terça-feira, 22 de dezembro de 2009

As áreas dos Einsatzgruppe A, B e C







Soldados de unidade não identificada de Einsatzgruppe olham através das possessões dos judeus massacrados em Babi Yar, URSS, 29 setembro a 1 Outubro, 1941.


A área de Einsatzgruppe C

Como seu colega na Rússia central, Erich von dem Bach-Zelewski, cabeça local das polícias e SS no sul da Rússia, Friedrich Jeckeln, era o homem responsável para a transição do terror à exterminação na área de Einsatzgruppe C.
Ali também, as tropas SS começaram a realizar Grossaktionen no curso do verão e do outono de 1941. Até então no massacre o mais sangrento - na cidade de Kamenetsk-Podolsk - 23.600 Judeus (homens, mulheres e crianças) foram assassinados no curso de três dias em agosto. Os membros de Einsatzgruppe C não fizeram a matança, que foi realizada por algumas unidades SS especiais sob o sentido pessoal de Friedrich Jeckeln. Estas unidades a tempo foram desdobradas para suportar o Einsatzgruppen.
Os alemães mesmos foram surpreendidos em como era fácil era realizar tais massacres, porque não havia nenhuma resistência pela parte dos judeus.Uma coisa totalmente inimaginavel como eles simplesmente morriam sem oferecer nenhuma resistencia.
Começar, setembro 1941 unidades do Einsatzgruppe C e próprias de Friedrich Jeckeln avançaram em Ucrânia. Isto conduziu a ainda mais massacres. O mais notorious - talvez um dos únicos eventos e os mais infamo da segunda guerra mundial - era a execução de mais de 33.000 Judeus de Kiev,cidade importante de Ucrânia, na ravina de Babi Yar 29-30 em novembro 1941.



Dois soldados do Einsatzgruppen em Wschodzie, 1941.

A área de Einsatzgruppe B

De outubro 1941 Einsatzgruppe B realizou execuções dos judeus não obstante o sexo e a idade.O deputado na Rússia central, Erich von dem Bach-Zelewski de Heinrich Himmler, era o homem atrás destes massacres em sua capacidade da cabeça local das polícias e dos SS. Inicía Grossaktionen so-called (operações em grande escala), onde todos os judeus em uma determinada cidade ou a área eram postos para fora - deixando trabalhadores valiosos.

Entre o Grossaktionen o mais importante era:

1- O liquidação do gueto judeu na cidade de Borissow -20-21 outubro 1941:
6,500 judeus foram assassinados.

2- “A operação especial” na cidade de Bobnisk no fim de novembro e o começo de dezembro 1941:
5,281 judeus foram assassinados.

3- O liquidação do gueto na cidade de Vitebsk em dezembro de 1941:
4,900 foram assassinados.

4- A execução maciça “para partisans de ajuda” em Gomel em dezembro 1941:
2,365 pessoas foram assassinadas.

Cada vez mais, o Einsatzgruppen recebeu a sustentação das polícias ordinárias, a administração civil alemã, e das tropas auxiliares locais.


Erich von dem Bach-Zelewski



Einsatzgruppen, executando judeus em um modo que era comum, enfileirados em frente a uma MG ou a um grupo de soldados,caindo diretamente numa vala profunda.O proximo grupo que seria executado seguia a mesma rotina,sendo que quando já mortos dentro da vala , um corpo se mantinha alinhado com o de cima,para caber mais pessoas.na foto tem uma peculiaridade,porque nos proximos anos os judeus eram fuzilados nús. Foto supostamente tirada em Wermachtu, 1939.


A area do Einsatzgruppe A

Nesta área - os estados de Báltico - a transição do terror à exterminação aconteceu cedo.Começando pelo fim de julho 1941, os Nazis começaram a assassinar mulheres e crianças Judias. O Commando 3 do Einsatzgruppe A era particularmente ativo: era responsável pelo assassinato de 40.000 judeus no mês de agosto sozinho.
Assim, em setembro/outubro 1941 a liquidação dos guetos recentemente estabelecidos na área Báltico foi começado. Em novembro, entre 10.000 judeuss foram mortos em Riga.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Irena Sendler




Nascimento: 15 de fevereiro de 1910, Varsóvia, Congresso da Polónia, Império Russo
Morte: 12 de maio de 2008 (98 anos), Varsóvia, Polónia
Nacionalidade: Polaca
Ocupação: Ativista dos Direitos Humanos, enfermeira e assistente social

Irena Sendler (em polaco Irena Sendlerowa née Krzyżanowska; (15 de fevereiro de 1910 - 12 de maio de 2008), também conhecida como "o anjo do Gueto de Varsóvia," foi uma activista dos direitos humanos durante a Segunda Guerra Mundial, tendo contribuido para salvar mais de 2.500 vidas ao levar alimentos, roupas e medicamentos às pessoas barricadas no gueto, com risco da própria vida.

A Mãe das crianças do Holocausto

"A razão pela qual resgatei as crianças tem origem no meu lar, na minha infância. Fui educada na crença de que uma pessoa necessitada deve ser ajudada com o coração, sem importar a sua religião ou nacionalidade. - Irena Sendler"

Quando a Alemanha Nazi invadiu o país em 1939, Irena era enfermeira no Departamento de bem estar social de Varsóvia, que organizava os espaços de refeição comunitários da cidade. Ali trabalhou incansavelmente para aliviar o sofrimento de milhares de pessoas, tanto judias como católicas. Graças a ela, esses locais não só proporcionavam comida para órfãos, anciãos e pobres como lhes entregavam roupas, medicamentos e dinheiro.
Em 1942, os nazis criaram um gueto em Varsóvia, e Irena, horrorizada pelas condições em que ali se sobrevivia, uniu-se ao Conselho para a Ajuda aos Judeus, Zegota. Ela mesma contou:
"Consegui, para mim e minha companheira Irena Schultz, identificações do gabinete sanitário, entre cujas tarefas estava a luta contra as doenças contagiosas. Mais tarde tive êxito ao conseguir passes para outras colaboradoras. Como os alemães invasores tinham medo de que ocorresse uma epidemia de tifo, permitiam que os polacos controlassem o recinto."





Crianças subnutridas no gueto de Vársovia.



Quando Irena caminhava pelas ruas do gueto, levava uma braçadeira com a estrela de David, como sinal de solidariedade e para não chamar a atenção sobre si própria. Pôs-se rapidamente em contacto com famílias, a quem propôs levar os seus filhos para fora do gueto, mas não lhes podia dar garantias de êxito. Eram momentos extremamente difíceis, quando devia convencer os pais a que lhe entregassem os seus filhos e eles lhe perguntavam:

"Podes prometer-me que o meu filho viverá?". Disse Irena, "Que podia prometer, quando nem sequer sabia se conseguiriam sair do gueto?" A única certeza era a de que as crianças morreriam se permanecessem lá. Muitas mães e avós eram reticentes na entrega das crianças, algo absolutamente compreensível, mas que viria a se tornar fatal para elas. Algumas vezes, quando Irena ou as suas companheiras voltavam a visitar as famílias para tentar fazê-las mudar de opinião, verificavam que todos tinham sido levados para os campos da morte.


Ao longo de um ano e meio, até à evacuação do gueto no Verão de 1942, conseguiu resgatar mais de 2.500 crianças por várias vias: começou a recolhê-las em ambulâncias como vítimas de tifo, mas logo se valia de todo o tipo de subterfúgios que servissem para os esconder: sacos, cestos de lixo, caixas de ferramentas, carregamentos de mercadorias, sacas de batatas, caixões... nas suas mãos qualquer elemento transformava-se numa via de fuga.



Irene em Varsóvia, 2005


Irena vivia os tempos da guerra pensando nos tempos de paz e por isso não fica satisfeita só por manter com vida as crianças. Queria que um dia pudessem recuperar os seus verdadeiros nomes, a sua identidade, as suas histórias pessoais e as suas famílias. Concebeu então um arquivo no qual registava os nomes e dados das crianças e as suas novas identidades.

Os nazis souberam dessas actividades e em 20 de Outubro de 1943; Irena Sendler foi presa pela Gestapo e levada para a infame prisão de Pawiak onde foi brutalmente torturada. Num colchão de palha encontrou uma pequena estampa de Jesus Misericordioso com a inscrição: “Jesus, em Vós confio”, e conservou-a consigo até 1979, quando a ofereceu ao Papa João Paulo II.

Ela, a única que sabia os nomes e moradas das famílias que albergavam crianças judias, suportou a tortura e negou-se a trair seus colaboradores ou as crianças ocultas. Quebraram-lhe os ossos dos pés e das pernas, mas não conseguiram quebrar a sua determinação. Foi condenada à morte. Enquanto esperava pela execução, um soldado alemão levou-a para um "interrogatório adicional". Ao sair, gritou-lhe em polaco "Corra!". No dia seguinte Irena encontrou o seu nome na lista de polacos executados. Os membros da Żegota tinham conseguido deter a execução de Irena subornando os alemães, e Irena continuou a trabalhar com uma identidade falsa.

Em 1944, durante o Levantamento de Varsóvia, colocou as suas listas em dois frascos de vidro e enterrou-os no jardim de uma vizinha para se assegurar de que chegariam às mãos indicadas se ela morresse. Ao acabar a guerra, Irena desenterrou-os e entregou as notas ao doutor Adolfo Berman, o primeiro presidente do comité de salvação dos judeus sobreviventes. Lamentavelmente, a maior parte das famílias das crianças tinha sido morta nos campos de extermínio nazis.

De início, as crianças que não tinham família adoptiva foram cuidadas em diferentes orfanatos e, pouco a pouco, foram enviadas para a Palestina.

As crianças só conheciam Irena pelo seu nome de código "Jolanta". Mas anos depois, quando a sua fotografia saiu num jornal depois de ser premiada pelas suas acções humanitárias durante a guerra, um homem chamou-a por telefone e disse-lhe: "Lembro-me da sua cara. Foi você quem me tirou do gueto." E assim começou a receber muitas chamadas e reconhecimentos públicos.
Em 1965, a organização Yad Vashem de Jerusalém outorgou-lhe o título de Justa entre as Nações e nomeou-a cidadã honorária de Israel.

Em Novembro de 2003 o presidente da República Aleksander Kwaśniewski, concedeu-lhe a mais alta distinção civil da Polónia: a Ordem da Águia Branca. Irena foi acompanhada pelos seus familiares e por Elżbieta Ficowska, uma das crianças que salvou, que recordava como "a menina da colher de prata".

Proposta para o Nobel da Paz
Irena Sendler foi apresentada como candidata para o prémio Nobel da Paz pelo Governo da Polónia. Esta iniciativa pertenceu ao presidente Lech Kaczyński e contou com o apoio oficial do Estado de Israel através do primeiro-ministro Ehud Olmert, e da Organização de Sobreviventes do Holocausto residentes em Israel.

As autoridades de Oświęcim (Auschwitz) expressaram o seu apoio a esta candidatura, já que consideraram que Irena Sendler era uma dos últimos heróis vivos da sua geração, e que tinha demonstrado uma força, uma convicção e um valor extraordinários frente a um mal de uma natureza extraordinária.
O prémio, no entanto, foi dado a Al Gore pelo slide show sobre o clima global.
Árvore plantada no Yad Vashen em homenagem a Irena Sendler.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O bordel do campo de concentração: o trabalho forçado sexual em campos



Os prostíbulos dos campos de concentração continuam sendo um capítulo resguardado dos horrores da era nazista. Agora, um pesquisador alemão estudou o assunto sombrio e revelou a crueldade meticulosa dos assim chamados "alojamentos especiais".

Chutando-as de botas, o soldado da SS tirou Margarete W. e outras prisioneiras do trem e levou-as para um caminhão. "Levantem a lona. Todo mundo para dentro", gritou. Pela janela de plástico da lateral da lona ela observou quando entraram em um campo masculino e pararam na frente de um dormitório com uma cerca de madeira.

As mulheres foram levadas para uma sala mobiliada. O alojamento era diferente daqueles que Margarete W., então com 25 anos, conhecia de seu tempo no campo de concentração feminino de Ravensbrück. Havia mesas, cadeiras, bancos, janelas e até cortinas. A supervisora informou às recém-chegadas que agora estavam em um "bordel de prisioneiros". Elas viveriam bem ali, disse a mulher, com boa comida e bebida e, se fossem obedientes, nada aconteceria elas. Então, cada mulher foi enviada a um quarto. Margaret mudou-se para o número 13.

O bordel de prisioneiras do campo de concentração de Buchenwald começou a operar no dia 11 de junho de 1943. Foi o quarto de um total de 10, chamados "alojamentos especiais" erguidos em campos de concentração entre 1942 e 1945, a partir de instruções de Heinrich Himmler, diretor da SS. Ele implementou um esquema de recompensas nos campos, pelo qual as "realizações particulares" dos prisioneiros lhes garantiam menor carga de trabalho, alimento extra ou bônus financeiros.

Himmler também considerou benéfico "fornecer aos prisioneiros trabalhadores mulheres em prostíbulos", como escreveu no dia 23 de março de 1942 para Oswald Pohl, oficial da SS encarregado dos campos de concentração. A visão cínica de Himmler era que as visitas aos bordéis aumentariam a produtividade dos trabalhadores forçados nas fábricas de munição e pedreiras.

"Especialmente pérfido"

Ainda é um aspecto menos conhecido do terror nazista que Sachsenhausen, Dachau e até Auschwitz incluíam bordéis e que prisioneiras de campo de concentração foram forçadas à prostituição. O acadêmico de Berlim Robert Sommer, 34, estudou arquivos e memoriais de campos de concentração no mundo todo e fez diversas entrevistas com testemunhas históricas nos últimos nove anos. Seu estudo, que será publicado neste mês, fornece a primeira pesquisa ampla e científica desta "forma especialmente pérfida de violência nos campos de concentração". Sua pesquisa serviu de base para a mostra viajante "Bordéis de campos - o sexo forçado nos campos de concentração nazistas", que viajará por diversos memoriais no ano que vem.

Sommer fornece inúmeras evidências para combater a lenda que os nazistas proibiam resolutamente e lutaram contra a prostituição. De fato, o regime tinha uma fiscalização total da prostituição, tanto na Alemanha quanto nos territórios ocupados -especialmente depois do início da guerra. A rede ampla de bordéis controlados pelo Estado cobriu metade da Europa, e consistia de "bordéis civis e militares assim como os de trabalhadores forçados e ao mesmo tempo eram parte dos campos de concentração", segundo Sommer.

A combatente da resistência austríaca Antônia Bruha, que sobreviveu ao campo de Ravensbrück, informou anos atrás que: "As mais bonitas iam para o bordel da SS, as menos bonitas para o dos soldados".

O resto terminava no bordel do campo de concentração. No campo de Mauthausen, na Áustria, nos dez pequenos quartos do "Alojamento 1", o primeiro bordel de campo começou suas operações com janelas fechadas em junho de 1942. Naquela altura, havia cerca de 5.500 prisioneiros do campo de trabalho forçado de Mauthausen, quebrando granito para as construções nazistas. No final de 1944, mais de 70.000 trabalhadores forçados moravam no complexo do campo.

A SS tinha recrutado dez mulheres para Mauthausen, seguindo as instruções da agência de segurança do governo para erguer bordéis nos campos de trabalho forçado. Isso significava entre 300 a 500 homens por prostituta.

Cerca de 200 mulheres compartilharam o destino dos prisioneiros de Mauthausen nos bordéis do campo. Prisioneiras saudáveis e de boa aparência de 17 e 35 atraíam atenção dos recrutadores da SS. Mais de 60% delas eram alemãs, mas polonesas, soviéticas e uma holandesa foram transferidas para "a força-tarefa especial". Os nazistas não permitiam mulheres judias por razões de "higiene racial". Primeiro, as mulheres eram enviadas para o hospital do campo, onde recebiam injeções de cálcio, banhos desinfetantes, alimentos e um banho de luz.

De 300 a 500 homens por prostituta

Perto de 70% das trabalhadoras forçadas à prostituição tinham sido presas originalmente por serem "antissociais". Nos campos, as mulheres eram marcadas com um triângulo preto. Dentre elas, havia ex-prostitutas, cuja presença supostamente garantia a administração "profissional" dos bordéis dos campos, especialmente no início. Era muito fácil para uma mulher ser considerada "antissocial", bastava, por exemplo, não cumprir as instruções de trabalho.

Até que ponto as mulheres se voluntariaram para essas "forças-tarefas especiais" não se sabe. Robert Sommer cita a combatente da resistência espanhola Lola Casadell, que foi levada a Ravensbrück em 1944. Ela disse que a diretora do seu alojamento ameaçou: "Quem quiser ir para um prostíbulo deve ir para o meu quarto. Advirto, se não houver voluntárias, vamos pegar vocês à força."

O testemunho de Antonia Bruha, forçada a trabalhar na área do hospital do campo de concentração, lembra de mulheres "que vieram voluntariamente, porque foram informadas que depois seriam liberadas". Essa promessa foi rejeitada por Himmler, que reclamou que "alguns lunáticos no campo de concentração feminino, ao selecionarem as prostitutas para os bordéis, disseram às prisioneiras que aquelas que se voluntariassem seriam liberadas depois de seis meses."

A última esperança de sobrevivência

Para muitas das mulheres vivendo sob ameaça de morte, contudo, servir em um bordel era a última esperança de sobrevivência. "A principal coisa era escapar do inferno de Bergen-Belsen e Ravensbrüc", disse Lieselotte B., prisioneira do campo de Mittlebau-Dora. "A principal coisa era sobreviver". A sugestão de que faziam isso "voluntariamente" é uma das razões "pelas quais as mulheres dos bordéis são estigmatizadas até hoje", explicou Insa Eschebach, diretora do memorial de Ravensbrück.

Mantendo a hierarquia nazista racista nos campos, a princípio, apenas alemães podiam visitar o bordel, depois os estrangeiros também foram incluídos. Os judeus eram estritamente proibidos. Recebiam esses bônus os capatazes, diretores de alojamento e outros ocupantes proeminentes do campo. Primeiro, eles tinham que ter o dinheiro para adquirir um bilhete, que custava 2 marcos. Vinte cigarros na cantina, enquanto isso, custavam 3 marcos.

As visitas aos bordéis eram reguladas pela SS, assim como as horas de funcionamento. Em Buchenwald, por exemplo, o serviço ficava aberto de 7 às 22h. Ele permanecia fechado na falta de água ou luz, em ataques aéreos ou durante a transmissão dos discursos de Hitler. Edgar Kupfer-Koberwitz, prisioneiro em Dachau, descreveu o sistema em um diário do campo de concentração: "Você espera no salão. Um soldado registra o nome e o número do prisioneiro. Depois, chamam o um número e o nome do prisioneiro em questão. Aí você corre até o quarto com aquele número. Cada visita é um número diferente. Você tem 15 minutos, exatamente quinze minutos."

A privacidade era um conceito estranho aos campos de concentração, inclusive nos bordéis. As portas tinham janelas, e um soldado da SS patrulhava o salão. Os prisioneiros tinham que tirar os sapatos e não podiam falar além do necessário. A única posição sexual permitida era a de missionário.

Freqüentemente, o encontro nem chegava à penetração. Alguns homens não tinham mais força física para isso e, de acordo com Sommer, "alguns tinham mais necessidade de conversar com uma mulher novamente ou sentir a sua presença".

A SS tinha muito medo de espalhar doenças sexualmente transmissíveis. Os homens recebiam unguentos desinfetantes nos hospitais antes de cada visita ao bordel, e os médicos tiravam amostras das mulheres para testar gonorréia e sífilis.

A contracepção, por outro lado, era um aspecto que a SS deixava para as mulheres. Entretanto, raramente engravidavam, já que muitas mulheres tinham sido esterilizadas à força antes de serem presas e outras tinham se tornado inférteis com o sofrimento nos campos. No evento de um "acidente ocupacional", a SS simplesmente substituía mulher e a enviava para um aborto.

Aquelas que aguentavam a dureza da vida num bordel tinham mais chances de escapar da morte e, de acordo com a pesquisa de Sommer, quase todas as mulheres na prostituição forçada sobreviveram ao regime de terror nazista. Pouco se sabe o que aconteceu com elas ou se jamais conseguiram se recuperar da experiência traumática. A maior parte delas manteve silêncio sobre seu fardo pelo resto de suas vidas.

O livro de Robert Sommer, "The concentration camp Bordello: Sexual Forced Labor in National Socialistic concentration camps" (o bordel do campo de concentração: o trabalho forçado sexual em campos de concentração), será publicado em alemão pela Schöningh Verlag, Paderborn.
Tradução: Deborah Weinberg

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Massacre da Floresta de Katyn



Massacre em Katyn
O episódio conhecido por Massacre da Floresta de Katyn foi noticiado pela primeira vez pelos alemães em abril de 1.943. Numa colina coberta de abetos dominando o Rio Dnieper, perto de Smolensk, na Rússia, soldados nazistas tinham encontrado os cadáveres de vários milhares de oficiais empilhados em valas comuns. Os russos revidaram imediatamente acusando os nazistas da autoria do crime. Eis a versão russa : Quando os exércitos vermelhos se retiraram de Smolensk, em julho de 1.941, tiveram de deixar para trás os oficiais poloneses prisioneiros. Os nazistas fuzilaram os poloneses, forjando então a história de Katyn com fins de propaganda.

Durante o período de coridialidade ocidental-soviética do pós-guerra, a versão russa foi aceita como autêntica. Todavia, alguns membros do Congresso Norte-Americano, instalados por um grupo chefiado pelo ex-Embaixador Americano na Polônia, Arthur Bliss Lane, tentaram, com insistência, investigar novamente o caso de Katyn e em 1.951 foi instituída no Congresso uma comissão especial de inquérito para examinar todos os indícios existentes. Entre as famosas atrocidades da História, destaca-se o Massacre de Katyn pela dúvida que reinou durante longo tempo quanto aos seus verdadeiros autores. Hoje, porém, existem provas suficientes para se chegar a uma conclusão.

Para a Polônia, o Massacre de Katyn foi uma catástrofe nacional. Cerca de um terço da oficialidade do Exército Polonês de antes da guerra, tanto da ativa como da reserva, desapareceu na Rússia. Os poloneses não podiam deixar de interessar-se profundamente em descobrir o que acontecera aos seus oficiais desaparecidos, e empenharam-se numa ampla investigação, cujos resultados foram publicados no decorrer de 1.951/52 em três livros de autores poloneses diretamente interessados. A história de Katyn começa com o aprisionamento de grande parte do Exército Polonês em setembro de 1.939 pelas forças soviéticas que invadiram a Polônia pelo leste, dezessete dias depois de os alemães a terem invadido pelo oeste. Quase todos os prisioneiros oficiais, aproximadamente nove mil, certo número de graduados, a gendarmaria e guardas de fronteira, perfazendo o total de 15 mil homens, foram internados em três campos, em Kozielsk, Starobielsk e Ostashkov. Aí foram submetidos a longos interrogatórios sobre suas opiniões políticas e atividades políticas anteriores. Em abril de 1.940, cerca de 400 oficiais, considerados amigos, foram conduzidos a um campo em Pavlishchev Bor. Os restantes tiveram destino ignorado.

Em outubro de 1.940, as tropas alemãs entraram na România e o governo soviético compreendeu então, pela primeira vez, que Hitler poderia, a despeito do pacto nazi-soviético, avançar sobre a Ucrânia. Três semanas depois, um oficial polonês pró-soviéticos, o Tenente Coronel Berling, foi convidado, juntamente com dois outros, a entrevistar-se com os chefes da NKVD, Beria e Merkulov, em Moscou. Perguntaram-lhes se queriam ajudar na organização de unidades militares polonesas que seriam, possivelmente, empregadas contra os alemães. Berling concordou e sugeriu que os oficiais poloneses desaparecidos fossem incluídos no plano, ao que Beria repospondeu : "Não, esses não. Comentemos um grave erro com eles". A enigmática observação, repetida por Berling, deu muito que pensar aos demais prisioneiros poloneses.

Quando Hitler lançou suas tropas contra a Rússia, a U.R.S.S. concordou em conceder "anistia" a todos os prisioneiros poloneses e permitiu que o governo polonês em Londres formasse com eles um exército. Imediatamente, afluíram poloneses de todas as partes da União Soviética para alistar-se, mas quase não havia ex-oficiais entre eles. Afirmavam as autoridades soviéticas que todos os prisioneiros poloneses tinham sido libertados e que desconheciam o paradeiro de cada um individualmente. Quando, após vários meses, nem um só polonês dos que haviam sido internados em Kozielsk, Starobielsk ou Ostashkov (excetuando-se os 400 levados para Pavlishchev Bor) compareceu aos centros de recrutamento, as autoridades militares polonesas ficaram inquietas. Através da organização subterrânea souberam que as famílias dos desaparecidos não recebiam cartas deles desde maio de 1.940. Em dezembro de 1.941, o Primeiro-Ministro polonês, General Sikorski, levou o assunto diretamente a Stalin. Stalin aventou, apenas, que os prisioneiros desaparecidos poderiam ter escapado para a Mandchúria - o que implicava em terem sido levados para a Sibéria. Um inquérito que durou ano e meio, no qual estavam representados também os embaixadores inglês e norte-americano em Moscou, não revelou o menor indício dos oficiais.

Os chefes poloneses chegaram à conclusão de que as autoridades soviéticas estavam mentindo, que os prisioneiros não mais viviam. Ao anunciarem, em abril de 1.943, o descobrimento dos cadáveres na floresta de Katyn, os alemães declararam que os oficiais poloneses tinham sido vítimas de um massacre russo e convidaram a Cruz Vermelha Internacional a investigar. O governo soviético não só se recusou a permitir tal investigação, mas ainda rompeu relações diplomáticas com o governo polonês por não ter imediatamente repelido as alegações alemãs. Ao mesmo tempo deu a conhecer nova versão sobre o destino dos oficiais : Haviam sido aprisionados pelos alemães durante a sua invasão, em julho de 1.941. Se essa versão é verdadeira, os chefes soviéticos deviam estar sabendo o que ocorrera durante todo o tempo em que foram alvo de perguntas a respeito. Por que não disseram que os prisioneiros poloneses, juntamente com centenas de milhares de soldados russos, haviam caído em mãos dos alemães ? Se os russos eram inocentes, não havia motivo para não o admitirem; Mas, se eram culpados, havia forte razão para não contarem tal história. Enquanto afirmaram não saber onde estavam os oficiais poloneses, ninguém podia provar que eles tinham morrido. Agora, porém, os corpos tinham sido encontrados.

Depois que ocuparam novamente a área de Katyn, em setembro de 1.943, os russos designaram uma "Comissão Especial para Investigar e Comprovar os Fatos Relacionados com o Fuzilamento de Oficiais Poloneses pelos Agressores Fascistas Alemães na Floresta de Katyn". Essa comissão compunha-se inteiramente de cidadãos soviéticos. Seu relatório declarou que os alemães, tendo assassinado os prisioneiros poloneses no outono de 1.941, deliberaram acusar os russos da autoria do crime, e para isso, em março de 1.943 - um mês antes de anunciar a descoberta das sepulturas - desenterraram todos os corpos, tiraram todos os documentos com datas posteriores a abril de 1.940 e tornaram a enterrá-los. Antes de se retirarem de Katyn, os alemães permitiram à Cruz Vermelha Polonesa exumar e examinar os cadáveres. A Cruz Vermelha Polonesa não fez nenhuma declaração pública e não podia, por isso, ser acusada de ajudar a propaganda anti-soviética alemã. Contudo, seu relatório completo das provas foi enviado ao governo polonês em Londres pelo serviço subterrâneo. Os indícios encontrados nos cadáveres consistiam no seguinte : 3.300 cartas e cartões-postais, nenhum com data ou carimbo ulterior a abril de 1.940; Certo número de diários, todos terminando em abril ou na primeira semana de maio de 1.940 (um deles descrevendo, como última ocorrência registrada, a viagem, sob escolta da NKVD, para a floresta de Katyn); Centenas de jornais e recortes de jornais, todos datados de março ou abril de 1.940. O relatório da comissão soviética não dá a entender que a Cruz Vermelha Polonesa estivesse mentindo, mas sim que os alemães removeram toda a documentação com data posterior a abril de 1.940, enganando assim os ivestigadores. Este é o nó de toda a história. Joseph Mackiewicz, que visitou Katyn com a Cruz Vermelha Polonesa, não tem dificuldade em refutar a explicação soviética. Em primeiro lugar, escreve ele, não era apenas uma questão de remover papéis, mas também de substituí-los por outros, de reescrever e forjar detalhes em diários e especialmente de obeter ou reproduzir o necessário número de jornais russos da primavera de 1.940.

Mesmo, porém, que tivesse sido levada a cabo toda essa fraude, o processo de colocar falsos documentos nos cadáveres era tecnicamente impossível. "Estando tudo impregnado de repugnante e pegajoso líquido dos cadáveres", escreve Mackiewicz, "era impossível desabotoar os bolsos ou tirar as botas. Foi necessário cortá-los à faca para achar os objetos pessoais (...) Nenhuma técnica permitiria passar revista àqueles bolsos, tirar alguns objetos e por outros em seu lugar, depois abotoar os uniformes e empilhar os corpos novamente, camada sobre camada (...)". Seria evidentemente impossível ocultar os vestígios da fraude. Redundaria em certa autodenúncia para os alemães apresentarem sermelhante trabalho aos peritos imparciais da Cruz Vermelha Internacional. Devemos, pois, concluir que a exumação e nova inumação efetuadas, segundo os russos, em março de 1.943, nunca tiveram lugar, e que as datas dos documentos encontrados nos cadáveres indicam a data do massacre. E, se sabemos quando foi praticado, sabemos também quem o praticou, a própria Rússia. Mais uma vez os russos mataram e mentiram, mas aqueles corpos não apenas jazem na Floresta de Katyn, jazem também na consciência de cada cidadão soviético.


\ Memorial aos mortos em Katyn

domingo, 2 de agosto de 2009

Ação de soldados da FEB II


A têmpera do verdadeiro combatente

Soldado João Martins da Silva - do 1º RI , natural do Estado do Rio de Janeiro.

"Durante o bombardeio de seu posto em Belavista, foi atingido por três estilhaços de granada. Assim ferido , deixou-se fica no mesmo lugar, sem uma queixa sequer. E ali permaneceu cerca de oito horas. Sabedor dos fato pelos companheiros do soldado ferido, o Comandante do pelotão determinou sua evacuação. No Posto de Socorro, interrogado pelo médico porque resolverá calar sobre seu estado de saúde, respondeu-lhe simplesmente que, ciente que os alemães iriam lançar contra-ataques, decidira não se afastar do posto para ajudar a repeli-los, uma vez que o Pelotão se encontrava desfalcado e ainda se sentia forte. Possuía realmente o soldado Martins a têmpera do verdadeiro combatente. O seu exemplo, pela sua grandeza e pelo estoicismo, envaidece a tropa brasileira."

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Fugindo do depósito

Um fato bastante curioso, por exemplo, era a fuga de soldados do Depósito de Pessoal para as unidades em linha. Isso se passava da seguinte maneira. Todo soldado que, por qualquer motivo baixasse ao hospital, ao ter alta não regressava à unidade, mesmo porque sua vaga já havia sido preenchida por outro elemento.
Os militares ao sairem dos hospital, iam para o Depósito de Pessoal, em Staffoli, onde aguardava sua vez. Pois bem, quase diariamente, soldados nessas condições, abandonando a segurança e o conforto do Depósito, que ficava bem à retaguarda, apanhavam a primeira condução que fosse para o "front" e iam juntar-se aos seus companheiros, que andavam metidos em "foxholes", ao sabor das balas inimigas.
Isto era uma indisciplina, atrapalhava o sistema de recomplemento adotado pelo Estado Maior, mas era sobretudo uma prova de destemor, de apego ao seu batalhão, de solidariedade com seus camaradas.
Foram homens dessa têmpera, que depois de feridos continuavam a lutar com mais denodo e, depois de exaustos, ainda faziam um derradeiro esforço, até serem ceifados pela morte; cuja serenidade e sangue frio não perturbavam diante dos estrondos do canhoneiro; homens que disputavam um lugar na vanguarda e partiam satisfeitos para desafiar o inimigo em suas tocas; foram homens dessa fibra que dobraram a resistência alemã e contribuíram de modo decisivo para a conquista da vitória aliada.
Se numa guerra são indispensáveis os recursos materiais, entretanto é inegável que o elemento humano continua a ser o fator predominante. A mecanização dos meios de combate não chegou ainda a prescindir das qualidades morais do homem. A metralhadora mais moderna de nada vale se não tiver um pulso para manejá-la e um vontade para dirigi-la após os grandes bombardeios de aviação e de artilharia, são ainda a coragem e a tenacidade que vencem no terreno. E felizmente essas qualidades morais não faltaram aos nossos homens, como vimos nas citações acima.
O Brasil pode orgulhar-se dos filhos que o representaram no grande conflito mundial, lutando nos campos de batalha europeus. Eles se mostraram dignos herdeiros de seu passado militar e acrescentaram novas glórias à História de nossa Pátria.

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Conduta dos brasileiros no "front" italiano

Até mesmo chefes alemães atestaram, no pós-guerra, a excepcional conduta dos brasileiros no "front" italiano.
Um deles foi o Coronel Rudolf Bohmler, veterano de várias batalhas, participante inclusive da Batalha de Stalingrado e da demorada e sangrenta batalha de Monte Castello. Em seu livro, assim ele se referiu aos soldados brasileiros:
"Sabe-se que não é fácil, para uma tropa não acostumada ao combate, ter de lutar contra veteranos experientes, como os das divisões e regimentos alemães na Itália. O soldado brasileiro, no entanto, mostrou extrema boa vontade e satisfação, demonstrando, juntamente com os seus oficiais, um grande desejo de lutar".

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Citação do Capitão de Infantaria ERNANI AIROSA DA SILVA, da Força Expedicionária Brasileira.

Por serviço meritório em combate, em 19 de setembro de 1944 e 30 de outubro de 1944 na Itália. Em 19 de setembro, durante o ataque e ocupação da cidade de Camaiore, Itália, o Capitão SILVA comandou uma fôrça composta de um pelotão de sua Companhia, um pelotão de carros e um pelotão de reconhecimento. Com completo desprezo pela sua segurança pessoal, o Capitão SIVA comandou suas forças através intenso fogo inimigo de artilharia, morteiros e armas portáteis, destruiu a oposição inimiga e tomou seu objetivo. Em 30 de outubro, durante o ataque a Lama e Lama di Sotto, Itália, o Capitão SILVA ocultou o fato de estar ferido a fim de permanecer no comando de sua companhia e manter-se na posição até receber ordem de retrair do comandante de Regimento. O Capitão SILVA pela sua bravura, comando exemplar e devotamento ao dever, merece um elevado louvor e está de acordo com as altas tradições dos exércitos aliados. Entrou para o serviço militar no Rio de Janeiro, Brasil. ( a ) MARK W. CLARK, Tenente General do Exército dos Estados Unidos, Comandante.
( " A Epopéia dos Apeninos" - JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS - Gráfica Laemmert, Limitada - Rio )

Ação de soldados da FEB I



Ferido em Monte Castelo - FEB

Soldado Vessio Manelli - da 3ª Cia do 1º RI , natural de Sorocaba - São Paulo.

"Fui ferido no primeiro ataque ao Monte Castello, no dia 29 de novembro de 1944. À uma hora da madrugada entramos em posição de base do morro. Recebi ordem para cavar, onde passei a noite. À medida que cavava, o chão ia juntando água, de modo que dormi as poucas horas dentro d'água, enrolado na manta.
Ao raiar do dia foi servida uma ração K e ás sete horas da manhã recebemos ordem de avançar pelas encostas do morro, em terreno descoberto. Choviam granadas e projéteis por todos os lados. Fui ferido logo no começo, primeiro nas costas, quando tentava cavar um abrigo. Foi quando uma rajada de metralhadora me atingiu de novo, dois projeteis, um na coxa outro no flanco, perfurando-me o abdômen.
Não podendo mais me locomover, virei-me para o lado dos alemães e fiquei protegendo a cabeça com o capacete de aço. Recebi outra bala bem no meio do tórax, que moeu minha placa de identidade. Fiquei ali ao alcance do tiros do inimigos durante todo dia. Ao escurecer cessou o fogo e um padioleiro veio a meu socorro e me fez um curativo.
Só ás onze da noite é que veio uma equipe de padioleiros para me transportar para as posições da Cia e dali em um JEEP para o posto de socorro do batalhão.
Colocaram um aparelho de ferro na coxa esquerda e me levaram para o hospital de Valdibura, depois Pistóia, Livorno e Estados Unidos, onde passei um mês e meio em New Orleans e Charleston. Vim então para Recife e daí para o Rio de Janeiro. Fui operado cinco vezes e meu corpo está cheio de cicatrizes".


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Soldado Temer - do III Grupo de Artilharia, natural do Estado de São Paulo."



Em 5-3-1945, no ataque daqule dia, do 6º RI, contra as posições de Soprasso e Castelnuovo, o Soldado Temer fazia parte, como telefonista, da turma de ligação junto ao 1º Batalhão desse Regimento. Caíam sobre o terreno, sem cessar, bombardeios de artilharia e morteiros. Em dado momento arrebentou-se a linha telefônica da turma. Sem perda de tempo, o soldado Temer saiu para repará-la. Em caminho, junto ao encosta ao Soprasso, ouviu vozes em língua estranha para ele. Cautelosamente aproximou-se do abrigo donde partiam os rumores, cerca de quinze metros à sua frente. Aproximou-se mais, e a dois metros dirigiu-se aos desconhecidos em italiano, que respondeu-lhe apenas com um gemido. Prevendo arma engatilhada, chegou mais perto ainda e viu que eram dois alemães os estranhos ocupantes deste abrigo. Um tentou reagir, mas a ação rápida do soldado Temer anulou qualquer reação do inimigo. Aprisionou-os e os entregou a um oficial de infantaria. Em seguida retornou ao local onde se dera o arrebentamento da linha e tranqüilamente passou a repará-la.

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Três Herois Brasileiros


Na Itália, os pracinhas confirmaram a bravura brasileira, lutando, vencendo e até mesmo deixando ali muitas vidas, como sacrifício e prol da liberdade.Dentre os muitos feitos de heroísmo, enfatiza-se a atitude e coragem e abnegação à própria vida de três pracinhas brasileiros, nascidos em Minas Gerais. São eles, Arlindo Lúcio da Silva, Geraldo Baeta da Cruz e Geraldo Rodrigues de Souza.
No ataque a Montese seu pelotão foi detido por intensa barragem de morteiros inimigos, enquanto uma metralhadora hostilizava o seu flanco esquerdo, obrigando os atacantes a se manterem no colados ao solo. O soldado Arlindo , atirador de F.A ., localiza a resistência e junto com os companheiros Geraldo Baeta da Cruz e Geraldo Rodrigues de Souza despejam sobre o posição inimiga os carregadores de suas armas, fazendo a metralhadora alemã calar-se, nessa ocasião são mortos por outros soldados alemães.
Os alemães que tanta dureza e crueldade demostraram durante a guerra, reconheceram naquele trio indômito tamanha valentia e insistente vontade em derrotar o inimigo, que lhes deram uma sepultura rasa , encimada por uma tabuleta com o seguintes dizeres: DREI BRASILIANISHE HELDEN; em Português : TRÊS HEROIS BRASILEIROS.


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"Avancem camaradas"


" Soldado JOÃO PEÇANHA DE CARVALHO - 1º RI, natural de Minas Gerais.Em 12/12/1944:


A citação do Soldado Peçanha tem, no aspecto, duplo valor; estimulo e consagração . Era um soldado apenas, mas brasileiro acima de tudo: tinha o pensamento menos voltado para si do que para a glória de sua terra. A doze de dezembro ultimo, atingido mortalmente por bala inimiga, expirava nos braços de seu comandante, gritando ainda a seus companheiros vizinhos: " AVACEM CAMARADAS" . Era um herói. É um exemplo notável. Reverenciemos o soldado Peçanha e respeitemos sua memória" .

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" Homem de meu grupo não fica ferido, esperando socorro!"

Terceiro Sargento JOSÉ CARLOS DA SILVA - 1º RI, natural de Minas Gerais. Em 12/12/1944:


Seu pelotão, por ordem superior, se retraia no ataque realizado contra as posições inimigas em Monte Castelo, em 12/12/1944. O Sgt. JOSÉ CARLOS, voltou a posição que havia antes conquistado, para resgatar um companheiro que lá jazia ferido, dizendo: " Homem de meu grupo não fica ferido, esperando socorro!" neste mesmo instante foi ferido mortalmente atingido por bala inimiga, ficando ali seu cadáver por dois dias. É um exemplo que, pela sua pureza, pela sua própria elevação, dispensa comentário".


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Liderança do Cap. Bueno


Capitão João Tarcisio Bueno - do 11º RI, natural do Mato Grosso:

No ataque a Monte Castelo, em doze de dezembro ultimo, o Cap. Bueno comandava a 1ª Cia. do 11º RI. Inicialmente marchava em seu lugar próprio, à frente do segundo escalão. Quando se juntaram fogos inimigos sobre a sua Cia. esta entrou numa fase critica. Sem perda de tempo Cap. Bueno tomou a decisão de passar à frente e pessoalmente impulsionar sua tropa, transmitindo-lhe um reflexo novo de entusiasmo. Ao atingir seu objetivo, agora combatendo com granadas de mão, foi gravemente ferido, tão perto das linhas inimigas que permaneceu no local por mais de vinte e quatro horas. O Capitão João Tarcisio Bueno é um raros exemplos de coragem, dignidade, compreensão exata do papel de chefe, tenacidade, todas essas qualidades que fortalecem o ânimo da tropa brasileira e a torna capaz de ações de relevo".

Eu me lembro de quando a Guerra terminou

A queda de Paris no Hebreu Brasileiro

Mesmo com sete anos, eu tinha noção claríssima do que estava acontecendo: tinha família na Polônia, meus pais falavam todos os dias sobre o assunto e meu irmão, mais velho, me explicava tudo - onde estavam os alemães, onde estavam os russos. Os jornais davam muita notícia sobre a guerra, que também era trombeteada duas (ou seriam três?) vezes ao dia no rádio pelo Repórter Esso.
Cursei o ginásio no Hebreu Brasileiro, uma escola extremamente politizada e com professores em sua maioria de esquerda. Os alunos, especialmente mobilizados pela situação de seus familiares na Europa, traziam a efervescência política de suas casas. Por conta do racionamento faltavam gasolina, carne, leite e derivados e outros alimentos , as crianças decidiram, em 1943, criar na escola a Horta da Vitória, que era estimulada pela LBA-Legião Brasileira de Assistência. Por iniciativa do Moisés Veltman, que era uma espécie de alma e mola propulsora da minha turma, muito politizado aos onze anos de idade, começamos também a rodar no mimeógrafo da escola um combativo jornalzinho chamado GHB.
Tínhamos um professor de francês, Rodolfo Arditi, judeu de Marselha, de quem gostávamos muito. Era dia de aula dele quando os aliados entraram em Paris (25 de agosto de 1944) e a turma resolveu fazer-lhe uma homenagem: mal ele entrou na sala, começamos a cantar A Marselhesa. Foi emocionante. Nós cantávamos e ele chorava, nós chorávamos e ele cantava.
A notícia se espalhara com grande velocidade. Não havia tevê, mas o rádio era um fator de comunicação muito importante, ouvia-se a BBC em ondas curtas e, além de “testemunha ocular da História”, o Repórter Esso era também “o primeiro a dar as últimas”. A alegria pelo fim da guerra era tamanha que as pessoas se telefonavam para comentar a boa nova mesmo de madrugada. Para reforçar a comemoração, alguém descobriu que os primeiros acordes da 5a. Sinfonia de Beethoven correspondiam à letra V no código Morse, que se usava em telegrafia e era bastante conhecido. Aqueles acordes passaram a simbolizar a vitória dos aliados.
Eu, garoto, tinha a idéia de que afinal haveria paz, de que “agora, tudo vai ser bom”. Infelizmente, acabou a Segunda Guerra e começou a Guerra Fria.

Alberto Dines


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Muita bebida em Fiorenzuola D’Arda

Fui soldado voluntário do 1o Regimento de Infantaria, conhecido como Regimento Sampaio. Na tropa, sabia-se da existência dos campos de concentração, mas não tínhamos informação da matança de judeus nas proporções que assumiu. Depois de uma ofensiva contra os alemães a partir dos Apeninos, estávamos, no dia da rendição incondicional do Comando alemão, 9 de maio de 1945, no pequeno povoado de Fiorenzuola D’arda, perto de Milão. Àquela altura, a população italiana, exceto os fascistas, era toda contra os alemães e muito afetuosa com os brasileiros. Então alguém trouxe a notícia de que a guerra tinha acabado.
Eu havia combatido oito meses na linha de frente, tinha visto muitos companheiros mortos e feridos. Foi, portanto, uma sensação de alívio formidável saber que estávamos fora de perigo. Todos procuramos um bom vinho italiano, enchemos a cara e fizemos um carnaval. Fomos transportados para Gênova e seguimos de navio para Nápoles, onde ficamos acampados até 22 de agosto, quando embarcamos de volta em navios de transporte americanos.
No Rio, fomos recebidos por um milhão de pessoas que nos viram desfilar, fuzil na mão, pela Avenida Rio Branco. Já na Vila Militar, cada um recebeu baixa e uma passagem de navio. Com a passagem, voltei para Salvador, de onde sou natural.

