papel da organização no incitamento à guerra. Em Outubro de 2012, escreveu sobre o belicismo da AI em relação ao Iraque (quando apoiou a história da morte de bebês em incubadoras, inventada pela filha do embaixador do Kuwait), e sobre as suas próprias tentativas de informar a AI de que "esse relatório não deveria ser publicado visto que não estava correto" Francis Boyle salientou:
"Essa guerra genocida levada a cabo pelos EUA, o Reino Unido e a França, já agora, matou durante os meses de Janeiro e Fevereiro de 1991 pelo menos 200.000 iraquianos, metade dos quais eram civis. A AI terá para sempre o sangue do povo iraquiano nas suas mãos!"
As palavras de despedida de Boyle incluem:
"... com base nos meus mais de dezesseis anos de experiência lidando com a AI Londres e a AI USA no nível mais alto, está claro pra mim que ambas as organizações manifestam um padrão consistente e uma prática de seguir as linhas da política externa dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e de Israel. ... Efetivamente, a Amnistia Internacional e a AI USA funcionam como ferramentas do imperialismo, do colonialismo e do comportamento genocida dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e de Israel."
- Eliot Higgins, sobre quem o premiado jornalista de investigação Gareth Porter escreveu:
"Eliot Higgins é um membro não residente do militante anti-russo Atlantic Council,  financiado pelo departamento de estado, e não possui conhecimentos técnicos em munições."
O jornalista britânico Graham Phillips escreveu sobre Eliot Higgins em Fevereiro de 2016. Respondendo à sua questão sobre quem é Eliot Higgins, Phillips afirmou:
"Ele nunca acabou a universidade, tendo abandonado o Southampton Institute of Higher Education. Quando interrogado acerca dos seus estudos universitários, a sua resposta foi 'jornalismo...julgo eu'. ... Higgins sempre foi completamente honesto em relação à sua falta de conhecimentos técnicos.

A obsessão do The Guardian pela Rússia
A esta altura do campeonato já deveria estar bem claro que o objetivo da história de Solon do dia 18 de Dezembro não era a análise das inúmeras questões (fatos) sobre as ligações dos Capacetes Brancos a grupos terroristas na Síria, e já não deveria ser questionável o financiamento dos heroicos voluntários proveniente de fontes ocidentais interessadas em ver a Síria desestabilizada e o seu governo substituído. 

Mas, pelo contrário, o objetivo foi o de branquear o comportamento desse grupo de resgate, e o de demonizar aqueles que, como nós, dão nas vistas, e também o de acrescentar mais russofobia (apesar da intervenção militar russa na Síria ser legal, ao contrário da coligação liderada pelos EUA, da qual o Reino Unido de Solon faz parte).

Desde a última troca de mensagens entre nós em Outubro até à publicação da muito esperada colecção de calúnias do The Guardian, Solon produziu (ou co-produziu) 24 histórias para este jornal, das quais 9 foram ataques anti-Rússia. Este gênero de histórias inclui palavreado como "operativos russos", "interferência russa", "trolls russos", "propagandistas russos" e "bots russos". 

Será, a Baronesa Cox (da Câmara dos Lordes britânica, e que recentemente se expressou em favor da [legal] intervenção russa na Síria), uma "conspiracionista" financiada pelo Kremlin? Leia o que disse ela: (destacado em negrito por mim)
"E o 4ª ponto que eu gostaria de referir, especificamente a vocês, é o muito real apreço sentido por toda a gente na Síria pelo apoio que a Rússia oferece na erradicação do ISIS e na erradicação de todos os outros grupos extremistas islâmicos." 

Cox, que visitou a Síria, certamente não é uma agente do Kremlin ou de Assad. Provavelmente, apenas terá ouvido as vozes de sírios na Síria, como o resto de nós "propagandistas russos" que se deram ao trabalham de se deslocar (repetidamente) até à Síria e lá conversar com civis sírios. 

Esta é a primeira parte de um grande artigo. A Parte 2 virá em breve.

Eva Bartlett, 06.01.2018

Parte 1

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Como a mídia 'mainstream' branqueia a al-Qaeda e os Capacetes brancos na Síria (3/4), por Eva Bartlett

Parte 3/4

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Eva Bartlett POLITICA SOCIEDADE 

Credenciais, por favor: O que é o jornalismo?
Em relação à questão do The Guardian quanto à minha competência enquanto jornalista, gostaria de destacar o seguinte.

