sexta-feira, 13 de abril de 2012

A Croácia e o conhecimento do Vaticano - Parte 2



   Em 30 de agosto de 1941, o núncio papal na Itália, monsenhor Francesco Borgongini Duca, escreveu para Maglione, retratando uma curiosa conversa com o adido cultural croata no Quirinal e dois franciscanos croatas. Eles falavam sobre os 100.000 ortodoxos convertidos ao catolicismo. O núncio indagou sobre os protestos que ouvira a respeito de "perseguições infligidas pelos católicos aos ortodoxos". O adido, "com muitos acenos de cabeça dos padres", tentou desmentir essas histórias, insistindo em que, "como o papa continua a dizer ao clero e aos fiéis, os católicos devem seguir os ensinamentos de Nosso Senhor e pro- pagar a fé por meio da persuasão, não da violência"(30).

   No mês seguinte, o embaixador especial de Pavelic, padre Cherubino Seguic, foi a Roma para descobrir o que se dizia sobre o regime e acabar com os "rumores" desfavoráveis. Em suas memórias defensivas, ele se queixa da "insinuação de calúnia" que se ouvia em Roma sobre a Croácia e garante que "tudo é distorcido ou inventado. Somos apresentados como um bando de bárbaros e canibais". Ele conversou com Giovanni Montini (o futuro Paulo VI), que "pediu informações detalhadas sobre os acontecimentos na Croácia. Falei tudo. Ele ouviu com muito interesse e atenção. As calúnias haviam chegado ao Vaticano e deviam ser denunciadas de uma maneira convincente" (31) . Portanto, as atrocidades — ou "calúnias" — eram do conhecimento comum em Roma no verão de 1941. A Santa Sé tinha canais pelos quais Pacelli podia verificar tudo e influenciar os acontecimentos.

   O delegado apostólico Ramiro Marcone, escolhido por Pacelli como seu representante pessoal na Croácia, era um amador que deu a impressão de passar corno um sonâmbulo por toda essa cena sangrenta. Um monge beneditino de 60 anos, ele não tinha qualquer experiência de diplomacia e passara grande parte de sua ida adulta dando aulas de Filosofia no Colégio de Santo Anselmo, em Roma. Sua área de atuação era o claustro e a sala de aula. Seu tempo na Croácia foi consumido em grande parte no comparecimento a cerimônias, jantares e desfiles públicos, sendo fotografado sempre ao lado de Pavelic. Era evidente que fora escolhido para apaziguar e encorajar.

Pavelic com ol arcebispo Stepinac
   Os equivalentes diplomáticos de Marcone, do lado croata, eram Nicola Rusinovic, um médico que praticava num hospital romano, e seu planejado substituto, um camarista papal no Vaticano, príncipe Erwin Lobkowicz (de origem boêmia). Esses arranjos eram semi-secretos, já que a Santa Sé ainda mantinha oficialmente relações diplomáticas com o governo real iugoslavo no exílio. Em março de 1942, apesar da abundância de provas apontando para os massacres, a Santa Sé prometia relações oficiais aos representantes croatas. Montini disse a Rusinovic: "Recomende gentileza a seu governo e aos círculos governamentais, pois assim nossas relações vão se consolidar. Desde que vocês se comportem de maneira apropriada, a forma das relações vai se definir espontaneamente" (32) . Em 22 de outubro de 1942, Pacelli encontrou o príncipe Lobkowicz em audiência. Segundo o príncipe, Pacelli, "em sua atitude habitual de extrema benevolência", disse que "esperava poder em breve me receber em circunstâncias diferentes"(33).

   Enquanto isso, um pedido de socorro aos judeus perseguidos na Croácia foi enviado à Santa Sé pelo Congresso Mundial Judaico e a comunidade israelita suíça, por meio do monsenhor Filippe Bernadini, o núncio apostólico em Berna. Num memorando substancial, datado de 17 de março de 1942, menos de dois meses depois da Conferência de Wannsee, em que foi delineada a Solução Final, Os representantes das duas organizações documentaram Perseguições aos judeus na Alemanha, França, Romênia, Eslováquia, Hungria e Croácia. Queriam em particular que o papa usa-se sua influência nos três últimos países, ligados à Santa Sé por fortes vínculos diplomáticos e eclesiásticos - na Eslováquia, por exemplo, um padre católico ocupava no momento a presidência. A parte sobre a Croácia dizia o seguinte: "Milhares de famílias foram deportadas para ilhas desertas ou encarceradas em campos de concentração todos os homens judeus foram enviados para campos de trabalho forçado. tendo de escavar esgotos, o que acarretou a morte de muitos. (...) Ao mesmo tempo, suas posas e filhos foram enviados para outro campo, onde também estão sofrendo terríveis privações'''(34).