Jacob Gorender


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Tiros na cara de Hitler

No dia 8 de maio de 1945, saí cedo de casa para a aula de piano.
Desde quando me lembro, a guerra fazia parte da minha vida. Eu não estava na guerra, mas a guerra estava em mim. Ela aparecia no choro constante da minha mãe, ou na fisionomia grave do meu pai, olhando fixo para o rádio, como se enxergasse as notícias através dele. Ao primeiro acorde do Repórter Esso, todos, inclusive as crianças, deviam estar em pétreo silêncio, até o fim do noticiário. Mesmo nas matinês de domingo, os cinemas exibiam documentários sobre o conflito, o que eu odiava, porque retardavam a exibição dos filmes.
No início de 1945, contudo, o clima estava mudando.
Nossa casa era mais ou menos o quartel general dos judeus progressistas de Madureira. À medida que os combates na Europa recrudesciam, as reuniões, quase que na mesma proporção, se sucediam no quartel. Creio que foi no dia em que os soviéticos entraram em Berlim que nosso sobrado se transformou num campo de batalha e festa. Meu pai havia comprado algumas bebidas, minha mãe preparara uns petiscos. Naquela noite, um a um, foram chegando os habituais companheiros do meu pai, Aron Sapir, Júlio Braz, Adam Rozen, Finkielstein, José Gorenstein, Morgenstern, Feldon, e outros que já não lembro. Estavam todos muito alegres.
A horas tantas, alguém desenhou com giz a cara do Hitler na porta do barracão onde eram guardadas as tralhas da casa e meu pai, com uma pistola lembrança dos tempos em que servira o exército na Polônia, foi o primeiro, seguido pelos outros, a dar os tiros que matariam implacavelmente o monstro nazista. Estava consumada a catarse!
Naquele 8 de maio, quando saí da casa da professora, muita gente circulava, apressada ou correndo, numa área geralmente quase deserta. Em algum lugar soltavam fogos. Nas casas, com as janelas abertas, os rádios tocavam música ou falavam em alto volume.
Intuindo que alguma coisa maravilhosa estava acontecendo, parei diante de uma janela para tentar descobrir a razão daquele rebuliço, daquela euforia coletiva, de tamanha explosão de alegria, quando distingui a voz do locutor, aos gritos: “A guerra acabou!”
Senti o coração quase parar.
Eu estava com nove anos, mas tinha plena consciência do que isso significava. Era o fim do fantasma. Era a minha paz. Trêmula, o coração aos pulos, saltando pela boca, corri o mais rápido que podia, querendo ter asas para vencer a interminável distância que me separava de casa. Subi os degraus de dois em dois, até alcançar o salão. O rádio tocava a Marselhesa. Eu não podia falar. Pela emoção e pelo cansaço da corrida. Quando me viu, meu pai, o austero Max, chorando, me pegou no colo e rodopiou comigo, como se fosse uma valsa vienense.
Nunca fui tão feliz!

Clara Goldfarb


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Carlos Frias e quatro ouvintes

Berlim foi conquistada pelo Exército Vermelho da União Soviética. As últimas matilhas nazistas foram esmagadas. Iossl e Fêiguele, meus pais, choravam. Eu e Gustavo, meu irmão, também. O rádio Philco, e o famoso olho, ligados.
De repente, Carlos Frias entrou no ar e, com seu maravilhoso vozeirão, bradou: “Terminou a guerra! Vitória soviética em Berlim!”
Papai pegou o rádio e o colocou na sacada aberta para a Rua Marechal Floriano, ex-Rua Larga, para dar a boa nova ao povo. O volume, no máximo. Parecia que ele, com seu rádio, queria chegar até as gloriosas tropas soviéticas. “Derrotadas as hordas nazistas! Hitler, não mais! Paz! Viva a paz!
Enquanto Frias dava vazão à sua alegria, fui até a sacada olhar a rua. Nenhuma aglomeração... A rua estava deserta...
Carlos Frias foi o primeiro locutor no Brasil a anunciar o fim da Segunda Guerra Mundial.


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Moysés Ajchenblat

Fim esperado
O dia da declaração do final da guerra não foi uma surpresa. Depois de mais de cinco anos de pesadelo, esse final já era esperado pelos acontecimentos anteriores denotando o enfraquecimento da Alemanha e as várias conquistas dos aliados, tanto do lado da Rússia como do lado ocidental.
Tínhamos o rádio ligado praticamente o tempo todo e, embora estivéssemos a salvo aqui no Brasil, os horrores do conflito também nos faziam sofrer. Não eram sempre aceitáveis as estratégias dos aliados e nos causavam muita perplexidade medidas como o lançamento da bomba atômica ou os grandes bombardeios, embora nos dando conta de que eram inevitáveis face aos selvagens bombardeios do inimigo. Lembro-me do suspiro de alívio quando ouvimos pelo rádio a rendição, mas, como disse, já era esperada.

José Mindlin


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Festa na charrete

Estávamos reunidos em Curitiba, na casa de amigos dos meus pais, comemorando o aniversário de sete anos de sua filha e minha amiga Berta. Eu tinha quase sete.
Meus pais e seus amigos eram todos imigrantes da Polônia e acompanhavam o desenrolar da guerra com apreensão, pois todos tinham algum parente por lá.
Ao entardecer, quando estávamos cantando os parabéns, chegou a notícia de que a guerra havia terminado. Corremos todos para fora. Aos poucos a rua foi se enchendo com as pessoas que saíam de suas casas para festejar a boa nova.
Telefonei recentemente para Berta para ver se esta lembrança era real, e ela ainda me disse que depois ganhamos um passeio na charrete de seu pai.
Algum tempo depois, não me recordo quanto, fomos todos à estação ferroviária festejar a volta dos pracinhas que haviam lutado na Itália.
Gitel (Guita)

Arszyn Bucaresky


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Suspensão das aulas no Pedro II


Em altos brados, Severo, o enfermeiro do Colégio Pedro II – Internato, acordou os alunos, que dormiam serenamente. Eram 5 horas da manhã – a sineta tocava normalmente às 5h30. Os alunos que acordavam iam chamando os outros colegas. Ainda cambaleando de sono, começamos a farra, pois com a severa disciplina do Internato, qualquer chance extra que aparecesse era uma explosão de bagunça.
Os quatro dormitórios se situavam no quarto e último andar do velho casarão de São Cristóvão. Eram salões amplos, onde dormiam cem alunos em cada um. Cada aluno era responsável pela sua cama. Ainda sem lavar o rosto, todos descemos as escadarias em direção do refeitório e do pátio de recreio, a fim de entender o que estava acontecendo.
O diretor liberou os alunos por dois dias para que o término da guerra fosse comemorado com os familiares.

Pedro Bucaresky


Fonte: http://www.asa.org.br/boletim/94/depoimentos.htm

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Os Homens-Rãs


O ataque aos couraçados «Valiant» e Queen Elisabeth», fundeados no porto de Alexandria, realizado por seis homens-rãs italianos, transportados até ao próprio local do ataque pelo submarino «Sciré», deixou estupefacto o Almirantado Britânico J. D. Ratcliff faz aqui o seu relato desta proeza.


« Querida mãezinha:
Quando receberes esta carta, já terei deixado de existir. Ofereci-me como voluntário para realizar uma perigosa missão que fracassou...»
«Quinze dias antes do Natal de 1941, o tenente de marinha Luigi Durand de La Penne escrevera três cartas destinadas a sua mãe. Esta era a primeira; noutra anunciava-lhe que havia triunfado; e, na terceira, que caíra prisioneiro. Terminada a sua missão, enviariam a sua mãe a carta que correspondesse á realidade.



Luigi DURAND DE LA PENNE

La Penne, um belo rapaz de 27 anos, alto e de aparência desportiva, estava prestes a empreender uma empresa digna de figurar em lugar de relevo no livro de oiro da História: com o seu grupo - seis homens, na totalidade, e sem armas - devia atacar a Armada Britânica concentrada no porto de Alexandria. Nesse corpo a corpo, tremendamente desproporcionado, que oporia homens de 70 quilos a couraçados de 32000 toneladas, iria conseguir, além de uma brilhante vitória naval, a admiração do seu principal adversário. Winston Churchill afirmou que esta façanha representava «um notável exemplo de coragem e habilidade».
A guerra encontrava-se num momento crítico quando La Penne recebeu a missão de afundar as principais unidades da frota britânica do Mediterrâneo. Por causa da acção dos submarinos, os Britânicos acabavam de perder um couraçado e um porta-aviões.
Os dois couraçados que restavam á Inglaterra no Mediterrâneo tinham-se refugiado mo porto de Alexandria. La Penne e os seus voluntários deviam ir atacá-los, montados em três minúsculos submarinos que os homens-rãs denominavam «porcos» (Maiale).
Um «porco» media 6,50 m de comprimento; a sua propulsão, eléctrica, era silenciosa; a velocidade de 3 a 5 quilómetros por hora e o raio de acção de 16 quilómetros. O aparelho estava provido na «cabeça», de uma carga explosiva, desmontável, com o peso de 300 quilos. Uma vez no porto, cada um dos três grupos de dois homens devia aplicar a sua carga explosiva no casco do objectivo que lhe fora confiado e depois fugir - se pudesse.
As probabilidades de voltar são e salvo de semelhante missão eram mínimas. Por esse motivo, aconselhara-se a La Penne e aos seus homens que fizessem testamento e fizera-se um embrulho com os seus objectos pessoais, para serem enviados ás famílias no caso de que...





A 18 de Dezembro, os três grupos estão já a bordo de um submarino, o «Sciré», que repousa no fundo do mar, á entrada de Alexandria. Dentro do porto encontram-se, segundo confirmam os últimos boletins de informação, os couraçados «Valiant» e «Quenn Elizabeth».
La Penne e o seu companheiro de grupo, o contramestre Emílio Bianchi, terão o Valiant como objectivo; o tenente de marinha António Marceglia e Spartaco Schergart o «Queen Elizabeth». Quanto aos tenentes Vicenzo Martellotta e Mário Marino, deverão atacar um barco-cisterna de 16000 toneladas e semear em seguida bombas incendiárias flutuantes, confiando em que o petróleo derramado pelo barco-cisterna incendeie todo o porto. Terminado o seu trabalho, os três grupos dirigir-se-ão a nado para a margem e, dali, em algum barco de pesca roubado, seguirão para um lugar designado de antemão, onde irá recolhê-lhos, em 24 de Dezembro, um submarino Italiano.


Pouco antes das 21 horas, os tripulantes dos «porcos» envolvem-se, mal ou bem, nos seus apertados fatos de borracha. Depois os pequenos aparelhos são lançados á água e metem proa, lentamente até ao farol de Ras-el-Tin, que se destaca a 1500 metros de distância. Quando os seis homens montaram nos seus «porcos» apenas as cabeças emergem da água. As explosões hão-de ser provocadas por foguetes de efeito retardado. O barco-cisterna, segundo os cálculos irá pelos ares ás 5 horas e 55 minutos; o «Valiant» ás 6 horas e 5 minutos e o «Queen Elizabeth» ás 6 horas e 15 minutos. Os homens dispõem, portanto, de algum tempo para saborear o que será, talvez, a sua ultima refeição. Tiram frango frio e umas garrafinhas com champanhe, de uma caixa impermeável - e comem e bebem.


Chegou finalmente, o momento de se aproximarem das redes de aço que protegem a entrada do porto. Os «porcos» estão apetrechados com tesouras apropriadas, mas estas fazem demasiado ruído e as redes estão frequentemente carregadas de electricidade... La Penne hesita, reflectindo sobre o que lhe convém fazer. De repente, o farol e o porto iluminam-se: alguns barcos dispõem-se a entrar!
As redes afastam-se pra lhes dar passagem.
- Vamos! - ordena La Penne.
Três contratorpedeiros surgem da sombra; na sua esteira, saltando desordenadamente, vão os três pequenos «porcos».


Já no porto, os homens-rãs ocupam-se a localizar os seus alvos. La Penne e Bianchi aproximam-se do «Valiant», mas esbarram com uma rede protectora. Tentam levantá-la; pesa excessivamente. Para franquear o obstáculo, apenas há uma solução: passar-lhe por cima, sem despertar as atenções. A manobra resulta bem, com grande alívio deles. Voltam imediatamente a submergir.
O sítio melhor para a colocação da carga explosiva é debaixo da torre de comando. La Penne sobe á superfície para comprovar pela última vez a posição exacta e desenrola uma delgada corda que lhe servirá para regressar ao seu «porco». Mas, quando de novo submerge, o aparelhe nega-se a avançar: a corda - pensa - deve ter-se enrolado na hélice. Volta-se para Bianchi, para lhe indicar por sinais que a desenrede. Mas Bianchi desapareceu!
Agora tem de terminar o seu trabalho sozinho.
A carga explosiva encontra-se ainda a 30 metros da sua posição definitiva. Com as suas mãos nuas, que o fio entorpece, La Penne começa a arrastar pelo lodo, centímetro a centímetro, aquele fardo de 300 quilos. Depois de quase uma hora de trabalho esgotante, a carga fica no sitio desejado; mas La Penne está demesiadamente cansado para fixá-la ao casco. Tem a certeza, entretanto, de que fará o efeito pretendido, já que repousa no fundo a 1,50 m somente da quilha do navio. São 3 horas: faltam ainda mais 3 horas para a explosão.
La Penne está prestes a perder os sentidos.
Ao subir á superfície, produz um «clac» quase imperceptível, suficiente, contudo, para alertar o marinheiro de guarda na ponde do «Valiant». Projectores, saraivada de balas. La Penne descobre uma bóia de ancoragem e nada até lá. Por detrás dela estará protegido. Mas alguém ali se encontra também: Bianchi! Tendo-se-lhe avariado a máscara respiratória, desmaiou enquanto subia á superfície; logo que voltou a si, nadou até á bóia.
Não tarda a chegar uma lancha onde os dois homens são embarcados. No «Valiant», o oficial de guarda procede ao seu interrogatório: são 3 horas e 30 minutos. Os dois prisioneiros negam-se a dar qualquer informação. Separam-nos.
La Penne é encerrado num armazém da coberta inferior, por cima da carga explosiva, pouco mais ao menos. Um marinheiro compassivo dá-lhe um copo de aguardente e um maço de cigarros, para o reanimar. Já só lhe resta como andam depressa os ponteiros do seu relógio: 5 horas e 30, 5 horas e 40 minutos...

Ouve-se um estrondo longínquo. O grupo de Martellotta acaba de fazer saltar o navio-cisterna. A popa ficou completamente destruída e um contratorpedeiro que estava fundeado perto sofreu avarias; mas as bombas incendiárias não explodiram. São 5 horas e 54 minutos; só faltam 11 minutos. La Penne golpeia insistentemente com os punhos a porta da sua prisão; pede para ser levado á presença do capitão. É o comandante Charles Morgan.
- O barco vai pelos ares dentro de dez minutos - diz La Penne. - Não quero ser culpado de mortes inúteis. No seu lugar, capitão, eu faria subir toda a tripulação para a coberta.
- Diga-me - exige Morgan - o lugar exacto em que foi colocada a carga. Se se nega a responder, o meu dever á mandá-lo outra vez para baixo.
La Penne recusa-se; se Morgan soubesse que a carga repousa no fundo do mar, bastar-lhe-ia fazer o navio mudar de posição para o afastar do perigo. Enquanto é outra vez conduzido ao seu cárcere ocasional, o prisioneiro ouve os altifalantes de bordo difundirem a ordem: «Toda a gente para a coberta!»



Os olhos, agora, cravam-se no relógio, cujo ponteiro de segundos está a marcar, sem dúvida, os últimos instantes da sua vida. Terá, pelo menos, ajustado com exactidão o foguete de explosão retardada? É impossível fazê-lo com uma precisão de segundos. De súbito - são 6 horas e 6 minutos - a explosão produz-se.
O «Valiant» é agitado por sacudidelas convulsivas e enche-se de fumo. La Penne é atirado até ao outro extremo da sua cela e perde por momentos os sentidos. Ao recuperar o conhecimento, a onda explosiva abrira a porta. Sem que nínguem repare nele, sobe á coberta e fixa o olhar no «Queen Elizabeth», muito próximo do «Valiant»! Breve chegará a sua vez... São exactamente 6 horas e 15 minutos quando se dá a terrível explosão. Marceglia colocara a carga destinada ao couraçado precisamente por baixo da casa das máquinas; o óleo pesado sai pelas chaminés e derrama-se como um aguaceiro sobre o «Valiant» e sobre todo o porto. Os três barcos alcançados vão a pique mas ficam quase direitos, em virtude de não serem muito profundas as águas do porto.

As fotografias tiradas no dia seguinte á explosão, pelos aviões de reconhecimento, foram interpretadas correctamente pelos oficiais italianos: o «Valiant» estava escorado a bombordo; o «Queen Elizabeth» tinha a proa afundada; tornava-se evidente que os dois navios se encontravam seriamente avariados.
Mas Mussolini não ligou importância á informação dos especialistas. Como ninguém podia contradizê-lo, a frota italiana permaneceu nos portos e desperdiçou a sua melhor oportunidade, mas também é verdade que os Ingleses fizeram o impossível para manter Mussolini no seu tresloucado erro, mas isso já sãos outras histórias.

Quanto aos seis homens-rãs, foram feitos prisioneiros. Levaram La Penne para o Cairo e, depois, para a Palestina; daí consegui fugir para a Síria. De novo preso e embarcado para a Índia, voltou a escapar, mas uma vez mais foi aprisionado.
Foi posto em liberdade em 1943, pouco depois da assinatura do armistício com a Itália, e prestou serviços aos Aliados; foi em grande parte graças a ele que se descobriu um plano alemão que consistia, no momento de evacuar La Spezia, em obstruir a entrada do porto. Na entrada da barra deviam ser destruídos vários navios.
Mas os homens-rãs mergulharam oportunamente, tudo fazendo para os afundar antes que chegassem á barra; entre esses homens estava La Penne.



Em 1945 realizou-se uma cerimónia pouco vulgar. O príncipe herdeiro de Itália, Humberto, ia condecorar La Penne com a mais alta distinção nacional, a «Medaglia d'Ouro», quando um dos convidados se adiantou; era o contra-almirante Charles Morgan, comandante das forças navais britânicas com base em Itália, o antigo capitão do «Valiant». Não se esquecera de que, graças ao aviso dado por La Penne, a sua tripulação, composta por 1700 homens, não sofrera uma baixa sequer.
E o almirante britânico pediu ao príncipe que concedesse a honra de condecorar, com aquela insígnia da coragem, o homem-rã italiano».


Percurso das equipes

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Albert Battel, o oficial do Exército alemão que salvou varios judeus



Albert Battel (21 de Janeiro de 1891 - 1952) foi um ( Wehrmacht) oficial alemão, advogado, e humanitário.

Battel nasceu em Klein-Pramsen, na Silésia prussiana. Após servir na I Guerra Mundial, estudou Economia e Jurisprudência em Munique e em Breslau (Wrocław).
Com cinquenta e um anos de idade era oficial de reserva. Battel estava estacionado em Przemyśl no sul da Polónia, onde era ajudante do comandante militar local, o Major Max Liedtke. Quando as SS se preparavam para lançar a primeira "reinstalação" (liquidação) de judeus em Przemyśl a 26 de Julho de 1942, Battel, em consorcio com o seu superior hierárquico, ordenou o bloqueio da ponte sobre o Rio San, o único acesso para a gueto judeu.
O comando local das SS tentou atravessar a ponte bloqueada, no entanto sargento-ajudante de guarda da ponte ameaçou abrir fogo a menos que se retirassem. Tudo isso aconteceu em plena luz do dia, para o espanto dos habitantes locais.
Pouco tempo depois, nessa mesma tarde, um destacamento do exército sob o comando de Albert Battel invadiu a área do gueto e utilizando camiões do exército, evacuou mais de 100 famílias judias para o quartel do comando militar local. Estes judeus foram colocados sob a protecção da Wehrmacht e foram, portanto, protegidos da deportação para o acampamento-extermínio de Belzec.
Após este incidente, as autoridades SS começaram uma investigação em segredo para averiguar a conduta do oficial do exército que ousou desafia-los sob as referidas circunstâncias. Ele viu que Battel, embora fosse membro do Partido Nazi desde Maio de 1933, já havia sido noticia no passado pelo seu comportamento amigável para com os judeus. Antes da guerra havia sido indiciado por ter feito um empréstimo a um colega judeu. Mais tarde, no decurso do seu serviço em Przemyśl, ele foi cordialmente advertido por "apertar" a mão do presidente do Conselho Judaico. Toda a questão chegou a atenção do mais alto nível da hierarquia Nazi. Nada menos do que Heinrich Himmler (Reichsführer-SS, chefe das SS), que teve um interesse nos resultados do inquérito e enviou uma cópia da documentação incriminatória para Martin Bormann, chefe da Chancelaria do Partido e braço direito de Adolf Hitler. Na carta de acompanhamento, Himmler jurou que o advogado fosse preso imediatamente após o fim da guerra.
Toda esta investigação permaneceu desconhecida para Battel. Em 1944, teve alta do serviço militar por causa de doença cardíaca. Quando voltava para sua cidade natal (Breslau), caiu em cativeiro pelos Soviéticos. Após a sua libertação, regressou Republica Federal Alemã, mas foi impedido de voltar a exercer a advocacia por decisão de tribunal. Morreu em 1952 em Frankfurt.
A sua posição contra as SS (bloqueando a ponte), só ficou reconhecida muito tempo depois da sua morte, especialmente, através do esforço tenaz do investigador israelita e advogado Dr. Zeev Goshen.
Em 22 de Janeiro de 1981, quase 30 anos após sua morte, Yad Vashem decidiu reconhecer Albert Battel como: "Justos entre as Nações", tendo uma árvore com o seu nome em Israel.


Fontes:
en.wikipedia.org
Righteous Among the Nations
Auschwitz - Os Nazis e a Solução Final, BBC, 3º episódio

Florence Farmborough, uma enfermeira no exército russo.


Florence Farmborough (Britânica) era professora em Moscovo em 1914. Com o inicio da guerra, voluntariou-se na Cruz-Vermelha Russa, onde teve formação, e foi enviada para a linha da frente.
Na "qualidade" da sua tão nobre profissão, onde "serviu" na Polónia, Áustria e Roménia, presenciou o caos da retirada do Exercito Russo. Esta terrível retirada entre outras passagens ficou registada no seu Diário.
Florence Farmborough deixou a Rússia logo após a revolução Bolchevique de 1917.



Relatos do Diário de Florence Farmborough:

«Uma enfermeira britânica, Florence Farmborough, que estava a servir numa unidade medica com as forças russas, foi testemunha do sofrimento dos russos. Ao chegarem a um mosteiro na aldeia de Molodicz, os médicos e enfermeiras em retirada organizaram uma sala de cirurgia de emergência.«Tentar saber como e quando tinham sido infligidas as feridas era impossível; no meio de tal vaga de sofrimento, cuja gravidade era perfeitamente visível e audível, mais não podíamos fazer do que cerrar os dentes e trabalhar.» Uma dúzia de ambulâncias transportava os homens feridos com menos gravidade para a retaguarda. Mas por mais que se transportassem mais eram trazidos. As feridas que ela presenciou eram tais « que faziam o nosso coração bater com o espanto de ver como um homem podia ter um corpo tão mutilado e continuar a viver, a falar, a compreender». Um homem para que ela se voltou tinha a perna esquerda e o lado inundados de sangue. « Puxei a roupa para o lado e vi uma massa polposa, um corpo esmagado das costelas para baixo; o estômago e o abdómen estavam totalmente esmagados e a perna esquerda pendia do corpo presa por apenas alguns pedaços de carne». Um padre, que passava por ali naquele momento, fechou os olhos, horrorizado, e voltou as costas. «Os olhos vazios do soldado continuavam a olhar para mim e os seus lábios moveram-se, mas não saiu qualquer palavra. O que me custou afastar-me sem o poder ajudar, não consigo descrever, mas não podíamos desperdiçar tempo e material com casos perdidos, e havia muitos mais á espera.»
Dois dias depois, Florence Farmborough ficou totalmente atormentada quando foram recebidas ordens para recuar ainda mais, e para abandonar os feridos mais graves.
«Os que ainda conseguiam andar ergueram-se e seguiram-nos; a correr, a mancar, a coxear, ao nosso lado. Os gravemente aleijados arrastavam-se atrás de nos; pediam, imploravam que não os abandonássemos em tal situação. E na estrada havia mais, muitos mais; alguns, jaziam na poeira do caminho, exaustos. Também eles imploravam. Agarravam-se a nós; imploravam-nos que ficássemos junto deles. Tínhamos de rasgar as saias, de tal modo eles as agarravam. Depois os seus lamentos começaram a ser entrecortados por insultos; e muito atrás deles, podíamos ouvir os repetidos insultos dos nossos irmãos que tínhamos abandonado ao seu destino. A escuridão acentuou o pânico e a desgraça. Com um acompanhamento do ruído dos projecteis que explodiam, e dos insultos e pedidos dos homens feridos, á nossa volta e atrás de nos, entramos rapidamente na noite»».

sábado, 25 de julho de 2009

Perdeu-se um bravo - A morte do Sgt. da FEB Max Wolf Filho


Sargento Max Wolf Filho à frente de seus homens FEB

"Vi perfeitamente quando a rajada de metralhadora rasgou o peito do Sargento Max Wolff Filho. Instintivamente ele juntos as mãos sobre o ventre e caiu de bruços. Não se mexeu mais. O Tenente Otávio Costa, que estava ao meu lado no Posto de Observação, apertou os dentes com força, mas não disse uma palavra. Quando lhe perguntei se o homem que havia tombado era o Sargento Wolff, ele balançou afirmativamente a cabeça."
Joel Silveira (Correspondente de Guerra)

Menos de uma hora antes, falara de uma menina de 10 anos de idade e de sua condição de viuvo.
Wolf havia partido com seus homens por sebes e ravinas, percorrendo a chamada " TERRA DE NINGUEM" . O primeiro objetivo a patrulha eram três casas, a menos de um quilômetro, que foram atingidas as duas horas da tarde. O grupo cercou as três construções em ruínas e o sargento empurrou com o pé a porta de uma delas nada encontrando.
A duas e meia, patrulha estava a cem metros do ultimo objetivo a ser atingido: um novo grupo de casas sobre uma lombada macia. Quando o sargento deu alguns passos a frente, uma rajada curta e nervosa, feriu-o mortalmente, fazendo com que caísse de bruços sobre a grama . Os outros homens se agacharam, rápidos , e os alemães começaram a atirar, bloqueando a progressão dos brasileiros com uma chuva de granadas de mão e tiros de metralhadoras. Os alemães em seguida lançaram foguetes luminosos, pedindo apoio de artilharia, que minutos depois começaram assobiar no ar e explodiam no caminho percorrido pela patrulha de Wolf.
Por volta das dezenove horas, os homens da patrulha do sargento retornaram ao PC do 11 RI. Mas o corpo ficara lá. Quando os padioleiros foram a terra de ninguém, recolher o mortos e feridos foram recebidos com rajadas impiedosas.
Muitos dos homens que voltavam tinham os olhos rasos de água. O sargento estava morto. No estreito compartimento onde Wolff guardava seus pertences, estavam a condecoração que o General Truscott colocara em seu peito, poucos dias antes, a citação elogiosa do General Mascarenhas e o retrato da filhinha, de olhos vivos e brilhantes como os do pai. Tudo, agora, muito vago. Este foi um dos dias mais tristes para o Batalhão. Perdeu-se um Bravo.
(13/04/1945)
Fonte:Associação Nacional dos Ex-Combatentes

A morte do 1º Ten José Maria Pinto Duarte - FEB

Relato extraído das recordações do livro do "Com a FEB na Itália" feito pelo Capitão Atratino Côrtes Coutinho ao General Aguinaldo José de Senna Campos, sobre de como se dera a morte do 1º Ten José Maria Pinto Du.
"Já havia deixado o comando da companhia, mas fora visitar meus ex-comandados, depois da conquista das posições, na região de Castelnuovo. Estava em casa de sobrado, construção muito comum na Itália, encostada ao barranco, de modo que deste pode-se passar facilmente para os andares mais altos, quando pressenti passos em andar superior da casa; percebi que a situação não era boa, ordenando aos companheiros que pulassem, do primeiro andar, onde estávamos, para fora, no lado oposto ao que havia visto dois alemães. Um terceiro alemão descia do barranco, do lado escolhido para a fuga; não tive outra alternativa se não alveja-lo com a minha carabina; o tedesco deu um grito e rolou morro abaixo.
Os pulos começaram pelos menos graduados; ao chegar a vez do Ten. Pinto Duarte, uma rajada de metralhadora atingiu-o na perna, ficando estendido no chão. Chegou a vez de eu também saltar, arrastando o companheiro para lugar mais protegido.
Para me tornar mais leve e melhor poder carregar o ferido desfiz-me do meu equipamento. Ao atingir o local escolhido, coloquei sobre as pernas o ferido que pedia insistentemente que eu o sacrificasse pois não suportava as terríveis dores que estava sofrendo. Permanecemos nessa luta, tendo o inimigo nas proximidades. O Tenente esvaia-se em sangue, torturado pelas dores e eu vivendo aquele quadro doloroso, arriscando-nos a sermos encontrados pelos alemães em situação difícil. Nada impediu que predominasse o sentimento de camaradagem de e humana assistência ao companheiro que morria, aos poucos, sem possibilidade de socorro urgente; conservei-me a seu lado até o derradeiro instante.
Ficou o Ten Pinto Duarte estendido no chão, ao cair da noite chuvosa e triste.
Procurei reunir-me a tropa que mais tarde, foi contra-atacada e perdeu as posições pouco antes conquistada.
Reuni uma patrulha e fui a procura do companheiro morto, mas a escuridão não permitiu a recuperação do corpo do infeliz companheiro.
Todo o destacamento foi rocado para o Vale do Reno, mas a lembrança daquele quadro e o desejo de resgatar o corpo de meu ex-comandado não me abandonaram. Durante todo o inverno o corpo fora conservado sobre a neve. Nos primeiros dias de maio, findas as ações de guerra , com outros companheiros do 6º RI, rumamos de tão longe, para ao local em que havia deixado o Ten Pinto Duarte. Não me traiu a memória e, coberto por um galho, lá estava o corpo que procurávamos, sacrificado naquele fim de jornada de 31 de outubro de 1944.
Em caixão improvisado dirigimo-nos ao Cemitério Brasileiro, em Pistóia, onde esperaria a sua transladação para o Brasil. "
Fonte:Ass.Nacional dos Ex-Combatentes

Bilhete encontado no bolso da farda de um soldado desconhecido, morto no primeiro ataque a Monte Castelo.


Cemitério dos soldados brasileiros mortos em serviço, localizado em Pistoia, na Itália


"Escuta Deus,
Jamais falei contigo.
Hoje quero saudar-te-: Bom dia! Como vais?
Sabes? Disseram que tu não existe e eu, tolo, acreditei que era verdade.
Nunca havia reparado tua obra.
Ontem à noite da trincheira rasgada por granadas, vi teu céu estrelado e compreendi então que me enganaram.
Não sei se apertarás minha mão .Vou te explicar e hás de compreender.
É engraçado: neste inferno hediondo achei a luz para enxergar teu rosto.
Dito isto já não tenho muita coisa a te contar.
Só que... que... tenho muito prazer em conhecer-te.
Fazemos um ataque à meia noite.
Não tenho medo.
Deus, sei que tu velas...
Ah! É o clarim! Bom Deus, devo ir-me embora.
Gostei de ti, vou ter saudade.
Quero dizer, será cruenta a luta, bem o sabes, e esta noite pode ser que eu vá bater a tua porta!
Muito amigos não fomos é verdade.
Mas sim... estou chorando!
Vê Deus, penso que já não sou tão mau.
Bom Deus, tenho que ir. Sorte é coisa bem rara.
Juro porém que já não receio a morte... "

Fonte: Ass.Nacional dos Ex-Combatentes

A misericórdia de Saburo Sakai sobre a selva de Java.



Saburo Sakai, um piloto de caça que serviu do Serviço de Aviação da Marinha Naval Japonesa de 1934 a 1945, foi o ás com mais vitórias no Pacifico durante a Segunda Guerra Mundial, com um registro de 64 aeronaves destruídas, entre Chinesas e de outros aliados. Lutou a maior parte da guerra no pacifico com o caça A6M2 "Zero", segundo a opinião de alguns a máquina de combate aéreo mais ágil ha ver ação em qualquer lado do conflito.
Esta pequena historia encantadora da carreira de Sakai surgiu na imprensa japonesa vários anos atrás. Eu tentei localizar de novo alguns dos artigos relacionados a isto desde então, mas não tive nenhuma sorte. Porém, eu me lembro da maioria dos detalhes, assim eu tentarei relatar o melhor quanto que minha memória permitir:
Vários anos atrás, uma enfermeira de exército holandês -- agora uma mulher aposentada na faixa de 70 anos -- contatou a Cruz Vermelha japonesa (ou alguma organização caridosa semelhante), tentando localizar um piloto de caça japonês que poupou a vida dela em algum lugar em cima de Java (Nova Guiné?) em um dia em 1942. De acordo com o relato dela do evento, ela estava voando em um avião-ambulância DC-3 (C-47) do exército holandês a baixa altitude em cima de selva densa. A bordo estavam soldados feridos e várias crianças que estavam sendo evacuadas de uma área de combate. De repente, um caça "Zero" japonês apareceu ao lado do avião. A enfermeira pode ver as características faciais do piloto japonês claramente. Ela e algumas das crianças (!) se levantaram na cabine minúscula e pelas janelas de cabina do piloto dos DC-3 e começaram a acenar freneticamente para que ele se afastasse. Não é difícil imaginar o pânico que eles devem ter experimentado enquanto gesticulavam como se as vidas deles dependessem disto (e dependiam!).





Depois de alguns momentos eternos do que deve ter sido um terror completo para os passageiros que desesperadamente gesticulavam, o "Zero" um rápido sinal com a asa, antes de se afastar e desaparecer do campo de visão. A cabina do piloto e o cubículo do DC-3 estavam cheios de alegria e suspiros de alívio.

Durante cinqüenta anos, a enfermeira holandesa tinha vontade de encontrar o piloto japonês que poupou a vida dela, como também as vidas dos soldados feridos e crianças, naquele dia. Com um golpe de sorte, a Cruz Vermelha japonesa pôde localizar o piloto do Zero, e era não menos que Saburo Sakai que estava voando uma espécie de patrulha de combate no dia em questão. Quando perguntou se ele se lembrava do incidente, Sakai respondeu que sim, e que ele tinha pensado em derrubar o avião por um breve momento, como alto comando tinha instruído o caça de patrulha para derrubar qualquer e toda a aeronave inimiga que encontrasse, estando ela armada ou não. Quando ele viu as mãos ondulantes e faces cheias de horror nas janelas dos DC-3, porém, ele foi movido a clemência e pensa que qualquer um escolheu viver aquele inferno mereceu sobreviver. Aparentemente, ele não experimentou sentimentos tenros semelhantemente para muitos aviadores militares aliados que passaram pela mira de suas armas nos três anos subseqüentes de combate aéreo, mas naquele dia em cima das selvas de Java, ele mostrou clemência. É uma história de um tipo que é tristemente raro nos anais da história militar japonesa na Segunda Guerra Mundial, mas uma que, todavia, mostra que até mesmo os mais ferozes dos guerreiros podem ser capazes de compaixão humana.


A6M2 "Zero"

Logo apos a guerra, não só intimidado com a perda de vidas que os seus compatriotas tinham sofrido, mas buscando compensação para a perda de vidas que ele tinha provocado através de sua mira e seu gatilho, Sakai se tornou assistente budista secular, uma devoção que ele continua até hoje. De acordo com Sakai, ele não matou qualquer criatura, "nem mesmo um mosquito", desde a última vez que ele pisou da cabine de seu A6M5 "Zero", em um dia quente de agosto em 1945.

Escrito por: Bucky Sheftall

sexta-feira, 24 de julho de 2009

PzKpfw IV Ausf. D

PzKpfw IV Ausf. D

PzKpfw IV D (Panzer IV)
Carro de combate leve (Krupp)


Fabricante: Krupp - Alemanha
Tripulação: 5
Comprimento: 5.91 - Largura: 2.86M - Altura: 2.68M
Peso vazio: 18100Kg. - Peso preparado para combate: 20000Kg.
Motor/potência/capacidades
Sistema de tracção:Lagartas
Motor: Maybach HL 120TRM Potência: 300 cv
Velocidade máxima: : 42 Km/h - Velocidade em terreno irregular: 20 Km/h
Tanque de combustível: 470 Litros Autonomia máxima: 200Km


Armamento básico
- 1 x 75mm KwK Mod.37 L/24 (Calibre: 75mm - Alcance estimado de 1Km a 1Km)
- 2 x 7,92 Dreyse L/57 MG-34 (Calibre: 7.92mm - Alcance estimado de 1.2Km a 1.2Km)

Sistema de radar auxiliar:
Embora produzidos em pequenas quantidades, os primeiros PzKpfw-IV viram acção de combate na Polónia em 1939 e na França em 1940.
No inicio da guerra, os alemães consideravam o Pz.III superior ao Pz.IV, mas mesmo sendo apenas carros de combate de apoio, eles foram muitas vezes utilizados contra os tanques franceses, especialmente a distâncias curtas, onde o seu canhão era mais eficiente. Os carros 4 também participaram na campanha da Jugoslávia, na invasão da Grécia e estiveram também no deserto.
Como aconteceu com outros veículos alemães, eles foram vistos como pouco eficientes perante os carros russos que começaram a aparecer em 1941 onde em algumas batalhas de tanques, os alemães não conseguiram vencer os tanques russos KV-1, mesmo disparando os seus projecteis a curta distância, e tinham que se apróximar demasiado dos T-34 para os destruirem.
Os alemães ainda fizeram entrar aos erviço a versão E e F, com uma torre com mais blindada, antes de alterarem o canhão principal do carro.

Embora fosse o mais pesado carro de combate alemão até 1941, a série «Ausf.D» do Panzer-IV que representa as várias séries iniciais armadas com canhão curto de 75mm, não tinha a função de lutar contra outros tanques inimigos, mas sim a função de apoio.
É um erro comum quando se fazem comparações na fase inicial da guerra e se compara este veículo blindado, com os veículos blindados de outros países belingerantes, pois o Panzer-IV série-A a série-D não tinha como função principal o ataque contra outras formações blindadas.
Como prova disto, está a organização das unidades blindadas alemãs, que apenas possuiam uma companhia equipada com este tanque em cada batalhão Panzer, enquanto que dispunham de duas ou três companhias equipadas com o Panzer -III, esse sim dedicado à função anti-tanque e destinado a atacar os veículos blindados inimigos.
Apenas 35 unidades do Panzer IV modelo A (18 toneladas) foram produzidas pela Krupp, que ganhou o concurso para o fornecimento deste carro de combate. Novas versões se seguiram com inovações e modernizações essencialmente relacionadas com o aumento da blindagem, dado que o veículo na essência não foi alterado.
O «Panzer IV» ou blindado 4, como lhe chamavam os alemães foi sendo alterado, ainda antes da guerra, surgindo as versões B, C, que foram versões de desenvolvimento. As versões D, E e F foram produzidas em em maior número.
Todas estas versões, mantiveram a mesma função de apoio e por isso estavam armadas com o canhão de 75mm de baixa pressão, o qual era eficiente contra veículos pouco blindados e contra infantaria, mas que tinha dificuldade em perfurar a blindagem dos tanques pesados dos franceses e dos britânicos e mais tarde dos soviéticos.
As séries iniciais do Panzer-IV com canhão curto, foram produzidas nos seguintes numeros:

Versão A: 35 unidades (a partir de Out/1937)
Versão B: 42 unidades (a partir de Abr/1938)
Versão C: 134 unidades (a partir de Set/1938)
Versão D: 231 unidades (a partir de Out/1939)
Versão E: 200 unidades (a partir de Set/1940)
Versão F1: 470 unidades (a partir de Abr/1941)

Versão F2: 175 unidades (canhão L/43) (a partir de Mar/1942)
a versão F 2 é uma versão de transição, pois embora mantenha as características dos restantes veículos, é o primeiro carro a receber o novo canhão longo de 75mm

Total das versões iniciais: 1287 veículos

De tanque de apoio a tanque principal
Quando se verificou em 1940 que o Panzer-III com o seu pequeno canhão de 37mm não era eficiente para destruir os tanques franceses mais pesados ou os tanques britânicos, pensou-se no Panzer-IV como opção para a colocação de um canhão mais potente, o que já tinha sido considerado desde a concepção inicial do tanque, mas embora os estudos para um carro de combate mais pesado tivessem sido recomeçados, eles não receberam especial prioridade.
A opção que se tomou, foi em vez disso a de trocar o canhão de 37mm do Panzer-III por um canhão de 50mm.
No entanto, quando a Alemanha invadiu a URSS em 22 de Junho de 1941, o Panzer-IV com o seu canhão de cano curto, continuava a ser o carro mais pesado que os alemães tinham no terreno, embora a sua função continuasse a ser a de carro de combate de apoio.
Os Panzer-III com canhão de 50mm que os alemães tinham colocado ao serviço, embora superior aos modelos armados com o canhão de 37mm, mostrou ser inutil contra os tanques soviéticos T-34 e KV-1.
Esta evidência leva a que soluções de emegência sejam adoptadas, e mesmo com o seu canhão curto de 75mm, o Panzer-IV vai passar a ser utilizado como tanque principal.
Embora não preparado para o efeito, uma solução de emergência consistiu em distribuir uma nova munição que podia ser utilizada no canhão de cano curto, tendo alguma eficácia cointra carros de combate. A solução era mais cara, e só com as versões seguintes (O F2 é o primeiro Panzer IV a receber um canhão adequado para combater contra blindados).
A solução demora vários meses a aparecer e os primeiros carros armados com o novo canhão (capaz de disparar um projectil ao dobro da velocidade) só começa a ser entregue às unidades Panzer a partir de Março de 1942, nove meses após o inicio da invasão da União Soviética.



