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sábado, 2 de agosto de 2014

Exposição sobre Revolta de Varsóvia resgata capítulo da Segunda Guerra

Outros episódios do conflito fazem ação da resistência polonesa contra os nazistas em 1944 ser às vezes deixada de lado. No entanto, ela é essencial para compreender o país e agora é tema de mostra em Berlim.

Ao lado de um veterano da rebelião de 1944, presidentes
 Joachim Gauck (c) e Bronisław Komorowski (d)

Juntamente com veteranos da rebelião, os presidentes da Alemanha, Joachim Gauck, e da Polônia, Bronisław Komorowski, abriram nesta quarta-feira (30/07), em Berlim, uma exposição dedicada à Revolta de Varsóvia de 1944. A mostra, no museu histórico Topografia do Terror, revela numerosos fatos inéditos sobre um capítulo da Segunda Guerra Mundial insuficientemente conhecido.

O exército de resistência polonês começou o levante contra os ocupadores alemães em 1º de agosto de 1944, visando libertar sua capital, símbolo da independência nacional. Até a capitulação dos revoltosos, três semanas mais tarde, 15 mil deles haviam morrido nos combates, assim como pelo menos 150 mil civis.

Logo após o início do movimento, Adolf Hitler decretara em Berlim "sentença de morte para Varsóvia": todos os seus habitantes deveriam ser mortos, e a cidade, arrasada.

Na Polônia, critica-se que a rebelião teria sido irresponsável e pouco inteligente, um suicídio coletivo. Porém, como observou o presidente alemão na inauguração da mostra, para muitos poloneses ter vencido a impotência foi mais significativo do que a derrota militar.

Deste modo, também depois de 1945, durante o regime soviético – ou o "tempo da não liberdade", como o denominou Gauck – a Revolta de Varsóvia teria sido um "importante ponto de referência para os poloneses oposicionistas" e, por fim, para a vitória do movimento Solidarność (Solidariedade), em 1989.

Gauck afirmou que é "uma virtude lutar, mesmo quando o sucesso é altamente incerto". Pois, em suas palavras, a liberdade é preciosa ao ponto de, se necessário, ser defendida com a própria vida. E essa é a mensagem da Polônia para seus vizinhos europeus, comentou.

O chefe de Estado recordou, ainda, suas próprias vivências: como oposicionista do regime comunista da antiga Alemanha Oriental (RDA), o exemplo polonês de 1989 ajudou-lhe a "encarar um risco, embora o desfecho pacífico do nosso movimento não fosse previsível".

Armia Krajowa(AK) 
Resgate de fatos esquecidos

O polonês Museu da Revolta de Varsóvia organizou a exposição em conjunto com a fundação Topografia do Terror. A pouca distância da Praça de Potsdam, onde ficavam as sedes da Gestapo e da organização paramilitar SS, mais de 60 murais e meia dúzia de cabines multimídia contam a sofrida história recente de Varsóvia.

A história vai de uma metrópole pulsante no começo do século 20, uma cidade sitiada na Segunda Guerra, passando pelos 63 dias do levante e a subsequente destruição, até a reconstrução depois de 1989, quando se tornou uma cidade moderna, com impressionante perfil arquitetônico.

Na opinião de Gauck, "estava mais do que na hora" de uma mostra assim. Pois, primeiramente, na Alemanha o registro dos mais de cinco anos de ocupação da Polônia pelos nazistas costuma ser suplantado por outros eventos.

Em segundo lugar, vê-se em Berlim é uma perspectiva especificamente polonesa, ajudando a entender o papel especial que a rebelião representa naquela sociedade, e por que, para muitos poloneses, liberdade e independência são "tão essenciais, até hoje".

Ânsia de liberdade como herança

Em seu discurso, Joachim Gauck também mencionou o fato de quase não ter havido ajuda de fora, durante a Revolta de Varsóvia. Seu homólogo polonês foi ainda mais explícito: o Exército Vermelho da Rússia e os nazistas alemães foram "aliados em destruir o sonho polonês".

Bronisław Komorowski classificou a mostra em Berlim como "um sinal de honra para os revoltosos". Pois se tratou de uma rebelião de homens livres, e não de um movimento espontâneo, disse. Apesar do terror quotidiano, agia um exército clandestino, o mais forte da Europa, na época, que contava com "a legitimação do povo".

Os sonhos de liberdade da revolta de Varsóvia contra o autoritarismo marcaram as próximas gerações, e esses sonhos foram transmitidos dentro das famílias, afirmou o chefe de Estado, que é parente de um dos líderes do levante, o general Bór-Komorowski. Uma lição tirada desses acontecimentos, prosseguiu, foi a renúncia total à violência pelo movimento Solidarność, em sua luta pela liberdade.

Reconciliação quase milagrosa

Joachim Gauck não deixou de enfatizar que "a persecução penal dos principais responsáveis foi hesitante ou totalmente ausente, na jovem República Federal Alemã". Assim, para ele, é quase um milagre que os dois povos agora sejam "não apenas vizinhos, mas amigos que se gostam".

O político alemão revelou-se comovido por os poloneses terem conseguido perdoar os alemães quando estes mostraram penitência, e que tenham superado o "ódio, ira e desconfiança", quando eles reconheceram sua "culpa e vergonha".

Segundo Komorowski, a Alemanha e a Polônia escrevem, hoje, um novo capítulo de uma "comunidade de destino" positiva. Ele acentuou as relações muito especiais existentes – por exemplo, entre as duas capitais, Varsóvia e Berlim, que "ressuscitaram, ambas, das cinzas, como a Fênix". O presidente polonês disse desejar que o rastro deixado pela atual exposição se eternize.

Fonte: DW

OBS: Esse é um dos assunto que mais me interessa no contexto da 2ªGM, tanto referente ao levante do Gueto, como o levante da cidade propriamente dita.
Sugiro a todos a lerem o livros inicialmente:

O Levante de Varsovia - o Aniquilamento de uma Nação -  Gunther Deschner -
O levante de 44 - A batalha por Varsóvia - Norman Davies

Sendo que o segundo é bem mais denso, com mais informações - é claro, não tirando o mérito do primeiro,  que é ótimo.

No mais,só procurarem nas Tag's sobre Varsóvia,que vão achar bastante informações aqui no blog.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Os judeus de Varsóvia no entreguerras - Parte 3/3

Os membros do Hashomer Hatzair(movimento juvenil sionista) 
fica em formação ao longo de uma estrada, vários deles segurando
 instrumentos musicais.
Membros das profissões liberais e assimilacionistas confessos moravam em ruas e casas ocupadas por poloneses ou por uma combinação de judeus e poloneses. É difícil calcular o número deles, mas não poderiam ser mais do que 20 ou 25% dos judeus vivendo em Varsóvia. O comércio atacadista judeu e suas ramificações estavam concentrados em determinadas ruas. A rua Gesia era conhecida pelos tecidos e acessórios a eles relacionados; a rua Franciszkanska pelas lojas de artigos de couro e curtidores; e a rua Swietokszyska por suas editoras, lojas para livros escolares e antiquários, comercializando livros usados e obras raras. O próprio bairro judeu podia ser distinguido por suas casas e pelas condições de suas ruas. 

O status financeiro e o estilo de vida dos inquilinos determinavam em grande parte a aparência da rua: as calçadas, a quantidade de gente, o barulho, a limpeza e os cheiros. Os becos judeus eram congestionados e obviamente descuidados. Paul Tarpman descreveu o ritmo de vida de um beco típico: 

A rua está fervilhando com uma espécie de atividade que só é encontrada no bairro judeu, pois ela funciona como centro nervoso de comércio e trabalho. Não está familiarizada com o sono. Aqui o tempo noturno tinha pouca significação. Durante o dia, as lojas ficavam cheias de fregueses e carregadores, que nos seus fortes ombros levavam sacos, caixotes, rolos de tecido, móveis... As calçadas, desde o raiar do dia, apinhadas de gente: vendedores apregoavam pãezinhos e água gasosa, ambulantes carregavam cestos cheios de amendoim, sementes de girassol, cadernos e velas; empréstimos e outras pechinchas eram oferecidos, com os tons mais sedutores, a qualquer passante; mendigos esfarrapados louvavam suas mercadorias, nos termos mais elogiosos, para todos.


Aqui um judeu da província gritava e se lastimava de que, num único segundo, suas posses haviam desaparecido como se nunca houvessem existido. E, ali, um homem que caíra na miséria implorava por alguma comida ou roupa. Mais adiante, um criado xingava um amigo com todas as imprecações e maldições bíblicas que era capaz de lembrar, e na esquina um policial polonês preparava uma arapuca para um ambulante judeu. Judeus trajando os longos e tradicionais cafetãs pretos (kapote), outros com bonés pretos com pequenas palas e rostos barbeados; mulheres elegantemente vestidas ou algumas com roupas mais simples. Crianças sujas e limpas, algumas bem alimentadas e outras magras como uma vara — aí podia-se encontrar tudo.

