terça-feira, 14 de maio de 2013

Polônia exuma vala comum com 200 vítimas do "terror stalinista"


Restos humanos são vistos durante exumação de cova comum de cemitério militar do período stalinista em Varsóvia, na Polônia. Acredita-se que o local abrigue ossadas de mais de 200 vítimas da repressão soviética no período posterior à Segunda Guerra Mundial. O objetivo da iniciativa é identificar os mortos.


Caveira foi encontrada nesta segunda-feira durante exumação de túmulo coletivo. O processo de exumação foi iniciado em junho de 2012 e paralisado para durante o inverno europeu. Mais de 100 ossadas foram exumadas no ano passada.

Imagem mostra o local onde vítima do terror stalinista pós-Segunda Guerra Mundial foi enterrada. As vítimas foram mortas entre 1948 e 1956. Cerca de 50 mil pessoas foram mortas na Polônia devido à repressão stalinista das décadas de 1940 e 1950 que consolidou a dominação soviética no país.


Perito trabalha no local em que caveira foi desencavada. Amostras de DNA retiradas das ossadas serão comparadas com o material fornecido por família de vítimas cujo paradeiro nunca foi esclarecido.


Funcionária do Instituto da Memória Nacional polonês trabalha na exumação da vala comum.


O trabalho de exumação dos túmulos está sendo realizada pelo Instituto da Memória Nacional da Polônia.


Perito manuseia fragmentos de ossada encontrada nesta segunda-feira.

Fotos: AFP
Fonte: Terra

Polônia busca restos mortais de vítimas do stalinismo em Varsóvia
Túmulo coletivo é exumado no cemitério militar da capital.
Cerca de 200 vítimas do regime comunista estariam enterradas ali.

Depois de mais de um ano, chegou ao fim nesta segunda-feira (13) o processo de exumação de um túmulo coletivo da era stalinista no cemitério militar de Varsóvia, capital da Polônia. Acredita-se que o túmulo tenha restos mortais de cerca de 200 pessoas, vítimas do regime comunista na Polônia durante o regime pós-Segunda Guerra Mundial.
"Durante a primeira etapa de trabalho no último verão, conseguimos exumar os restos de mais de cem vítimas", disse à AFP Krzysztof Szwagrzk, um oficial do Instituto da Memória Nacional que acompanhou o projeto.
No ano passado, o instituto exumou restos mortais de 117 supostas vítimas de uma era de terror stalinista que durou de 1948 a 1956 e caçou partidários antinazistas e antisoviéticos poloneses. Os restos foram removidos para o teste de DNA do Cemitério Militar de Powazki, na região central da capital polonesa.
O objetivo do projeto é encontrar os restos mortais do general Emil Fieldorf, chefe da resistência armada antinazista da Polônia, e de Witold Pilecki, um partidário polonês que se infiltrou voluntariamente no campo de concentração de Auschwitz com a intenção de divulgar o que viu.
Depois da guerra, os dois heróis da resistência foram acusados de traição e sentenciados à morte pelas autoridades comunistas na Polônia, fiéis ao ditador soviético Josef Stalin.

Fonte: G1

terça-feira, 7 de maio de 2013

Batalhão Policial de Reserva 101

Alemães que servem Batalhão de Polícia 101 humilham publicamente um homem judeu. Lukow, Polônia, 1942 

Quem foram os responsáveis? Que tipo de pessoa massacra civis? Chacina idosos? Assassinato de bebês? Para encontrar respostas a essas perguntas, o historiador Christopher Browning estudou interrogatórios feitos na década de 1960 e início de 1970 de 210 homens do Batalhão Polícial de Reserva 101. O batalhão foi originalmente formado a partir do equivalente alemão de policiais da cidade e do xerife do condado. Depois de 1939, ele e outros batalhões da Polícia de Ordem também serviram como forças de ocupação no território conquistado. Batalhão 101 foi designado para o distrito de Lubin da Polónia.

Como a Guarda Nacional nos Estados Unidos, os batalhões foram organizados regionalmente. A maioria dos soldados no Batalhão 101 vieram de trabalhadores e de bairros de classe média baixa em Hamburgo, na Alemanha. Eles eram mais velhos do que os homens que lutaram na linha de frente. A idade média foi de trinta e nove anos, com mais de metade entre trinta e sete e quarenta e dois. A maioria não era bem-educado. A maioria deixou a escola com a idade de quinze anos. Muito poucos eram nazistas e nenhum foi abertamente anti-semita. O Major Wilhelm Trapp, um policial de carreira de 53 anos de idade, que subiu na hierarquia, chefiou o batalhão. Embora ele se tornou um nazista em 1932, ele não era um membro da SS, embora seus dois capitães fossem.

A primeira missão de assassinato da unidade ocorreu em 13 de julho de 1942. Browning usou interrogatórios para juntar os acontecimentos daquele dia.

Assim que  a luz do dia estava rompendo, os homens chegaram à aldeia [de Jozefow] e montaram um semi-círculo ao redor major Trapp, que passou a dar um breve discurso. Com asfixia na voz e com lágrimas nos olhos, ele visivelmente lutava para controlar-se quando ele informou seus homens que haviam recebido ordens para executar uma tarefa muito desagradável. Essas ordens não eram de seu agrado, mas que veio de cima. Poderia, talvez, fazer a sua tarefa mais fácil, ele disse aos homens, se eles se lembraram de que, na Alemanha, as bombas estavam caindo sobre as mulheres e crianças. Duas testemunhas afirmaram que Trapp também mencionou que os judeus desta aldeia havia apoiado os guerrilheiros. Outra testemunha recordou Trapp de mencionar que os judeus haviam instigado o boicote contra a Alemanha. Trapp então explicou aos homens que os judeus em Jozefow teria de ser arrebanhados, após o que os jovens do sexo masculino deveriam ser selecionados para o trabalho e os outros baleados.

Trapp, em seguida, fez uma oferta extraordinária de seu batalhão: se qualquer um dos homens mais velhos, entre os quais não se sentia à altura da tarefa que estava diante dele, poderia se retirar. Trapp fez uma pausa, e depois de alguns instantes, um homem se aproximou. O capitão da 3ª companhia, enfurecido que um de seus homens tinham fileiras quebradas, começou a repreender o homem. O major disse ao capitão para segurar sua língua. Em seguida, dez ou doze outros homens adiantaram-se também. Eles viraram em seus rifles e foram orientados a aguardar mais uma designação do major.

Trapp, em seguida, convocou os comandantes de companhia e deu-lhes as respectivas atribuições. Dois pelotões da 3ª companhia estavam a cercar a aldeia, os homens tiveram ordens explicitas de atirar em qualquer um que tenta-se escapar. Os homens restantes estavam a reunir os judeus e levá-los para o mercado local. Aqueles muito doentes ou frágeis para andar para o mercado local, bem como crianças e qualquer pessoa que ofereça resistência ou tenta-se se esconder, foram fuzilados no local. Depois disso, alguns homens da 1ª companhia foram acompanhar os judeus selecionados para o trabalho no mercado, enquanto o resto iam para a floresta para formar os pelotões de fuzilamento. Os judeus estavam sendo colocados em caminhões do batalhão pela 2ª companhia e transportados do  mercado local para a floresta.

Tendo dado os comandantes da companhia das respectivas atribuições, Trapp passou o resto do dia na cidade, principalmente em uma sala de aula transformada em seu quartel-general, mas também nas casas do prefeito polonês e do padre local. Testemunhas que viram ele em vários momentos durante o dia, descreveu-o reclamando amargamente sobre as ordens que foram dadas e "chorando como uma criança." Ele, no entanto, afirmou que "ordens eram ordens" e tinham que ser realizadas. Nem uma única testemunha recordou vê-lo no local do tiroteio, um fato que não passou despercebido aos homens, que sentiram um pouco de raiva com isso. O motorista de Trapp se lembra dele dizendo mais tarde: "Se esse negócio judeu está sempre vingando na terra, então, tende piedade de nós alemães" (1).

Ao descrever o massacre, Browning nota: "Enquanto os homens do Batalhão de Reserva 101 estavam aparentemente dispostos a atirar nos judeus muitos fracos ou doentes para se mover, eles ainda evitaram na sua maior parte atirar nas crianças, apesar de suas ordens. Nenhum funcionário interveio, embora, posteriormente, um oficial advertiu a seus homens que, no futuro, eles teriam que ser mais enérgicos.".


Como a matança continuou, mais alguns soldados pediram para ser dispensados de suas funções. Alguns oficiais transferiram quem solicitou, enquanto outros pressionaram os seus homens a continuar apesar das reservas. Ao meio-dia, aos homens estavam sendo oferecidas garrafas de vodka para "refrescar" eles. À medida que o dia continuou, um número de soldados rompeu. No entanto, a maioria continuou até ao final. Após o termino do massacre, o batalhão foi transferido para a parte norte do distrito e os vários pelotões foram divididos, cada um  estacionado em uma cidade diferente. Todos os pelotões participaram de pelo menos mais uma ação de fuzilamento. A maioria descobriu que esses assassinatos posteriores eram mais fáceis de executar. Portanto, Browning vê que o primeiro massacre como uma importante linha divisória.