Eu comecei fazendo reportagens a partir do terreno, na Palestina, em 2017, primeiro através do meu blog, e mais tarde publicando artigos em várias outras mídias online.

Em 2007, passei 8 meses na Cisjordânia ocupada na Palestina, numa das áreas mais perigosas, onde palestinos são diariamente maltratados, raptados e mortos pelo exército israelense e por colonos judeus ilegais. Aí eu comecei a blogar, documentando os crimes realizados utilizando testemunhos, entrevistas na primeira pessoa, as minhas próprias experiências, fotos e vídeos.

Depois de ter sido deportada da Palestina pelas autoridades israelenses em Dezembro de 2007, em 2008 viajei de barco do Chipre até Gaza e documentei não apenas as diárias agressões israelenses contra homens desarmados, mulheres, idosos e filhos de camponeses e de pescadores, mas também os efeitos do devastador cerco total de Gaza, os esporádicos bombardeios e incursões terrestres por parte de Israel e, claro, os dois grandes massacres de Dezembro 2008/Janeiro 2009 e de Novembro 2012

Na guerra de 2008/2009 contra civis palestinos, eu estava no terreno ajudando socorristas no norte de Gaza (verdadeiros socorristas e não atores encenando) sob bombardeios e sob um fogo intenso de franco-atiradores. Eu estava também num piso no topo de um edifício de mídia na cidade de Gaza que foi bombardeado enquanto eu lá estava presente. Eu permaneci em Gaza depois da matança ter acabado, recolhendo horríveis testemunhos e documentando os crimes de guerra israelenses como os  assassinatos de crianças, a massiva utilização de Fósforo Branco sobre civis, a utilização de civis com escudos humanos e o uso (e assassinato) de médicos como alvos de ataque.

Veja esta link para obter mais informação detalhada destes documentos, com muitos exemplos, e muito mais documentação recolhida durante o massacre israelense de palestinos em Novembro de 2012, assim como relatos detalhados das minhas investigações resultantes de sete viagens pela Síria. 

Enquanto questionava as minhas credenciais enquanto jornalista de investigação sobre o Oriente Médio, o The Guardian inadvertidamente atribuiu a produção da história a uma jornalista de São Francisco especializada em peças de pelúcia, moda e análise Russofóbica, a qual tem visivelmente pouca ou nenhuma compreensão sobre o que está acontecendo na Síria.

Discursando sobre "a propaganda que é com frequência disfarçada de jornalismo", o premiado jornalista e realizador John Pilger afirmou: (destacado em negrito por mim)
"Edward Bernays, o proclamado pai das relações públicas, escreveu sobre o governo invisível que é aquele que de fato governa um país. Referia-se ao jornalismo, à mídia. Isto foi há quase 80 anos atrás, pouco depois do jornalismo corporativo ter sido inventado. É uma história que poucos jornalistas conhecem ou falam sobre, e teve o seu início com o advento da publicidade corporativa. 
À medida que as novas corporações foram tomando o lugar da imprensa, algo chamado de "jornalismo profissional" foi inventado. De forma a atrair grandes anunciantes, a nova imprensa tinha de parecer ser respeitável, pilar do establishment, objetiva, imparcial, equilibrada. As primeiras escolas de jornalismo foram criadas, uma mitologia da neutralidade liberal foi criada ao redor dos jornalistas profissionais. O direito à liberdade de expressão passou a ser associada aos novos media. 
... Tudo isto não passava de um embuste. Aquilo de que o público não foi informado, foi que, de forma para poderem ser profissionais, os jornalistas tinham de assegurar que as suas notícias e opiniões fossem dominadas por fontes oficiais. E isto continua verdade até hoje. Vasculhe o New York Times num dia  qualquer escolhido ao acaso, e verifique as fontes dos seus principais artigos de política interna e externa. Descobrirá então que todos esses artigos são dominados pelos interesses de governos e outros poderes. É esta a essência do jornalismo profissional."

Num post de Facebook público, o jornalista Stephen Kinzer escreveu:
"Acontece que concordo com a Eva em relação à Síria, mas, do ponto de vista de um jornalista, a verdadeira importância do que ela faz vai muito além do fato de produzir notícias a partir de um dado país. Ela desafia a narrativa estabelecida - e essa é a essência do jornalismo. Tudo o resto é a estenografia. Aspirantes a correspondentes estrangeiros,  tomem nota!!"