David Canaani, natural de Varsóvia, descreveu a sua rua e a casa em que morava quando jovem:

A rua consistia principalmente de casas residenciais. Havia poucas lojas, apenas o suficiente para suprir as necessidades mais simples: mercearias, sapateiros e alfaiates, uma lavanderia, um depósito de carvão, uma minúscula papelaria, onde se podia comprar qualquer coisa, desde cadarço até cola. Aqui você tem todo o comércio da rua. Nossa rua era em parte rua e em parte alameda. Uma rua — pois de ambos os lados havia quadras de casas de três, quatro ou até sete andares, e em cada casa moravam não menos que quarenta ou cinqüenta famílias. Uma alameda — pois nenhum bonde passava por lá. Era iluminada por luz de gás, e não por eletricidade. Era pavimentada com pedras, e cada carroça que passava fazia horrendos sons ribombantes e ecos de parar o coração. Era uma rua estreita. Uma tira de céu cinzento dependurava-se frouxamente sobre nossas cabeças: a luz do sol mal conseguia se esgueirar entre as paredes dos altos prédios. Somente ao entardecer é que os raios do sol poente douravam os inclinados telhados de zinco e as bruxuleantes luzes aliviavam o escuro desalento.


No inverno, a rua ficava ainda mais estreita, devido às pilhas de neve suja e compacta amontoada nos lados. Mas nas manhã de verão ela era às vezes perfumada com os produtos de uma carroça de aldeão, cheirando a frutas e flores do campo.

Nossa rua, pouso de milhares de judeus, foi uma das centenas de ruas judaicas de Varsóvia que se tornaram montes de ossos e de ruínas. Nossa casa, a número 15 da rua Nowolipki, era uma das milhares de casas judias, anônimas e cinzentas de Varsóvia. Suas janelas são vistas à distância do tempo e lugar. Não obstante, parece haver algo a singularizá-la, apagando seu anonimato e obscuridade. Há, indubitavelmente, entre os habitantes de Varsóvia, muitos que se lembram dessa casa por causa do jornal Unser Express ("Nosso Expresso"), que por breve tempo teve ali sua redação.

Durante décadas, milhares passaram pelo prédio, indo para a clínica da organização beneficente conhecida como Achiezer ("Ajuda Fraterna"). Dessa casa estabeleceram-se vínculos com velhos colonos na Palestina: por alguns anos foi o centro para fundos do Rabi Meir Bal Haness. Cobradores para instituições religiosas, funcionários e simples judeus comuns podiam ser vistos constantemente indo e vindo. Centenas de alunos estudavam no Estherson, o Heder Metukan do Litvak [na escola ortodoxa, as crianças, desde muito cedo, aprendiam quase exclusivamente a Torá, enquanto que no Heder Metukan eram ensinados também outras disciplinas, tais corno aritmética, a língua do país conhecimentos gerais), até ele transformar a escola num hotel.

Centenas, talvez milhares de migrantes que partiam para a Palestina e para a America passavam seus últimos dias e noites nesse "hotel".

Não eram, porém, as instituições que davam ao nosso pátio o seu caráter. Nossa casa era essencialmente uma residência para dezenas de famílias judias que ali viviam permanentemente. Era uma casa antiga, de uns sessenta ou setenta anos, com o formato típico das casas de Varsóvia e um pátio fechado pelos quatro lados chamado de "caixa". Em cada canto havia escadas, além das entradas mais amplas e mais elegantes dando para a rua... Quase todos os apartamentos consistiam de dois quartos e cozinha, um pequeno corredor em que o sanitário ficava escondido por trás de uma cortina de tábuas e onde também podiam ser encontrados um cesto de roupa suja e todo tipo de velharias. Apartamentos desse tipo eram considerados respeitáveis e hem arrumados. No centro do bairro judeu, não só todos os residentes eram judeus como também todas as instituições e serviços se destinavam a judeus e tinham um caráter essencialmente judaico. Os judeus tinham ali a sensação de estar em casa, entre eles mesmos e em seu próprio elemento. Tinham total liberdade de se comportar como quisessem e fazer o que lhes aprouvesse. A língua ídiche dominava as ruas. A variada multidão criava uma existência harmoniosa e colorida em meio ao abundante clamor e alarido. Aos olhos dos poloneses de ruas mais abastadas e elegantes, mas apenas a poucos minutos de distância, o bairro judeu parecia um mundo diferente e estranho, enquanto que, do ponto de vista de muitos judeus, as ruas especificamente polonesas eram uma área de desconforto e, por vezes, cenários de ataques, xingamentos injuriosos por parte de desordeiros, e até de agressão física, particularmente nos anos 30.
Os transtornos ocasionados pela Primeira Guerra Mundial — operações militares, movimentos de populações e mudanças de governos — paralisaram a da econômica de Varsóvia. Os poloneses demonstraram incansável e persistente entusiasmo em sua luta pela restauração da independência política, mas a verdade nacional por si mesma não solucionava os problemas existenciais de ri povo. No entreguerras a Polônia sofreu com o enfraquecimento dos mercados russos, que anteriormente constituíam um consumidor de sua produção industrial, e estava debilitada por recessões e pela grande crise econômica naquele período. 

Na Polônia do entreguerras houve uma acentuada tendência para expulsar deus das posições de destaque na economia. Seria um exagero atribuir aos poloneses em geral, e a todos os órgãos políticos da nação, a tendência de tornar economia livre de judeus e de encarar o futuro da Polônia pelo prisma do anti-semitismo, mas slogans antijudaicos predominavam. Havia muitos que viam) banimento dos judeus de posições econômicas — e, a partir de fins da década 1930, na expulsão total de judeus — uma panacéia para todos os males da polônia. Era essa a opinião dominante no Endecja, com seu grande contingente a burguesia, da classe média e da intelectualidade. E era também a doutrina que impregnava as fileiras de muitos jovens estudantes e ativistas políticos que, os anos 30, abandonaram o Endecja e fundaram um ramo radical-nacionalista que, não obstante sua confessada orientação católica, se apropriava entusiasticamente de muitos elementos da ideologia fascista e adotava como modelo a política antijudaica dos nazistas.
 Nas cidades polonesas, os judeus eram um elemento nitidamente urbano.

Excetuando-se uma pequena minoria de alemães, alguns dos quais haviam obscurecido ou rejeitado sua identidade anterior, eram os judeus na Polônia, sob muitos aspectos, a mais nítida das minorias. Uma situação tão grave de tensões e de escassez proporcionava, obviamente, um terreno fértil para acusações contra os judeus. Estes, alegava-se, eram responsáveis pelo atraso das cidades polonesas, e as indústrias e o comércio mal administrados da Polônia eram conseqüência direta do número excessivo de intermediários e de sua disputa por lucros especulativos. 

Muitos judeus, ou melhor, a maioria dos judeus era ativa no mundo dos negócios e do comércio, bem como em certos ofícios e profissões que empregavam métodos bem mais antiquados que os em uso nas nações ocidentais. As autoridades polonesas, contudo, em vez de tratarem das causas da situação precária de suas cidades e do atraso no comércio, e de energicamente introduzir reformas básicas e melhorias tanto no setor urbano quanto no rural, freqüente-mente pretendiam atribuir à responsabilidade por esse triste estado de coisas aos judeus, retratados como obstáculo às mudanças ansiosamente esperadas. 

De acordo com as estatísticas, os judeus possuíam em Varsóvia, ao fim da Primeira Guerra Mundial, 73% dos negócios particulares da cidade, enquanto que, em 1928, essa porcentagem baixou para 54%, e continuou em declínio até a Segunda Guerra Mundial. Esse declínio fica ainda mais evidente examinando-se a categoria de negócios em mãos de judeus. Os 39,5% que representam o comércio judeu de Varsóvia em 1928, decresceram para 23% em 1933. Mas o fato de os judeus se dedicarem ao pequeno comércio e ao comércio ambulante não diminuiu o antagonismo. Pelo contrário, o pequeno lojista era visto pelo consumidor como um empresário independente, fornecendo todos os ramos de produção, e responsável pela lacuna cada vez maior entre salários e preços, assim como pelos problemas dos desempregados, que compravam mercadorias a crédito e não podiam pagar suas dívidas a tempo. 

A imagem do judeu rico manipulando as cordas do comércio era muito comum entre poloneses de classe baixa. Um erudito polonês, Jerzi Tomaszewski, documentou no seu livro A República de Muitas Nações aquele ápice da economia da Polônia no entreguerras. Havia então, nas fileiras da oligarquia financeira que determinava a política econômica, 92 indivíduos específicos. A julgar pelos seus nomes e por outros indícios, 14 deles, no máximo, eram judeus — e alguns tinham se assimilado ou convertido. Mas conforme já é tradicional no estereótipo anti-semita, basta haver apenas um pequeno número de judeus, ou até mesmo um só, envolvido numa determinada área de comércio para que isso comprove uma dominação judaica. Os judeus foram também os primeiros a derrubar a barreira erguida pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas após a revolução, e a Associação Mercantil Judaica organizou uma companhia acionária cuja especialidade era estabelecer conexões comerciais com o Leste. O núcleo da Associação Mercantil, uma prestigiosa e poderosa instituição fundada em 1906, localizava-se em Varsóvia daí se espalhando pelo país para formar uma rede, organizada segundo atividade comerciais específicas. De acordo com o historiador judeu Meir Balaban, essa organização podia se vangloriar de ter em Varsóvia, em 1928, uns 6 mil membros. A Associação promovia convenções anuais que, segundo um de seus membros, eram "eventos importantes no calendário político judaico na Polônia". 