Mesmo 25 anos depois, não conseguia esconder o horror sem fim atirando judeus à queima-roupa. Em contrapartida, porém, falavam em torno de guetos e assistindo ["voluntários" poloneses] brutalmente conduzindo os judeus para os trens da morte com desprendimento considerável e uma ausência quase total de qualquer senso de participação ou responsabilidade. Tais ações eles costumavam rejeitar com um refrão padrão: "Eu estava apenas no cordão policial lá." O tratamento de choque de Jozefow havia criado uma unidade efetiva e insensível  de limpadores de guetos e, quando em ocasião necessária, assassinos definitivos. Depois de Jozefow nada mais parecia tão terrível. (2)

Ao chegar a conclusões a partir das entrevistas, Browning incide sobre as escolhas abertas para os homens que estudou. Ele escreve:

A maioria simplesmente negou que tivesse qualquer escolha. Confrontado com o testemunho dos outros, eles não contestaram que Trapp tinha feito a oferta, mas repetidamente alegaram que não tinha ouvido essa parte de seu discurso ou não se lembrava dela. Os poucos que admitiram que tinha sido dada a escolha e ainda não conseguiu optar foram bastante contundente. Um disse que não queria ser considerado um covarde por seus companheiros. Outro - mais consciente do que era necessaria verdadeira coragem - disse simplesmente: "Eu era covarde." Alguns outros também fizeram a tentativa de enfrentar a questão de escolha, mas não conseguiu encontrar as palavras. Foi um tempo e espaço diferentes, como se tivessem sido em outro planeta político e de vocabulário e os valores politicos da década de 1960 foram incapazes de explicar a situação em que se encontravam em 1942. Como um homem admitiu, não foi até anos depois que ele começou a considerar que o que ele tinha feito não tinha razão. Ele não tinha dado um pensamento no momento.(3)

Os homens que não participaram foram mais específicos sobre seus motivos. Alguns atribuíram sua recusa à sua idade ou ao fato de que eles não eram "homens de carreira." Só mencionar laços com os judeus como uma razão para não participar. Portanto Browning observa:

O que permanece praticamente não examinado pelos interrogadores e não mencionados pelos policiais foi o papel do anti-semitismo. Será que eles não falam disso porque o anti-semitismo não tinha sido um fator motivador? Ou eles estavam dispostos e capazes de enfrentar esse problema, mesmo depois de 25 anos, porque tinha sido muito importante, muito difundido? Somos tentados a se perguntar se o silêncio fala mais alto do que palavras, mas no final - o silêncio ainda é o silêncio, e a questão permanece sem resposta.

Foi o incidente em Jozefow típico? Certamente que não. Não conheço nenhum outro caso em que um comandante tão abertamente convidou e sancionou a não participação de seus homens em uma ação de matar. Mas no final, o fato importante não é que a experiência do Batalhão de Reserva 101 foi atípico, mas essa oferta extraordinária de Trapp não importava. Como qualquer outra unidade, o Batalhão Reserva de Polícia 101 matou os judeus que tinha sido dito para matar. (4)

Notas: 

1 - Christopher R. Browning, “One Day in Jozefow: Initiation to Mass Murder” in The Path to Genocide:Essays on Launching the Final Solution (Cambridge University Press, 1992), 174-175.

2 - Ibid., 179.

3 - Ibid., 181-182.

4 - Ibid., 183.

Obs: Esse é mais uma postagem sobre o Batalhão Policial de Reserva 101, sendo o segundo, conta o  um pouco sobre o massacre em Josefow, que é bem interessante.
A outra postagem é essa: Batalhão Policial de Reserva 101

Tradução: Daniel Moratori (avidanofront.blogspot.com)

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Vídeo mostra prisão de neonazista investigado por agredir gays e negros em BH


A Guarda Municipal de Americana, cidade do interior de São Paulo, divulgou um vídeo que mostra o exato momento da prisão do neonazista que causou polêmica em Belo Horizonte ao divulgar uma foto no Facebook na qual aparece agredindo um morador de rua negro na Savassi. Antônio Donato Baudson Peret, de 25 anos, foi detido na tarde de domingo (14) ao chegar na rodoviária do município onde mora sua namorada.

Na filmagem, o neonazista aparece sendo abordado logo após sair de um ônibus. Investigadores da Polícia Civil de Minas Gerais foram até o interior de São Paulo para prender o jovem. Ele chegava de uma viagem à Capital paulista. Com Donato, foram encontradas duas facas, um facão e um soco inglês. A namorada dele também foi levada para a delegacia. Ela prestou depoimento e foi liberada.

Donato já está em Belo Horizonte e ficará detido durante pelo menos 30 dias. A prisão preventiva do jovem foi determinada pela Justiça durante o fim de semana. Ele será indiciado por apologia ao crime, com os agravantes de racismo e nazismo, e formação de quadrilha. Durante a última semana, a Delegacia Especializada de Investigações de Crimes Cibernéticos começou a investigar atuação de grupo neonazista de BH nas redes sociais. Outras três pessoas foram presas na Capital mineira.

O grupo prega intolerância e ataca moradores de rua, usuários de drogas, homossexuais, punks, skatistas e negros. Donato já responde a dois processos por agredir gays em Belo Horizonte.

O caso ganhou destaque na mídia mineira após Donato compartilhar um texto que surgiu de uma apuração do Centro de  Mídia Independente (CMI) e da coluna do historiador Matheus Machado, que escreve para o portal Bhaz. Na ocasião, o neonazista criticava o estudante de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Gabriel Spínola. Nos comentários em seu perfil, ele dizia que conhecia o jovem e insinuava que o trote na instituição de ensino teria desencadeado investigações contra o grupo do qual faz parte.

No perfil de Antônio Donato, que foi deletado logo após a repercussão do caso, havia várias fotos de apologia ao nazismo, incluindo imagens de uma criança com acessórios que fazem referência ao regime.

Link do video:  http://www.youtube.com/watch?v=UU0BCmPHSuI&feature=player_embedded

Fonte: http://www.bhaz.com.br/video-mostra-prisao-de-neonazista-investigado-por-agredir-gays-e-negros-em-bh/

Mais material no Holocausto-Doc.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Batalhão Polícial de Reserva 101


Membros do Batalhão Polícial 101 celebram o Natal em seus quartéis.
Dezembro de 1940 - Foto USHMM -  Michael O'Hara
O Batalhão Reserva de Polícia 101 foi uma unidade da Polícia de Ordem Alemã [Ordnungspolizei ou Orpo] que durante a ocupação nazista da Polônia desempenhou um papel central na implementação da Solução Final contra o povo judeu e a repressão da população polonesa. Os membros do batalhão participaram de batidas policiais súbitas e expulsão de judeus, poloneses e ciganos , de guarda e liquidação de guetos , na deportação para campos de concentração e no o tiroteio em massa de dezenas de milhares de civis.

Criado em Hamburgo, o Batalhão 101 foi uma das treze formações da polícia que foram colocados à disposição do exército alemão durante a invasão da Polônia , em setembro de 1939 . Os membros do batalhão cruzaram para a Polônia na cidade fronteiriça de Oppeln e depois se mudaram para Czestochowa Kielce, onde batida capturou soldados poloneses e equipamento militar que foram guardado em um campo de prisioneiros. Em 13 de dezembro, o batalhão de polícia voltou para Hamburgo, onde muitos de seus recrutas foram transferidos para outras unidades e substituídos por reservistas meia-idade.

Em maio de 1940 , o batalhão foi novamente enviado para a Polônia, onde ele estava envolvido em todo o Wartegau (os distritos do oeste da Polônia formalmente anexada pelo Terceiro Reich) na expulsão e reassentamento de poloneses, ciganos e judeus. Estima-se que cerca de 37.000 pessoas foram evacuadas pelo Batalhão de Polícia 101 sozinho em um período de cinco meses durante a primavera e o verão de 1940. Seguindo as ações de reassentamento, o batalhão esteve envolvido nos esforços para caçar poloneses que fugiram da ordem de evacuação.

Em 28 de novembro de 1940 o batalhão da polícia foi re-implantado para proteger o perímetro do gueto de Lodz , que havia sido selado sete meses antes. Estes policiais tinham uma ordem permanente para atirar em qualquer judeu que chegasse muito perto do muro que cercava o gueto.

Em maio de 1941, Batalhão de Polícia 101 foi enviado para casa em Hamburgo, onde foi totalmente reconstituído. Depois que a maioria de seus recrutas anteriores foram distribuídos para outras unidades policiais, suas fileiras estavam cheios de reservistas elaborados. Enquanto a maioria de seus membros ainda viesse de Hamburgo, um grupo de Luxemburgo agora se juntou às suas fileiras. Para os próximos doze meses, a novo batalhão passou por um treinamento extenso e em torno de Hamburgo. Este período coincidiu com a deportação para a Europa Oriental da população judaica de Hamburgo e seus arredores em quatro transportes que partiram entre 25 de outubro e 4 de dezembro de 1941 .

Membros do Batalhão de Polícia 101 estiveram envolvidos em vários aspectos do processo de deportação, incluindo guarda do centro de agrupamento (na loja maçônica em Hamburgo) e da estação ferroviária Sternschanze, onde os judeus foram abordados em trens, e o acompanhamento de transportes para seus destinos finais: Lodz, Minsk e Riga. Em junho de 1942, o Batalhão de Polícia 101 foi enviado de volta para a Polônia. Postado para o distrito de Lublin, o batalhão chegou durante uma pausa temporária nas deportações em massa de judeus para os campos da morte da Operação Reinhard, de Belzec, Sobibor e Treblinka. Para as próximas quatro semanas, membros do batalhão foram implantados na reunião de assentamentos menores judeus e concentrá-los em guetos e campos maiores, particularmente Izbica e Piaski, os dois campos principais de montagem no sul do distrito de Lublin.

A partir de meados de julho de 1942, com cinturão de judeus na cidade de Jozefow perto Bilgoraj, membros do Batalhão de Polícia 101 foram utilizados para o tiroteio em massa de civis judeus em cidades em todo o distrito de Lublin. Estes incluem (para além de Jozefow) Lomazy (Agosto de 1942), Miedzyrzec (Agosto de 1942), Serokomla (Setembro de 1942), Kock (Setembro de 1942), Parczew (Outubro de 1942), Konskowola (Outubro de 1942), Miedzyrzec (uma segunda ação em outubro 1942) e Lukow (Novembro de 1942).

A participação de policiais do Batalhão 101 na Solução Final culminou no massacre na Erntefest [Festival da Colheita] de 3-4 de novembro de 1943. No curso desta ação de matar, talvez a maior dirigida contra os judeus de toda a guerra, cerca de 42.000 prisioneiros judeus no distrito de Lublin nos campos de concentração Majdanek, e Trawniki e Poniatowa foram aniquilados. Estima-se que durante o período entre julho de 1942 e novembro de 1943 , o Batalhão de Policia 101 era o único responsável pelas mortes por disparo de mais de 38 mil judeus e deportação de outros 45 mil.