PzKpfw IV Ausf. D

Informação genérica:
Numericamente, trata-se do mais importante carro de combate alemão durante a II Guerra Mundial. O Panzer.IV foi o unico tanque alemão produzido durante toda a guerra, e provavelmente durante mais tempo que qualquer outro carro de combate durante o conflito.
Inicialmente o Panzer-IV era um tanque de apoio, com um canhão de 75mm destinado não a perfurar a blindagem dos tanques inimigos, mas sim a atacar a infantaria inimiga em pontos fortificados, onde uma peça de alta velocidade não tinha grande utilidade. A função de atacar os blindados inimigos estava aliás destinada ao Panzer-III (mais pequeno).
Mas a partir de 1941, com a invasão da União Soviética, os alemães entenderam que o armamento de 37mm e de 50mm dos seus tanques Panzer-III não era suficiente para derrotar a blindagem dos tanques russos T-34 e KV-1, que embora estivessem operacionais apenas em pequenas quantidades, foram considerados como uma ameaça temível.
Tendo chegado à conclusão de que o Panzer III (por definição o veículo destinado à função anti-tanque) era muito pequeno para colocar canhões maiores, foi decidido que o Panzer-IV (como também era conhecido o PzKpfw-IV) seria o principal tanque alemão na luta contra a Rússia.
A partir de 1941, e como resultado da invasão da URSS o Panzer IV, que era o maior tanque alemão, mas não tinha sido concebido para atacar blindados, começa a ser modificado com o objectivo de alterar completamente a sua função. .
Logo no inicio da Operação Barbarosa (e de emergência), a industria alemã produziu uma munição especial, que podia ser disparada do canhão KwK-37-L/24 e ser eficiente contra os tanques russos, mas mesmo assim as suas prestações não eram vistas como suficientes.
Pouco mais tarde os Panzer IV passaram receber um canhão de 75mm de alta velocidade (Ver PzKpfw IV/F), o qual foi posteriormente modificado para um cano do mesmo calibre mas ainda mais longo.
O Panzer IV não era claramente o mais eficiente carro de combate alemão, mas ele foi mantido em produção durante muito tempo nas linhas de montagem alemãs por absoluta falta de opções. Mesmo quando Hitler decidiu fechar as linhas de produção do Panzer IV os generais alemães opuseram-se porque a industria não conseguia produzir suficientes números de tanques Panther (PzKpfw-VI) e Tiger (PzKpfw-V).
O Panzer-IV esteve ao serviço durante toda a guerra e mesmo em 1945 ainda havia várias unidades ao serviço
Notar que o chassis do Panzer IV foi utilizado para várias versões adicionais que são descritas separadamente, como por exemplo o canhão de assalto «Sturmgeschutz-IV», ou o caça-tanques «Panzerjager-IV», entre outros.

terça-feira, 21 de julho de 2009

PzKpfw IV F2 / G


PzKpfw IV Ausf. F2 com um canhão de 75mm L43


PzKpfw-IV F2 / G (Panzer IV)
Carro de combate leve (Krupp)


Fabricante: Krupp - Alemanha
Tripulação: 5
Comprimento: 5.91 - Largura: 2.86M - Altura: 2.68M
Peso vazio: 22000Kg. - Peso preparado para combate: 23500Kg.
Motor/potência/capacidades
Sistema de tracção:Lagartas
Motor: Maybach HL 120TRM 12V Potência: 300 cv
Velocidade máxima: : 40 Km/h - Velocidade em terreno irregular: 16 Km/h
Tanque de combustível: N/disponível Autonomia máxima: 210Km


Armamento básico
- 1 x 75mm KwK / StuK-40 L/43 (Calibre: 75mm - Alcance estimado de 1.3Km a 1.3Km)
- 2 x 7,92 Dreyse L/57 MG-34 (Calibre: 7.92mm - Alcance estimado de 1.2Km a 1.2Km)

Sistema de radar auxiliar:
A versão «G» foi uma versão intermédia do tanque IV. A principal característica deste modelo é a utilização de um canhão de cano longo (43 calibres) em substituição do canhão de cano curto que caracterizava este carro de combate alemão, inicalmente concebido para a função de apoio e não para a função de combater directamente os tanques inimigos.
Na verdade o primeiro modelo a receber este novo canhão foi o modelo F, que ficou conhecido como modelo «F2».
A produção da série «F2» foi o resultado da urgente necessidade de um carro de combate com um canhão de 75mm de alta velocidade de disparo e que pudesse perfurar a blindagem dos tanques russos como o T-34 e o mais pesado KV-1.

Um novo tanque e uma nova utilização táctica
Quando o Panzer IV modelo «F2» em Março e o modelo «G» em Maio aparecem na frente de batalha[1], eles aparecem como carros de combate completamente novos, pois a sua função principal deixou de ser a de tanque de apoio, para passar a ser o carro de combate principal da Alemanha, que tinha sido inicialmente desenhado para ser um tanque dedicado a dar apoio aos blindados contra posições de infantaria, passou de um momento ao outro a ser o principal tanque alemão.

Um tanque para enfrentar o T-34
A introdução do Panzer IV G, deu às unidades blindadas da Wermacht uma sensação de segurança e invulnerabilidade que está documentada. Depois dos reveses do Inferno de 1941, em que os alemães tinham recuado na frente de Moscovo, as tropas blindadas estavam convencidas de que dispunham agora de um carro de combate capaz de combater com o T-34 de igual para igual. Essa vantagem teórica está expressa no sentimento das unidades alemães que em 1942 avançaram pela Ucrânia até Estalinegrado.

Mas na realidade embora com uma qualidade de construção elevada, tipica das fábricas alemãs, o projecto não permitia aumentar muito mais a potência da sua arma principal, embora o projecto tivesse sido levado ao limite com as versões seguintes com a introdução do canhão de 75mm e 48 calibres.
Além do armamento, o modelo «G» do Panzer IV também se caracterizou por mais um aumento e reforço na blindagem, nomeadamente frontal, e os últimos modelos «G», além do canhão L/48 também receberam saias adicionais de protecção.
Embora armados com o novo canhão longo, estes carros de combate continuavam a ter capacidade para utilizar a munição mais antiga, adequada para lutar contra posições de infantaria ou para disparar contra viaturas não blindadas. Esta capacidade foi explorada durante os combates do final de 1942 em Estalinegrado, em que várias unidades blindadas estavam equipadas com estes modelos e foram utilizadas nos combates de rua contra ninhos de metralhadoras e posições fortificadas pelos soviéticos.
Inicialmente foram produzidos 1275 (modelo SdKfz 161/1) veículos equipados com o canhão L/43, introduzidos a partir de Maio de 1942 e numa sub-série mais pequena, foi posteriormente introduzido o canhão L/48 (mais longo e com maior alcance) numa série que totalizou 412 unidades, introduzida a partir de Março de 1943 (modelo SdKfz 161/2).


PzKpfw IV Ausf G com o canhão L/43, menor em comprimento e de menor alcance.

PzKpfw IV Ausf G com o canhão L/48, mais longo e de maior alcance.


Informação genérica:

Numericamente, trata-se do mais importante carro de combate alemão durante a II Guerra Mundial. O Panzer.IV foi o unico tanque alemão produzido durante toda a guerra, e provavelmente durante mais tempo que qualquer outro carro de combate durante o conflito.
Inicialmente o Panzer-IV era um tanque de apoio, com um canhão de 75mm destinado não a perfurar a blindagem dos tanques inimigos, mas sim a atacar a infantaria inimiga em pontos fortificados, onde uma peça de alta velocidade não tinha grande utilidade. A função de atacar os blindados inimigos estava aliás destinada ao Panzer-III (mais pequeno).
Mas a partir de 1941, com a invasão da União Soviética, os alemães entenderam que o armamento de 37mm e de 50mm dos seus tanques Panzer-III não era suficiente para derrotar a blindagem dos tanques russos T-34 e KV-1, que embora estivessem operacionais apenas em pequenas quantidades, foram considerados como uma ameaça temível.
Tendo chegado à conclusão de que o Panzer III (por definição o veículo destinado à função anti-tanque) era muito pequeno para colocar canhões maiores, foi decidido que o Panzer-IV (como também era conhecido o PzKpfw-IV) seria o principal tanque alemão na luta contra a Rússia.
A partir de 1941, e como resultado da invasão da URSS o Panzer IV, que era o maior tanque alemão, mas não tinha sido concebido para atacar blindados, começa a ser modificado com o objectivo de alterar completamente a sua função. .
Logo no inicio da Operação Barbarosa (e de emergência), a industria alemã produziu uma munição especial, que podia ser disparada do canhão KwK-37-L/24 e ser eficiente contra os tanques russos, mas mesmo assim as suas prestações não eram vistas como suficientes.
Pouco mais tarde os Panzer IV passaram receber um canhão de 75mm de alta velocidade (Ver PzKpfw IV/F), o qual foi posteriormente modificado para um cano do mesmo calibre mas ainda mais longo.
O Panzer IV não era claramente o mais eficiente carro de combate alemão, mas ele foi mantido em produção durante muito tempo nas linhas de montagem alemãs por absoluta falta de opções. Mesmo quando Hitler decidiu fechar as linhas de produção do Panzer IV os generais alemães opuseram-se porque a industria não conseguia produzir suficientes números de tanques Panther (PzKpfw-VI) e Tiger (PzKpfw-V).
O Panzer-IV esteve ao serviço durante toda a guerra e mesmo em 1945 ainda havia várias unidades ao serviço
Notar que o chassis do Panzer IV foi utilizado para várias versões adicionais que são descritas separadamente, como por exemplo o canhão de assalto «Sturmgeschutz-IV», ou o caça-tanques «Panzerjager-IV», entre outros.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Elisabeth Volkenrath (Guarda feminina dos campos)


Elisabeth Volkenrath (1919 — Hameln, 13 de dezembro de 1945) foi uma integrante da SS, que trabalhou como supervisora em diversos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.
Elizabeth treinou para a função em Ravensbruck e em 1943 foi para Auschwitz-Birkenau como guarda feminina, onde tomou parte em abusos físicos a prisioneiros, enforcamento e torturas.

Transferida para Bergen-Belsen no final da guerra, lá foi presa pelos britânicos, sendo levada a julgamento por crimes de guerra, junto a outras guardas femininas dos campos da morte, entre elas, "A Besta de Bergen-Belsen", Irma Grese. Foi condenada à morte e enforcada na prisão de Hameln em 13 de dezembro de 1945, aos 26 anos de idade.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Depoimentos e deposições sobre a SS Irma Grese


Depoimentos

Os Testemunhos, durante o Tribunal de Bergen Belsen, consistiam em 6 depoimentos de testemunhas e de 9 deposições. Outras declarações sobre Irma Grese foram feitas posteriormente através de livros ou de recordações de sobreviventes.

Testemunhas: Dora Szafran, Ilona Stein, Abraham Glinowieski, Hanka Rozenwayg, Lidia Sunschein, Helen Klein.

Depoentes: Gertrude Diament, Gitla Dunkleman, Klara Lobowitz, Katherine Neiger, Erika Thuna, Edith Trieger, Luba Triszinska, Sonia Watinik e Helene Kopper.


— Dora Szafran (judia polonesa - 22 anos) testemunhou que viu Grese e Kramer baterem em internos. Grese era uma das poucas mulheres SS a quem era permitida a carregar uma arma. No Campo "A", Bloco 9, Grese atirou em duas garotas que pularam por uma janela depois que foram selecionadas para a câmaras de gás.



— Ilona Stein (judia húngara - 21 anos): — "Enquanto estava em Birkenau eu vi Grese fazendo seleções com o Dr. Mengele de pessoas que seriam enviadas à câmara de gás. Nestas "revistas" Grese mesma escolhia as pessoas que seriam mortas desta forma. Em uma seleção, por volta de agosto de 1944, havia entre 2000 e 3000 selecionados. Nesta seleção Grese e Mengele foram responsáveis pela seleção destes à câmara de gás. As pessoas escolhidas podiam, às vezes, furtivamente sairem da linha e se esconderem sob suas camas. Grese mandava encontrá-las e bater nelas até o desfalecimento e arrastá-las para dentro da linha outra vez. Eu vi tudo o que descrevo. Era de conhecimento geral neste acampamento que as pessoas selecionadas iam para a câmara de gás." Declarou também que em uma ocasião uma mãe estava conversando com sua filha em outro setor. Desafortunadamente Grese as viu. Ela chegou de bicicleta antes que a mãe pudesse ir embora e ela foi severamente espancada e chutada por Grese.



— Abraham Glinowieski (judeu polonês): disse que Grese era a líder do Campo “C”. “Eu a via diariamente, e quando chegavam os transportes da Hungria, ela enviava milhares e milhares de pessoas, doentes e saudáveis, para as câmaras de gás. Ela vinha em inspeções para os respectivos blocos, e, de acordo com seus caprichos, ela batia nas pessoas com uma vara se elas a repugnassem. Ela também carregava uma pistola.”


— Hanka Rozenwayg (judia polonesa) disse que quando fazia parte de um Kommando e que não agradou Lothe com seu trabalho, reclamou posteriormente com Grese que lançou um cão na testemunha que rasgou a sua roupa e fez marcas em seu corpo que ainda estava lá.


— Lídia Sunschein (judia polonesa, 23 anos) disse: “Eu posso dizer pouco sobre Grese em Auschwitz, mas em Belsen onde ela era Arbeitsdienstfuhrerin, ela se comportou muito mal. Em uma ocasião, quando nosso Kommando estava voltando do trabalho, uma das garotas perdeu um pedaço de trapo de seu bolso. Como castigo a acusada (Grese) fez todo o Kommando correr de cá para lá, abaixando-se e levantando-se durante meia hora.”..... Examinada pelo Major Cranfield: "Você viu alguma mulher S.S. além de Bormann com estes cães policiais?" — "Em 1945 eu vi muitas mulheres com cães, mas quando Bormann estava alí apenas um ou dois estavam ao lado dela. "Você viu Grese em Auschwitz com um destes cães policiais?" " — Não."


— Helen Klein (judia polonesa - 21 anos) disse que Grese "fabricava esportes" com os internos, fazendo com que eles caissem e se levantassem por duas horas e vários tipos de torturas. Se alguém parava, Grese batia então com um chicote de equitação que sempre carregava consigo.


— Gertrude Diament (judia tchecoslovaca, 21 anos) disse que Grese era também responsável pela seleção de vítimas para as câmaras de gás de Auschwitz. Grese, tanto em Auschwitz como em Belsen, depois que se encarregou dos grupos de trabalho, batia em mulheres com bastão e quando elas caíam no chão ela então as chutava severamente com suas pesadas botas, causando frequentemente sangramento. A evidência de Gertrud Diament contra Grese com respeito a responsabilidade em selecionar as vítimas à câmara de gás era vaga.



— Gitla Dunkleman (judia polonesa, 40 anos) disse que Grese era a chefe das mulheres SS e que tinha visto ela cometer muitos atos de brutalidade. Quando fazia a revista, antes de fazer a lista de chamada, a depoente a viu golpear e chutar mulheres. Ela era a pior mulher da SS.


— Klara Lebowitz (tchecoslovaca, 31 anos) declarou que Grese era encarregada da lista de chamada e que ela fazia os internos ficarem de joelhos por horas e segurando pedras sobre suas cabeças, e que ela chutava pessoas no chão. Se um erro era feito na contagem, os prisionerios tinham que esperar até encontrar o erro. Nenhum tempo era concedido para comer e muitas pessoas desmaiavam. Os internos não podiam carregar qualquer coisa em seus bolsos e Grese mandava parar frequentemente a contagem e iniciava uma procura nos bolsos dos internos, batendo impiedosamente se ela encontrasse alguma coisa. A depoente viu frequentemente a acusada, com o Dr. Mengele selecionar pessoas para a câmara de gás e trabalhos forçados na Alemanha. E quando via uma mãe e filha ou irmãs tentando ficar unidas para serem transportadas juntas, ela podia bater nelas até cairem inconscientes. Irma disse em seu julgamento que batia em pessoas mas nunca até elas cairem por terra e que levava um chicote e um bastão para manter a disciplina. Na alegação de Lebowitz contra Grese, o advogado perguntou se, ainda que a acusação fosse honesta, não era absolutamente um disparate sugerir que a lista de chamada era realizada de seis a oito horas a cada dia?



— Katherine Neiger (judia tchecoslovaca, 23 anos) disse que Grese era a chefe das mulheres SS em Auschwitz; ela fazia a lista de chamada que durava seis horas, e durante este tempo ela fazia as prisioneiras segurarem uma grande pedra com suas mãos sobre suas cabeças. Ela usava luvas antes de bater nas pessoas com seus punhos.


— Erika Thuna (judia austríaca) disse que Kramer e Grese, ambos tomavam parte na seleções da câmara de gás de Auschwitz.


— Edith Trieger (judia tchcoslovaca, 20 anos) testemunhou que no final de sua estada em Auschwitz, fraulein Grese observando algumas húngaras aguardando a chegada de um transporte, ordenou que voltassem às barracas, mas antes que elas pudessem se mover, ela disparou até matá-las. Ela viu também Grese, golpear e chutar, pelas costas, prisioneiros que tentavam escapar da seleção para a câmara de gás.



— Luba Triszinska (judia russa) declarou que Irma andava de bicicleta junto com o seu cão de ataque.Triszinska relatou que quando mulheres ou moças estavam exauridas pelo trabalho, ela podia lançar o seu cão sobre elas; algumas não sobreviviam ao cão. Como contra alegação de Triszinska a corte ouviu a acusada que negou que tinha um cão, o que foi confirmado por outros acusados e outras testemunhas do campo de Auschwitz.


— Sônia Watinik (judia polonesa, 24 anos), disse que viu Irma Grese, lançar seu cão sobre sua amiga Hanka Rosenwayg. ”Eu vi o cão morder Hanka no ombro.”



— A estória de Helene Kopper (35 anos) sobre o comando de punição, a corte referiu a evidência de que Grese fora encarregada do comando de punição por unicamente dois dias e encarregada do Straussenbaukommando, que era um tipo de comando de punição, por duas semanas. A alegação de Kopper, em seu depoimento juramentado, foi de que ela era encarregada do comando de punição em Auschwitz de 1942 até 1944, mas na audiência, ela disse que a acusada era encarregada da companhia de punição que trabalhava fora do campo, por sete meses. Ela falhou em harmonizar aquelas duas declarações. Seria provável que Grese fosse encarregada, a única supervisora, de um forte comando de 800 homens da SS, e Herschel (o comandante), apenas para auxiliá-la? Kopper também alegou que era prática de Grese escolher prisioneiras judias e ordenar que fossem para o outro lado da cerca de arame. Quando as prisioneiras aproximavam da cerca elas colocavam os guardas em alerta; mas como Grese escolhia geralmente estrangeiras, elas não entendiam a ordem para se afastarem, e como continuavam, eram então metralhadas. Ela foi responsável por 30 mortes em um dia, resultado de suas ordens para ultrapassarem a cerca. Isto ocorreu várias vezes. Se isto realmente tivesse acontecido não deveria existir uma confirmação dessa estória?



— Miriam Weiss (iugoslava, 24 anos): — Eu reconheço No. 2 na fotografia Z/4/2 como uma mulher que era Oberaufseherin ou Rapportfuehrerin durante 1943-44 em Auschwitz. Eu também lembro dela em Belsen. Eu agora sei que seu nome é Irma Grese.


— Anita Lasker: esta testemunha disse que Irma Grese carregava um chicote em Belsen e um revólver em Auschwitz. A testemunha adicionou, porém, que ela não a viu bater em ninguém.


— Segundo a sobrevivente Magda Blau, quando ela veio para Ravensbrück, fraulein Grese parecia ser uma jovem de 18 ou 19 anos, com um doce rosto redondo e duas longas tranças. Depois Magda foi separada, mas quando viu novamente Grese ela lhe pareceu transformada, sua atitude estava mudada; seu uniforme era imaculado, em sua cintura havia uma brilhante pistola prateada, ela parecia diferente. Seu cabelo era perfeitamente penteado, maquiagem perfeitamente aplicada e com um forte perfume, fraulein Grese podia espalha o terror, tanto físico como psicológico entre as mulheres.



— Gisella Perl, médica dos prisioneiros, observou que Grese gostava de chicotear jovens bem desenvolvidas, nos seios, os quais acabariam infectados. Uma vez que isso ocorria, Gisella ordenaria a operação e Grese poderia tornar-se sexualmente excitada, somente observando o sofrimento da mulher. Nenhum anestésico era utilizado, e a vítima poderia gritar de agonia durante todo o procedimento.


—Isabella Leitner e Olga Lengyel informaram que Irma Grese tinha aventuras bissexuais com prisioneiras.


— Perto do começo da libertação, duas irmãs ouviram que havia sobra de batatas perto da cozinha. Durante a noite elas foram até lá, mas foram surpeendidas, pelas costas, por Irma, que golpeou suas cabeças simultaneamente.



— Tauba Biber, libertada em Belsen: - "Eu estava na barraca que estava perto do portão. Um dia eu olhei para fora e eu podia ver o Lagerkommandant [o Comandante do Campo, Josef Kramer], com uma faixa branca no braço, e Irma Grese com os seus braços para cima e alí tinha um tanque com soldados, mas alí não havia nenhum alemão. Nós percebemos que algo estava acontecendo. Assim eu voltei para o alojamento e falei para minha irmã, "Nós estamos livres". Mas ela estava tão doente que ela não pôde entender o que estava acontecendo. Ela faleceu oito dias depois da libertação."



— Vera Alexander - Prisioneira judia, Auschwitz (sobre Irma Grese): - "Ela não foi para a escola. Ela era a filha de um fazendeiro. Eu pensei que ela era uma pequena boba de um país áspero. Ela se tornou alguém só porque ela estava usando um uniforme e tinha um chicote em sua mão." - "Ela atirou em uma mulher morta que estava parada em frente a de mim. Seu cérebro pousou em meu ombro. O próximo dia, depois das seleções, Irma veio me ver. Eu recusei falar com ela. Ela perguntou, 'Você está brava comigo?' eu respondi, ' Você quase me matou ontem'. Ela respondeu: 'Alguém a menos, não importa…"



— Rena Kornreich Gelissen - (Durante o verão de 1944, o trabalho de Rena era pendurar a roupa lavada para secar; foi durante este tempo que ela teve vários encontros com Irma Grese).
— "Você sabe o que vai acontecer quando a guerra acabar e nós conquistarmos o mundo"? [pergunta a carcereira Grese] — "Não, eu não". Minha pele fica fria apesar do sol ardente. — "Todos vocês judeus serão enviados para Madagáscar". Ela não usa um tom mau de voz, ela diz isto como um fato positivo, como se ela sabe que sem dúvida este é o modo que será. "Você será escrava para o resto de sua vida. Você trabalhará o dia todo em fábricas e será esterilizada assim você nunca pode ter criança".... Há um rugido em meus ouvidos, um trem correndo por minha cabeça. Por que eu apenas não morro agora mesmo se eu for ser uma escrava para o resto de minha vida? Eu tropeço cegamente a partir da sua voz, lutando contra a secura ardente de meus olhos. Eu escondo meu rosto entre as camisetas brancas limpas e curtas. Eu queria arrancá-las de seus cabos e gritar às nuvens escuras que invadiam o céu sobre nós. Eu quero terminar tudo isto, fazendo cessar a eterna monotonia... fazendo tudo parar. Eu quero dormir para sempre e nunca acordar. Então eu me escuto dizendo, Venha Rena, você nem sequer sabe mesmo se você vai sobreviver amanhã - por que preocupa além disso?



Lembrança do Tenente John Randall, então um oficial do SAS, 24 anos, em 15 de abril de 1945.

"... Depois de 30 minutos somente em Belsen, Randall e seu motorista foram unidos por outro jipe do SAS que levava o comandante do esquadrão, Major John Tonkin, e o seu Sargento-Major, Reg Seekings, um SAS veterano do Norte da África, Sicília, Itália e França...

Como os quatro homens do SAS permaneciam olhando esta visão lamentável e horrorizante, eles foram abordados por Josef Kramer, o comandante do campo, e uma mulher em um uniforme azul escuro. " Kramer apresentou-se e a mulher, Irma Grese, responsável pelas prisioneiras, e para nossa surpresa nos ofereceu uma excursão pelo campo ",' diz Randall. '' Nós os seguimos. Nós empurramos a porta aberta de uma das cabanas e fomos dominados pelo fedor. Figuras emagrecidas nos perscrutaram, entre medo e surpresa, das filas de beliches. Jazendo entre eles, nos mesmos beliches, estavam corpos mortos. ''

Enquanto eles saíam de uma das cabanas, os quatro homens viram um guarda do campo usando a coronha de seu rifle para bater em um prisioneiro. " Reg Seekings virou para John Tonkin, e pediu permissão para intervir e ensinar ao guarda uma lição.'' Isto foi concedido sem hesitação. '' Assim Reg foi encima do guarda e bateu em sua face. Ele se levantou e foi golpeado então por outro soco na cabeça. Então Tonkin ordenou a Kramer e Grese irem para dentro da sala da guarda, e disse, "Agora nós tomamos conta, nem você, e qualquer guarda que tentar tratar um prisioneiro com brutalidade será castigado ".

Nenhum dos membros do SAS viu Kramer ou Grese novamente. Eles foram depois presos, julgados e executados por crimes de guerra. "...

O Portão do Inferno
Por Alexander van Straubenzee
(Arquivo: 10/04/2005)- Extrato

Albert Pierrepoint - As execuções


As Execuções

Infelizmente para minha vida pessoal, essa emoção foi uma dolorosa vergastada em mim. O anúncio que eu teria que enforcar os condenados do staff de Belsen foi feito pelo quartel-general do Marechal de Campo Montgomery na Alemanha, com uma publicidade mais completa que tinha sido dado oficialmente às execuções em minha própria terra. Porque o que pessoas sentiam sobre Belsen, e porque elas me viram como, de certo modo, o próprio vingador substituto, não só para as injustiças da SS mas por todas suas aflições às mortes nesta longa guerra, eu me tornei em alto grau uma personalidade muito familiar, e muito agitado em particular. Eu tinha tantos repórteres e fotógrafos acampados na soleira de minha porta que um assassino fortemente suspeito seria preso antes. Eu fui perseguido até meu avião no meio do aeródromo de Northolt por um bando de jornalistas que eram para mim tão mal recebidos quanto uma turba linchada. "Ele deveria evitar chamar a atenção... Ele deveria entender claramente que sua conduta e comportamento geral devem ser respeitáveis e discretos..." Isso era como eu tinha sido treinado para ser um executor, e eu poderia ver isso tudo passando à bordo.

Eu pousei em Buckeburg às cinco horas em uma tarde de dezembro. Eu fui recebido por um major e seu motorista em um velho jipe. Nós fizemos uma corrida de quarenta minutos na escuridão, no país devastado do livro de história do Flautista da cidade de Hameln. No assento da parte de trás do jipe eu estava gelando do vento e encharcado com chuva. Quase imediatamente depois de minha chegada houve uma conferência com oficiais do exército britânico, alguns dos quais tinham sido secundados do Serviço de Prisão H.M. Algumas discussões eram prolongadas, porque eu tinha que conduzir a execução de treze pessoas em um dia. Onze eram de Belsen, e dois outros tinham sido condenados a morte pela Comissão de Crimes de Guerra. Este era um total revolucionário na história da moderna criminologia britânica, e a operação exigia cuidadoso planejamento. Estava de acordo que os preparativos deveriam ser integralmente deixados em minhas mãos. Eu tinha trinta e duas horas para completar os meus preparativos.

Eu levantei cedo na manhã de 12 de dezembro e olhei para fora da janela para um frio, úmido prospecto. "Brr!" Lá haverá um enforcamento hoje! Eu me lembrei das crianças da velha Yorkshire dizendo o que eu tinha usado na manhã quando nós tínhamos mudado de casa em Lancashire trinta anos atrás. Eu encontrei meu caminho para a prisão e bati no portão. Um oficial alemão da prisão, vestido muito asperamente, perguntou meu serviço com impressiva vivacidade. Eu comecei a explicar, mas ele não entendia o inglês. Eu fui salvo por um Sargento Major Regimental na Comissão de Controle para a Alemanha, tão elegante quanto o colorido de seu uniforme apertado recentemente. Eu escolhi imediatamente o RSM O'Neil. Ele falava o alemão fluente, e em alguns minutos ele estava me escoltando por toda a prisão. "Eu nunca vi uma execução", ele me disse jovialmente, "mas eu vou ver uma, porque eu sou seu assistente." Eu fiquei muito assustado em terem me dado um principiante, mas como se mostrou, eu não poderia ter esperado por um homem melhor. Eventualmente ele era para ser meu assistente em aproximadamente duzentas execuções de criminosos de guerra na Alemanha.

Neste dia dentro da prisão de Hameln os Engenheiros Reais tinham construido e terminado há pouco a câmara de execução, ao fim de um das alas. Colocada à mão direita de um longo corredor que unia as celas dos condenados, as quais eram as menores celas em que eu já tinha visto seres humanos confinados.

Eu tive meu primeiro olhar rápido dos prisioneiros de Belsen, todos perscrutando silenciosamente pelas barras das portas de suas celas, enquanto eu caminhava ao longo do corredor. O primeiro que eu vi foi Josef Kramer, o antigo comandante. Eu o reconheci imediatamente.

Enquanto eu ia por este corredor sombrio eu podia ouvir o escavar e raspar da pá do lado de fora do pátio da prisão. Ele era um ranger e som insuportável no que teria sido, caso contrário, um silêncio mortal. Eu olhei por uma janela e vi uma equipe de trabalhadores cavando ativamente treze sepulturas durante a manhã seguinte. Não havia nenhuma dúvida de que os prisioneiros condenados também pudessem ouvir este som. Eu me queixei disto a um funcionário da prisão, mas foi dito que nada poderia ser feito para parar isto. "As sepulturas têm que ser cavadas e o chão está congelado. Está cheio de cascalhos e pederneiras, e nós temos que fazer o trabalho hoje para estar pronto a tempo."

Eu fui testar a forca. Nós produzimos várias quedas que me convenceram de que estava satisfatório. Eu caminhei pelo corredor, e os treze rostos de Belsen ainda estavam apertados às barras, assistindo-me. Nunca em minha experiência eu vi uma multidão mais lastimável de prisioneiros condenados. Eu soube que os seus crimes eram monstruosos, mas não podia ajudar sentindo pesar por eles. Quando eu mencionei isto a alguns jovens soldados britânicos que estavam presentes eles disseram, "Se você tivesse em Belsen sujeito a este destino, você não seria capaz de sentir pesar por eles."


Irma Grese e Josef Kramer

Depois do almoço eu enfrentei um trabalho que eu nunca tive que fazer antes como um executor. Eu tive que supervisionar a pesagem e a medição dos treze condenados, com o método para dar certo minhas quedas. Na Inglaterra isto era normalmente feito por oficiais da prisão antes que eu tivesse chegado em cena. No fim distante do corredor, com as faces sempre nos encarando, nós montamos algumas balanças e um medidor de altura que nós tínhamos levado do hospital da prisão. Seis oficiais alemães na vigilia da morte ficaram para nos ajudar. "Guardas, tragam Josef Kramer", ordenou o RSM.

Kramer estava na cela mais distante, e quando a porta foi destrancada ele saiu firme e começou a caminhar pelo corredor. O passo dele estava lento, e eu olhei por muito tempo para a original "Besta de Belsen." Em caricaturas ele tinha sido descrito freqüentemente como meio-homem, meio-gorila. Ele era certamente um animal de um homem com uma estrutura volumosa de ossos. O seu cabelo estava rigorosamente cortado. Ele tinha um queixo quadrado e uma boca dura. Os seus pequenos olhos escuros eram fixos juntos debaixo de sobrancelhas muito cabeludas. Ele tinha um nariz largo com narinas largas e as orelhas dele estavam fixadas tão achatadas em sua cabeça que de longe ele parecia não ter nenhuma. Estava claro que seus meses na prisão tinham reduzido consideravelmente sua estrutura.

O'Neil lhe perguntou em alemão "Você é Josef Kramer?" e o homem disse "Sim." "Idade?" "Trinta e nove." Isto foi traduzido imediatamente para mim. "Religião?" Eu estava ocupado em fazer uma nota sobre o físico dele, e sempre lamentei que eu não pedisse uma tradução de como ele respondeu aquela pergunta. "Pise nas balança", disse RSM O'Neil.

Kramer hesitou. Ninguém disse uma palavra, mas esperamos. Ele não foi estimulado por um cano de arma, nem espancado, nem chicoteado sobre a balança, nem casualmente levou um tiro sob irritação. Em seu julgamento um sobrevivente de Belsen tinha dado evidência que, no dia antes da chegada dos britânicos, ele e dois outros tinham atirado casualmente com uma Schmeisser fora da janela de cozinha em um grupo de prisioneiros e matou vinte e dois. Kramer pisou na balança, teve a sua altura tomada, e foi mandado de volta à sua cela.


Fritz Klein

"Tragam Fritz Klein", ordenou RSM O'Neil. Eu estava interessado, exculpavelmente eu penso, em sua aparência, porque em uma longa carreira este foi o primeiro médico que eu já tinha encontrado e que tinha sido condenado por assassinato. Dr. Fritz Klein que era graduado com Kramer em Auschwitz, tinha feito a inspeção matutina diária dos prisioneiros nus que tremiam na praça do campo, decidia quem deveria ser enviado para os bordéis e quem deveria ser enviado para a câmara de gás naquele dia e quem deveria ser distribuido para o trabalho do outro dia. As vítimas nuas escolhidas para a câmara de gás eram então conduzidas, trezentas de cada vez, em caminhões do tipo tipper, eram dirigidas à rampa das câmaras de gás. Os caminhões chegavam ao término e os corpos enviados esparramados abaixo da rampa na câmara de gás. Eram continuas as entregas até a cota de três mil seres humanos estava cumprida ao dia. O gaseamento e cremação seguiam. Kramer, na sua defesa tinha dito que não poderia ter havido uma câmara de gás no campo ou ele teria sabido sobre isto. Depois ele disse que se "havia uma câmara de gás ele não tinha feito parte alguma selecionando as vítimas." Dr. Klein, que também tinha matado os prisioneiros com injeções hipodérmicas mas, no dia antes da chegada britânica, de repente apareceu com uma pulseira da Cruz Vermelha que diz que o doente "deve ser muito bem tratado", declarou em sua defesa "Eu compreendo que eu sou responsável por milhares de mortes, mas uma pessoa não pode protestar se a pessoa estiver no Exército." Este homem, cinqüenta e cinco anos, magro na aparência e verdadeiro em sua maneira, vinha agora enquanto caminhava vivamente pelo corredor e obedecia eficientemente as formalidades.

Afinal nós terminamos anotando os detalhes dos dez homens, e RSM O'Neil ordenou "Tragam Irma Grese." Ela caminhou fora de sua cela e veio em nossa direção sorrindo. Ela parecia como uma jovem bonita como alguém sempre desejaria encontrar. Ela respondeu as perguntas de O'Neil, mas quando ele perguntou sua idade ela pausou e sorriu. Eu achei que nós ambos estavamos sorrindo com ela, como se nós percebêssemos o embaraço convencional de uma mulher que revela a sua idade. Eventualmente ela disse "vinte e um", que nós sabíamos estar correto. Esta jovem loira de vinte e um, que habitualmente levava um chicote de equitação para chicotear os prisioneiros até a morte, tinha, isso foi declarado por um dos guardas de sua categoria no campo, sido responsável por pelo menos trinta mortes em um dia. O'Neil lhe pediu que pisasse na balança. "Schnell!" ela disse - "Rápido"


Elisabeth Volkenrathh
Elisabeth Volkenrathh foi chamada. Ela, também, tinha feito as seleções para as câmara de gás. Aparte disso, os sobreviventes disseram que sua conduta geral para com os prisioneiros a tinham tornado a "pior e mais odiada mulher no campo." Eu refleti que se ela pudesse superar Irma Grese ela deveria ter sido formidável. Ela era uma mulher bonita. Ela não reluziu o sorriso que Irma Grese tinha dado, mas ela parecia firme, embora nervosa. Ela foi seguida por Juana Bormann, "a mulher com os cães", que habitualmente lançava os seus cães de caça em prisioneiros para rasgá-los em pedaços Ela andou com dificuldade pelo corredor parecendo velha e desfigurada. Ela tinha quarenta e dois anos, somente um pouco cima de cinco pés altura, e ela tinha o peso de uma criança, cento e uma libras. Ela estava tremendo quando nós a pusemos na balança. Em alemão ela disse "Eu tenho minhas emoções."

Com os registros empacotados debaixo de meu braço eu voltei para meu quarto e gastei as próximas duas horas trabalhando no comprimento de altura que seria requerida para cada das pessoas condenadas. Não era uma tarefa simples, porque eu tinha que permitir o ajuste de altura depois de cada execução e este controle extendia até certo ponto na ordem na qual eu escolhia os prisioneiros. Eu estava muito ansioso em não confundir nenhuma das alturas. Teria sido fácil, nesta execução múltipla sem precedente, ter chamado o condenado na ordem errada. Mas, porém isto complicou a operação, eu tinha chegado à decisão de que eu tinha que escolher as mulheres primeiro. As celas dos condenados estavam tão perto do patíbulo que os prisioneiros não sabiam mas ouviam os sons repetidos da queda. Eu não desejava sujeitar as mulheres por muito tempo a isto. Eu determinei levar a cabo a execução das mulheres, isoladamente, no começo, e seguir com duplas execuções para os homens.

Eu ainda tive que voltar para a câmara de execução para fazer os testes finais, atrás além do corredor com os olhos fitando. Nós passamos por um ensaio completo, e eu sabia que inevitavelmente o condenado sabia o que estava acontecendo.

Este foi um dia pesado. Como nós desejamos voltar ao rancho RSM O'Neil disse "Albert, eu li sobre execuções, mas eu nunca pensei que havia tanto trabalho a fazer." "Sim." Eu concordei, "não é tão fácil como você leu."

Eu fui despertado por um ordenança às seis horas da manhã seguinte. Sexta-feira 13 de dezembro de 1945. Eu fiz meu caminho para a prisão e encontrei O'Neil e outro oficial. As testemunhas obrigatórias começaram a chegar, e finalmente o oficial britânico em cargo de execução entrou. Ele era o Brigadeiro Paton-Walsh quem eu tinha conhecido em dias antes da guerra como Deputado Governador de Wandsworth. Com ele estava a Senhorita Wilson, Deputado Governador de Manchester, que tinha que assistir porque as mulheres estavam para ser enforcadas. A poucos minutos da hora o Brigadeiro perguntou, "Você está pronto, Pierrepoint?" eu respondi "Sim senhor." "Cavalheiros, sigam-me," ele disse, e a procissão começou.

Nós subimos os degraus às celas onde os condenados estava esperando. Um oficial alemão à porta que conduzia ao corredor com a porta aberta e nós andamos além da fileira de rostos e para dentro da câmara de execução. Os oficiais permaneceram em atenção. O Brigadeiro Paton-Walsh estava com o seu relógio de pulso erguido. Ele me fez o sinal, e um suspiro de respiração libertada foi audível na câmara, eu caminhei pelo corredor. "Irma Grese," eu chamei.

Os guardas alemães rapidamente fecharam todas as grelhas dos doze orifícios de inspeção e abriu uma porta. Irma Grese saiu. A cela era muito pequena para eu entrar, e eu tive amarrá-la no corredor. "Siga-me," eu disse em inglês, e O'Neil repetiu a ordem em alemão. Ela entrou na câmara de execução, contemplou por um momento os oficiais que estavam de pé em volta dela, então caminhou para o centro do alçapão onde eu tinha feito uma marca de giz. Ela permaneceu muito firmemente nesta marca, e quando eu coloquei o capuz branco sobre sua cabeça ela disse com voz desfalecida "Schnell." Após o impacto da queda, o médico me seguiu para dentro do fosso e pronunciou a sua morte. Depois de vinte minutos o corpo foi retirado e colocado em um esquife pronto para o enterro.

Dentro de outros dez minutos eu tinha preparado a corda para Elisabeth Volkenrath, e eu entrei no corredor e chamei o seu nome. Uma meia hora depois eu tinha enforcado Juana Bormann. Nós pausamos para uma xícara de chá, e eu determinei sobre o ajuste do patíbulo para as execuções duplas. Eu chamei "Josef Kramer, Fritz Klein." Kramer saiu primeiro de sua cela. Embora ele tivesse perdido duas medidas em peso desde que ele foi capturado, ele ainda era um homem poderoso, e eu estava agradecido quando eu tinha amarrado seguramente atrás dele os seus grossos pulsos. Eu o encaminhei ao alçapão e pus o capuz branco sobre seu rosto. Eu voltei ao corredor para amarrar Klein, então o trouxe para a câmara de execução. Na armadilha, Klein media apenas até o ombro de Kramer. Eu ajustei as cordas e precipitei a alavanca. Esta primeira execução dupla levou só vinte e cinco segundos. Mas havia demoras inevitáveis entre as operações. Foram levados os corpos dos dois homens da corda, colocados em esquifes e levados imediatamente para fora para enterro no piso fora das celas dos condenados. A manhã progrediu lentamente, mas o serviço terminou antes de uma hora. Porém, a escuridão do inverno já estava sobre nós quando RSM O'Neil veio a mim antes do último enterro duplo e disse: "Houve um engano - nós temos um caixão curto para um dos homens." Nós embrulhamos o corpo em lençóis e o colocamos na sepultura. Ele era a décima terceira pessoa a ser enforcada na sexta-feira o décimo terceiro ante treze testemunhas oficiais, e não havia nenhum caixão para ele. Mas em Belsen eles tinham sido enterrados por bull-dozers, e sem lençóis.

Na noite eu fui para uma festa de rancho. Os garotos sugeriram que eu deveria receber um memento de minha visita na Alemanha, talvez um relógio gravado. Eu disse que eu deveria estar voltando muito brevemente à Alemanha e estaria orgulhoso em aceitar isto - eu tenho o relógio agora: é uma posse entesourada. Pela manhã eu voei para Londres e enfrentei a turba da imprensa mais uma vez. Eu voltaria para a Alemanha muitas vezes, como o único executor britânico sempre chamado, freqüentemente sob condições difíceis daquela selva do após-guerra por pessoas desalojadas e desesperadas, o Major Thompson, do departamento do Judge Advocate General's do Ministério da Guerra, disse que eles estavam colocando meu nome para um elogio, eu disse que eu recusei ser considerado, e isto foi aceito, entretanto eu estava alegre de saber que o Sargento Major Regimental depois O'Neil foi reconhecido. A guerra, com toda sua cinzenta deslealdade e desumanidade, estava passando ao passado, com exceção do exemplo admirável final de Nuremberg. Quando um jornalista perguntou para Anne qual era a minha memória mais vívida disto ela respondeu - com precisão absoluta - que era o conhecimento de que eu tinha dado um aperto de mão em Winston Churchill. Mas, por tanto luto, a guerra não acabaria por muito tempo. Não somente lamento, mas o pensamento de vingança, não pôde ser acalmado, Todo Natal, durante anos depois daquele ato final na Prisão de Hameln, eu recebia um envelope simples com uma nota de cinco libras nele. Na primeira ocasião havia um pedaço de papel incluído, com uma única palavra BELSEN. Depois não houve mensagem. Então o presente parou, presumivelmente por morte. Quem enviava isto? Que pessoa, com que emoção? Ele encontrou paz?


Extraido de:
Executioner: Pierrepoint
Albert Pierrepoint
Extrato das páginas 145 a 151

Irma Grese - "A Bela Besta"

Resumo:
Irma Grese (Wrechen, 7 de outubro de 1923 — Hameln, 13 de dezembro de 1945) foi uma supervisora de prisioneiros nos campos de concentração de Auschwitz-Birkenau, Bergen-Belsen e Ravensbruck, durante a Segunda Guerra Mundial. Apelidada de "A Cadela de Belsen" pelos prisioneiros deste campo por seu comportamento sádico e perverso, foi uma das mais cruéis e notórias criminosas de guerra nazistas, executada na forca pelos Aliados ao fim do conflito.

Filha de um leiteiro filiado ao Partido dos Trabalhadores Alemães Nacional-Socialistas e de u'a mãe suicida, Irma deixou a escola aos quinze anos de idade, devido ao pouco empenho aos estudos e a seus interesses fanáticos em participar da Bund Deutscher Mädel (Liga da Juventude Feminina Alemã), que seu pai não aprovava. Entre outras atividades, trabalhou dois anos num sanatório da SS e tentou, sem sucesso, se formar como enfermeira.

Em 1942, com 18 anos, se apresentou como voluntária para treinamento no campo de Ravensbruck, o que fez com que fosse expulsa de casa pelo pai, contrário a este trabalho. Ente 1943 e 1945, ela atuou em Auschwitz, Ravensbruck e Bergen-Belsen, tres campos nazistas de extermínio, sendo presa em 15 de abril de 1945 pelos britânicos no último deles, junto a outros integrantes da SS.

Irma foi um dos principais réus no julgamento de criminosos de guerra de Belsen, realizado entre setembro e dezembro de 1945. Sobreviventes dos campos testemunharam contra ela, acusando-a de assassinatos e torturas. Sempre usando pesadas botas, chicote e um coldre com pistola, entre outros atos Irma era conhecida por jogar cachorros em cima dos presos para devorá-los, assassinar internos a tiros a sangue frio, torturas em crianças, abusos sexuais e surras sádicas com chicote até a morte. Em seu alojamento após a captura do campo, foram encontrados abajures com as cúpulas feitas de pele humana, de tres prisioneiros judeus assassinados e escalpelados por ela.

Condenada à forca - aos 22 anos a mais jovem condenada à morte sob leis britânicas no século XX - foi executada na prisão de Hameln, Alemanha, em 13 de dezembro de 1945 e suas últimas palavras ao carrasco foram: "Schnell!" (Rápido!).



