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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Avanço na Rússia - As memórias de Otto Skorzeny sobre a Barbarossa

As memórias de Otto Skorzeny sobre a Barbarossa, quando ainda era um oficial de artilharia vinculado à Divisão Grossdeutschland :

Em meados de junho de 1941, nossa Divisão foi transferida para a Polônia. Desta vez viajamos de trem até Lodz. A novidade deste meio de transporte foi por nós recebida com grande alegria, pois tivemos certeza que as viaturas e peças de artilharia chegariam ao destino sem sofrer dano. Quando verificamos que tudo estava carregado, sentamos e respiramos aliviados.

As conversas giravam em torno do nosso novo destino. Todos ignorávamos que estávamos a ponto de iniciar uma campanha contra a Rússia. Até os mais pessimistas estavam convencidos de que a meta final de nossa viagem seriam os poços petrolíferos do Golfo Pérsico. Estávamos certos de que a Rússia abriria suas portas ao Exército alemão e que, por tal motivo, poderíamos atravessar sem dificuldade alguma o Cáucaso, podendo chegar, dessa forma, às fronteiras do Irã. Discutimos sobre a possibilidade de as populações árabes ficarem do nosso lado, o que era de vital importância para nós, pois poderiam proporcionar-nos o combustível que necessitávamos urgente e nos facilitar a oportunidade de ocupar seus riquíssimos territórios. Outros opinavam que iríamos para a Turquia e depois para o Egito a fim de atacarmos o Exército inglês. Confesso que estava identificado com esta última opinião e, por isso, levava comigo o livro de Lawrence "As sete colunas da sabedoria". O misterioso e longínquo Oriente nos proporcionou um sem-fim de assuntos durante as longas horas de viagem em que o comboio traçou um grande círculo, beirando o protetorado da Boêmia e Moravia, até chegar à Silésia Superior para entrar na Polônia.

Deixamos o trem em Lodz e continuamos a viagem pelas empoeiradas estradas. Numa só noite percorremos toda a distância que nos separava da frente Leste. Ficamos concentrados a uns cinqüenta quilômetros do fronteiriço rio Bug, num povoado ao sul da cidade russa de Brest-Litowsk. A pobreza da localidade e das casas obrigou-nos a armar as barracas em pleno bosque.

Sentia-me satisfeito por ter a oportunidade de conhecer um país que não tinha visitado anteriormente. Nunca imaginara que os homens e os animais pudessem conviver em semelhante promiscuidade! Algumas vivendas tinham o estábulo ao lado da moradia comum, que servia para todos os místeres; muitas tinham os cômodos separados apenas por uma cortina. As crianças criavam-se entre os animais e havia casos de não se fazer diferença entre uns e outros. A água era tão escassa, que só era utilizada para cozinhar e dar de beber aos animais. Foi então, só então, que eu compreendi o sentido das palavras "economia polaca!"

Não tardamos muito em comprovar que as suposições que fizéramos acerca do nosso destino estavam erradas, já que o ambiente nos fazia compreender que não tardaríamos muito a entrar em combate. Aquilo nos deixou surpreendidos; não sabíamos o que pensar. Nunca pudemos imaginar que chegaríamos a combater contra a União Soviética! Sabíamos e percebíamos que o Pacto de Não-Agressão, firmado entre a Rússia e a Alemanha, acabaria por romper-se mais dia menos dia. Mas nunca pudemos supor que tal coisa chegasse a acontecer em plena guerra. Aquilo nos levou a perguntar-nos se seríamos obrigados a manter uma guerra em duas frentes ou poderia repetir-se o caso de uma nova Blitzkrieg? Não pudemos deixar de pensar nas imensas e inacabáveis estepes russas; no país que foi o causador do princípio da derrota de Napoleão, o homem que se acreditou invencível. Não nos restou outra coisa a não ser conformarmo-nos com a sorte, e esperar o desenrolar dos acontecimentos, a fim de prepararmo-nos para cumprir as ordens recebidas. Procuramos nos consolar dizendo que o Alto Comando sabia o que estava fazendo. Estávamos convencidos de que nos encontrávamos à mesma altura do colossal adversário e que, talvez, o destino tivesse escolhido os homens da nossa geração para derrotarem a invencível Rússia.

Entramos em posição com as baterias perto do Bug, procurando nos camuflar na vegetação. Aproveitei os momentos de folga para passear pelas margens do rio em companhia de alguns camaradas. Vimos os postos avançados russos na outra margem do rio e nos pareceram semelhantes aos nossos. Foi a primeira vez que vimos, alinhados ao longo de toda a fronteira russa, vários mangrulhos. Nossas sentinelas ocultavam-se nos galhos das árvores; passei muitas horas compartilhando com elas de suas inquietudes e desvelos. Pudemos comprovar que os russos, tal como nós, tinham concentrado grande número de tropas na fronteira polaca; suas posições, meio mascaradas, aproveitando as dobras do terreno, eram perfeitamente visíveis.

SdKfz. 251/1 na Latvia, Junho de 1941

Chegou o dia em que o Alto Comando tomou a suprema decisão. Importantíssima decisão, saída dos cérebros de muitos poucos homens! As ordens foram dadas e se fixou o dia "D" para o desencadeamento do ataque: 22 de junho de 1941. Às 5 horas deveria ter início a ofensiva cujo objetivo era o longínquo Leste. Na véspera, o general comandante pronunciou um discurso diante de todos os comandantes de unidades, dizendo entre outras palavras:

- Firmaremos um novo Tratado de Paz em Moscou dentro de algumas semanas.

Perguntei a mim mesmo se ele acreditava, realmente, no que dizia ou se limitava apenas a nos animar. Contudo, suas palavras de otimismo contagiaram a tropa e lhe deram ânimo para enfrentar o que se avizinhava.

Um grande número de soldados alemães encontrou-se, em algum momento de suas vidas, na mesma situação que nos encontrávamos naquela ocasião. Seus corações, certamente, pulsavam mais forte quando pensavam que se viam obrigados a conquistar um território enorme, quase ilimitado...

Agora, depois das experiências vividas, posso afirmar que não é fácil conhecer a alma - a verdadeira alma - dos russos! É profunda, variável e espantosa. Exatamente igual às suas imensas estepes, aos seus gigantescos rios, às inclemências do seu clima e à angustiante visão da solidão de suas paisagens! Estou convencido de que muitos oficiais do Estado-Maior terão que trabalhar durante anos inteiros, antes de poderem julgar de forma objetiva todas as vicissitudes e pormenores daquela extraordinária campanha. Por isso acredito que devo limitar-me a relatar alguns dos acontecimentos dos quais fui testemunha com meus homens.

À zero hora de 22 de junho de 1941, todas as baterias e as outras posições estavam prontas para o início da ofensiva. Todos estávamos agitadíssimos, coisa muito natural, porquanto ignorávamos a excepcional magnitude da empresa. Devo dizer que notei algo estranho; alguma coisa diferente das outras ocasiões pairava no ar. Dois soldados cochichavam na escuridão e outro dormia de boca aberta agarrado ao fuzil; alguns não podiam conciliar o sono, enquanto outros eram despertados pelos que, ao dormir, lançavam sonoros roncos! Cada homem reagia segundo seu estado de ânimo, conforme seu próprio temperamento. Mas, "às cinco da madrugada" à hora "H" todos estavam acordados, agarrados aos seus fuzis, cada um no cumprimento de sua missão.

Alguns momentos após começaram a sibilar por cima de nossas cabeças as granadas que iam estalar nas posições inimigas. Um barulho ensurdecedor nos envolveu; era comparável ao produzido pelo retumbar dos trovões nas montanhas, que se prolongam devido ao eco. Terminada a preparação da artilharia, a infantaria subiu nas embarcações e começou a atravessar o rio. Os infantes foram acompanhados pelos observadores avançados da artilharia, cuja missão era encontrar novos alvos e dirigir o tiro. Trepado num velho carvalho, via a margem oposta e presenciei os acontecimentos nela desenrolados. Mas somente pelo barulho podíamos orientar-nos com referência ao desenrolar dos combates. Nossas tropas conseguiram avançar quatro, cinco e até seis quilômetros, mas tiveram que enfrentar uma obstinada resistência.

A artilharia começou a atirar de forma intermitente, fazendo fogo de bateria para conseguir preparar as novas posições na outra margem do rio. O fogo inimigo começou a diminuir, inclusive chegou a emudecer; só de vez em quando ouviam-se alguns tiros isolados. Não se podia dizer que o barulho fosse o clássico de um combate. Quando nossos elementos avançados regressaram para informar sobre a situação, disseram-nos que tínhamos conseguido atingir os objetivos e que os russos não puderam fazer face ao nosso primeiro ataque, vendo-se obrigados a retirar-se para os bosques próximos e a cobrir-se como podiam, chegando até a esconder-se nas zonas pantanosas.

O fogo de nossas baterias voltou a apoiar o avanço da infantaria, que começava a atingir os pequenos caminhos que se dirigiam a todas as direções. A vários quilômetros das posições onde nos encontrávamos, ao lado de Koden, já dispúnhamos de uma ponte que acabava de ser construída pelos engenheiros. Na manhã seguinte, nós, os artilheiros, avançamos lentamente, seguindo a margem direita do Bug até chegarmos a Brest-Litowsk. A cidade já estava em mãos alemãs. Durante o tempo que durou um engarrafamento, que nos obrigou a parar, pude examinar com atenção as fortificações que via diante de mim. Também pude observar que se continuava lutando em alguns pontos da cidade onde os russos instalaram-se, ocupando algumas casas. Apesar de já estarem em nosso poder as partes inferiores dos fortins, os russos continuavam atirando das torres, contra nós.

Avançamos lentamente, com precaução, pois não ignorávamos que nossos movimentos eram observados pelo inimigo. Ao menor descuido caía sobre nós uma verdadeira chuva de balas. Vi morrer, diante de meus olhos, vários soldados que foram atingidos pelos projéteis do inimigo.