Nos últimos 16 meses da guerra o Batalhão Polícial 101 foi envolvido em ações contra guerrilheiros e tropas inimigas. Quase todos os membros do batalhão sobreviveram ao colapso do Terceiro Reich e retornou com segurança para a Alemanha. No imediato pós-guerra apenas quatro membros da unidade sofreram as conseqüências legais de suas ações na Polônia. Estes policiais, que foram detidos por sua participação no assassinato de 78 poloneses na cidade de Talcyn, foram extraditados para a Polônia em 1947 e julgados no ano seguinte. Dois foram condenados à morte e dois à prisão. Não foi até 1962, no entanto, que Batalhão Reserva de Polícia 101 como um todo veio sob investigação e repressão legal pelo Gabinete do Procurador do Estado, em Hamburgo. Em 1967, 14 membros da unidade foram levados a julgamento. Embora a maioria foram condenados, apenas cinco receberam penas de prisão (variando de cinco a oito anos), que foram posteriormente reduzidas no curso de um processo de longa apelação.

Tradução: Daniel Moratori - avidanofront.blogspot.com

Fonte bibliografica: Browning, Christopher R., Ordinary Men: Reserve Police Battalion 101 and the Final Solution in Poland, New York, Harper Collins, 1992, pp.xv-xvii; 3-9; 38-71; 88-114; 133-146; 191-192.

Fonte original: http://digitalassets.ushmm.org/photoarchives/detail.aspx?id=1134228 (U.S. Holocaust Memorial Museum -USHMM)

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Amsterdã recompensará vítimas do nazismo multadas por não pagar impostos


Amsterdã estudará como recompensar os sobreviventes do Holocausto que foram multados por não terem pagado impostos durante o período em que estiveram ausentes em campos de concentração ou foragidos da perseguição nazista, publicou nesta quarta-feira o jornal holandês "Parool".

Dezenas de sobreviventes do Holocausto que conseguiram voltar à capital holandesa foram multadas pela falta de pagamento de uma taxa aplicada às propriedades (erfpacht) durante o período em que estiveram fora da cidade.

"Não podemos deixar isto como foi decidido na ocasião", afirmou o prefeito da cidade, Eberhard Van der Laan, que ressaltou: "Vamos ver como podemos corrigir o que deve ser corrigido".

Vários estudantes descobriram evidências destas práticas durante os trabalhos que realizavam para digitalizar o arquivo da Prefeitura de Amsterdã, o que levou às autoridades locais a considerar uma maneira de recompensar os afetados.

"Esta é uma situação séria que necessita ser examinada", declarou Van der Laan. "O aspecto legal (dos impostos) foi levado em conta com formalidade, burocracia e frieza ao invés de mostrar empatia em direção às vítimas".

Só 35 mil dos 140 mil judeus que viviam na Holanda no momento da explosão da Segunda Guerra Mundial sobreviveram ao conflito, sendo que das 107 mil pessoas que foram transferidas aos campos de concentração, 102 mil foram assassinadas, segundo Parool.

Um dos episódios mais conhecidos da invasão nazista da Holanda é o que relatou a jovem Anne Frank em seu diário durante os dois anos em que se manteve escondida em um apartamento de Amsterdã com sua família, até que foram descobertos e deportados para diferentes campos de concentração.

O diário, traduzido para 55 línguas, é um dos livros mais vendidos da história e se transformou em um testemunho real da perseguição sofrida pelos judeus pelo nazismo.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Novo estudo aponta para mais de 15 milhões de vítimas

Velas lembram das vítimas do Holocausto no Jewish Museum and Tolerance Center, em Moscovo, na Rússia
 Fotografia © Sergei Karpukhin - Reuters
Consulta de novos arquivos e uma busca meticulosa multiplicaram por três o impacto do nazismo durante a II Guerra Mundial.

Auschwitz e o Gueto de Varsóvia simbolizaram tanto o Holocausto que houve pouco esforço de memória coletiva para lembrar os milhares de locais onde o nazismo também levou a cabo os seus planos de morte. Os centros de extermínio em massa estão bem documentados, mas faltava uma observação mais atenta. Isso é o que está a fazer o Holocausto Memorial Museum de Washington através do projeto "Enciclopédia dos Campos e Guetos".

Segundo o jornal espanhol "ABC", o resultado, até agora, é um mapa de 42.500 campos de concentração, guetos, fábricas de trabalhos forçados e outros lugares de detenção distribuídos por toda a Europa, da França à Rússia. No total, entre 15 e 20 milhões de pessoas morreram ou estiveram detidas nesses centros, na sua maioria judeus, mas também integrantes de outros grupos perseguidos pelos nazis como ciganos ou homossexuais.

"Os números são mais altos do que se pensava de início. Já sabíamos que a vida era horrível nos campos e guetos, mas os números são absolutamente incríveis", afirma Hartmut Berghoff, diretor do German Historical Institute de Washington, onde um fórum acadêmico revelou as novas investigações avançadas pelo jornal norte-americano "The New York Times".

Os valores, fruto do trabalho de vários investigadores e obtidos a partir de testemunhos das vítimas, falam por si: 30.000 campos de trabalhos forçados, 1.1150 guetos de judeus, 980 campos de concentração, 500 bordéis de prostituição forçada e milhares de centros destinados à prática da eutanásia a pessoas dementes e a abortos forçados.

Os números têm diversas consequências. Uma é a constatação de que dificilmente a população alemã podia ignorar o que se estava a passar. Em Berlim, por exemplo, os investigadores documentaram cerca de 3.000 campos e "casas judias" onde se concentravam os prisioneiros antes da sua deportação para Leste. Segundo Martin Dean, editor do novo volume da Enciclopédia (o segundo de cinco volumes), "não se podia ir a nenhum lado na Alemanha sem nos depararmos com campos de trabalhos forçados, campos de prisioneiros de guerra ou campos de concentração. Estavam em todo o lado". Por isso, insiste,"não são sustentáveis as alegações de muitos alemães de que não tinham conhecimento do que se estava a passar com os seus vizinhos judeus".

Outra das consequências é que agora pode aumentar o número de famílias das vítimas a pedir indemnizações em tribunal. Até agora tinham existido processos judiciais contra grandes empresas que se aproveitaram da mão de obra escrava do Terceiro Reich, mas poucas vezes foi possível exigir indemnizações a empresários mais pequenos.

A investigação, para conseguir obter um mapa completo da geografia dos campos e guetos do nazismo teve um impulso decisivo com a abertura dos arquivos que pertenciam à antiga União Soviética. Segundo Martin Dean, "ao estarem disponíveis nas últimas décadas foram cruciais para identificar guetos em locais tão distantes como a Lituânia ou a Federação Russa, que apenas eram mencionados em documentação alemã".


Obs: Creio que agora vai haver uma histeria no meio "revisionista"/neonazista com os números. Como esse pessoal não lê o artigo e fica somente pelo titulo, não perceberão a parte "...entre 15 e 20 milhões de pessoas morreram ou estiveram detidas nesses centros..." . 
Mas sobre o artigo, depois da descoberta da quantidade maior de campos, guetos, bordeis e etc, e do consequente  conhecimento do povo alemão sobre o ocorrido, vou passar uma dica de livro:
  "Apoiando Hitler - Consentimento e coerção na Alemanha nazista - Robert Gellately"

Aproveitando, deem uma olhada no Holocaust Controversies que também saiu uma matéria muito interessante:
http://holocaustcontroversies.blogspot.com.br/2013/03/42500-camps-and-ghettos_11.html

quinta-feira, 14 de março de 2013

Livro Antony Beevor defende que II Guerra Mundial começou na Manchúria

Tropas mongóis lutam contra o contra-ataque japonês na praia ocidental do rio Khalkhin Gol, 1939.

O historiador britânico Antony Beevor defende no livro ‘A Segunda Guerra Mundial’, publicado em Portugal, que o conflito começou na Manchúria e que se transformou numa “guerra civil internacional”.


“A Segunda Guerra Mundial foi claramente uma amálgama de conflitos, a maioria opôs nação contra nação, mas a guerra civil internacional entre a esquerda e direita permeou e chegou mesmo a dominar muitos deles”, escreve Beevor na introdução sobre as razões que conduziram à guerra.

“A Europa não entrou em guerra a 1 de Setembro de 1939. Alguns historiadores falam de uma 'guerra de trinta anos, de 1914 a 1945', em que a Primeira Guerra Mundial funcionou como catástrofe original” refere Beevor, que defende que a longínqua batalha de Khalkhin Gol, entre russos e japoneses, que começou no dia 12 de maio de 1939 na fronteira entre a Mongólia e a Manchúria ocupada pelo Exército Imperial Japonês marca - de facto - o início do conflito e determina o curso da guerra, sobretudo no Extremo Oriente.

Na batalha, que se prolongou até ao dia 31 de agosto de 1939, as forças de Moscovo lideradas por Zukov, então comandante de cavalaria do Exército Vermelho, derrotou as tropas japonesas e, segundo Beevor, alterou as intenções de Tóquio em invadir a União Soviética “mudando para sempre” o curso da guerra.

“A Batalha de Khalkin Gol, teve, assim, grande influência na decisão subsequente de os japoneses avançarem contra as colónias da França, Holanda e Grã-Bretanha no Sudeste Asiático, e até de enfrentarem a marinha de guerra dos Estados Unidos no Pacífico.


A consequente recusa por parte de Tóquio em atacar a União Soviética no inverno de 1941 desempenharia, portanto, um papel crítico no ponto de viragem geopolítico da guerra, tanto no Extremo Oriente como na luta de vida ou morte que Hitler travou com a União Soviética”, escreve o historiador britânico.

No capítulo dedicado ao período entre Maio e Setembro de 1945 (‘As bombas atómicas e a subjugação do Japão’) o autor faz a contagem de vítimas, nomeadamente dos judeus vítimas do Holocausto mas também dos milhões de mortos na Ucrânia, Bielorrússia, Polónia, Estados Bálticos e Balcãs.

“A Segunda Guerra Mundial, com as suas ramificações globais, foi a maior catástrofe provocada pelo homem da nossa história. As estatísticas do número de mortos – quer sejam sessenta milhões ou setenta milhões – transcendem a nossa compreensão”, refere Beevor que adverte para os riscos de comparações (página 1020).