No difamatório artigo do The Guardian, Solon empregou a tática de denegrir a credibilidade de um(a) jornalista de investigação catalogando-o(a) como mero(a) "blogueiro(a)". Na sua estória, Solon utilizou o termo "blogueira" quatro vezes, três delas para referir-se a Vanessa Beeley (que contribui em artigos de análise para uma variedade de mídia online).

No último desses casos, ela citou James Sadri, diretor executivo da Purpose Inc (que opera o projeto de relações públicas do "Syrian Campaign), o qual afirmou a propósito de Beeley: 
"Uma blogueira de um site conspiracionista do 9/11 que apenas visitou a Síria pela primeira vez no ano passado não pode ser levada a sério como uma perita imparcial do conflito."
Relembrem-me quando foi a última vez que Sadri ou Solon lá estiveram? Parece que foi em 2008 no caso de Sadri, e nunca no caso de Solon. Mas eles são "credíveis", enquanto que alguém como a Beeley que desde a sua primeira visita em 2016 já lá retornou em inúmeras ocasiões e em momentos críticos, como a libertação de Alepo, e que falou com civis sírios do leste da cidade anteriormente ocupada pela Al-Qaeda e seus parceiros extremistas, não é credível?

E quanto aos blogueiros, existem muitos escritores e investigadores perspicazes que publicam nos seus próprios blogs (por exemplo, este blog). Contudo, e deixando à parte esta questão, é divertido nota que Solon no seu perfil de LinkedIn apresenta como sua primeira habilidade: blogging ("blogar"). Será ela uma mera blogueira? 

oli blogging

Em relação ao uso que Solon faz do tema "conspiracionistas", será que ela o reciclou a partir de um artigo do Wired publicado há oito meses atrás? Não há dúvidas queo uso do termo "conspiracionistas" serve o propósito de caricaturar todos aqueles que investigam os Capacetes Brancos como sendo mais um Alex Jones. 

Será ela capaz de ser original? 

castello
4 de Novembro de 2016: A menos de 100 metros do local onde caiu o segundo de 2 morteiros disparados por facções terroristas a menos de 1 km da Estrada Castello. A estrada e o corredor humanitário foram atacados pelo menos 7 vezes nesse dia por essas facções terroristas. Muitos desses que trabalham para a mídia corporativa foram se esconder no ônibus, e foi lhes fornecido capacetes e coletes à prova de bala. Eu permaneci na estrada, sem luxos do gênero. Leia mais sobre este episódio aqui

O The Guardian usa a tática da CIA de "Teorias da Conspiração"
Além de utilizar termos humilhantes, o The Guardian meteu-se no jogo da CIA de utilizar o mal-intencionado termo de "conspiracionistas".

Como afirmou Mark Crispin Miller (professor de comunicação social e escritor) perante uma comissão a Junho de 2017 :
"Teoria da conspiração não foi uma expressão muito utilizada por jornalistas até 1967 quando, de repente, começou a ser utilizada o tempo todo, e cada vez mais é utilizado. E a razão para tudo isto é que a CIA, naquela época, enviou um memorando aos chefes das suas representações em todo o mundo instando-os a usar as suas posições privilegiadas e os seus amigos dentro de meios de comunicação para desacreditarem o trabalho de Mark Lane ...  de escrever livros atacando o Relatório da Comissão Warren.  Mark Lane era um best-seller, e então a resposta da CIA foi a de enviar esse memorando exigindo um contra-ataque, esperando que lacaios obedientes à agência escrevessem críticas atacando este tipo de escritores com o rótulo de "conspiracionistas" e que utilizassem um ou mais dos cinco argumentos especificados no memorando. 

Aposto que Solon recebeu o memorando.

De forma mais aprofundada, o professor James Tracy afirmou:
"Teoria da Conspiração" é um termo que provoca medo e ansiedade nos corações da maior parte das figuras públicas, em particular jornalistas e acadêmicos. Desde a década de 1960, este rótulo tornou-se um dispositivo disciplinar que tem sido incrivelmente efetivo na definição de certos eventos fora dos limites da pesquisa ou do debate. Sobretudo nos EUA, colocar legítimas questões sobre dúbias narrativas oficiais de forma a informar o público (e, consequentemente, o poder político), é visto como um crime que deve ser a todo o custo cauterizado da mentalidade coletiva."