Todas as nossas tentativas para vencer a desesperada resistência dos russos eram vãs. Fizemos várias tentativas para nos apoderar dos torreões dos fortins, e todas falharam; os mortos que se amontoavam diante deles eram a prova disto. Vários dias transcorreram antes que pudéssemos reduzir totalmente os focos de resistência. Os russos lutaram até o último cartucho, até o último de seus homens.

Na estação ferroviária aconteceu o mesmo. Um grupo de soldados soviéticos instalou-se nas passagens subterrâneas anulando todas as tentativas do nosso avanço. Mais tarde inteirei-me de que foi necessário inundar aquelas passagens, para quebrar sua obstinada resistência.
Esquecemos logo as terríveis imagens daquela luta, para recordá-las quando novamente combatíamos. Não tardamos a ter à nossa disposição o que chamamos de "estrada" partindo de Brest-Litowsk em direção ao Leste. Era uma estrada bastante larga, mas o leito não era asfaltado. Nossas tropas travaram combates de um lado e do outro da mesma, conseguindo avançar com relativa facilidade. Vimos os primeiros carros de combate russos nas valas, meio incendiados.

Cinco dias depois chegamos às imediações de Gorodez. As tropas russas empregavam no combate uma tática muito singular: começavam apresentando uma resistência obstinada, mas, quando encontravam uma ocasião propícia, dispersavam-se ou retraíam. Durante os primeiros dias tivemos a impressão de que ainda não tínhamos enfrentado o verdadeiro Exército russo. As forças inimigas só aproveitavam algumas ocasiões para contra-atacar.

Em Gorodez visitei uma pequena estação elétrica, que estava abandonada. Nunca tinha visto, até aquele momento, um trabalho de desmontagem tão perfeito! Não ficara nada, absolutamente nada, ainda que encontrássemos material disseminado pelas imediações da estação! A ordem de evacuação e de desmontagem fora cumprida e executada ao pé da letra num tempo rapidíssimo.

Passamos pela zona pantanosa de Pripet, que nos pareceu absolutamente intransitável. Contudo, os russos consideravam-na um terreno apropriado para o movimento de suas tropas. Ao norte da estrada principal havia uma contínua fileira de colinas, e as planícies eram terras cultivadas que pertenciam aos diversos kolchoses disseminados por toda a região na qual abundavam os bosques. Todas as aparências demonstravam que, destes, os russos não cuidavam; várias clareiras foram abertas para a obtenção de lenha; o restante das árvores estavam descuidadas, ninguém se preocupara em cortá-las corretamente.

As estradas principais eram razoáveis, mas as vicinais eram simples caminhos onde se observavam rastros de viaturas numa só direção. Esses caminhos tinham uma largura de dez a quinze metros. Os rastros das viaturas facilitaram nosso avanço. O tempo estava muito seco e, por isso, enfrentamos verdadeiras nuvens de poeira. As localidades pelas quais passávamos estavam completamente vazias; a população fugira para o Leste com as tropas russas.

Não se pode dizer que naquelas dias houvesse uma verdadeira frente. As divisões alemãs limitavam-se a avançar para o Leste com muita dificuldade. Toda vez que uma viatura sofria uma avaria ficávamos em apuros. Sempre que fazíamos um alto éramos atacados por grupos isolados de tropas russas que se apressavam em retrair depois de nos terem hostilizado.

Soldados alemães da divisão Großdeutschland marcham no front leste, Julho de 1941

Em nosso avanço chegamos a um pequeno rio, em cujas margens se estabeleceu um forte combate. O Capitão Rumohr insistiu que se fizesse um minucioso reconhecimento do terreno numa fileira de colina. Formou-se uma patrulha integrada pelo Capitão Rumohr, seu auxiliar, Tenente Wurach, o oficial de comunicações, cinco sargentos e eu. Dirigimo-nos a uma das colinas com o propósito de alcançar seu cume e ver dali o que se passava na margem oposta do rio. Tivemos que atravessar um terreno acidentado onde havia algumas árvores. Uma chuva de balas caiu sobre nós. Apesar de termos visto que oferecíamos um bom alvo, continuamos avançando com toda a sorte de precauções. As metralhadoras inimigas não paravam de atirar e algumas granadas explodiram perto de nós. Realmente nos encontrávamos em precária situação. Tudo o que pudemos fazer foi nos atirarmos ao solo, aproveitando os declives do terreno para nos abrigar.

Não era agradável sentir-se como um coelho quando o caçam. Toda a vez que levantava a cabeça, via a sola das botas do companheiro que estava deitado diante de mim; em seguida voltava a afundar a cabeça no terreno, porque vinha uma nova saraivada de balas.


Russo de um tanque leve T-26 se rende, Augosto de 1941

Tentamos avançar devagar, cautelosamente, arrastando-nos pelo chão. Isto nos custou um grande esforço, pois o fogo inimigo acompanhava todos os nossos movimentos. De repente, ouvi um grito às minhas costas. Voltei a cabeça e vi que um dos sargentos, que rastejava atrás de mim, tinha sido ferido no ombro. O homem que ia a seguir agarrou-o pelos quadris e levou-o a um lugar abrigado. Uma chuva de granadas, lançada pelos nossos passou por cima de nós e foi explodir em pontos-chave do inimigo. Tivemos sorte, pois o terreno não era difícil para a progressão; caso contrário, o avanço teria sido dificílimo. Um dos nossos homens, que avançava na frente, lançou um gemido. Logo, voltou a cabeça e gritou:

- Está morto! Já não podemos fazer nada por ele...

O fogo tornou-se tão intenso que nos impediu qualquer movimento. Os minutos nos parecem séculos! De repente, lembrei, com estranheza, que tinha um tablete de chocolate num dos bolsos da calça. Fiquei em dúvida se o comia ou não. Decidi que seria melhor não fazê-lo.

Que pensamentos mais esquisitos se apoderam de nossa mente em tais momentos!

Estava deitado no chão, com as pernas e braços estendidos. Ao fim de algum tempo, que me pareceu uma eternidade, o capitão, que se encontrava ao meu lado, disse:

- Devemos prosseguir, Otto; se não o fizermos seremos apanhados.

Em conseqüência, continuamos o avanço, rastejando. O homem que estava à minha frente foi ferido; voltou a cabeça e me olhou. Fiz um grande esforço para chegar junto a ele. Consegui meu propósito e pudemos colocá-lo a salvo, ao abrigo de uma árvore. Vi que sua camisa estava encharcada de sangue, e que uma bala tinha perfurado o seu peito. Pus uma atadura sobre o ferimento e aquilo foi tudo; não podia fazer mais nada.

Ouvimos um forte tiroteio vindo da nossa margem do rio; isto foi a causa para não continuarem atirando contra nós com tanta fúria. Naturalmente nos apressamos em aproveitar tal situação. Eu e mais três companheiros apanhamos o ferido e corremos colina acima, e como não podíamos levá-lo com cuidado, gritava de dor. Chegamos a uma casa e nos abrigamos nela, colocando o ferido sobre o solo e ao amparo de suas paredes. Agradeceu-nos com um sorriso; um dos nossos ficou junto a ele para atendê-lo.

Fizemos um buraco no teto de palha da casa e nele instalamos um telêmetro. Pudemos verificar que acertamos em cheio, pois dali podíamos observar as posições inimigas. Fizemos uns croquis do terreno e assinalamos as linhas inimigas. Enviamos os dados necessários ao tiro das baterias, que não demoraram em abrir fogo. A frente russa tinha sido desarticulada e apenas alguns focos isolados ofereciam resistência.

Nossa vanguarda conseguira aproximar-se de Beresina; um pequeno rio, apenas, nos separava do próximo objetivo. Foi então que nos encontramos em uma situação difícil. Um batalhão de infantaria, apoiado por uma bateria, teve que enfrentar uma forte resistência inimiga. Alguns quilômetros atrás, num cruzamento de estradas, estava o estado-maior da Divisão. O pequeno reboque que servia de alojamento ao comandante da Divisão, papai Hausser, como o chamávamos, estava na orla do bosque onde se encontrava o estado-maior do Regimento de artilharia. Dirigi-me para lá, junto com o Coronel Hansen, que não fazia outra coisa a não ser dizer:

- Já são treze horas e estou com o estômago vazio; creio que já é hora de comer alguma coisa quente.

Lembro ter respondido:

- Vou curar seu mal!

Tropas alemãs marcham. Ao fundo, uma vila russa em chamas.

Em seguida, peguei, na minha viatura, dois ovos e um pedaço de toicinho; acendi um pequeno fogo e não tardou muito, saboreamos um pequeno lanche. Quando terminamos de comer, Hansen levantou-se e dirigiu-se para o reboque. Precisamente naquele momento explodiram várias granadas perto do lugar onde estávamos.

Senti o sangue gelado e temi pela vida do coronel, que me confessou mais tarde ter levado um grande susto. O General Hausser pediu ao Coronel Hansen que se reunisse com ele para uma breve conferência. Disse então, que avançáramos demais e que não tínhamos segurança suficiente para prosseguir, já que ignorávamos se a zona onde nos encontrávamos estava ainda em poder do inimigo. Nossas baterias não podiam atingir a distância de 120 quilômetros. Por isso era necessário que aguardássemos o avanço do grosso da artilharia.

Ofereci-me como voluntário para retornar ao lugar onde estava instalada a nossa artilharia; deram-me uma viatura e cinco homens. Uma metralhadora e cinco submetralhadoras constituíam nosso armamento.

Tinha marcado sobre a carta o itinerário que tínhamos percorrido. Por isso, sabia onde encontrar a unidade. Contudo, descobri que a carta não estava correta; conseqüentemente fui obrigado a orientar-me pela intuição.