“Numa crise actual, jornalistas e políticos vão instintivamente buscar paralelismos com a Segunda Guerra Mundial, seja para dramatizar a gravidade da situação, seja numa tentativa de se parecerem com Roosevelt ou Churchill” escreve o historiador para quem a Segunda Guerra é incomparável.

Fonte: http://www.noticiasaominuto.com/cultura/53862/antony-beevor-defende-que-ii-guerra-mundial-come%C3%A7ou-na-manch%C3%BAria#.UUJy-hymhRI

Obs: Assunto antigo, mas interessante para quem ainda não conhece.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Herdeiros de Goebbels, ministro de Hitler, hoje são bilionários

O ministro da propaganda de Hitler, Paul Joseph Goebbels (à dir),com sua
esposa Magda e seus seis filhos; posicionado de uniforme, no centro
da imagem, Harald Quandt, filho do primeiro casamento de Magda.
 Uma investigação da Bloomberg mostrou que os "netos postiços" do ministro da propaganda de Adolf Hitler, Joseph Goebbels, atualmente possuem espólios bilionários.

A fortuna não veio de Goebbels, que foi o segundo marido da avó das crianças, Magda, mas do avô biológico, Guenther Quandt, dono de um império industrial que produziu armas e mísseis para o governo nazista.

 Segundo a reportagem, de 1940 a 1945, as fábricas de Quandt funcionaram com a mão de obra forçada de mais de 50 mil trabalhadores, como prisioneiros de guerra e de campos de concentração.

Após a guerra, Guenther Quandt foi julgado como um "Mitlaeufer", ou seja, um apoiador nazista que não estava formalmente envolvido nos crimes do regime.

Os filhos biológicos de Quandt, Herbert (que não era filho de Magda, mas do primeiro casamento de Guenther) e Harald, herdaram a fortuna do pai (morto em 1954), que tinha entre seus ativos a participação na manufatura alemã de carros Daimler. Mais tarde, eles compraram parte da BMW (Bayerische Motoren Werke).

A família de Herbert tornou-se a acionista majoritária da BMW após a década de 1960, quando ele evitou o colapso da empresa e investiu na criação de novos modelos. Já os descendentes de Harald tiveram uma participação menor nas ações da BMW, embora detenham hoje uma fortuna avaliada em ao menos 6 bilhões de dólares pela Bloomberg.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1226591-herdeiros-de-goebbels-ministro-de-hitler-hoje-sao-bilionarios.shtml

Relacionado: Hugo Boss lamenta uso de trabalhadores forçados durante o nazismo

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Ordem do führer sobre a administração das regiões do leste novamente ocupadas


17 de julho de 1941

Quartel general do führer

Para restabelecer a ordem publica e a vida nas regiões do leste novamente ocupadas, ordeno:

1. Depois de cessarem as operações militares nas regiões do Leste novamente ocupadas, a administração destas regiões passará das autoridades militares para autoridades civis. Por conseqüência, as regiões que devem passar para o controle das autoridades civis assim como a data desta transmissão de poderes serão fixadas por mim, caso por caso, por um decreto especial.

2. As autoridades civis nas regiões do Leste novamente ocupadas ficam subordinadas ao ministro do reich para territórios limítrofes do Reich ou do governo geral.

3. Os direitos soberanos e os plenos poderes das autoridades militares são assegurados nas regiões di Leste novamente ocupadas pelos comandantes das forças armadas com meu decreto de 25 de junho de 1941.

As questões de competência do delegado do plano quadrienal nas regiões do Leste novamente ocupadas foram reguladas pelo meu decreto de 29 de junho de 1941, e as questões de competência do chefe das tropas SS do Reich, chefe da policia alemã foram reguladas pelo meu decreto de 17 de julho de 1941, e as indicações que se seguem não lhes dizem respeito.

4. O reichsleiter Alfred Rosenberg é nomeado ministro do Reich para territórios ocupados do leste, com sede em Berlim.

5. As regiões do Leste novamente ocupadas subordinadas ao ministro do Reich para negócios dos territórios ocupados são divididas em comissariados do Império, que se subdividem em regiões gerais, subdivididas por sua vez em distritos. Vários distritos podem ser reunidos para formar um região principal. O ministro do Reich para negócios dos territórios ocupados do Leste estabelecerá estas disposições com maior detalhe.

6.À frente de cada comissariado do reich encontra-se um comissariado do Império, à frente de cada região geral um comissário geral e à frente de cada distrito um comissário de distrito. No caso de formação de uma região principal assumirá sua direção um comissário principal.
Os comissários do Reich e os comissários gerais são designados por mim, os chefes das seções principais das administrações subordinadas aos comissários do Reich assim como os comissários principais e os comissários de distrito são nomeados pelo ministro do Reich para negócios dos territórios ocupados do leste.

7. Os comissários do Reich estão subordinados ao ministro do Reich para negócios dos territórios ocupados do Leste e só dele devem receber diretrizes, exceto no que está previsto no parágrafo 3.

8. O ministro para negócios dos territórios  ocupados do leste está encarregado de promulgar leis para as regiões ocupadas do Leste que lhe estão subordinadas. Pode delegar os seus poderes de promulgação de eis nos comissários do Reich.

9. Toda a administração da região para questão de origem civil está subordinada aos comissários do Reich.As autoridades superiores competentes do Reich serão encarregadas de assegurar o funcionamento normal dos transportes e dos correios de acordo com as indicações do chefe do Estado-Maior geral das forças armadas durante as operações militares. Depois de acabadas  as operações militares poderão ser adotadas outras regras.

10. Para estabelecer uma ligação entre as medidas tomadas pelo ministro do Reich para os negócios das regiões  ocupadas do Leste ou pelos comissários do Reich nos territórios que  lhe estão subordinados, e o problema de interesses de Estado mais importantes, o ministro do Reich para os negócios das regiões ocupadas do Leste fica em contato estreito com as instancias superiores do Reich. Em caso de divergências de opiniões que não possam ser resolvidas por discussões diretas, é necessário que antes de se tomar uma decisão eu seja consultado por intermédio do ministro do Reich e chefe da Chancelaria.

11. As ordens necessárias apara realizar e completar o presente decreto serão dadas pelo ministro do Reich para os negócios das regiões ocupadas do Leste depois de consultados o ministro do Reich e chefe da Chancelaria e o chefe do Estado-Maior das forças armadas.

Führer
Adolf Hitler

Chefe do Estado-Maior Geral das Forças Armadas
Keitel

Ministro do Reich e Chefe da Chancelaria do Reich
Lammers

(O original alemão encontra-se nos Arquivos Centrais da URSS sobre a Revolução de Outubro, fundo 7021, registro 148, dossier 183, folhas 45-46.)

Transcrição: Daniel Moratori - avidanofront.blogspot.com
Fonte: COELHO, Zeferino - O crime metódico. Ed. Inova Limitada -pag. 29-32

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Extrato do processo verbal de uma reunião de Hitler com os dirigentes do Reich sobre os objetivos da guerra contra a União Soviética

Martin Bormann
16 de julho de 1941

(Secreto)

Quartel general do comandante chefe

Por ordem do führer realizou-se hoje às 15 horas uma reunião na sua residência com a participação do Reichsleiter Rosenberg, do ministro do Reich Lammers¹, do marechal Keitel, o marechal do Reich e eu próprio².

A reunião começou às 15 horas e prolongou-se até cerca das 20 com um intervalo para tomar café.

na sua declaração inicial, o führer sublinhou que queria apresentar algumas noções de principio. Na hora atual, são necessárias várias medidas. Testemunham-no os artigos de um jornal indiscreto de Vichy, segundo o qual a guerra contra a URSS seria a guerra da Europa. Assim, a guerra deve ser travada por assim dizer no interior de toda a Europa. Com esta posição o jornal de Vichy pretende talvez significar que os benefícios desta guerra não devem caber exclusivamente à Alemanha, mas a todos os Estados europeus.

Atualmente, importa que não revelemos publicamente os nossos objetivos, coisa que, além do mais, seria inútil. O essencial é que saibamos o que queremos. De modo algum devemos tornar mais difícil o nosso caminho com declarações supérfluas. Tais explicações são supérfluas porque só podem fazer o que estiver dentro das nossas possibilidades, e o que está para além das nossas forças escapa-nos.

Para o mundo,  a motivação das nossas ações devem fundamentar-se em razões táticas. Devemos agir neste caso do mesmo modo que na Noruega, na Dinamarca, na Holanda e na Bélgica. Em todos estes caos nada dissemos acerca dos nossos objetivos, e no futuro usaremos a mesma inteligência e continuaremos a não o fazer.

Portanto, sublinharemos novamente que fomos forçados a ocupar uma região, impor nela a ordem e estabelecer a segurança. Fomos obrigados, no interesse da população, a assegurar a tranqüilidade, os abastecimentos, o funcionamento dos meios de transporte, etc.. Nisso se baseia a possibilidade de uma anexação. Assim, não deve dar a entender que se trata de uma anexação definitiva. Contudo, apesar disso aplicamos e aplicaremos todas as medidas necessárias tais como deportações, execuções, etc..

Mas não queremos fazer de quem quer que seja nosso inimigo demasiado cedo. Por esta razão agiremos como se quiséssemos aplicar um mandato. Mas deve ser claro para nós que nunca mais abandonaremos estas regiões.

Partindo daqui, trata-se dos seguintes casos:
1. Nada construir para a anexação definitiva, mas tudo preparar em segredo para isso.
2. Sublinharemos que trazemos liberdade

Em particular:

A Crimeia deve ser libertada de todos os estrangeiros e povoada de alemães. Do mesmo modo a Galícia austríaca deve tornar-se uma província do Reich alemão.

Atualmente as nossas relações com a Romênia são boas, mas ninguém sabe no que se tornarão no futuro. Deve ter-se isto em conta e devem-se organizar em conseqüência as nossas fronteiras. Não podemos depender das boas intenções de terceiros estados. Devemos estabelecer as nossas relações com a Romênia partindo desse principio.

Em suma, trata-se de um grande bolo de que devemos tomar posse, dirigir e explorar.