Irma Ilse Ida Grese nasceu a 7 de outubro de 1923, em Wrechen, um pequeno vilarejo na região rural de Mecklenburg Vorpommem Brandenbrug, entre as cidades de Feldberg e Fürstenwerder. Seu pai, Alfred Anton Albert Grese, nascido em 1899, pessoa de índole conservadora, era agricultor e se filiou ao partido nazista em 1937. Sua mãe, Bertha Grese (Berta Wilhelmmine Winter, nascida em 1904), descobre que seu marido tinha tido encontros com a filha de um dono de um bar e, aparentemente, por causa deste motivo, comete suicídio em 1936, bebendo ácido clorídrico. Em 1939 seu pai casa-se novamente. Sua segunda esposa, uma viúva, trás com ela 4 crianças. Eles tem depois uma filha. Irma foi a terceira de cinco crianças (Alfred; Lieschen, nascida em 1921; Irma, nascida em 1923; Helene, nascida em 1926 e Otto, nascido em 1929). Sua irmã, Helene, foi depoente em seu julgamento depois da guerra. Irma, juntamente com sua irmã Helene, desejaram ingressar na BDM (Bund Deutscher Mädchen - Liga das Moças Alemãs), uma agremiação feminina da Juventude Hitlerista. Na pequena Wrechen, com 175 habitantes, não havia nenhum grupo da BDM. Seria necessário ir até a cidade vizinha de Fürstenhagen de bicicleta. Porém, Alfred proibiu suas filhas de irem até lá, assegurando que isto era muito perigoso. Em 1938 ela terminou a escola elementar e trabalhou durante seis meses em uma fazenda, e em seguida em uma loja, em Lychen, por seis meses. Aos 15 anos fez um estágio, que durou dois anos, em um hospital para convalescentes, mais tarde sob a direção da SS, em Hohenlychen. Ela tentou tornar-se enfermeira mas uma mudança de trabalho não lhe permitiu e foi trabalhar em uma leiteria em Fürstenburg. Em julho de 1942, ainda com 18 anos, ela tentou novamente ser enfermeira, mas com uma nova troca de trabalho (provavelmente devido a um intercâmbio de trabalho, sob a tutela do diretor do hospital de Hohenlychen, o SS Dr. karl Gebhardt), foi enviada para o campo de concentração de Ravensbrück, embora protestasse contra isso. Esse campo foi usado como um campo de treinamento para muitas guardas femininas SS, tendo como instrutora chefe de treinamento, a jovem Dorothea Binz. Tecnicamente as guardas femininas eram classificadas como SS-Gefolge, sendo apenas um grupo auxiliar e não membros, propriamente dito, da Ordem SS, que era uma elite tipicamente masculina. Eram pessoas contratadas pelo governo (Reichsangestellte), que recebiam salário por seus serviços mediante um contrato. Como Aufseherin (Supervisora), Irma recebia um salário de 54 Reichsmarks. Ela ficou alí até março de 1943 quando foi para Auschwitz Birkenau, na Polônia, onde permaneceu até 18 de janeiro de 1945. Em Auschwitz, trabalhou no início nos Campos “A” e “B”, atuando em várias atividades, incluindo operadora de telefone na sala do bloco do comando, trabalhou dois dias no Strafkommando (um comando de punição). Também trabalhou durante duas semanas, em um outro comando, o StraussenbauKommando (companhia de abertura de estradas), também de punição. No outono, na direção do jardim (Gartenführerin), durante dois meses. Em dezembro foi para o escritório de censura do correio. Em maio de 1944 supervisionou o “Campo C”, parte de Birkenau, com 20 a 30.000 pessoas, então ocupado por mulheres judias polonesas e depois por húngaras, onde ficou até o final do ano. No dia 1º de janeiro de 1945 foi promovida e transferida para Auschwitz I, onde supervisionou, por duas semanas, dois blocos da ala dos homens. Em 18 de janeiro, devido a evacuação do campo, frente ao avanço do exército russo, ela retornou ao campo de concentração de Ravensbrück antes de ser transferida, em março, a seu pedido, para Bergen-Belsen (seu namorado, o SS Oberscharführer Franz Wolfgang Hatzinger estava em Bergen-Belsen). Hatzinger era Chefe do Departamento de Construção na administração de Auschwitz I. Ele foi transferido para Bergen-Belsen por volta de fevereiro de 1945, porém morreu de tifo em 23 de abril de 1945. O comandante Josef Kramer concede a ela permanecer em Belsen. Em Belsen, entre outras atividades, teve o encargo de Arbeitsdienstführerin (líder de grupo de trabalho), coordenando turmas de trabalho. Durante o período que vai da primavera de 1942, quando ainda trabalhava em Fürstenburg, ela visitou a familia apenas duas vezes, sendo que a última vez foi em 1943, quando discutiu com o pai e foi expulsa de casa, pois não a queria envolvida na SS. Ela não voltou mais para casa.


Irma Grese e Josef Kramer

O Julgamento e as Acusações
Belsen foi libertada pelos ingleses em 15 de abril de 1945. Nesse dia, depois de um cessar fogo, acordo feito pelo exército alemão, permitiu-se que os ingleses tomassem controle do campo e no centro de treinamento do exército alemão, adjacente ao campo. Uma testemunha da libertação, Lolo Lewis, soldado britânico de 20 anos, recordou que quando ele chegou em Belsen, o comandante Kramer e sua assistente, Irma Grese, estavam nos portões, em posição ereta, para recebê-los. Embora a maior parte do pessoal do campo já tivesse escapado no dia anterior, 80 dos membros do pessoal permaneceram em seus postos com ordem de ajudarem os britânicos, inclusive o comandante. No dia 17 todos os membros da SS foram desarmados e presos. Também foram presos 12 dos Kapos, prisioneiros de confiança, apontados como supervisores de campo. A partir do dia 18 iniciou-se o sepultamento dos mortos que estavam espalhados pelo campo. Os britânicos forçaram deliberadamente os membros da SS a usarem unicamente suas mãos para o sepultamento de cadáveres de prisioneiros que morreram de doenças contagiosas. Em um documentário filmado, um oficial britânico disse que os alemães estavam sendo punidos, não sendo permitido que usassem luvas para manusearem os corpos. Durante 10 dias foram sepultados cerca de 13.000 corpos. Vinte destes 80 guardas morreram depois que os ingleses assumiram o controle, sendo que a maior parte deles morreram de tifo, mas outros foram envenenados com ptomaína, na comida servida pelos britânicos. Em 29 de abril, Irma e outros 44, foram transferidos para a prisão de Celle, cidade a 16 km a noroeste do campo, onde permanceram até o pronunciamento do julgamento de 17 de novembro. Eles foram acusados de crimes de guerra pela Corte Militar Britânica, sob Autorização Real de 14 de junho de 1945, com várias acusações de assassinato, maus tratos aos internos dos campos de concentração de Auschwitz e Bergen Belsen. Foram realizadas duas cortes para os julgamentos, sendo que a 1ª Corte relatava as atividades de Bergen-Belsen e a 2ª Corte as atividades de Auschwitz (ambas dentro do período de 1º de outubro de 1942 a 30 de abril de 1945). Os julgamentos foram realizados na cidade de Lüneburg, a poucos kms ao norte do campo, entre 17 de setembro a 17 de novembro de 1945. Todos os acusados foram representados por um procurador judicial. Irma Grese foi defendida pelo Major L.S.W. Cranfield.

No 1º processo, o de Belsen, o promotor Cel. T.M. Backhouse aludiu o seguinte contra Irma Grese: "Nr. 9, Grese, foi Aufseherin em comandos de trabalho e temporariamente Aufseherin de punição de mulheres, em Auschwitz. Ela foi descrita como a pior mulher no campo, e não havia um tipo de crueldade que aconteceu naquele campo pelo qual ela não foi conhecida como sendo responsável. Ela participou regularmente de seleções para a câmara de gás, fazendo punições por conta própria, e quando ela veio para Belsen ela continuou precisamente do mesmo modo. Ela, também, especializou em lançar cães em pessoas."


Irma Grese na Prisão de Celle

Muitos dos sobreviventes de Bergen Belsen testemunharam contra Irma, que rejeitou a culpa contra várias acusações. Eles forneceram extensos detalhes de assassinatos, torturas, crueldades e excessos sexuais empregados por Irma Grese durante seus anos em Auschwitz e Bergen-Belsen. Sobreviventes de Auschwitz testemunharam que ela usava habitualmente botas, carregava um chicote e uma pistola e que estava sempre acompanhada por um cão feroz. Declararam que seus atos eram de puro sadismo e que tinha satisfação sexual com atos de crueldade, batendo em prisioneiras com seu chicote de equitação e usando prisioneiros para satisfazer suas inclinações bissexuais sádicas. Apesar de tais afirmações, sobre seus "excessos sexuais", publicadas em livros, posteriores a guerra, tais fatos nunca foram realmente comprovados, pois eram declarações isoladas, relatadas principalmente por Olga Lengyel e Gisela Perl, e não de conhecimento geral. Falou-se que ela usava métodos físicos e emocionais para torturar os internos dos campos e que batia em prisioneiras até a morte e atirava em outras a sangue frio. Afirmou-se que tinha sido encontrado em sua barraca, em Birkenau, um abajour, que ela mandou fazer, com a pele de três prisioneiras, porém, tal abajour nunca foi visto ou foi encontrado qualquer vestígio de sua existência. As acusações de assassinato foram feitas em depoimentos juramentados, mas nenhuma delas foram confirmadas, pois não foram citados nomes das vítimas. As mais sérias acusações contra ela eram de que ela estava presente quando os prisioneiros eram selecionados para a câmara de gás, em Birkenau, e que ela tinha participado em forçar as mulheres a fazer fila para a inspeção do Dr. Mengele. Ela admitiu em seu julgamento chicotear prisioneiros e também bater com uma vara, apesar de saber que ambas as práticas eram contrárias as regras do campo. Negou que tivesse um cão, que tivesse espancado até a morte ou atirado em algum prisioneiro. Negou ter selecionado prisioneiros para as câmaras de gás, embora estivesse presente na formação das filas e, fato importante, é que somente os médicos tinham autoridade de fazerem seleções. Muitas das acusações, tanto durante o julgamento, através de depoimentos juramentados, ou, até mesmo publicados depois da guerra, nunca foram realmente comprovados e, desta forma criou-se um mito de beleza e crueldade, hoje conhecida como a "Bela Besta". Entretando, questionada, durante o julgamento, se era culpada ou não, disse: “ Sem culpa."


Nº 8, Herta Ehlert; Nº 9, Irma Grese; Nº 10, Ilse Lothe

Fala Final de Defesa do Major Cranfield a favor de Irma Grese
"Foi declarado por Diament que Grese era encarregada de comandos de trabalho em Auschwitz e Belsen, mas a evidência dos acusados e de outros tinham provado que ela tinha sido Arbeitsdienstführerin no campo e não tinha sido encarregada de tal comando. Em Auschwitz ela declarou que ela tinha tido um Kommando vegetal por um mês ou dois, e houve uma certa divergência entre a promotoria e ele mesmo quanto a saber se ela teve ou não um Strafkommando; aparte destes dois comandos de trabalho ela tinha obrigações no campo o tempo todo. O Conselho alega que as acusações de Diament sobre a severidade de seu tratamento aos internos era exagerada e era evidente que tinham sido a linguagem conduzida pelo interrogador. Dunklemann tinha declarado que a chefe feminina S.S que lidou com ela tinha aproximadamente 30 anos, mas naquele momento Grese teria tido 20 e eles tinham ouvido de uma testemunha que em um campo de concentração uma mulher de 20 olhou sua idade dela duas vezes. Dunklemann alegou que Grese batia nos internos com um bastão de borracha e os chutava – negado pela acusada – durante a Chamada por não ficarem paradas ou outros assuntos triviais durante as revistas. Como poderia esta mulher que permanecia ela mesma nas revistas e não estava encarregada, sabia porque o castigo era infligido? Quatro outras declarações de jovens mulheres com idade de 20, 26, 20 e 27 confirmaram o que Dunklemann disse. O Conselho desejou recorrer novamente às circunstâncias nas quais estas acusações em comum tinham sido feitas em Belsen, e que enquanto Dunklemann identificava a pessoa acusada os outros não, e eles estavam de fato em Auschwitz somente durante três semanas. Um mês depois que elas fizeram seu primeiro depoimento elas fizeram um segundo, identificando Grese por uma fotografia. Klara Lebowitz alegou que a acusada era encarregada da Chamada que acontecia duas vezes por dia e às vezes durava três ou quatro horas. Será que o Tribunal acredita que qualquer pessoa que tinha que fazer uma lista de chamada permitiria que estas revistas durassem oito horas por dia? Isso não era uma tolice absoluta? A deponente declarou então que Grese frequentemente fazia os internos ficarem por horas a fio sobre seus joelhos. Grese tinha admitido fazer nas ocasiões os internos ajoelharem na Chamada, mas a razão era fazer a contagem mais fácil. Será que o Tribunal considera isto um crime de guerra por ordenar internos a se ajoelharem de forma que eles pudessem ser contados?

Katherine Neiger declarou que a Chamada começava as 03:00 horas e ia até as seis horas. Alguém iria começar uma lista de chamada na escuridão e deixaria isto continuar até as seis horas se ela tinha que assistir a isto? Isso era obviamente falso, e o Tribunal tem que aceitar a evidência da acusada e da testemunha de que as revistas começaram as 06:00 horas e estes nunca iam por períodos muito longos. Neiger ficou em Auschwitz durante somente dez dias, mas ela disse que pessoas foram mantidas no Campo C por cerca de uma quinzena. Como ela poderia ter possivelmente conhecimento disto?

Trieger, que, quando ela foi para Auschwitz, teria tido 17 anos, disse em sua deposição que Grese estava em Auschwitz desde junho de 1942, mas a acusada, quando no box das testemunhas, disse que chegou em março de 1943, e isso não foi interrogado pelo erudito promotor. Triszinska alegou que a acusada tinha um cão, mas Grese negou e sua negação tinha sido confirmada por outros dos acusados e outras testemunhas de Auschwitz. O seu nome não tinha sido determinado a este respeito por Kopper quando no box das testemunhas. Triszinska também alegou que ela tinha visto Grese no Bloco 25 ajudando e usando força para carregar as mulheres para dentro dos caminhões. Grese havia negado que ela estivesse no Bloco 25, e Volkenrath tinha dito que aquele bloco estava fora dos limites para todas as Aufseherinnen. Kopper, em sua declaração, disse que Grese tinha chegado em Ravensbrück em 1941, e quando no box das testemunhas ela pôs isto até mais cedo – 1940. Isto era incompatível com a história da acusada quando ela disse que ela tinha chegado em Ravensbrück em 1942, e isso não tinha sido provocado pelo promotor. Kopper alegou que Grese tinha sido uma Blockführerin em Auschwitz mas em evidência, ela disse que ela era encarregada das revistas de todos os blocos. Estava perfeitamente claro o que fazia uma Blockführerin. Como pôde Kopper, com toda a sua experiência, razoavelmente ter cometido um engano estúpido como este? Em evidência, Grese disse que ela só tinha sido encarregada do kommando de punição durante dois dias e encarregada do Strassenbaukommando durante duas semanas, mas Kopper alegou que ela era encarregada do Kommando de punição de 1942 a 1944, e encarregada da companhia de punição que trabalhava fora do campo durante seis meses. Ele tentou conseguir que Kopper reconciliasse estas duas declarações, mas ela foi incapaz de fazer isso. A história da acusada era que durante aquele período ela fazia obrigações no telefone nos Campos A e B, mas quando isto foi colocao para Kopper, Kopper tinha dito que somente homens fizeram estas obrigações. Se isso fosse verdade, Grese teria vindo aqui e contaria uma mentira muito estúpida sem objetivo nisto? O Conselho submeteu que o Kommando de punição do qual Kopper falou era o Kommando Vístula, e naquele Kommando estava Lohbauer. Em nenhum momento Grese teve qualquer coisa que fazer com o Kommando Vístula. Ela teria tomado conta por si mesma, a única Aufseherin, do forte Kommando 800, como um homem S.S., sob ela, de acordo com a história de Kopper? Kopper descreveu como os prisioneiros eram ordenados a irem até a cerca e eram fuzilados pelas sentinelas à taxa de 30 por dia. Era provável que algum interno pudessem enganar e desafiar uma sentinela, e se 30 prisioneiros tinham sido mortos a cada dia, não haveria em algum lugar alguma confirmação daquela história? O Conselho então revisou partes adicionais da declaração de Kopper de que o que ela mantinha era absurdo e só provava que ela era uma mentirosa viciada e que nenhuma palavra que ela disse poderia ser confiada por um momento, deixando de ser usada como evidência contra Grese.

Com respeito à evidência oral, Szafran alegou que ela viu Grese bater em uma jovem em Belsen com um chicote de equitação. Esta foi a única alegação de algum espancamento em Belsen por ela. Grese foi perfeitamente franca e disse que ela tinha batido em internos com uma vara e intencionava ferí-los mas que em nenhum momento em Belsen ela carregou uma vara ou golpeou um interno com qualquer coisa diferente de sua mão. Não havia nenhuma menção deste incidente no depoimento de Szafran. Ilona Stein tinha dado evidência de disparos em três pessoas durante uma revista quando elas tentaram se esconder. Grese notou as tentativas e ordenou a um dos guardas S.S. atirar. Mas em sua declaração somente uma mulher foi falada, e o Conselho sugeriu que isto foi uma confusão de dois ou três incidentes e não era o tipo de evidência suficiente para apoiar uma acusação de assassinato. Aparte disso, estava provado que uma Aufseherin tinha algum poder para dar uma ordem a um guarda S.S. para atirar em uma mulher? O segundo assunto do qual Stein tinha falado era sobre uma mãe e filha que estavam falando sobre a cerca de um setor a outro. Era possível que se Grese tivesse visto duas mulheres fazendo algo contrário dos regulamentos do campo ela teria ido e poderia as ter golpeado, mas a evidência na declaração era de que ela tirou o seu cinto de couro e bateu na mulher com ele. Aquele cinto de couro tinha foi manufaturado para o Tribunal, e ele era tão leve e inconsistente que uma pessoa dificilmente poderia ter conhecimento de uma pessoa que foi furada com isto, permitindo só bater.

A testemunha Klein tinha dito que Grese tinha lhes dado fazer esporte por meia hora, i.e. treinamento físico, em Belsen, e alegou que enquanto isto acontecia ela os batia e infligia várias torturas. Nos interrogatórios estes não tinham chegado a nada, mas tinha sido colocados para fazer a melhorar a história. Durante todo o caso este exagero tinha estado em evidência e quando desafiado não tinha chegado a nada. Os espancamentos mencionados por Bimko tinham se transformado em uma caixa de opiniões. Em três ou quatro ocasiões tinha sido feita uma pergunta perfeitamente simples a Bimko no interrogatório – e ela era foi uma das poucas com inteligência – e ela tinha mentido e recusou a responder no caso em ela deveria dizer uma palavra que poderia estar a favor de algum dos acusados.

Muito se ouviu falar sobre tiros no campo de Belsen, mas muito pouco sobre isso em Auschwitz. A única sugestão que alguém teria sido alvejado em Auschwitz foram as acusações contra Grese. Comparado com Belsen, Auschwitz era normalmente um campo organizado e competentemente administrado, e lá não houve confirmação de todos os incidentes de tiros. Os acusados do Conselho estiveram em Belsen durante um tempo muito curto, e devido as condições caóticas do campo haviam muito poucas partes de funcionamento; seus três acusados em Belsen estavam todos preocupados com comandos de trabalho."


Fala Final do Promotor Cel. T.M. Backhouse contra Irma Grese
A próxima acusada, Grese, é uma mulher curiosa, que é bastante franca sobre quase tudo o que foi alegado contra ela. Ela foi treinada em Ravensbrück, e ela disse que tinha se alistado na SS. Se ela estava alistada na SS, por que você acha que seu pai bateu nela e a expulsou de casa? A irmã de Grese disse que quando elas eram crianças elas queriam estar no Bund Deutscher Mädchen mas o pai delas não permitiu, mas Grese tinha ambições de estar dentro do Movimento da Mocidade Nazista antes dela ter que trabalhar fora, e quando ela volta vestida com o uniforme de um campo de concentração seu pai lhe bate e expulsa de casa. Esta é uma das duas coisas deque ela estava fazendo contra a sua vontade, ou ela lhe falava de coisas que estavam acontecendo e o que ela estava fazendo. Ela se graduou de Ravensbrück para Auschwitz, e seu primeiro trabalho, de acordo com ela, tinha o dever de telefonista na sala do Blockführer, embora Kopper dissesse que eles nunca empregaram mulheres naquele dever. Ela admite ter o encargo do Strafkommando durante dois dias, porque, eu submeti, Völkenrath que já tinha dito o mesmo. Kopper diz que ela tomou conta deste Kommando durante uns sete meses. Você se lembra da história de enviar judeus para buscarem coisas além do arame e a história de Kopper do resultado da investigação. Você pode imaginar Kopper inventando tal história extraordinária? Então ela toma conta do kommando da jardinagem, e você tem sua história de que ela estava montada em sua bicicleta com o cão. Ela nega sempre ter tido um cão, e diz que embora ela tivesse uma bicicleta ela nunca usou porque isto não era permitido a uma Aufseherinnen. Você tem as histórias de Rozenwayg, Watinik e Triszinska dela estar encarregada deste Kommando, com Lothe como Kapo e lançando um cão nelas. Então ela voltava para seus deveres do campo e ia para a agência postal. Está claro na evidência de Hoessler que ela também tinha que ajudar o Blockführer pela manhã quando os destacamentos de trabalho vinham, e novamente você tem vários incidentes que aconteceram quando ela estava agindo como Blockführerin. Então, bem de repente, esta jovem garota é colocada no encargo de Aufseherinnen no Campo C, o campo onde o gaseamento de húngaras está a ponto de começar. Ela é encarregada de 30.000 pessoas. Você ouviu falar do chicote de celofane que, ela disse, foi feito para ferir. No Campo C havia longas Chamadas que às vezes duraram de três a quatro horas. Ela disse: "Eu levava uma vara e se as pessoas evadissem destas seleções eu os arrastava de volta, e as chicoteava". Ela é bastante franca sobre isto, e em sua própria confissão eu sugiro que, em Auschwitz, há ampla evidência para mostrar que ela estava maltratando, enquanto batia e prolongava a Chamada. Então ela vem a Belsen e é feita Arbeitsdienstführerin, e novamente você tem as histórias como ela batia nas pessoas. Ela permanecia no portão batendo nelas, ela bateu em garotas que trabalhavam na cozinha, e ela batia nas pessoas e as faziam fazer esporte. Ela disse: "Embora eu carregasse um chicote e arrebatava pessoas em Auschwitz, pela mesma razão eu nunca fiz isto em Belsen. Eu sempre usei minhas mãos em Belsen, embora em Belsen os prisioneiros estavam tão horrendos que eu não gostava de tocá-los". Até agora, na medida que esta garota está preocupada, sua irmã disse que quando ela era uma criança ela era uma criança amedrontada e uma pequena covarde que corria, e ela adotou esta doutrina do Nazismo no qual o covarde se transforma no tirano. Ela foi para Ravensbruck e lá ela achou sua coragem, porque as pessoas desafiadas não batiam de volta. Em Auschwitz ela tinha seu revólver e chicote de celofane, e com cerca de 21 anos ela tem o encargo de 30.000 mulheres. Ela não fez nenhum segredo disto. Ela batia nelas, e quando ela veio para Belsen você pode duvidar que ela continuava agindo do mesmo modo?"

A Sentença

No 54º dia do julgamento foi pronunciada a sentença do tribunal. Os acusados tiveram que ficar em grupos nos degraus da segunda e terceira bancada. Irma Grese foi conduzida junto a Elisabeth Volkenrath e Johanna Bormann. Elas foram consideradas culpada em ambas as cortes. Dos acusados, foram declarados culpados 8 dos homens e 3 mulheres, sentenciados a morte e outros 19 a vários termos de encarceramento. Foram passadas penas de morte para oito dos homens, que receberam a seguinte sentença:

O PRESIDENTE - "Nº. 1 Kramer, 2 Klein, 3 Weingartner, 5 Hoessler, 16 Francioh, 22 Pichen, 25 Stofel, 27 Dorr. As sentenças deste Tribunal para cada um de vocês de quem eu nomeei há pouco é que vocês sofrerão morte por enforcamento."

Semelhantemente três mulheres receberam a penalidade máxima, com a seguinte sentença:

O PRESIDENTE - "Nº 6 Bormann, 7 Volkenrath, 9 Grese. A sentença deste tribunal é que vocês sofrerão morte por enforcamento."

“Elizabeth Völkenrath, em lágrimas, olhava longinguamente para o alto, com a respiração pesada; Johanna Bormann mergulhou em sí mesma; mas Irma Grese permanceu com o rosto invariável e principiou ir embora. Mulheres da polícia militar conduziram as três mulheres para fora." Ela mostrou pouca emoção do início ao fim quando a sentença de morte foi traduzida para o alemão como “Tode durch den Strang", literalmente, morte pela corda. No dia 22 de novembro os condenados fizeram um pedido de objeção contra o julgamento ao Marechal Montgomery, porém, este rejeitou no dia 8 de dezembro de 1945, todos o pedidos de clemência.

A Execução
Ela, Elisabeth Völkenrath, Johanna Bormann e os oito homens foram transferidos para a prisão de Hameln, na Westfalia, para aguardar a execução. Os sentenciados, juntamente com outros dois homens que foram condenados pela Comissão de Crimes de Guerra, Otto Sandrock e Ludwig Schweinberger, foram albergados em pequenas celas ao longo de um corredor, em cujo final os engenheiros do exército britânico construiram a câmara de execução com o patíbulo.


Albert Pierrepoint

Albert Pierrepoint, (carrasco oficial, executou de 1932 a 1956, cerca de 433 homens e 17 mulheres, dos quais 200 eram nazistas), foi o encarregado para conduzir as execuções, planejada para o dia 13 de dezembro de 1945, numa quinta-feira. As mulheres foram levadas separadas para o enforcamento e os homens foram aos pares para apressar o processo. Visto que os prisioneiros podiam escutar o som do alçapão caindo a cada execução, ficou decidido que Irma, sendo a mais jovem, deveria ser a primeira, para ser poupada do trauma de escutar a execução dos outros.

Em suas memórias, "Executioner", Albert Pierrepoint descreve os fatos relatando os preparativos e as execuções:

Afinal nós terminamos anotando os detalhes dos dez homens, e RSM O'Neil ordenou "Tragam Irma Grese." Ela caminhou fora de sua cela e veio em nossa direção sorrindo. Ela parecia como uma jovem bonita como alguém sempre desejaria encontrar. Ela respondeu as perguntas de O'Neil, mas quando ele perguntou sua idade ela pausou e sorriu. Eu achei que nós ambos estavamos sorrindo com ela, como se nós percebêssemos o embaraço convencional de uma mulher que revela a sua idade. Eventualmente ela disse "vinte e um", que nós sabíamos estar correto. Esta jovem loira de vinte e um, que habitualmente levava um chicote de equitação para chicotear os prisioneiros até a morte, tinha, isso foi declarado por um dos guardas de sua categoria no campo, sido responsável por pelo menos trinta mortes em um dia. O'Neil lhe pediu que pisasse na balança. "Schnell!" ela disse - "Rápido!" ...

...."Eu fui despertado por um ordenança às seis horas da manhã seguinte. Sexta-feira 13 de dezembro de 1945. ... "

...."Nós subimos os degraus às celas onde os condenados estava esperando. Um oficial alemão à porta que conduzia ao corredor com a porta aberta e nós andamos além da fileira de rostos e para dentro da câmara de execução. Os oficiais permaneceram em atenção. O Brigadeiro Paton-Walsh estava com o seu relógio de pulso erguido. Ele me fez o sinal, e um suspiro de respiração libertada foi audível na câmara, eu caminhei pelo corredor. "Irma Grese," eu chamei. Os guardas alemães rapidamente fecharam todas as grelhas dos doze orifícios de inspeção e abriu uma porta. Irma Grese saiu. A cela era muito pequena para eu entrar, e eu tive amarrá-la no corredor. "Siga-me," eu disse em inglês, e O'Neil repetiu a ordem em alemão. Ela entrou na câmara de execução, contemplou por um momento os oficiais que estavam de pé em volta dela, então caminhou para o centro do alçapão onde eu tinha feito uma marca de giz. Ela permaneceu muito firmemente nesta marca, e quando eu coloquei o capuz branco sobre sua cabeça ela disse com voz desfalecida: "Schnell." Após o impacto da queda, o médico me seguiu para dentro do fosso e pronunciou a sua morte. Depois de vinte minutos o corpo foi retirado e colocado em um esquife pronto para o enterro."


Prisão de Hameln

Seguiu-se um rápido sepultamento no pátio adjacente da prisão. Em 1954, seu corpo, assim como o dos demais, foram exumados e transferidos para um cemitério vizinho, Am Wehl, onde seus túmulos permancem até hoje.

Prisão de Hameln, 13.12.1945
Horário das Execuções:
09.34 - Irma Grese
10.03 - Elisabeth Völkenrath
10.38 - Johanna Bormann
12.11 - Josef Kramer e Dr. Fritz Klein
12.46 - Karl Francioh e Peter Weingärtner
13.15 - Intervalo (almoço)
15.37 - Ansgar Pichen e Franz Hössler
16.16 - Wilhelm Dörr e Franz Stöfel

Irma Grese

Herança de 12.12.1945 em Hameln:
Enquanto Irma Grese aguardava sua execução, os bens que ela deixaria eram enumerados na prisão:
Dinheiro: RM 439,65 - Poupança: RM 4.391,57
6 anéis de metal amarelo, 1 cinto de couro, 1 impermeável, 2 pijamas, 1 guarda-pó, 3 camisas, 1 avental, 3 pares de meia-calça, 1 par de sapatos azuis, 1 par de botas altas, 1 vestido, 2 pares de meias, 1 saia, 2 blusas, 1 suéter azul, 1 toalha, 2 calcinhas, 1 sutiã, 1 mochila, 1 carteira, 2 pentes,
1 certidão de nascimento, 1 calça de equitação.

* Irma Grese deixou todos estes pertences às suas irmãs Helene e Lieschen, com excessão de um anel com sua monografia, para Anneli.


quarta-feira, 15 de julho de 2009

Triângulos Roxos - As Vítimas Esquecidas do Nazismo



Enquanto a máquina mortífera do nazismo espalhava o terror pela Europa, milhares de Testemunhas de Jeová(na epocá chamados de Estudantes da Biblia) sofriam perseguição brutal. Por que?
Porque se apegavam às suas crenças e denunciavam corajosamente a crueldade do nazismo. Estavam entre os primeiros as ser lançados em campos de concentração nazistas.Há cerca de 25.000 Testemunhas de Jeová ativas na Alemanha,por volta de 1933.
Em março, começa a funcionar o primeiro campo de concentração, Dachau,onde alguns estudantes da biblia são mandados. Em 1º de abril, toda a literatura religiosa das Testemunhas de Jeová é proscrita na Alemanha. Em junho, a Polícia Estadual da Prússia proscreve a obra e a organização das Testemunhas de Jeová. Algumas Testemunhas de Jeová são enviadas para campos de trabalhos forçados e outras para campos de concentração. A polícia fecha o escritório da Watch Tower em Magdeburgo. Em 16 de agosto, menciona-se pela primeira vez os campos de concentração na revista Golden Age (Idade do Ouro [atua Despertai), publicada pelas Testemunhas de Jeová, de circulação internacional.
Em 7 de outubro de 1934. Testemunhas de Jeová de 50 países, incluindo a Alemanha, enviam telegramas de protesto a Hitler.Depois as Testemunhas de Jeová em toda a Alemanha estão proibidas de trabalhar em qualquer órgão público e são detidasa partior d abril de 1935. Os benefícios provenientes da aposentadoria ou do emprego são confiscados. Os que são casados com Testemunhas de Jeová têm direito por lei de divorciar-se. Filhos de Testemunhas de Jeová são proibidos de freqüentar a escola e são separados dos pais e colocados para serem criados em casas de famílias nazistas ou em reformatórios.
A partir de 1936 os estudantes da biblia são detidas em massa e enviadas aos milhares para campos de concentração. Muitas ficam lá até 1945. Em 12 de dezembro, em uma hora as Testemunhas de Jeová distribuem secretamente, em toda a Alemanha, 200.000 exemplares da Resolução de Lucerna, um protesto contra as atrocidades nazistas.
Adolf Hitler, com punhos cerrados, disse sobre as Testemunhas de Jeová: “Essa raça será exterminada da Alemanha!” Não era uma ameaça vã. Houve muitas prisões. Segundo uma nota confidencial da Polícia Secreta do Estado, da Prússia, de 24 de junho de 1936, “um Comando especial da Gestapo” foi formado para combater as Testemunhas. Depois de ampla preparação, a Gestapo lançou sua campanha para capturar todas as Testemunhas de Jeová e todos os suspeitos de ser Testemunhas. Durante esse ataque, toda a rede de Polícia ficou envolvida, deixando os elementos criminosos à vontade.
Em 1937,Os detentos usaram o triângulo roxo como identificação pela primeira vez no campo de concentração de Buchenwald. Em 22 de abril, a Gestapo determina que todas as Testemunhas de Jeová libertadas da prisão sejam levadas diretamente para os campos de concentração. Em 20 de junho, as Testemunhas de Jeová em toda a Alemanha distribuem secretamente uma "Carta Aberta", que fornece relatos detalhados das atrocidades nazistas.
Há relatórios que indicam que, com o tempo, 6.262 Testemunhas alemãs foram presas. Karl Wittig, ex-autoridade do governo alemão, que ficou preso em vários campos de concentração, escreveu mais tarde: “Nenhum outro grupo de prisioneiros . . . ficou exposto ao sadismo dos soldados das SS como ficaram os Estudantes da Bíblia. Era um sadismo caracterizado por uma infindável cadeia de torturas físicas e mentais, cuja intensidade não há palavras que expressem.”
"O objetivo era destruir esse grupo religioso", diz o Dr. Detlef Garbe, Diretor do Museu Memorial do Campo de Concentração de Neuengamme. "Não deviam sobrar Testemunhas de Jeová na Alemanha." Hitler jurou esmagar esse pequeno grupo de cristãos. Mas não foi possível silenciá-los. As Testemunhas de Jeová "denunciaram desde o começo", diz a professora catedrática Christne king, Vice-Reitora da Universidade de Staffordshire. "Elas denunciaram com uma só voz. E denunciaram com uma tremenda coragem, o que é uma lição para todos nós".
Como judeu polonês, o Dr. Ben Abraham, agora vice-presidente da Associação Mundial dos Sobreviventes do Nazismo, passou cinco anos e meio em campos de concentração onde conheceu pessoalmente várias Testemunhas de Jeová. Ele disse: “A diferença entre as Testemunhas e todos os outros prisioneiros é que, se renunciassem à sua fé e se comprometessem a denunciar os outros que praticavam a mesma crença, seriam soltas na hora. Mas preferiam permanecer presas a renunciar à fé.”O Presidente da Watch Tower(Torrre de vigia), J. F. Rutherford, fala numa rede de 50 emissoras de rádio e denuncia a perseguição dos judeus pelos nazistas em 2 de outubro de 1938. Em 9 e 10 de novembro, os judeus sofrem um ataque em todo o país num pogrom chamado de Kristallnacht (Noite do Cristal).A revista Consolação, publicada pelas Testemunhas de Jeová, na sua edição de 12 de junho de 1940 alerta: "Havia 3.500.000 judeus na Polônia quando a Alemanha começou a sua Blitzkrieg...a destruição deles parece estar em franco progresso."“A guerra nazista contra os judeus visava a sua aniquilação e os deixou com poucas opções para escapar”, explicou o Dr. Abraham J. Peck, Diretor Executivo do Museu do Holocausto de Houston, Texas, EUA. “A perseguição nazista contra as Testemunhas de Jeová visava a erradicação da religião. Por conseguinte, as Testemunhas de Jeová recebiam dos nazistas a oferta de liberdade, caso renunciassem à sua fé. A maioria das Testemunhas preferiu sofrer e enfrentar a morte junto com as outras vítimas do nazismo a apoiar a ideologia nazista de ódio e violência.”
Retirado do documentario:Resistem:As testemunhas de jeová resistem ao ataque nazista-– Pennsylvania : Watch Tower Bible and Tract Society of Pennsylvania, 1997.
Observação: Não se trata de uma consideração de suas crenças religiosas, mas de uma história de pessoas comuns cujas ações ante a tirania levantam importantes questões morais e éticas relativas à pressão social, intolerância e consciência.Poderá ter acesso a este vídeo contatando qualquer Testemunha de Jeová (e isso é bem fácil) geralmente sempre tem uma de casa em casa pregando! Não deixem de assistir esse documentario,muito interessante.
Ass: Daniel Moratori


Site para maiores informações:
http://www.triangulosroxos.org.br/
http://watchtower.org/languages/portuguese/

Chindits

Os Chindits (Oficialmente em 1943 chamados de 77ª Brigada de Infantaria Indiana e em 1944 de 3ª Divisão de Infantaria Indiana) era uma unidade de "Special Service" do Exército britânico na Índia que serviu na Birmânia e na Índia nos anos de 1943 e 1944durante a Campanha da Birmânia na Segunda Guerra Mundial. Seus soldados foram treinados para para operarem como grupos de penetração de longo alcance na selva, operando profundamente atrás das linhas japonesas. A maioria dos membros dos Chindits vinham de unidades do Exército britânico e unidades GURKHAS do Exército britânico na Índia. O pessoal recrutado na Birmânia serviu como tropas de reconhecimento. Pilotos americanos foram anexados aos Chindits, ou serviram especificamente em uma unidade da USAAF formada para apoiar os Chindits em campo.
5 de março de 1944. Nos aeródromos da Índia se encontram alinhados dezenas de planadores americanos. Junto a eles, os chindits de Wingate aguardam o momento de subir a bordo. Formados em colunas, levam equipamento de campanha: uniforme verde, fuzis e pistolas-metralhadoras, morteiros, granadas e punhais Muitos usam barba. Um chapéu de abas largas, de feltro, os protege do sol. A empresa na qual estão todos empenhados tem a denominação de "Operação Assombração" e envolve o vôo noturno em planadores e aviões de transporte de 10.000 soldados e 1.000 animais de carga.
Os aparelhos em vôo sobrevoarão as montanhas da fronteira para, posteriormente, lançar os homens no coração da floresta birmânica. Até aquele momento, com exceção do ataque alemão à ilha de Creta, nunca se presenciara uma operação aerotransportada semelhante. Promotor de tal façanha é o chefe dos chindits, Orde Wingate.
Executando a estratégia de luta na retaguarda defendida pelo chefe inglês, definida por este com a frase "meter-se nas tripas do inimigo", os chindits (nome de um estranho ser mitológico, guardião dos templos, metade leão, metade águia) combateriam internados profundamente no território inimigo, abastecidos permanentemente pelo ar, pelas unidades da aviação americana.



Estoque de suprimento aereo


Os chindits gozavam de uma merecida fama nesse tipo de luta. Em 1943 haviam realizado, com Wingate à frente, uma audaciosa campanha na floresta da Birmânia. Contudo, havia agora uma diferença na operação que acabavam de iniciar. Em 1943, as tropas penetraram na Birmânia, a pé, e foram abastecidas pelo ar. Agora as mesmas tropas seriam transportadas por via aérea. A expedição anterior consistira numa série de incursões levadas a cabo contra vias de comunicação, cumpridas por grupos reduzidos. Agora tratava-se de uma verdadeira invasão pelo ar. Os "fantasmas verdes", como eram chamados pelos japoneses, contariam desta vez com material pesado, transportado pelos aviões. Seus sacrifícios, contudo, seriam os mesmos. Assim são eles descritos por um escritor e militar britânico: "Os soldados dessas colunas errantes necessitavam de resistência mais que nenhuma outra qualidade. Tinham que carregar todo o seu equipamento nas costas: comidas, cobertores, utensílios, equipamentos individuais de primeiros socorros e, além disso, suas armas e munições. Possuíam animais de carga, porém havia pesados aparelhamentos de rádio, morteiros e feridos que deviam ser transportados sobre eles, atados com cordoame especial. Há um limite para o número de mulas que uma coluna pode empregar com rendimento útil. Não restavam, portanto, animais disponíveis para aliviar a carga que os soldados transportavam sobre seus ombros. As enfermidades e os ferimentos eram o problema mais árduo. Era impossível evitar a malária. Não se podiam utilizar mosquiteiros durante a marcha, pois os mesmos não tardavam a virar simples trapos pela vegetação densa da mata. Por outro lado, se os soldados utilizassem cremes contra os mosquitos, ficavam com os poros da pele tapados, enlouquecendo de calor. Outras maldições da selva eram a icterícia, a disenteria, o tifo, e as chagas de Naga (doença própria da região) que se alastravam rapidamente, infeccionando-se e tornando insuportáveis os padecimentos. As costas de alguns soldados estavam cobertas com tiras adesivas para cobrir as feridas. Eram pragas inseparáveis da guerra na selva. As tropas, em todas as zonas, sofreram com elas. As colunas a pé que se encontravam em território inimigo tinham que esperar a chegada de aviões para evacuar suas baixas. A evacuação pelo ar foi o maior serviço que Mountbatten assegurou às suas tropas. Milhares de chindits foram levados aos hospitais da Índia por esse meio. Quando os chindits saíram da mata, depois de cinco meses de combate, estavam exauridos e a maior parte deles havia perdido muitos quilos de peso. Contudo, apesar dos padecimentos sofridos, os homens sentiam plenamente as palavras que seu chefe Wingate lhes dirigiu, um dia antes de morrer: "Algum dia vocês se orgulharão de poder dizer: eu estive ali".
De fato, ali, nas selvas da Birmânia, os chindits escreveram uma das páginas mais brilhantes da história do Exército britânico.


Coluna Chindit


Chindits - O Início
O criador dos Chindits era o Brigadeiro Orde Wingate. Ele tinha um brilhante currículo em ações irregulares atrás da linhas inimigas. Na Campanha da África Oriental de 1940–41, Wingate tinha começado a explorar as idéias que ele usou depois com os Chindits, quando ele criou e comandou um grupo misto de tropas regulares sudanesas e etíopes e partisan abissínios. Conhecida como Gideon Force, eles romperam as linhas de provisão italianas e coletavam inteligência para as forças britânicas. Como Comandante Supremo do Oriente Médio em 1940, o General Wavell tinha dado permissão para a operação da Gideon Force. Wingate obteve sua primeira vitória expressiva ao levar à rendição, com 400 homens, na maioria guerrilheiros sudaneses e etíopes treinados por ele, doze mil italianos. Ele então entrara em triunfo, à frente dos seus etíopes, acompanhado do Imperador Haile Selassié, na capital da Abissínia, Adis Abeba.



Soldado Chindt do 2nd Bn. The Black Watch na Birmânia em 1944. Sua arma é uma carabina de selva Nº 5 Lee-Enfield, que é uma versão curta do rifle padrão Nº4 do Exército britânico. A Nº 5 era usada pelos pára-quedistas na Europa. Infelizmente, o novo modelo deu à arma um recuo violento, tornando difícil dispará-la por períodos prolongados.

Ele usa um uniforme verde, que substitui o caqui nas unidades do Exército britânico que lutaram na selva e tem na cabeça o famosa chapéu de mateiro abas moles, muito como com os australianos e neo-zelandeses e que se tornou um símbolo dos Chindits. Ao fundo um C-47, lançando os tão importantes suprimentos que mantiveram esta força operando atrás das linhas inimigas japonesas.

Depois que a Gideon Force foi desmobilizada, Wavell pediu para que Wingate fosse para a Birmânia em 1942, para que ele planejasse o uso de forças irregulares para operarem atrás das linhas japonesas semelhante a maneira na qual Gideon Force tinha operado na Etiópia. Em lugar de organiza forças irregulares na Birmânia, Wingate passou o tempo dele visitando o país e desenvolvendo a teoria dele grupos de penetração de longo alcance.

Depois de realizar um longo estudo sobre a campanha da Birmânia, o moral do exército inglês, a capacidade do japoneses e a hostilidade aos britânicos pelos habitantes das planícies da Birmânia, Wingate chegou a conclusão que era inviável se montar uma campanha de guerrilha que viessem a dar bons resultados a causa aliada. Mas Wingate acreditada que operações de penetração profunda, realizadas com forças regulares, extremamente móveis, apoiadas e abastecidas pelo ar, operando na retaguarda das linhas inimigas poderiam sim ser extremamente úteis na frente birmanesa. Durante as fases finais da retirada britânica da Birmânia, Wingate teve que voar de volta a Índia. Uma vez em Delhi, ele apresentou as suas propostas a Wavell. O General aprovou os seus argumentos e Wingate pode forma a 77ª Brigada de Infantaria Indiana.

A RAF lança suprimento aéreo para os Chindits


A 77ª foi formada gradualmente na área ao redor de Jhansi durante os meses do verão de 1942. Wingate se encarregou do treinamento das tropas em selvas na região central da Índia durante a estação chuvosa. A metade dos Chindits era de soldados de infantaria britânicos oriundos do 13º Batalhão do King's Liverpool Regiment (nominalmente um batalhão de segunda-linha que tinha um número grande de homens mais velhos), e homens formados na Bush Warfare School na Birmânia que formaram a 142ª Companhia de Comando. A outra porção da força era composta do 3º Batalhão do 2nd Gurkha Rifles e 2º Batalhão do Burma Rifles, uma unidade composta formada de vários batalhões esvaziados de tropas birmanesas que tinham se retirado para a Índia em 1942.