Não é agradável viajar, com apenas alguns homens, por um território ocupado pelo inimigo. Na condição de oficial, não devia deixar transparecer a insegurança que sentia. Nosso itinerário passava por vários bosques. Mais de uma vez nossa viatura ficou atolada. Ouvimos muitos barulhos suspeitos e, em mais de uma ocasião, meus soldados atiraram por simples precaução, enquanto o motorista aumentava a velocidade. Quando chegamos a uma aldeia, situada na metade do caminho, lembrei que ao avançar tínhamos passado exatamente ali.

Um estranho pressentimento fez com que eu não continuasse pelo mesmo caminho. Por esta razão, dobrei à esquerda e apressei a marcha, embora não conseguíssemos avançar mais de vinte quilômetros numa hora. Um obstáculo imprevisto - um montão de areia - deteve a nossa marcha. Isto nos obrigou a fazer um alto de um quarto de hora. Mas como já éramos veteranos em tão difíceis situações, construímos um pequeno caminho suplementar com galhos e alguns troncos, e assim pudemos contornar o obstáculo facilmente. Não paramos para comer. Não ignorávamos que nossa missão era importante e que era perigoso determo-nos naquelas paragens.

Encontramos nossa Unidade depois de sete horas de marcha, quando já tinha escurecido. Rapidamente transmiti ao Capitão Rumohr a ordem para avançar. O Tenente Wurach colocou-me a par da situação.

Disse-me que a estrada principal voltara a ser ocupada pelos russos. Com esta notícia, fiquei satisfeito por ter passado pela outra, no caminho de regresso. Tivéramos uma grande sorte em não passar à direita do povoado que deixáramos atrás.

O avanço da unidade foi muito lento. Como era noite, não foi fácil orientarmo-nos. Eu ia à testa da coluna e não deixava de pensar: a estrada certa era a direita ou da esquerda? Só fizemos pequenos altos para reabastecer as viaturas. Fomos, inclusive, obrigados a combater em determinados pontos para podermos prosseguir. Algumas viaturas ficaram atoladas e tivemos que fazer com que avançassem à força. Chegamos a nosso destino ao meio-dia seguinte e ali nos inteiramos de que não nos esperavam tão cedo. Fomos recebidos com grande alegria. O Coronel Hansen elogiou-me e disse que faria a proposta para que eu fosse condecorado com a Cruz de Ferro.

Atravessamos o Beresina ao sul de Bosnick. Esta operação durou três dias, porque o inimigo nos deu muito o que fazer. Os russos conseguiram reunir forças e se defendiam como leões.

Decorridos quinze dias do início desta ofensiva, aprendêramos a nos abrigar utilizando o terreno. Em poucas ocasiões podíamos instalar nossos postos de comando normalmente, já que éramos obrigados a fazer grandes buracos para instalá-los. Assim podíamos dormir mais sossegados. Nossa situação era incômoda, porque a artilharia russa demonstrava ter boa pontaria.

Nossas posições, na margem direita, tinham cotas mais elevadas do que as do inimigo. Nosso comandante, Jochen Rumohr, mandou fazer uma trincheira de um metro e meio de profundidade ao longo da colina. Não era fácil, da retaguarda, chegar a ela; as comunicações estavam batidas pelo fogo inimigo. Os encarregados de reparar os danos causados pelo fogo dos russos levavam uma vida infernal, pois não tinham outra coisa a fazer a não ser abrigar-se constantemente para evitar que fossem atingidos pelo fogo; quando os cabos que reparavam não tinham sido danificados pelas granadas da artilharia soviética, eram por alguma de nossas viaturas. Dentre esses soldados houve muitos mortos e feridos.


Tropas da Wehrmacht marcham por uma estrada russa no verão de 1941.


Trincheiras mais profundas camuflavam os telêmetros e os equipamentos de rádio, assim como os telefones de campanha. O coronel viu claramente, através de um telêmetro, o prolongado zigue-zague das trincheiras inimigas na outra margem. Víamos apenas um ou outro soldado russo, uma vez que estavam perfeitamente cobertos e quase não se moviam, o que não quer dizer que não existisse um grande número deles em cada bosque e em cada colina. Tomamos a decisão de atirar com todas as peças ao mesmo instante em que notássemos um movimento de tropas nas trincheiras inimigas.

Aproveitamos uma pausa para acender um cigarro e beber um trago de nossos cantis. Tomamos também um pouco de muckefuck, o desagradável café que já conhecíamos de nosso tempo de aquartelamento; mas, naquele momento, achamo-lo delicioso.

Rumohr estava tão cansado que mal podia segurar o cigarro. Por isso decidiu dormir algumas horas; Wurach fez o mesmo. Pediram-me que os despertasse em caso de alguma novidade. Dormiram ao fechar os olhos, apesar da postura incômoda que foram obrigados a tomar.

Não parei de observar, através do telêmetro, que estava muito bem camuflado com folhagens. Podia ver uma parte de nossas posições e constatei que estavam tranqüilas. De vez em quando o inimigo atirava algumas granadas contra as nossas linhas; mas, em termos gerais, a situação era relativamente tranqüila.

Instintivamente observei algo que se movia nos bosques à nossa frente. Dois caminhões apareceram e desapareceram ante aos meus olhos, e muitos outros o seguiram envoltos em nuvens de poeira. Cheguei a contar quinze, vinte, quarenta deles, que foram seguidos por muitos mais. Ordenei que pusessem em contato, pelo rádio, com nossas três baterias. Feito o contato disse: "Preparar para fazer fogo sobre o ponto 'W', 18 graus!". Responderam-me: "Estamos prontos". Despertei o comandante e informei-o da novidade. Lembro perfeitamente a sua resposta:

- Seis tiros, Otto. Dê a ordem.
Em seguida voltou a fechar os olhos. Apressei-me em emitir a ordem e logo ouvi um sibilo, assim como as explosões na outra margem do rio.
Nosso tiro foi perfeito e não necessitou de qualquer correção. Tudo passou no intervalo de poucos minutos. Vimos vários soldados russos que se precipitaram em sair do bosque. Vimos, também, que vários pontos das posições inimigas estavam envoltos em chamas; escutamos as explosões de grande número de paióis.
Seguimos avançando pelas margens do Dnieper; uma inesperada chuva, que durou várias horas, deu idéia do que nos esperava. Tivemos que nos defrontar com verdadeiras montanhas de barro e lodo, que foram nossos maiores obstáculos. Os primeiros veículos fizeram valas tão profundas no terreno, que se atolavam nelas os que se seguiam. Neste aspecto, todas as precauções foram inúteis. Cortamos vários troncos de árvores e cobrimos o terreno com eles. Apesar de tudo só conseguíamos avançar lentamente. Tivemos um sem-fim de avarias e panes; os caminhões tiveram várias molas quebradas. Tínhamos esgotado todas as peças de reposição e não sabíamos onde encontrar novas. Abandonamos muitas viaturas nas margens da estrada. Desmontamos tudo aquilo que considerávamos de utilidade e deixamos o restante. Milhares de carcaças de viaturas puderam ser vistas nas estradas russas.

Soldados russos mortos na traseira de um tanque T-26 nos primeiros meses da guerra na Rússia.


Mantivemos um breve combate ao sul de Sckow; quando conseguimos passar o Dnieper, percebemos que a estrada principal estava completamente intransitável. Por esta razão, o grosso da Divisão atravessou o rio um pouco mais ao norte sobre uma ponte construída às pressas. Foi naquele momento que recebemos a terrível notícia de que a companhia de pontoneiros, que tinha ficado ao sul após construir a referida ponte, fora atacada em plena noite por tropas russas; só puderam salvar-se dois soldados que escaparam da tremenda carnificina, e foram eles, precisamente, que nos informaram o acontecido. O aspecto que oferecia o local da batalha era dantesco. Chegamos à conclusão que seríamos obrigados a lutar encarniçadamente na frente Leste.
Passamos por Suchari e chegamos a Tschernikow sem enfrentar muita resistência por parte do inimigo. Era a primeira cidade russa depois de Brest-Litowsk. Disse cidade, apesar de mal podermos considerá-la como tal; contava apenas com alguns prédios de alvenaria no centro; o resto eram construções de madeira, as típicas construções que podiam ser vistas em toda a Rússia.
A maior parte das ruas estava calçada com grandes paralelepípedos, que nos faziam recordar as ruas de nossas cidades medievais. Causou-me espécie ver numerosos microfones colocados a cada duzentos metros. Os alto-falantes, muito antigos certamente, estavam dentro das casas e tinham conexão com os dos edifícios públicos da cidade. Até que chegássemos nas proximidades de Moscou, não encontrei um só aparelho de rádio particular em toda a Rússia.

Fonte: Bibliex - Audaciosas ações de Otto Skorzeny - Autobiografia - Bibliex

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Lista de nomes dos áses e de vitórias - Russia (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas)

Há algumas notas à salientar acerca de alguns pilotos, por isso, após o número de vitórias há uma outra underline seguida pelo comentário nos referidos casos.