Agora os russos deram ordem de criar a guerra de guerrilhas na retaguarda das nossas tropas. Esta guerra também traz vantagens: permite-nos destruir tudo o que se levante contra nós.

O essencial:

Nunca mais deve ser possível a criação de uma potencia militar a ocidente dos Urais, mesmo que para isso tenhamos que manter a guerra durante 100 anos. Todos os sucessores do führer devem saber que o Reich só se encontrará em segurança quando, a ocidente dos Urais, não haver tropas estrangeiras. A Alemanha encarrega-se de defender este espaço contra qualquer perigo eventual. deve adotar-se uma regra absoluta: "Nunca permitir alguém, exceto os alemães, use armas".

Isto é capital. Mesmo se, no futuro próximo, nos parece fácil convencer os povos estrangeiros dominados a dar-nos uma ajuda armada, agir assim seria um erro. Um belo dia tudo se voltará obrigatória e inevitavelmente contra nós. Só o alemão tem o direito de usar armas, e não um eslavo, um tcheco, um cossaco ou um ucraniano.

Em caso algum devemos praticar uma policia hesitante como antes de 1918 na Alsácia. O inglês distingue-se sempre porque segue continuamente uma única linha,  um único fim. Neste ponto de vista teremos obrigatoriamente de aprender com os ingleses. E por essa razão, não temos o direito de fazer depender as nossas relações de certas personalidades. devemos tomar como exemplo a atitude dos ingleses na Índia, em relação aos príncipes hindus: um soldado deve sempre defender o regime.

Devemos transformar as regiões do Leste novamente conquistadas num jardim paradisíaco. Tem pra nós uma importância vital. Comparadas com elas, as colônias tem um papel completamente secundário.

Mesmo nos caso sem que separemos certas regiões, devemos sempre apresentar-nos como defensores do direito e da população. É preciso escolher desde já as formulas necessárias. Não falaremos de uma nova região do Reich, mas de uma missão necessária decorrente da guerra.

Em particular: nos países bálticos, a região que se estende até ao Dvina, de acordo com o marechal Keitel, deve desde já ser colocada sob a nossa administração.

O Reichsleiter Rosenberg sublinha que, na sua opinião, em cada região(comissariado), a atitude para com a população deve ser diferente. Na Ucrânia, deveríamos fazer promessas no domínio da cultura, deveríamos despertar a consciência histórica dos ucranianos, abrir uma universidade em Kiev, etc..

O marechal do Reich opõe-se a esta ideia indicando que em primeiro lugar devemos assegurar o nosso abastecimento de viveres, e o resto virá mais tarde.

(Uma questão subsidiaria: haverá ainda em geral uma camada de intelectuais na Ucrânia, ou terão emigrado para fora da Rússia atual os ucranianos pertencentes às classes superiores?)

Rosenberg continua: na Ucrânia, devem igualmente ser devolvidas certas tendências autonomistas.

O marechal do reich pede ao führer que indique quais as regiões prometidas a outros Estados.

O führer responde que Antonesco quer obter a Bessarábia e Odessa com um corredor indo de Odessa para Oes-noroeste. Em resposta às objeções de Rosenberg e do marechal do Reich, o führer indica que a fronteira pedida por Antonesco ultrapassa um pouco a antiga fronteira romena. Sublinha que nenhuma promessa precisa foi feita aos húngaros, aos turcos e aos eslovacos.

O führer propõe que se examine se não se deve entregar imediatamente a parte austríaca da Galícia ao governo geral. Depois de uma troca de opiniões, o führer decide não transferir esta parte para o governo geral, mas subordiná-la ao ministro do Reich Frank(Lvov).

O marechal do Reich considera que se deve anexar à Prússia oriental diferentes partes dos países bálticos, por exemplo as florestas de Bialystok.

O führer sublinha que toda a região báltica se deve tornar uma região do Reich.

Do mesmo modo, a Crimeia com as regiões vizinhas(regiões situadas ao norte) deve fazer parte do Reich. Estas regiões devem ser tão grandes quanto possível.

Rosenberg exprime algumas dúvidas no que diz respeito aos ucranianos que lá habitam.

(De passagem: foi notado por varias vezes que Rosenberg presta muita atenção aos ucranianos. Ele pretende também aumentar consideravelmente a velha Ucrânia.)

O führer sublinha que a colônia situada na região do Volga deve formar uma região do Reich, como a região de Baku. Deve tornar-se uma concessão alemã(colônia militar).

Os finlandeses querem obter a Carélia do Leste. mas tendo em conta a rica produção de níquel, a península de Kola deve pertencer a Alemanha.

Com todas as precauções deve ser preparada a anexação da Finlândia como estado aliado. Os finlandeses querem a região de Leningrado. O führer quer arrasar Leningrado para em seguida a dar aos finlandeses...
O Reichsleiter Rosenberg levanta o problema da direção.

O führer dirige-se ao marechal do Reich e ao marechal dizendo que continuava a insistir na necessidade de dotar os regimentos da policia de carros de combate. Para utilizar a policia nas novas regiões do leste isto é muito importante pois, dispondo de um numero suficiente de carros, a policia poderá fazer muitas coisas. Aliás, sublinha o führer, as forças de segurança são muitos fracas. Mas o marechal do reich transferirá os seus aeródromos de treino para as novas regiões e, em caso de revolta, os aviões Ju-52 poderão efetuar bombardeamentos. O enorme espaço deve ser pacificado tão depressa quanto possível. O melhor meio de o conseguir é fuzilar quem quer que olhe de lado.

O marechal Keitel sublinha que se deve responsabilizar a população pelos seus próprios assuntos, visto que, naturalmente, é impossível colocar um guarda diante década barraca, em cada cais. Os habitantes devem saber que todo aquele que ficar inativo será fuzilado e que serão eles os responsáveis por todos os delitos.

A uma pergunta do reichsleiter Rosenberg o führer responde que é necessário restaurar a imprensa, por exemplo na Ucrânia, para poder agir sobre a população local...

O reichsleiter Rosenberg pede que seja posto à sua disposição um imóvel para os seus serviços. Pede o edifício da representação comercial soviética situado na Lietzenburgerstrasse. Contudo, o Ministério dos negócios Estrangeiros é de opinião que este edifício goza de extraterritorialidade. O führer responde que isso são futilidades. Fica encarregado o ministro do Reich, Dr. Lammers, de informar o Ministério dos negócios Estrangeiros que este edifício deve ser imediatamente posto á disposição de Rosenberg sem quaisquer conversações...

(O original alemão encontra-se nos Arquivos Centrais da URSS, fundo 7445, registro 2, dossier 162, folhas 433-443)

Transcrição: Daniel Moratori - avidanofront.blogspot.com
Fonte: COELHO, Zeferino - O crime metódico. Ed. Inova Limitada -pag. 22-28

1. Hans Lammers, chefe da chancelaria do Império; em 1949 foi condenado por crimes de guerra a 20 anos deprisão, mas foi libertado pelos americanos em 1951.
2. Trata-se de Bormann.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Extrato de uma declaração de N. Gorbatcheva sobre a execução de soviéticos em Babi-Yar pelos alemães


Babi Yar, Ucrânia, prisioneiros de guerra soviéticos na exumação de corpos de vítimas que foram assassinadas em outubro de 1941, fotografia de em 1943.
Kiev
28 de novembro  de 1943

 ...Durante a ocupação de Kiev pelos alemães, eu morava na rua Tiraspolskaia, nº 55, apartamento nº2.  A minha casa ficava perto de Babi-Yar.

Em 22 de Setembro de 1411 vi chegar durante o dia cerca de 10 caminhões carregados de judeus, homens, mulheres e crianças;  algumas mulheres traziam bebês ao colo.

Juntamente com várias mulheres minhas vizinhas aproximei-me sem ser notada pelo serviço de guarda alemão do local onde paravam os caminhões e onde desciam os prisioneiros. Vimos que a cerca de 15 metros de Babi-Yar os alemães obrigavam os judeus a despir-se e mandavam-os correr ao longo de uma vala, fuzilando-os com pistolas-metralhadoras.

Eu própria vi como os alemães lançavam as crianças na vala. Lá no fundo estavam não só fuzilados, mas também feridos entre os quais, crianças. Os alemães tapavam a vala, mas a fina camada de terra mexia com os movimentos dos que estavam vivos.

Muitas pessoas, pressentindo a sua morte, perdiam os sentidos, rasgavam as roupas e arrancavam os cabelos, lançavam-se aos pés dos soldados alemães, mas em resposta eram espancados.
O fuzilamento dos judeus durou vários dias.

Aconteceu encontrar-me junto do campo de prisioneiros de guerra de Syretz. Vi que os soldados e os oficiais do Exercito Vermelho presos não tinham roupa nem calçado, e que muitos homens estavam amarrados uns aos outros, a uma distancia que lhes permitisse trabalhar.

No inverno de 1942, não me recordo exatamente do mês, os soldados alemães levaram para Babi-Yar 65 marinheiros presos. Tinham as mãos e os pés amarrados e tal modo que tinham dificuldade em deslocar-se. Andavam completamente despidos e descalços na neve com um tempo muito frio.

Os habitantes atiraram para a coluna de prisioneiros camisas e botas, mas estes recusaram-nas, e lembro-me que um deles disse: "Morremos pela pátria". Depois desta declaração, começaram a cantar a Internacional, e os soldados alemães batiam-lhes com bastões. Via-se pelos bonés que eram marinheiros. Foram todos fuzilados.

No campo dos prisioneiros de guerra de Syretz, os alemães construíram um forno para queimar vivos os guerrilheiros, os comunistas e os militantes soviéticos.

Da janela do meu quarto, via os alemães a lançarem homens vivos no forno aceso e, por vezes, ouvia-se em minha casa os seus gritos aos serem queimados.

Na primavera de 1943 vi levarem para Babi-Yar 4 caminhões com civis. Segundo diziam os habitantes, estes homens foram trazidos de um local onde os alemães tinham prendido um guerrilheiro. Foram queimados no forno.