Os comerciantes de Varsóvia eram as figuras dominantes na Associação Mercantil. Em 1935, presidia-a Abraham Gepner. Era um homem de enorme vitalidade, que começara a vida como entregador de uma firma comercial e chegara a uma posição de destaque no comércio e fabricação de metais. Nos anos 30, tornou-se conhecido como figura pública de princípios elevados e como filantropo particularmente sensível ao destino de crianças órfãs. Ao tempo da guerra e do gueto, Gapner, então com quase 70 anos, foi membro do Judenrat, sendo responsável por suprimentos, isto é, pela área extremamente sensível e socialmente explosiva da distribuição de alimentos a pessoas famintas. Nesse papel ingrato, sua integridade nunca foi posta em dúvida. E, além disso, ele apoiava secretamente o movimento clandestino e a Organização Combatente judaica. Em seus últimos dias, Gepner escreveu não estar arrependido de ter permanecido no gueto com seus irmãos e irmãs, e "se eu pudesse enxugar apenas uma lágrima — eu estaria bem recompensado". 

Os judeus se destacaram no desenvolvimento das manufaturas, tanto no âmbito do Estado polonês quanto internacionalmente. Quando as grandes companhias saíram do campo das empresas privadas e se tornaram sociedades anônimas, muitos judeus foram nomeados diretores. Os judeus, preferiam de um modo geral, trabalhar independentemente, isto é, não serem assalariados e terem seu próprio negocio ou loja, por menor que fosse. Foi somente sob a forte pressão dos impostos, que afetaram as classes médias inferiores, e especialmente após a confusão causada pela grande depressão que os judeus que haviam sido pequenos negociantes sentiram o doloroso processo da proletarização. Havia muitos artesãos entre os judeus da Polônia, mas o número de judeus trabalhando na agricultura, num país basicamente agrário, era acentuadamente baixo. Isso refletia restrições governamentais sobre posse de terras por judeus, repetidamente impostas no decorrer da história judaica. Em 1918, os judeus constituíam 37% dos artesãos, e esse percentual aumentou consideravelmente durante os anos de independência da Polônia. Eles concentravam-se em certos ramos de trabalho, especialmente os que exigiam alguma perícia, tais como, entre outros, a manufatura de roupas, sapatos, chapéus, artigos de couro, artigos de armarinho e casacos de peles.

Em 1926, um levantamento do governo revelou que 55% de todos os empregados de oficinas eram judeus. No ano seguinte foram introduzidas amplas reformas em relação a padrões e condições de trabalho em oficinas que obrigavam os trabalhadores a serem examinados pelas autoridades, para obter uma licença (patente) que lhes dava o direito, caso aprovados, de exercer seu ofício. Muitos judeus fracassaram, e houve queixas de que tais reprovações não se deveram a falhas de produção e sim porque aos examinandos foi pedido que provassem seu domínio da língua polonesa. Em conseqüência, muitas oficinas judaicas foram obrigadas a funcionar sem uma licença oficial, e isso teve efeito nos preços que podiam cobrar. O trabalho tinha de ser feito em casa pelos trabalhadores. Nos setores judeus mais pobres, nas ruas Mila, Smocza, Krochmalma, e outras, havia muitos alfaiates, sapateiros, costureiras, e trabalhadores temporários de todo tipo, que trabalhavam como artesãos independentes ou assumiam empregos temporários de empreiteiros. Artesãos e trabalhadores temporários, conhecidos como chalupnicy, moravam num pequeno quarto e usavam a oficina para comer, dormir e para a vida familiar diária. Crianças faziam seus deveres de casa ou brincavam numa minúscula área desse quarto, que freqüentemente era sombrio. 

Futuro conselho judeu de Varsóvia. Sentado atrás da mesa, 2 a 4 na
 esquerda: o industrial Abraham Gepner; presidente Adam Czerniakow
e advogado Gustavo Wielikowski. Varsóvia, Polônia, entre 1939 e 1942. 

Com o decorrer do tempo, esses severos regulamentos foram um tanto atenuados. Os artesãos se organizaram num sindicato profissional denominado Associação Central de Artesãos Judeus, que tinha somente em Varsóvia uns oito mil membros, com mais de quinhentas ramificações em todo o país. O sindicato cuidava de muitos aspectos do setor profissional e protegia os direitos dos artesãos nos âmbitos oficial e jurídico. As opiniões contraditórias que levaram a uma cisão desse sindicato multilateral não eram só políticas, mas causadas às vezes por um conflito de personalidades e pela ambição de dominar o sindicato, segundo Joseph Marcus, autor de um livro sobre a história política e social dos judeus poloneses no entreguerras. Até 1929, o sindicato foi presidido por Adam Czerniakow, um engenheiro que estava próximo dos assimilacionistas mas que, à semelhança de outros membros com opiniões análogas, passou a servir os judeus sob outras condições e a defendê-los contra as políticas discriminatórias das autoridades. Czerniakow foi presidente do Judenrat no gueto de Varsóvia desde o início da ocupação nazista, de outubro de 1939 até cometer suicídio, quando começaram as deportações de judeus para Treblinka, a 22 de julho de 1942.

Os sindicatos judeus maiores tinham também um sistema bancário e uru fundo de assistência social. O American Jewish Joint Distribution Comntittet (o Joint) teve uma grande participação em capitalizar e canalizar fundos para a manutenção da rede financeira e assistencial. De acordo com Joseph Marcus, ocorreu na esteira do crack da Bolsa um declínio no envolvimento do Joint e no auxilio a essas instituições bancárias. Isso só exacerbou as terríveis condições dos judeus poloneses. Houve também, conseqüentemente, um enfraquecimento da eficácia das associações econômicas judaicas na época em que elas eram mais necessárias. Em resposta, nesse momento crítico, aumentou o auxilio mútuo independente de fontes judaicas locais. 

A década de 1930 foi, em conjunto, em toda a Polônia, um período de terrível pobreza e desemprego em massa, mas o fardo mais pesado recaiu sobre os judeus empregados nos setores mais vulneráveis da economia que menos ajuda receberam do governo, que se mostrou incapaz de enfrentar a situação econômica. De meados dos anos 30 em diante, evidências da crescente influência do rumo antijudaico na economia tiveram sua expressão mais nítida e extrema na política da oposição direitista radical, que não se absteve de recorrer a violentos distúrbios e perseguições. Ao mesmo tempo, os governantes seguidores de Pilsudski adotaram, nas esferas política e econômica, medidas antijudaicas pelo processo de "legitimização" de um boicote antijudeu. Quando indagado sobre sua política em relação aos judeus, o primeiro-ministro, General Felicjan Slawoy-Skladkowiski, respondeu que ele rejeitava métodos violentos mas que sanções econômicas eram obrigatórias. Sanções econômicas dirigidas contra um setor da população cujos costumes, crenças e língua diferiam dos da maioria eram consideradas apropriadas. Aproximadamente um quarto dos habitantes judeus da cidade eram indigentes necessitados de ajuda, alguns deles a ponto de morrer de fome. 

A sociedade judaica tinha a estrutura de uma pirâmide: no topo uns poucos abastados. A camada do meio era constituída pela maior parte da classe média, e na ampla base estavam às pessoas de baixa renda ou sem renda estável. Segundo o sociólogo Jacob Lestchinsky, essas proporções com o decorrer do tempo se alteraram. O topo e as camadas intermediárias se estreitaram, enquanto a camada mais baixa inchou desmesuradamente. Durante todo o período de entreguerras, os judeus sentiram a necessidade de reorientar suas vidas profissionais e de se deslocarem do pequeno comércio e de posições de intermediários para a indústria e ocupações estáveis. Sentiam que uma alteração no status econômico dos judeus melhoraria sua imagem perante os não-judeus. Nos anos 30, o trabalho nas indústrias era visto como uma garantia de estabilidade e uma promessa de condições de trabalho decentes. Houve, por parte de órgãos Públicos judaicos, inúmeras petições e tentativas de direcionar os muitos judeus sem meios de subsistência aos judeus proprietários de fábricas, mas os resultados foram apenas modestos. Judeus donos de fábricas não se dispunham, por várias razões, a empregar outros judeus. As empresas pertencentes a não-judeus empregavam, em regra, poucos judeus, e a presença de um grande número de judeus numa só fábrica era um inconfundível indício de que o proprietário era judeu — algo que ele preferia esconder. Em segundo lugar, a maioria dos judeus não queria trabalhar no sábado, o dia de repouso da família judaica, mesmo nos círculos mais laicos. Era natural que urna empresa com grande número de empregados tivesse o domingo como dia compulsório de repouso, e exceções a essa regra causavam incômodo e confusão no processo de produção. Em certas indústrias, os próprios trabalhadores não-Judeus faziam objeção ao emprego de judeus. De qualquer maneira, porém, a intensa aflição bem como o anti-semitismo evidentemente levaram alguns industriais judeus a admitir muitos trabalhadores judeus, a despeito dos inconvenientes envolvidos. 

O governo polonês desempenhou um papel ativo na direção da economia. Quase um quarto do capital, assim como a propriedade de algumas indústrias básicas, estava em mãos do governo. A nacionalização de setores inteiros da indústria, tais como sal, fumo, álcool e loterias excluía judeus de áreas em que anteriormente tinham considerável participação. Judeus alegavam também que políticas de crédito os discriminavam. Os judeus estavam quase completamente excluídos do trabalho nas administrações municipais e nacional. Em seu livro intitulado A História dos Judeus em Varsóvia, Abraham Levinson escreveu: 

em 1931 havia no governo polonês meio milhão de funcionários administrativos, dentre os quais 1% de judeus — menos que uni décimo do setor judaico no seu todo. Em 1923, entre os 3.177 funcionários empregados em instituições nacionais de crédito — uma esfera da economia em que judeus eram conhecidos por sua experiência e talento nato — havia 23 judeus, ou 0,66%. Os judeus formavam 33% da população de Varsóvia e, no entanto, em 1928, entre os 4.342 empregados e funcionários dos serviços municipais de bondes havia apenas dois judeus, ou 0,05%. Quinhentos novos empregados e funcionários foram admitidos em 1929, e após muitos esforços, outros... 4 judeus. 