Nome do Ás_Vitórias_Notas

1.Ivan N. Kozuhedub_62
2.Aleksandr I. Pokryshkin_59
3.Grigori A. Rechkalov_58
4.Nikolai Gulayev_57
5.Arsenii V. Vorozheikin_52
6.Kirill A. Yevstigneev_52
7.Aleksandr F. Klubov_50
8.Dimitriy B. Glinka_50
9.Ivan M. Pilipenko_48
10.Nikolai M. Skomorokov_46
11.Vasilii N. Kubarev_46
12.Georgi D. Kostilev_43
13.Vladimir I. Bobrov_43_(13 vitórias na Guerra Civil Espanhola)
14.Sergi Morgunov_42
15.Vitalii I. Popkov_41
16.Aleksi V. Alelyukin_40
17.Lapanskii_40
18.Viktor F. Golubev_39
19.Vasilii F. Golubev_38
20.Mikhail Y. Pivovarov_37
21.Sergi D. Luganskii_37
22.Aleksandr I. Koldunov_36
23.Anatoli G. Dolgikh_36
24.Grigorii K. Gul'tyaev_36
25.Nikolai F. Kuznetsov_36
26.Ivan I. Babak_35
27.Nikolai S. Pavlushkin_35
28.Pavel M. Kamozin_35
29.Vladmir D. Lavrinenkov_35
30.Aleksandr M. Chislov_34
31.Aleksandr V. Kotchekov_34
32.Fedor M. Chubkob_34
33.Ivan N. Sytov_34
34.Petr A. Gnido_34
35.Sergi I. Lukyanov_34
36.Aleksei K. Ryazanov_32
37.Andreii Y. Borovykh_32
38.Ivan N. Stepanenko_32
39.Mikhail M. Zelenkin_32
40.Mikhail S. Komelkov_32
41.Nikolai F. Krasnov_32
42.Pavel Y. Gololvavchev_31
43.Victor V. Kirilyuk_31
44.Aleksei S. Khobystov_30
45.Boris B. Glinka_30
46.Fedor F. Arkhipenko_30
47.Ivan D. Likhobabiyi_30
48.Petr A. Pokryshev_30
49.Petr Y. Likholetov_30
50.Sultan Akmet-khan_30
51.Velentin N. Makharov_30
52.Boris F. Safnov_22
53.Stepan Suprun_15
54.Lily Litvak_12_(mulher)
55.Katya Budanova_6_(mulher)

sábado, 26 de dezembro de 2009

O incrível combate de 1 contra 43


A 18 de agosto de 1941, um único tanque KV-1 (o KV-1 de número 864, comandado pelo Tenente Kolobanov) foi entrincheirado e camuflado nas proximidades da cidade de Krasnogvardeysk (nas imediações de Leningrado).
A tripulação recebeu ordens para defender a rodovia para Kinigsep. Outros quatro KV-1 foram designados para defenderem outras duas rodovias. Todos os tanques tinham recebido munição em dobro, sendo que 2/3 desta era de munição AP (Armor Piercing – Perfuradora de Blindagem).
Uma ofensiva da 8ª Divisão Panzer alemã estava sendo esperada. O KV-1 de Kolobanov estava em uma excelentemente posição, oculto entre as árvores de uma colina, sendo que o entroncamento rodoviário ficava num nível abaixo da sua posição, numa área pantanosa.
No dia seguinte, tropas alemãs de reconhecimento, usando motocicletas, um meia-lagarta e um caminhão leve passaram pelo local. Cinco minutos depois, a esperada coluna, com 43 panzers apareceu na rodovia, alinhadas em fila. O primeiro disparo do tanque soviético provocou o incêndio do tanque de vanguarda da coluna, mais dois disparos foram feitos e o segundo tanque da coluna também foi destruído.
Então Kolobanov ordenou que se disparasse no ultimo tanque da coluna e este também foi destruído. Os alemães ficaram bloqueados, mas não conseguiram localizar o tanque soviético, então como tentativa de destruir o inimigo, dispararam a esmo.
Na tentativa de sair do local, diversos tanques alemães acabaram por se aventurar na área pantanosa e terminaram imobilizados, se tornando alvos fáceis. O caos tomou conta então da rodovia. Os tanqueiros soviéticos destruíram 22 panzers num período de 30 minutos.
O KV-1 foi finalmente localizado pelos alemães, que abriram maciço fogo contra ele, porém mesmo acertando os disparos, estes não conseguiram atravessar a espessa couraça deste pesado tanque soviético, mas mesmo sem destruí-lo, impuseram uma terrível condição de combate à tripulação soviética, pois o som dos impactos contra o tanque produzia um imenso e terrível som dentro do KV-1. Um dos disparos dos panzers atingiu e danificou o sistema de movimentação da torre, obrigando então Kolobanov a tirar seu KV-1 da trincheira para fazer o enquadramento dos alvos movimentando todo o tanque.
A tripulação soviética percebeu a aparição de dois canhões auto-propulsados no entroncamento. O primeiro disparo do KV-1 deixou fora de ação um dos canhões, mas um disparo do outro danificou o periscópio do KV. Imediatamente responderam ao fogo e destruíram o segundo auto-propulsado. Após ter terminado sua munição, Kolobanov entrou em contato com seus superiores, via rádio, dando conta da situação, recebeu então congratulações e a ordem de deixar o local, uma vez que estavam então enviando outros três KV-1 para o local, afim de ‘concluir’ a tarefa. Os três KV-1 destruíram então mais 20 panzers.
Ao todo, foram destruídos 42 panzers e dois canhões auto-propulsados alemães. O KV-1 #864, de Kolobanov foi atingido por 135 disparos, mas não houve qualquer penetração na blindagem. Kolobanov foi condecorado com a “Ordem de Lenin” e Usov (piloto) recebeu a “Ordem da Bandeira Vermelha”.

Fonte: http://www.wio.ru/tank/ww2tank.htm

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Dimitri Fiedorovitch - Um russo comandando um tanque Sherman

A nova e a velha cavalaria. Tanque Sherman M4A2 do Exercito Vermelho na Russia.


Dimitri Fiedorovitch, em quais tanques americanos você lutou?
- Em Shermans. Nós os chamávamos de "Emtchas", que vem de M4 [em russo "em tchietirie"]. Inicialmente eles tinham o canhão principal curto, mais tarde começaram a vir com a versão mais longa e com freio de boca. Na inclinação da blindagem frontal havia uma trava de transporte usada para prender o tubo durante marchas em estrada. O canhão principal era bem comprido. No todo, era um bom veículo, mas como todo tanque, tinha seus altos e baixos. Quando alguém me diz que esse foi um tanque ruim eu respondo "Me desculpe, mas não se pode dizer isso. Ruim comparado a que?".

Vocês só possuíam tanques americanos em sua unidade?

- Nosso 6º Exército de Tanques da Guarda Blindado - sim, nós tínhamos seis deles - lutou na Ucrânia, Romênia, Hungria, Tchecoslováquia e Áustria. A guerra terminou para nós na Tchecoslováquia. Então eles nos enviaram para o extremo leste e nós lutamos contra os japoneses. Lembrando-lhe que o 6º Exército era composto por dois corpos: o 5º Corpo de Tanques da Guarda Blindado "Stalingrado" com nossos T-34s e o 5º Corpo Mecanizado, no qual eu lutei. No início nosso corpo tinha Matildas, Valentines e Churchills.

Sim, um pouco tarde. Depois de 1943 nós recusamos vários tanques ingleses porque eles apresentavam deficiências significantes. Eles tinham 12-14 cavalos por tonelada quando bons tanques deveriam ter 18-20 cavalos por tonelada. Desses três tanques britânicos o melhor era o Valentine produzido no Canadá. Sua blindagem era bem inclinada e o mais importante, ele tinha um canhão principal de 57mm. Minha unidade os substituiu pelos Shermans americanos no final de 1943. Depois da Operação Kishinev nosso Corpo se tornou o 9º Corpo Mecanizado. Esqueci de mencionar que todo corpo era composto por quatro brigadas. Nosso corpo tinha três brigadas mecanizadas e uma brigada de tanques, na qual lutei. Um Corpo de Tanques tinha três brigadas de tanques e uma brigada mecanizada. Nós tínhamos Shermans em nossa brigada ao fim de 1943.

Mas os tanques britânicos não foram retirados de serviço, de modo que eles continuaram lutando até serem destruídos. Houve algum período em que seu Corpo apresentava uma mistura de tanques britânicos e americanos? Havia algum problema ligado à presença de tanques de diferentes tipos e nacionalidades? Por exemplo, problemas com manutenção e suprimentos?

Bom, problemas sempre estiveram presentes. De maneira geral, o Matilda era imprestável! Eu vou te falar de uma deficiência do Matilda que nos causou vários problemas. Algum tolo no Comando Geral planejou uma operação e nos enviaram para a área de Yelnia, Smolensk e Roslavl. O terreno de lá era pantanoso. O Matilda tinha saias laterais. O tanque foi originalmente criado para operar no deserto. Essas bordas funcionavam bem no deserto, pois a areia passava por seus escoadouros retangulares. Mas nos pântanos da Rússia a lama se amontoava no espaço entre as esteiras e essas bordas laterais. A transmissão do Matilda tinha um mecanismo auxiliar para facilitar a troca de marcha. Esse mecanismo não suportava as condições impostas pelo terreno russo, superaquecendo e então falhando. Isso não era problema para os ingleses. Em 1943 eles desenvolveram uma peça de reposição que era instalada facilmente, bastando-se desparafusar quatro parafusos, tirar a peça velha e inserir a nova.

Conosco, nem sempre funcionava assim. No meu batalhão havia um Primeiro Sargento (Starshina) chamado Nesterov, ex-motorista de trator em uma "kolkhoz" [uma espécie de comunidade agrícola soviética] que era o mecânico do batalhão. Em geral cada uma de nossas companhias de tanques tinha um mecânico, Nesterov era o mecânico do batalhão inteiro. No nosso Corpo nós tínhamos um representante (cujo nome me foge à memória) da firma inglesa que fabricava esses tanques. Eu tinha o seu nome escrito, mas quando meu tanque foi atingido tudo que havia dentro foi queimado - fotografias, documentos e um caderninho. Éramos proibidos de fazer anotações no front, mas mesmo assim eu o fiz às escondidas. De qualquer forma, esse representante britânico constantemente interferia em nossas tentativas de reparar componentes individuais do tanque. Ele dizia "Isso vem com um selo de fabricação. Não mecha", de modo que tínhamos que retirar toda a peça a fim de instalar uma nova. Nesterov fez um simples reparo para todas essas transmissões. Certa vez o representante veio até ele e perguntou "Em que universidade você estudou?" ao que Nesterov respondeu "Na kolkhoz!".

Os Shermans eram muito superiores nesse quesito. Você sabia que um dos designers do Sherman foi um engenheiro russo chamado Timoshenko? Ele era parente do Marechal S.K. Timoshenko.