Uma vez vi uma mulher que, ao passar junto dos prisioneiros de guerra de Syretz, atirou por cima da cerca um pedaço de pão para os prisioneiros. As sentinelas fuzilaram-na ali mesmo.

No verão de 1943, na época do corte da madeira, vi os alemães obrigarem um prisioneiro a subir a uma arvore que os outros estavam a serrar. A arvore caiu e com ela o homem, que morreu.

Pela mesma altura vi os alemães obrigarem os prisioneiros a fazer ginástica, isto é,a rastejarem sobre o ventre numa extensão de 200 metros com as mãos atadas atrás do das costas. Se alguns dos homens se levantavam, os guardas os espancavam-nos.

No mesmo campo de Syretz, vi os alemães obrigarem um prisioneiro culpado a deitar-se de bruços com as mãos atadas atrás das costa, atiçando-lhe depois os cães. Estes mordiam no prisioneiro mas ele não podia resistir, de contrario o espancavam. Se o prisioneiro perdia os sentidos, obrigavam outros detidos a enterrá-lo vivo.

Gorbatcheva
(O original alemão encontra-se nos Arquivos centrais da U.R.S.S. sobre a Revolução de Outubro, fundo 7021, registro 65, dossier 6, folhas 11 e 12)

Transcrição: Daniel Moratori - avidanofront.blogspot.com
Fonte: COELHO, Zeferino - O crime metódico. Ed. Inova Limitada - pg.114-116

Nota adicional sobre a foto:
Durante julho de 1943, quando os soviéticos chegaram mais perto da cidade, duas unidades especiais  alemães foram formadas sob o nome de código 1005. Seu objetivo era cobrir os vestígios dos assassinatos em massa e eles supervisionaram prisioneiros de guerra que foram forçados a desenterrar os corpos nos locais do homicídio e queimá-los. 


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Os judeus de Varsóvia no entreguerras - Parte 2/3


Delegados de Wegrow, Grodno, e outras cidades marcham na convenção nacional de Tsukunft, o movimento juvenil  judeu socialista Bund (Varsóvia, 1931).
No período entre as duas guerras mundiais, os judeus poloneses, e especialmente os de Varsóvia, desempenharam um papel central na vida judaica em todo o mundo. Superada apenas por Nova Iorque, no que diz respeito à quantidade de judeus, Varsóvia continha uma vida judaica que era, ao mesmo tempo, tradicional e criativa, religiosamente conservadora e nacionalista. Apesar do intenso movimento na cultura polonesa, os judeus da Polônia se viam antes como parte do povo judeu disperso pelo mundo do que como parte integrante daquela sociedade.

De 1918 em diante, Varsóvia foi a capital de uma Polônia independente, abrangendo áreas que por mais de um século haviam sido ocupadas por potências estrangeiras decididas a solapar o nacionalismo polonês. Sob ocupação russa, Varsóvia tinha sido o alvo principal de uma política que visava a erradicar qualquer vestígio de nacionalismo polonês. Não obstante, e a despeito dos esforços russos, a geração mais jovem permaneceu politicamente orientada e nacionalista. Varsóvia foi também palco de impulso e desenvolvimento econômico. 

Assim como na Europa Ocidental, empreendedores judeus desempenharam um papel desbravador em bancos, ferrovias, finanças internacionais e novas indústrias. Famílias judaicas tiveram considerável participação no estabelecemento de uma economia capitalista e sua expansão por toda a Polônia. Muitos desses pioneiros econômicos eram rodeados de assistentes e agentes leais, que em sua maioria eram judeus. A semelhança dos judeus da "parte alta" da cidade de Nova Iorque, alguns membros dessas famílias de destaque se converteram ao cristianismo quando ainda jovens, enquanto outros, da segunda ou terceira geração, se assimilaram na aristocracia e burguesia polonesas. Outros permaneceram na comunidade judaica. 

O impacto desses indivíduos e famílias se estendeu ao desenvolvimento e progresso de instituições artísticas e culturais, jornalismo e editoras. Na filantropia, judeus contribuíram amplamente para a educação e a fundação de hospitais e instituições públicas de beneficência. Seus generosos donativos permitiram que judeus que pensavam da mesma maneira progredissem na sociedade polonesa, mas seu progresso, no entanto, freqüentemente atenuava seus vínculos, sua utilidade e sua lealdade para com a comunidade judaica. Ainda assim, quando essas famílias estavam em boa situação, seus membros contribuíam generosamente para as necessidades públicas da população polonesa em geral ou dos judeus. Alguns deles — mas de modo algum todos — também eram ativos em questões da comunidade judaica.

O crescimento de Varsóvia como comunidade judaica influente resultou da migração de judeus durante várias gerações. Em 1781, quando a Polônia estava prestes a perder sua independência, havia em Varsóvia 2.609 judeus. Em Praga, um subúrbio da cidade na margem oriental do rio Vístula, a comunidade judaica totalizava 24 indivíduos. No limiar do século XX, em 1897, esta mesma comunidade seria formada por cerca de 219.128 judeus. Ao irromper a Primeira Guerra Mundial, os judeus de Varsóvia constituíam 38% de toda a população da cidade, percentual esse que se tornaria ainda maior quando refugiados e pessoas deslocadas acorreram a Varsóvia durante a guerra. Na república independente da Polônia dos anos de entreguerras, o número de judeus vivendo em Varsóvia cresceu em termos globais, mas declinou em termos relativos. Em 1921, a comunidade judaica abrangia 310.300 pessoas, ou seja, 33% dos 936.700 habitantes de Varsóvia. Em 1939, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, havia em Varsóvia uns 375 mil judeus, e eles compunham 29,1% dos 1.289.000 habitantes da cidade.

Os números por si só não refletem a importância da comunidade judaica de Varsóvia no entreguerras. A Varsóvia judaica não possuía a tradição e a distinção que caracterizavam outras comunidades judaicas da Polônia, tais como Cracóvia, Lublin e Lvov, onde judeus haviam vivido por gerações. Varsóvia não tinha prédios antigos e nem a aura de gloriosas lembranças, vestígios de um passado influente não havia sinagogas antigas como a de Cracóvia; nenhuma que tivesse sido lar de eruditos mundialmente famosos. No cemitério judeu de Varsóvia, a lápide mais velha datava de 1807. Havia, não obstante, amplas oportunidades de recém-chegados causarem impacto, e tinha-se a sensação de uma comunidade que ia adquirindo personalidade própria. As fachadas relativamente novas de Varsóvia e o seu rápido crescimento eram fontes de receptividade. Habitantes novos e visitantes casuais podiam se sentir bem-vindos. A mudança social predominava sobre a estabilidade.

Devido, em parte, à rejeição pela sociedade polonesa desses assimilacionistas em potencial, idéias que vinham do leste — regiões da Rússia e Lituânia, onde a cultura nacionalista judaica já havia adquirido variadas formas de organização e maturidade ideológica — iam ganhando influência cada vez maior na comunidade dos judeus de Varsóvia. A vida judaica caracterizava-se por um grande número de partidos políticos, instituições parcialmente coincidentes, debates públicos violentos e rixas particulares. 

Três movimentos judaicos politicamente realistas e perspicazes emergiram às vésperas da independência da Polônia: o sionismo, com suas várias orientações; o Bund e suas organizações; e o Agudath Israel, que unia elementos ortodoxos, hassídicos e mitnaged (opositores ortodoxos do hassidismo) do judaísmo polonês. Todos os três movimentos viam os judeus como uma nação distinta, separada dos poloneses, muito embora suas definições divergentes sobre o que constituía uma nação distinta levassem por vezes os três grupos a uma amarga rivalidade.

O movimento sionista na Polônia adotou dois princípios fundamentais: o reestabelecimento de judeus na Palestina e os direitos fundamentais de judeus vivendo na Diáspora. Os sionistas acreditavam que um renascimento nacional na Palestina também teria de prover os judeus na Diáspora, fora da Palestina, durante sua aparentemente longa estada na Europa, com o sentido da unidade nacional. Na Polônia, o sionismo empreendeu no âmbito da sociedade judaica em Diáspora uma intensa atividade como "trabalho para o presente", tendo como meta futura a colonização na Palestina (muito embora no período de entreguerras o Hechalutz e outros movimentos juvenis sionistas estivessem ativamente engajados em incentivar a imigração na Palestina como uma "atividade dos dias de hoje"). O hebraico foi ressuscitado como língua viva, mas o ídiche continuou sendo a língua de trabalho do movimento. 

O Bund, a Federação Geral de Trabalhadores Judeus dedicada ao nacionalismo judeu laico, usava o ídiche tanto para organizar estes trabalhadores numa estrutura separada quanto para disseminar a idéia do socialismo entre os seus falantes. O Bund não tardou a advogar direitos nacionais baseados em autonomia nacional e cultural: o direito do indivíduo, ou grupo de indivíduos, de conservar, num Estado especificamente socialista, uma língua, cultura e vida social separadas. 

O Bund trabalhava em escala nacional por toda a Polônia, e suas principais conexões eram freqüentemente baseadas em classe. Assim, preferia trabalhar Com partidos socialistas locais não judeus do que com organizações judaicas burguesas. Ao mesmo tempo, muitos judeus poloneses convergiam para um partido socialista separado, não com base internacional e sim, nacional judaica Esse fenômeno era desconhecido na Europa Ocidental, tuas tornou-se um movimento de força considerável e de impressionantes realizações na Polônia do entreguerras.


Reunião ao ar livre da Organização da Juventude bundista,Varsóvia, junho de 1932.
O Agudath Israel - o partido ortodoxo que incluía grandes grupos hassídicos — adotou certos aspectos de organização política moderna semelhantes aos de outros partidos políticos, não obstante sua vinculação à tradição e sua meticulosa observância das normas judaicas. Esses aspectos incluíam representação em instituições de governo e limitadas reformas no sistema educacional. O Agudath Israel possuía uma imprensa, líderes políti-cos e um sistema de patronagem próprios. Os judeus ortodoxos, em sua maioria, rejeitavam o sionismo porque este buscava o retorno dos judeus à sua terra através de esforço humano, e não por decreto divino. O Agudath Israel, quietista em sua orientação religiosa, só acreditava no renascimento da nação judaica como um ato divino.