Kevin Ryan, escritor e investigador,  notou que (destacado a negrito por mim):
"Nos 45 anos que precederam a publicação do memorando da CIA, a expressão 'teoria da conspiração apareceu apenas 50 vezes no Washington Post e no New York Times, ou seja, cerca de uma vez por ano. Nos 45 anos após a publicação do memorando da CIA, a expressão apareceu 2630 vezes, cerca de uma por semana."
"... e claro, cada vez que a expressão é utilizada, é sempre num contexto no qual o "conspiracionista" possa ser caracterizado como menos inteligente e menos racional que aqueles que de forma acrítica aceitam as explicações oficiais para a maioria dos eventos. O presidente George Bush e os seus colegas usam frequentemente a expressão "teoria da conspiração" de forma a deter possíveis questões sobre as suas atividades. 

No seu artigo para o The Guardian, Solon incluiu a falácia de que a Rússia está por detrás de tudo.

Em agosto de 2017, Scott Lucas (citado por Solon no seu próprio artigo) escreveu (destacado a negrito por mim):
"Mídias estatais russas têm levado a cabo uma campanha, sobretudo desde que, em Setembro de 2015, Moscou interveio militarmente."

E no de Solon? (destacado a negrito por mim):
"A campanha para desacreditar os Capacetes Brancos começou ao mesmo tempo em que a Rússia, em Setembro de 2015, interveio militarmente..."

Mas tenho a certeza que é uma mera coincidência.

Investigações iniciais sobre os Capacetes Brancos precedem as da Rússia 
Como já afirmei anteriormente neste artigo, em 2014 e início de 2015, muito antes da mídia russa ter pego pegado no assunto, Cory Morningstar e Rick Sterling já estavam confrontando a história oficial sobre os Capacetes Brancos. 

Morningstar, no dia 17 de  Setembro de 2014, escreveu:
"Purpose, uma empresa de relações públicas de Nova Iorque, criou pelo menos quatro ONG's/campanhas anti-Assad: os Capacetes Brancos, o Free Syrian Voices [3], o The Syria Campaign [4] e a March Campaign #withSyria. ... A mensagem é clara. A Purpose buscava luz verde para a intervenção militar na Síria coberta sob o pretexto de humanitarismo - o oxímero dos oxímeros ".

Foi então que os Capacetes Brancos entraram em cena.

No seu artigo do dia 9 de Abril de 2015, Rick Sterling opinou que os Capacetes Brancos seriam um projeto de relações públicas para uma posterior intervenção ocidental na Síria. Segundo ele  (destacado a negrito por mim):
"Capacetes Brancos é o novo nome cunhado recentemente para a 'Syrian Civil Defence'. Apesar do seu nome, a Syria Civil Defence não foi criada por sírios nem exerce funções na Síria. Pelo contrário, foi criada pelos EUA e o Reino Unido em 2013. Alguns civis de zonas controladas por rebeldes foram pagos para irem à Turquia e aí receber algum treino em operações de resgate. O programa era gerido por James Le Mesurier, um ex-militar britânico e um contratista privado cuja empresa tem sede no Dubai."

Depois de ter começado a investigar os Capacetes Brancos por volta de Setembro de 2015 e de ter, em Outubro, revelado os laços destes com criminosos assassinos na Síria, Vanessa Beeley tem de forma implacável perseguido esta organização, as suas mentiras e a sua propaganda e o seu financiamento de pelo menos 150 milhões de dólares (muito mais que o necessário para suprimentos médicos e equipamento de filmagem profissional)

Como salientou o 21st Century Wire (destacado a negrito por mim):
"Reparem que o The Guardian e a Olivia Solon também afirmam que os Capacetes Brancos são apenas "voluntários", o que é uma fulcral deturpação de fatos desenhada para gerar simpatia pelos seus funcionários. Uma pessoa pode pura e simplesmente chamar a isto uma escandalosa mentira, visto que os membros dos Capacetes Brancos recebem regularmente um salário (ao qual, de forma enganadora, o The Guardian chama de "mesada") que é bem mais elevado que o salário médio sírio, detalhe convenientemente ignorado nesta peça de propaganda do The Guardian que parece ter sido feito de encomenda para o Ministério de Negócios Estrangeiros britânico.
... jornalistas do The Guardian como a Solon não devem atrever-se a mencionar que o valor da "mesada" dos Capacetes Brancos é bem superior ao do salário padrão de um soldado do exército que, com sorte, leva para casa 60 ou 70 dólares por mês."

CONTINUA 

Eva Bartlett, 06.01.2018

Parte 2
Parte 4
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