Esta nova unidade recebeu o nome de Chindits. O nome foi sugerido pelo Capitão Aung Thin (DSO) do Exército da Birmânia. Chindit é uma forma corrompida do nome sugerido da besta mítica Birmane (metade leão e metade águia) Chinthé ou Chinthay, que são as estátuas que guardam os templos budistas.


Soldado Chindt do 2nd Bn. The Black Watch na Birmânia em 1944. Sua arma é uma carabina de selva Nº 5 Lee-Enfield, que é uma versão curta do rifle padrão Nº4 do Exército britânico. A Nº 5 era usada pelos pára-quedistas na Europa. Infelizmente, o novo modelo deu à arma um recuo violento, tornando difícil dispará-la por períodos prolongados.

Ele usa um uniforme verde, que substitui o caqui nas unidades do Exército britânico que lutaram na selva e tem na cabeça o famosa chapéu de mateiro abas moles, muito como com os australianos e neo-zelandeses e que se tornou um símbolo dos Chindits. Ao fundo um C-47, lançando os tão importantes suprimentos que mantiveram esta força operando atrás das linhas inimigas japonesas.


Os Chindits não eram uma elite; eles eram soldados perfeitamente ordinários de batalhões perfeitamente ordinários treinados por Wingate para realizarem uma extraordinária tarefas. Só 5% desta Força Especial eram de voluntários. Wingate, talvez o mais não-ortodoxo dos oficiais britânicos, não acreditava que um tipo especial de soldado era requerido para participar das missões de penetração de longo alcance. Wingate acreditava sim que soldados bem treinados e liderados poderiam realizar estas missões.

Wingate treinou esta força como unidades de penetração de longo alcance que seriam abastecidas pelo ar, por aviões de transporte aliados, e apoiadas por caças-bombardeiros e bombardeiros, que iriam substituir a artilharia pesada, no novo conceito de Wingate. Eles penetrariam na selva a pé, confiando essencialmente na surpresa da sua mobilidade, tendo como alvos as linhas inimigas de comunicação (uma tática que o japonês previamente tinha usado com grande efeito em Cingapura e na Birmânia em 1942 contra as forças britânicas).
Debaixo dos olhos de Wingate e dos comandantes sobreviventes da primeira expedição Chindit, a Galahad e a Força Especial (Shindits) sofreram o mesmo tipo de regime de treinamento. Havia dois temas primários no treinamento de Chindit. O primeiro era a resistência física. Um Chindit descreveu o programa de treinamento como uma tentativa de provação. O ritmo, duração, e a intensidade do treinamento foram projetados para criar e manter um nível extremo de realismo e de tensão e que exigiam muito resistência física.
A intenção de Wingate era cortar os desqualificados para as operações na selva o cedo, e fazer com que os oficiais e os homens provassem a sua habilidade de suportar e resistir aquele ambiente inóspito. Um do mais célebre comandante Chindit, Brigadeiro Michael Calvert, notou que três ou quatro de seus os comandantes saíram logo do treinamento, pois não tinham resistência para o mesmo. (Eles mais calmos, no entanto, deram uma mão útil no treinamento.) Outra comandante de brigada, John Masters, declarou que ninguém acima de 35 anos deveria ter permissão de permanecer na organização; a tensão física simplesmente estava além da capacidade dessas pessoas.

Os Chindits carregavam cerca de setenta libras por terreno de selva, sob forte calor, chuva, doença e tensão. Submetidos a rações leves e pouco água, os homens foram empurrados para além dos limites que eles pensaram que poderiam suportar. Mas diante dos desafios futuros isto era absolutamente necessário. Sem isto, as baixas dos Chindits teriam sido indubitavelmente mais altas e a sua efetividade baixa. No final do seu treinamento os Chindits tiveram tempo para recuperar suas forças antes de iniciar as operações. Regenerados, os Chindits foram para a Birmânia com moral alto e confiança suprema.

O segundo tema do treinamento era um "jungle craft" - um programa de treinamento no qual a Galahad e a Força Especial Chindit receberam treinamento a nível de expert dentro de todas as habilidades vitais necessárias para se operar atrás das linhas do inimigo sem deixar rastros na selva. Este treinamento incluiu leitura de mapa, navegação na selva, reconhecimento, patrulhando, marcação de alvos, cruzamento de rio, manuseio de botes e barcaças, marcha em coluna, infiltração, operações noturnas, avaliação de terreno, táticas de esquadra, pelotão e companhia, encobrimento de de rastos, fuga e evasão, e operações defensivas.



Tropas Chindits e mulas avançam pela selva.

Em particular, os homens desenvolveram habilidades a nível de perito em leitura de mapa e navegação por terra. Os soldados também treinaram combate corpo-a-corpo e combate de baioneta. Além disso Wingate e o Coronel americano Charles N. Hunter (responsável pelo treinamento da Galahad) insistiram em treinamento cruzado: dentro da Galahad, todo soldado deveria saber usar todas as armas da unidade; líderes de pelotão e NCOs treinaram observação de artilharia e morteiro e o uso de rádios. Caso um operador de rádio, observador avançado de artilharia ou de morteiro se ferisse, ficasse doente ou morresse algum outro soldado estava pronto para substituí-lo. Hunter colocou a ênfase dele em táticas de pelotão, pois acreditava que na selva, todo contato ou operação seriam decididos eventualmente na base da efetividade do pelotão. Os Chindits também focalizaram seu treinamento na iniciativa e na decisão individual.
Durante o período de treinamento, os Chindits desenvolveu também diligentemente procedimentos operacionais padrões para operações que seriam freqüentemente executadas. Assim, esses procedimentos padrões cobriram as atividades como cruzamentos de rio, preparação de zonas de aterrissagem, estabelecimento de portos temporários, iniciativa imediata de conato com o inimigo, e estabelecimento de bloqueios. As unidades deviam ser capazes de executar estes procedimentos com precisão de um relógio e com o mínimo de ordens. Alguns palavras bem escolhidas eram suficientes para iniciar toda uma série de ações integradas baseadas em tarefas individuais e trabalho em equipe.

Além disso, unidades que iriam realizar tipos específicos de operações receberam treinamento extra em habilidades necessárias. Assim, os dois batalhões da 77ª Brigada designados para estabelecer um bloqueio semipermanente em White City passaram quatorze dias aprendendo a montar bunkers na terra, colocar cobertura reforçada e camuflado sobre eles, estabelecer linhas de comunicação por telégrafo e montar campos minados, entre outras tarefas.

Os pelotões de reconhecimento também receberam muito ênfase. Ambos as forças, Galahad e Chindits, usaram os seus melhores homens nestas unidades para prover inteligência e alerta. Os pelotões de reconhecimento eram as elites dos Chindits, e eles precisaram ser. Cada Coluna da Força Especial incluiu um pelotão dos Burma Rifles em seus pelotões de reconhecimento. Calvert acreditava que os Burma Rifles foram os melhores guerreiros do Império. Composto de homens que residiam na Birmânia antes da guerra, os Burma Rifles conheciam o terreno, as pessoas, e sabiam como sobreviver na selva
melhor que qualquer outro batalhão regular no teatro. Valentes e dedicados, os Burma Rifles possuíram habilidades de selva que só foram excedidas pelos Kachin que operaram como guerrilhas no norte distante. Outra área que requereu treinamento especial era o trato com os animais. Pois os Chindits dependiam completamente das suas mulas e cavalos para levar os rádios pesados, munição, rações, e outros materiais vitais.

A estrutura da brigada padrão do Exército britânico foi abandonada. A força era formada ao invés disto em sete colunas, cada uma com três pelotões de infantaria e um pelotão de apoio. Eram anexadas equipes da RAF equipadas com rádios a cada coluna para solicitar apoio aéreo. Duas ou mais coluna eram comandadas por um grupo de QG, que em turnos era comandado pelo QG da brigada.

As armas individuais dos soldados Chindits era o rifle SMLE e a submetralhadora Thompson, cada coluna levava seu próprio complemento de armas de apoio: três morteiros de 2 polegadas, quatro rifles anti-tank Boys, duas metralhadoras médias Vickers, dois armas antiaérea leves e nove metralhadoras leves Bren. Além destas armas, cada coluna levava junto rádios, rações e outros equipamentos, que eram transportados por até mil mulas que também proviam uma uma fonte de comida emergencial, quando a carga que era transportada se acabava.
Cada homem carregava mais de setenta-duas libras de equipamentos que era proporcionalmente mais do as mulas levavam. Este equipamento pessoal incluía rações para sete dias, um machado ou faca kukri dos Gurkhas, sua arma pessoal, munição, granadas, uniforme extra e outros artigos sortido que eram levados em uma mochila Evereste que era essencialmente uma armação de mochila de metal sem qualquer pacote.

Operação Longcloth

Em 1943, Wingate teve a chance de provar em combate o seu conceito. No dia 8 fevereiro de 1943 foi lançada a Operação Longcloth, com 3.000 Chindits liderados por Wingate iniciaram uma marcha em direção a Birmânia. A intenção original tinha sido a de usar os Chindits como parte de uma ofensiva maior, mas esta idéia foi cancelada. Mas Wingate convenceu Wavell de enviar os Chindits para a Birmânia apesar do cancelamento da grande ofensiva.

Ordem de batalha 1ª expedição Chindit - 77th Indian Infantry Brigade:
Brigade HQ
Commander Brig. O.C.Wingate,DSO (late R.A.)
Brigade Major Maj. R.B.G.Bromhead (R.Berkshire Reg)
later Maj. G.M.Anderson (Highland Light Infantry)
Staff Captain Cap. H.J.Lord (Border Regiment)

13 Bn King's Regiment (Liverpool)
3/2nd Gurkha Rifles
142nd Commando Company
2 Bn Burma Rifles
8 RAF Sections
Brigade Signal Section (Royal Corps of Signals)
Mule Transport Company

Dividida em 2 grupos
No 1 (Southern) Group
Commander Lt-Col. Alexander (3/2 Gurkha Rifles)
Adjutant Cap. Birtwhistle (3/2 Gurkha Rifles)
No 1 Column Maj. G.Dunlop,M.C. (Royal Scots)
No 2 Column Maj. A.Emmett (3/2 Gurkha Rifles)

No 2 (Northern) Group
Commander Lt.Col. S.A.Cooke (Lincs Reg,att King's Reg)
Adjutant Cap. D.Hastings (King's Reg)
No 3 Column Maj. J.M.Calvert (R.E.)
No 4 Column Maj. Conron (3/2 Gurkha Rifles)
later Maj. R.B.G.Bromhead (R.Berkshire Reg)
No 5 Column Maj. B.E.Fergusson (Black Watch)
No 7 Column Maj. K.D.Gilkes (King's Reg)
No 8 Column Maj. W.P.Scott (King's Reg)

2 Bn Burma Rifles
Commander Lt.Col L.G.Wheeler (Burma Rifles)
Adjutant Cap. P.C.Buchanan (Burma Rifles)

A força foi dividida em sete colunas, cada uma formava uma força independente (comandada por um major) de trezentos homens, com seu próprio trem de mulas, armas pesadas e um destacamento de sinalização da RAF. Sua missão era testar o conceito de operações de penetração de longo alcance de Wingate — e foram empregadas em ataques do tipo hit-and-mu (atacar e correr) ao longo da ferrovia que ligava Mandalai a Myitkyina. Os Chindits cruzaram o Rio Chindwin no dia 13 de fevereiro de 1943 e enfrentaram as primeiras tropas japonesas dois dias depois. Duas colunas marcharam para o sul e receberam provisões pelo ar em plena luz do dia, para criar uma impressão de que eram o ataque principal. Eles até tinham um homem que personificava um general britânico junto deles, para tornar o ardil mais factível. A RAF montou vários ataques contra objetivos japoneses para apoiar a ação diversiva. Estas colunas viraram para o leste no começo da marcha e atacaram no sentido norte-sul. Uma coluna levou a cabo demolições ao longo da estrada de ferro mas a outra coluna foi emboscada. A metade da coluna emboscada voltou à Índia

Cinco outras colunas se dirigiram para o leste. Duas, sob o comando de Michael Calvert e Bernard Fergusson, atacaram a principal estrada de ferro no sentido norte-sul. No dia 4 de março, a coluna de Calvert chegou ao vale e demoliu a estrada de ferro em 70 lugares. Fergusson chegou dois dias depois para fazer o mesmo. Apesar destes sucessos, porém, a estrada de ferro só ficou incapacitada temporariamente, e retomou operação logo após.
Em muitas ocasiões, os Chindits não puderam retornar com seus feridos; alguns foram deixados para trás em aldeias aliadas. Wingate tinha emitido ordens específicas para deixar para trás todos os feridos, mas estas ordens não foram seguidas estritamente. Freqüentemente não havia nenhum caminho estabelecido na selva ao longo das suas rotas, e muitas vezes eles tiveram que criar a sua própria rota com machados e kukris (e em uma ocasião, usaram até um elefante). Um único esquadrão de 6 aviões da RAF supriu a força de ataque.
Uma vez na Birmânia, Wingate mudava as vezes repentinamente os seus planos, às vezes sem informar todos os comandantes da coluna. As duas colunas marcharam de volta para a Índia depois que foram emboscadas pelos japoneses em ações separadas. Depois dos ataques a estrada de ferro, Wingate decidiu cruzar o Rio de Irrawaddy. Porém, a área no outro lado do rio não se mostrava adequada para operações. A água era difícil obter e a combinação de rios com um bom sistema de estradas na área permitiu ao inimigo forçar os Chindits a operarem um espaços cada vez menores.


Coluna Chindit passa pela vila de Burmese



Colunas Chindits atravessam curso d'agua

Em fins de março, Wingate tomou a decisão de retirar a maioria da força, mas enviou ordens a uma das colunas de continuar para o leste. As operações tinham alcançado o limite de gama da provisão por ar e a possibilidade de ações bem-sucedidas contra o inimiga se esgotavam rapidamente. As colunas foram divididas para a sua volta à Índia. Na viagem de volta as ações mais difíceis envolveram o cruzamento do Rio Irrawaddy. Os japoneses tinham observadores e patrulhas desde o início do banco do rio e podiam concentrar forças rapidamente no ponto certo assim que descobrissem uma tentativa de cruzamento. Gradualmente, todas as colunas divididas em grupos pequenos começaram a travessia. O QG de Wingate voltou à Índia à frente da maioria das colunas. Pela primavera e até mesmo no outono de 1943 grupos individuais de Chindits retornaram para a Índia. O exército fez o que pode para trazer esses homens de volta. Em um caso, um avião pousou em uma clareira aberta e os feridos foram evacuados por via aérea. Parte de uma coluna chegou na China. Outra porção dos homens escapou para distante norte da Birmânia. Outros foram capturados ou morreram.

Ao final de abril, depois de três meses de missão, a maioria dos Chindits sobreviventes tinha cruzado o rio Chindwin, depois de terem marchado entre 750-1000 milhas. Dos 3,000 homens que tinham começado a operação, um terço (818 homens) tinha morrido em combate, feito prisioneiro ou morrido de doenças (malária, beribéri, etc.) e dos 2.182 homens que voltaram, estavam tão debilitados que aproximadamente 600 deles também feridas ou infectados tiveram que dá baixa do serviço ativo. Dos homens restantes, Wingate praticamente escolheu a mão os que queria, enquanto o resto voltou para exército regular como parte dos seus batalhões originais. Apesar de resultados questionáveis e até certo ponto difíceis de se avaliar, a missão foi considerada um sucesso, pois provou a viabilidade de operações de penetração de longo alcance na selva, em que as unidades operavam de forma extremamente móvel, na formação de colunas, e eram abastecidas pela força aérea. A operação foi considerada um sucesso porque levantou a moral do povo britânico, mostrando que os japoneses podiam ser combatidos e vencidos na selva, derrubando assim um mito.

Interlúdio

Após a sua incursão Wingate escreveu um relatório da operação que era controverso por muitas razões inclusive por conter ataques a oficiais que serviram sob seu comando. O relatório tinha uma tendência de desculpar qualquer engano feito por seu autor (Wingate) enquanto fazia ataques viciosos a outros oficiais, freqüentemente baseado em informação limitada. Eventualmente, através de seus aliados políticos em Londres, uma cópia do relatório de Wingate foi dada a Winston Churchill que ficou impressionado com o conteúdo do mesmo e levou Wingate a Conferência de Quebec em agosto de 1943. Esta era uma conferência de auto nível realizada no Canadá, por Winston Churchill e Roosevelt.

Neste encontro foi decidido dar uma nova organização às forças que enfrentavam os japoneses na frente da Birmânia. Foi criado então o chamado Comando Aliado do Sudeste da Ásia, que ficou sob as ordens do Almirante Lorde Louis Mountbatten. Este exercera, até aquele momento, o direção das forças de comandos. Era considerado um ótimo estrategista, um excelente coordenador de equipes interaliadas e um especialista na guerra anfíbia.
A decisão de dar maior importância às operações na Birmânia fora determinada, em grande parte, pelos entusiastas argumentos do Brigadeiro Orde Wingate. Wingate nas reuniões mantidas com Churchill, em Quebec, conseguira convencer o líder britânico, inclinando-o a favor dos seus planos da necessidade de se usar Grupos de Penetração de Longo Alcance (GPLA) no teatro de operações CBI (China-Birmânia-Índia). Wingate declarou a Churchill que a chave da luta na selva estava no céu, isto é, que era necessária uma poderosa força aérea para alcançar o triunfo. Essa força aérea abasteceria e daria apoio de fogo aos GPLA. Mountbatten aceitou com entusiasmo as idéias de Wingate e obteve, por parte do General Arnold, chefe da Força Aérea norte-americana, a cessão de importantes efetivos aéreos de transporte.O Exército dos EUA também começou seus próprios planos para forma seu Grupos de Penetração de Longo Alcance que se tornaria os Merrill's Marauders.
Enquanto os membros da primeira expedição de Wingate estava retornando para a Índia, uma segunda Brigada de Penetração de Longo Alcance, a 111ª Brigada de Infantaria Indiana estava sendo formada. Popularmente conhecida como Os Leopardos, a brigada foi criada por Wavell sem o conhecimento de Wingate que ainda estava na Birmânia e que era conhecido por ter uma antipatia forte em particular para com Exército indiano, suas formações de tropa diversas, e seus oficiais britânicos. O General Wavell selecionou pessoalmente o comandante da 111ª Brigada, o Brigadeiro Walter Lentaigne.


Suprimento aereo

Wavell pretendia usar duas brigadas Chindits alternadamente durante o ano de 1944. Enquanto uma brigada estava operando atrás de linhas japonesas durante de dois a três meses, a outra estaria descansando na Índia, treinando e se planejando para a próxima operação. Porém, quando Wingate voltou de Quebec com autoridade para implementar seus planos mais ambiciosos para a segunda expedição, ele requereu uma força maior, que seria ampliada para seis brigadas. Wingate recusou usar formações do Exército indiano nesta força, porque ele afirmava que o seu treinamento em técnicas de penetração de longo alcance levaria mais muito tempo e a sua manutenção por via aérea seria difícil devido às exigências dietéticas variadas dos Gurkha e das diferentes castas religiosas indianas, embora ele teve pouca escolha senão de aceitar a 111ª Brigada, e dois batalhões Gurkha da 77ª Brigada.
Desde então foram requeridos grandes números de infantaria britânica treinada, três Brigadas (14º, 16º, 23º) foram acrescentadas aos Chindits oriundas da 70ª Divisão de Infantaria britânica experiente, muito contra a vontade do Tenente General William Slim e de outros comandantes que desejaram usar a divisão em um papel convencional. Uma sexta brigada foi acrescentada à força levando trazendo uma brigada da 81ª Divisão britânica (África Ocidental).

Cada brigada era dividida em colunas e um QG. Uma coluna tinha aproximadamente 400 homens e tipicamente consistiu de:

- Companhia de infantaria com quatro pelotões armados com rifles e submetralhadoras (Sten ou Thompson);
- Pelotão de armas pesada, armado com 2 metralhadoras Vickers, 2 morteiros de 3 polegadas, 1 lança-chamas e 2 armas antitanque PIAT.
- Pelotão de comando para demolições e fixação de armadilhas.
- Pelotão de reconhecimento com um oficial britânico e soldados birmaneses Burma Rifles (das tribos Karen e Kachin)
- A coluna também incluiu destacamentos da RAF, sapadores, sinaleiros e serviço médico. O destacamento da RAF incluía um piloto ativo e era responsável para dirigir todo o apoio aéreo e a evacuação aérea de feridos


Relação das armas usadas pela infantaria Chindits. De cima para baixo:

1-Rifle No. 4 Mark 1.
2-Rifle No. 5 with bayonet.
3-Bren gun Mark 1.

4-M1928 Thompson submachine gun

5-No. 36 hand grenade or mills bomb
6-Sten gun Mark 2.
7-Enfield .38 Mark 1 pistol.

8-PIAT (Projector, infantry, anti-tank)
9-Boys anti-tank rifle.


Cada coluna tinha aproximadamente 56 mulas, muito menos que na primeira expedição, pois havia mais confiança no suprimento aéreo. As mulas proviam o transporte para a coluna. Foram requeridas dez mulas para levar o equipamento de rádio, inclusive as baterias, geradores e diesel. As mulas restantes levavam outros equipamentos pesados, armas e materiais.

Em Quebec, Wingate tinha tido sucesso também obtendo uma " força aérea privada " para os Chindits, o 1º Comando Aéreo, era também denominado pelas tropas como "O circo de Cochran", em homenagem ao seu chefe, o Coronel americano Philip Cochran, um jovem e audaz aviador de 33 anos. Este seria um digno auxiliar de Wingate na luta que se avizinhava. Sob a condução de ambos os chefes, os Aliados levariam a cabo, na Birmânia, uma dos operações aerotransportadas mais brilhantes de toda a guerra. Outra ajuda americana bem-vinda era o pacote de Ração "K" que, embora provesse calorias insuficientes para operações ativas prolongadas, era de longe melhor que o pacote de ração britânico equivalente.

As forças da segunda operação Chindits, foram chamadas oficialmente 3ª Divisão de Infantaria índia, ou Grupos de Penetração de Longo Alcance, mas o apelido, Chindits, já tinha pegado. A nova força Chindit começou seu treinamento em Gwalior. Os homens foram treinados cruzamento de rios, demolições, emboscadas, sobrevivência na selva, etc. Calvert e Fergusson, ambos promovidos recentemente a brigadeiros, assumiram o comando de dois das brigadas, e eram responsáveis por muito do programa de treinamento e o desenvolvimento do planejamento tático. Wingate estave ausente por um longo período do treinamento, pois esteve na Conferência de Quebec e então ficou doente com febre tifóide por ter bebido água contaminada na África do Norte no seu retorno.


Planos

Os planos para a segunda operação Chindit passaram por muitas revisões. Os métodos da nova Força de Penetração de Longo Alcance em 1944 eram diferentes de 1943. Wingate tinha decidido em sua estratégia criar bases fortificadas atrás das linhas japonesas que enviariam colunas para realizarem ataques a distâncias curtas. Esta mudança acontece em parte devido a presença de patrulhas japonesas fortificadas ao longo da fronteira birmanesa, fazendo com uma repetição bem sucedida da infiltração de 1943 fosse improvável. Em um movimento imaginativo incitado pela garantia do Coronel Philip Cochran, comandante do 1º Comando Aéreo, de que ele poderia transportar tropas e materiais através de planadores, Wingate organizou o tamanho da sua força para entrar na Birmânia por via aérea, enquanto grandemente apressando a habilidade da força para alcançar seus objetivos designados. As unidades se antemão pousariam em planadores em campos abertos pre-selecionados na Birmânia, e os preparariam para receberem o pouso de aeronaves de transporte. O apoio aéreo pródigo provido por pelos coronéis Cochran e Alison se mostrou de extrema importância ao sucesso da próxima operação Chindit.
Wingate também teve planos para uma insurreição geral da população Kachin no norte da Birmânia. Ele lutou em cima destes planos com a liderança da Força 136, do SOE. A Força 136 era responsável pela coordenação de todo movimento de resistência aos japoneses no Extremo Oriente. O pessoal do SOE estava preocupado que uma insurreição prematura dos Kachins sem a presença de uma força permanente do Exército britânico conduziria à matança dos Kachins pelos japoneses ao término das operações. A Força 136 também tinha os seus próprios planos para um levante a ser coordenado com a chegada do Exército regular na Birmânia. Wingate foi convencido a mudar os seus planos. Para complicar ainda mais as coisas o comandante da Força Dah (uma força britânica que liderava irregulares Kachin anexada aos Chindits) não coordenar as suas ações com a Força 136 por razões de segurança.
Em novembro de 1943, o plano global para a campanha de estação seca de 1944 determinada pelo Comando Aliado do Sudeste da Ásia focalizou no uso dos Chindits na reconquista do norte da Birmânia. Estes planos foram aprovados pelos Chefes de Estado Maior Combinados na Conferência do Cairo e embora foram planejadas outras ofensivas na Birmânia que depois foram canceladas, a ofensiva na Frente Norte comandada pelo General americano Joe Stilwell com a participação de Chindits sobreviveu aos cortes.

O Chindits receberam a missão de ajudar as forças chinesas de Joseph Stilwell a ligarem a estrada de Lêdo no norte da Birmânia a Estrada de Birmânia e restabelecer por terra uma ligação com a China, montando uma operação de penetração de longa distância atrás das linhas japonesas que se opunham as forças de Stilwell que vinham do norte. Tinha sido originalmente planejado que o IV Corpo de Exército atacaria na Frente Central e cruzaria o Chindwin para segurar forças japonesas que poderiam ser usadas para ajudar a Frente Norte de caso contrário. Como os japoneses lançaram o seu próprio ataque na Frente Central, este avanço não foi necessário, mas ainda significou que a maioria das forças japonesas estava comprometida com a Frente Central e não estariam disponíveis para reforçar a 18ª Divisão japonesa na Frente Norte. A ofensiva japonesa na Frente Central resultou em propostas adicionais e refinamentos nos planos feitos para os Chindits.
No dia 4 fevereiro de 1944, Tenente General Slim, comandante do XIV Exército britânico, e o General George E. Stratemeyer da USAAF, Comandante do Comando Aéreo Oriental, emitiram uma diretiva conjunta para Wingate e o Coróneis Cochran e Alison do 1º Grupo de Comando Aéreo, para marchar e voar para a área do vale Indaw e de lá sob as ordens do XIV Exército britânico atingir os seguintes objetivos:
1- ) Ajudando no o avanço das forças de Stiwell vindas de Lêdo de Stiwell para Myitkyina cortando as comunicações da 18ª Divisão japonesa, atacando a sua retaguarda, e prevenindo seu reforço.
2-) Criando uma situação favorável para que as forças chinesas vindas de Yunnan pudessem cruzar o Salween e entrar na Birmânia.
3-) Infligindo o maior dano e confusão possível ao inimigo no Norte da Birmânia.


Operação THURSDAY

Em 5 de março de 1944 os aeródromos da Índia se encontram alinhados de dezenas de planadores americanos. Junto a eles, a força Chindits reorganizada de Wingate aguardam o momento de subir a bordo. Formados em colunas, levavam equipamento de campanha: uniforme verde, fuzis e sub-metralhadoras, morteiros, granadas e punhais. Muitos usavam barba. Um chapéu de abas largas, de feltro, que se tornou característico, os protegia do sol.

Eles participariam da operação que recebeu o nome de Operação THURSDAY e envolvia o vôos noturnos em planadores americanos Waco CG-4 Hadria e aviões de transporte C-47 Dakota, que levariam cerca de 10.000 soldados e 1.000 animais de carga para a retaguarda das forças japonesas na Birmânia, onde seriam desembarcados em três pontos de ataque, denominados em código: Picadilly, Broadway e Chowringhee. Os homens da 77ª Brigada (Brig. Calvert) iriam para Picadilly e Broadway e a 111ª Brigada (Brig. Lentaigne) iria descer em Chowringhee.

Ordem de batalha 2ª expedição Chindit - 3rd Indian Infantry Division:

Commander Maj-Gen O.C.Wingate,DSO
later Maj-Gen W.D.A.Lentaigne
Deputy Commander Maj-Gen G.W.Symes
later Brig. D.Tulloch
Brigadier General Staff Brig. D.Tulloch
later Brig. H.T.Alexander

3rd West African Brigade
Commander Brig. A.H.Gillmore later Brig. A.H.G.Ricketts,DSO
HQ Column,7 West African Field Company (10 column)
6 Bn Nigeria Regiment (66 and 39 columns)
7 Bn Nigeria Regiment (29 and 35 columns)
12 Bn Nigeria Regiment (12 and 43 columns)
3rd West African Field Ambulance

14th British Infantry Brigade
Commander Brig. T.Brodie
HQ Column (59 column)
2 Bn Black Watch (42 and 73 columns)
1 Bn Bedfordshire and Hertfordshire Regiment (16 and 61 columns)
2 Bn York and Lancaster Regiment (65 and 84 columns)
7 Bn Leicestershire Regiment (47 and 74 columns)
54 Field Company,Royal Engineers (support)
Medical Detachment

16th British Infantry Brigade
Commander Brig. B.E.Fergusson,DSO
HQ Column (99 column)
2 Bn Queen's Royal Regiment (21 and 22 columns)
2 Bn Leicestershire Regiment (17 and 71 columns)
51/69 Field Regiments,Royal Artillery (51 and 69 columns)(served as infantry)
45th Reconnaissance Regiment,R.A.C. (45 and 54 columns)(served as infantry)
2 Field Company,Royal Engineers (support)
Medical Detachment

23rd British Infantry Brigade (removed to support 4th Corps)
Commander Brig. Lance E.C.M.Perowne,CBE
HQ (column 32)
1 Bn Essex Regiment (44 and 56 columns)
2 Bn Duke of Wellington's Regiment (33 and 76 columns)
4 Bn Border Regiment (34 and 55 columns)
60th Field Regiment,Royal Artillery (60 and 68 columns)(served as infantry)
12 Field Company,Royal Engineers (support)
Medical Detachment

77th Indian Infantry Brigade
Commander Brig. J.M.Calvert,DSO
HQ (column 25) + Mixed Field Company,Royal/Royal Indian Engineers
3 Bn 6th Gurkha Rifles (36 and 63 columns)
1 Bn King's Regiment (Liverpool) (81 and 82 columns) to 111 Bde May 1944
1 Bn Lancashire Fusiliers (20 and 50 columns)
1 Bn South Staffordshire Regiment (38 and 80 columns)
3 Bn 9th Gurkha Rifles (57 and 93 columns) to 111 Bde May 1944
Hong Kong Volunteer Company (support)
Medical and Veterinary Detachments

111th Infantry Brigade
Commander Brig. W.D.A.Lentaigne
later Brig.J.R.Morris,CBE,DSO
HQ (48 column)
1 Bn Cameronians (26 and 90 columns)
2 Bn King's Own Royal Regiment (41 and 46 columns)
3 Bn 4th Gurkha Rifles (30 column)
Mixed Field Company, Royal/Royal Indian Engineers (support)
Medical and Veterinary Detachments

Morris Force
Commander Lt-Col (later Brig.) J.R.Morris
4 Bn 9th Gurkha Rifles (49 and 94 columns)
3 Bn 4th Gurkha Rifles (40 column)

Dah Force
commander Lt-Col. D.C.Herring
Kachin Levies

Bladet Force
Commander Maj. Blain
Gliderborne demolition engineers

2 Bn Burma Rifles

Royal Artillery
"R","S" and "U" Troops, 160th Field Regiment
"W","X","Y" and "Z" Troops, 69th Light Anti-Aircraft Regiment

Divisional Troops
219 Field Park Company, Royal Engineers
Detachment 2 Bn Burma Rifles
145 Brigade Company, R.A.S.C.
61 Air Supply Company, R.A.S.C.
2 Indian Air Supply Company, R.I.A.S.C.

Antes disso no dia 5 fevereiro de 1944, a 16ª Brigada de Fergusson partiu de Lêdo para a Indaw, na Birmânia, numa dura marcha de 600 milhas. Em 5 de março eles tinham coberto 100 milhas e tinham chegado ao Rio Chindwin. Aqui planadores trazendo barcos infláveis e motores externos foram lançados para auxiliarem no cruzamento do rio. A marcha da 16ª Brigada era por terreno de selva muito difícil e isto os atrasou. A demora foi pior quando foram ordenados de se desviar e atacar Lonkin que era um ponto forte das forças japonesas que enfrentavam Stilwell.
Os pontos de ataque tratavam-se de clareiras na selva, situadas nas proximidades do centro ferroviário e do aeródromo japonês de Myitkyina. Sobre este último ponto já avançavam, pelo norte, as forças chinesas e americanas, comandadas pelo General Stilwell. A missão do assalto britânico sob o comando de Wingate, consistia, portanto, em golpear com seus Chindits as costas das forças japonesas que se oporiam à penetração de Stilwell.

Os aparelhos em vôo sobrevoaram as montanhas da fronteira para, posteriormente, lançarem os homens no coração da selva birmanesa. Até aquele momento, com exceção do ataque alemão à ilha de Creta, nunca se presenciara uma operação aerotransportada semelhante.
O plano estava ordenado assim: uma primeira leva de planadores aterrissaria nas clareiras; as tropas dessa primeira força ocupariam as posições, as limpariam e as protegeriam contra um possível contra-ataque japonês. Uma segunda leva traria mais tropas e unidades de sapadores. Estes tratariam de abrir uma pista com rapidez, para que, na noite seguinte, os bimotores Dakota estivessem em condições de transportar para lá canhões, veículos, animais e suprimentos.

Poucas horas antes do ataque, o chefe das unidades de transporte aéreo, Coronel Cochran, determinou que um avião realizasse um reconhecimento fotográfico das três clareiras. Ao serem reveladas as fotografias, os oficiais aliados constataram, desalentados, que o solo de Piccadilly estava coberto por grandes troncos derrubados, o que impossibilitava a descida de planadores.

Surgiu então a suspeita de que os japoneses estivessem à par do plano aliado. As restantes fotografias evidenciavam, no entanto, que as outras clareiras estavam limpas. Realizou-se, então, uma reunião entre Wingate e os demais altos oficiais. Nela, o General Slim, sobrepondo-se à indecisão dos presentes, opôs-se terminantemente ao adiamento do ataque. Declarou que os obstáculos colocados pelos japoneses em Piccadilly podiam constituir uma simples precaução de rotina. Tomou-se então a decisão de realizar, tal como havia sido prevista, a Operação THURSDAY. Estava planejado realizar o primeiro lançamento em Piccadilly. Portanto, essas forças deviam ser agora desviadas para Broadway, Ali aterrissaria a primeira leva, integrada por oitenta planadores. Conduziriam aproximadamente 1.200 combatentes.




Planador americano Waco CG-4 Hadrian com as marcas da invasão do Dia-D. Este tipo de planador também foi usado pelos Chindits durante a Operação THURSDAY.

O Waco CG-4A foi o mais produzido planador de assalto da Segunda Guerra Mundial. Desenvolvido em 1942, um total de 14.000 unidades foi produzido durante a guerra, em 16 fábricas diferentes. Transportava um total de 15 homens, inclusos piloto e co-piloto. Cargas alternativas incluíam um jipe e motorista, radio-operador e um soldado; jipe com dois soldados e um trailer de provisões; um obuseiro de 75 mm com 25 tiros e dois artilheiros; um pequeno trator e seu operador; um caminhão ¼ de tonelada ou qualquer outra configuração até o peso-limite de decolagem de 4.080kg. Toda a seção do nariz (incluindo a cabine do piloto) pivotava para cima, permitindo a descarga e o desembarque de veículos diretamente. Normalmente rebocado por um cargueiro Dakota C-47, o CG-4 atingia a velocidade máxima de 240 km/h, sendo sua velocidade normal de planeio de cerca de 190 km/h. Com 25,5m de envergadura, 14,8m de comprimento e 3,8m de largura, foi usado pelos britânicos com o nome de Hadrian, e embora estes preferissem seus planadores Horsa, com praticamente o dobro de capacidade de carga, a capacidade de “pouso curto” em locais íngremes fez do Waco o preferido para muitas missões, como as que abasteceram a Resistência Iugoslava á partir da Itália de 1944 em diante. Foi justamente na invasão da Sicília que o CG-4 fez sua estréia em combate, porém foi nas operações na Birmânia contra os japoneses em março de 1944 que o Waco viveu suas maiores glórias.

Tripulação: Piloto e Co-piloto.
Dimensões: Wing-span: 25.48 m; Wing Area: 79.15 m
Fuselagem: Comprimento: 48 ft (14.63 m); Altura: 7.3 ft. (2.22 m)
Compartimento de carga: Comprimento: 13.2 ft. (4.02 m); Largura: 5.8 ft. (1.76m); Altura: 7.2 ft. (2.19 m)
Peso: Total com carga: 7.500 lbs. (3,402 kg); Vazio: 3,440 lbs. (1,560 kg); Carga: 4,060 lbs. (1,841 kg)
Carga: 1 - Jeep com radio, radio-operator; e outro soldado; ou 1 obuseiro M3A1 de 75mm mais guarnição de três homens; ou 13 soldados equipados.
Rebocador: C-47 Dakota.


Surgiu, porém, uma última dificuldade. Durante semanas, as tripulações haviam sido treinadas com mapas e modelos de Piccadilly. Agora se tornava necessário fazê-las descer em uma zona que lhes era totalmente desconhecida. Ante a necessidade de dar a conhecer aos soldados o novo ponto de aterrissagem, o Coronel Cochran expressou-se: "Direi aos rapazes que encontramos algo melhor...".

Às 18h 12m do dia 5 de março, foi dada aos Chindits da 77ª Brigada, sob o comando do Brigadeiro Calvert, a ordem de embarcar. Os primeiros planadores, atados aos pares aos aviões-reboque, se elevaram minutos mais tarde, rumando, então, para o território birmanes.

Chegou o noite e os planadores continuavam partindo ininterruptamente com intervalos de cinco minutos. A força de invasão não levava escolta alguma e voava às escuras sem luzes de posição. Sua maior arma era conseguir surpresa absoluta. Sessenta e sete planadores conseguiram subir. Deles, no entanto, apenas trinta e dois conseguiriam aterrissar no objetivo.

Balouçando no ar, em meio às sombras, onze desceram em território da Índia, nove aterrissaram dentro das posições japonesas e outros quinze não chegaram a desligar-se dos seus aviões-reboque. Em conseqüência do congestionamento que reinava na pista Broadway, os últimos planadores receberam ordem de regressar às suas bases. A maior parte das aterrissagens realizadas fora da zona assinalada se deveram ao rompimento dos cabos de reboque. As descidas acidentais realizadas em território controlado pelos japoneses, tiveram, no entanto, resultados favoráveis, pois contribuíram para aumentar a confusão. Houve casos de planadores que tocaram a terra perto dos quartéis-generais japoneses, a mais de cem quilômetros de distância de Broadway.

A descida em Broadway se realizou de forma acidentada. O planador que transportava a equipe encarregada de coordenar as aterrissagens não alcançou o objetivo, pois efetuou uma aterrissagem forçada, nas margens do rio Chindwin. Assim, não existindo um controle terrestre, muitos planadores da primeira leva de assalto ultrapassaram o local assinalado e caíram em meio à mata, destroçando-se. As baixas, contudo, foram menores que as esperadas, dadas as difíceis condições do terreno: 23 soldados mortos e outra cifra igual de feridos. Entretanto, a maioria da equipe mecânica, destinada a abrir uma pista, se perdeu. O Brigadeiro Calvert ordenou, então, a interrupção das descidas até a manhã seguinte. Ao fazer a chamada naquela noite Calvert só podia contar com 350 homens de todas as patentes para lutar. Foi revelado depois que madeireiros birmaneses tinham sido colocado os troncos em Piccadilly para secar. Como não era possível um constante reconhecimento dessas áreas de pouso, deu-se a confusão.

Ao despontar o sol, os sapadores iniciaram o nivelamento com pás, de uma franja, à guisa de pista precária. Poucas horas depois, aterrissou o primeiro Dakota, trazendo reforços. Nessa noite, em Broadway, aterrissaram outros 55 Dakotas. Entrementes, a 111ª Brigada de Chindits desembarcava seus planadores em Chowringhee. A surpresa fora total.

A 7 de março, Wingate aterrissou em Broadway. No dia seguinte, transportou-se de avião a Chowringhee, supervisionando pessoalmente os operações. Na manhã do dia 11 a invasão estava concretizada. Os Dakotas, em 660 vôos, haviam transportado ao coração da selva 9.052 soldados, 1.360 animais de carga e 250 toneladas de material. Na extraordinária operação não se perdera um só avião. Em 24 horas os engenheiros americanos tinham construído uma pista na qual transportes puderam pousar aviões e planadores com tropas, suprimentos e animais. Poucos dias depois da sua aterrissagem, as colunas de Chindits se puseram em marcha. Através da selva, deram começo à sua campanha contra os comunicações japonesas.

Da Índia chegou, a pé, outra brigada Chindits, a 16ª, somando-se ao ataque, fazendo com que as forças britânicas que operavam na retaguarda do inimigo totalizassem a cifra de 12.000 homens.

Os japoneses reagiram finalmente. Atacaram a base de Chowringhee, porém a brigada ali destacada, a 111ª, já havia abandonado suas posições, por ordem de Wingate, instalando uma nova pista de aterrissagem mais para o oeste, que foi denominada Aberdeen. Ali, a 23 de março, aterrissou a 14ª Brigada.

A brigada de Calvert ainda estabeleceu outra base, chamada White City em Mawlu, montada entre a estrada de ferro principal e estrada que conduz à frente norte japonesa. A 111ª Brigada montou emboscadas e obstáculos na estrada sul de Indaw (embora parte da brigada que pousou em Chowringhee estava atrasada em cruzar o Rio Irrawaddy), antes de se mover para o oeste para Pinlebu.

Soldado Chindit com equipamento essencial para eles, o rifle e a pá.

Duros combates de selva acontecem em torno de Broadway e White City. Às vezes, as tropas britânicas e japonesas lutaram corpo-a-corpo, usando baionetas e kukris contra katanas. Depois de dias de ataque aéreos, os japoneses atacaram Broadway durante várias noites antes do ataque do dia 27 de março de 1944, que foi repelido com artilharia e a ajuda dos irregulares Kachin localmente recrutados. O problema de defesa de um aeródromo situado numa clareira de selva foi muito bem estudado, antes do inicio das operações, e se baseava na premissa de que deveria ser de tamanho tal, que sua guarnição pudesse facilmente defendê-lo. Portanto, teria que ser de dimensões reduzidas. A premissa transformou-se em axioma, defendido firmemente por Calvert na “Cidade Branca”, apesar das pressões para que estendesse seu perímetro “até a elevação mais próxima”. Deveria, ademais, ser localizado de tal forma, que suas pistas ficassem protegidas contra o fogo de qualquer tipo de arma e, por certo, dispor de suprimento de água independente e, se possível, não ser facilmente percebido tanto do ar como de terra. Mais importante: deveria ser possível a manutenção de uma reserva exterior, nas vizinhanças uma companhia ou coluna “flutuante”. Concebida por Wingate, essa unidade se revelou utilíssima.
Os princípios gerais foram extraídos do estudo da História Militar. Wingate, Calvert e Rome estudaram a fundo as operações militares do Duque de Mariborough e discutiram suas aplicações. Dessa maneira, muitos dos métodos utilizados e bem sucedidos, tais como "pontos fortificados", “progressão em colunas, mas ataque com brigadas”, “reservas externas”, “escaramuças”, a fim de dar proteção aos flancos da brigada, a instalação de uma base o mais próximo possível do território escolhido para a luta, a atenção a ser dispensada à população local tudo isto e muito mais saiu das campanhas de Mariborough e da campanha de Weilington contra Napoleão na Espanha. Os Carabineiros Birmaneses e o Corpo de Comunicações da Birmânia foram empregados intensivamente durante a campanha, com o objetivo de recrutar elementos locais e de obter informações. Os alimentos eram comprados e Calvert chegou ao extremo de compensar financeiramente os aldeãos cujas casas foram destruídas no curso da ação, como aconteceu em Henu. Vale a pena fazer breve relato de materiais que foram entregues á Brigada e intitulados “de propaganda”, que incluíam tecido colorido para “Loongyis”, 50 metros; tecido para “loongyis” preto, 5.000 metros; pentes, 150 e assim por diante (“Loongyis” é um tipo de fralda longa utilizada pêlos hindus birmaneses). O tecido dos pára-quedas era, também, trocado por alimentos frescos, pois Wingate insistia que as rações deveriam incluir, tanto quanto possíveis alimentos frescos, a fim de melhorar as condições de saúde da tropa.