 Apenas um pequeno grupo desproporcionalmente influente de judeus religiosos, organizados no movimento Mizrachi, punha-se ao lado dos sionistas laicos. Advogavam o sionismo e eram opostos ao Agudath Israel, e também se opunham aos sionistas laicos, com os quais, entretanto, trabalhavam de perto e cooperativamente, buscando estabelecer um caráter religioso e cultural nos esforços sionistas.

 Os princípios orientadores da ideologia política adotada pelos judeus poloneses no período de entreguerras admitiam que o judaísmo era não só uma religião definida por seus rituais, crenças e práticas, mas também que os judeus constituíam uma entidade nacional, buscando política, educação e cultura nacionalistas.

Em Varsóvia, localizavam-se sedes de partidos políticos, representantes e instituições estatais; o centro administrativo de organizações de beneficência e auto-ajuda; o eixo de vários tipos de redes educacionais e culturais, grupos de escritores, e admiradores das línguas ídiche e hebraica. Jornais e livros eram, em sua maioria, publicados em Varsóvia, para serem distribuídos através da Polônia e enviados para o exterior. 

Poder treinar para as profissões liberais era uma atração que levou muitos estudantes judeus de Varsóvia e de outras partes do país a estudar em escolas de ensino superior. Em alguns anos, os judeus, inclusive muitas mulheres, constituíam uma substancial percentagem dos formados de todas as escolas secundárias e universidades. Diplomados judeus procuravam as universidades para poder continuar seus estudos de medicina, farmácia, direito, humanidades, química, língua e literatura polonesas. Mas o percentual de judeus na educação anos de superior entrou em constante declínio no período entreguerras. Nos 1921-22, judeus formavam 24,6% de todos os estudantes; em 1925-26, 20,7%; em 1934-35, 14,9%; e em 1937-38, 9,9%.

Nos últimos anos de independência polonesa anteriores à Segunda Guerra Mundial, o número de estudantes judeus preencheu o limite estabelecido por quotas, uma política nunca formalmente autorizada mas executada na prática. Levando em conta que a percentagem de estudantes de áreas urbanas era bem maior que a de estudantes de distritos de províncias, parecia que o número de estudantes judeus decrescia conforme a camada da população a que pertenciam.

 Estudantes judeus organizaram sua própria associação e fundaram a Casa dos Acadêmicos, um pensionato para trezentos estudantes e uma sala de reuniões para muitos outros. De 1928 até irromper a guerra, o historiador judeu e líder sionista Yitzhak Schiper foi seu último diretor. Instituição abrangente de estudantes judeus e organizações judaicas, cuidava não só da defesa de estudantes atacados por grupos malévolos de jovens poloneses, mas também da promoção de atividades culturais e eventos esportivos.

Em todos os níveis, até mesmo nas escolas independentes, os estudos eram feitos na língua polonesa. Alguns erroneamente consideram esse extenso uso do polonês, especialmente como idioma cotidiano dos jovens, como indício de uma assimilação que se espalhava entre os judeus em geral e particularmente entre os de Varsóvia. A assimilação, porém, não atraía os judeus. Ao contrário, ela estava em declínio na Polônia de entreguerras. Judeus falavam polonês e eram ávidos leitores de literatura polonesa e de autores poloneses, que freqüentemente retratavam judeus de maneira muito positiva. Muitos jovens também apoiaram a luta da Polônia pela independência. Ao mesmo tempo, no entanto, estavam conscientes do seu judaísmo, filiavam-se a organizações judaicas, e pensavam em termos do futuro judaico. Diferentemente de muitos judeus alemães, que se consideravam alemães, os judeus poloneses absorviam a cultura polonesa mas não se assimilavam nela. Em sua maior parte, a assimilação de judeus de fala Polonesa não era mais comum do que a assimilação dos hassídicos falantes de inglês do Brooklyn.

 A contribuição dos judeus e daqueles de origem judaica à literatura polonesa, particularmente à poesia, no período de entreguerras foi característica. Ao contrário dos romancistas judeus americanos no período pós-Segunda Guerra Mundial, tais como Saul Bellow, Philip Roth e Bernard Malamud, poucos dos principais escritores de origem judaica tratavam de temas judaicos, e alguns até s  converteram ao cristianismo. Mas mesmo aqueles que usavam temas judaicos retratavam judeus como figuras fora do seu próprio mundo espiritual. 

A despeito da instabilidade política e da debilidade econômica, a cultura judaica em Varsóvia possuía uma vitalidade única. Varsóvia era o maior e mais importante centro de atividades criativas e culturais tanto em hebraico quanto em ídiche. O hebraico, a língua sagrada, lembrava os dias em que os judeus estavam cm seu próprio país, o tempo da maior criatividade do povo judeu. Era a língua do Livro e de oração — mas o hebraico se tornara uma obscurecida lembrança nas mentes e línguas dos judeus. O renascimento do hebraico: Diáspora, no século XIX, foi acompanhado por tentativas de renovar a língua na literatura e em periódicos. Embora popular nos círculos intelectuais, não cativou as massas para se tornar uma língua do povo. Só quando o hebraico foi adotado pelo movimento sionista e se tornou parte essencial do renascimento nacional e social, transformou-se de um símbolo em uma língua viva. Os sionistas foram os principais advogados da língua hebraica. Em contraste, o Bund se opunha ao hebraico, e certos elementos do Agudath Israel eram contrários à laicização da língua sacra.

 Na Diáspora, especialmente na Polônia, o ídiche continuou sendo a língua do povo. No entreguerras as línguas judaicas floresceram na Polônia, Varsóvia em particular, mesmo quando estavam sendo abandonadas na União Soviética e no Ocidente. Fora dos círculos de imigrantes nos Estados Unidos, o uso das línguas diminuiu. Na última década do século XIX, o ídiche atingiu a maturidade e, no século XX, literatura, jornais e outras publicações se desenvolveram cultural e comercialmente.

Os escritores e poetas, jornalistas e editores de Varsóvia não eram, em sua maioria, naturais da cidade, e sim a ela atraídos de distantes distritos do leste, da Lituânia e das pequenas cidades provinciais da Polônia. O crescimento e a consolidação de Varsóvia como um eixo cultural deveu-se não só ao fato de sediar a maior população judaica urbana da Europa, mas também às suas estimulantes tendências social-nacionalistas e seus mutáveis estilos de vida.

Na Polônia independente havia uma abundância de diários e semanários judeus, a maioria em ídiche, mas alguns em polonês e hebraico. Em acréscimo à imprensa comercial, também eram publicados jornais diários de partidos. Nos anos que precederam de pouco a Segunda Guerra Mundial havia em toda a Polônia, de acordo com o YIVO(1), 230 jornais em ídiche, incluindo 27 diários, 100 semanários, 24 publicações quinzenais e 58 periódicos mensais. Tais números, evidentemente, incluíam publicações de vida curta assim como per-manentes. A maior parte dos jornais principais apareciam em Varsóvia, onde editoras também encontravam mercados para obras originais de conhecidos escritores ídiches, bem como de traduções de ficção e não-ficção.

Mais que qualquer outro meio criativo, o teatro judeu falava às massas, e suas produções despertavam emoções intensas entre devotados freqüentadores. Historiadores do teatro creditam a Abraham Goldfaden a paternidade do teatro judeu, com sua criação de uma companhia em lasi, na Roménia, em 1874. Em 1885, quando Varsóvia se encontrava na esfera russa, Goldfaden levou seu teatro judeu alemão à Varsóvia e ali atuou por dois anos (a produção de Shulamith foi recebida com muito entusiasmo). A cidade recebeu também ocasionais apresentações de trupes de atores que interpretavam num dialeto alemão semelhante ao ídiche, já que peças em ídiche eram proibidas. O teatro judaico tinha de enfrentar não só as restrições impostas pelas autoridades russas como também tabus internos da comunidade em relação à língua, temas para espetáculos teatrais e o recato.

 Judeus inclinados à assimilação consideravam o teatro judaico um retrocesso, que distanciava os freqüentadores de teatro judeu do teatro de arte polonês. Na realidade, fontes históricas assinalam que o desenvolvimento da música e do teatro em Varsóvia no século XIX devia muito ao patrocínio de judeus ricos e a públicos judeus.

 Em 1905, a fundação da Companhia Literária trouxe aos judeus de Varsóvia um teatro ídiche permanente oficialmente sancionado. A companhia valia-se principalmente das obras dramáticas de Jacob Gordin e das interpretações de vários atores e atrizes excepcionais, entre eles a brilhante Esther Rachel Kaminska, que encantou e fascinou públicos judeus na Polônia, Rússia e Estados Unidos. Segundo conhecedores de teatro, esta atriz era especialista em retratar as personalidades e as vidas das heroínas de um modo que deixava o público encantado. As peças eram, em geral, lacrimejantes dramalhões, sobrecarregados de instrução moralista. Era um estilo que interessava um público confiante de que seu destino estava em grande parte sob seu próprio controle.

Muitos escritores, especialmente I. L. Peretz, mostraram um acentuado interesse no desenvolvimento do teatro ídiche. Formou-se unia sociedade para estimular o teatro, e levantaram-se fundos para dar apoio a teatro de alto nível artístico, com Peretz e Sholem Asch ativos na coleta de fundos. Embora nem sempre seus esforços fossem bem-sucedidos, o teatro manteve uma reputação de qualidade através da apresentação de obras de autores bem conhecidos.

O teatro ídiche de Varsóvia eram famoso pelo seu público entusiasta. Atores e companhias itinerantes, dos Estados Unidos e outros países, eram visitantes freqüentes. Em 1917, a trupe de Vilna visitou Varsóvia, introduzindo um nível mais alto de espetáculo teatral com seu tratamento moderno do drama ídiche. A trupe obteve grande sucesso em Varsóvia, e alguns dos seus membros lã permaneceram para estabelecer o que se tornou o mais destacado teatro da cidade no período de entreguerras.


