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domingo, 8 de julho de 2012

Carta revela que Hitler deu proteção um ex-colega judeu





Documento certifica o desejo de Hitler de proteger seu antigo companheiro de armas da política antijudia do regime nazista

Ernst Hess, meados de 1918.
France Presse

Berlim - Uma carta encontrada recentemente revela que Adolf Hitler deu temporariamente sua proteção a um oficial judeu do exército, que lutou com ele na Primeira Guerra Mundial, informou neste sábado a historiadora Susanne Mauss, autora da descoberta.

O documento, datado de 1940 e que leva o selo do chefe das SS, Heinrich Himmler, certifica o desejo de Hitler de proteger seu antigo companheiro de armas da política antijudia do regime nazista.

O "Jewish Voice from Germany" publica uma cópia do documento encontrado por Mauss, membro do comitê de redação desta publicação.

O documento indica que Ernst Hess, então juiz do tribunal de Dusseldorf, "esteve durante a guerra de 1914-1918 na mesma companhia que o Führer e foi provisoriamente o chefe dessa companhia".

Apesar de reconhecer explicitamente Hess como "judeu com quatro avós judeus", a carta enfatiza o desejo de Hitler de que se considere "com benevolência" a demanda de Hess de gozar de tratamento especial.

A carta termina com um convite às autoridades competentes a "deixar em paz" o interessado.

No entanto, segundo a historiadora, a proteção do Führer foi apenas temporária entre 19 de agosto de 1941, a data do documento, e a primavera de 1941, quando Hess foi deportado para o campo de Milbertshofen, perto de Munique.

"O documento se refere ao 'desejo' ('Wunsch' em alemão) do Führer e isso é algo realmente surpreendente", afirmou Susanne Mauss à AFP.

Segundo ela, citar Hitler neste tipo de documento era um fato excepcional.


Mauss encontrou a carta quando estava preparando uma exposição chamada "Advogados sem direitos" sobre a história dos advogados judeus no distrito de Dusseldorf.

Ernst Hess, cuja filha, Ursula, tem agora 86 anos, sobreviveu à guerra e morreu em 14 de setembro de 1983, em Frankfurt. Sua irmã Berta morreu depois de ser deportada.


Fonte: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/mundo/2012/07/07/interna_mundo,311054/carta-revela-que-adolf-hitler-deu-protecao-a-um-ex-colega-judeu.shtml


No Yahoo:
http://br.noticias.yahoo.com/hitler-protegeu-judeu-veterano-primeira-guerra-mundial-200348988.html


Adendo:

Antes de ler a matéria, vamos desmistificar a propaganda antissemita que já está rolando nos meios, como se Hitler adorasse judeus,  pois como sempre, esse pessoal "revi" não tem ao minimo a capacidade de interpretação ou mesmo leitura e usa das manchetes sensacionalistas de tabloides para espalhar suas enlouquecias ideias.

Conforme matéria do Jewish Voice, temos uma parte da noticia contando sobre o assassinado de Berta Hess, e tem a vida de Ernest Hess e os trabalhos forçados:


"...
Ernst Hess foi deportado para Milbertshofen, um campo de concentração para judeus perto de Munique, onde ele foi forçado a labuta sob a vigilância de oficiais da SS. Mais tarde, ele foi designado para o barraca de construção da firma L. Ehrengut como um trabalhador comum, e alojado pela Gestapo em uma "Casa judia" de propriedade do joalheiro Karl Silberthau em Nibelungenstrasse 12. 

A única coisa que ainda proteger Ernst Hess da deportação era o seu "casamento miscigenado privilegiado" de Margarete Hess. Após Ehrengut ser destruído pelas bombas aliadas em 1943, Hess foi designado ao encanador Georg Grau, servindo como um trabalhador forçado até 20 de abril de 1945. 
..."

Pelo visto, a vida dele não foi boa, mesmo com a "ajudinha" de Hitler.

Mais sobre a liberação de pessoas de sangue judeu (muitos durante um certo tempo somente), ver o livro 'Os soldados judeus de Hitler", de Brian Mark Rigg.
Sobre o livro, cuidado com a utilização de certas pessoas com más intensões que citam o titulo de livro como se o exercito alemão fosse cheio de judeus de forma normal, mas não era bem assim. O livro mostra realmente a perseguição que esses "judeus" sofriam, e continuavam sofrendo a cada dia mais até o fim da guerra.


Tradução: Daniel Moratori (avidanofront.blogspot.com.br)
Fonte:
Ver a matéria completa aqui, onde contem todas as informações:
http://jewish-voice-from-germany.de/cms/hitlers-jewish-commander-and-victim/





domingo, 2 de janeiro de 2011

Carta de Grigori Daineka, primeiro tenente na URSS

Soldados alemães no rio Bug na Bielorrússia, 22 jun 1941


4 de setembro de 1942

Sou bielorusso da região de Polessie, circulo de Outubro. Li na Pravda o artigo intitulado: Na terra da Bielorrussia.

Fez-me sangrar o coração. Os alemães chegaram a Rudobielka. Encerraram no clube duzentos e dez habitantes e queimaram-nos a todos. Torturaram Nadia Mikhailovskaia: cortaram-lhe os seios, furaram-lhe os olhos. Lançaram ao fogo a mulher de Samutina

E, na minha aldeia natal de Karpilovka, queimaram num barraco setecentas mulheres e crianças. Assim morreu o doutor Tchernnettski, tão querido do povo. Queimado pelos alemães. E, como é horrivel dize-lo, tambem morreu queimada a minha namorada.

...Quero afirmar bem alto que o nosso povo bielorusso vive. Eis o meu juramento: Nos vingaremos. Dizei aos combatentes: se não matarmos os alemães eles tambem  queimarão as vossas namoradas. Dizei-lhes: se sentirem dificuldades durante a ofensiva, pensem em Helena Grapanovitch, e se sentirão melhor. A mesma dor e o mesmo destino para todos. Hoje a minha dor é grande, mas não perdi a coragem. Sei que avançamos para oeste.

Grigori Daineka

Transcrito por: Daniel Moratori - avidanofront.blogspot.com
Fonte: COELHO, Zeferino - O crime metódico. Ed. Inova Limitada - pg.86-87

domingo, 19 de dezembro de 2010

Carta do Sargento Evgueni Strchurov, sobre os assassinatos na aldeia de Budionovka

18 de outubro de 1942

Budionovka, minha terra natal... diante dos meus olhos surgem imagens familiares: casas brancas escondidas na verdura dos cerejais, ruas retilíneas que descem para o mar. Foi lá que eu nasci, foi lá onde passei a infancia e adolescencia. E eis que os jornais me informam sobre os meus compatriotas. Fiéis às tradições sagradas dos meus avós, os cossacos do Don lutaram corajosamente contra o inimigo. Os alemães martirizavam os cidadãos soviéticos. As bestas sanguinárias mataram uma criança de quatro anos; fuzilaram rapazes e raparigas às dezenas, cujas roupas vendiam ou mandavam para a Alemanha. Os fascistas fuzilaram Catarina Skoroiedova, o velho Saveli Petrovitch Stepanenko, o jovem sapateiro Alexandre Iakubenko, Ludmila Tchukanova, de dezessete anos. Todos são meus conhecidos amigos.

O meu coração está cheio de ódio pelos bárbaros fascistas. O meu único desejo é vingar a morte dos meus amigos de infância  o sangue dos cidadãos russos que imundou as ruas da minha aldeia natal. Basta-me fechar os olhos para ouvir a voz da minha amada, - para ver estender-me os braços, implorando-me socorro.

Evgueni Stchurov

Transcrição por: Daniel Moratori - avidanofront.blogspot.com
Fonte: COELHO, Zeferino - O crime metódico. Ed. Inova Limitada - pg.80

Para entender melhor essa carta, leiam esse artigo que postei:

Extrato do diário de Friedrich Schmidt, o torturador de Budionovka


sábado, 13 de novembro de 2010

Carta de Ivan Dronov, Subtenete do Exercito Vemelho

Salvando o camarada


22 de julho de 1942

Antes da guerra nunca tinha matado ninguem. Horrorizava-me  só de pensar nisso. Tenho vinte e quatro anos. A guerra começou. Quando abati o primeiro alemão disse para mim mesmo: Porque fiz isso? A culpa não é del, mas de seus governantes. Pensava que muitos alemães vieram para nossa terra sem saber o que faziam.

Depois, fui ferido e feito prisioneiro. E só então compreendi por que tinha matado aquele maldito alemão.

Hospital era como os alemães chamavam ao local onde lançavam os feridos e os combatentes soviéticos supliciados.

Era como uma casa da morte; aí torturavam e moíam os prisioneiros de pancada. Os medicos alemães enraiveciam-se conosco: amputavam pernas e braços validos, cortavam-nos a sangue frio. Deliravam quando um russo morria. Riam-se quando a vitima martirizada desmaiava. Aquele canalha selvagem juntava-se na sala e, atirando sobre um homem desarmado, ria a bandeiras despregadas.

Falta-me a força para descrever tudo aquilo. Levaram-se- a tres feridos - para uma sala para nos interrogarem. Primeiro, bateram-me porque minha ferida cheirava mal; recusaram-se a por-me pensos (curativos). Depois  torturaram-me para me obrigar a entregar os meus camaradas. Estes por sua vez tambem foram torurados. Calávamo-nos.