Porém, um retrocesso aconteceu quando a Brigada de Fergusson tentou capturar Indaw no dia 24 março. A intenção original tinha sido agarrar a cidade e seus aeródromos em 15 março mas Fergusson teve que informar que isto era impossível. Wingate se mostrou pronto para mudar a missão da brigada, mas no dia 20 março, ele restabeleceu Indaw como o objetivo. A brigada já estava exausta de sua longa marcha, e não poderia chegar ao objetivo a tempo. As unidades estava desanimadas por acharem que os japoneses controlavam as únicas fontes de água. Fergusson esperou que 14ª Brigada cooperasse no ataque, mas eles se moveram para oeste ao invés disso. Também, reforços japoneses tinham chegado a Indaw que tinha uma estrada principal e um grande centro. Os batalhões de Fergusson, atacando separadamente, foram repelidos. Depois disto, a maioria da 16ª Brigada cansada foi retirada.

Mudança de comando


No dia 24 março, Wingate voou para Imphal para uma reunião com comandantes da força aérea. Acreditasse que a aeronave dele tenha voado em um temporal na viagem de regresso, e por isso chocou nas montanhas em plena selva. Todos a bordo morreram. Slim que tinha o controle operacional dos Chindits escolheu o Brigadeiro Lentaigne para substituir Wingate. A escolha foi feita na visão de que Lentaigne era o comandante mais equilibrado e experiente na força; ele tinha sido um instrutor na Staff College em Quetta, tinha conduzido um batalhão Gurkha com distinção durante a retirada da Birmânia em 1942, e tinha comandado uma Brigada Chindit em campo (embora durante só alguns semanas mas nenhum dos outros comandante de Brigada tinha mais experiência). Como oficial de tropas Gurkha, ele tinha uma perspectiva semelhante a de Slim. Os outros comandantes de Brigada eram menos experientes, principalmente sem qualificações de comando com alguns nunca tendo comandado até mesmo uma unidade de valor de batalhão em combate antes de 1944, e os oficiais do staff de Wingate não tinham a experiência de combate necessária. Wingate morreu, como muitos outros, a serviço de sua pátria e de seus companheiros de luta. Sua morte constituiu rude golpe para os Chindits e para o Exército da Birmânia. Foi Wingate que introduziu na campanha da Birmânia métodos totalmente inéditos de se opor às concepções japonesas de conduta de guerra e em condições de terreno que exigiam o abandono completo de doutrinas obsoletas. Em virtude de sua morte precoce, não lhe foi permitido aproveitar-se de todas as oportunidades criadas por sua extraordinária inventiva e enorme energia. Até sua morte, as baixas entre os Chindits eram relativamente baixas em comparação com as infligidas no inimigo. Após suas doutrinas serem postas de lado, retornando a técnicas estereotipadas e obsoletas de guerra, foi que os Chindits passaram a sobre baixas em número crescente.
O General Slim ignorou as reclamações dentro dos Chindits de que Lentaigne era um estranho na força de Wingate e tinha sido crítico dos métodos e técnicas de Wingate. Wingate o tinha repugnado porque ele foi selecionado por Wavell sem a sua aprovação.
Após a morte de wingate a pressão pela liberação do norte da Birmânia aumentou consideravelmente. Como o General Slim, nunca compreendeu completamente a missão dos Chindits, ele não objetou pela transferência dos mesmo para o comando do General Stiwell, que já tinha sob o seu comando os Incursores de Merrill e as divisões chinesas, no esforço de conquistar Myitkyina, único aeródromo "todo tempo" do norte da Birmânia.. Nessa transferência de comando e de área de operação os Chindits foram forçados a abandonar as suas posições fortificadas e se dirigir mais para o norte. Assim sendo os Chindits se viram enfrentando posições japonesas pesadamente armadas, enquanto eles dispunha de armamento leve.

O movimento para o norte

No dia 6 de abril de 1944 o Exército japonês lançou um forte ataque contra White City. O ataque começou com artilharia pesada seguido por um ataque aéreo levado a cabo por 27 bombardeiros (12 foram abatidos). Nos próximos 10 dias a infantaria japonesa realizou vários ataques. Os Chindits contra-atacaram usando colunas fora do perímetro com apoio aéreo do 1º Comandos Aéreo. Foram infligidas grandes perdas ao inimigo que eventualmente fugiu. A White City não foi atacada novamente.
Em abril, Lentaigne ordenou o corpo principal da 111ª Brigada fosse para o oeste do Irrawaddy, agora comandada por John Masters, e se mover para o norte e construir um lugar seguro novo, de condinome Blackpool que bloquearia a estrada de ferro e estrada principal em Hopin, a 48 km a sul de Mogaung. A Calvert foi ordenado abandonar White City e Broadway e rumar para o Norte para apoiar Masters. Calvert era contrario a isto, pois a brigada dele tinha assegurado prosperamente por meses estes dois lugares. Stilwell também temeu que o abandono de White City permitissem aos japoneses enviarem reforços para o norte. Porém, Lentaigne insistiu que as brigadas Chindits estavam muito separadas e o apoio mutuo era mais difícil assim, e que seria difícil operar aeronaves na White City e Broadway durante a monção.
A força de Masters estabeleceu Blackpool no dia 8 maio de 1944 e quase foi ocupada imediatamente devido um ataque feroz do inimigo. Considerando que White City foi estabelecida bem fundo na retaguarda japonesa, seus defensores tinham tido bastante tempo para preparar as suas defesas e seus atacantes eram uma mistura de destacamentos de várias formações, mas Blackpool estava perto da frente norte japonesa, e foi atacado imediatamente por tropas japonesas com apoio pesado de artilharia. Como Calvert e Stilwell tinha temido, o abandono de White City tinha permitido a 53ª Divisão japonesa se mover para o norte de Indaw. Um ataque pesado contra Blackpool foi repelido no dia 17 maio de 1944, mas um segundo ataque no dia 24 maio capturou posições vitais dentro das defesas. A chuvas das monções estavam muito fortes e isto tornava difícil o movimento na selva, por isso nem Calvert e nem a 14ª Brigada de Infantaria britânica de Brodie puderam ajudar Masters. Os japoneses também posicionaram peças de artilharia antiaérea o que impedia o apoio aéreo, além da chuvas fortes. Finalmente, Masters e seus homens tiveram que abandonar Blackpool no dia 24 maio, porque estavam todos exaustos depois de 17 dias de combate ininterrupto. Dezenove soldados Aliados que estavam muito doentes para poderem ser retirados foram mortos a tiros pelos ordenanças médicos, para que não caíssem nas mãos dos japoneses e tivessem um fim pior.
A cada dia os Chindits dependiam mais do poder aéreo para compensar a sua inferioridade diante do inimigo. Porém com o passar do tempo e o enrijecimento dos combates, a capacidade de combate dos Chindits diminui de forma considerável, resultante tanto das baixas em combate, quanto das doenças.

Operações finais


No dia 17 maio de 1944, Slim tinha dado o controle dos Chindits formalmente a Stilwell. Stilwell insistiu que os Chindits capturassem várias posições japonesas bem-defendidas. Os Chindits não tinham nenhum apoio de tanques ou artilharia pesada e isto resultou num elevado número de baixas, como não tinham sofrido antes. Alguns consideraram estas operações um abuso de poder.
Após três meses de batalhas constantes os homens estavam esgotados e os oficias começaram a solicitar a retirada das brigadas Chindits, pois três meses era o tempo limite de permanência de uma brigada Chindits em operação na selva, segundo a concepção de Wingate. Porém Stiwell, que agora comandava as brigadas Chindits não autorizou a sua retirada, pois estava extremamente envolvido com a conquista de Myitkyina, e não queria nenhuma retirada de tropas para que os chineses, sempre vagarosos em seu deslocamento para o sul, não parassem de vez e ele viesse a perder a chance de tomar Myitkyina antes das monções.
No período de 6 de junho a 27 de junho, a 77ª Brigada de Calvert tomou Mogaung e sofreu 800 vítimas, cerca de 50% dos homens da brigada que se envolveram na operação. Eram 2.00 Chindits contra 4.000 japoneses posicionados em fortificações. Dois Chindits, Capitão Michael Allmand e o soldado Gurkha Tulbahadur Pur, ganharam a Victory Cross - VC em Mogaung. Temendo que lhe seria ordenado se unir as forças que iriam iniciar o cerco a Myitkyina, Calvert, que agora só tinha 300 homens dos 3.000 originais, entregou Mogaung as tropas chinesas, desligou os rádios e se retirou para Kamaing onde Stilwell tinha o seu QG instalado. Por causa disto Calvert era passível de uma corte marcial, mas ele e Stilwell se encontraram pessoalmente, e Stilwell apreciou as condições sob as quais Calvert tomou a sua decisão diante do estado físico e moral das suas tropas Chindits.


Brigadeiro Mike Calvert, Ten. Coronel Shaw e Major Lumley em Mogaung



A 111ª Brigada, depois de descansar, recebeu ordens de capturar uma colina conhecida como Ponto 2171. Eles cumpriram a missão após duas semanas, mas no final estavam completamente esgotados. Neste combates o Major Blaker ganhou a sua VC. A maioria dos soldados estava sofrendo de malária, disenteria e desnutrição. No dia 8 de julho de 1944, diante da insistência do Comandante Supremo, Almirante Louis Mountbatten, uma junta médica examinou a brigada. Dos 2.200 homens, formando 4,5 batalhões, somente 119 soldados foram declarados aptos para combate. A Brigada foi evacuada, embora Masters tenha mantido os homens aptos para combate no que ele sarcasticamente chamou de "111ª Companhia " em campo até 1 de agosto de 1944.
A parte da 111ª Brigada a leste do Irrawaddy era conhecida como Força Morris, pois foi comandada pelo Tenente-Coronel "Jumbo" Morris. Eles tinham gasto vários meses acossando o trafego japonês de Bhamo para Myitkyina. Receberam então a missão de completar o cerco a Myitkyina. Stilwell ficou enfurecido quando eles não puderam fazê-lo, mas Slim salientou a Stilwell que as tropas chinesas (cerca de 5.500) também tinha falhado nessa missão. Em 14 de Julho de 1944, a Força Morris estava reduzida para três pelotões. Uma semana depois, eles eram apenas 25 homens aptos para o serviço. A Força Morris foi evacuada na mesma época de 77ª Brigada.
Com o caminho aberto à implantação dos oleodutos, a partir de Myitkyina, Stilwell havia atingido todos os objetivos que se propusera alcançar. Aquela cidade poderia, a partir de então, ser utilizada como escala para vôos de abastecimento para a China. Não demoraria muito, também, e a estrada entre Ledo e Kunming, uma distância de cerca de 2.500 quilômetros, seria aberta ao tráfego, com os oleodutos correndo em toda a sua extensão. Em apóio as operações de Stiwell, como vimos os Chindits conquistaram Indaw e Mogaung.
A 14ª Brigada e 3ª Brigada da África Ocidental permaneceu em ação, apoiando a recém-chegada 36ª Divisão Infantaria britânica em seu avanço sobre o "Valley Railway" ao sul de Mogaung. Finalmente, eles foram substituídos e retirados em 17 de agosto de 1944. O último Chindit saiu da Birmânia em 27 de agosto de 1944.

Kohima

A 23ª Brigada que tinha sido desviada da campanha principal dos Chindits agiu não obstante como uma unidade de penetração de longo alcance atrás das linhas japonesas na luta em Kohima. De abril a junho de 1944, eles marcharam distâncias longas pelas colinas de Naga, principalmente no tempo da monção, o que fez com que o movimento fosse muito difícil. Eles deram uma grande contribuição manter as tropas japonesas famintas em Kohima, que foi um fator decisivo naquela batalha. Embora não tenham se envolvido nas batalhas principais, eles causaram muitas baixas ao inimigo, enquanto sofreram 158 baixas de batalha.


Chindits feridos recebem tratamento médico em plena selva

Os soldados saudáveis foram enviados para acampamento para treinarem e esperarem por novas operações. Porém, quando o Comando do Exército avaliou a quantidade de homens e de equipamentos que eram necessários para se montar uma nova força Chindits, decidiu que o melhor era investir na formação de uma Divisão Aerotransportada indiana. Além das substituições diretas, foi visto que o elemento britânico dos Chindits acabaria em 1945 pela necessidade de se repatriar o pessoal que tinha servido mais de quatro anos no ultramar. Durante os meses iniciais de 1945, vários oficiais de QGs das brigada e muitos veteranos das operações Chindits tinham se reformado e se unido a 44ª Divisão Aerotransportada (a Índia), enquanto a força do QG e as unidades de sinaleiros foram formar a base do XXXIV Corpo de Exército indiano. O Chindits foram licenciados finalmente em 26 de fevereiro de 1945.


Chindits mortos em ação

A área onde a Galahad e os Chindits operaram era um mosaico de colinas ásperas, serra de cumes dentados, montanhas altas, e vales nocivos, atravessados por muitos rios pequenos e grandes limitados por selva tropical fechada. Poucos caminhos e trilhas existiam, e os mapas se provaram freqüentemente incertos. A selva possuía grandes bambuzais, as vezes tão grossos que um túnel, em vez de um caminho, teve que ser cortado para que as colunas atravessarem. Devido aos numerosos rios, os Chindits fizeram centenas de cruzamentos de rio, e quando emergiam da água invariavelmente estavam cheios de sanguessugas. Durante a estação da monção, a área se tornava quase intransitável. O chão ficava completamente coberto de água e lama e as montanhas cobertas de barro onde os homens tinham que rastejar para cima. A umidade alta, a chuva constante, e temperaturas altas nutriram muitas doenças. Além disso, os mosquitos infestavam a área levavam muitas doenças como a malária e tifo. Operar neste ambiente requereria os níveis mais altos de resistência física e mental diariamente.

Um dos mais significativos tributos que receberam partiu de Mountbatten, que a seu respeito escreveu: "Foi a mais dura tarefa de minha vida concordar em expedir a ordem de dissolução das Brigadas Chindits. Todavia, agora que todo o exército absorveu a concepção Chindit, não há mais necessidade de os manter, pois somos todos Chindits, agora"!

domingo, 12 de julho de 2009

Depoimento de um oficial americano sobre a descida em planadores na Birmânia


Planadores
Um oficial americano que acompanhou as forças de Wingate relata a descida noturna dos planadores que transportaram as unidades:
"Nosso planador deu uma sacolejada no instante em que o avião-reboque iniciou a sua corrida, puxando-nos. Começamos a rodar pela pista em meio de uma poeirada que mal permitia enxergar. Sobre ambos os lados do campo, os homens trabalhavam febrilmente, enganchando os cabos nos planadores restantes. Repentinamente, no momento em que o nosso avião-reboque acelerou ao máximo, a poeira nos envolveu totalmente. Não se via nada, exceto o rosto do piloto e dos homens que viajavam no planador. Corríamos velozmente para a decolagem, sacolejando na extremidade do longo cabo de reboque.
"A nossa frente, o grande bimotor se encontrava já em pleno ar. Também nós elevamo-nos no espaço, segundos depois. Passamos por cima das árvores, lutando para ganhar altura, e começamos a descrever círculos para nos elevar a um nível suficiente que nos permitisse cruzar o maciço montanhoso... Toda a intensa atividade que nos rodeara durante dias desaparecera. Agora estávamos sós, diante do pôr-do-sol de Assam. Seus raios inundavam o interior do planador e tingiam de um tom rosado a sua transparente cobertura. Um espetáculo de beleza rara se ofereceu então aos nossos olhos, até que o sol desaparecesse atrás das montanhas e nossos rostos mergulhassem na escuridão da noite. Enquanto isso, os planadores ganhavam mais altura. A nossa frente, apenas enxergávamos as chamas azuladas dos escapamentos do avião rebocador. Tudo o que ouvíamos era o ensurdecedor rugido do vento contra nosso planador. De repente, um dos nossos companheiros exclamou: “7.000 pés... Vamos passar sobre as montanhas...”. Nesse momento entramos numa turbulência e começamos a sacudir violentamente. O cabo do reboque estremecia. Estávamos agora a 8.500 pés e em poucos momentos cruzaríamos a fronteira da Birmânia, deixando as montanhas para trás. Ao entrar na Birmânia, a terra parecia um imenso manto negro. A luta estava alta e brilhava intensamente. De súbito, o piloto virou a cabeça e nos indicou: “O rio Irrawady... Um segundo depois completou: “O objetivo dentro de vinte minutos”. Todos que estávamos no planador ficamos em suspenso. Retiniram os ferrolhos dos fuzis, no momento em que as armas foram preparadas. Foi dada a ordem de ajustar os cinturões. Na frente, o avião-reboque perdeu altura e iniciou um lento giro. O piloto então exclamou: “Já acenderam os sinais no solo”. Isso queria dizer que os primeiros planadores já haviam pousado. Descíamos agora mais rapidamente. A uma altura de mil pés, o piloto soltou a amarra e o planador começou a perder altura livremente, para realizar a aterrissagem na mais completa escuridão. Nenhuma força, a não ser o próprio peso do planador, nos impulsionava, fomos, a mais de cem milhas por hora, com o vento rugindo nos tensores do planador, para pousar em território dominado pelo inimigo, com todo um exército japonês interposto entre nós e nossas bases na Índia.
"Arvores! Passamos sobre elas... Luzes! Ficaram para trás velozmente. De repente uma extensa faixa de terra plana apareceu diante de nós. Baixamos. Estabilizamos o aparelho. Batemos violentamente e ricocheteamos no terreno. Os esquis do planador se fixaram ao solo, levantando nuvens de poeira que envolveram nosso aparelho como se fossem a cauda de um meteoro. Então, repentinamente, o planador se deteve, inclinando-se sobre o seu lado direito. As portas voaram dos gonzos. Os homens saltaram na escuridão, afastando-se correndo para a mata. A qualquer momento podia estourar o fogo inimigo. Planadores!... Outro avião-reboque está sobre nós. Vai soltando seus planadores. Um deles se dirige para as árvores, perdendo rapidamente altura. Impotentes para manobrar, seus homens voam para a morte. Um segundo mais tarde, escutamos um grande estrondo. São madeiras estraçalhadas. O planador desapareceu.".

Wingate


Na Índia, a 26 de fevereiro de 1903, nascia Orde Wingate. Da sua infância, muito pouco se pode dizer. Foi uma criança comum. Lembram-se dele como "mal-arrumado, sujo até...".
Em novembro de 1920, aos dezessete anos Wingate passou do colégio secundário à Real Academia Militar de Woolwich. A 3 de fevereiro do ano seguinte, Orde Wingate começava a sua carreira militar, sem supor o futuro que o aguardava. Na Academia Militar manteve sua característica do colégio secundário. Não se destacou de modo nenhum, até pelo contrário, se fez notar como um aluno que dedicava às suas obrigações o mínimo tempo.
Em 1926, Wingate ingressou num curso de árabe organizado pelo Ministério da Guerra. Em março de 1927 prestou um exame preliminar, impressionando os professores pelos conhecimentos demonstrados. Em seguida, a pedido seu, foi transferido para o Sudão, onde foi encaminhado ao Corpo Oriental Árabe. Serviu ali durante os sete anos seguintes, assimilando intimamente a psicologia e as modalidades de vida dos nativos. Uma estranha semelhança com o legendário Coronel Lawrence decorre dessa sua permanência em terras africanas.
Em meados de 1936 foi designado para uma missão na Palestina, como oficial do Serviço Secreto. No mês de setembro desse mesmo ano partiu com a 5a Divisão para Haifa.
Na Palestina, Wingate dedicou-se com afinco ao estudo minucioso do problema árabe-judeu. Após longa série de conversações e observações pessoais, Wingate orientou suas simpatias para a causa sionista, da qual se converteu em defensor entusiasta. Durante todos os anos da sua permanência na Palestina, o melhor amigo de Wingate e sua esposa foi o Dr. Weizmann, líder sionista.
Após a eclosão da Segunda Guerra Mundial, em junho de 1940, Wingate, que se achava ao comando de uma Brigada anti-aérea, foi proposto para comandar forças insurgentes dentro do território das possessões italianas na África.
A 19 de setembro partiu da Inglaterra, de navio, rumo à Cidade do Cabo, de onde se dirigiu por terra para o Egito. Concluídas na Etiópia as ações contra os italianos, com a derrota dos mesmos, período da vida de Wingate que encerrou uma fase da sua existência, o indomável chefe britânico partiu para Rangum a 27 de fevereiro de 1942. A queda da cidade nas mãos dos japoneses, modificou seu destino para Nova Delhi, onde chegou a 19 de março. Recebido imediatamente pelo General Wavell, foi incumbido de assumir o comando de todas as forças de guerrilheiros que operavam na Birmânia.
Posteriormente, sob as ordens de Wingate, essas forças levaram a cabo façanhas sem precedentes na luta na selva.
Na tarde de 24 de março de 1944, quando voava num bombardeiro Mitchell, Wingate desapareceu. No dia seguinte, 25, um piloto localizou os restos da catástrofe, e achou o capacete colonial do legendário Orde Wingate.
Winston Churchill declarou a respeito dele: "Um homem genial que podia ter sido um homem-destino". Sua vida e suas façanhas, assim como a sua extraordinária personalidade fazem pensar que, de fato, Wingate foi um homem destino.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Transporte aéreo na batalha de "Admin Box" - Birmânia


Bruma


Transporte aéreo


Birmânia. Madrugada de 4 de fevereiro de 1944. A 7a Divisão britânica está cercada pelos japoneses na ribanceira denominada "Admin Box". Ali estão sitiados perto de 8.000 homens, sem possibilidade aparente de escapatória. Nas bases aliadas situadas em território da Índia iniciam-se imediatamente os preparativos para abastecer pelo ar o reduto de "Admin Box". É necessário manter a qualquer custo essa posição, para trancar aos japoneses a rota de avanço rumo à Índia. O comandante-chefe britânico, Almirante Mountbatten, transmite à guarnição sitiada uma dramática advertência: "É imperativo que cada homem permaneça em seu posto e lute até o fim". As operações de abastecimento aéreo, das quais dependia a sobrevivência da guarnição, foram confiadas ao Genera-Brigadeiro americano William D. Old. O primeiro vôo realizado pelos bimotores Dakota não conseguiu realizar o lançamento, pois enfrentou um violento fogo antiaéreo japonês. O General Old, imediatamente, honrando os seus antecedentes de homem valente e decidido, tomou o lugar do piloto no avião-guia, e ele mesmo conduziu a esquadrilha de Dakotas até o seu objetivo. A reação japonesa foi igualmente encarniçada. Os disparos da artilharia antiaérea avariaram numerosos aviões, inclusive o pilotado por Old. Os abastecimentos, contudo, foram lançados sobre a ribanceira. Assim foi cumprido o primeiro dos 900 vôos que realizariam os pilotos aliados, para abastecer as tropas sitiadas. No transcurso dessas operações foram lançadas com pára-quedas sobre o reduto de "Admin Box" mais de 3.000 toneladas de munições, medicamentos, víveres e armas. Além disso, entre o material, chegou-se a incluir cigarros, correspondência e até cerveja. Desta forma assegurou-se o prolongamento da resistência e se frustrou o avanço japonês sobre a Índia. A operação foi cumprida tanto de dia como de noite As tripulações, realizando um vôo atrás do outro, dedicavam ao descanso lapsos que não passavam de 5 horas diárias. Para substituir os esgotados pilotos, os aparelhos foram tripulados por altos chefes dos estados-maiores da aviação aliada. Era uma verdadeira competição, na qual todos lutavam para participar. Soldados dos serviços de terra, britânicos, hindus, americanos, sul-africanos, subiram aos aviões e ajudaram as tripulações a lançar as pesadas cargas.

Suprimentos lançados por avião em paraquedas
Para se ter uma idéia da difícil tarefa que tiveram de enfrentar, basta a seguinte descrição do método de lançamento, mediante pára-quedas, utilizado pelos aviões aliados nessa circunstância: "O lançamento de abastecimentos é uma arte. Os aviões devem voar a uma altura e velocidade mínimas durante o processo (que, quando estão abastecendo tropas da linha de frente, os coloca dentro do alcance do fogo até mesmo das armas leves do inimigo). Para completar um lançamento exato, cada avião deve efetuar pelo menos 8 passadas sobre a zona a abastecer. Durante essa meia hora o piloto deve manter o seu pesado avião em posição correta, do contrário o pára-quedas pode se enredar no leme à medida que as cargas caem pela porta de lançamento. Para a tripulação significa um esforço violento e sem interrupção, arrastar os fardos e sacos ao longo do corpo do avião até a porta aberta, suspendê-los e arrojá-los ao espaço. Na Birmânia, o trabalho era complicado pelas características do terreno, onde as zonas de lançamento eram localizadas em vales estreitos, amplas florestas ou encostas de colinas. O relevo acidentado do terreno, produzia turbulências no ar, que se intensificavam durante a época das monções; em uma ocasião, um avião cargueiro Dakota emergiu de uma nuvem, de cabeça para baixo. Porém, as dificuldades começaram realmente quando os lançamentos tiveram que ser efetuados de noite, e quando o inimigo empregou sinalização simulada para desviar os pilotos da sua rota".

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Luta na Birmânia - 10.000 ingleses descem em plena selva


Enquanto a ofensiva americana no Pacífico se desenvolvia com extraordinária intensidade, na Ásia continental as forças aliadas também se dispunham a passar ao ataque, em princípios de 1944.

A conferência realizada em agosto de 1943, em Quebec, por Winston Churchill e Roosevelt, decidira dar uma nova organização às forças que enfrentavam os japoneses na frente da Birmânia. Foi criado então o chamado Comando Aliado do Sudeste da Ásia, que ficou sob as ordens do Almirante Lorde Louis Mountbatten. Este exercera, até aquele momento, o direção das forças de comandos. Era considerado, portanto, um especialista na guerra anfíbia.


General Wingate em um C-47

A decisão de dar maior importância às operações na Birmânia fôra determinada, em grande parte, pelos entusiastas argumentos de Orde Wingate, o célebre chefe dos chindits. Este chefe, em reuniões mantidas com Churchill, em Quebec, conseguira convencer o líder britânico, inclinando-o a favor dos seus planos. Wingate, em suas conversações com Churchill, declarou que a chave da luta na selva estava no céu, isto é, que era necessária uma poderosa força aérea para alcançar o triunfo. Mountbatten secundou com entusiasmo as idéias de Wingate e obteve, por parte do General Arnold, chefe da Força Aérea norte-americana, a cessão de importantes efetivos aéreos de transporte. Nasceu assim o Comando Aéreo n° 1, denominado também pelas tropas "O circo de Cochran", em homenagem ao seu chefe, o Coronel americano Philip Cochran, um jovem e audaz aviador de 33 anos. Este seria um digno auxiliar de Wingate na luta que se avizinhava.

Sob o condução de ambos os chefes, os Aliados levariam a cabo, na Birmânia, uma dos operações aerotransportadas mais brilhantes de toda a guerra.


Mountbatten assume o comando.
Quando chegou à Índia, o Almirante Mountbatten dedicou-se com toda a energia à reorganização das forças aliadas ali estacionadas. A ordem que havia recebido era manter e ampliar as comunicações com a China. Esta missão compreendia o desencadear de uma campanha destinada a assegurar a reconquista de todo o território norte da Birmânia. Neste plano emprestava-se um papel decisivo à invasão aerotransportada das tropas de Wingate na retaguarda inimiga. Ao mesmo tempo, Mountbatten tinha que tomar todas as medidas necessárias para proteger a Índia de uma eventual invasão japonesa. Em cumprimento desse objetivo, a primeira tarefa que o chefe britânico enfrentou foi aumentar a corrente de abastecimentos para os exércitos localizados na fronteira birmânica.

Procurou-se então intensificar o tráfego por via ferroviária. Nessa tarefa representaram um papel importantíssimo os batalhões de engenharia americanos.
Em princípios de 1944 iniciaram os seus trabalhos nas províncias fronteiriças de Bengala Assam. Os resultados foram extraordinários. Em menos de um ano conseguiu-se aumentar o volume do tráfego da rede ferroviária hindu nessa zona, de 90.000 a 200.000 toneladas mensais.

Outra empresa de gigantesca envergadura foi o início de uma nova estrada para a China, para substituir a rota da Birmânia, capturada pelos japoneses. Esta obra foi estimulada pelo General americano Stilwell e exigiu sacrifícios imensos das unidades que intervieram na sua construção, pois a estrada atravessava terrenos selvagens e montanhosos, praticamente inacessíveis. Apesar das terríveis dificuldades, o caminho ficaria praticável nos primeiros meses de 1945.

Louis Mountbatten
Enquanto se levavam a cabo essas tarefas prévias, Mountbatten percorria incansavelmente os acampamentos das tropas, interessando-se pelo seu treinamento, preparação e conversando com os homens. Estas visitas tinham por objeto não somente comprovar o nível de preparação das unidades mas também levantar e fortalecer o moral das tropas. Várias vezes exortou os soldados repetindo conceitos como este: “Se os japoneses tentarem o seu já conhecido truque de infiltrar-se por trás de vocês e cortar suas linhas de comunicações, mantenham-se firmes. Nós os abasteceremos pelo ar. Não haverá retiradas.. Não abandonaremos a luta quando chegar a época das monções. Se lutarmos somente durante seis meses no ano, a guerra durará o dobro do tempo. Os japoneses não esperam que continuemos a luta. Nós os apanharemos desprevenidos... Temos remédios para a malária e teremos o melhor sistema de hospitalização e de evacuação aérea que o Extremo Oriente jamais viu até agora. Os japoneses, que não têm nada disso, terão que lutar contra a natureza, tanto como contra nós”.





Avanço britânico

As forças encarregados da defesa da Índia estavam agrupados no denominado 14o Exército britânico, comandado pelo General Slim. Este chefe, cumprindo os determinações emitidas, resolveu realizar um ataque limitado, para desarticular os planos ofensivos japoneses. O setor escolhido foi, como em 1943, a península de Mayú, na costa do Golfo de Bengala. Ali, os britânicos haviam sido rechaçados no ano anterior, pela encarniçada resistência apresentada pelos japoneses. O General Wavell, que exercia então o comando supremo, assim julgou aquela operação: “Impus a uma pequena parte do exército uma tarefa muito além do seu treinamento e de sua capacidade”.

Os ingleses estavam dispostos agora a não cometer os mesmos erros. Atacariam com fortes efetivos e receberiam um constante apoio por parte da sua aviação.
A frente, na península de Mayú, era dominada por uma cordilheira que dividia em dois a zona de operações. Na campanha anterior, os japoneses se valeram dessa vantagem para vencer separadamente, de um e de outro lado da cordilheira, as forças britânicas.
O General Slim estava agora disposto a não repetir o mesmo erro. Em razão disso determinou o deslocamento de suas tropas não somente ao longo da cordilheira de Mayú, mas também sobre o distante flanco da selva. Desta forma, propunha-se a evitar que os japoneses, infiltrando-se, ameaçassem as linhas de comunicações do exército.

A operação de ataque foi confiada ao 15o Corpo hindu, comandado pelo General Christison. A força era integrada pelas 5a e 7a Divisões hindus, que atacariam respectivamente sobre as encostas direita e esquerda da cordilheira de Mayú, e a 81a Divisão de fuzileiros da África Ocidental, como guarda-flancos, pela selva, com a missão de frustrar um possível movimento envolvente do inimigo. A 81a foi abastecida na sua marcha pelos aviões do Comando Aéreo n° l, de formação recente.

Ao avançar sobre as vertentes da cordilheira de Mayú, as tropas britânicas tinham por objetivo dois importantes redutos japoneses, situados a leste e a oeste desse maciço montanhoso. Eram os centros de Buthidang e Moungdaw. Entre esses pontos corria a única via de comunicação transversal através da cordilheira. Originariamente, esse caminho havia sido traçado para linha ferroviária; haviam-se construído aterros, e dois túneis foram abertos na montanha. Esses túneis, portanto, constituíam o nó vital das comunicações de retaguarda inimiga. Seu valor estratégico era enorme, pois permitiria aos japoneses deslocar de um lado para outro da cordilheira as suas tropas. Os japoneses se encontravam, conseqüentemente, em condições de golpear à vontade os britânicos.

As patrulhas inglesas se aproximaram em missão de exploração da zona dos túneis e informaram que os japoneses haviam convertido essa posição numa verdadeiro fortaleza, apoiada nos flancos pelos redutos anteriormente citados de Buthidang e Maungdaw.

O chefe britânico, General Christison, propôs-se então a conquistar primeiro esses dois baluartes, isolando a guarnição japonesa da posição central dos túneis. Numa segunda etapa trataria de liquidá-los. A 5a Divisão hindu, comandada pelo General Briggs, se encarregaria da captura de Maungdaw e a 7a, sob as ordens do General Messervy, teria a seu cargo a tomada de Buthidang. Na noite de Ano-Novo de 1944, as tropas. britânicas se aproximaram do seu objetivo, depois de uma penosa marcha.

Sobre o flanco direito, as tropas da 5a Divisão se distribuíram frente à denominada fortaleza de Razabil. Essa posição consistia em uma lombada em forma de ferradura, rodeada por outras colinas menores. Em conjunto, esse maciço rochoso formava uma natural posição defensiva de extraordinário poder. Os japoneses contavam com profundos túneis e uma intrincada rede de trincheiras. Em meio à neblina que começava a se desfazer, os canhões e morteiros britânicos desataram um vendaval de fogo sobre as posições inimigas. Deslocando-se pela espessura, os combatentes calaram suas baionetas, empunharam suas granadas e engatilharam suas metralhadoras. Um potente hurrah! se elevou das fileiras e o avanço começou. Agrupados em pelotões de assalto, os ingleses arremeteram contra as colinas, cuja superfície era martelada pelos disparos da artilharia. Aqui e acolá, porém, surgiam os japoneses dos seus refúgios, assestando rapidamente suas metralhadoras Nambu. Uma descarga cerrada recebeu as primeiras fileiras de soldados britânicos. Ao fogo das metralhadoras juntou-se o disparo dos morteiros. O assalto foi, então, desfeito. Os britânicos, porém, com sua tradicional tenacidade, voltaram uma e outra vez ao ataque. Durante toda uma semana se combateu duramente. Cada metro do terreno era cenário de encarniçados choques corpo a corpo. O fogo das armas era substituído por golpes de picaretas e baionetas. Cada reduto japonês teve assim que ser conquistado ao preço de rios de sangue. O sacrifício obteve, afinal, resultado. Dizimados, os japoneses abandonaram as colinas, batendo em retirada, largando para trás mortos e feridos.

O reduto de Maungdaw foi então ocupado pela 5a Divisão. Em seguida; a unidade iniciou um movimento de flanco, penetrando na retaguarda japonesa. Uma nova colina fortificada, a que as tropas denominaram "Tartaruga", interrompeu o avanço.



A "Operação C"



Ao ser detido o avanço, o comando aliado lançou na operação suas unidades aéreas e blindadas. A "Tartaruga" foi objeto de incessantes ataques por parte da aviação aliada. Toda a posição ficou envolvida numa gigantesca massa de fumaça, provocada pela explosão de centenas de projéteis. Em continuação, as baterias de campanha dispararam formando uma barreira de fogo. Depois então avançaram os tanques do 25° Regimento de Dragões. Movimentando-se com dificuldade pelo terreno irregular, os blindados dispararam suas peças praticamente a queima-roupa contra os japoneses, arrasando suas posições. Atrás avançou a infantaria. A investida, contudo, não conseguiu vencer a fanática resistência dos japoneses. Durante três dias e três noites, os tanques e os infantes britânicos combateram ininterruptamente, até que, afinal, conseguiram tomar a "Tartaruga". O poderio das defesas conquistadas está assim descrito nas crônicas oficiais: “Quando finalmente a “Tartaruga” caiu, encontraram-se refúgios subterrâneos situados nove metros sob o solo. Estas instalações compreendiam até sala de refeições para oficiais e tropas, unidos entre si por túneis e situados demasiado profundamente para serem alcançados pelos bombardeios que haviam convertido a colina, coberta de vegetação, num verdadeiro túmulo de poeira. O poderio dessas defesas labirínticas era um dos segredos do resistência do exército japonês na Birmânia”.

Em fins de janeiro, e embora a resistência japonesa ainda não houvesse sido rompida no flanco direito, o comandante-chefe britânico, General Christison, considerou o avanço suficientemente profundo para deslocar para o flanco esquerdo o grosso das suas unidades blindadas, para colaborar com a 1a Divisão no ataque o Buthidang.

Enquanto os britânicos se dispunham a realizar essa manobro, no setor japonês se realizavam preparativos secretos. O Major-General Sakurai, chefe de todas as forças sediadas na península de Mayú, acabava de receber a ordem de pôr em marcha o denominada "Operação C". Esse plano tinha por objetivo concretizar uma audaciosa penetração sobre o território da Índia.
Sakurai se propunha a aniquilar todas as forças britânicas que se achavam frente às suas linhas, mediante um triplo movimento envolvente.
A 55a Divisão japonesa foi, para tal fim, dividida em três forças especiais. A primeira, comandada pelo célebre Coronel Tanahashi, que já derrotara os ingleses na campanha de 1943, deslizaria através da selva sobre o flanco esquerdo da 7a Divisão britânica, até cercá-la pela retaguarda. A segunda força, com efetivos mais reduzidos, avançaria sobre a crista da cordilheira, completando assim a separação das unidades inglesas. Ao mesmo tempo, a terceira força atacaria ao longo de toda a linha, fechando as garras que aprisionariam o 14o Corpo britânico. Quando a 7a Divisão fosse aniquilada, as três forças se uniriam para destruir a 5a. Os japoneses se aprontaram, uma vez mais, a lançar-se ao assalto, confiantes na vitória.

O General Sakurai impôs às suas tropos um prazo de sete dias para exterminar o inimigo. Tal era a sua fé na superioridade dos seus homens. Apesar de contar apenas com suficiente artilharia, lançou na luta os artilheiros como simples infantes. Como derradeira prova da certeza que tinham os japoneses do êxito da sua ofensiva, foi emitida uma ordem às suas tropas para não destruir os veículos britânicos, a fim de poder utilizá-los na marcha sobre a Índia. Um escritor militar britânico assinala a respeito: “Acreditaram firmemente que Nova Delhi estaria no final da sua caminhada. Contudo, a única falha nos seus planos residia no foto de que não consideraram em seus cálculos a tenaz resistência que teriam de enfrentar”.




A batalha de "Admin Box"


Na noite de 3 de fevereiro de 1944, os japoneses se puseram em marcha. Deslocaram-se silenciosamente, com sua característica habilidade, através de um terreno que parecia intransitável. Repetiam assim suas táticas de infiltração que, a seu tempo, haviam favorecido extraordinários triunfos às armas do Sol-Nascente, na primeira campanha da invasão da Birmânia. Poucas vezes, na história da guerra, infantaria alguma ofereceu uma demonstração maior de capacidade de resistência, coragem, tenacidade e espírito de sacrifício, que a exibida pelos soldados japoneses. Sem contar praticamente com nenhum veículo motorizado, nem abastecimentos adequados ou suficientes, os soldados japoneses se locomoviam através da selva, vencendo todos os obstáculos. Seus próprios inimigos qualificaram essas incríveis marchas como verdadeiras "blitzkriegs a pé". Carregando unicamente suas armas e rações mínimas, os japoneses avançaram onde qualquer outro exército teria visto seus homens desfalecerem. Foi assim que as tropas do Coronel Tanahashi conseguiram um completo e inesperado rompimento no flanco da 7a Divisão hindu. Inesperadamente os ingleses viram surgir, pela sua retaguarda e da espessura da mata, uma força de mais de 8.000 soldados prontos para o combate. O primeiro alarma foi dado na madrugada de 4 de fevereiro. Uma coluna de abastecimento inglesa deparou de repente com um destacamento de vanguarda japonês, trocando tiros entre eles. A princípio, o comando britânico acreditou estar em presença de membros da polícia birmânica, tal foi a confusão que o encontro provocou. Posteriormente, descobriu-se que os linhas telefônicas que uniam a frente com a retaguarda haviam sido cortados. Pouco antes do amanhecer o cerco estava praticamente fechado.


7ª Divisão Indiana

Avançando pelo norte, através das colinas e dos arrozais, os soldados japoneses caíram sobre as costas das desprevenidas forças britânicas. O chefe da 7a Divisão, General Messervy, ao receber a dramática notícia, ordenou que imediatamente marchasse ao encontro dos japoneses uma brigada de gurcas que fôra mantido na reserva.
Durante todo o decorrer da jornada travaram-se intensos combates. Ao cair a noite, os japoneses concretizaram o rompimento definitivo.
O General Messervy assim relata os acontecimentos: “Fui despertado por uma explosão de gritos e queixumes, apesar de, estranhamente, ter escutado muito poucos disparos. Saltei da cama e andei, de pijama, durante uma hora mais ou menos, tratando de averiguar o que se passava. Todo o acampamento estava de pé, porém a confusão reinava em toda a parte. A escuridão era completa. De súbito, os japoneses, lançando gritos como aqueles que se escutam quando o Arsenal faz um gol em seu próprio campo, atacaram os postos de comunicações. Os soldados, junto com uma companhia de tropas hindus de engenharia, tiveram que lutar como forças de defesa do quartel-general. Os japoneses chegaram mergulhados na neblina que os ocultava parcialmente. Contudo, conseguiram cruzar em massa apenas a linha exterior da nossa posição. Nenhum japonês chegou realmente até o meu posto-de-comando. Os poucos que conseguiram aproximar-se foram mortos a tiros pelos meus assistentes. Outros retrocederam correndo”.

Os japoneses, ao serem contidos pela desesperada resistência britânica, assestaram seus morteiros e descarregaram uma chuva de projéteis sobre as posições inimigas. Em poucos minutos, as tendas e barracas estavam envoltas em chamas. Todos os fios telefônicos ficaram cortados. Messervy decidiu, então, retirar-se até a base de suprimentos da divisão, conhecida com o nome de "Admin Box". Essa posição estava localizada em uma ribanceira, no meio da qual se erguia uma colina de noventa metros de altura. Ali se concentrariam os restos dispersos da divisão, para oferecer uma resistência maciça. O General Messervy dividiu seus homens em vários grupos. Colocando-se à frente de um deles, o chefe britânico partiu para o "Admin Box". Internando-se através da floresta, para evitar os destacamentos japoneses que bloqueavam todas as picadas, ao cabo de quatro horas de marcha extenuante, o general se achava já em seu objetivo. Havia ali reunida uma força de 8.000 soldados, pertencentes às diversas unidades da divisão. As tropas foram organizadas em unidades de combate e distribuídas pelo perímetro defensivo. Na posição central foram localizados os tanques e canhões, para proteger os postos-de-comando e os hospitais de campanha. Os japoneses acossaram incessantemente as linhas inglesas, enquanto estas se encontravam em vias de reorganização. Da Índia, chegou a Messervy uma mensagem do Almirante Mountbatten.

Nela, era informado que já havia sido dada a ordem para o envio de reforços imediatos para liberar as forças sitiadas. O comunicado terminava com a seguinte frase: “Até que cheguem, é imperativo que todos os homens permaneçam em seus postos e lutem até o fim”.
No lado japonês, entrementes, reinava um júbilo indescritível. As rádios japonesas transmitiam sem cessar informes da vitória, repetindo o estribilho de "a marcha sobre Nova Delhi começou... O Coronel Tanahashi entrará em território hindu dentro de uma semana".

"Rosa de Tóquio", a célebre comentarista que, dia por dia, dirigia mensagens para desmoralizar as tropas britânicas, em inglês, assinalou: "Por que não voltam para suas casas... Tudo já terminou...".
Contudo, um novo fator entraria em jogo, frustrando os planos japoneses. Como assinalam os cronistas do episódio "desgraçadamente para o Coronel Tanahashi a boca da rede ainda estava aberta... Esquecera-se do ar...".

De fato, os Aliados, valendo-se das poderosas unidades de transporte que haviam concentrado na Índia, haveriam de assegurar a resistência das forças sitiadas em "Admin Box". As tropas cercadas, em lugar de ceder terreno e abandonar as armas, se manteriam firmes, graças ao abastecimento que receberiam pelo ar.
Os britânicos já haviam tomado todas as providências necessárias para levar a cabo o abastecimento dos seus companheiros cercados. Nos aeródromos da Índia haviam sido embaladas e depositadas junto às pistas, rações e munições para dez dias, suficientes para 40.000 homens. Os aviões do Comando Aéreo n° 1, apoiados pelas esquadrilhas de caças que limparam o céu de aparelhos japoneses, começaram o abastecimento, numa ininterrupta corrente. Em "Admin Box", as unidades britânicas submetidas ao castigo da artilharia japonesa localizada nas colinas circundantes, se mantiveram firmes, sem ceder um palmo de terreno. A luta alcançou uma violência inusitada. Os japoneses combatiam com "garra" e tenacidade. Ao cair a noite, os japoneses vestiam capuchos e máscaras e, gritando como demônios, tentavam atemorizar as tropas inimigas.