- O Sherman tinha suas franquezas, sendo a maior delas o seu alto centro de gravidade. O tanque freqüentemente tombava para os lados, como uma boneca Matrioshka (uma boneca de madeira). Mas eu estou vivo hoje graças a essa deficiência. Estávamos lutando na Hungria em Dezembro de 1944. Eu comandava o batalhão e numa curva meu motorista-mecânico freou. Meu tanque tombou para o lado. Nós todos tombamos lá dentro, é claro, mas nós sobrevivemos. Enquanto isso os outros quatro tanques prosseguiram e foram pegos em uma emboscada. Foram todos destruídos.

O Sherman tinha uma esteira de metal coberta por borracha. Alguns autores contemporâneos apontam essa característica como uma deficiência, uma vez que em combate a borracha poderia pegar fogo. Com as esteiras descobertas de sua proteção, o tanque era inutilizado. O que você tem a dizer a esse respeito?

- Por um lado essa esteira coberta de borracha era uma grande vantagem. Primeiro porque fazia a esteira ter uma vida útil aproximadamente duas vezes maior que a de uma esteira de aço. Eu posso estar enganado, mas eu acredito que a vida útil da esteira de um T-34 é de 2500 quilômetros. A vida útil das esteiras do Sherman era de 5000 quilômetros. Em segundo lugar, o Sherman deslizavam suaves como um carro em superfícies difíceis ao passo que os nossos T-34 faziam tanto barulho que só o diabo sabe há quantos quilômetros podiam ser ouvidos. Qual era o lado ruim das esteiras do Sherman? Em meu livro, "Commanding the Red Army's Sherman Tanks", há um capítulo intitulado "Descalço" no qual eu escrevi a respeito de um incidente que ocorreu em agosto de 1944, na Romênia, durante a Operação Jassy-Kishinev. O calor era terrível, algo em torno de 30° C. Nós havíamos andado aproximadamente 100 km pela rodovia em um único dia. As coberturas de borracha que cobria nossas rodas auxiliares ficaram tão quentes que a borracha derreteu e se soltou em longos pedaços. Nosso corpo parou não muito longe de Bucareste. A borracha estava se soltando, os cilindros começaram a derreter, o barulho era terrível, e no final tivemos que parar. Isso foi imediatamente reportado a Moscou. Seria isso uma piada? Um Corpo parado? Para nossa surpresa eles nos trouxeram novos cilindros de suporte rapidamente e nós passamos três dias instalando-os. Eu ainda não sei onde é que eles conseguiram tantos cilindros em tão pouco tempo.

Havia ainda um outro contra da esteira emborrachada. Mesmo em uma superfície ligeiramente congelada o tanque escorregava como uma vaca gorda. Quando isso acontecia, nós tínhamos que amarrar arame farpado em torno das esteiras, ou qualquer coisa que nos desse um pouco de tração. Mas isso era com os primeiros tanques que nos foram enviados. Tendo notado isso, os representantes americanos informaram sua companhia e as próximas levas de tanques vieram acompanhadas de esteiras adicionais com pontas de tração. Se eu me lembro bem havia sete blocos para cada esteira, num total de quatorze para cada tanque. No geral os representantes americanos trabalhavam de maneira eficiente. Qualquer deficiência por ele observada e reportada era rapidamente corrigida.

Um outro defeito do Sherman era a escotilha do motorista. A escotilha nas primeiras leva de Shermans era localizada no teto da torre e simplesmente abria-se para fora. Freqüentemente o motorista-mecânico a abria e espiava para ter um melhor campo de visão. Não raro durante a rotação da torre o canhão principal batia na tampa da escotilha que por sua vez atingia a cabeça do piloto. Eu vi isso acontecer uma ou duas vezes na minha própria unidade. Posteriormente os americanos corrigiram esse defeito de modo que a escotilha se levantasse e depois deslizasse para o lado, como nos tanques modernos.

Outra grande vantagem do Sherman era seu sistema de recarga da bateria. Em nossos T-34 era necessário ligar o motor, no seu máximo de 500 cavalos, a fim de recarregar as baterias. No compartimento da tripulação do Sherman havia um motor auxiliar a gasolina, pequeno como o de uma motocicleta. Era só liga-lo e recarregar as baterias. Essa era uma grande vantagem para nós.

Por muito tempo depois da guerra uma pergunta me perseguiu. Se um T-34 começasse a pegar fogo, nós tentávamos correr para o mais longe dele possível, mesmo que isso fosse proibido, porque a munição interna explodia. Por um breve período eu combati em um T-34 nas proximidades de Smolenks. O comandante de uma de nossas companhias teve seu tanque atingido. A tripulação conseguiu escapar do tanque, mas não pode fugir porque os alemães estavam varrendo o campo com metralhadoras. Então eles se jogaram sob o campo de trigo e o tanque explodiu. Ao anoitecer quando a batalha havia se acalmado, nós fomos até lá. Eu encontrei o comandante deitado no chão com um enorme pedaço da blindagem do tanque saindo de sua cabeça. Quando um Sherman pegava fogo a munição interna não explodia. Por quê?

Isso ocorreu uma vez na Ucrânia. Nosso tanque foi atingido. Nós saímos dele, mas os alemães estavam atirando morteiros em volta de nós. Nós nos deitamos debaixo do tanque enquanto ele queimava. Nós ficamos lá por um longo tempo, sem lugar pra ir. Os alemães estavam varrendo em volta do tanque com tiros de metralhadora e morteiros. Nós ficamos lá. A parte de trás do meu uniforme começou a esquentar. Nós pensamos que estávamos acabados. Ouviríamos um grande estrondo e tudo estaria acabado. Um túmulo de irmãos. Ouvimos vários barulhos vindos da torre. Era a munição perfuradora de blindagem explodindo. Logo o fogo atingiria as cargas de alto explosivo e tudo viraria um inferno. Mas nada aconteceu. Por quê? Porque nossas cargas de alta explosão explodiam e as americanas não? Depois descobri que era porque a munição americana tinha explosivos mais refinados. Nossa munição tinha algum tipo de componente que aumentava o poder da explosão conseqüentemente aumentando o risco de detonação da munição.

É considerado notável o fato de que o Sherman era muito bem equipado do lado de dentro. Isso é verdade?

- É verdade. Não são boatos! Eles eram lindos! Como eles dizem hoje "Euro-repair"! Era um tipo de retrato europeu. Em primeiro lugar: ele era pintado lindamente. Segundo: os assentos eram confortáveis, cobertos por um tipo de couro artificial. Se o tanque fosse abatido ou danificado e abandonado literalmente por apenas alguns minutos, a infantaria iria roubar todo o seu estofamento. Com ele se fazia excelentes botas. Simplesmente lindas!

Como você vê os alemães? Como fascistas e invasores ou não?

- Quando alguém está na sua frente com uma arma nas mãos e é uma questão de quem vai matar quem, há apenas uma resposta. Ele era o inimigo. Assim que um alemão jogava fora sua arma e nós os capturávamos, então a coisa era outra. Eu não estive na Alemanha. Eu já te disse onde eu combati. Ai vai um incidente que ocorreu na Hungria. Nós tínhamos um "letuchka" (uma espécie de caminhão) alemão. Nós penetramos na retaguarda alemã em formação de coluna. Então um outro caminhão alemão, como o nosso, uniu-se a nossa coluna. Pouco depois nossa coluna parou. Eu estava andando pela coluna, checando os veículos. Tudo estava em ordem. Eu me aproximei do ultimo veículo e perguntei "Sasha, está tudo ok?". Em resposta eu recebi um "WAS?". Que diabos? Eram alemães. Eu imediatamente pulei pro lado e gritei "Alemães!". Nós os cercamos, um motorista e dois outros. Nós os desarmarmos e só então nosso caminhão que deveria estar por ultimo apareceu na estrada. Eu disse "Sasha, onde vocês se meteram?". Ele respondeu "Nós nos perdemos". "Bom" eu disse "aqui está outro caminhão para você".

Então você não os odiava?

- Não, claro que não. Nós entendíamos que eles eram seres humanos.

E como era sua relação com os civis?

- Quando o 2º Front Ucraniano alcançou a fronteira romena em Março de 1944 nós paramos, e ficamos no mesmo local em agosto. De acordo com as leis de guerra, toda a população civil tinha que ser removida para no mínimo 100 quilômetros da linha de frente. Esse povo já havia feito suas plantações. As autoridades anunciaram a evacuação da população e enviou caminhões para pegá-los na manhã seguinte. Com lágrimas nos olhos os moldávios se sentiam impotentes. Como poderia? Eles tinham que abandonar suas plantações! O que restaria quando retornassem? A evacuação foi feita como exigido, e não tivemos praticamente nenhum contato com a população civil. Naquela época eu era Chefe de Estado-Maior do batalhão, encarregado do suprimento de munição. O comandante da brigada me convocou e disse "Loza, você é descendente de camponeses?", ao que eu respondi afirmativamente, e ele disse "Foi o que pensei. Estou nomeando-o chefe de grupo! Você será responsável por cultivar essas plantações e se assegurar de que tudo cresça. E Deus impeça que até mesmo um pepino se perda. Não toque em nada! Se necessário, plante sua própria colheita".

Grupos foram organizados; em minha brigada havia 25 homens. Por toda a primavera e verão nós trabalhamos nessas plantações. No outono, quando as tropas partiram, nos foi ordenado que convidássemos o presidente de uma kolkhoz ao qual foram designadas todas as plantações. Quando a dona da casa onde eu fiquei voltou, ela imediatamente correu para fora checar seu jardim e o que ela viu a deixou estupefata. Havia enormes abóboras, tomate e melões. Ele retornou para dentro da casa, caiu aos meus pés, e começou a beijar minhas botas. "Meu filho! Nós pensamos que tudo teria secado e sido destruído, mas tudo está em ordem. Tudo que temos que fazer agora é cuidar das plantações." Este é um exemplo de como lidávamos com a população.