Numa situação cada vez mais terrível, o auxílio e conselhos dados pelas instituições judaicas, lidando com garantias mútuas, desempenharam significativo papel. Em acréscimo aos sindicatos profissionais organizados de acordo com suas atividades econômicas havia também, dentro da estrutura comunitária judaica, fundos para empréstimos e assistência urgente. A Organização de Reabilitação pelo Trabalho (ORT) e a Sociedade para Promoção do Trabalho Agrícola e Vocacional entre os judeus preparavam jovens de origem judaica para trabalharem como artesãos e artífices, e auxiliaram fornecendo maquinaria c treinamento para pessoal de oficinas. 

Houve também tentativas de dirigir gente jovem para instrução agrícola. O movimento Hechalutz, constituído de membros mais velhos de movimentos juvenis que eram treinados para ingressar num kibutz na Palestina, e outros pioneiros desejosos de participar de uni esforço comunitário antes de emigrar, trabalhavam em fazendas agrícolas e faziam outros tipos de trabalho na expectativa de constituir bom futuro na Palestina. Embora alguns grupos juvenis não passassem de reservas para um partido político, movimentos juvenis sionistas tais como Hashonier Hatzair, Jovens Sionistas e Akiva tinham ideologias bem definidas mas não estavam vinculados a um partido político. Seus membros, especialmente os dos movimentos de pioneiros que os preparavam para viver na Palestina, se abstinham de atividades públicas e políticas na Diáspora, enfocando a preparação para aliyah, a ascensão à terra. 

A comunidade judaica de Varsóvia mantinha uma rede educacional que também enfatizava o treinamento vocacional. A mais popular e eficiente das organizações era o grupo de companhias oferecendo empréstimos sem juros aos necessitados — uma forma de assistência que combinava a antiga tradição de garantias mútuas com o preceito da Torá de não emprestar dinheiro a juros. A Organização Central de Sociedades para o Apoio ao Crédito sem juros e Fomento do Trabalho Produtivo (CEKABE), que se tornou conhecida por suas realizações organizacionais e práticas, foi instituída em 1926 com ajuda financeira do Joint. Imediatamente após a Primeira Guerra Mundial o Joint veio em socorro das comunidades judaicas que haviam sofrido com os grandes transtornos causados pela guerra, e mais tarde voltou a fim de prestar ajuda aos judeus da Polônia em sua crescente desgraça econômica. O conceito básico que orientava a assistência do Joint era o da reabilitação construtiva —, isto é, não a ajuda filantrópica para necessidades diárias, e sim dinheiro que possibilitaria aos que o recebessem reconstruir ou fortalecer sua fonte de sustento, ou passar por uma reciclagem profissional. Nas circunstâncias prevalecentes na época, essa forma de ajuda era uma medida de proteção para os judeus poloneses. Aqueles que recebiam dinheiro eram obrigados a devolvê-lo em pequenas quantias especificadas, enquanto que a rede de fundos era organizada na base das contribuições dos seus membros. Com o passar do tempo, a participação dos judeus poloneses no fundo começou a crescer. Marcus escreve que em 1937 a CEKABE, que dava empréstimos sem juros, arregimentava 825 companhias locais, com um total de 100 mil membros pagantes. 

O historiador e cronista do Holocausto Emanuel Ringelblum, que trabalhou para o Joint na Polônia, escreveu um estudo biográfico de Yitzhak Gitterman, um dos dirigentes do Joint na Polônia e uma das forças impulsionadoras por trás do conceito e organização da rede de fundos. (Gitterman foi assassinado pelos nazistas em janeiro de 1943, mais de um ano antes do assassinato do próprio Ringelblum.) Gitterman afirmava que devia haver menos caridade, mas que o dinheiro à disposição dos fundos deveria servir como estímulo para a economia. De acordo com Ringelblum, os fundos eram uma instituição popular na cena judaica, tendo um papel em todas as comunidades judaicas, e até naquelas cidadezinhas onde a comunidade mal se estabelecera. As atividades do movimento cooperativo entre os judeus também foram significativas, em parte porque o movimento abandonou as tendências conservadoras arraigadas na mentalidade judaico-polonesa. Provou seu valor em muitas ocasiões pelos meios eficazes que adotou para reagir a infortúnios. 

Dentre as muitas instituições beneficentes, tais como asilos para idosos, hospitais, e assim por diante, a posição mais respeitada era ocupada pela Associação para o Cuidado de órfãos Judeus (CENTOS). Dava apoio a orfanatos, dentre eles o famoso orfanato dirigido pelo pedagogo e escritor Dr. Janusz Korczak c sua assistente Stefania Wilczynska, que não somente criou um lar modelo para crianças como também introduziu métodos originais de educação e auto-instrução para crianças tanto judias como polonesas, que vieram a ser estudados por outros educadores. Korczak, Wilczynska e os diretores de outros orfanatos em Varsóvia não abandonaram os que a eles estavam entregues: nos dias do Holocausto, a última viagem de Korczak, no verão de 1942, com duzentas crianças no trem para Treblinka serviu como um farol de dignidade em meio à apavorante escuridão de barbárie e carnificina. 

A sociedade TOZ era responsável pela saúde e cuidados com a infância. A Agência Central de Ajuda a Judeus em Varsóvia cuidava das necessidades mais urgentes dos pobres e em 1936 prestava assistência a umas três mil famílias. E talvez a forma mais original de auxílio viesse de um grupo de voluntários que percorria os pátios judaicos com grandes cestos na mão, pedindo alimentos para os pacientes em hospitais. Esse grupo era chamado "Bom Shabat, Judeuzinhos", pela saudação com que anunciavam seu pedido de alimentos para os enfermos. As crianças ali aguardavam excitadamente sua chegada, trazendo pequenos pacotes que continham comida e doces. 

Os movimentos juvenis desempenharam um papel fundamental na luta e ação defensiva, que foi a última clara manifestação da vontade de viver dos judeus de Varsóvia. Os movimentos juvenis, que tratavam a adolescência e a juventude mais corno um período apreciável do que simplesmente urna transição para a idade adulta, originaram-se na Alemanha no início do século XX. Segundo o livro de Walter Laqueur sobre os movimentos juvenis alemães, a maioria dos seus membros era gente jovem de classe média que se sentia alienada e procurava uma mudança na estrutura social. Dentro do ambiente íntimo dos movimentos juvenis, eles tentavam melhorar o clima social. 

Embora rudimentos dos movimentos juvenis judaicos na Polônia se evidenciassem antes da Primeira Guerra Mundial, a consolidação e maturidade dos mesmos se deu entre as guerras. Os movimentos juvenis proporcionaram unia ideologia aos que ansiavam por um propósito e por uma ligação íntima com algo que aliviasse a monotonia de suas vidas. Embora não se saiba quantos pertenceram aos movimentos juvenis da Polônia, pode-se dizer que sessenta mil é uma estimativa razoável. Durante a ocupação e ao tempo do gueto, esse reservatório de gente jovem direcionou sua atenção para atividades e assuntos locais na comunidade judaica. Os historiadores podem meditar sobre qual poderia ter sido o destino dos judeus poloneses se os alemães não tivessem invadido a Polônia em 1939 e imposto a "solução final". O que pudemos assegurar é que as duas décadas entre as guerras foram, para os judeus, um tempo não só de dificuldades e provações mas também de realizações. E, afinal de contas, as dificuldades das relações com não-judeus eram pelo menos conflitos com uma dimensão humana; a guerra e a ocupação nazista proporcionaram a transição de uma era de transtornos humanos para outra de desumanidade e destruição.

Transcrição: Daniel Moratori  (avidanofront.blogspot.com)
Fonte: GUTMAN, Israel - Resistência. Ed. Imago, 1995, pg 47-57

Ver também:
Os judeus de Varsóvia no entreguerras - Parte 1/3Parte 2/3, Parte 3/3
A extensa discriminação aos judeus orientais(Ostjuden) pelos judeus-alemães - Link aqui

Fontes das fotos: Foto 1, foto 2


Obs: Depois de um tempo sem postar por motivos pessoais, vou atualizar o blog agora constantemente, e colocar as matérias que estavam faltando, como essa, a 3 parte sobre os judeus no entreguerras em Varsóvia.

domingo, 27 de outubro de 2013

Levante de Varsóvia - Execuções nos salões do mercado (Hale Mirowskie)


Levante de Varsóvia: Soldados alemães próximos a Hala Mirowskia.
O mais provável é uma visão do cruzamento da rua Zimna e rua Plac Mirowskiego  na parede norte do edifício leste.