Esmagavam-nos os dedos nas portas, enterravam-nos agulhas debaixo das unhas, batiam-nos violentamente com um pau nos calcanhares, mas tinhamos jurados não falar e aguentamos.

Eu e mais quatro camaradas conseguimos fugir do cativeiro facista. Eis-me de novo na primeira linha, a destruir os vrmes alemães. Já não pergunto porque se matam os alemães. Agora já sei.

Transcrição por : Daniel Moratori - avidanofront.blogspot.com/
Fonte: COELHO, Zeferino - O crime metódico. Ed. Inova Limitada - pg74

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Cartas de soldados alemães, escritas durante a batalha em Stalingrado

“Você é o coronel, querido pai e do Estado-Maior. Você sabe o que significa tudo isto, por isso evita de eu explicar o que poderia ser sentimentalismo.É o fim. Acho que ainda agüentamos uma semana, depois, fecha o cerco. Não quero falar dos motivos a favor ou contra nossa situação. Esses motivos são perfeitamente insignificantes e não tem importância, mas se pudesse dizer qualquer coisa, gostaria de dizer que não devem procurar em nós a razão dessa situação, mas sim em vocês e quem é o responsável por isso tudo. Levantai a cabeça! Você pai, e os que são da mesma opinião, estejam com atenção para não acontecer uma coisa pior à nossa pátria. Que o inferno do volga sirva de aviso. Por favor, não deixem que o vento leve esta lição.”

Fonte: Cartas de Stalingrado, Coleção Einaudi, 1958.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Cartas de soldados alemães escritas durante a batalha em Stalingrado


“Me assustei quando vi o papel. Estamos completamente isolados, sem ajuda exterior. Hitler nos abandonou. Esta carta vai seguir se o aeroporto ainda estiver nas nossas mãos. Estamos no norte da cidade. Os homens da bateria também pensam nisso, mas não o sabem tão bem como eu. O fim está próximo. Hannes e eu vamos à prisão. Ontem vi os russos apanharem quatro homens, depois da nossa infantaria ter recuperado a iniciativa. Não, não vamos para a prisão. Quando Stalingrado cair, você ficará sabendo que nunca mais voltarei”.

Fonte: Cartas de Stalingrado, Coleção Einaudi, 1958.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Cartas de soldados alemães escritas durante a batalha em Stalingrado


“Não sei se voltarei a te escrever mais uma vez, é preciso que esta carta chegue às suas mãos e que fique a saber desde já, para o caso de voltar alguma vez. Perdi as mãos no princípio do mês de dezembro. Na mão esquerda me falta o dedo mínimo, mas o pior é que na direita congelaram os três dedos do meio. Posso pegar um copo com o polegar e o mínimo. Me sinto um inútil. Só quando perdemos os dedos que percebemos para é que servem, mesmo nas coisas mais pequenas. Kurt Hahnke, acho que você conhece, porque iam juntos à escola em 1937, ele tocou a música Passionata num piano, há 8 dias, numa pequena rua paralela à praça vermelha. Não acontece todos os dias, o piano estava literalmente na rua. A casa tinha  sido bombardeada, mas o instrumento, talvez por compaixão, tinha sido afastado e colocado no meio da rua. Cada vez que passava um soldado, tocava um pouco. Em que outro lugar do mundo é que se pode encontrar pianos no meio da rua?” 


Fonte: Cartas de Stalingrado, Coleção Einaudi, 1958.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Carta de uma mãe sobre o tratamento da Gestapo à sua filha capturada





Danae Vagliano, a mãe de uma integrante da resistência francesa, relata a um amigo da família como os nazistas trataram sua filha após a terem capturado.


Quatro dias depois de as tropas alemãs invadirem Paris, em 14 de junho de 1940, e somente algumas semanas depois de conquistar a Holanda e a Bélgica, uma voz solitária, transmitida pela rádio BBC, desde Londres, conclamava o povo francês a não se render sem luta. “A última palavra foi proferida? Deve a esperança perecer? É esta a derrota fnal? Não!”, exclamou. “O que quer que aconteça, a chama da resistência francesa não pode se extinguir e não será extinta.” O locutor era o general Charles de Gaulle, o ex-subsecretário de Guerra francês, que rejeitara enfaticamente o armistício que cedera metade da França ao nazismo alemão. (Ironicamente, o novo primeiro-ministro francês, designado para dirigir o regime Vichy, que colaboraria com os nazistas para governar a França ocupada, era o marechal Henry Philippe Pétain — o “herói de Verdun” —, que defendera seu país com grande afinco durante a Primeira Guerra Mundial.) Movidos pelas palavras de De Gaulle, inúmeros franceses arriscaram suas vidas ao longo dos quatro anos seguintes para subverter o governo Vichy e ajudar os esforços aliados, à medida que se preparavam para a libertação da França, em junho de 1944. Filha de gregos que tinham residência tanto na França quanto na Inglaterra, Elaine Vagliano foi inspirada pelo chamado às armas de De Gaulle e juntou-se à resistência. Depois que os alemães foram expulsos da França pelos aliados, quando era seguro escrever livremente sobre a ocupação, a mãe de Elaine, Danae, escreveu uma longa e emocionada carta a um amigo na Grã-Bretanha, a respeito dos acontecimentos dos últimos quatro anos. Concentrou-se particularmente nas barbaridades dos soldados da Gestapo (a polícia secreta nazista) e na coragem impetuosa de homens e mulheres, incluindo sua flha, que serviram ativamente à resistência.

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Caro sr. Andrews, 

De todo o coração, desejamos agradecer-lhe pela maravilhosa carta que o senhor e a sra. Andrews nos enviaram. Ficamos muito emocionados com sua grande e sincera simpatia. Façam a gentileza de agradecer em meu nome à sua filha por sua querida e bela carta! Espero que uma amiga lhe envie esta correspondência, pois, neste momento, não posso escrever individualmente para cada um! Isso levaria ao menos seis semanas nos correios e gostaria que soubessem os detalhes agora! Agradeçam também à sra. Norman por sua delicada carta e a Ellen Wicks e Florence. Desejo que elas saibam rapidamente o quanto apreciamos a simpatia e a lembrança delas. Mais tarde, escreverei a todas pelo correio comum, uma vez que nem sempre posso incomodar essa minha querida amiga, que faz um ótimo trabalho em Paris. Ela é inglesa, e seu marido é um desses heróis que se encontram “em algum lugar” próximo às linhas de frente. Eles formam um belo casal. Não preciso repetir a todos nossa agonia e sofrimento. Afortunadamente, fomos presos no mesmo dia que nossa filha, embora não no mesmo local. Tivemos a grande sorte de ver Elaine três vezes durante nosso aprisionamento. A primeira, no pátio externo da prisão de Grasse, antes de partirmos para Nice, e as outras duas vezes no quartel-general da Gestapo em Nice ou talvez Cimiez, ao norte de Nice. 

Nos separaram na prisão de Nice e cada um de nós foi jogado numa cela distinta, ao lado de outros três ocupantes. Nenhum assassino ou criminoso inglês seria colocado em lugares tão imundos; cheios de insetos e quase sem comida. Ninguém poderia tolerar tal tratamento por muito tempo e muitos prisioneiros morreram depois de alguns meses. A Gestapo sabia que éramos pró-Inglaterra e partidários de De Gaulle e talvez soubessem que fazíamos trabalho de propaganda. Acho que a verdadeira razão para nossa prisão foi torturar minha filha ainda mais e machucar-nos, a fim de dobrá-la. Fomos espancados diante dela e, embora ela nos adorasse, jamais delatou os nomes de seus companheiros. Mesmo agora posso ver seu pobre rostinho contraído, com duas enormes queimaduras, e com os olhos aflitos. As lágrimas escorriam pela face, mas nada falou. Rezei para que ela não cedesse por causa do amor que sentia por nós. Ela não abriu a boca, pois se tivesse revelado o nome de seus companheiros ou se indicasse a localização de seu quartel-general, a maior parte dos grupos de resistência seria encontrada, torturada e fuzilada. Tudo isso ela me contou, com muita calma e simplicidade, no porão da Gestapo, em Cimiez. 

Sussurramos, pois sabíamos que os alemães nos mantinham todos juntos e tinham microfones no lugar. Isso aconteceu na prisão de Cannes.Ela me falou também o nome da “grande amiga” que a denunciara. 

Elaine era tão fel aos amigos que não podia acreditar nisso, até que viu o testemunho assinado por essa mulher e uma lista de nomes. Também me deram a lista com o nome das pessoas que vieram me ver no domingo e aquela mulher também estava naquele dia! Me recusei a assinar e os denunciei, é claro. Isso me custou quatro dentes, pois o homem da Gestapo pensou que eu pudesse dar detalhes a respeito deles, que fossem ignorados por essa mulher tão vil, embora ela soubesse que eles eram violentamente anti-alemães. Ela, no entanto, traiu aqueles que conhecia. Felizmente, não estava a par das organizações de resistência (seus quartéis-generais) e dos nomes de alguns dos agentes. Ela mencionou aqueles a quem fora apresentada e disse que, por duas vezes, Elaine a enviara com algumas cartas a certos locais. Elaine confava nela, mas jamais lhe falou a respeito de sua “grande obra”. 