Na Guerra a medicina funcionou bem, mas havia certos casos que tudo que os médicos podiam fazer era sacudir suas cabeças. Companheiro, naquela época a Romênia era o poço venéreo de toda a Europa! Nós tínhamos um ditado "Se você tem 100 Lei (moeda romena) você pode dormir com uma rainha". Certa vez um grupo de prisioneiros de guerra alemão caiu em nossas mãos. Seus bolsos estavam cheios de preservativos. Uns cinco ou 10. Nosso oficial político criou um grande caso "Vejam! Eles têm isso para poder estuprar nossas mulheres!". Mas na verdade esses alemães eram mais espertos que nós, pois compreendiam o que doenças venéreas podiam fazer com um exército. Eu queria que nossos médicos tivessem nos avisado dessas doenças. Mesmo tendo ficado pouco tempo na Romênia, nós tivemos um terrível surto de doenças venéreas em nossa unidade. Nosso Exército tinha dois hospitais: um para casos cirúrgicos e o outro para ferimentos leves. Eles foram obrigados a abrir uma seção para cuidar de doenças sexualmente transmissíveis mesmo estando sem equipamentos necessários.

Nós interagíamos com a população húngara da seguinte maneira. Quando entramos na Hungria em outubro de 44, vimos praticamente apenas vilarejos desertos. Quando entravamos nas casas encontrávamos fogões, com comida quente dentro, mas nenhuma pessoa na casa. Lembro-me que em uma cidade havia uma faixa enorme pendurada na parede de uma casa. Ela retratava um soldado soviético comendo um bebê. Esse povo estava tão aterrorizado que quando podiam, fugiam. Abandonaram todas as suas posses. Depois, com o passar do tempo, quando começaram a entender que tudo isso era propaganda sem sentido, começaram a voltar.

Lembro-me de uma ocasião em que paramos no norte da Hungria, na fronteira com a Tchecoslováquia. Àquela altura eu já era Chefe do Estado-Maior do batalhão. Um dia fui informado que uma velha senhora húngara havia entrando em um celeiro na noite passada. Nós tínhamos pessoal da contra-inteligência em nosso Exército que trabalhava para o SMERSH (Smert Shpionam, ou "morte aos espiões"). Havia um oficial da SMERSH em cada batalhão, e nas unidades de infantaria um para cada regimento e acima. Eu disse ao meu oficial da SMERSH para ir checar. Eles procuraram e encontraram uma garota de 18 ou 19 anos. Quando eles a trouxeram para fora ela estava toda coberta de arranhões e tossia. A velha senhora estava em lagrimas pensando que iríamos estuprar sua filha. Besteira! Ninguém encostou um dedo nela! Pelo contrário, nós a demos tratamento médico. Ela passou a nos visitar muito, passando mais tempo conosco do que em casa. Quando estive na Hungria 20 anos depois, eu a encontrei. Que mulher bonita! Ela havia se casado e tinha filhos.

Então vocês não cometeram nenhum excesso com a população civil?

- Não. Uma vez eu tinha que ir a algum lugar na Hungria. Tomamos um húngaro como guia para que não nos perdêssemos, afinal era um país estrangeiro. Ele fez seu trabalho pelo qual pagamos com dinheiro e comida enlatada.

Em seu livro "Commanding the Red Army's Sherman Tanks" você escreveu que os tanques M4A2 Sherman da 233ª Brigada eram armados não só com 75 mm de cano curto, mas também com 76 mm de cano longo em janeiro de 1944. Não era um pouco cedo? Esses tanques não apareceram mais tarde? Explique mais uma vez que canhões eram montados sobre os Shermans da 233ª Brigada.

- Hmm, eu não me lembro. Nós tínhamos bem poucos Shermans com o canhão de cano curto. No geral nossos canhões eram longos. Não foi só a nossa brigada que lutou com Shermans. Talvez estes de cano curto estivessem em outras. Em algum lugar no nosso Corpo eu vi tais tanques, mas em nossa Brigada a grande maioria era de cano longo.

Havia submetralhadoras Thompson (Tommy gun) em cada Sherman que chegava na URSS. Eu li que essas armas eram roubadas e que poucos tanques chegavam a vocês com as armas. Que tipo de armamento pessoal vocês tinha? Americano ou soviético?

- Cada Sherman vinha com duas submetralhadoras Thompson, calibre 11.43mm (.45), uma munição boa. Mas a submetralhadora era inútil. Nós tivemos vários problemas com ela. Alguns de nossos homens se envolveram em uma discussão. Eles acabaram atirando uns nos outros. Como ambos estavam usando jaquetas acolchoadas, a munição acabou ficando alojada nas jaquetas. Uma metralhadora inútil. Pegue uma submetralhadora alemã de coronha dobrável [submetralhadora MP-40]. Nós a amávamos, uma arma compacta. A Thompson era grande. Não podia se mover dentro de um tanque com ela.

O Sherman tinha uma metralhadora antiaérea Browning M2 calibre.50 . Vocês a usavam com freqüência?

- Eu não sei o porquê, mas alguns tanques chegaram até nós com essas metralhadoras, outros não. Nós as usamos contra alvos terrestres e aéreos. Nós a usávamos menos contra alvos aéreos porque os alemães não eram tolos. Eles nos bombardeavam ou de grande atitude ou executando mergulhos. A metralhadora era boa até uns 400 ou 600 metros na vertical. Os alemães lançavam suas bombas de uns 800 metros ou mais alto. Tente abater o safado! Sim, nós a usávamos, mas não era muito efetiva. Nós usávamos até nosso canhão contra aviões. Colocávamos o tanque na elevação de uma colina e atirávamos. Mas nossa impressão geral da metralhadora era boa. Elas foram de grande utilidade na guerra contra o Japão, contra os kamikazes. Nós atirávamos tanto neles que eles pegavam fogo e cozinhavam. Até hoje eu tenho um fragmento de um projétil de uma metralhadora antiaérea na minha cabeça.

Em seu livro você fala de uma batalha em Tinovka que envolveu unidades do 5º Corpo Mecanizado. Você escreveu que a batalha foi em 26 de janeiro de 1944. Alguém foi até lá e escavou alguns mapas alemães, que indicavam que em 26 de janeiro de 1944 Tinovka já estava em mãos soviéticas. Além disso, esse homem também encontrou um relatório da inteligência alemã, baseado no interrogatório de um tenente soviético de um batalhão antitanque da 359ª Divisão de Infantaria. Esse relatório indicava que havia T-34s e tanques médios americanos, assim como alguns KVs camuflados com palha em Tinovka. Esse homem gostaria de saber se você poderia estar enganado a respeito da data. Ele indica que uma semana mais cedo Tinovka estava, de fato, sob domínio alemão.

- É bem possível. Pense na quão confusa era a situação por lá! Rapaz, foi uma bagunça e tanto! A situação não mudava diariamente, mas de hora em hora. Nós cercamos o grupamento alemão Korsun-Shevchenkovskiy. Eles começaram a nos atacar para escapar do cerco ao mesmo tempo em que alemães fora do cerco nos atacavam para ajudar os camaradas. Essas batalhas foram tão pesadas que Tinovka mudou de mãos várias vezes por dia.

Você escreveu que em 29 de janeiro o 5º Corpo Mecanizado avançou para o oeste para apoiar unidades do 1º Front Ucraniano, que estavam segurando o contra ataque alemão. Alguns dias depois, o Corpo Mecanizado estava na área de Vinograd. Logo em seguida, em 1 de fevereiro, estava no caminho do principal ataque das 16ª e 17ª Divisões Panzer, 3º Corpo Blindado. Esse ataque foi lançado da área de Rusakoika e Noiai Greblia ao norte e nordeste. Após alguns dias, os alemães capturaram Vinograd e Tinovka, forçaram passagem sobre o rio Gniloi Tikich e alcançaram Antonoika. Você poderia descrever o papel do seu Corpo na batalha?

- Nós cercamos os alemães e fechamos o bolsão. Eles imediatamente nos empurraram para a borda exterior do círculo. O clima era terrível; a lama degelava durante o dia. Eu pulei fora do meu tanque e caí direto na lama. Era mais fácil tirar meus pés das minhas botas que minhas botas da lama. À noite, a temperatura caiu e o barro congelou. Nós lutamos contra esse barro no anel exterior. Tínhamos poucos tanques restantes. A fim de criar a impressão de que ainda estávamos fortes, à noite ligamos os faróis de todos os caminhões e tanques e seguimos em frente. Todo o nosso Corpo estava na defesa. Os alemães achavam que nossas defesas estavam entrincheiradas. Na verdade, quase 30% do nosso Corpo éramos formados por tanques. Os combates haviam sido tão intensos que nossas armas ferviam. Algumas vezes a munição fundia. Você disparava e ela simplesmente caía no meio do barro a alguns metros do tanque. Os alemães lutavam por suas vidas e não tinham nada a perder. Alguns pequenos grupos conseguiram romper nossas linhas.

Aviões alemães chegaram a infligir danos significativos ao seu equipamento? Em particular, o que você poderia me dizer do Henschel Hs-129?

- Nem sempre, mas acontecia. Eu não me lembro do Henschel; talvez houvesse esse avião. Algumas vezes nós conseguíamos desviar das bombas. Você podia vê-las caindo em sua direção, sabe? Nós abríamos as escotilhas, espiávamos e instruíamos o motorista pelo interfone: "A bomba vai cair na nossa frente". Mas, em geral, havia casos de tanques sendo atingidos e explodindo. Perdas dessa natureza não ultrapassaram 3 ou 5 tanques no batalhão. Era mais fácil um único tanque ser destruído. O maior perigo eram os atiradores armados com panzerfausts escondidos em construções. Na Hungria eu me lembro de estar tão cansado que pedi ao meu subordinado que comandasse o batalhão enquanto eu dormia. Eu dormi bem lá no compartimento de combate do meu Sherman. Nas proximidades de Beltsy eles lançaram munição para de pára-quedas. Pegamos um pára-quedas para nós e eu o usava como travesseiro. O pára-quedas era de seda de modo que piolhos não conseguiam entrar no tecido. Eu estava dormindo profundamente! De repente, eu acordei. Por quê? Por causa do silêncio. Acontece que aviões haviam destruído dois tanques. O batalhão havia parado, desligado os motores e tudo ficou silencioso. Então eu acordei.