Registro n º 23 / ​​II

Durante o Levante, ao sair da casa onde eu morava, na rua Ogrodowa, nº30 , encontrei-me em um abrigo do Ministério da Indústria e Comércio, nº2, rua Elektoralnamn. Isso foi em 7 de agosto de 1944. No abrigo, havia várias centenas de pessoas, a maioria mulheres e crianças. Na tarde de hoje, após os insurgentes terem recuado da rua Elektoralna, um posto avançado alemão foi colocado em frente à porta de entrada do Ministério. Cerca de 9 horas da noite dois gendarmes(policia) entraram no abrigo e ordenaram que todos os homens para saírem. O soldado que estava de guarda nos assegurou para nós que estávamos apenas indo para o trabalho. Fomos levados a três por três (éramos cerca de 150 homens) para praça Mirowski, entre os edifícios das duas salas do Mercado. Aqui, fomos obrigados a retirar os cadáveres, dezenas de que estavam deitados no chão, e depois disso, os entulhos das sarjetas e a estrada. Havia cerca de uma centena de poloneses na praça quando chegamos, todos ocupados a limpar, e algumas centenas de gendarmes (policiais) alemães, que se comportavam muito brutalmente: batendo nos poloneses, chutando-os e chamando-os de poloneses bandidos. Em um certo momento em que nosso trabalho parou, ordenaram que aqueles que não eram poloneses que avançassem. Um homem que tinha documentos bielo-russos o fez, e foi imediatamente liberado. Depois de uma hora e meia de trabalho, os policiais mandaram-nos formar grupos de três. Eu me encontrei no segundo posto. Todos estávamos com as mãos para cima. Um velho na linha de frente, que não conseguiu segurar as mãos para cima por mais tempo, foi cruelmente golpeado no rosto por um gendarme. Depois de 10 minutos, cinco fileiras de três marcharam sob a escolta de cinco policiais armados com submetralhadoras para o Mercado Municipal na rua Chlodnat. Por acaso ouvi os nomes de dois dos gendarmes que gritavam uns com os outros, Lipinski e Walter. Quando entramos no prédio, depois de passar dois portões eu vi, quase no centro do salão, um buraco profundo em que o fogo estava ardendo, mas deve ter sido polvilhado com gasolina por causa da fumaça negra e densa. Fomos colocados em um muro do lado esquerdo da entrada perto de um banheiro. Ficamos separadamente com os rostos voltados para a parede e as mãos para cima.

Depois de alguns minutos, ouvi uma série de tiros e eu caí. Deitado no chão, ouvi os gemidos e suspiros de pessoas deitadas perto de mim e também mais tiros. Quando o tiroteio cessou, ouvi os gendarmes contando aqueles que jazia no chão, pois eles só contou até treze. Em seguida, eles começaram a procurar mais dois que estavam faltando. Eles descobriram que um pai e filho se escondendo no banheiro adjacente. Trouxeram-nos, e eu ouvi a voz do menino gritando "Viva a Polônia", e, em seguida, tiros e gemidos. Algum tempo depois, ouvi as vozes de poloneses que se aproximam; cautelosamente eu levantei minha cabeça e vi os guardas de pé ao lado do buraco cheio de fogo e poloneses que transportam os corpos e os jogavam nele. Seu trabalho os trouxe mais perto de mim. Eu, então, me arrastei para o banheiro e me escondi atrás de uma divisória que formava o teto do banheiro. Sentado lá, ouvi disparos nas proximidades e os gritos dos alemães da direção do buraco. Em um determinado momento, um outro polonês que tinha escapado por baixo, através do banheiro encontrou-se ao meu lado. Ele era médico Jerzy Lakota, que trabalhava no Hospital Menino Jesus.

Sentamos lá por muitas horas. O tempo todo ouvimos o crepitar dos cadáveres ardentes no buraco e do próprio fogo. Além disso, ouvimos uma série de disparos vindos do outro lado (mais perto da rua Zimna). Dr. Lakota contou-me que, depois de uma saraivada ele tinha caído junto com os outros. Os policiais se aproximou para ver se ele ainda estava vivo, e o espancaram brutalmente, mas ele fingiu estar morto. Devo acrescentar que quando eu caí após o vôlei, eu vi um gendarme examinando aqueles deitados no chão, e aqueles que ainda estavam vivos, ele atirou com seu revólver. Eu tinha conseguido escapar antes. Por volta das duas horas na noite que desceram e saímos para a rua através da Câmara já vazia, em que o fogo ainda estava ardendo, e conseguimos chegar a rua Krochmalna.


Hale Mirowski

Registro n º 33 / II

Em 7 de agosto de 1944, eu estava no porão de uma casa na Rua Elektoralna em Varsóvia. Neste dia, ao entardecer, alguns soldados alemães chegaram no local e ordenaram que todos os homens saíssem da adega, e para desmantelar as barricadas dentro de duas horas. Eu obedeci e sai da adega com cerca de cinqüenta outros homens. Os soldados levaram-nos sob escolta para a Praça Zelazna Brama, e depois para o lugar perto da rua Mirowska, que fica em frente à pequena praça entre os dois halls do mercado.Na calçada da rua Mirowska estava cerca de 20 mortos.

Fomos obrigados a transportar os corpos desde o pavimento da rua Mirowska para o pequeno quadrado entre os salões. Com outros homens que carregavam os cadáveres eu notei que ao fazê-lo, em seguida, que todos eram de homens mais ou menos de meia-idade. Após a remoção desses corpos, fomos obrigados a remover a barricada que estava do outro lado da linha do bonde da praça Zelazna Brama para a rua Zelazna. Depois de ter removido parte desta barricada e tanques, assim, habilitado a passar, fomos levados na direção da rua Zelazna, onde fomos interrompidos, e ordenaram a levantar nossas mãos. Perguntaram várias vezes se não havia alemães entre nós. Em seguida, fomos revistados, tudo de valor, como anéis, relógios e cigarros, foi tirado de nós. Depois de sermos revistados ficamos em pé no mesmo lugar por cerca de uma hora e meia. Não muito longe de nós havia grupos de soldados, ao todo cerca de 200 homens, e nossas orações para a liberação foram respondidas pelos soldados com risos e escárnio. Eles falavam alemão, russo e ucraniano. Um deles nos disse repetidas vezes que deveríamos ser morto a qualquer momento. Então (estávamos em fileiras de três) as três primeiras linhas foram levadas para o Mercado Municipal, que está mais próximo da rua Zelazna. Pouco tempo depois, ouvi uma série de tiros. Depois, seguiu as próximas três fileiras. Eu estava na segunda, ou talvez no centro da terceira. No momento em que estávamos em frente da entrada, um dos soldados que nos escoltava nos atirou, e imediatamente o meu vizinho do lado esquerdo caiu no chão diante de mim, bloqueando meu caminho, eu tropecei e caiu, mas levantei imediatamente e voltei aos meus companheiros. Eu não percebi o que aconteceu com o corpo sobre o qual eu tinha tropeçado. Depois de subir, quando cheguei aos meus companheiros, que estavam entrando no salão do segundo portão, vi uma porta que dava para a direita e imediatamente corri através dela. Eu vi um hall, entrei, e notei as escadas que levam para cima. Já estava escuro, mas a escuridão era iluminada pelo reflexo do fogo em volta de mim. Eu pensei que a minha fuga havia sido observada, como ouvi um grito atrás de mim, mas não foram disparados tiros. Corri para uma galeria onde parte da estrutura de madeira estava queimando e lá fiquei.

Durante esse tempo eu ouvi tiros separados do interior do salão. Depois de algum tempo, eu olhei para baixo a partir da galeria para o corredor e vi um buraco redondo grande, cerca de 6-7 metros (22 pés) de largura, no andar do hall. Neste buraco um grande fogo ardia; suas chamas subiram vários metros acima do nível do chão. Notei também que os soldados estavam levando um homem à beira do buraco. Eu vi esse homem fazendo o sinal da cruz, e então ouvi um tiro, e o viu cair no fogo. Devo acrescentar que este tiro foi disparado de tal forma que o soldado colocou a arma no pescoço do homem e atirou. Depois eu vi muitas dessas cenas. Eu percebi que quando o tiro foi disparado o homem não caiu de uma vez, mas só depois de alguns segundos. Depois de ter visto vários assassinatos desse tipo eu não podia olhar para mais nada, mas ouvi muitos mais tiros e gemidos, que cresceram mais e mais fracos, ou mesmo gritos humanos. Eu supunha que eles vieram daqueles que haviam caído no fogo e ainda estavam vivos. Pelo número de tiros eu tomei a impressão de que todos aqueles que tinham sido trazidos comigo desde o porão do nº 2, da rua Elektoralna foram baleados. Eu fiquei na galeria por mais algum tempo (pelo menos uma hora), até o momento em que o tiroteio e as vozes pararam. Então, despercebido, eu corri através do pequeno gueto na direção da rua Grzybowska, e depois fui a rua Zlota, onde fiquei por um mês.

Tradução: Daniel Moratori (avidanofront.blogspot.com)
Fonte: http://www.warsawuprising.com/witness/atrocities9.htm
Foto 1: Bundesarchiv: Bild 101I-695-0425-09

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Os judeus de Varsóvia no entreguerras - Parte 2/3


Delegados de Wegrow, Grodno, e outras cidades marcham na convenção nacional de Tsukunft, o movimento juvenil  judeu socialista Bund (Varsóvia, 1931).
No período entre as duas guerras mundiais, os judeus poloneses, e especialmente os de Varsóvia, desempenharam um papel central na vida judaica em todo o mundo. Superada apenas por Nova Iorque, no que diz respeito à quantidade de judeus, Varsóvia continha uma vida judaica que era, ao mesmo tempo, tradicional e criativa, religiosamente conservadora e nacionalista. Apesar do intenso movimento na cultura polonesa, os judeus da Polônia se viam antes como parte do povo judeu disperso pelo mundo do que como parte integrante daquela sociedade.