Em 25 de julho, minha filha ficou ansiosa, queimou todos os seus papéis e alertou os colegas. (Isso ela me falou na prisão e acrescentou: “Nada podia ser encontrado ou usado contra mim, pois nenhuma prova existia. Foi apenas por meio de Antoinette R.C. que a Gestapo soube que eu enviara aquelas cartas. Ela havia me implorado para que eu salvasse o filho dos alemães e consegui que ele fosse enviado para longe. Essa foi a primeira coisa que Antoinette revelou em seu depoimento e acrescentou (suponho que para impressionar os alemães) que a partida de seu filho fora contra a vontade dela!!!” Então minha filha chorou e me disse: “Oh, mamãe, eu gostava dela! Por que ela fez isso comigo?” Eu poderia ter respondido que Judas existe e que seus seguidores ainda vivem nesta terra. 

Essa mulher terrível está agora na prisão em Cannes desde o final de agosto. Algum dia será julgada. Ela disse ao interrogador francês que havia denunciado minha flha depois de ela (Mme. R.C.) ter sido capturada pela Gestapo, por uma denúncia menor, porque estava “mentalmente cansada” (!) Acrescentou que não fora torturada. Alguns familiares dela dizem: “Pobre Antoinette!” Ela estava tão “mentalmente” cansada! Não é uma boa desculpa, pois Mme. R.C. é uma mulher muito forte e não um delicado botão de rosas! Por causa dela, perdi minha querida, sem a qual nossa casa está vazia. O pobre Stephen é doce, mas é homem e jovem, então, aos poucos, está superando tudo isso. É natural, mas, para Marino e para mim, é diferente. Elaine era a mola propulsora em nossa casa. Era tão cheia de vida, tão pouco egoísta e, para nós, mais do que uma filha – uma amiga que sempre me ajudou e me manteve viva durante esses últimos quatro terríveis anos. Meu marido tornou-se subitamente um homem velho e eu me sinto como se tivesse 100 anos! Jamais esquecerei aqueles dias terríveis, a tortura de minha menina, suas últimas palavras! “Adeus, mamãe querida”, e seu cativante e delicado sorriso. Ela disse à moça em sua cela que estava tão feliz, tão aliviada, por termos sido libertados, mas chorava toda a noite. Não pudemos permanecer em Nice. Em nosso retorno a Cannes, movemos o céu e a terra para tirá-la da prisão. Até mesmo oferecemos suborno, às vezes o dinheiro tenta esses nazistas! Como meu rosto fora cortado e estava bastante machucado, fiquei muito doente ao voltar, por causa de uma toxemia que se instalou e alcançou os olhos. Tudo isso não me incomodava, pois eu continuava pensando em minha querida, sozinha com aqueles nazistas! Continuei a esperar que Elaine retornasse que tudo não passasse de um blefe alemão, que não mais a machucariam, visto que não havia provas (mesmo então, eu não podia acreditar que eles a matariam!). 

O desembarque aconteceu (tudo já acabou, portanto espero poder mencionar isso agora). Ficamos completamente isolados. Não tínhamos luz (apenas quatro velas!), água, comida o bastante e vivíamos em nossos porões – mas estávamos tão entusiasmados! Continuávamos a mencionar como Elaine faria satisfeita. Ela desejava tanto ver todas as nossas bandeiras no alto das casas! As pontes foram destruídas e as estradas, bombardeadas. Nem uma notícia sequer chegava. Esperamos, e Nice foi tomada! Esperamos, mas Elaine não chegou. A polícia sabia a verdade e alguns de nossos amigos também – até que, no dia 22, Stephen entrou chorando e nos falou que Elaine fora fuzilada! Em 3 de outubro, seu corpo foi trazido de volta, pois há uma lei na França que proíbe o transporte de corpos. (Tivemos de enfrentar a polícia, que, finalmente, desistiu e conseguimos ter nossa filha de volta. Foi horrível!) Tivemos de esperar até mesmo por isso! 

Como um soldado, ela regressou em uma carreta de canhão e seu caixão estava coberto por uma bandeira da França. (E ainda está, enquanto jaz em seu túmulo!) Ela não voltou para casa. Foi levada a Mairie e, todas as noites, havia uma guarda de honra a seu redor, com soldados em posição de sentido. No dia seguinte, houve um funeral com honras de Estado tão grandioso que lhe deram tous les honneur e muitas, muitas flores! Todos permanecemos fixos como estátuas de pedra, pois nem ao menos conseguíamos chorar. Cannes tirou-a de nós. Ela foi a heroína deles. “Notre Helen!” (Uma rua próxima da rue d’Antibes foi batizada como “rue Helene Vagliano – Heroine de la Resistance”). A única pessoa a me ajudar foi uma mulher da resistência, quando veio me ver após o funeral de Elaine. Ela lutou ao lado dos soldados e, antes, ajudara a esconder armas. Foi presa, mas escapou por milagre. O marido dela foi aprisionado, torturado e morto. No dia anterior ao funeral de Elaine, ela soube que seu único filho fora morto pelos alemães. Ela me contou tudo isso com bastante simplicidade e, quando tentei consolá-la e dizer-lhe quão corajosa era, ela disse. “C’est affreux, mais je n’ai pas le temps de pleiner!” (É terrível, mas não tenho tempo para chorar!) Vi a angústia em seus olhos! Nos tornamos grandes amigas. Ela pertence ao grupo Les Femmes de France, cuja presidência, como dizem por aqui, é ocupada por mim. Procuramos recolher roupas etc. para as famílias dos membros da resistência; para as famílias ou somente para os filhos das vítimas da Gestapo; e para as famílias dos homens que foram forçados a ir trabalhar na Alemanha. É um bom trabalho, pois essas mulheres são maravilhosas! No Natal, organizamos festas e montamos uma árvore para todas essas crianças, mais de mil; uma para os bichinhos de Elaine (os filhos dos prisioneiros). (Ela batalhou tanto por eles.) E outra para os filhos dos soldados que estão “em algum lugar” nas montanhas. É bom estar ocupada, mas, ao voltar para casa, as feridas se abrem novamente! Pediram-nos que enviássemos para a Inglaterra fotos daqueles que foram mortos pela Gestapo. Tivemos que reunir tudo isso. Em primeiro lugar, fomos à prisão de Mont-feury, em Cannes. Lá, em 14 de agosto, os seguidores de Himmler (um dos quais confessou depois de preso) fizeram uma festa regada a champanhe, então esses Herrenmensch* tiraram seus casacos e foram para o porão. Lá, atiraram em todos os prisioneiros indefesos, incluindo duas garotas de 19 e 20 anos, entre outros. Vimos sangue pelo chão – no colchão (aquele que ocupei em 29, 30 e 31 de julho estava empapado de sangue!). Vimos excrementos revirados e, nas paredes, marcas de mãos ensangüentadas. Em 15 de novembro, fomos a L’ariane, próximo a Nice, onde minha filha fora assassinada! Encontramos o fazendeiro que, por ser o dono daquelas terras, testemunhara tudo. Em 15 de agosto, viu prisioneiros desembarcarem. Viu agentes da Gestapo e os soldados alemães empurrarem esses prisioneiros para o alto da faixa de terra próximo à margem do rio. Ouviu esses brutamontes gargalharem, enquanto aquelas pessoas tombavam indefesas. Às pressas, atravessou a ponte em direção à sua casa. Ali perto, viu duas metralhadoras. Antes de fechar as janelas, viu todos os prisioneiros em fila, de frente para as metralhadoras, logo acima do riacho. Ouviu as armas dispararem três vezes, e pouco depois o som de disparos de revólveres. Mais tarde, um vizinho veio até ele e disse que uma tragédia havia acontecido e os dois correram até a ponte. Viram algo terrível. Corpos de homens e mulheres estavam espalhados por todos os lados. Alguns prisioneiros tentaram escapar e foram cruelmente assassinados e até mesmo chutados enquanto permaneciam prostrados! 

Minha filha não tentara escapar, pois estava deitada de lado. Seu rosto estava coberto de sangue (até mesmo seu lindo cabelo!), e na parte de trás da cabeça havia um enorme buraco feito por um revólver. (Quando foi colocada no caixão, sua pequenina cabeça estava despegada!) Quanto àquelas fotos horríveis, encontramos entre elas uma de minha filha, tirada depois de sua morte! Quando deixou meu quarto, em 29 de julho, às 10h30 da manhã, ela parecia tão leve e alegre. Penteara seu lindo cabelo com cuidado; usava um vestido novo e me perguntou se eu havia gostado! Reconheci apenas o vestido em sua última foto, pois os alemães desfiguraram seu rosto! Tínhamos de ver todo esse horror, pois, desse modo, podemos contar a verdade, sem sermos acusados de exagero. Se, um dia, um homem ou uma mulher na Inglaterra virem essas fotos é preciso que saibam que essa menina ou esse rapaz poderiam ser seus filhos, caso os alemães tivessem vencido a guerra! Esses horríveis assassinatos teriam ocorrido também em suas cidades e vilarejos! Não é preciso cometer exageros na França e, suponho, em todos os países ocupados pelos alemães. 