Vocês trancavam suas escotilhas durante combates em cidades e áreas construídas?

- Definitivamente. Quando invadimos Viena, eles estavam arremessando granadas contra nós do andar superior dos edifícios. Eu ordenei que todos os tanques parassem sob passagens de edifícios e pontes. Vez ou outra, eu tinha que ir com meu tanque até terreno aberto, a fim de estender a antena de comunicação para enviar e receber comunicados do alto comando. Em certa ocasião, um operador de rádio e um motorista-mecânico estavam fazendo algo dentro do tanque e esqueceram a escotilha aberta. Alguém abriu e jogou uma granada lá dentro. Ela bateu nas costas do operador de rádio e explodiu. Ambos morreram. De modo que nós sempre trancávamos as escotilhas quando estávamos em cidades ou áreas construídas.

O principal efeito destrutivo da munição HEAT (carga oca), categoria à qual o panzerfaust pertencia, é a alta pressão no tanque, que incapacita a tripulação. Se as escotilhas fossem mantidas semi-abertas, isso não daria um certo grau de proteção?

- Sim, mas, mesmo assim, nós as mantínhamos trancadas. Talvez tenha sido diferente em outras unidades. Os atiradores de panzerfaust geralmente atiravam contra o compartimento do motor, de forma a incendiar o tanque, forçando a tripulação a sair e ficando exposta ao tiro das metralhadoras alemãs.

Qual era a chance de sobreviver se o seu tanque fosse atingido?

- Meu tanque foi atingido no dia 19 de abril de 1945. Um Tiger meteu um buraco em nós. O projétil passou pelo compartimento de combate e então atingiu o compartimento do motor. Havia três oficiais no tanque: eu como comandante do batalhão, o comandante da companhia Sasha Ionov (cujo tanque havia sido atingido) e o comandante do tanque. Três oficiais, um motorista-mecânico e um operador de rádio. Quando fomos atingidos o piloto morreu na hora. Minha perna direita foi ferida, à minha direita Sasha Ionov teve sua perna amputada. O comandante do tanque se feriu e, abaixo de mim, estava o canhoneiro, Lesha Romanshkin. Suas duas pernas foram destruídas. Pouco tempo antes desse ataque nós estávamos sentados e Lesha me dise "Se eu perder minhas pernas eu vou me matar. Quem precisaria de mim?". Ele era órfão e não tinha parente. Numa ironia do destino foi exatamente o que acabou acontecendo a ele. Nós tiramos Sasha do tanque e, em seguida, Lesha e começamos a ajudar na evacuação dos outros feridos quando Lesha se matou. Em geral um ou dois homens eram sempre feridos ou mortos. Dependia do local onde o tiro o atingia.

Os soldados ou suboficiais recebiam algum dinheiro para gastos na frente?

- Em comparação com as unidades regulares não de Guardas, os soldados e sargentos, até sargento sênior, recebiam pagamento dobrado, e os oficiais recebiam 1,5 vezes a mais em unidades da guarda. Por exemplo, meu comandante de companhia recebia 800 rublos. Quando me tornei comandante do batalhão passei a receber 1200 ou 1500 rublos, não me lembro da quantia exata. Em todo caso nós não recebíamos todo o pagamento. A maior parte era mantida em poupanças em uma conta pessoal. Nós podíamos guardar o dinheiro ou enviar para nossa família. Não carregávamos dinheiro no bolso. Nisso o governo era esperto. O que faríamos com dinheiro no meio de uma batalha, afinal?

O que vocês podiam comprar com o dinheiro que tinham?

- Certa vez, estávamos nos reunindo em Gorkiy. Eu fui a um mercado com o meu amigo Kolya Averkiev. Ele era um bom sujeito, mas morreu em seus primeiros combates! Nós estávamos dando algumas voltas por lá e encontramos um sujeito vendendo pão de centeio. Ele segurava um em uma mão e os outros dois em outra. Kolya perguntou "Quanto você quer pelo pão?" ao que o sujeito respondeu: "Três kosykh" (Kosaya é uma gíria russa, que significa 100 rublos, de forma que o sujeito estava pedindo 300 rublos por um pão). Kolya não sabia o que era "kosaya", então, tirou três rublos e entregou ao homem. Ele disse "Você está louco?", Kolya respondeu "Qual o problema? Você pediu três kosykh e eu te dei três rublos!", o homem disse "Três kosykh são trezentos rublos!" e Kolya respondeu "Você é uma pestilência! Você está aqui explorando as pessoas enquanto nós estamos derramando sangue por você!". Como oficiais, nós sempre portávamos nossas armas pessoais. Kolya puxou sua pistola. O homem agarrou os três rublos e bateu em retirada.

Além do dinheiro, uma vez ao mês os oficiais recebiam um pacote suplementar. Ele continha 200 gramas de manteiga, uma caixa de bolachas, um pacote de biscoitos e, creio eu, um pouco de queijo. Alguns dias depois do incidente no mercado nós recebemos nosso pacote. Nós cortamos o pão, passamos manteiga e cobrimos com queijo. Foi uma festa!

Que tipo de comida vocês recebiam em seus pacotes suplementares? Soviética ou americana?

- Ambas. Uma vez uma, outra vez a outra.

Soldados ou suboficiais recebiam alguma coisa por serem feridos? Dinheiro, comida, dispensa ou qualquer outra forma de compensação?

- Não.

Que tipo de recompensa era dada pela destruição de tanques, canhões, etc.? Alguém determinava essa recompensa ou haviam regras específicas? Toda a tripulação era premiada ou somente um indivíduo em especial?

- O dinheiro era dado à tripulação e dividido igualmente entre os membros.

Na Hungria, em 1944, em um de nossos encontros, nós decidimos que pegaríamos todo o dinheiro que recebêssemos como recompensa por abate de equipamento inimigo e faríamos uma "vaquinha" para, mais tarde, enviar às famílias dos nossos camaradas mortos. Depois da guerra, quando eu trabalhava nos arquivos, eu encontrei listas endossadas por mim com os dados da transferência do dinheiro para as famílias: três mil rublos, cinco mil rublos e assim por diante.

Na região do lago Balaton nós rompemos a retaguarda alemã e atacamos uma coluna de tanques, destruindo 19 deles, 11 dos quais eram tanques pesados. Muitos outros veículos também foram destruídos. Ao todo nós contamos 29 veículos de combate destruídos. Nós recebemos 1000 rublos por cada veículo.

Nossa brigada foi formada em Naro-Fominks [uma pequena cidade nas proximidades de Moscou, Valera], de modo que nela havia um grande número de homens de Moscou. Dessa forma, quando, após a guerra, fui estudar na Academia Militar Frunze, eu tentei encontrar as famílias dos soldados mortos. A conversa era triste, claro, mas era necessária, pois eu sabia como seu filho, pai ou irmão havia morrido. Muitas vezes eu sabia os detalhes, até a data. Eles se lembravam do dia em que foram notificados e de como isso mudou suas vidas. Lembrava-se de quando receberam o dinheiro. Algumas vezes conseguíamos mandar além do dinheiro, embrulhos contendo troféus (itens capturados).

Então quando um tanque era destruído ele era creditado individualmente para cada membro da tripulação?

- Sim.

Quem registrava as baixas inimigas?

- O Estado Maior e os comandantes de batalhão e companhia. O vice-comandante de manutenção também fazia registros. Nós criamos um grupo para fazer a evacuação dos tanques destruídos. Não confundir com grupos de retaguarda. Esse grupo normalmente consistia de 3 a 5 homens com um veículo de resgate [tanque sem torre, Valera] comandado pelo vice-comandante de manutenção. Eles se moviam por trás das formações de combate, registrando e anotando nossas baixas e as dos alemães.

Como se determinava quem destruiu um tanque ou canhão? O que acontecia se mais de uma tripulação afirmava ter destruído o mesmo tanque?

- Isso acontecia ocasionalmente, mas não com muita freqüência. Normalmente o tanque era creditado a ambas as tripulações e notificado como "em conjunto" de forma que no relatório contava como um só tanque abatido. O dinheiro era dividido. 500 rublos para cada tripulação.

Como a tripulação deveria agir se seu tanque fosse danificado em combate?

- Deveria tentar salvá-lo, tentar concertá-lo. Se faltassem recursos para concertá-lo, deveria ser armada uma defesa em torno dele. Era categoricamente proibido abandonar o tanque. Eu já mencionei que havia um oficial da SMERSH em cada batalhão. Deus te proteja se você abandonar um tanque! Nós tivemos um caso em que, antes de um ataque, um membro da tripulação afrouxou a esteira do tanque. Não foi difícil para o motorista-mecânico tirá-la dos roletes. Mas nosso oficial da SMERSH tomou nota do ocorrido e prendeu os culpados. Foi um caso de covardia descarada!

Não poderia acontecer que a tripulação deixasse a esteira frouxa por descuido e ser acusada de covardia mesmo assim?

- Sim. A tripulação tinha que cuidar de seu tanque ou eles poderiam simplesmente acordar em um batalhão penal. Era obrigação de cada comandante de tanque e do comandante da companhia checar a tensão nas esteiras antes do combate.

Você já disparou contra seus próprios soldados ou tanques?