A influencia dos judeus de Varsóvia, no período entre as guerras, também aumentou em decorrência da ruptura e declínio de status sentido pelos judeus sob o regime bolchevista na U.R.S.S., e do honor que despencou sobre os judeus da Alemanha com a ascensão do nazismo em 1933. Na Europa, o período de entreguerras começou com grandes esperanças e expectativas geradas pela legitimação da autodeterminação nacional e pelo reconhecimento dos direitos de minorias nacionais prometido pelo presidente Woodrow Wilson, e pela promessa proclamada na Declaração Balfour de 1917, que afirmava: "O governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento de um lar nacional judeu na Palestina".

Porém, quanto maiores às esperanças, tanto maiores as decepções. Essa época viu a escalada do nacionalismo agressivo, o crescimento do totalitarismo e a predominância de um não contido racismo anti-semita. Nessas duas décadas de ingênuas expectativas e esperanças de curta duração tornou-se Varsóvia, com sua diversificada composição e seus contrastes, o foco de uma ilimitada e ampla atividade judaica. Naqueles dias de confusão à beira do abismo, ela foi virtual-mente a capital do povo judeu, especialmente devido ao isolamento e à desconexão dos judeus soviéticos.

 Muitos — talvez a maioria — dos economistas, líderes políticos, escritores, artistas, jornalistas, editores, historiadores, líderes, rabinos, eruditos talmúdicos e hassidim que alcançaram proeminência em Varsóvia no entreguerras não eram naturais da cidade, mas haviam chegado lá em resposta à sua atração magnética e a seu ambiente promissor, da mesma maneira como outros judeus eram atraídos a Paris ou a Nova Iorque. Muitos judeus chegaram a Varsóvia vindos das províncias, e muitos outros da fronteira oriental da Polônia e de partes da Rússia e Lituânia. Judeus que chegavam de cidades do leste encontravam forte oposição de círculos poloneses, que encaravam a chegada dos "Litvaks" (judeus lituanos) como uma invasão de estranhos que espalhavam o uso da língua e cultura russas e eram responsáveis pela "russificação" dos judeus locais, assim como os judeus de Nova Iorque deploravam a chegada de imigrantes europeu-orientais, falantes de ídiche entre 1881 e 1920. Considerável critica dos "Litvaks" também provinha de membros mais estabelecidos da comunidade, que ridicularizavam dialeto ídiche dos recém-chegados. Varsóvia, no entanto, servia não só de refúgio para proscritos como dava também aos que chegavam às suas portas a sensação de lar, provendo-os de amplas oportunidades para participar da vida cultural e comunitária. Pessoas comuns, vagueando em direção a Varsóvia ou que escapavam para a cidade vindos de longe, aclimatavam-se rapidamente aos costumes da cidade e da comunidade judaica local, tornando-se, sob todos os aspectos, verdadeiros cidadãos de Varsóvia.


Em sua saga A Família Moskat, Isaac Bashevis Singer revelou os pensamentos de um rabino de cidadezinha que veio a Varsóvia:
Rabi Dan Katzenellenbogen compreendeu agora o significado completo da frase talmúdica "Em cidades grandes a vida é difícil", mas Varsóvia tinha outros méritos. Aqui encontrou livros que não podia encontrar em sua cidadezinha de Binuv, ou mesmo em Lublin. A cidade era um lugar de estudo: onde quer que fosse, havia sinagogas, casas de estudo, shtieblach, banhos rituais. Coletores faziam as rondas e recolhiam as taxas semanais para ieshivot. Dos héders e escolas religiosas ouve-se a voz de escolares, por cuja própria vida o mundo existe. É verdade que aqui há também muitas coisas profanas, coisas modernas: homens de barba raspada, mulheres que conservam seu cabelo natural, estudantes que estudam nos gymnasia, toda espécie de sionistas, grevistas e simples ralé, que abandonaram seu judaísmo. Mas Rabi Dan não levou isso em conta. Gradativamente foi se tornando conhecido pelos eruditos de Varsóvia e eles vieram lhe dar as boas-vindas. Em sua própria cidadezinha, Rabi Dan não recebia um décimo do respeito que recebeu aqui, na estranha Varsóvia: aconteceu exatamente como estava escrito: "Sai da tua terra ... e te engrandecerei o nome."
A oportunidade de ingressar na vida judaica não se restringia apenas aos judeus religiosos. Um destacado membro do Bund socialista, Bernard Goldstein, pinta outra espécie de quadro, ao retornar a Varsóvia de suas viagens para o leste ao fim da Primeira Guerra Mundial:
Atraído ao vasto público dos adeptos do Bund ... fui ao "Clube" ... Era como uma colméia. Já anoitecia, e o clube estava apinhado. Estavam por toda parte, e em todos os cantos. Em todas as salas havia reuniões, o coro estava ensaiando, a sala de leitura, cheia de gente; mal se podia passar pelos corredores. Diversas pessoas me olhavam. Reconheci velhos amigos do trabalho clandestino e amigos novos, jovens, rostos irreconhecíveis ... uma das minhas primeiras tarefas foi ajudar a greve de funcionários da comunidade judaica e professores de suas escolas. Já tinham uma organização profissional, mas eram típicos trabalhadores de colarinho branco ("proletariado dos punhos engomados", como eram chamados) e completamente incapazes de conduzir uma greve.
 Nos subúrbios de Varsóvia, bairros e ruas inteiras eram habitados principal-mente por judeus, com maior concentração no setor norte da cidade. Em certas ruas, todos os prédios eram ocupados por judeus, excetuando o zelador. Judeus laicos e religiosos viviam lado a lado como vizinhos, freqüentemente pertencendo à mesma família. Em muitas famílias, o pai cumpria os preceitos religiosos e seguia todas as regras tradicionais de vestuário. A mãe usava peruca e fastidiosamente mantinha sua cozinha pura de acordo com a dietética judaica. Alguns adolescentes seguiam os passos dos seus pais, mas outros, que tinham "errado o caminho", tornavam-se sionistas, socialistas e até comunistas. Jovens devoravam avidamente ficção, livros teóricos, periódicos e jornais proibidos, fumavam no shabat e enchiam seus lares com intermináveis e ruidosas discussões políticas.

 A vida religiosa dos judeus de Varsóvia expressava-se no seu estilo de vida no lar, no cumprimento dos mandamentos, nas muitas instituições e serviços, tais como banhos rituais, os preceitos dietéticos judaicos, a rede de rabinos e dayans (juízes) e as muitas casas de orações. Nas sinagogas e shtiebels, os judeus religiosos e tradicionais se reuniam para rezar nos feriados religiosos, no shabat e dias úteis, e para intermináveis horas de estudo e discussão com amigos. Nos anos 30, havia trezentas dessas casas de oração, e quase todos que lá iam tinham um lugar cativo. Nos feriados, especialmente Rosh Hashaná e Yom Kipur, o estilo do culto era considerado muito importante e cantores com voz proeminente eram muito solicitados. A grande sinagoga da rua Tlomacka, que na realidade evoluía para tornar-se um dos mais esclarecidos locais de culto, atraía devotos tendentes à assimilação. Introduziram-se certas reformas, tais como proferir sermões em polonês, quando isso foi permitido pelo governo.

 As classes instruídas e os assimilacionistas estavam convictos de que, para terem qualquer influência, teriam de introduzir mudanças no sistema educacional, no traje e no estilo de vida, mas deveriam a todo custo abster-se de interferir no rigoroso ritual religioso. Assim, não estavam dispostos a instituir um judaísmo "reformista" ou "conservador", e a vida religiosa permaneceu ortodoxa. Mesmo nas sinagogas mais esclarecidas não foram introduzidos órgãos nos serviços religiosos, já que isso era considerado não-tradicional. Por outro lado, porém, serviços que incluíam um coro masculino foram considerados inteira-mente aceitáveis, e um componente importante do serviço era obviamente a música litúrgica vocal do cantor de sinagoga. Na grande sinagoga, oficiavam freqüentemente cantores bem conhecidos, como Gershon Sirota, que morreu no gueto de Varsóvia, e Moshe Kossovicki.

Os shtiebels hassídicos, além de serem casas de oração e estudo, eram também usados como alojamentos para os seguidores do rabino hassídico. As rezas no shtiebel eram altamente emocionais. Lá era palco de deliberações sobre literatura hassídica, homilias proferidas em dias  (Shavuot), e espontâneas cantorias e danças. Dentre as seitas hassídicas de Varsóvia, o grupo mais poderoso era o dos hassidim de Ger. A sede rabínica ficava na cidadezinha de Ger, não longe de Varsóvia. O local inteiro vivia sob o patrocínio da corte do rabino, e acorriam ao lugar milhares dos seus seguidores, especialmente em dias festivos e feriados. O Admor(2) de Ger, Rabi Abraham Mordecai Alter, afirmava que, a fim de combater a secularização e erosão da integridade religiosa dos judeus, era necessário mover-se em novas direções. A fundação do Agudath Israel e o papel dominante exercido pelo Admor e seus seguidores marcaram realmente a adoção de métodos até então desconhecidos por um campo religioso ortodoxo. Entre os rabinos hassídicos sediados em Varsóvia figurava Klonimus-Kalmish Schapira de Piaseczno, que deixou uma coleção dos seus sermões dos dias de gueto, publicada sob o título Fogo Sagrado.

Transcrição: Daniel Moratori - avidanofront.blogspot.com 
Fonte: GUTMAN, Israel - Resistência. Ed. Imago, 1995, pg 37-47


(1) YIVO — em idiche, Yídisher Visenshoftlihher Institui (Instituto para Pesquisa Judaica), fundado oit Vilna, em 1925, para o estudo científico da vida judaica e com especial ênfase nos judeus cai: Europa Oriental e seus descendentes falantes de idiche em todo o mundo. Ao irromper a Segunda Guerra Mundial, sua sede foi transferida para Nova Iorque (N. do T.).



(2) Admor (iniciais das palavras hebraicas Adonenu Morenu ve-Rabbenu, ou seja [não literalmente] “Nosso Mestre e Senhor") — titulo em geral dado, especialmente em contextos hebraicos, a rabinos hassídicos (N. do T).  

Ver também:
Os judeus de Varsóvia no entreguerras - Parte 1/3
A extensa discriminação aos judeus orientais(Ostjuden) pelos judeus-alemães - Link

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