As pessoas aqui não pedem apenas simpatia. Desejam que acreditem nelas, porque o que sofreram foi verdadeiro! Ouvimos no rádio pessoas fazendo discursos como: “Temos de ser gentis com os alemães depois da guerra.” “Não deve haver ódio!” “Afinal, os alemães são seres humanos!” Posso dizer que não! Não sou uma mulher histérica, enlouquecida de ódio porque minha filha foi assassinada pelos alemães! Eu simplesmente afirma que quem não vive ou viveu em cidades ocupadas por alemães não pode entender o que isso significa! “Seja gentil com os alemães” é algo que fere nossas gargantas!!! Esses alemães não são humanos! Eles votaram em Hitler; não protestaram contra a Gestapo, mesmo em seu país! Gritaram de animação quando ouviram Hitler afirmar, em seus discursos, que desejava ver em chamas cada cidade e vilarejo da Inglaterra! Para eles, mesmo derrotados, a gentileza é uma fraqueza. Quando deixaram as cidades, aqui e em Cannes, atiraram deliberadamente em todas as janelas por que passavam. Nas nossas também, e nos escondemos nos porões! Eles atiraram em civis e incendiaram casas e vilas inteiras. 

Comportaram-se como selvagens. Ainda olhamos por cima dos ombros quando falamos com um amigo e ainda trememos quando a campainha da porta soa alto demais! Os carros alemães vinham com freqüência à nossa casa. Em duas ocasiões, foi para nos levar à prisão. (Na primeira vez, alegaram que meu marido era judeu!!! A acusação era tão absurda que ele logo foi liberado, mas como sofremos até tê-lo de volta.) Numa segunda ocasião, vieram para tomar a casa e disseram que voltariam. Felizmente, no dia seguinte, encontraram algumas casas, próximas à nossa, que serviam melhor a seus propósitos. Tornaram-se nossos vizinhos – por toda parte, ao nosso redor e rua abaixo. Os soldados alemães perambulavam em nosso jardim dia e noite. Cortavam nossas árvores, roubavam nossos frutos, quebravam bancos de pedra e não podíamos reclamar! 

As mulheres alemãs eram igualmente más; costumavam gargalhar diante dos caminhões de prisioneiros! Sei que a dor se espalhou por todos os países. Na Inglaterra, houve bombardeios e todos foram muito corajosos. Deve ter sido horrível e, ainda assim, permaneceram de pé. Todas as honras à Inglaterra. O que os ingleses não sabem, graças a Deus, é o que é ser torturado vagarosamente, estar à beira da morte e ver, por fim, o escárnio ou a felicidade no rosto de alemães que assistem ao seu fim! Minha filha sempre fora chamada de “sale Anglaise” (a inglesa suja) pelos alemães. Ao falar francês, ela apresentava um forte sotaque inglês e isso os enfurecia. Foi por causa de sua formação e educação inglesa que Elaine aprendeu a ter o autocontrole, a determinação e a coragem que a levaram à persistência e ao sacrifício. Eu gostaria que as pessoas na Inglaterra soubessem a seu respeito, e que compreendessem por que ela “se apegou a isso” (seu trabalho) até o último instante! Ela não queria honras ou condecorações, somente a lembrança de seus amigos. Ela me pediu que lhes desse toda a sua coleção de música; e especialmente Bach (uma vez que o sr. Andrews o admira muito). Ela reuniu uma grande quantidade de música antiga! Sobre Sue Harvey, me disse: “Por favor, dê a ela minha pele de raposa cinzenta – caso eu...!" Eu respondi: “Claro que darei – caso...!” Jamais terminamos a frase. 

Em 13 de agosto, ela contrabandeou duas cartas para fora da prisão com a ajuda de um prisioneiro que fora libertado. Uma era para nós, e que loucura! Ela escreveu para nos avisar que, graças às nossas reclamações, os alemães viriam nos buscar para nos deter até o final da guerra. (Não reclamamos de nada, nem vimos nossos amigos ou saímos de casa, mas as pessoas viram nossos rostos no ônibus e falavam a nosso respeito em Cannes.) Felizmente, as estradas foram bombardeadas e os boches não puderam passar. A outra carta foi enviada ao “chefe” dela. Ela escreveu: “Não fique apreensivo, pois jamais falarei!” Quando ele me mostrou a carta, chorou como uma criança. 

O senhor poderia enviar uma cópia de minha carta para Sue Harvey, 46 Godfrey Street, Londres, S.W.3., e dizer que, como ela gostava de minha filha, os detalhes a respeito de Elaine talvez lhe interessem. Eu gostaria de receber notícias dela também, pois era amiga de minha filha. (Por favor, peça a Sue Harvey que mostre esta carta ao tio Bill – tio de Marino.) 

Seria muito trabalhoso se transmitisse alguns detalhes a Ellen e Wicks? Onde está Cliffe? Ele gostava muito de Marino! Ficamos muito tristes ao saber que vocês dois estiveram muito doentes. Que azar! 

Enviamos-lhes nossos melhores votos de Feliz Ano-novo e Saúde. Quando nos veremos? Nossas melhores e mais afetuosas lembranças. 

Danae Vagliano 



P.S. Mamãe está bem e comportou-se como um leão, até mesmo diante dos alemães!! Será que conseguiremos livros? Como esperamos por eles!! 

Por favor, me desculpem estas mal traçadas linhas, mas as lembranças voltam sempre que menciono esses acontecimentos! Espero que a recebam logo, uma vez que conheciam Elaine desde seu nascimento – então, espero que essas coisas sejam do seu interesse.



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Seis semanas depois de Charles de Gaulle  transmitir seu comovente apelo à população francesa, ele foi julgado in absentia por traição à França de Vichy e condenado à morte. Quando Paris foi libertada, mais de quatro anos depois, o general De Gaulle marchou em  triunfo sobre a cidade ao  lado das  tropas aliadas e tornou-se o líder do governo provisório. O marechal Pétain escapou do país semanas depois da chegada de De Gaulle, mas retornou à França em abril de 1945. Ele defendeu sua coalizão com os nazistas como um esforço para salvar a França da destruição (como aconteceu com a Polônia), mas o argumento provou-se pouco convincente, e um Pétain de quase 90 anos  foi sentenciado à morte diante do pelotão de fuzilamento. De Gaulle comutou a pena para prisão perpétua e Pétain morreu atrás das grades em 1951.


Fonte: Cartas do front - Relatos emocionantes da vida na guerra- Andrew Carroll  (Pg.245 - 253)

Cartas de soldados alemães, escritas durante a batalha em Stalingrado


“Amados pais. Se estão lendo esta carta, é porque ainda temos o aeroporto. Tenho certeza que esta  será a última que seu amado filho lhes escreverá. Temos russos por todos os lados e não nos mandam ajuda de Berlim. Lhes tenho uma triste notícia, Granstsau morreu semana passada. Estava ele, eu e mais três andando quando simplesmente caiu no chão com a cabeça aberta. Amados pais, chorei muito ao vê-lo, porque crescemos juntos, lembram-se? Quando éramos crianças, quebrei a perna, ele me levou a casa nas suas costas com a minha perna quebrada. Sinto muito pelos pais dele. Perdi meu único amigo. E aqui haverá o fim. Nosso comandante se matou com um tiro na boca ontem de noite. Nossa moral não existe mais. Mas espero que essa maldita guerra acabe, pouco me importa o que aconteça. Se não receberem mais cartas minhas, vão para Espanha o quanto antes, sabemos que é uma questão de tempo dos russos chegarem em Berlim. Amados pais, após essa guerra, a Alemanha ficará atônita ao saber que o soldado que lhes escreve teve a vida salva por um médico judeu. Estou bem dos ferimentos, mas a cicatriz é enorme e horrível. Amados pais, se cuidem. Se não receberem mais cartas minhas, vão para Espanha, o dinheiro vocês já tem. Logo estaremos de novo conversando com Hilse, nos bom tempos dos dias de sol. Com muita devoção, seu filho querido.”

Fonte: Cartas de Stalingrado, Coleção Einaudi, 1958.

Mais cartas:
http://www.stalingrad-stalingrad.de/stalingrad-feldpostbriefe.htm

sábado, 25 de julho de 2009

Bilhete encontado no bolso da farda de um soldado desconhecido, morto no primeiro ataque a Monte Castelo.