Um Hawker Hurricane da RAF ataca uma posição japonesa


Uma idéia das terríveis condições dessa luta é fornecida pela declaração de um oficial britânico, veterano da retirada de Dunquerque: "Eu teria preferido passar duas semanas no inferno de Dunquerque a dois dias no de "Admin Box".

As baixas inglesas foram enormes. Centenas de feridos afluíam aos postos de campanha, onde os médicos e enfermeiros trabalhavam sem descanso. Um deles, o Major Liwall, realizou mais de 250 intervenções cirúrgicas no espaço de poucos dias... Finalmente, e com o apoio de reforços chegados da Índia, as tropas de "Admin Box" romperam o cerco. Na manhã de 23 de fevereiro, o Major-General Briggs, chefe da 5a Divisão, penetrou no reduto que estava reduzido a um montão de ruínas fumegantes, carregando garrafas de uísque e de rum para celebrar a libertação com os sobreviventes.

Assim se encerrou a batalha em "Admin Box", uma das mais sangrentas da luta na Birmânia. A primeiro tentativa dos japoneses para se aproximar da Índia havia sido frustrada. Mais de 7.000 soldados japoneses haviam tombado na empresa.





"Operação Assombração"


Enquanto as tropas britânicas conseguiam, na península de Mayú, essa brilhante vitória, Wingate ultimava os preparativos para levar a cabo a invasão aérea da retaguarda inimiga, no norte da Birmânia.

Dez mil homens, com armamento pesado, estavam de prontidão nas bases, para serem conduzidos em planadores e aviões de transporte aos três pontos do ataque, denominados em código: Picadilly, Broadway e Chowringhee. Tratava-se de clareiras na floresta, situadas nas proximidades do centro ferroviário e do aeródromo japonês de Myitkyina. Sobre este último ponto já avançavam, pelo norte, as forças chinesas e americanas, comandadas pelo General Stilwell. A missão do assalto britânico sob o comando de Wingate, consistia, portanto, em golpear com seus chindits as costas das forças japonesas que se oporiam à penetração de Stilwell.

O plano estava ordenado assim: uma primeira leva de planadores aterrissaria nas clareiras; as tropas dessa primeira força ocupariam as posições, as limpariam e as protegeriam contra um possível contra-ataque japonês. Uma segunda leva traria mais tropas e unidades de sapadores. Estes tratariam de abrir uma pista com celeridade, para que, na noite seguinte, os bimotores Dakota estivessem em condições de transportar para lá canhões, veículos, animais e abastecimentos.

A 5 de março de 1944, poucas horas antes do ataque, o chefe das unidades de transporte aéreo, Coronel Cochran, determinou que um avião realizasse um reconhecimento fotográfico das três clareiras. Ao serem reveladas as fotografias, os oficiais aliados constataram, desalentados, que o solo de Piccadilly estava coberto por grandes troncos derrubados, o que impossibilitava a descida de planadores.

Surgiu então a suspeita de que os japoneses estivessem à par do plano aliado. As restantes fotografias evidenciavam, no entanto, que as outras clareiras estavam limpas. Realizou-se, então, uma reunião entre Wingate e os demais altos chefes. Nela, o General Slim, sobrepondo-se à indecisão dos presentes, opôs-se terminantemente ao adiamento do ataque. Declarou que os obstáculos colocados pelos japoneses em Piccadilly podiam constituir uma simples precaução de rotina. Tomou-se então a decisão de realizar, tal como havia sido prevista, a "Operação Assombração". Estava planejado realizar o primeiro lançamento em Piccadilly. Portanto, essas forças deviam ser agora desviadas para Broadway, Ali aterrissaria a primeira leva, integrada por oitenta planadores. Conduziriam aproximadamente 1.200 combatentes.


Gurkhas avançando com tanks contra japoneses na rodovia Imphal-Kohima

Surgiu, porém, uma última dificuldade. Durante semanas, as tripulações haviam sido treinadas com mapas e modelos de Piccadilly. Agora se tornava necessário fazê-las descer em uma zona que lhes era totalmente desconhecida. Ante a necessidade de dar a conhecer aos soldados o novo ponto de aterrissagem, o Coronel Cochran expressou-se: "Direi aos rapazes que encontramos algo melhor...".


Planadores em ação



Às 18h 12m do dia 5 de março, foi dada aos chindits da 77a Brigada, sob o comando do Brigadeiro Calvert, a ordem de embarcar. Os primeiros planadores, atados aos pares aos aviões-reboque, se elevaram minutos mais tarde, rumando, então, para o território birmânico.

A "Operação Assombração" estava em marcha.

Chegou o noite e os planadores continuavam partindo ininterruptamente com intervalos de cinco minutos. A força de invasão não levava escolta alguma e voava às escuras sem luzes de posição. Sua maior arma era conseguir surpresa absoluta. Sessenta e sete planadores conseguiram subir. Deles, no entanto, apenas trinta e dois conseguiriam aterrissar no objetivo.

Balouçando no ar, em meio às sombras, onze desceram em território da Índia, nove aterrissaram dentro das posições japonesas e outros quinze não chegaram a desligar-se dos seus aviões-reboque. Em conseqüência do congestionamento que reinava na pista Broadway, os últimos planadores receberam ordem de regressar às suas bases. A maior parte das aterrissagens realizadas fora da zona assinalada se deveram a rompimento dos cabos de reboque. As descidas acidentais realizadas em território controlado pelos japoneses, tiveram, no entanto, resultados favoráveis, pois contribuíram para aumentar a confusão. Houve casos de planadores que tocaram a terra perto dos quartéis-generais japoneses, a mais de cem quilômetros de distância de Broadway.

A descida em Broadway se realizou de forma acidentada. O planador que transportava a equipe encarregada de coordenar as aterrissagens não alcançou o objetivo, pois efetuou uma aterrissagem forçada, nas margens do rio Chindwin. Assim, não existindo um controle terrestre, muitos planadores da primeira leva de assalto ultrapassaram o local assinalado e caíram em meio à mata, destroçando-se. As baixas, contudo, foram menores que as esperadas, dadas as difíceis condições do terreno: 23 soldados mortos e outra cifra igual de feridos. Entretanto, a maioria da equipe mecânica, destinada a abrir uma pista, se perdeu. O Brigadeiro Colvert ordenou, então, a interrupção das descidas até a manhã seguinte.

Ao despontar o sol, os sapadores iniciaram o nivelamento com pás, de uma franja, à guisa de pista precária. Poucas horas depois, aterrissou o primeiro Dakota, trazendo reforços. Nessa noite, em Broadway, aterrissaram outros 55 Dakotas. Entrementes, a 111a Brigada de Chindits desembarcava seus planadores em Chowringhee. A surpresa fôra total.
A 7 de março, Wingate aterrissou em Broadway. No dia seguinte, transportou-se de avião a Chowringhee, supervisionando pessoalmente os operações. Na manhã do dia 11 a invasão estava concretizada. Os Dakotas, em 660 vôos, haviam transportado ao coração da floresta 9.052 soldados, 1.360 animais de carga e 250 toneladas de material. Na extraordinária operação não se perdera um só avião.
Poucos dias depois da sua aterrissagem, as colunas de chindits se puseram em marcha. Através da selva, deram começo à sua campanha contra os comunicações japonesas.






Chindits e os planadores


Da Índia chegou, a pé, outra brigada de chindits, somando-se ao ataque, fazendo com que as forças britânicas que operavam na retaguarda do inimigo totalizassem a cifra de 12.000 homens.
Wingate dirigiu então uma proclamação aos seus homens, que seria a última a ser firmada por esse batalhador "homem genial": “Chegou o momento de colher os frutos da vantagem que conquistamos... Damos graças a Deus pelos grandes êxitos que nos propiciou, e sigamos adiante, descarregando nosso golpe nas costas do inimigo, para expulsá-lo do nosso território. Este não é momento para calcular o risco... Mas sim o de viver para a História”. Os japoneses reagiram finalmente. Atacaram a base de Chowringhee, porém a brigada ali destacada já havia abandonado suas posições, por ordem de Wingate, instalando uma nova pista de aterrissagem mais para o oeste, que foi denominada Aberdeen. Ali, a 23 de março, aterrissou uma nova brigada de chindits.

No dia seguinte, quando efetuava um vôo dirigindo-se ao seu QG, Wingate encontrou a morte ao espatifar-se, contra uma montanha, o bombardeiro americano que o transportava.

Wingate tombou assim no momento culminante da sua carreira. Talvez a melhor definição da sua personalidade tenha sido dada por um dirigente britânico, Leopold Amery: “Sua grandeza como condutor militar se baseava em qualidades que escapavam à mera compreensão intelectual da guerra, ou à fulminante audácia, e residia em uma profunda fé”.

Vitória no norte da Birmânia


As operações desencadeadas pelos chindits deram lugar a uma série ininterrupta de sangrentos choques com as forças japonesas.
Divididos em mais de trinta colunas, que atuavam independentemente, os "fantasmas verdes" semearam o caos nas linhas da retaguarda inimiga. Várias vezes os japoneses atacaram os pontos de aterrissagem que haviam sido convertidos em verdadeiros redutos, sem conseguir apoderar-se deles. Realizando um esforço sobre-humano, a aviação de transporte manteve durante todo o tempo o abastecimento das forças de chindits e evacuou milhares de feridos. A ação dos chindits, entretanto, conseguira o seu objetivo: facilitar a penetração das tropas do general americano Stilwell. Este chefe avançara profundamente em direção a Myitkyina, utilizando como ponta de lança a 22a e a 38a Divisões chinesas. Pelo lado esquerdo, em movimento de flanqueio através da mata, marchavam os três batalhões do Regimento composto 5.307, comandado pelo Brigadeiro-General Frank Merrill. Esta unidade americana, integrada por voluntários especializados em luta na selva, logo se tornou conhecida com o nome de "os saqueadores de Merrill", e igualou em suas façanhas aos chindits de Wingate.
Marchando incansavelmente e abastecidos pelo ar, os "saqueadores" sustentaram uma campanha de quatro meses, na qual se sucederam sem interrupção as emboscadas, contra-emboscadas, cercos, sítios e infiltrações ao longo de picadas abertas a machado através da mata. Houve ocasiões que o avanço não passava de dois quilômetros diários. Contudo, Merrill nunca esteve ausente com seus "saqueadores" quando Stilwell precisou dele para golpear no flanco e na retaguarda dos japoneses.

A 19 de março, as tropas chinesas e americanas se aproximaram do vale do Mogaung, Haviam deixado para trás mais de 4.000 japoneses mortos. Nesse mesmo momento, o exército japonês havia lançado, mais para o sul, uma gigantesca ofensiva contra a Índia, na qual empenhou mais de 100.000 soldados. Era o último e desesperado intento dos japoneses para alcançar o vitória. A penetração japonesa deixava a descoberto todo o flanco direito das colunas de Stilwell e ameaçava suas linhas de comunicação com o território hindu. Era necessário, aparentemente, pôr fim à campanha, para concentrar todas as forças aliadas em defesa da Índia.

O comandante-chefe britânico, General Slim, tomou então uma resolução audaz, demonstrando a sua capacidade de condutor. Ordenou a Stilwell e aos chindits continuar com as operações no norte da Birmânia. Esta decisão trouxe um vitorioso resultado.
A 17 de maio e depois de uma exaustiva marcha de vinte dias em plena mata, os "saqueadores" de Merrill tomaram de surpresa o aeródromo de Myitkyina. Na cidade do mesmo nome se entrincheiraram 1.200 japoneses resolvidos a combater até o último homem.
Iniciou-se, então, uma batalha terrivelmente encarniçada. Durante 78 dias os japoneses combateram heroicamente, movidos por uma fanática determinação, enfrentando as forças chinesas, britânicas e americanas. Finalmente, na tarde de 3 de agosto de 1944, Myitkyina caiu nas mãos de Stilwell. Somente duzentos japoneses foram capturados, feridos em sua maioria. Dessa forma, concretizou-se a ocupação do norte da Birmânia.

domingo, 14 de junho de 2009

Resumo sobre os acontecimentos relativos ao Genocidio e Holocausto


Prisioneiros judeus em Dachau,Alemanha em 1942.

Os alemaes tinham uma grande organização que cuidava, exterminava e encobria todos os fatos e relatos sobre os campos de concentração!Uma das formas de deixarem os prisioneiros mais faceis para manejo e para facilitar sua morte era por inanição!
Resumo sobre os acontecimentos relativos ao Genocidio e holocausto:
Sob a doutrina racista do III Reich, cerca de 7,5 milhões de pessoas perderam a dignidade e a vida em campos de concentração, especialmente preparados para matar em escala industrial. Para os nazistas, aqueles que não possuíam sangue ariano não deveriam ser tratados como seres humanos. A política anti-semita do nazismo visou especialmente os judeus, mas não poupou também ciganos, negros, homossexuais, comunistas e doentes mentais. Estima-se que entre 5,1 e 6 milhões de judeus tenham sido mortos durante a Segunda Guerra, o que representava na época cerca de 60% da população judaica na Europa. Foram assassinados ainda entre 220 mil e 500 mil ciganos. O Tribunal de Nuremberg estimou em aproximadamente 275 mil alemães considerados doentes incuráveis que foram executados, mas há estudos que indicam um número menor, cerca de 170 mil. Não há dados confiáveis a respeito do número de homossexuais, negros e comunistas mortos pelo regime nazista.

Judeus holandeses marcham para o campo de concentração de Amersfoot,sobre vigilância das SS.

A perseguição do III Reich começou logo após a ascensão o de Hitler ao poder, no dia 30 de janeiro de 1933. Ele extinguiu partidos políticos, instalou o monopartidarismo e passou a agir duramente contra os opositores do regime, que eram levados a campos de concentração,em 1933 já havia 25 mil presos no campo de Dachau, no sul da Alemanha.O Führer tinha o hábito de reprimir violentamente qualquer manifestação de protesto. Os condenados sofriam torturas, eram obrigados a fazer trabalhos forçados ou acabavam morrendo por fome ou doença. Eram também considerados inimigos do III Reich os comunistas, pacifistas e testemunhas de Jeová. Um após Hitler ter assumido o poder foram baixadas leis antijudaicas iniciando o boicote econômico. Desde 1933, quando os primeiros campos de concentração de presos em massa foram construídos em Boyermoor e Dachau (Alemanha), milhões de pessoas perderam seus nomes, ganharam números, foram escravizadas, transformadas em cobaias, ou simplesmente eliminadas pelas doenças, torturas e câmaras de gás numa organização civil e militar, cujos objetivos transcendiam a questão racial ou política, revelando os fins ideológicos de uma sociedade voltada para exploração e extinção de tudo que fosse diferente daquilo considerado correto segundo seus critérios subjetivos e exclusivistas.



Humilhação aos judeus.
Mulher: Sou a maior porca da cidade,eu tenho relacionamento somente com judeus.
Homem:
Eu levo só garotas alemães para meu quarto.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

A Derrocada da França


E a França caiu...


A decisão da França de abandonar seus aliados e buscar uma paz em separado era algo que deixou, a 17 de junho, de conter qualquer elemento de surpresa. Já durante algum tempo antes, apesar das afirmações periódicas de imperturbável união entre a Grã-Bretanha e a França, a probabilidade de tal passo tinha estado a aumentar gradualmente. Na verdade, os próprios tons desses pronunciamentos emprestavam côr à possibilidade. Churchill, por exemplo, afirmou a 19 de maio: "Recebi dos chefes da República Francesa e em particular de seu indomável primeiro ministro sr. Reynaud as mais sagradas garantias de que, houvesse o que houvesse, eles lutariam até o fim." Mas o próprio caráter premente dessa afirmativa concorria para que ela fosse de menor eficiência para o reforço de confiança do que para o despertar de especulações em torno de sua necessidade. E em seu discurso de 4 de junho, Churchill se utilizou de uma frase cujo significado cedo se percebeu. "Tenho plena confiança em que... nos mostraremos novamente capazes de defender a nossa pátria insular e de dominar a tempestade da guerra e sobreviver à ameaça da tirania, por anos se for necessário e se necessário sozinhos."
Mas uma coisa era explicar satisfatoriamente um acontecimento que já se verificara, e outra era prever que tal acontecimento se realizaria. A busca de explicações tendia quase inevitavelmente a transformar-se numa busca de evasivas. A culpa era atribuída de vários modos aos generais, aos políticos, ao soldado raso do exército francês e ao povo francês em geral.

Nenhuma dessas explicações era completamente satisfatória em si mesma. Nenhuma, todavia, podia ser inteiramente desprezada. Os políticos indubitavelmente contribuíram, se não para a própria derrota, pelo menos para uma situação que tornara a derrota possível - se bem que nesta questão havia uma tendência dominadora em certos círculos para sublinhar os erros de cálculo da Esquerda, ignorando ao mesmo tempo as atividades mais sinistras ou mais mal orientadas da Direita. Até certo ponto, entretanto, os conflitos dos políticos franceses contribuíram para a falta de preparo da França. Já desde 1918, as questões sociais vinham aumentando de agudez. A impaciência crescente das massas pela intransigência dos grupos dirigentes tinha sido respondida por uma resistência gradualmente mais inflexível das classes favorecidas a qualquer medida que envolvesse reforma social ou econômica. Essa crescente preocupação pelas questões internas afetou sem dúvida a probabilidade da França adotar um rumo vigoroso e decisivo de política externa. Isto era particularmente verdadeiro depois de 1935, quando os reflexos da luta social se estenderam à esfera internacional, e Berlim e Moscou vieram a simbolizar as principais ameaças ou refúgios das facções que se degladiavam. O resultado foi uma semiparalisia de decisão nos problemas externos, a qual contribuiu para o preparo dos fundamentos diplomáticos - e talvez também militares - da catástrofe final.
Grupo anti-tanque com um Hotchkiss 37mm

Então, subitamente, alguns observadores descobriram a existência de um sentimento muito difundido de derrotismo entre o povo francês. A descoberta não era totalmente convincente, mas indicou talvez certas características do moral nacional. Poucos afirmariam que a guerra foi saudada na França com grande entusiasmo. Ela entrou na guerra não para repelir qualquer invasão iminente, mas sim para subjugar um inimigo potencial antes que se tornasse tão forte que lhe fosse impossível resistir militarmente. Um Hitler que dominasse a Europa oriental poderia significar uma França subjugada sem travar sequer uma batalha. Este era o ponto de vista daqueles que se mostravam partidários de uma resistência a favor da Polônia. Mas era um ponto de vista passível de ser debatido e em torno do qual certos grupos franceses estavam prontos para entrar em debates. As dúvidas sobre a sua validade podem ter concorrido para o aumento do desencorajamento nacional quando a guerra começou a tomar um rumo desfavorável, auxiliando assim os agentes de Hitler e seus aliados no país na tarefa do enfraquecimento da resistência popular. O que tornava tudo isso difícil de ser avaliado era a falta de qualquer direção eficiente do espírito de resistência no momento crítico. Nenhum Gambetta se ergueu para conclamar a nação para novos e heróicos esforços; e o refrão Il faut en finir que marcara a atitude da nação em relação à luta era uma base inadequada para esforços espontâneos em face de tão rápida e arrasadora derrota.
Infantaria de assalto alemã avança pela França

Mas quando tudo isso era tomado em consideração, ressaltava um fato central. Este era a derrota militar. O exército francês, de tão alto prestígio ao começo da guerra, tinha sido esfacelado por um inimigo superior. Fosse com que fosse que a situação geral da França tivesse contribuído para esse resultado, era ainda a derrocada militar que mais carecia de uma explicação.

O colapso militar

Não poderia ser explicado como sendo devido à qualidade do soldado francês. Este pelo menos não era responsável pela inferioridade no equipamento e pela falha disposição de reservas que se tornaram perfeitamente clara depois de 10 de maio. O mais que se poderia dizer contra ele era que o seu espírito de luta carecia daquele desespero que poderia parcialmente contrabalançar essas deficiências e dar ao Alto Comando um pouco de tempo extraordinário para retificar alguns de seus erros. Ele tinha sido preparado para uma espécie de guerra; viu-se numa outra diferente, que absolutamente não lhe era familiar. Foi submetido a uma concentração de fogo sem precedentes, que fazia com que se parecesse inútil tudo que fizesse em resposta. Viu-se a lutar por dez dias sucessivos contra forças alemães que eram renovadas cada dois ou três dias. Sobretudo, sentia que estava sendo sobrepujado constantemente sem que pudesse travar luta direta com o inimigo. Começou, por fim, a sentir que o seu próprio destacamento estava sendo deixado sozinho e sem apoio para aparar todo o peso do assalto. Quando a luta se apresentava quase sem esperança, seu moral em muitos casos não estava convenientemente preparado para prosseguir o combate e dai vinha a desagregação. Se, entretanto, este era o caso em geral, havia também muitas exceções, e exemplos de tropas francesas mantendo uma resistência corajosa e tenaz não faltaram mesmo depois do começo das negociações de armistício. Um comentarista britânico, escrevendo na The Fighting Forces, pagou-lhes generoso tributo: "As falhas que motivaram a derrota não podem ser atribuídas ao soldado francês. Não há homem algum mais preso ao seu solo natal que o campônio francês, ninguém mais verdadeiramente patriota... A verdadeira causa reside na preparação falha e ineficiente."



Pow's franceses
A culpa dessas falhas cabe em grande parte ao Alto Comando francês. Os preparativos falhos não eram somente materiais, mas também intelectuais. A rigidez da mente foi ilustrada pela sua recusa em admitir que as lições da campanha polonesa tinham qualquer aplicação séria ao problema da defesa francesa. Sua excessiva confiança na tática defensiva fê-lo subestimar de modo fatal o poder que as novas armas e métodos tinham dado ao ataque. Contudo, apesar de centralizar o pensamento em torno da Linha Maginot, o Alto Comando deixou de desenvolvê-la de modo consistente. Com o problema da fronteira belga a exigir uma solução, ele nem estabeleceu defesas fixas adequadas, nem elaborou um eficaz contra-golpe para o caso de uma invasão alemã. E quando o êxito do avanço alemão deitou por terra todos os princípios de sua doutrina, o Alto Comando continuou a agarrar-se aos remanescentes de suas obsessões e permitiu que reservas essenciais fossem deslocadas para as fortificações orientais, quando o destino da França estava em jogo ao longo do Mosa e do Somme.
Esse era um dos fatores da fraqueza aliada, não somente quanto à defesa inicial, mas ainda mais gravemente na questão vital dos contra-ataques. Nos dias que se seguiram à ruptura alemã até o Canal, essa fraqueza era ainda mais evidente. Por vários dias, os alemães mantiveram um corredor precário de apenas 20 km. de largura. O fechamento desse corredor teria isolado substanciais forças alemães e retardado, senão impedido, o seu avanço através de Flandres.
Apenas uma tentativa séria foi feita para o conseguimento dessa finalidade. E essa foi levada a efeito pelas forças britânicas, a 22 de maio, com apenas duas divisões e sem apoio francês. Embora ganhasse algum terreno não foi suficientemente forte para provocar uma ruptura; e, carecendo de força para aproveitar as vantagens obtidas, as divisões britânicas viram-se avançando para uma armadilha e foram obrigadas a recuar. Um plano mais ambicioso, se bem que ainda limitado, foi entretanto desenvolvido ao mesmo tempo por Weygand. Ele envolvia a sincronização de uma nova investida ao norte, em que duas divisões britânicas, outra vez, tomariam parte, com o avanço do principal exército francês no sul. Foi originariamente marcado para o dia 25 de maio, mas a necessidade de repouso e de reforma das divisões britânicas provocou o seu retardamento até o dia 26. Esse dia, entretanto, era tardio demais. A essa data, o ataque alemão ao exército belga tornou iminente o colapso deste, e todas as forças britânicas disponíveis foram mandadas rapidamente para o norte a fim de apoiá-lo. Privados do esperado auxílio britânico, os franceses desistiram de seu plano, e com a rendição belga todas as possibilidades de revivê-lo desapareceram.




Linha Maginot

Túnel dentro da Linha Maginot
Soldados no interior das fortificações da Linha Maginot

A importância desse episódio consiste não somente na revelação que faz da coordenação imperfeita entre os comandantes aliados. Mostra também como havia escassez de reservas disponíveis quando em conseqüência da falta de auxílio de duas divisões britânicas o principal exército francês achou-se incapaz de lançar sequer um contra-ataque limitado. Mais alarmante ainda era a falta de habilidade francesa para reaver mesmo as posições locais de primeira importância. Isto foi demonstrado com o fracasso da tentativa de recaptura das cabeças de ponte que os alemães estabeleceram ao longo do Somme. Quando a batalha da França começou, essas serviram de vias para o assalto mecanizado alemão; e os tanques lançados dessas cabeças de ponte foram capazes de furar a linha Weygand, iniciando o desmantelamento final de toda a frente.
A Batalha da França revelava de modo cada vez mais claro a inferioridade francesa, não somente em equipamento, mas, o que era mais surpreendente, em número. Afirmou-se oficialmente que a França mobilizara entre cinco e seis milhões de homens. Mas mesmo admitindo-se que entre vinte e trinta divisões foram dispostas na fronteira italiana, era difícil imaginar-se onde esses homens poderiam estar, e aumentava a suspeita de que esses números eram em grande parte um mito. Mais tarde, num comunicado em que comparava os esforços britânicos e franceses e no qual não tinha motivos para subestimar os da França, Paul Baudoin fixou o total da mobilização em três milhões. De acordo com Pétain, os franceses no auge do avanço final puderam dispor em linha apenas sessenta divisões contra cento e cinqüenta divisões alemães. "É provável", escreveu um oficial de engenharia americano, "que a 5 de junho, quando o golpe foi desfechado, o poder combativo dos alemães entre Abbeville e Montmedy tenha sido o dobro do dos franceses. E já que os alemães retinham a iniciativa e uma mobilidade superior, essa proporção poderia facilmente alcançar quatro para um em determinados pontos. Os franceses simplesmente careciam de força para impedir uma ruptura da frente."

"O objetivo da nova fase de operações", disse o Alto Comando alemão", era romper a frente setentrional francesa, forçando o despedaçamento das unidades francesas rumo ao sudoeste e sudeste para depois destruí-las." O caminho foi aberto quando os franceses eram impelidos da linha do Somme, e com a travessia do Sena e do Marne o objetivo estava quase alcançado. Os exércitos franceses nessa região foram metodicamente cortados em pedaços. Esforços tardios para trazer reforços do setor atrás da Linha Maginot foram prejudicados pelo rompimento das comunicações, devido não somente ao bombardeio da retaguarda do front, como também ao fato de que o avanço tinha cortado as linhas ferroviárias mais diretas. A tentativa de retirada para o Loire fracassou quando as tropas encontraram as estradas atravancadas por uma torrente de refugiados e o rápido avanço mecanizado alemão ultrapassou os franceses retirantes. O Loire por si mesmo era ineficaz como linha de defesa, e a retirada permitiu aos alemães desembarcar na retaguarda da Linha Maginot e auxiliou o sucesso do ataque frontal que perfurou as defesas em dois pontos. Algumas das tropas nessa área continuaram a resistir até o fim, mas toda a esperança numa frente coerente tinha desaparecido. A 9 de junho, Weygand, com irônica ambigüidade, disse ao exército: "Este é o último quarto de hora. Agüentem firmes!" Mas quando passou o último quarto de hora, o principal exército francês deixou de existir como força combativa efetiva.



O colapso político

Quando Weygand substituiu Gamelin no comando das forças aliadas, tomou a si uma causa que sentia já estar perdida. Essa convicção foi reforçada quando a situação militar foi de mal a pior; e quando os alemães lançaram o ataque à linha do Somme, Weygand chegou à firme conclusão de que essa era a prova final, e de que se a França fosse uma vez mais obrigada a ceder caminho a rendição seria inevitável.


General Weygand
Nessa crença ele teve o apoio de um grupo crescente dentro do governo. A crise ministerial de 5 de junho resultara na eliminação dos mais ativos advogados da causa da paz em separado. Mas entre os novos membros introduzidos no gabinete para fortalecer o espírito de resistência houve alguns, como Paul Baudoin, que em poucos dias se passaram para o partido da paz; e outros de espírito firme até aquela data ficaram convencidos de que, com a rendição de Paris, nenhuma esperança mais restava. A 12 de junho, a questão chegou a uma decisão, quando o gabinete, reunido em Tours, foi informado por Weygand de que a batalha estava perdida e de que nada restava senão solicitar um armistício.

Houve ainda considerável resistência a essa proposta. Mesmo admitido que a possibilidade de resistência em solo francês estava quase no fim, havia ainda a possibilidade de se conduzir a luta nas colônias. Reynaud se fez porta-voz dos que estavam contra a rendição quando - em palavras já parcialmente falsificadas - escreveu a Roosevelt, no dia 10: "Lutaremos na frente de Paris; lutaremos atrás de Paris; fechar-nos-emos numa de nossas províncias para lutar, e se ainda dela formos afastados, estabelecer-nos-emos na África do Norte para continuar a luta, e se necessário, mesmo em nossas possessões da América continuaremos a combater."

A isso, porém, tanto Weygand como Pétain, apoiados por uma parte do gabinete, se opunham firmemente. Weygand estava visivelmente obsessionado pela crescente desorganização da autoridade civil e pelo perigo de ela conduzir a uma revolução. Alegou-se mesmo que ele dissera ao gabinete que motins comunistas tinham irrompido em Paris - informe que Mandel imediatamente desfez chamando o chefe de Polícia da Capital e obtendo um desmentido autorizado. Mas apesar de tudo, perdurava o receio de tais motins; e a acompanhá-lo havia a esperança de que, fazendo-se a paz antes que tudo estivesse perdido, alguns resquícios da independência francesa ainda pudessem ser salvos. Pierre Lazareff, diretor do Paris Soir, atribuiu a Pétain palavras que, mesmo que apócrifas. expressavam indubitavelmente os pontos de vista do partido da paz: "Solicitemos imediatamente um armistício, enquanto ainda se mantêm intactos a nossa marinha e grande parte do nosso exército e a Linha Maginot continua a resistir. Mais tarde, estaremos a mercê do vencedor... Não podemos entregar a nação a si própria e aos invasores. Fiquemos no nosso solo sagrado para tomar conta de nosso povo. E antes que soe a hora em que o vencedor, nada tendo a recear, se recuse a discutir condições, obtenhamos dele a garantia de que os nossos jovens e as nossas cidades serão poupados a ponto de termos em mãos ainda a possibilidade de um renascimento."

Mas se o futuro da França era o primeiro a considerar-se, não era pelo menos o único. A Grã-Bretanha era aliada da França, e a França lhe estava ligada por compromissos que, honradamente, não poderiam ser ignorados. A 28 de março, depois de uma reunião do Supremo Conselho de Guerra em Londres, uma declaração conjunta foi emitida pelos dois governos, nos seguintes termos:

"O Governo da República Francesa e o Governo de Sua Majestade... resolvem mutuamente que durante a presente guerra não negociarão ou concluirão um armistício, nem tratado de paz, exceto por consentimento mútuo.

Acordam ainda em não discutirem condições de paz antes de chegarem a completo acordo sobre as condições necessárias para assegurar a cada um dos dois uma garantia duradoura e efetiva de segurança.

Finalmente, acordam em manter depois da conclusão da paz uma comunidade de ação em todas as esferas até o prazo em que se mostre necessário para salvaguardar a sua segurança e efetuar a reconstrução, com a assistência de outras nações, de uma ordem internacional que garanta a liberdade dos povos, o respeito à lei e a manutenção da paz na Europa."

O gabinete, entretanto, decidiu que à Grã-Bretanha deveria ser solicitado o livramento da França desse seu compromisso; e Reynaud, capitulando diante do sentimento da maioria, obteve uma entrevista com Churchill, que, acompanhado por Halifax e Beaverbrook, voou a Tours no dia 13. Os ministros britânicos se recusaram a, nessa fase, libertar a França de seus compromissos, mas prometeram todo o auxílio disponível para barrar o avanço alemão. (A Força Aérea Britânica, de fato, empenhou-se em pesadas ações em conseqüência disso, e todas as tropas que se pôde reunir na Inglaterra, inclusive uma força de canadenses, foram mandadas rapidamente à França). Concordaram, todavia, com que Reynaud fizesse um novo apelo aos Estados Unidos, e com que, no caso de uma resposta não satisfatória, a situação fosse novamente examinada.

A anterior mensagem de Reynaud, datada de 10 de junho, solicitando "assistência nova e cada vez maior", tinha sido respondida com a promessa de que todos os esforços seriam feitos para apressar e aumentar a remessa de suprimentos. Ao "novo e final apelo" de Reynaud a 13 de junho, o presidente somente pôde responder que o governo faria todos os esforços possíveis nas condições presentes, e que se sentia impelido a acrescentar a advertência de que isso não implicava em auxílio militar, já que somente o Congresso tinha o poder de tomar tais resoluções.

No dia 16, à luz dessa resposta, a França apelou uma vez mais para a Grã-Bretanha. A resposta foi a proposta sensacional de se fundir os dois impérios, para que a guerra pudesse prosseguir em comum. Um único gabinete de guerra seria estabelecido, os dois parlamentos se associariam formalmente e a União apelaria para os Estados Unidos no sentido de "fortalecer os recursos econômicos dos aliados e dar-lhes sua poderosa assistência material, para a causa comum." Era uma garantia implícita de que a causa francesa seria defendida até o último inglês. Mas o grupo pró-paz da França achou nessa proposta um motivo mais de alarme que de entusiasmo. Achava que a França perderia a independência e cairia sob a dominação inglesa. A arriscarem-se a isso, preferiam entregar-se ao suave arbítrio da Alemanha nazista.

A Inglaterra resignou-se, pois, à perspectiva da defecção francesa. Embora deixasse claro que ela mesma estava determinada a continuar a luta, aquiesceu relutantemente com que a França negociasse um armistício. Mas a mensagem do governo britânico a esse respeito continha uma condição de capital importância. A frota francesa deveria ser enviada a portos britânicos e ali permanecer durante as negociações.

Na tarde do dia I6, Churchill estava para partir a novo encontro com Reynaud quando lhe chegou a notícia de que o ministério francês caíra. Em face da crescente pressão do partido pró-paz e das defecções a seu favor, Reynaud se viu obrigado a renunciar. Aparentemente, ele jamais considerara a tentativa de angariar apoio no Parlamento ou na nação contra os que advogavam a rendição. Pode ter tido a esperança de, por sua renúncia, dissolver o ministério existente e ganhar assim nova oportunidade para formar outro mais resoluto. Mas o presidente Lebrun estava agora ao lado do partido da paz. Ao invés de conceder a Reynaud novo mandato, voltou-se para Pétain.

O ministério organizado pelo velho marechal compunha-se não somente dos principais membros do partido pró-paz como também, predominantemente, de representantes da Direita. A figura principal era Pierre Laval, que até então se destacava como principal adversário de Reynaud e o verdadeiro arquiteto do bloco pró-paz. Todas as hesitações chegaram então ao fim. Pétain imediatamente iniciou negociações com a Alemanha, através do governo de seu velho pupilo, o general Franco. A 17 de junho, anunciou ao povo francês: "Dirigi-me ao nosso adversário para perguntar-lhe se estava disposto a firmar conosco, como entre soldados depois da luta e com honra, meios de pôr fim às hostilidades."



Os pontos do armistício


Para Hitler, a fraseologia de Pétain deve ter soado como tolice antiquada. A questão da honra provavelmente lhe importava menos que a questão prática dos fins eficazes. Ele deve ter tomado em consideração os sentimentos franceses somente até o ponto de se abster de impor condições que provocassem os franceses à luta e não à submissão. Mas pouco depois exigia o máximo - e numa base que abriria caminho para conseqüências futuras indefinidas.

A 18 de junho, Hitler discutiu as condições em perspectiva com Mussolini em Munique. A presença do Duce constituía uma recordação de que outras facções que não a França e a Alemanha estavam interessadas. Não estava bem claro se a França teve a intenção de combater a Itália, ou se - como parecia provável - o seu governo apenas encarara o fato de que a Itália era beligerante, em vista da natureza modesta de sua beligerância. Em qualquer caso, a França foi imediatamente convidada a remediar esse pouco caso; e a 20 de junho, algo retardadamente, uma solicitação de armistício foi encaminhada a Roma.


Hitler, no centro do grupo, com a mão na anca, ao lado do Reichsmarschall Hermann Goering, e seus generais, perante a estátua do marechal Ferdinand Foch antes da assinatura do armistício. À direita da imagem pode ver-se uma parte da carruagem do armistício.


Imagem da carruagem do armistício, utilizada para a assinatura deste armistício e para a do Armistício de 11 de novembro de 1918.

No dia seguinte, enquanto as tropas francesas continuavam a combater os alemães em avanço, Hitler e seu estado-maior receberam os negociadores franceses. O vagão ferroviário em que Foch se sentara foi transportado até o ponto da floresta de Compiègne em que o armistício de 1918 foi assinado. Nesse local simbólico, os representantes da França derrotada confrontaram os alemães vitoriosos. Depois de submetidos a um discurso em torno das desgraças passadas e inocência atual da Alemanha, eles receberam as exigências alemães com a garantia de que a Alemanha não teve a intenção de dar às condições "o caráter de um insulto a tão valente adversário". Discussões posteriores resultaram em modificações de certos pontos, e no dia 22 as condições foram aceitas. Mas mesmo isso não pôs fim às hostilidades, que deveriam cessar somente quando também com a Itália se chegasse a um acordo satisfatório. No dia 24, a França chegou a um acordo com Roma; e a esse tempo as tropas alemães formavam uma linha que corria, através da França, do lago de Genebra à foz do Gironda. A 1h35 da madrugada de 25 de junho, exatamente oito dias depois que seus líderes admitiram estar a sua causa sem esperanças, as tropas francesas receberam, afinal, ordem de depor as armas.


O governo francês desde o começo das negociações alegara que somente uma paz honrosa seria aceitável. "Se os franceses são obrigados a escolher entre a existência e a honra", disse Baudoin, "sua escolha está feita". Essa afirmativa foi repetida enfaticamente durante os dias que se seguiram. Mas à medida que era retardada a conclusão do armistício, e a imprensa e rádio alemães continuavam a acentuar que um país derrotado tinha de se render incondicionalmente, a perturbação do governo crescia. Uma resistência renovada foi ligeiramente considerada, mas na mente dos líderes franceses ela era um recurso desesperado que somente no último caso deveria ser tentado. Na ocasião em que as condições do armistício lhes foram comunicadas, eles estavam numa situação moral capaz de aceitar com, alívio quase todas as condições, inclusive as que privariam do caráter de independência o governo francês.

Esta foi quase a única concessão dada pelos acordos do armistício. As vantagens dadas à Itália, na verdade, eram tão pequenas que quase não passavam de um gesto aberto de desprezo da Alemanha para um associado de menor importância. Por uma bela ironia, os ganhos territoriais italianos eram limitados à ocupação das poucas milhas de solo francês que tinham sido conquistadas no lento avanço para os quatro dias que precederam o armistício. Houve um gesto em relação à segurança de suas fronteiras, entretanto, com a criação de zonas desmilitarizadas ao longo tanto das fronteiras alpinas como das coloniais africanas; e lhe foram concedidos direitos plenos ao porto de Djibuti e da secção francesa da estrada de ferro de Djibuti a Addis Abeba.

É todo este conjunto de considerações complexas que determinará as condições do acordo de armisticio, um texto breve de vinte e quatro artigos, que contem, entre outras, as seguintes cláusulas:
-Os prisioneiros de guerra (mais de milhão e meio de homens) ficam cativos até à assinatura de um acordo de paz.
-A metade norte, bem como a costa atlântica, ficam sob a ocupação alemã, constituindo a chamada zona ocupada, que abarca aproximadamente três quintas partes do território. O resto constitui a chamada zona livre, isto é, a não ocupada, situada principalmente a sul do rio Loire. Ambas zonas se hallaban separadas pela chamada linha de demarcação.
-França deve prover a manutenção do Exército aleão de ocupação. O importe da dita manutenção é fizado de forma quase discrecional pelos alemães, sendo, como média, de uns 400 milhões de francos por dia.
-Na zona livre, o exército francês fica limitado a 100 000 homens e ditas tropas ficam desarmadas.
-A soberania francesa se exerce sobre o conjunto do território, incluida a zona ocupada, Alsácia e Mosela, mas na zona ocupada se estipula que Alemanha exerce Os direitos da potência ocupante, o que implica que a Administração francesa colabora com ela de um modo correto.
-O império colonial francês fica igualmente sob autoridade do Governo francês.
-Os navios de guerra devem acudir a seus portos em períodos de paz, embora alguns deles, como o de Brest, esteja em zona ocupada.
-França deve entregar os refugiados políticos alemães ou austríacos refugiados em seu território fugindo do nazismo.


General Giraud com os vencedores alemães.

Quanto ao resto, as condições italianas seguiam substancialmente às do armistício alemão, que deixavam a França desarmada e desmembrada. Dois terços da França seriam ocupados - à costa francesa - por tropas alemães. Isto incluía não somente as áreas industriais da França, exceto Lyon, como também toda a costa atlântica, até a fronteira espanhola. O exército francês deveria ser imediatamente desmobilizado, a exceção de uma pequena força para finalidades de segurança interna e cujo efetivo seria indicado pelo vencedor. Todas as fortificações e todo o material bélico deveriam ser entregues. A atividade aérea, mesmo na área não ocupada, foi proibida, e nesta área os campos de aviação ficariam sob o controle germano-italiano. Toda a navegação mercante francesa deveria ser chamada à metrópole e permaneceria em portos franceses até ulterior deliberação. Os prisioneiros de guerra alemães deveriam ser soltos, mas os prisioneiros de guerra franceses ficariam nos campos de concentração alemães até a conclusão da paz. A França deveria entregar todos os cidadãos alemães designados pelo governo alemão - uma concessão particularmente vergonhosa que lançaria milhares de refugiados às mãos vencedoras da Gestapo. A frota deveria ser desarmada nos portos franceses sob controle ítalo-germânico, com a solene garantia de que essas potências não tinham a intenção de utilizá-las para si próprias.
Mas essas condições eram apenas o começo. Os detalhes de sua aplicação foram entregues a uma comissão de armistício sediada em Wiesbaden, onde os alemães podiam exercer pressão constante sobre os impotentes delegados franceses. A Alemanha e a Itália se reservaram o direito de cancelar as condições caso achassem que o governo francês deixara de cumprir suas obrigações. E as condições de uma paz permanente ficariam aguardando a consecução de completa vitória do Eixo, quando uma França desorganizada e impotente seria obrigada a desempenhar seu papel especial na servil organização da Nova Europa de Hitler.
Essas as condições a respeito das quais Pétain disse: "A honra foi salva. Nosso governo permanece livre. A França somente por franceses será governada".




A ditadura Pétain


Os franceses que governavam de Vichy estavam, todavia, determinados a que a França fosse dirigida numa base muito diferente da dos últimos setenta anos. O novo regime representava uma liquidação temporária do elemento essencial e básico da política francesa: - cumprimento ou destruição dos princípios da Revolução de 1879. As forças da Direita estavam agora resolvidas a utilizar a derrota externa para assegurar sua vitória interna. A República, com a sua divisa de Liberdade, Igualdade, Fraternidade, era para esses homens um anátema. Resolveram substituir a liberdade pela disciplina, a igualdade pela autoridade, a fraternidade por uma organização calcada na de seus vencedores totalitários. Com a nova divisa de Trabalho, Família, Pátria, eles iniciaram a tarefa de extirpar as tradições que tinham moldado o espírito da França no último século e meio.


Marechal Pétain, foi um militar francês e líder do governo fantoche instalado na França pelos nazistas durante a Ocupação

Sua primeira medida foi pôr de lado a constituição vigente. A 9 de julho, o Parlamento francês, com a ausência de cerca de um terço de seus membros, aprovara uma resolução concedendo plenos poderes ao governo Pétain. No dia seguinte, isso foi ratificado por ambas as Casas do Parlamento que se reuniram para formar uma Assembléia Nacional. A 11 de julho, o presidente Lebrun passou ao marechal Pétain seus poderes de chefe de Estado. Nesse mesmo dia, a transformação foi completada pela publicação de três decretos que aboliram os principais dispositivos da constituição existente e colocaram nas mãos de Pétain pleno poder legislativo, bem como o controle da diplomacia, do exército, das finanças e das nomeações civis e militares. Os decretos sugeriram a criação de novas assembléias legislativas, mas não lhes prescreveram forma prática. Entrementes, as Câmaras existentes continuariam legalmente a existir, mas como suas reuniões haviam sido proteladas indefinidamente e apenas poderiam reunir-se por determinação de Pétain, sua parte nos negócios públicos parecia haver efetivamente terminado.