De 1918 em diante, Varsóvia foi a capital de uma Polônia independente, abrangendo áreas que por mais de um século haviam sido ocupadas por potências estrangeiras decididas a solapar o nacionalismo polonês. Sob ocupação russa, Varsóvia tinha sido o alvo principal de uma política que visava a erradicar qualquer vestígio de nacionalismo polonês. Não obstante, e a despeito dos esforços russos, a geração mais jovem permaneceu politicamente orientada e nacionalista. Varsóvia foi também palco de impulso e desenvolvimento econômico. 

Assim como na Europa Ocidental, empreendedores judeus desempenharam um papel desbravador em bancos, ferrovias, finanças internacionais e novas indústrias. Famílias judaicas tiveram considerável participação no estabelecemento de uma economia capitalista e sua expansão por toda a Polônia. Muitos desses pioneiros econômicos eram rodeados de assistentes e agentes leais, que em sua maioria eram judeus. A semelhança dos judeus da "parte alta" da cidade de Nova Iorque, alguns membros dessas famílias de destaque se converteram ao cristianismo quando ainda jovens, enquanto outros, da segunda ou terceira geração, se assimilaram na aristocracia e burguesia polonesas. Outros permaneceram na comunidade judaica. 

O impacto desses indivíduos e famílias se estendeu ao desenvolvimento e progresso de instituições artísticas e culturais, jornalismo e editoras. Na filantropia, judeus contribuíram amplamente para a educação e a fundação de hospitais e instituições públicas de beneficência. Seus generosos donativos permitiram que judeus que pensavam da mesma maneira progredissem na sociedade polonesa, mas seu progresso, no entanto, freqüentemente atenuava seus vínculos, sua utilidade e sua lealdade para com a comunidade judaica. Ainda assim, quando essas famílias estavam em boa situação, seus membros contribuíam generosamente para as necessidades públicas da população polonesa em geral ou dos judeus. Alguns deles — mas de modo algum todos — também eram ativos em questões da comunidade judaica.

O crescimento de Varsóvia como comunidade judaica influente resultou da migração de judeus durante várias gerações. Em 1781, quando a Polônia estava prestes a perder sua independência, havia em Varsóvia 2.609 judeus. Em Praga, um subúrbio da cidade na margem oriental do rio Vístula, a comunidade judaica totalizava 24 indivíduos. No limiar do século XX, em 1897, esta mesma comunidade seria formada por cerca de 219.128 judeus. Ao irromper a Primeira Guerra Mundial, os judeus de Varsóvia constituíam 38% de toda a população da cidade, percentual esse que se tornaria ainda maior quando refugiados e pessoas deslocadas acorreram a Varsóvia durante a guerra. Na república independente da Polônia dos anos de entreguerras, o número de judeus vivendo em Varsóvia cresceu em termos globais, mas declinou em termos relativos. Em 1921, a comunidade judaica abrangia 310.300 pessoas, ou seja, 33% dos 936.700 habitantes de Varsóvia. Em 1939, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, havia em Varsóvia uns 375 mil judeus, e eles compunham 29,1% dos 1.289.000 habitantes da cidade.

Os números por si só não refletem a importância da comunidade judaica de Varsóvia no entreguerras. A Varsóvia judaica não possuía a tradição e a distinção que caracterizavam outras comunidades judaicas da Polônia, tais como Cracóvia, Lublin e Lvov, onde judeus haviam vivido por gerações. Varsóvia não tinha prédios antigos e nem a aura de gloriosas lembranças, vestígios de um passado influente não havia sinagogas antigas como a de Cracóvia; nenhuma que tivesse sido lar de eruditos mundialmente famosos. No cemitério judeu de Varsóvia, a lápide mais velha datava de 1807. Havia, não obstante, amplas oportunidades de recém-chegados causarem impacto, e tinha-se a sensação de uma comunidade que ia adquirindo personalidade própria. As fachadas relativamente novas de Varsóvia e o seu rápido crescimento eram fontes de receptividade. Habitantes novos e visitantes casuais podiam se sentir bem-vindos. A mudança social predominava sobre a estabilidade.

Devido, em parte, à rejeição pela sociedade polonesa desses assimilacionistas em potencial, idéias que vinham do leste — regiões da Rússia e Lituânia, onde a cultura nacionalista judaica já havia adquirido variadas formas de organização e maturidade ideológica — iam ganhando influência cada vez maior na comunidade dos judeus de Varsóvia. A vida judaica caracterizava-se por um grande número de partidos políticos, instituições parcialmente coincidentes, debates públicos violentos e rixas particulares. 

Três movimentos judaicos politicamente realistas e perspicazes emergiram às vésperas da independência da Polônia: o sionismo, com suas várias orientações; o Bund e suas organizações; e o Agudath Israel, que unia elementos ortodoxos, hassídicos e mitnaged (opositores ortodoxos do hassidismo) do judaísmo polonês. Todos os três movimentos viam os judeus como uma nação distinta, separada dos poloneses, muito embora suas definições divergentes sobre o que constituía uma nação distinta levassem por vezes os três grupos a uma amarga rivalidade.

O movimento sionista na Polônia adotou dois princípios fundamentais: o reestabelecimento de judeus na Palestina e os direitos fundamentais de judeus vivendo na Diáspora. Os sionistas acreditavam que um renascimento nacional na Palestina também teria de prover os judeus na Diáspora, fora da Palestina, durante sua aparentemente longa estada na Europa, com o sentido da unidade nacional. Na Polônia, o sionismo empreendeu no âmbito da sociedade judaica em Diáspora uma intensa atividade como "trabalho para o presente", tendo como meta futura a colonização na Palestina (muito embora no período de entreguerras o Hechalutz e outros movimentos juvenis sionistas estivessem ativamente engajados em incentivar a imigração na Palestina como uma "atividade dos dias de hoje"). O hebraico foi ressuscitado como língua viva, mas o ídiche continuou sendo a língua de trabalho do movimento. 

O Bund, a Federação Geral de Trabalhadores Judeus dedicada ao nacionalismo judeu laico, usava o ídiche tanto para organizar estes trabalhadores numa estrutura separada quanto para disseminar a idéia do socialismo entre os seus falantes. O Bund não tardou a advogar direitos nacionais baseados em autonomia nacional e cultural: o direito do indivíduo, ou grupo de indivíduos, de conservar, num Estado especificamente socialista, uma língua, cultura e vida social separadas. 

O Bund trabalhava em escala nacional por toda a Polônia, e suas principais conexões eram freqüentemente baseadas em classe. Assim, preferia trabalhar Com partidos socialistas locais não judeus do que com organizações judaicas burguesas. Ao mesmo tempo, muitos judeus poloneses convergiam para um partido socialista separado, não com base internacional e sim, nacional judaica Esse fenômeno era desconhecido na Europa Ocidental, tuas tornou-se um movimento de força considerável e de impressionantes realizações na Polônia do entreguerras.


Reunião ao ar livre da Organização da Juventude bundista,Varsóvia, junho de 1932.
O Agudath Israel - o partido ortodoxo que incluía grandes grupos hassídicos — adotou certos aspectos de organização política moderna semelhantes aos de outros partidos políticos, não obstante sua vinculação à tradição e sua meticulosa observância das normas judaicas. Esses aspectos incluíam representação em instituições de governo e limitadas reformas no sistema educacional. O Agudath Israel possuía uma imprensa, líderes políti-cos e um sistema de patronagem próprios. Os judeus ortodoxos, em sua maioria, rejeitavam o sionismo porque este buscava o retorno dos judeus à sua terra através de esforço humano, e não por decreto divino. O Agudath Israel, quietista em sua orientação religiosa, só acreditava no renascimento da nação judaica como um ato divino.

 Apenas um pequeno grupo desproporcionalmente influente de judeus religiosos, organizados no movimento Mizrachi, punha-se ao lado dos sionistas laicos. Advogavam o sionismo e eram opostos ao Agudath Israel, e também se opunham aos sionistas laicos, com os quais, entretanto, trabalhavam de perto e cooperativamente, buscando estabelecer um caráter religioso e cultural nos esforços sionistas.

 Os princípios orientadores da ideologia política adotada pelos judeus poloneses no período de entreguerras admitiam que o judaísmo era não só uma religião definida por seus rituais, crenças e práticas, mas também que os judeus constituíam uma entidade nacional, buscando política, educação e cultura nacionalistas.

Em Varsóvia, localizavam-se sedes de partidos políticos, representantes e instituições estatais; o centro administrativo de organizações de beneficência e auto-ajuda; o eixo de vários tipos de redes educacionais e culturais, grupos de escritores, e admiradores das línguas ídiche e hebraica. Jornais e livros eram, em sua maioria, publicados em Varsóvia, para serem distribuídos através da Polônia e enviados para o exterior. 

Poder treinar para as profissões liberais era uma atração que levou muitos estudantes judeus de Varsóvia e de outras partes do país a estudar em escolas de ensino superior. Em alguns anos, os judeus, inclusive muitas mulheres, constituíam uma substancial percentagem dos formados de todas as escolas secundárias e universidades. Diplomados judeus procuravam as universidades para poder continuar seus estudos de medicina, farmácia, direito, humanidades, química, língua e literatura polonesas. Mas o percentual de judeus na educação anos de superior entrou em constante declínio no período entreguerras. Nos 1921-22, judeus formavam 24,6% de todos os estudantes; em 1925-26, 20,7%; em 1934-35, 14,9%; e em 1937-38, 9,9%.