Cemitério dos soldados brasileiros mortos em serviço, localizado em Pistoia, na Itália


"Escuta Deus,
Jamais falei contigo.
Hoje quero saudar-te-: Bom dia! Como vais?
Sabes? Disseram que tu não existe e eu, tolo, acreditei que era verdade.
Nunca havia reparado tua obra.
Ontem à noite da trincheira rasgada por granadas, vi teu céu estrelado e compreendi então que me enganaram.
Não sei se apertarás minha mão .Vou te explicar e hás de compreender.
É engraçado: neste inferno hediondo achei a luz para enxergar teu rosto.
Dito isto já não tenho muita coisa a te contar.
Só que... que... tenho muito prazer em conhecer-te.
Fazemos um ataque à meia noite.
Não tenho medo.
Deus, sei que tu velas...
Ah! É o clarim! Bom Deus, devo ir-me embora.
Gostei de ti, vou ter saudade.
Quero dizer, será cruenta a luta, bem o sabes, e esta noite pode ser que eu vá bater a tua porta!
Muito amigos não fomos é verdade.
Mas sim... estou chorando!
Vê Deus, penso que já não sou tão mau.
Bom Deus, tenho que ir. Sorte é coisa bem rara.
Juro porém que já não receio a morte... "

Fonte: Ass.Nacional dos Ex-Combatentes

sábado, 25 de abril de 2009

Porque a Guerra ? (Cartas entre Einstein e Freud)


I- Carta de Einstein


Caputh junto a Potsdam, 30 de julho de 1932

Prezado Professor Freud,

A proposta da Liga das Nações e de seu Instituto Internacional para a Cooperação Intelectual, em Paris, de que eu convidasse uma pessoa, de minha própria escolha, para um franco intercâmbio de pontos de vista sobre algum problema que eu poderia selecionar, oferece-me excelente oportunidade de conferenciar com o senhor a respeito de uma questão que, da maneira como as coisas estão, parece ser o mais urgente de todos os problemas que a civilização tem de enfrentar. Este é o problema: Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra? É do conhecimento geral que, com o progresso da ciência de nossos dias, esse tema adquiriu significação de assunto de vida ou morte para a civilização, tal como a conhecemos; não obstante, apesar de todo o empenho demonstrado, todas as tentativas de solucioná-lo terminaram em lamentável fracasso.

Ademais, acredito que aqueles cuja atribuição é atacar o problema de forma profissional e prática, estão apenas adquirindo crescente consciência de sua impotência para abordá-lo, e agora possuem um vivo desejo de conhecer os pontos de vistas de homens que, absorvidos na busca da ciência, podem mirar os problemas do mundo na perspectiva que a distância permite. Quanto a mim, o objetivo habitual de meu pensamento não me permite uma compreensão interna das obscuras regiões da vontade e do sentimento humano. Assim, na indagação ora proposta, posso fazer pouco mais do que procurar esclarecer a questão em referência e, preparando o terreno das soluções mais óbvias, possibilitar que o senhor proporcione a elucidação do problema mediante o auxílio do seu profundo conhecimento da vida instintiva do homem. Existem determinados obstáculos psicológicos cuja existência um leigo em ciências mentais pode obscuramente entrever, cujas inter-relações e filigranas ele, contudo, é incompetente para compreender; estou convencido de que o senhor será capaz de sugerir métodos educacionais situados mais ou menos fora dos objetivos da política, os quais eliminarão esses obstáculos.

Como pessoa isenta de preconceitos nacionalistas, pessoalmente vejo uma forma simples de abordar o aspecto superficial (isto é, administrativo) do problema: a instituição, por meio de acordo internacional, de um organismo legislativo e judiciário para arbitrar todo conflito que surja entre nações. Cada nação submeter-se-ia à obediência às ordens emanadas desse organismo legislativo, a recorrer às suas decisões em todos os litígios, a aceitar irrestritamente suas decisões e a pôr em prática todas as medidas que o tribunal considerasse necessárias para a execução de seus decretos. Já de início, todavia, defronto-me com uma dificuldade; um tribunal é uma instituição humana que, em relação ao poder de que dispõe, é inadequada para fazer cumprir seus veredictos, está muito sujeito a ver suas decisões anuladas por pressões extrajudiciais. Este é um fato com que temos de contar; a lei e o poder inevitavelmente andam de mãos dadas, e as decisões jurídicas se aproximam mais da justiça ideal exigida pela comunidade (em cujo nome e em cujos interesses esses veredictos são pronunciados), na medida em que a comunidade tem efetivamente o poder de impor o respeito ao seu ideal jurídico. Atualmente, porém, estamos longe de possuir qualquer organização supranacional competente para emitir julgamentos de autoridade incontestável e garantir absoluto acatamento à execução de seus veredictos. Assim, sou levado ao meu primeiro princípio; a busca da segurança internacional envolve a renúncia incondicional, por todas as nações, em determinada medida, à sua liberdade de ação, ou seja, à sua soberania, e é absolutamente evidente que nenhum outro caminho pode conduzir a essa segurança.

O insucesso, malgrado sua evidente sinceridade, de todos os esforços, durante a última década, no sentido de alcançar essa meta, não deixa lugar à dúvida de que estão em jogo fatores psicológicos de peso que paralisam tais esforços. Alguns desses fatores são mais fáceis de detectar. O intenso desejo de poder, que caracteriza a classe governante em cada nação, é hostil a qualquer limitação de sua soberania nacional. Essa fome de poder político está acostumada a medrar nas atividades, de um outro grupo, cujas aspirações são de caráter econômico, puramente mercenário. Refiro-me especialmente a esse grupo reduzido, porém decidido, existente em cada nação, composto de indivíduos que, indiferentes às condições e aos controles sociais, consideram a guerra, a fabricação e venda de armas simplesmente como uma oportunidade de expandir seus interesses pessoais e ampliar a sua autoridade pessoal.

O reconhecimento desse fato, no entanto, é simplesmente o primeiro passo para uma avaliação da situação atual. Logo surge uma outra questão: como é possível a essa pequena súcia dobrar a vontade da maioria, que se resigna a perder e a sofrer com uma situação de guerra, a serviço da ambição de poucos? (Ao falar em maioria, não excluo os soldados, de todas as graduações, que escolheram a guerra como profissão, na crença de que estejam servindo à defesa dos mais altos interesses de sua raça e de que o ataque seja, muitas vezes, o melhor meio de defesa.) Parece que uma resposta óbvia a essa pergunta seria que a minoria, a classe dominante atual, possui as escolas, a imprensa e, geralmente, também a Igreja, sob seu poderio. Isto possibilita organizar e dominar as emoções das massas e torná-las instrumento da mesma minoria.

Ainda assim, nem sequer essa resposta proporciona uma solução completa. Daí surge uma nova questão: como esses mecanismos conseguem tão bem despertar nos homens um entusiasmo extremado, a ponto de estes sacrificarem suas vidas? Pode haver apenas uma resposta. É porque o homem encerra dentro de si um desejo de ódio e destruição. Em tempos normais, essa paixão existe em estado latente, emerge apenas em circunstâncias anormais; é, contudo, relativamente fácil despertá-la e elevá-la à potência de psicose coletiva. Talvez aí esteja o ponto crucial de todo o complexo de fatores que estamos considerando, um enigma que só um especialista na ciência dos instintos humanos pode resolver.


Com isso, chegamos à nossa última questão. É possível controlar a evolução da mente do homem, de modo a torná-lo à prova das psicoses do ódio e da destrutividade?

Aqui não me estou referindo tão-somente às chamadas massas incultas. A experiência prova que é, antes, a chamada ‘Intelligentzia’ a mais inclinada a ceder a essas desastrosas sugestões coletivas, de vez que o intelectual não tem contato direto com o lado rude da vida, mas a encontra em sua forma sintética mais fácil — na página impressa.

Para concluir: Até aqui somente falei das guerras entre nações, aquelas que se conhecem como conflitos internacionais. Estou, porém, bem consciente de que o instinto agressivo opera sob outras formas e em outras circunstâncias. (Penso nas guerras civis, por exemplo, devidas à intolerância religiosa, em tempos precedentes, hoje em dia, contudo, devidas a fatores sociais; ademais, também nas perseguições a minorias raciais.) Foi deliberada a minha insistência naquilo que é a mais típica, mais cruel e extravagante forma de conflito entre homem e homem, pois aqui temos a melhor ocasião de descobrir maneiras e meios de tornar impossíveis qualquer conflito armado.

Sei que nos escritos do senhor podemos encontrar respostas, explícitas ou implícitas, a todos os aspectos desse problema urgente e absorvente. Mas seria da maior utilidade para nós todos que o senhor apresentasse o problema da paz mundial sob o enfoque das suas mais recentes descobertas, pois uma tal apresentação bem poderia demarcar o caminho para novos e frutíferos métodos de ação.

Muito cordialmente,

1.

A. Einstein.








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II - Carta de Freud


Viena, setembro de 1932.

Prezado Professor Einstein,

Quando soube que o senhor intencionava convidar-me para um intercâmbio de pontos de vista sobre um assunto que lhe interessava e que parecia merecer o interesse de outros além do senhor, aceitei prontamente. Esperava que o senhor escolhesse um problema situado nas fronteiras daquilo que é atualmente cognoscível, um problema em relação ao qual cada um de nós, físico e psicólogo, pudesse ter o seu ângulo de abordagem especial, e no qual pudéssemos nos encontrar, sobre o mesmo terreno, embora partindo de direções diferentes.

O senhor apanhou-me de surpresa, no entanto, ao perguntar o que pode ser feito para proteger a humanidade da maldição da guerra. Inicialmente me assustei com o pensamento de minha — quase escrevi ‘nossa’ — incapacidade de lidar com o que parecia ser um problema prático, um assunto para estadistas. Depois, no entanto, percebi que o senhor havia proposto a questão, não na condição de cientista da natureza e físico, mas como filantropo: o senhor estava seguindo a sugestão da Liga das Nações, assim como Fridtjof Nansen, o explorador polar, assumiu a tarefa de auxiliar as vítimas famintas e sem teto da guerra mundial. Além do mais, considerei que não me pediam para propor medidas práticas, mas sim apenas que eu delimitasse o problema da evitação da guerra tal como ele se configura aos olhos de um cientista da psicologia. Também nesse ponto, o senhor disse quase tudo o que há a dizer sobre o assunto. Embora o senhor se tenha antecipado a mim, ficarei satisfeito em seguir no seu rasto e me contentarei com confirmar tudo o que o senhor disse, ampliando-o com o melhor do meu conhecimento — ou das minhas conjecturas.