Uma série de decretos se seguiram a esses, decretos cujo efeito seria a transformação radical da vida francesa. Eles indicavam a criação de um Estado cuja economia seria predominantemente agrícola e evitaria competir com a Alemanha industrial; a supressão dos partidos políticos e dos sindicatos trabalhistas; uma política de repressão, não apenas contra os judeus e estrangeiros, mas também visando organizações tais como a Maçonaria; e crescente autoridade à Igreja, bem como novas leis de herança destinadas a salvaguardar a base camponesa da agricultura. As próprias divisões locais - de departamentos criados pela Revolução e que serviram de base à administração napoleônica - foram abolidas em favor das províncias mais antigas. "O governo", disse Pétain, "apoiará com todas as suas forças todas as instituições que visem evitar a corrupção da moral e a proteção à real felicidade... A França deve voltar a seu caráter basicamente agrícola e camponês, e sua indústria deve tornar a descobrir sua tradicional qualidade. É portanto preciso pôr-se um fim às desordens econômicas presentes pela organização racional da produção e de organizações corporativas."

Mas essa imitação lisonjeadora, embora sincera, produziu pouca impressão na Alemanha. Pétain alimentara a esperança de que a França em paz reteria força bastante para garantir a independência da política. Laval, com seus sonhos de um Bloco Latino, acreditara em que uma orientação no sentido do sistema fascista faria com que Mussolini protegesse a França contra Hitler e a usasse como uma aliada que pudesse contrabalançar o poderio de uma Alemanha por demais poderosa. Ambos sofreram rude decepção. Nem o avanço para uma ditadura totalitária, nem a instalação de uma corte para julgar os líderes acusados da responsabilidade pela guerra serviram para aquietar as censuras persistentes dos nazistas. O governo era apressado por constante pressão em favor de novas medidas. Os recursos da França foram debilitados pelo fechamento da fronteira da zona ocupada, o que não apenas cortou as comunicações e suprimentos como deixou a área meridional ainda superlotada com a massa de refugiados. A solicitação do governo para que lhe fosse permitida a volta para Paris, embora baseada especificamente nos termos do armistício, foi rejeitada; pois que, embora a solicitação pudesse demonstrar que Pétain não tinha esperanças de fazer uma política que pudesse ofender os conquistadores, os alemães não tinham desejo algum de ver uma possível autoridade rival na zona ocupada. A organização daquela zona, e particularmente as medidas para chamar a Alsácia para mais perto do Reich, demonstravam a decisão alemã de manter a França dividida e de multiplicar as dificuldades que pudessem criar confusão contínua e evitar aquele renascimento que o governo francês tão carinhosamente acalentava. Mais e mais o regime Pétain parecia composto de velhos desesperados a lutar para firmar pé em meio as circunstâncias que jamais poderiam compreender ou controlar. A vaga percepção disto pareceu surgir para Pétain quando se queixou a um grupo de jornalistas, a 20 de agosto: "Estamos presos de modo absoluto aos termos do armistício. Os alemães seguram a corda e torcem-na cada vez que acham que o acordo não está sendo cumprido." (Um dos repórteres atribuiu-lhe uma frase ainda mais pitoresca: "A França está manietada por uma fronteira desde o Atlântico até os Alpes. Toda a vez que fazemos alguma coisa que desagrada as autoridades ocupantes, estas apertam ainda mais as correias.)

sábado, 25 de abril de 2009

Porque a Guerra ? (Cartas entre Einstein e Freud)


I- Carta de Einstein


Caputh junto a Potsdam, 30 de julho de 1932

Prezado Professor Freud,

A proposta da Liga das Nações e de seu Instituto Internacional para a Cooperação Intelectual, em Paris, de que eu convidasse uma pessoa, de minha própria escolha, para um franco intercâmbio de pontos de vista sobre algum problema que eu poderia selecionar, oferece-me excelente oportunidade de conferenciar com o senhor a respeito de uma questão que, da maneira como as coisas estão, parece ser o mais urgente de todos os problemas que a civilização tem de enfrentar. Este é o problema: Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra? É do conhecimento geral que, com o progresso da ciência de nossos dias, esse tema adquiriu significação de assunto de vida ou morte para a civilização, tal como a conhecemos; não obstante, apesar de todo o empenho demonstrado, todas as tentativas de solucioná-lo terminaram em lamentável fracasso.

Ademais, acredito que aqueles cuja atribuição é atacar o problema de forma profissional e prática, estão apenas adquirindo crescente consciência de sua impotência para abordá-lo, e agora possuem um vivo desejo de conhecer os pontos de vistas de homens que, absorvidos na busca da ciência, podem mirar os problemas do mundo na perspectiva que a distância permite. Quanto a mim, o objetivo habitual de meu pensamento não me permite uma compreensão interna das obscuras regiões da vontade e do sentimento humano. Assim, na indagação ora proposta, posso fazer pouco mais do que procurar esclarecer a questão em referência e, preparando o terreno das soluções mais óbvias, possibilitar que o senhor proporcione a elucidação do problema mediante o auxílio do seu profundo conhecimento da vida instintiva do homem. Existem determinados obstáculos psicológicos cuja existência um leigo em ciências mentais pode obscuramente entrever, cujas inter-relações e filigranas ele, contudo, é incompetente para compreender; estou convencido de que o senhor será capaz de sugerir métodos educacionais situados mais ou menos fora dos objetivos da política, os quais eliminarão esses obstáculos.

Como pessoa isenta de preconceitos nacionalistas, pessoalmente vejo uma forma simples de abordar o aspecto superficial (isto é, administrativo) do problema: a instituição, por meio de acordo internacional, de um organismo legislativo e judiciário para arbitrar todo conflito que surja entre nações. Cada nação submeter-se-ia à obediência às ordens emanadas desse organismo legislativo, a recorrer às suas decisões em todos os litígios, a aceitar irrestritamente suas decisões e a pôr em prática todas as medidas que o tribunal considerasse necessárias para a execução de seus decretos. Já de início, todavia, defronto-me com uma dificuldade; um tribunal é uma instituição humana que, em relação ao poder de que dispõe, é inadequada para fazer cumprir seus veredictos, está muito sujeito a ver suas decisões anuladas por pressões extrajudiciais. Este é um fato com que temos de contar; a lei e o poder inevitavelmente andam de mãos dadas, e as decisões jurídicas se aproximam mais da justiça ideal exigida pela comunidade (em cujo nome e em cujos interesses esses veredictos são pronunciados), na medida em que a comunidade tem efetivamente o poder de impor o respeito ao seu ideal jurídico. Atualmente, porém, estamos longe de possuir qualquer organização supranacional competente para emitir julgamentos de autoridade incontestável e garantir absoluto acatamento à execução de seus veredictos. Assim, sou levado ao meu primeiro princípio; a busca da segurança internacional envolve a renúncia incondicional, por todas as nações, em determinada medida, à sua liberdade de ação, ou seja, à sua soberania, e é absolutamente evidente que nenhum outro caminho pode conduzir a essa segurança.

O insucesso, malgrado sua evidente sinceridade, de todos os esforços, durante a última década, no sentido de alcançar essa meta, não deixa lugar à dúvida de que estão em jogo fatores psicológicos de peso que paralisam tais esforços. Alguns desses fatores são mais fáceis de detectar. O intenso desejo de poder, que caracteriza a classe governante em cada nação, é hostil a qualquer limitação de sua soberania nacional. Essa fome de poder político está acostumada a medrar nas atividades, de um outro grupo, cujas aspirações são de caráter econômico, puramente mercenário. Refiro-me especialmente a esse grupo reduzido, porém decidido, existente em cada nação, composto de indivíduos que, indiferentes às condições e aos controles sociais, consideram a guerra, a fabricação e venda de armas simplesmente como uma oportunidade de expandir seus interesses pessoais e ampliar a sua autoridade pessoal.

O reconhecimento desse fato, no entanto, é simplesmente o primeiro passo para uma avaliação da situação atual. Logo surge uma outra questão: como é possível a essa pequena súcia dobrar a vontade da maioria, que se resigna a perder e a sofrer com uma situação de guerra, a serviço da ambição de poucos? (Ao falar em maioria, não excluo os soldados, de todas as graduações, que escolheram a guerra como profissão, na crença de que estejam servindo à defesa dos mais altos interesses de sua raça e de que o ataque seja, muitas vezes, o melhor meio de defesa.) Parece que uma resposta óbvia a essa pergunta seria que a minoria, a classe dominante atual, possui as escolas, a imprensa e, geralmente, também a Igreja, sob seu poderio. Isto possibilita organizar e dominar as emoções das massas e torná-las instrumento da mesma minoria.

Ainda assim, nem sequer essa resposta proporciona uma solução completa. Daí surge uma nova questão: como esses mecanismos conseguem tão bem despertar nos homens um entusiasmo extremado, a ponto de estes sacrificarem suas vidas? Pode haver apenas uma resposta. É porque o homem encerra dentro de si um desejo de ódio e destruição. Em tempos normais, essa paixão existe em estado latente, emerge apenas em circunstâncias anormais; é, contudo, relativamente fácil despertá-la e elevá-la à potência de psicose coletiva. Talvez aí esteja o ponto crucial de todo o complexo de fatores que estamos considerando, um enigma que só um especialista na ciência dos instintos humanos pode resolver.


Com isso, chegamos à nossa última questão. É possível controlar a evolução da mente do homem, de modo a torná-lo à prova das psicoses do ódio e da destrutividade?

Aqui não me estou referindo tão-somente às chamadas massas incultas. A experiência prova que é, antes, a chamada ‘Intelligentzia’ a mais inclinada a ceder a essas desastrosas sugestões coletivas, de vez que o intelectual não tem contato direto com o lado rude da vida, mas a encontra em sua forma sintética mais fácil — na página impressa.

Para concluir: Até aqui somente falei das guerras entre nações, aquelas que se conhecem como conflitos internacionais. Estou, porém, bem consciente de que o instinto agressivo opera sob outras formas e em outras circunstâncias. (Penso nas guerras civis, por exemplo, devidas à intolerância religiosa, em tempos precedentes, hoje em dia, contudo, devidas a fatores sociais; ademais, também nas perseguições a minorias raciais.) Foi deliberada a minha insistência naquilo que é a mais típica, mais cruel e extravagante forma de conflito entre homem e homem, pois aqui temos a melhor ocasião de descobrir maneiras e meios de tornar impossíveis qualquer conflito armado.

Sei que nos escritos do senhor podemos encontrar respostas, explícitas ou implícitas, a todos os aspectos desse problema urgente e absorvente. Mas seria da maior utilidade para nós todos que o senhor apresentasse o problema da paz mundial sob o enfoque das suas mais recentes descobertas, pois uma tal apresentação bem poderia demarcar o caminho para novos e frutíferos métodos de ação.

Muito cordialmente,

1.

A. Einstein.








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II - Carta de Freud


Viena, setembro de 1932.

Prezado Professor Einstein,

Quando soube que o senhor intencionava convidar-me para um intercâmbio de pontos de vista sobre um assunto que lhe interessava e que parecia merecer o interesse de outros além do senhor, aceitei prontamente. Esperava que o senhor escolhesse um problema situado nas fronteiras daquilo que é atualmente cognoscível, um problema em relação ao qual cada um de nós, físico e psicólogo, pudesse ter o seu ângulo de abordagem especial, e no qual pudéssemos nos encontrar, sobre o mesmo terreno, embora partindo de direções diferentes.

O senhor apanhou-me de surpresa, no entanto, ao perguntar o que pode ser feito para proteger a humanidade da maldição da guerra. Inicialmente me assustei com o pensamento de minha — quase escrevi ‘nossa’ — incapacidade de lidar com o que parecia ser um problema prático, um assunto para estadistas. Depois, no entanto, percebi que o senhor havia proposto a questão, não na condição de cientista da natureza e físico, mas como filantropo: o senhor estava seguindo a sugestão da Liga das Nações, assim como Fridtjof Nansen, o explorador polar, assumiu a tarefa de auxiliar as vítimas famintas e sem teto da guerra mundial. Além do mais, considerei que não me pediam para propor medidas práticas, mas sim apenas que eu delimitasse o problema da evitação da guerra tal como ele se configura aos olhos de um cientista da psicologia. Também nesse ponto, o senhor disse quase tudo o que há a dizer sobre o assunto. Embora o senhor se tenha antecipado a mim, ficarei satisfeito em seguir no seu rasto e me contentarei com confirmar tudo o que o senhor disse, ampliando-o com o melhor do meu conhecimento — ou das minhas conjecturas.


O senhor começou com a relação entre o direito e o poder. Não se pode duvidar de que seja este o ponto de partida correto de nossa investigação. Mas, permita-me substituir a palavra ‘poder’ pela palavra mais nua e crua violência’? Atualmente, direito e violência se nos afiguram como antíteses. No entanto, é fácil mostrar que uma se desenvolveu da outra e, se nos reportarmos às origens primeiras e examinarmos como essas coisas se passaram, resolve-se o problema facilmente. Perdoe-me se, nessas considerações que se seguem, eu trilhar chão familiar e comumente aceito, como se isto fosse novidade; o fio de minhas argumentações o exige.

É, pois, um princípio geral que os conflitos de interesses entre os homens são resolvidos pelo uso da violência. É isto o que se passa em todo o reino animal, do qual o homem não tem motivo por que se excluir. No caso do homem, sem dúvida ocorrem também conflitos de opinião que podem chegar a atingir a mais raras nuanças da abstração e que parecem exigir alguma outra técnica para sua solução. Esta é, contudo, uma complicação a mais. No início, numa pequena horda humana, era a superioridade da força muscular que decidia quem tinha a posse das coisas ou quem fazia prevalecer sua vontade. A força muscular logo foi suplementada e substituída pelo uso de instrumentos: o vencedor era aquele que tinha as melhores armas ou aquele que tinha a maior habilidade no seu manejo. A partir do momento em que as armas foram introduzidas, a superioridade intelectual já começou a substituir a força muscular bruta; mas o objetivo final da luta permanecia o mesmo — uma ou outra facção tinha de ser compelida a abandonar suas pretensões ou suas objeções, por causa do dano que lhe havia sido infligido e pelo desmantelamento de sua força.

Conseguia-se esse objetivo de modo mais completo se a violência do vencedor eliminasse para sempre o adversário, ou seja, se o matasse. Isto tinha duas vantagens: o vencido não podia restabelecer sua oposição, e o seu destino dissuadiria outros de seguirem seu exemplo. Ademais disso, matar um inimigo satisfazia uma inclinação instintual, que mencionarei posteriormente. À intenção de matar opor-se-ia a reflexão de que o inimigo podia ser utilizado na realização de serviços úteis, se fosse deixado vivo e num estado de intimidação. Nesse caso, a violência do vencedor contentava-se com subjugar, em vez de matar, o vencido. Foi este o início da idéia de poupar a vida de um inimigo, mas a partir daí o vencedor teve de contar com a oculta sede de vingança do adversário vencido e sacrificou uma parte de sua própria segurança.

Esta foi, por conseguinte, a situação inicial dos fatos: a dominação por parte de qualquer um que tivesse poder maior — a dominação pela violência bruta ou pela violência apoiada no intelecto. Como sabemos, esse regime foi modificado no transcurso da evolução. Havia um caminho que se estendia da violência ao direito ou à lei. Que caminho era este? Penso ter sido apenas um: o caminho que levava ao reconhecimento do fato de que à força superior de um único indivíduo, podia-se contrapor a união de diversos indivíduos fracos.

‘L’union fait la force.’ A violência podia ser derrotada pela união, e o poder daqueles que se uniam representava, agora, a lei, em contraposição à violência do indivíduo só. Vemos, assim, que a lei é a força de uma comunidade. Ainda é violência, pronta a se voltar contra qualquer indivíduo que se lhe oponha; funciona pelos mesmos métodos e persegue os mesmos objetivos. A única diferença real reside no fato de que aquilo que prevalece não é mais a violência de um indivíduo, mas a violência da comunidade. A fim de que a transição da violência a esse novo direito ou justiça pudesse ser efetuada, contudo, uma condição psicológica teve de ser preenchida. A união da maioria devia ser estável e duradoura. Se apenas fosse posta em prática com o propósito de combater um indivíduo isolado e dominante, e fosse dissolvida depois da derrota deste, nada se teria realizado. A pessoa, a seguir, que se julgasse superior em força, haveria de mais uma vez tentar estabelecer o domínio através da violência, e o jogo se repetiria ad infinitum. A comunidade deve manter-se permanentemente, deve organizar-se, deve estabelecer regulamentos para antecipar-se ao risco de rebelião e deve instituir autoridades para fazer com que esses regulamentos — as leis — sejam respeitadas, e para superintender a execução dos atos legais de violência. O reconhecimento de uma entidade de interesses como estes levou ao surgimento de vínculos emocionais entre os membros de um grupo de pessoas unidas — sentimentos comuns, que são a verdadeira fonte de sua força.

Acredito que, com isso, já tenhamos todos os elementos essenciais: a violência suplantada pela transferência do poder a uma unidade maior, que se mantém unida por laços emocionais entre os seus membros. O que resta dizer não é senão uma ampliação e uma repetição desse fato.

A situação é simples enquanto a comunidade consiste em apenas poucos indivíduos igualmente fortes. As leis de uma tal associação irão determinar o grau em que, se a segurança da vida comunal deve ser garantida, cada indivíduo deve abrir mão de sua liberdade pessoal de utilizar a sua força para fins violentos. Um estado de equilíbrio dessa espécie, porém, só é concebível teoricamente. Na realidade, a situação complica-se pelo fato de que, desde os seus primórdios, a comunidade abrange elementos de força desigual — homens e mulheres, pais e filhos — e logo, como conseqüência da guerra e da conquista, também passa a incluir vencedores e vencidos, que se transformam em senhores e escravos. A justiça da comunidade então passa a exprimir graus desiguais de poder nela vigentes. As leis são feitas por e para os membros governantes e deixa pouco espaço para os direitos daqueles que se encontram em estado de sujeição. Dessa época em diante, existem na comunidade dois fatores em atividade que são fonte de inquietação relativamente a assuntos da lei, mas que tendem, ao mesmo tempo, a um maior crescimento da lei.

Primeiramente, são feitas, por certos detentores do poder, tentativas, no sentido de se colocarem acima das proibições que se aplicam a todos — isto é, procuram escapar do domínio pela lei para o domínio pela violência. Em segundo lugar, os membros oprimidos do grupo fazem constantes esforços para obter mais poder e ver reconhecidas na lei algumas modificações efetuadas nesse sentido — isto é, fazem pressão para passar da justiça desigual para a justiça igual para todos. Essa segunda tendência torna-se especialmente importante se uma mudança real de poder ocorre dentro da comunidade, como pode ocorrer em conseqüência de diversos fatores históricos. Nesse caso, o direito pode gradualmente adaptar-se à nova distribuição do poder; ou, como sucede com maior freqüência, a classe dominante se recusa a admitir a mudança e a rebelião e a guerra civil se seguem, com uma suspensão temporária da lei e com novas tentativas de solução mediante a violência, terminando pelo estabelecimento de um novo sistema de leis. Ainda há uma terceira fonte da qual podem surgir modificações da lei, e que invariavelmente se exprime por meios pacíficos: consiste na transformação cultural dos membros da comunidade. Isto, porém, propriamente faz parte de uma outra correlação e deve ser considerado posteriormente. Ver em [[1]].

Vemos, pois, que a solução violenta de conflitos de interesses não é evitada sequer dentro de uma comunidade. As necessidades cotidianas e os interesses comuns, inevitáveis ali onde pessoas vivem juntas num lugar, tendem, contudo, a proporcionar a essas lutas uma conclusão rápida, e, sob tais condições, existe uma crescente probabilidade de se encontrar uma solução pacífica. Outrossim, um rápido olhar pela história da raça humana revela uma série infindável de conflitos entre uma comunidade e outra, ou diversas outras, entre unidades maiores e menores — entre cidades, províncias, raças, nações, impérios —, que quase sempre se formaram pela força das armas. Guerras dessa espécie terminam ou pelo saque ou pelo completo aniquilamento e conquista de uma das partes. É impossível estabelecer qualquer julgamento geral das guerras de conquista. Algumas, como as empreendidas pelos mongóis e pelos turcos, não trouxeram senão malefícios. Outras, pelo contrário, contribuíram para a transformação da violência em lei, ao estabelecerem unidades maiores, dentro das quais o uso da violência se tornou impossível e nas quais um novo sistema de leis solucionou os conflitos. Desse modo, as conquistas dos romanos deram aos países próximos ao Mediterrâneo a inestimável pax romana, e a ambição dos reis franceses de ampliar os seus domínios criou uma França pacificamente unida e florescente.

Por paradoxal que possa parecer, deve-se admitir que a guerra poderia ser um meio nada inadequado de estabelecer o reino ansiosamente desejado de paz ‘perene’, pois está em condições de criar as grandes unidades dentro das quais um poderoso governo central torna impossíveis outras guerras. Contudo, ela falha quanto a esse propósito, pois os resultados da conquista são geralmente de curta duração: as unidades recentemente criadas esfacelam-se novamente, no mais das vezes devido a uma falta de coesão entre as partes que foram unidas pela violência. Ademais, até hoje as unificações criadas pela conquista, embora de extensão considerável, foram apenas parciais, e os conflitos entre elas ensejaram, mais do que nunca, soluções violentas. O resultado de todos esses esforços bélicos consistiu, assim, apenas em a raça humana haver trocado as numerosas e realmente infindáveis guerras menores por guerras em grande escala, que são raras, contudo muito mais destrutivas.

Se nos voltamos para os nossos próprios tempos, chegamos a mesma conclusão a que o senhor chegou por um caminho mais curto. As guerras somente serão evitadas com certeza, se a humanidade se unir para estabelecer uma autoridade central a que será conferido o direito de arbitrar todos os conflitos de interesses. Nisto estão envolvidos claramente dois requisitos distintos: criar uma instância suprema e dotá-la do necessário poder. Uma sem a outra seria inútil. A Liga das Nações é destinada a ser uma instância dessa espécie, mas a segunda condição não foi preenchida: a Liga das Nações não possui poder próprio, e só pode adquiri-lo se os membros da nova união, os diferentes estados, se dispuserem a cedê-lo. E, no momento, parecem escassas as perspectivas nesse sentido. A instituição da Liga das Nações seria totalmente ininteligível se se ignorasse o fato de que houve uma tentativa corajosa, como raramente (talvez jamais em tal escala) se fez antes. Ela é uma tentativa de fundamentar a autoridade sobre um apelo a determinadas atitudes idealistas da mente (isto é, a influência coercitiva), que de outro modo se baseia na posse da força. Já vimos [[1]] que uma comunidade se mantém unida por duas coisas: a força coercitiva da violência e os vínculos emocionais (identificações é o nome técnico) entre seus membros. Se estiver ausente um dos fatores, é possível que a comunidade se mantenha ainda pelo outro fator.

As idéias a que se faz o apelo só podem, naturalmente, ter importância se exprimirem afinidades importantes entre os membros, e pode-se perguntar quanta força essas idéias podem exercer. A história nos ensina que, em certa medida, elas foram eficazes. Por exemplo, a idéia do pan-helenismo, o sentido de ser superior aos bárbaros de além-fronteiras — idéia que foi expressa com tanto vigor no conselho anfictiônico, nos oráculos e nos jogos —, foi forte a ponto de mitigar os costumes guerreiros entre os gregos, embora, é claro, não suficientemente forte para evitar dissensões bélicas entre as diferentes partes da nação grega, ou mesmo para impedir uma cidade ou confederação de cidades de se aliar com o inimigo persa, a fim de obter vantagem contra algum rival. A identidade de sentimentos entre os cristãos, embora fosse poderosa, não conseguiu, à época do Renascimento, impedir os Estados Cristãos, tanto os grandes como os pequenos, de buscar o auxílio do sultão em suas guerras de uns contra os outros. E atualmente não existe idéia alguma que, espera-se, venha a exercer uma autoridade unificadora dessa espécie. Na realidade, é por demais evidente que os ideais nacionais, pelos quais as nações se regem nos dias de hoje, atuam em sentido oposto. Algumas pessoas tendem a profetizar que não será possível pôr um fim à guerra, enquanto a forma comunista de pensar não tenha encontrado aceitação universal. Mas esse objetivo, em todo caso, está muito remoto, atualmente, e talvez só pudesse ser alcançado após as mais terríveis guerras civis. Assim sendo, presentemente, parece estar condenada ao fracasso a tentativa de substituir a força real pela força das idéias. Estaremos fazendo um cálculo errado se desprezarmos o fato de que a lei, originalmente, era força bruta e que, mesmo hoje, não pode prescindir do apoio da violência.



Passo agora, a acrescentar algumas observações aos seus comentários. O senhor expressa surpresa ante o fato de ser tão fácil inflamar nos homens o entusiasmo pela guerra, e insere a suspeita, ver em[[1]], de que neles exige em atividade alguma coisa — um instinto de ódio e de destruição — que coopera com os esforços dos mercadores da guerra. Também nisto apenas posso exprimir meu inteiro acordo. Acreditamos na existência de um instinto dessa natureza, e durante os últimos anos temo-nos ocupado realmente em estudar suas manifestações. Permita-me que me sirva dessa oportunidade para apresentar-lhe uma parte da teoria dos instintos que, depois de muitas tentativas hesitantes e muitas vacilações de opinião, foi formulada pelos que trabalham na área da psicanálise?


De acordo com nossa hipótese, os instintos humanos são de apenas dois tipos: aqueles que tendem a preservar e a unir — que denominamos ‘eróticos’, exatamente no mesmo sentido em que Platão usa a palavra ‘Eros’ em seu Symposium, ou ‘sexuais’, com uma deliberada ampliação da concepção popular de ‘sexualidade’ —; e aqueles que tendem a destruir e matar, os quais agrupamos como instinto agressivo ou destrutivo. Como o senhor vê, isto não é senão uma formulação teórica da universalmente conhecida oposição entre amor e ódio, que talvez possa ter alguma relação básica com a polaridade entre atração e repulsão, que desempenha um papel na sua área de conhecimentos. Entretanto, não devemos ser demasiado apressados em introduzir juízos éticos de bem e de mal. Nenhum desses dois instintos é menos essencial do que o outro; os fenômenos da vida surgem da ação confluente ou mutuamente contrária de ambos. Ora, é como se um instinto de um tipo dificilmente pudesse operar isolado; está sempre acompanhado — ou, como dizemos, amalgamado — por determinada quantidade do outro lado, que modifica o seu objetivo, ou, em determinados casos, possibilita a consecução desse objetivo. Assim, por exemplo, o instinto de autopreservação certamente é de natureza erótica; não obstante, deve ter à sua disposição a agressividade, para atingir seu propósito. Dessa forma, também o instinto de amor, quando dirigido a um objeto, necessita de alguma contribuição do instinto de domínio, para que obtenha a posse desse objeto. A dificuldade de isolar as duas espécies de instinto em suas manifestações reais, é, na verdade, o que até agora nos impedia de reconhecê-los.


Se o senhor quiser acompanhar-me um pouco mais, verá que as ações humanas estão sujeitas a uma outra complicação de natureza diferente. Muito raramente uma ação é obra de um impulso instintual único (que deve estar composto de Eros e destrutividade). A fim de tornar possível uma ação, há que haver, via de regra, uma combinação desses motivos compostos. Isto, há muito tempo, havia sido percebido por um especialista na sua matéria, o professor G. C. Lichtenberg, que ensinava física em Göttingen, durante o nosso classicismo, embora, talvez, ele fosse ainda mais notável como psicólogo do que como físico.

Ele inventou uma ‘bússola de motivos’, pois escreveu: ‘Os motivos que nos levam a fazer algo poderiam ser dispostos à maneira da rosa-dos-ventos e receber nomes de uma forma parecida: por exemplo, "pão — pão — fama" ou "fama — fama — pão".’ De forma que, quando os seres humanos são incitados à guerra, podem ter toda uma gama de motivos para se deixarem levar — uns nobres, outros vis, alguns francamente declarados, outros jamais mencionados. Não há por que enumerá-los todos. Entre eles está certamente o desejo da agressão e destruição: as incontáveis crueldades que encontramos na história e em nossa vida de todos os dias atestam a sua existência e a sua força. A satisfação desses impulsos destrutivos naturalmente é facilitada por sua mistura com outros motivos de natureza erótica e idealista. Quando lemos sobre as atrocidades do passado, amiúde é como se os motivos idealistas servissem apenas de excusa para os desejos destrutivos; e, às vezes — por exemplo, no caso das crueldades da Inquisição — é como se os motivos idealistas tivessem assomado a um primeiro plano na consciência, enquanto os destrutivos lhes emprestassem um reforço inconsciente. Ambos podem ser verdadeiros.

Receio que eu possa estar abusando do seu interesse, que, afinal, se volta para a prevenção da guerra e não para nossas teorias. Gostaria, não obstante, de deter-me um pouco mais em nosso instinto destrutivo, cuja popularidade não é de modo algum igual à sua importância. Como conseqüência de um pouco de especulação, pudemos supor que esse instinto está em atividade em toda criatura viva e procura levá-la ao aniquilamento, reduzir a vida à condição original de matéria inanimada. Portanto, merece, com toda seriedade, ser denominado instinto de morte, ao passo que os instintos eróticos representam o esforço de viver. O instinto de morte torna-se instinto destrutivo quando, com o auxílio de órgãos especiais, é dirigido para fora, para objetos. O organismo preserva sua própria vida, por assim dizer, destruindo uma vida alheia. Uma parte do instinto de morte, contudo, continua atuante dentro do organismo, e temos procurado atribuir numerosos fenômenos normais e patológicos a essa internalização do instinto de destruição. Foi-nos até mesmo imputada a culpa pela heresia de atribuir a origem da consciência a esse desvio da agressividade para dentro. O senhor perceberá que não é absolutamente irrelevante se esse processo vai longe demais: é positivamente insano. Por outro lado, se essas forças se voltam para a destruição no mundo externo, o organismo se aliviará e o efeito deve ser benéfico.

Isto serviria de justificação biológica para todos os impulsos condenáveis e perigosos contra os quais lutamos. Deve-se admitir que eles se situam mais perto da Natureza do que a nossa resistência, para a qual também é necessário encontrar uma explicação. Talvez ao senhor possa parecer serem nossas teorias uma espécie de mitologia e, no presente caso, mitologia nada agradável. Todas as ciências, porém, não chegam, afinal, a uma espécie de mitologia como esta? Não se pode dizer o mesmo, atualmente, a respeito da sua física?

Para nosso propósito imediato, portanto, isto é tudo o que resulta daquilo que ficou dito: de nada vale tentar eliminar as inclinações agressivas dos homens. Segundo se nos conta, em determinadas regiões privilegiadas da Terra, onde a natureza provê em abundância tudo o que é necessário ao homem, existem povos cuja vida transcorre em meio à tranqüilidade, povos que não conhecem nem a coerção nem a agressão. Dificilmente posso acreditar nisso, e me agradaria saber mais a respeito de coisas tão afortunadas. Também os bolchevistas esperam ser capazes de fazer a agressividade humana desaparecer mediante a garantia de satisfação de todas as necessidades materiais e o estabelecimento da igualdade, em outros aspectos, entre todos os membros da comunidade. Isto, na minha opinião, é uma ilusão.

Eles próprios, hoje em dia, estão armados da maneira mais cautelosa, e o método não menos importante que empregam para manter juntos os seus adeptos é o ódio contra qualquer pessoa além das suas fronteiras. Em todo caso, como o senhor mesmo observou, não há maneira de eliminar totalmente os impulsos agressivos do homem; pode-se tentar desviá-los num grau tal que não necessitem encontrar expressão na guerra.
Nossa teoria mitológica dos instintos facilita-nos encontrar a fórmula para métodos indiretos de combater a guerra. Se o desejo de aderir à guerra é um efeito do instinto destrutivo, a recomendação mais evidente será contrapor-lhe o seu antagonista, Eros. Tudo o que favorece o estreitamento dos vínculos emocionais entre os homens deve atuar contra a guerra. Esses vínculos podem ser de dois tipos. Em primeiro lugar, podem ser relações semelhantes àquelas relativas a um objeto amado, embora não tenham uma finalidade sexual. A psicanálise não tem motivo porque se envergonhar se nesse ponto fala de amor, pois a própria religião emprega as mesmas palavras: ‘Ama a teu próximo como a ti mesmo.’ Isto, todavia, é mais facilmente dito do que praticado. O segundo vínculo emocional é o que utiliza a identificação. Tudo o que leva os homens a compartilhar de interesses importantes produz essa comunhão de sentimento, essas identificações. E a estrutura da sociedade humana se baseia nelas, em grande escala.
Uma queixa que o senhor formulou acerca do abuso de autoridade, ver em [[1]] leva-me a uma outra sugestão para o combate indireto à propensão à guerra. Um exemplo da desigualdade inata e irremovível dos homens é sua tendência a se classificarem em dois tipos, o dos líderes e o dos seguidores. Esses últimos constituem a vasta maioria; têm necessidade de uma autoridade que tome decisões por eles e à qual, na sua maioria devotam uma submissão ilimitada. Isto sugere que se deva dar mais atenção, do que até hoje se tem dado, à educação da camada superior dos homens dotados de mentalidade independente, não passível de intimidação e desejosa de manter-se fiel à verdade, cuja preocupação seja a de dirigir as massas dependentes. É desnecessário dizer que as usurpações cometidas pelo poder executivo do Estado e a proibição estabelecida pela Igreja contra a liberdade de pensamento não são nada favoráveis à formação de uma classe desse tipo. A situação ideal, naturalmente, seria a comunidade humana que tivesse subordinado sua vida instintual ao domínio da razão. Nada mais poderia unir os homens de forma tão completa e firme, ainda que entre eles não houvesse vínculos emocionais. No entanto, com toda a probabilidade isto é uma expectativa utópica. Não há dúvida de que os outros métodos indiretos de evitar a guerra são mais exeqüíveis, embora não prometam êxito imediato. Vale lembrar aquela imagem inquietante do moinho que mói tão devagar, que as pessoas podem morrer de fome antes de ele poder fornecer sua farinha.

O resultado, como o senhor vê, não é muito frutífero quando um teórico desinteressado é chamado a opinar sobre um problema prático urgente. É melhor a pessoa, em qualquer caso especial, dedicar-se a enfrentar o perigo com todos os meios à mão. Eu gostaria, porém, de discutir mais uma questão que o senhor não menciona em sua carta, a qual me interessa em especial. Por que o senhor, eu e tantas outras pessoas nos revoltamos tão violentamente contra a guerra? Por que não a aceitamos como mais uma das muitas calamidades da vida? Afinal, parece ser coisa muito natural, parece ter uma base biológica e ser dificilmente evitável na prática. Não há motivo para se surpreender com o fato de eu levantar essa questão. Para o propósito de uma investigação como esta, poder-se-ia, talvez, permitir-se usar uma máscara de suposto alheamento. A resposta à minha pergunta será a de que reagimos à guerra dessa maneira, porque toda pessoa tem o direito à sua própria vida, porque a guerra põe um término a vidas plenas de esperanças, porque conduz os homens individualmente a situações humilhantes, porque os compele, contra a sua vontade, a matar outros homens e porque destrói objetos materiais preciosos, produzidos pelo trabalho da humanidade. Outras razões mais poderiam ser apresentadas, como a de que, na sua forma atual, a guerra já não é mais uma oportunidade de atingir os velhos ideais de heroísmo, e a de que, devido ao aperfeiçoamento dos instrumentos de destruição, uma guerra futura poderia envolver o extermínio de um dos antagonistas ou, quem sabe, de ambos. Tudo isso é verdadeiro, e tão incontestavelmente verdadeiro, que não se pode senão sentir perplexidade ante o fato de a guerra ainda não ter sido unanimemente repudiada. Sem dúvida, é possível o debate em torno de alguns desses pontos. Pode-se indagar se uma comunidade não deveria ter o direito de dispor da vida dos indivíduos; nem toda guerra é passível de condenação em igual medida; de vez que existem países e nações que estão preparados para a destruição impiedosa de outros, esses outros devem ser armados para a guerra. Mas não me deterei em nenhum desses aspectos; não constituem aquilo que o senhor deseja examinar comigo, e tenho em mente algo diverso. Penso que a principal razão por que nos rebelamos contra a guerra é que não podemos fazer outra coisa. Somos pacifistas porque somos obrigados a sê-lo, por motivos orgânicos, básicos. E sendo assim, temos dificuldade em encontrar argumentos que justifiquem nossa atitude.

Sem dúvida, isto exige alguma explicação. Creio que se trata do seguinte. Durante períodos de tempo incalculáveis, a humanidade tem passado por um processo de evolução cultural (Sei que alguns preferem empregar o termo ‘civilização’). É a esse processo que devemos o melhor daquilo em que nos tornamos, bem como uma boa parte daquilo de que padecemos. Embora suas causas e seus começos sejam obscuros e incerto o seu resultado, algumas de suas características são de fácil percepção. Talvez esse processo esteja levando à extinção a raça humana, pois em mais de um sentido ele prejudica a função sexual; povos incultos e camadas atrasadas da população já se multiplicam mais rapidamente do que as camadas superiormente instruídas. Talvez se possa comparar o processo à domesticação de determinadas espécies animais, e ele se acompanha, indubitavelmente, de modificações físicas; mas ainda não nos familiarizamos com a idéia de que a evolução da civilização é um processo orgânico dessa ordem. As modificações psíquicas que acompanham o processo de civilização são notórias e inequívocas. Consistem num progressivo deslocamento dos fins instintuais e numa limitação imposta aos impulsos instintuais. Sensações que para os nossos ancestrais eram agradáveis, tornaram-se indiferentes ou até mesmo intoleráveis para nós; há motivos orgânicos para as modificações em nossos ideais éticos e estéticos. Dentre as características psicológicas da civilização, duas aparecem como as mais importantes: o fortalecimento do intelecto, que está começando a governar a vida instintual, e a internalização dos impulsos agressivos com todas as suas conseqüentes vantagens e perigos.

Ora, a guerra se constitui na mais óbvia oposição à atitude psíquica que nos foi incutida pelo processo de civilização, e por esse motivo não podemos evitar de nos rebelar contra ela; simplesmente não podemos mais nos conformar com ela. Isto não é apenas um repúdio intelectual e emocional; nós, os pacifistas, temos uma intolerância constitucional à guerra, digamos, uma idiossincrasia exacerbada no mais alto grau. Realmente, parece que o rebaixamento dos padrões estéticos na guerra desempenha um papel dificilmente menor em nossa revolta do que as suas crueldades.

E quanto tempo teremos de esperar até que o restante da humanidade também se torne pacifista? Não há como dizê-lo. Mas pode não ser utópico esperar que esses dois fatores, a atitude cultural e o justificado medo das conseqüências de uma guerra futura, venham a resultar, dentro de um tempo previsível, em que se ponha um término à ameaça de guerra. Por quais caminhos ou por que atalhos isto se realizará, não podemos adivinhar. Mas uma coisa podemos dizer: tudo o que estimula o crescimento da civilização trabalha simultaneamente contra a guerra.

Espero que o senhor me perdoe se o que eu disse o desapontou, e com a expressão de toda estima, subscrevo-me,

Cordialmente,

Sigm. Freud

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Diário de Kurt Gerstein, um holandês oficial SS


Kurt Gerstein, holandês oficial da SS da seção de 'serviço sanitário', escreveu estas linhas em seu diário, sobre o campo de extermínio de Belzec, antes de seu suicídio em 1945:

"Logo a seguir começa a marcha. À frente uma mocinha muito bonita; Caminham ao longo da avenida, completamente nus, os homens as mulheres, as crianças. Estou junto do capitão Wirth, responsável pela organização do extermínio, na escada exterior de um só lance que há entre as câmaras. As mães - que apertam nos braços seus bebês - sobem, hesitam, entram nas câmaras da morte. À esquina um corpulento SS, com voz sonora e afável, diz àqueles desgraçados 'nada vai acontecer de mau! Basta respirar fundo nas câmaras; Isto fortalece os pulmões e é um meio preventivo contra as doenças e epidemias'.
Aos que indagam sobre o destino que os espera, responde:
'Evidentemente os homens terão de trabalhar, construir casas e ruas. As mulheres tratarão da casa e da cozinha'. Isto representava a última esperança, capaz de os fazer caminhar sem resistência até as câmaras da morte. A maioria porém conhece a sua sorte, pois o cheiro dominante é bastante eloqüente. Sobem uma pequena escada e abrangem tudo num último olhar: As mães com seus filhos apertados contra o peito,
crianças de tenra idade, velhos, homens, mulheres, totalmente nus; Vacilam, mas entram empurrados pelos que vêm atrás, ou pelas vergastadas dos SS, a maioria sem dizer uma palavra. Uma judia de cêrca de 40 anos, de olhos ardentes, amaldiçoa os assassinos:
'Que o nosso sangue caia sobre vocês!' E, tendo recebido 5 ou 6 chicotadas no rosto, dadas pelo próprio capitão Whirth, desaparece na câmara de gás. Muitos rezam, e eu rezo com eles. Vou para um recanto e oro ao meu Deus que é também o Deus deles. Queria entrar ao seu lado nas câmaras de gás. Quanto teria gostado de morrer da mesma morte! Se houvessem encontrado então nas câmaras de gás um oficial SS de uniforme, julgariam tratar-se de um acidente e não voltariam a falar no caso. Mas
não devo fazê-lo.
Primeiro tenho que denunciar o que vi aqui. A câmaras lotam. 'Encher bêm!', ordenara Wirth. A pessoas estão de tal modo apertadas que pisam os pés uma das outras. Há 700,800 em 25m2 e 45 m2. Os SS os colocam como numa prensa, tal como folhas de um livro. As portas são fechadas. Enquanto isso, os outros estão do lado de fora à espera, completamente nus, no inverno ou no verão.
'Estão aqui para morrer', diz um SS.
Compreendo então a inscrição que vi na entrada 'Fundação Heckenholt'. Heckenholt é o encarregado do Diesel, um dos 3 ou 4 técnicos encarregados que construíram a instalação. São os gases de escape do diesel que matam aqueles infelizes. O diesel põe-se em movimento e até este instantes, todos permaneciam vivos: 4 vêzes 750 homens em 4 vêzes 45 m3. Decorreram mais 25 minutos. Agora muitos já morreram.
Pode-se ver pela vigia: Uma lâmpada elétrica ilumina por momentos o interior da câmara. Passados 28 minutos, poucos restam com vida. 32 minutos: todos morreram.
Do lado de fora os homens do Kommando de trabalhadores abrem as portas de madeira. Como colunas de basalto, os homens ainda estão de pé nas câmaras, sem o menor espaço para cair ou dobrarem-se sobre si próprios.
A morte não separou os que pertencem às mesmas famílias, pois estão de mãos dadas. Custa muito a separá-los quando as câmaras são esvaziadas para o próximo carregamento. Despejam-se os corpos úmidos de suor e urina, as pernas cobertas de fezes. Atiram-se pelo ar os cadáveres das crianças. Não há tempo a perder. Duas dezenas de dentistas revistam as bocas com ganchos. Ouro à esquerda; não há ouro, à direita. Outros dentistas, com a ajuda de pu\inças e martelos, arrancam as peças de ouro e as coroas.
Entre eles, vai e vêm o capitão Wirth. Está no seu elemento. Procura-se nos cadáveres o ouro, os diamantes e as jóias.
Wirth chama:
'Veja o peso desta lata cheia de dentes de ouro. São os despojos de ontem e anteontem'.
Numa linguagem incrivelmente cínica, dis-me:
'Não pode imaginar a quantidade de ouro, diamante e dólares que encontramos todos os dias! Vá ver com seus próprios olhos!'
Wirth é capitão do exército imperial austríaco, cavaleiro da cruz de ferro, e tem agora a seu cargo o campo de kommandos dos trabalhadores judeus. Nem em Belzec nem em Treblinka pessoa alguma se incomodou em contar ou em fazer o registro dos mortos. Os números eram calculados por aproximação, segundo o conteúdo dos vagões. O capitão Wirth rogou-me que não propusesse em Berlim, nenhuma modificação nas instalações quedirigia visto haverem provado sua eficácia.
No dia seguinte, 19/08/1942, partimos no carro do capitão Wirth para Treblinka, a 120 km de Varsóvia. A instalação eram mais ou menos a mesma, porém muito maior que em Belzec. 8 câmaras de gás e montanhas de malas e roupas. Ofereceram um banquete em nossa honra, ao velho estilo alemão, tão típico de Himmler. A comida foi simples, mas abundante. Himmler ordenara que se entregasse aos homens do kommando todas as bebidas alcoólicas, a carne e a manteiga que desejássem."
No fim:
"Tenho consciência da importância trágica dos fatos expostos e posso certificar, sob juramento diante de Deus e dos homens, que nada do que disse é inventado. Tudo é inteiramente exato."

Texto extraido do livro: 'Seleções do reader's digest -Grande Crônica da 2a. Guerra Mundial(Vol. 2 de 3) - De Pearl Harbor a Stalingrado'