Nos últimos anos de independência polonesa anteriores à Segunda Guerra Mundial, o número de estudantes judeus preencheu o limite estabelecido por quotas, uma política nunca formalmente autorizada mas executada na prática. Levando em conta que a percentagem de estudantes de áreas urbanas era bem maior que a de estudantes de distritos de províncias, parecia que o número de estudantes judeus decrescia conforme a camada da população a que pertenciam.

 Estudantes judeus organizaram sua própria associação e fundaram a Casa dos Acadêmicos, um pensionato para trezentos estudantes e uma sala de reuniões para muitos outros. De 1928 até irromper a guerra, o historiador judeu e líder sionista Yitzhak Schiper foi seu último diretor. Instituição abrangente de estudantes judeus e organizações judaicas, cuidava não só da defesa de estudantes atacados por grupos malévolos de jovens poloneses, mas também da promoção de atividades culturais e eventos esportivos.

Em todos os níveis, até mesmo nas escolas independentes, os estudos eram feitos na língua polonesa. Alguns erroneamente consideram esse extenso uso do polonês, especialmente como idioma cotidiano dos jovens, como indício de uma assimilação que se espalhava entre os judeus em geral e particularmente entre os de Varsóvia. A assimilação, porém, não atraía os judeus. Ao contrário, ela estava em declínio na Polônia de entreguerras. Judeus falavam polonês e eram ávidos leitores de literatura polonesa e de autores poloneses, que freqüentemente retratavam judeus de maneira muito positiva. Muitos jovens também apoiaram a luta da Polônia pela independência. Ao mesmo tempo, no entanto, estavam conscientes do seu judaísmo, filiavam-se a organizações judaicas, e pensavam em termos do futuro judaico. Diferentemente de muitos judeus alemães, que se consideravam alemães, os judeus poloneses absorviam a cultura polonesa mas não se assimilavam nela. Em sua maior parte, a assimilação de judeus de fala Polonesa não era mais comum do que a assimilação dos hassídicos falantes de inglês do Brooklyn.

 A contribuição dos judeus e daqueles de origem judaica à literatura polonesa, particularmente à poesia, no período de entreguerras foi característica. Ao contrário dos romancistas judeus americanos no período pós-Segunda Guerra Mundial, tais como Saul Bellow, Philip Roth e Bernard Malamud, poucos dos principais escritores de origem judaica tratavam de temas judaicos, e alguns até s  converteram ao cristianismo. Mas mesmo aqueles que usavam temas judaicos retratavam judeus como figuras fora do seu próprio mundo espiritual. 

A despeito da instabilidade política e da debilidade econômica, a cultura judaica em Varsóvia possuía uma vitalidade única. Varsóvia era o maior e mais importante centro de atividades criativas e culturais tanto em hebraico quanto em ídiche. O hebraico, a língua sagrada, lembrava os dias em que os judeus estavam cm seu próprio país, o tempo da maior criatividade do povo judeu. Era a língua do Livro e de oração — mas o hebraico se tornara uma obscurecida lembrança nas mentes e línguas dos judeus. O renascimento do hebraico: Diáspora, no século XIX, foi acompanhado por tentativas de renovar a língua na literatura e em periódicos. Embora popular nos círculos intelectuais, não cativou as massas para se tornar uma língua do povo. Só quando o hebraico foi adotado pelo movimento sionista e se tornou parte essencial do renascimento nacional e social, transformou-se de um símbolo em uma língua viva. Os sionistas foram os principais advogados da língua hebraica. Em contraste, o Bund se opunha ao hebraico, e certos elementos do Agudath Israel eram contrários à laicização da língua sacra.

 Na Diáspora, especialmente na Polônia, o ídiche continuou sendo a língua do povo. No entreguerras as línguas judaicas floresceram na Polônia, Varsóvia em particular, mesmo quando estavam sendo abandonadas na União Soviética e no Ocidente. Fora dos círculos de imigrantes nos Estados Unidos, o uso das línguas diminuiu. Na última década do século XIX, o ídiche atingiu a maturidade e, no século XX, literatura, jornais e outras publicações se desenvolveram cultural e comercialmente.

Os escritores e poetas, jornalistas e editores de Varsóvia não eram, em sua maioria, naturais da cidade, e sim a ela atraídos de distantes distritos do leste, da Lituânia e das pequenas cidades provinciais da Polônia. O crescimento e a consolidação de Varsóvia como um eixo cultural deveu-se não só ao fato de sediar a maior população judaica urbana da Europa, mas também às suas estimulantes tendências social-nacionalistas e seus mutáveis estilos de vida.

Na Polônia independente havia uma abundância de diários e semanários judeus, a maioria em ídiche, mas alguns em polonês e hebraico. Em acréscimo à imprensa comercial, também eram publicados jornais diários de partidos. Nos anos que precederam de pouco a Segunda Guerra Mundial havia em toda a Polônia, de acordo com o YIVO(1), 230 jornais em ídiche, incluindo 27 diários, 100 semanários, 24 publicações quinzenais e 58 periódicos mensais. Tais números, evidentemente, incluíam publicações de vida curta assim como per-manentes. A maior parte dos jornais principais apareciam em Varsóvia, onde editoras também encontravam mercados para obras originais de conhecidos escritores ídiches, bem como de traduções de ficção e não-ficção.

Mais que qualquer outro meio criativo, o teatro judeu falava às massas, e suas produções despertavam emoções intensas entre devotados freqüentadores. Historiadores do teatro creditam a Abraham Goldfaden a paternidade do teatro judeu, com sua criação de uma companhia em lasi, na Roménia, em 1874. Em 1885, quando Varsóvia se encontrava na esfera russa, Goldfaden levou seu teatro judeu alemão à Varsóvia e ali atuou por dois anos (a produção de Shulamith foi recebida com muito entusiasmo). A cidade recebeu também ocasionais apresentações de trupes de atores que interpretavam num dialeto alemão semelhante ao ídiche, já que peças em ídiche eram proibidas. O teatro judaico tinha de enfrentar não só as restrições impostas pelas autoridades russas como também tabus internos da comunidade em relação à língua, temas para espetáculos teatrais e o recato.

 Judeus inclinados à assimilação consideravam o teatro judaico um retrocesso, que distanciava os freqüentadores de teatro judeu do teatro de arte polonês. Na realidade, fontes históricas assinalam que o desenvolvimento da música e do teatro em Varsóvia no século XIX devia muito ao patrocínio de judeus ricos e a públicos judeus.

 Em 1905, a fundação da Companhia Literária trouxe aos judeus de Varsóvia um teatro ídiche permanente oficialmente sancionado. A companhia valia-se principalmente das obras dramáticas de Jacob Gordin e das interpretações de vários atores e atrizes excepcionais, entre eles a brilhante Esther Rachel Kaminska, que encantou e fascinou públicos judeus na Polônia, Rússia e Estados Unidos. Segundo conhecedores de teatro, esta atriz era especialista em retratar as personalidades e as vidas das heroínas de um modo que deixava o público encantado. As peças eram, em geral, lacrimejantes dramalhões, sobrecarregados de instrução moralista. Era um estilo que interessava um público confiante de que seu destino estava em grande parte sob seu próprio controle.

Muitos escritores, especialmente I. L. Peretz, mostraram um acentuado interesse no desenvolvimento do teatro ídiche. Formou-se unia sociedade para estimular o teatro, e levantaram-se fundos para dar apoio a teatro de alto nível artístico, com Peretz e Sholem Asch ativos na coleta de fundos. Embora nem sempre seus esforços fossem bem-sucedidos, o teatro manteve uma reputação de qualidade através da apresentação de obras de autores bem conhecidos.

O teatro ídiche de Varsóvia eram famoso pelo seu público entusiasta. Atores e companhias itinerantes, dos Estados Unidos e outros países, eram visitantes freqüentes. Em 1917, a trupe de Vilna visitou Varsóvia, introduzindo um nível mais alto de espetáculo teatral com seu tratamento moderno do drama ídiche. A trupe obteve grande sucesso em Varsóvia, e alguns dos seus membros lã permaneceram para estabelecer o que se tornou o mais destacado teatro da cidade no período de entreguerras.


A influencia dos judeus de Varsóvia, no período entre as guerras, também aumentou em decorrência da ruptura e declínio de status sentido pelos judeus sob o regime bolchevista na U.R.S.S., e do honor que despencou sobre os judeus da Alemanha com a ascensão do nazismo em 1933. Na Europa, o período de entreguerras começou com grandes esperanças e expectativas geradas pela legitimação da autodeterminação nacional e pelo reconhecimento dos direitos de minorias nacionais prometido pelo presidente Woodrow Wilson, e pela promessa proclamada na Declaração Balfour de 1917, que afirmava: "O governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento de um lar nacional judeu na Palestina".

Porém, quanto maiores às esperanças, tanto maiores as decepções. Essa época viu a escalada do nacionalismo agressivo, o crescimento do totalitarismo e a predominância de um não contido racismo anti-semita. Nessas duas décadas de ingênuas expectativas e esperanças de curta duração tornou-se Varsóvia, com sua diversificada composição e seus contrastes, o foco de uma ilimitada e ampla atividade judaica. Naqueles dias de confusão à beira do abismo, ela foi virtual-mente a capital do povo judeu, especialmente devido ao isolamento e à desconexão dos judeus soviéticos.