O senhor começou com a relação entre o direito e o poder. Não se pode duvidar de que seja este o ponto de partida correto de nossa investigação. Mas, permita-me substituir a palavra ‘poder’ pela palavra mais nua e crua violência’? Atualmente, direito e violência se nos afiguram como antíteses. No entanto, é fácil mostrar que uma se desenvolveu da outra e, se nos reportarmos às origens primeiras e examinarmos como essas coisas se passaram, resolve-se o problema facilmente. Perdoe-me se, nessas considerações que se seguem, eu trilhar chão familiar e comumente aceito, como se isto fosse novidade; o fio de minhas argumentações o exige.

É, pois, um princípio geral que os conflitos de interesses entre os homens são resolvidos pelo uso da violência. É isto o que se passa em todo o reino animal, do qual o homem não tem motivo por que se excluir. No caso do homem, sem dúvida ocorrem também conflitos de opinião que podem chegar a atingir a mais raras nuanças da abstração e que parecem exigir alguma outra técnica para sua solução. Esta é, contudo, uma complicação a mais. No início, numa pequena horda humana, era a superioridade da força muscular que decidia quem tinha a posse das coisas ou quem fazia prevalecer sua vontade. A força muscular logo foi suplementada e substituída pelo uso de instrumentos: o vencedor era aquele que tinha as melhores armas ou aquele que tinha a maior habilidade no seu manejo. A partir do momento em que as armas foram introduzidas, a superioridade intelectual já começou a substituir a força muscular bruta; mas o objetivo final da luta permanecia o mesmo — uma ou outra facção tinha de ser compelida a abandonar suas pretensões ou suas objeções, por causa do dano que lhe havia sido infligido e pelo desmantelamento de sua força.

Conseguia-se esse objetivo de modo mais completo se a violência do vencedor eliminasse para sempre o adversário, ou seja, se o matasse. Isto tinha duas vantagens: o vencido não podia restabelecer sua oposição, e o seu destino dissuadiria outros de seguirem seu exemplo. Ademais disso, matar um inimigo satisfazia uma inclinação instintual, que mencionarei posteriormente. À intenção de matar opor-se-ia a reflexão de que o inimigo podia ser utilizado na realização de serviços úteis, se fosse deixado vivo e num estado de intimidação. Nesse caso, a violência do vencedor contentava-se com subjugar, em vez de matar, o vencido. Foi este o início da idéia de poupar a vida de um inimigo, mas a partir daí o vencedor teve de contar com a oculta sede de vingança do adversário vencido e sacrificou uma parte de sua própria segurança.

Esta foi, por conseguinte, a situação inicial dos fatos: a dominação por parte de qualquer um que tivesse poder maior — a dominação pela violência bruta ou pela violência apoiada no intelecto. Como sabemos, esse regime foi modificado no transcurso da evolução. Havia um caminho que se estendia da violência ao direito ou à lei. Que caminho era este? Penso ter sido apenas um: o caminho que levava ao reconhecimento do fato de que à força superior de um único indivíduo, podia-se contrapor a união de diversos indivíduos fracos.

‘L’union fait la force.’ A violência podia ser derrotada pela união, e o poder daqueles que se uniam representava, agora, a lei, em contraposição à violência do indivíduo só. Vemos, assim, que a lei é a força de uma comunidade. Ainda é violência, pronta a se voltar contra qualquer indivíduo que se lhe oponha; funciona pelos mesmos métodos e persegue os mesmos objetivos. A única diferença real reside no fato de que aquilo que prevalece não é mais a violência de um indivíduo, mas a violência da comunidade. A fim de que a transição da violência a esse novo direito ou justiça pudesse ser efetuada, contudo, uma condição psicológica teve de ser preenchida. A união da maioria devia ser estável e duradoura. Se apenas fosse posta em prática com o propósito de combater um indivíduo isolado e dominante, e fosse dissolvida depois da derrota deste, nada se teria realizado. A pessoa, a seguir, que se julgasse superior em força, haveria de mais uma vez tentar estabelecer o domínio através da violência, e o jogo se repetiria ad infinitum. A comunidade deve manter-se permanentemente, deve organizar-se, deve estabelecer regulamentos para antecipar-se ao risco de rebelião e deve instituir autoridades para fazer com que esses regulamentos — as leis — sejam respeitadas, e para superintender a execução dos atos legais de violência. O reconhecimento de uma entidade de interesses como estes levou ao surgimento de vínculos emocionais entre os membros de um grupo de pessoas unidas — sentimentos comuns, que são a verdadeira fonte de sua força.

Acredito que, com isso, já tenhamos todos os elementos essenciais: a violência suplantada pela transferência do poder a uma unidade maior, que se mantém unida por laços emocionais entre os seus membros. O que resta dizer não é senão uma ampliação e uma repetição desse fato.

A situação é simples enquanto a comunidade consiste em apenas poucos indivíduos igualmente fortes. As leis de uma tal associação irão determinar o grau em que, se a segurança da vida comunal deve ser garantida, cada indivíduo deve abrir mão de sua liberdade pessoal de utilizar a sua força para fins violentos. Um estado de equilíbrio dessa espécie, porém, só é concebível teoricamente. Na realidade, a situação complica-se pelo fato de que, desde os seus primórdios, a comunidade abrange elementos de força desigual — homens e mulheres, pais e filhos — e logo, como conseqüência da guerra e da conquista, também passa a incluir vencedores e vencidos, que se transformam em senhores e escravos. A justiça da comunidade então passa a exprimir graus desiguais de poder nela vigentes. As leis são feitas por e para os membros governantes e deixa pouco espaço para os direitos daqueles que se encontram em estado de sujeição. Dessa época em diante, existem na comunidade dois fatores em atividade que são fonte de inquietação relativamente a assuntos da lei, mas que tendem, ao mesmo tempo, a um maior crescimento da lei.

Primeiramente, são feitas, por certos detentores do poder, tentativas, no sentido de se colocarem acima das proibições que se aplicam a todos — isto é, procuram escapar do domínio pela lei para o domínio pela violência. Em segundo lugar, os membros oprimidos do grupo fazem constantes esforços para obter mais poder e ver reconhecidas na lei algumas modificações efetuadas nesse sentido — isto é, fazem pressão para passar da justiça desigual para a justiça igual para todos. Essa segunda tendência torna-se especialmente importante se uma mudança real de poder ocorre dentro da comunidade, como pode ocorrer em conseqüência de diversos fatores históricos. Nesse caso, o direito pode gradualmente adaptar-se à nova distribuição do poder; ou, como sucede com maior freqüência, a classe dominante se recusa a admitir a mudança e a rebelião e a guerra civil se seguem, com uma suspensão temporária da lei e com novas tentativas de solução mediante a violência, terminando pelo estabelecimento de um novo sistema de leis. Ainda há uma terceira fonte da qual podem surgir modificações da lei, e que invariavelmente se exprime por meios pacíficos: consiste na transformação cultural dos membros da comunidade. Isto, porém, propriamente faz parte de uma outra correlação e deve ser considerado posteriormente. Ver em [[1]].

Vemos, pois, que a solução violenta de conflitos de interesses não é evitada sequer dentro de uma comunidade. As necessidades cotidianas e os interesses comuns, inevitáveis ali onde pessoas vivem juntas num lugar, tendem, contudo, a proporcionar a essas lutas uma conclusão rápida, e, sob tais condições, existe uma crescente probabilidade de se encontrar uma solução pacífica. Outrossim, um rápido olhar pela história da raça humana revela uma série infindável de conflitos entre uma comunidade e outra, ou diversas outras, entre unidades maiores e menores — entre cidades, províncias, raças, nações, impérios —, que quase sempre se formaram pela força das armas. Guerras dessa espécie terminam ou pelo saque ou pelo completo aniquilamento e conquista de uma das partes. É impossível estabelecer qualquer julgamento geral das guerras de conquista. Algumas, como as empreendidas pelos mongóis e pelos turcos, não trouxeram senão malefícios. Outras, pelo contrário, contribuíram para a transformação da violência em lei, ao estabelecerem unidades maiores, dentro das quais o uso da violência se tornou impossível e nas quais um novo sistema de leis solucionou os conflitos. Desse modo, as conquistas dos romanos deram aos países próximos ao Mediterrâneo a inestimável pax romana, e a ambição dos reis franceses de ampliar os seus domínios criou uma França pacificamente unida e florescente.

Por paradoxal que possa parecer, deve-se admitir que a guerra poderia ser um meio nada inadequado de estabelecer o reino ansiosamente desejado de paz ‘perene’, pois está em condições de criar as grandes unidades dentro das quais um poderoso governo central torna impossíveis outras guerras. Contudo, ela falha quanto a esse propósito, pois os resultados da conquista são geralmente de curta duração: as unidades recentemente criadas esfacelam-se novamente, no mais das vezes devido a uma falta de coesão entre as partes que foram unidas pela violência. Ademais, até hoje as unificações criadas pela conquista, embora de extensão considerável, foram apenas parciais, e os conflitos entre elas ensejaram, mais do que nunca, soluções violentas. O resultado de todos esses esforços bélicos consistiu, assim, apenas em a raça humana haver trocado as numerosas e realmente infindáveis guerras menores por guerras em grande escala, que são raras, contudo muito mais destrutivas.