   O memorando, cujo manuscrito está nos Arquivos Sionista em Jerusalém, foi publicado por Saul Friedlãnder, em sua coletânea de documentos sobre Pacelli e o Terceiro Reich. Em °ui: de 1998, Gerhard Riegner, um signatário sobrevivente do memorando, revelou em suas memórias publicadas, Ne jamais désesesperer(35)", que o Vaticano o excluíra dos onze volumes de documentos do tempo de guerra liberados - indicando que, mais de meio século depois da guerra, o Vaticano ainda não se mostrava disposto a confessar o que sabia sobre as atrocidades croatas e os primeiros estágios da Solução Final, e quando soube.

    Os três chefes da secretaria de Estado do Vaticano — Maglione, Montini e Tardini — indicaram várias vezes que tinham conhecimento dos protestos e pedidos de socorro, mas suas entrevistas com Rusinovic e Lobkowicz seguiam, como Falconi observou pela documentação disponível, um padrão invariável de "ataque simulado, escuta paciente e generosa rendição". Como não podia deixar de ser, os diplomatas croatas secretos no Vaticano estavam mais do que satisfeitos com a maneira pela qual os interrogatórios eram realizados: "Esclareci tudo, desmascarando a propaganda inimiga", escreveu Rusinovic, depois de uma reunião com Mondni. "Sobre os campos de concentração, expliquei que seria melhor se ele pedisse informações à delegação apostólica em Zagreb. (... ) Jornalistas estrangeiros foram convidados a visitar os campos de concentração e... ao irem embora, declararam que os campos tinham perfeitas condições de habitação e satisfaziam os requisitos de higiene." No final da entrevista, quando Rusinovic comentou que havia agora cinco milhões de católicos no vais, Montini disse: "O Santo Padre vai ajudá-los, pode ter certeza" (36).

 Sacerdote croata no trabalho de conversão forçada dos sérvios ortodoxos ao catolicismo.  


   Além disso, pode-se constatar que o Vaticano sabia da verdadeira situação na Croácia, no início de 1942, por uma conversa que Rusinovic teve com o cardeal francês Eugène TiSSCralt, um especialista em assuntos eslavos e agora confidente de Pacelli, apesar das restrições que lhe fizera no conclave. Ele disse ao representante croata, em 6 de março de 1942: "Sei com certeza que os próprios franciscanos, como o padre Simic, de Knin, têm participado dos ataques contra as populações ortodoxas, a fim de destruir a Igreja ortodoxa. Assim como vocês destruíram a Igreia ortodoxa em Bania Luka. Sei com certeza que os franciscanos na Bósnia e Herzegovina tem se comportado de maneira abominável o que muito me aflige. Esses atos não devem ser cometidos por pessoas educadas, cultas e civilizadas, muito menos por padres" (37). Durante uma reunião subseqüente, em 27 de maio, Tisserant disse a Rusinovic que, segundo os dados alemães, "350.000 sérvios desapareceram" e "em apenas um campo de concentração há 20.000 sérvios" (38).

    Pacelli, no entanto, nunca deixou de se mostrar benevolente com os líderes e representantes do regime de Pavelic. Uma lista de suas audiências, além das que já foram mencionadas, é significativa. Em julho de 1941, ele recebeu uma centena de membros da força policial croata, tendo à frente o chefe de polícia de Zagreb. Em 6 de fevereiro de 1942, ele concedeu uma audiência a um grupo de jovens do Ustashe em visita a Roma. Recebeu outra delegação de jovens do Ustashe em dezembro do mesmo ano.

    E, em 1943, quando conversava com Lobkowicz, Pacelli "expressou seu prazer pela carta pessoal do nosso Poglavnik [Pavelic]". Depois, na conversa, Pacelli disse que estava "desapontado porque, apesar de tudo, ninguém quer reconhecer o principal inimigo da Europa; nenhuma cruzada militar comum foi iniciada até agora contra o bo1chevismo"(39).

   Mas Hitler não lançara essa cruzada no verão de 1941? Nos tortuosos raciocínios de Pacelli sobre o comunismo, o nazismo, a Croácia e a evangelização católica do Leste, começamos a compreender - embora sem justificar - sua reticência em relação aos massacres croatas.


Notas (enumeradas conforme no livro):
30 - Ibid., p.259
31 - Ibid., p.307
32 - Citado em  Falconi, Silence, p. 333.
33 -  Ibid., p.334.
34 - S. Friedländer, Pius XII and the Third Reich: A Documentation, trad. ingl. (Londres, 1966), p.109.
35 - G. Riegner, Ne jamais désespérer (Paris, 1988), pp. 164-165.
36 - Citado em Falconi, Silence, p. 355.
37 - Ibid., p. 382
38 - Ibid., p. 388
39 - Ibid., pp. 344-346

Transcrição: Daniel Moratori (avidanofront.blogspot.com)
Fonte: CORNWELL, John - O Papa de Hitler - A historia secreta de Pio XII, Rio de Janeiro: Imago Ed., 2000, p. 290 - 293.

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