 Muitos — talvez a maioria — dos economistas, líderes políticos, escritores, artistas, jornalistas, editores, historiadores, líderes, rabinos, eruditos talmúdicos e hassidim que alcançaram proeminência em Varsóvia no entreguerras não eram naturais da cidade, mas haviam chegado lá em resposta à sua atração magnética e a seu ambiente promissor, da mesma maneira como outros judeus eram atraídos a Paris ou a Nova Iorque. Muitos judeus chegaram a Varsóvia vindos das províncias, e muitos outros da fronteira oriental da Polônia e de partes da Rússia e Lituânia. Judeus que chegavam de cidades do leste encontravam forte oposição de círculos poloneses, que encaravam a chegada dos "Litvaks" (judeus lituanos) como uma invasão de estranhos que espalhavam o uso da língua e cultura russas e eram responsáveis pela "russificação" dos judeus locais, assim como os judeus de Nova Iorque deploravam a chegada de imigrantes europeu-orientais, falantes de ídiche entre 1881 e 1920. Considerável critica dos "Litvaks" também provinha de membros mais estabelecidos da comunidade, que ridicularizavam dialeto ídiche dos recém-chegados. Varsóvia, no entanto, servia não só de refúgio para proscritos como dava também aos que chegavam às suas portas a sensação de lar, provendo-os de amplas oportunidades para participar da vida cultural e comunitária. Pessoas comuns, vagueando em direção a Varsóvia ou que escapavam para a cidade vindos de longe, aclimatavam-se rapidamente aos costumes da cidade e da comunidade judaica local, tornando-se, sob todos os aspectos, verdadeiros cidadãos de Varsóvia.


Em sua saga A Família Moskat, Isaac Bashevis Singer revelou os pensamentos de um rabino de cidadezinha que veio a Varsóvia:
Rabi Dan Katzenellenbogen compreendeu agora o significado completo da frase talmúdica "Em cidades grandes a vida é difícil", mas Varsóvia tinha outros méritos. Aqui encontrou livros que não podia encontrar em sua cidadezinha de Binuv, ou mesmo em Lublin. A cidade era um lugar de estudo: onde quer que fosse, havia sinagogas, casas de estudo, shtieblach, banhos rituais. Coletores faziam as rondas e recolhiam as taxas semanais para ieshivot. Dos héders e escolas religiosas ouve-se a voz de escolares, por cuja própria vida o mundo existe. É verdade que aqui há também muitas coisas profanas, coisas modernas: homens de barba raspada, mulheres que conservam seu cabelo natural, estudantes que estudam nos gymnasia, toda espécie de sionistas, grevistas e simples ralé, que abandonaram seu judaísmo. Mas Rabi Dan não levou isso em conta. Gradativamente foi se tornando conhecido pelos eruditos de Varsóvia e eles vieram lhe dar as boas-vindas. Em sua própria cidadezinha, Rabi Dan não recebia um décimo do respeito que recebeu aqui, na estranha Varsóvia: aconteceu exatamente como estava escrito: "Sai da tua terra ... e te engrandecerei o nome."
A oportunidade de ingressar na vida judaica não se restringia apenas aos judeus religiosos. Um destacado membro do Bund socialista, Bernard Goldstein, pinta outra espécie de quadro, ao retornar a Varsóvia de suas viagens para o leste ao fim da Primeira Guerra Mundial:
Atraído ao vasto público dos adeptos do Bund ... fui ao "Clube" ... Era como uma colméia. Já anoitecia, e o clube estava apinhado. Estavam por toda parte, e em todos os cantos. Em todas as salas havia reuniões, o coro estava ensaiando, a sala de leitura, cheia de gente; mal se podia passar pelos corredores. Diversas pessoas me olhavam. Reconheci velhos amigos do trabalho clandestino e amigos novos, jovens, rostos irreconhecíveis ... uma das minhas primeiras tarefas foi ajudar a greve de funcionários da comunidade judaica e professores de suas escolas. Já tinham uma organização profissional, mas eram típicos trabalhadores de colarinho branco ("proletariado dos punhos engomados", como eram chamados) e completamente incapazes de conduzir uma greve.
 Nos subúrbios de Varsóvia, bairros e ruas inteiras eram habitados principal-mente por judeus, com maior concentração no setor norte da cidade. Em certas ruas, todos os prédios eram ocupados por judeus, excetuando o zelador. Judeus laicos e religiosos viviam lado a lado como vizinhos, freqüentemente pertencendo à mesma família. Em muitas famílias, o pai cumpria os preceitos religiosos e seguia todas as regras tradicionais de vestuário. A mãe usava peruca e fastidiosamente mantinha sua cozinha pura de acordo com a dietética judaica. Alguns adolescentes seguiam os passos dos seus pais, mas outros, que tinham "errado o caminho", tornavam-se sionistas, socialistas e até comunistas. Jovens devoravam avidamente ficção, livros teóricos, periódicos e jornais proibidos, fumavam no shabat e enchiam seus lares com intermináveis e ruidosas discussões políticas.

 A vida religiosa dos judeus de Varsóvia expressava-se no seu estilo de vida no lar, no cumprimento dos mandamentos, nas muitas instituições e serviços, tais como banhos rituais, os preceitos dietéticos judaicos, a rede de rabinos e dayans (juízes) e as muitas casas de orações. Nas sinagogas e shtiebels, os judeus religiosos e tradicionais se reuniam para rezar nos feriados religiosos, no shabat e dias úteis, e para intermináveis horas de estudo e discussão com amigos. Nos anos 30, havia trezentas dessas casas de oração, e quase todos que lá iam tinham um lugar cativo. Nos feriados, especialmente Rosh Hashaná e Yom Kipur, o estilo do culto era considerado muito importante e cantores com voz proeminente eram muito solicitados. A grande sinagoga da rua Tlomacka, que na realidade evoluía para tornar-se um dos mais esclarecidos locais de culto, atraía devotos tendentes à assimilação. Introduziram-se certas reformas, tais como proferir sermões em polonês, quando isso foi permitido pelo governo.

 As classes instruídas e os assimilacionistas estavam convictos de que, para terem qualquer influência, teriam de introduzir mudanças no sistema educacional, no traje e no estilo de vida, mas deveriam a todo custo abster-se de interferir no rigoroso ritual religioso. Assim, não estavam dispostos a instituir um judaísmo "reformista" ou "conservador", e a vida religiosa permaneceu ortodoxa. Mesmo nas sinagogas mais esclarecidas não foram introduzidos órgãos nos serviços religiosos, já que isso era considerado não-tradicional. Por outro lado, porém, serviços que incluíam um coro masculino foram considerados inteira-mente aceitáveis, e um componente importante do serviço era obviamente a música litúrgica vocal do cantor de sinagoga. Na grande sinagoga, oficiavam freqüentemente cantores bem conhecidos, como Gershon Sirota, que morreu no gueto de Varsóvia, e Moshe Kossovicki.

Os shtiebels hassídicos, além de serem casas de oração e estudo, eram também usados como alojamentos para os seguidores do rabino hassídico. As rezas no shtiebel eram altamente emocionais. Lá era palco de deliberações sobre literatura hassídica, homilias proferidas em dias  (Shavuot), e espontâneas cantorias e danças. Dentre as seitas hassídicas de Varsóvia, o grupo mais poderoso era o dos hassidim de Ger. A sede rabínica ficava na cidadezinha de Ger, não longe de Varsóvia. O local inteiro vivia sob o patrocínio da corte do rabino, e acorriam ao lugar milhares dos seus seguidores, especialmente em dias festivos e feriados. O Admor(2) de Ger, Rabi Abraham Mordecai Alter, afirmava que, a fim de combater a secularização e erosão da integridade religiosa dos judeus, era necessário mover-se em novas direções. A fundação do Agudath Israel e o papel dominante exercido pelo Admor e seus seguidores marcaram realmente a adoção de métodos até então desconhecidos por um campo religioso ortodoxo. Entre os rabinos hassídicos sediados em Varsóvia figurava Klonimus-Kalmish Schapira de Piaseczno, que deixou uma coleção dos seus sermões dos dias de gueto, publicada sob o título Fogo Sagrado.

Transcrição: Daniel Moratori - avidanofront.blogspot.com 
Fonte: GUTMAN, Israel - Resistência. Ed. Imago, 1995, pg 37-47


(1) YIVO — em idiche, Yídisher Visenshoftlihher Institui (Instituto para Pesquisa Judaica), fundado oit Vilna, em 1925, para o estudo científico da vida judaica e com especial ênfase nos judeus cai: Europa Oriental e seus descendentes falantes de idiche em todo o mundo. Ao irromper a Segunda Guerra Mundial, sua sede foi transferida para Nova Iorque (N. do T.).



(2) Admor (iniciais das palavras hebraicas Adonenu Morenu ve-Rabbenu, ou seja [não literalmente] “Nosso Mestre e Senhor") — titulo em geral dado, especialmente em contextos hebraicos, a rabinos hassídicos (N. do T).  


Ver também:
Os judeus de Varsóvia no entreguerras - Parte 1/3 Parte 2/2, Parte 3/3
A extensa discriminação aos judeus orientais(Ostjuden) pelos judeus-alemães - Link