Se nos voltamos para os nossos próprios tempos, chegamos a mesma conclusão a que o senhor chegou por um caminho mais curto. As guerras somente serão evitadas com certeza, se a humanidade se unir para estabelecer uma autoridade central a que será conferido o direito de arbitrar todos os conflitos de interesses. Nisto estão envolvidos claramente dois requisitos distintos: criar uma instância suprema e dotá-la do necessário poder. Uma sem a outra seria inútil. A Liga das Nações é destinada a ser uma instância dessa espécie, mas a segunda condição não foi preenchida: a Liga das Nações não possui poder próprio, e só pode adquiri-lo se os membros da nova união, os diferentes estados, se dispuserem a cedê-lo. E, no momento, parecem escassas as perspectivas nesse sentido. A instituição da Liga das Nações seria totalmente ininteligível se se ignorasse o fato de que houve uma tentativa corajosa, como raramente (talvez jamais em tal escala) se fez antes. Ela é uma tentativa de fundamentar a autoridade sobre um apelo a determinadas atitudes idealistas da mente (isto é, a influência coercitiva), que de outro modo se baseia na posse da força. Já vimos [[1]] que uma comunidade se mantém unida por duas coisas: a força coercitiva da violência e os vínculos emocionais (identificações é o nome técnico) entre seus membros. Se estiver ausente um dos fatores, é possível que a comunidade se mantenha ainda pelo outro fator.

As idéias a que se faz o apelo só podem, naturalmente, ter importância se exprimirem afinidades importantes entre os membros, e pode-se perguntar quanta força essas idéias podem exercer. A história nos ensina que, em certa medida, elas foram eficazes. Por exemplo, a idéia do pan-helenismo, o sentido de ser superior aos bárbaros de além-fronteiras — idéia que foi expressa com tanto vigor no conselho anfictiônico, nos oráculos e nos jogos —, foi forte a ponto de mitigar os costumes guerreiros entre os gregos, embora, é claro, não suficientemente forte para evitar dissensões bélicas entre as diferentes partes da nação grega, ou mesmo para impedir uma cidade ou confederação de cidades de se aliar com o inimigo persa, a fim de obter vantagem contra algum rival. A identidade de sentimentos entre os cristãos, embora fosse poderosa, não conseguiu, à época do Renascimento, impedir os Estados Cristãos, tanto os grandes como os pequenos, de buscar o auxílio do sultão em suas guerras de uns contra os outros. E atualmente não existe idéia alguma que, espera-se, venha a exercer uma autoridade unificadora dessa espécie. Na realidade, é por demais evidente que os ideais nacionais, pelos quais as nações se regem nos dias de hoje, atuam em sentido oposto. Algumas pessoas tendem a profetizar que não será possível pôr um fim à guerra, enquanto a forma comunista de pensar não tenha encontrado aceitação universal. Mas esse objetivo, em todo caso, está muito remoto, atualmente, e talvez só pudesse ser alcançado após as mais terríveis guerras civis. Assim sendo, presentemente, parece estar condenada ao fracasso a tentativa de substituir a força real pela força das idéias. Estaremos fazendo um cálculo errado se desprezarmos o fato de que a lei, originalmente, era força bruta e que, mesmo hoje, não pode prescindir do apoio da violência.



Passo agora, a acrescentar algumas observações aos seus comentários. O senhor expressa surpresa ante o fato de ser tão fácil inflamar nos homens o entusiasmo pela guerra, e insere a suspeita, ver em[[1]], de que neles exige em atividade alguma coisa — um instinto de ódio e de destruição — que coopera com os esforços dos mercadores da guerra. Também nisto apenas posso exprimir meu inteiro acordo. Acreditamos na existência de um instinto dessa natureza, e durante os últimos anos temo-nos ocupado realmente em estudar suas manifestações. Permita-me que me sirva dessa oportunidade para apresentar-lhe uma parte da teoria dos instintos que, depois de muitas tentativas hesitantes e muitas vacilações de opinião, foi formulada pelos que trabalham na área da psicanálise?


De acordo com nossa hipótese, os instintos humanos são de apenas dois tipos: aqueles que tendem a preservar e a unir — que denominamos ‘eróticos’, exatamente no mesmo sentido em que Platão usa a palavra ‘Eros’ em seu Symposium, ou ‘sexuais’, com uma deliberada ampliação da concepção popular de ‘sexualidade’ —; e aqueles que tendem a destruir e matar, os quais agrupamos como instinto agressivo ou destrutivo. Como o senhor vê, isto não é senão uma formulação teórica da universalmente conhecida oposição entre amor e ódio, que talvez possa ter alguma relação básica com a polaridade entre atração e repulsão, que desempenha um papel na sua área de conhecimentos. Entretanto, não devemos ser demasiado apressados em introduzir juízos éticos de bem e de mal. Nenhum desses dois instintos é menos essencial do que o outro; os fenômenos da vida surgem da ação confluente ou mutuamente contrária de ambos. Ora, é como se um instinto de um tipo dificilmente pudesse operar isolado; está sempre acompanhado — ou, como dizemos, amalgamado — por determinada quantidade do outro lado, que modifica o seu objetivo, ou, em determinados casos, possibilita a consecução desse objetivo. Assim, por exemplo, o instinto de autopreservação certamente é de natureza erótica; não obstante, deve ter à sua disposição a agressividade, para atingir seu propósito. Dessa forma, também o instinto de amor, quando dirigido a um objeto, necessita de alguma contribuição do instinto de domínio, para que obtenha a posse desse objeto. A dificuldade de isolar as duas espécies de instinto em suas manifestações reais, é, na verdade, o que até agora nos impedia de reconhecê-los.


Se o senhor quiser acompanhar-me um pouco mais, verá que as ações humanas estão sujeitas a uma outra complicação de natureza diferente. Muito raramente uma ação é obra de um impulso instintual único (que deve estar composto de Eros e destrutividade). A fim de tornar possível uma ação, há que haver, via de regra, uma combinação desses motivos compostos. Isto, há muito tempo, havia sido percebido por um especialista na sua matéria, o professor G. C. Lichtenberg, que ensinava física em Göttingen, durante o nosso classicismo, embora, talvez, ele fosse ainda mais notável como psicólogo do que como físico.

Ele inventou uma ‘bússola de motivos’, pois escreveu: ‘Os motivos que nos levam a fazer algo poderiam ser dispostos à maneira da rosa-dos-ventos e receber nomes de uma forma parecida: por exemplo, "pão — pão — fama" ou "fama — fama — pão".’ De forma que, quando os seres humanos são incitados à guerra, podem ter toda uma gama de motivos para se deixarem levar — uns nobres, outros vis, alguns francamente declarados, outros jamais mencionados. Não há por que enumerá-los todos. Entre eles está certamente o desejo da agressão e destruição: as incontáveis crueldades que encontramos na história e em nossa vida de todos os dias atestam a sua existência e a sua força. A satisfação desses impulsos destrutivos naturalmente é facilitada por sua mistura com outros motivos de natureza erótica e idealista. Quando lemos sobre as atrocidades do passado, amiúde é como se os motivos idealistas servissem apenas de excusa para os desejos destrutivos; e, às vezes — por exemplo, no caso das crueldades da Inquisição — é como se os motivos idealistas tivessem assomado a um primeiro plano na consciência, enquanto os destrutivos lhes emprestassem um reforço inconsciente. Ambos podem ser verdadeiros.

Receio que eu possa estar abusando do seu interesse, que, afinal, se volta para a prevenção da guerra e não para nossas teorias. Gostaria, não obstante, de deter-me um pouco mais em nosso instinto destrutivo, cuja popularidade não é de modo algum igual à sua importância. Como conseqüência de um pouco de especulação, pudemos supor que esse instinto está em atividade em toda criatura viva e procura levá-la ao aniquilamento, reduzir a vida à condição original de matéria inanimada. Portanto, merece, com toda seriedade, ser denominado instinto de morte, ao passo que os instintos eróticos representam o esforço de viver. O instinto de morte torna-se instinto destrutivo quando, com o auxílio de órgãos especiais, é dirigido para fora, para objetos. O organismo preserva sua própria vida, por assim dizer, destruindo uma vida alheia. Uma parte do instinto de morte, contudo, continua atuante dentro do organismo, e temos procurado atribuir numerosos fenômenos normais e patológicos a essa internalização do instinto de destruição. Foi-nos até mesmo imputada a culpa pela heresia de atribuir a origem da consciência a esse desvio da agressividade para dentro. O senhor perceberá que não é absolutamente irrelevante se esse processo vai longe demais: é positivamente insano. Por outro lado, se essas forças se voltam para a destruição no mundo externo, o organismo se aliviará e o efeito deve ser benéfico.

Isto serviria de justificação biológica para todos os impulsos condenáveis e perigosos contra os quais lutamos. Deve-se admitir que eles se situam mais perto da Natureza do que a nossa resistência, para a qual também é necessário encontrar uma explicação. Talvez ao senhor possa parecer serem nossas teorias uma espécie de mitologia e, no presente caso, mitologia nada agradável. Todas as ciências, porém, não chegam, afinal, a uma espécie de mitologia como esta? Não se pode dizer o mesmo, atualmente, a respeito da sua física?

Para nosso propósito imediato, portanto, isto é tudo o que resulta daquilo que ficou dito: de nada vale tentar eliminar as inclinações agressivas dos homens. Segundo se nos conta, em determinadas regiões privilegiadas da Terra, onde a natureza provê em abundância tudo o que é necessário ao homem, existem povos cuja vida transcorre em meio à tranqüilidade, povos que não conhecem nem a coerção nem a agressão. Dificilmente posso acreditar nisso, e me agradaria saber mais a respeito de coisas tão afortunadas. Também os bolchevistas esperam ser capazes de fazer a agressividade humana desaparecer mediante a garantia de satisfação de todas as necessidades materiais e o estabelecimento da igualdade, em outros aspectos, entre todos os membros da comunidade. Isto, na minha opinião, é uma ilusão.

Eles próprios, hoje em dia, estão armados da maneira mais cautelosa, e o método não menos importante que empregam para manter juntos os seus adeptos é o ódio contra qualquer pessoa além das suas fronteiras. Em todo caso, como o senhor mesmo observou, não há maneira de eliminar totalmente os impulsos agressivos do homem; pode-se tentar desviá-los num grau tal que não necessitem encontrar expressão na guerra.
Nossa teoria mitológica dos instintos facilita-nos encontrar a fórmula para métodos indiretos de combater a guerra. Se o desejo de aderir à guerra é um efeito do instinto destrutivo, a recomendação mais evidente será contrapor-lhe o seu antagonista, Eros. Tudo o que favorece o estreitamento dos vínculos emocionais entre os homens deve atuar contra a guerra. Esses vínculos podem ser de dois tipos. Em primeiro lugar, podem ser relações semelhantes àquelas relativas a um objeto amado, embora não tenham uma finalidade sexual. A psicanálise não tem motivo porque se envergonhar se nesse ponto fala de amor, pois a própria religião emprega as mesmas palavras: ‘Ama a teu próximo como a ti mesmo.’ Isto, todavia, é mais facilmente dito do que praticado. O segundo vínculo emocional é o que utiliza a identificação. Tudo o que leva os homens a compartilhar de interesses importantes produz essa comunhão de sentimento, essas identificações. E a estrutura da sociedade humana se baseia nelas, em grande escala.
Uma queixa que o senhor formulou acerca do abuso de autoridade, ver em [[1]] leva-me a uma outra sugestão para o combate indireto à propensão à guerra. Um exemplo da desigualdade inata e irremovível dos homens é sua tendência a se classificarem em dois tipos, o dos líderes e o dos seguidores. Esses últimos constituem a vasta maioria; têm necessidade de uma autoridade que tome decisões por eles e à qual, na sua maioria devotam uma submissão ilimitada. Isto sugere que se deva dar mais atenção, do que até hoje se tem dado, à educação da camada superior dos homens dotados de mentalidade independente, não passível de intimidação e desejosa de manter-se fiel à verdade, cuja preocupação seja a de dirigir as massas dependentes. É desnecessário dizer que as usurpações cometidas pelo poder executivo do Estado e a proibição estabelecida pela Igreja contra a liberdade de pensamento não são nada favoráveis à formação de uma classe desse tipo. A situação ideal, naturalmente, seria a comunidade humana que tivesse subordinado sua vida instintual ao domínio da razão. Nada mais poderia unir os homens de forma tão completa e firme, ainda que entre eles não houvesse vínculos emocionais. No entanto, com toda a probabilidade isto é uma expectativa utópica. Não há dúvida de que os outros métodos indiretos de evitar a guerra são mais exeqüíveis, embora não prometam êxito imediato. Vale lembrar aquela imagem inquietante do moinho que mói tão devagar, que as pessoas podem morrer de fome antes de ele poder fornecer sua farinha.

O resultado, como o senhor vê, não é muito frutífero quando um teórico desinteressado é chamado a opinar sobre um problema prático urgente. É melhor a pessoa, em qualquer caso especial, dedicar-se a enfrentar o perigo com todos os meios à mão. Eu gostaria, porém, de discutir mais uma questão que o senhor não menciona em sua carta, a qual me interessa em especial. Por que o senhor, eu e tantas outras pessoas nos revoltamos tão violentamente contra a guerra? Por que não a aceitamos como mais uma das muitas calamidades da vida? Afinal, parece ser coisa muito natural, parece ter uma base biológica e ser dificilmente evitável na prática. Não há motivo para se surpreender com o fato de eu levantar essa questão. Para o propósito de uma investigação como esta, poder-se-ia, talvez, permitir-se usar uma máscara de suposto alheamento. A resposta à minha pergunta será a de que reagimos à guerra dessa maneira, porque toda pessoa tem o direito à sua própria vida, porque a guerra põe um término a vidas plenas de esperanças, porque conduz os homens individualmente a situações humilhantes, porque os compele, contra a sua vontade, a matar outros homens e porque destrói objetos materiais preciosos, produzidos pelo trabalho da humanidade. Outras razões mais poderiam ser apresentadas, como a de que, na sua forma atual, a guerra já não é mais uma oportunidade de atingir os velhos ideais de heroísmo, e a de que, devido ao aperfeiçoamento dos instrumentos de destruição, uma guerra futura poderia envolver o extermínio de um dos antagonistas ou, quem sabe, de ambos. Tudo isso é verdadeiro, e tão incontestavelmente verdadeiro, que não se pode senão sentir perplexidade ante o fato de a guerra ainda não ter sido unanimemente repudiada. Sem dúvida, é possível o debate em torno de alguns desses pontos. Pode-se indagar se uma comunidade não deveria ter o direito de dispor da vida dos indivíduos; nem toda guerra é passível de condenação em igual medida; de vez que existem países e nações que estão preparados para a destruição impiedosa de outros, esses outros devem ser armados para a guerra. Mas não me deterei em nenhum desses aspectos; não constituem aquilo que o senhor deseja examinar comigo, e tenho em mente algo diverso. Penso que a principal razão por que nos rebelamos contra a guerra é que não podemos fazer outra coisa. Somos pacifistas porque somos obrigados a sê-lo, por motivos orgânicos, básicos. E sendo assim, temos dificuldade em encontrar argumentos que justifiquem nossa atitude.

Sem dúvida, isto exige alguma explicação. Creio que se trata do seguinte. Durante períodos de tempo incalculáveis, a humanidade tem passado por um processo de evolução cultural (Sei que alguns preferem empregar o termo ‘civilização’). É a esse processo que devemos o melhor daquilo em que nos tornamos, bem como uma boa parte daquilo de que padecemos. Embora suas causas e seus começos sejam obscuros e incerto o seu resultado, algumas de suas características são de fácil percepção. Talvez esse processo esteja levando à extinção a raça humana, pois em mais de um sentido ele prejudica a função sexual; povos incultos e camadas atrasadas da população já se multiplicam mais rapidamente do que as camadas superiormente instruídas. Talvez se possa comparar o processo à domesticação de determinadas espécies animais, e ele se acompanha, indubitavelmente, de modificações físicas; mas ainda não nos familiarizamos com a idéia de que a evolução da civilização é um processo orgânico dessa ordem. As modificações psíquicas que acompanham o processo de civilização são notórias e inequívocas. Consistem num progressivo deslocamento dos fins instintuais e numa limitação imposta aos impulsos instintuais. Sensações que para os nossos ancestrais eram agradáveis, tornaram-se indiferentes ou até mesmo intoleráveis para nós; há motivos orgânicos para as modificações em nossos ideais éticos e estéticos. Dentre as características psicológicas da civilização, duas aparecem como as mais importantes: o fortalecimento do intelecto, que está começando a governar a vida instintual, e a internalização dos impulsos agressivos com todas as suas conseqüentes vantagens e perigos.

Ora, a guerra se constitui na mais óbvia oposição à atitude psíquica que nos foi incutida pelo processo de civilização, e por esse motivo não podemos evitar de nos rebelar contra ela; simplesmente não podemos mais nos conformar com ela. Isto não é apenas um repúdio intelectual e emocional; nós, os pacifistas, temos uma intolerância constitucional à guerra, digamos, uma idiossincrasia exacerbada no mais alto grau. Realmente, parece que o rebaixamento dos padrões estéticos na guerra desempenha um papel dificilmente menor em nossa revolta do que as suas crueldades.

E quanto tempo teremos de esperar até que o restante da humanidade também se torne pacifista? Não há como dizê-lo. Mas pode não ser utópico esperar que esses dois fatores, a atitude cultural e o justificado medo das conseqüências de uma guerra futura, venham a resultar, dentro de um tempo previsível, em que se ponha um término à ameaça de guerra. Por quais caminhos ou por que atalhos isto se realizará, não podemos adivinhar. Mas uma coisa podemos dizer: tudo o que estimula o crescimento da civilização trabalha simultaneamente contra a guerra.

Espero que o senhor me perdoe se o que eu disse o desapontou, e com a expressão de toda estima, subscrevo-me,

Cordialmente,

Sigm. Freud


Extraído de VOL.XXII das Obras Completas de S. Freud. Edição Eletrônica

Fonte:
http://www.bernardojablonski.com/pdfs/graduacao/por_que.pdf