- Companheiro, tudo pode acontecer na Guerra. Tal fato ocorreu a oeste de Yuknov. Nossa brigada chegou ao local e parou em uma floresta. Uma batalha estava sendo travada três quilômetros à frente. Os alemães haviam capturado uma cabeça de ponte em algum rio e estavam começando a expandi-la. O comandante do nosso Corpo enviou a companhia de Matildas da nossa Brigada vizinha para contra atacar. Os alemães não tinham tanques de forma que foi fácil para os matildas eliminar a cabeça de ponte e forçar os alemães através do rio. Agora os nossos Matildas retornavam do combate. Um pouco antes, temendo um avanço alemão, nosso comandante destacou um batalhão de artilharia antitanque. Eles foram colocados 300 metros a nossa frente e estavam se entrincheirando. Os artilheiros não sabiam que nós estávamos lá e nem que estávamos usando veículos estrangeiros. Quando viram os Matildas retornando, eles abriram fogo destruindo três ou quatro deles. Os tanques restantes recuaram rapidamente em busca de abrigo. O comandante do batalhão, um artilheiro, correu até os tanques destruídos, olhou lá dentro e viu nossos homens. Um deles tinha o peito coberto de medalhas.

Em outra ocasião, quando o 1º e o 2º Fronts Ucranianos se uniram em Zvenigorodka e fecharam o cerco em torno do bolsão de Korsun-Shevchenkovskiy, o 5º Exército equipado com T-34s aproximou-se pelo sul enquanto nossos Shermans vinham do norte. Nossas tropas nos T-34s não haviam sido avisadas que haviam Shermans na área e atiraram no tanque do comandante do meu batalhão, Nikolay Nikolaevich Malyukov. Ele morreu dentro do tanque.

Alguém era punido por isso?

- Eu não sei, talvez eles punissem alguém. Cada caso era investigado.

Como vocês cooperavam com a infantaria durante o combate?

- A Brigada de Tanques tinha três Batalhões de Tanques, cada um com 21 tanques, e um Batalhão de Sub-Metralhadoras. Um Batalhão de Sub-Metralhadoras tinha três Companhias uma para cada Batalhão de Tanques. Nós tínhamos essa estrutura de três batalhões apenas no final de 1943 e inicio de 1944. O resto do tempo nós tínhamos apenas dois batalhões de tanques para cada brigada. Os homens das companhias de submetralhadoras eram como irmãos para nós. Durante as marchas eles pegavam caronas em nossos tanques. Eles ficavam aquecidos, secavam suas coisas e dormiam um pouco. Nós dirigíamos e então parávamos em algum lugar. Os tanquistas podiam dormir e os homens das companhias de submetralhadoras tomariam conta. Com o decorrer do tempo muitos deles se tornavam membros da tripulação de algum tanque, começando geralmente como carregador ou operador de rádio. Nós dividíamos os espólios igualmente. De formar que as coisas eram um pouco mais fáceis para eles que para homens de uma companhia de infantaria regular.

Durante os combates eles se sentavam sobre os tanques até o fogo começar. Quando os alemães começavam a atirar sobre os tanques, eles pulavam fora e corriam para se proteger atrás deles.

Se em alguma situação os tanques estivessem limitados em suas manobras e velocidade, você manobrava a infantaria ou os faziam parar?

- Nenhum dos dois. Nós não prestávamos atenção a eles. Nós manobrávamos e eles vinham atrás. Não havia problemas.

A velocidade do tanque era limitada durante o ataque? Pelo que?

- Claro! Nós precisávamos atirar!

Como vocês atiravam? Fazendo pequenas paradas ou em movimento?

- De ambas as maneiras. Se atirássemos em velocidade a velocidade do tanque nunca excedia 12km/h. Mas nós raramente o fazíamos, só quando queríamos criar pânico entre as tropas inimigas. Basicamente nós atirávamos parados. Corríamos até uma posição, parávamos, atirávamos e então seguíamos.

O que você pode dizer sobre o Tiger alemão?

- Era um veículo extremamente pesado. O Sherman nunca poderia derrotá-lo em um ataque frontal. Nós tínhamos que força-lo a expor seu flanco. Se estivéssemos defendendo, tínhamos uma tática especial. Dois Shermans eram designados para cada Tiger. O primeiro Sherman atirava em sua esteira, quebrando-a. Por um curto espaço de tempo o Tiger continuava a se mover com a outra esteira, o que o fazia se virar de lado. Nesse momento o segundo Sherman acertava-o de lado, tentando atingir tanque de combustível. É assim que fazíamos. Um tanque alemão era derrotado por dois dos nossos e creditado à tripulação dos dois. Há uma história a esse respeito intitulada "Hunting With Borzois" em meu livro.

O freio de boca tem uma desvantagem significante: uma nuvem de poeira é levantada durante o disparo, revelando a posição. Alguns artilheiros tentam contornar isso, por exemplo, molhando o solo em frente dos seus canhões. Que tipo de medida vocês empregavam para atenuar esse efeito?

- Você está certo! Nós amassávamos o chão, de forma a ficar duro, e cobríamos com nossos casacos.

A vista do tanque era dificultada pela poeira, sujeira ou neve?

- Não havia nenhuma dificuldade em especial. A neve, é claro, podia nos cegar. Mas não a poeira. A viseira do Sherman não era pra fora, ficava na torre. Dessa forma ficava bem protegida conta esses elementos.

Tanquistas que lutaram nos Churchills ingleses apontaram o fraco aquecimento interno como uma deficiência. O sistema padrão de aquecimento era inadequado para o inverno russo. Como o Sherman era equipado nesse sentido?

- O Sherman tinha dois motores conectados por duas juntas de união paralelas. Isso era bom e ruim. Havia ocasiões em que um desses motores parava durante a batalha. A junta podia ser solta e o tanque podia se arrastar para longe em apenas um motor. Por outro lado havia grandes ventiladores encima dos motores. Nós costumávamos dizer "Abra sua boca e o ar vai sair pelo seu rabo!". Como diabos podiam ficar aquecidos? Havia correntes de ar muito fortes. Talvez viesse algum calor dos motores, mas não foi lhe dizer que aquilo era o suficiente. Quando parávamos, nós imediatamente cobríamos o compartimento do motor com nossos casacos. Então o tanque se aquecia por várias horas; nós dormíamos nele. Nada no mundo fez com que os americanos nos dessem macacões forrados de lã.

Havia alguma norma para o consumo de munição?

- Sim, havia. Em primeiro lugar, nós levávamos um carregamento básico [BK - boekomplekt - um carregamento completo de munição, um BK do Josef Stalin II era igual a 28 cápsulas - Valera] conosco para batalha. Nós levávamos um BK adicional do lado de fora dos tanques durante grandes jornadas. Quando fomos para Viena, por exemplo, meu comandante nos ordenou pessoalmente que levássemos dois BK: um dentro e o segundo fora sobre a blindagem. Em adicional nós levamos duas caixas de chocolate e provisão adicional em cada tanque. Nós estávamos sós, por assim dizer. Isso significava que se tivesse que conduzir um ataque em algum lugar nós teríamos que nos livrar das rações e colocar a munição em seu lugar. Todos os nossos veículos de suprimentos eram Studebakers americanos de duas toneladas. Eles sempre traziam munição para o batalhão.

Há uma coisa que eu gostaria de dizer. Como nós preservávamos nossa munição soviética? Vários cartuchos cobertos de graxa, em caixas de madeira. Alguém tinha que ficar limpando a graxa dos cartuchos por horas. A munição americana era empacotada em tubos de papelão, três cartuchos pra cada. Os cartuchos ficavam limpos e brilhantes dentro dos tubos. Nós os tirávamos e imediatamente guardávamos dentro do tanque.

Que tipo de munição você levava em seu tanque?

- Perfurante de blindagem e munição de alto-explosivo. Mais nada. A proporção era de um terço de Alta Explosão para dois terços de perfuradora de blindagem.

Talvez a proporção varie com o tanque. Nos JS era o contrário!

- Sim, você está certo. Mas o poder de fogo do JS era tamanho que um tiro era suficiente. Quando fomos para Viena, eles nos deram uma bateria de JSU-152s, três deles (em seu livro Loza os chamada de SAU-152, eu o perguntei sobre esses veículos e ele disse que eram baseados no chassi do JS, então só poderiam ser JSU-152). Eles nos atrasaram muito. Na auto-estrada nós podíamos fazer 70km/h com os Shermans enquanto os JSUs mal se moviam. Quando entramos em Viena sucedeu-se um incidente que eu descrevo em meu livro. Os alemães nos contra-atacaram com vários Panthers. O Panther era um tanque pesado. Eu ordenei que um JSU avançasse para combater os Panthers. "Bem, dê um tiro", e oh, eles atiraram! Devo dizer que as ruas de Viena eram estreitas, as construções altas e muitos queriam assistir esse combate entre o JSU e o Panther. As pessoas ficaram nas ruas. O JSU disparou e atingiu o Panther atrás (de uma distancia de 400 ou 500 metros). Sua torre foi arrancada e voou alguns metros. Com a força do tiro todos os vidros das casas em volta quebraram e caíram em nossas cabeças. Esse dia eu me culpei por não ter previsto isso. Muitos foram feridos. Foi bom que estivéssemos usando capacetes, mas nossos braços ficaram todos cortados. Essa foi minha primeira experiência em combate urbano, e foi triste. Nós ainda dizemos "Um homem inteligente não entra numa cidade, ele a contorna". Mas nesse caso eu tinha ordens específicas para entrar na cidade.

Em geral, Viena foi muito destruída?

- Não, não muito. Não em comparação com Varsóvia, por exemplo. Minha missão era capturar o centro da cidade e o banco. Foram capturadas 18 toneladas de ouro, o que não era mixaria. Os homens brincavam comigo "Se ao menos você pudesse pegar só uma bolsa" e eu respondia "Homens, por quantos anos eu quebraria pedras por esse roubo?".

Como vocês reabasteciam?

- Cada batalhão tinha vários caminhões tanque. Antes de qualquer batalha os caminhões tinham que ser esvaziados. Se estivéssemos em marcha, então levávamos tanques extras sobre os tanques, e antes do combate nós os largávamos. Os caminhões vinham pela retaguarda e traziam combustível pra gente. Nunca eram trazidos todos os caminhões de combustível de uma só vez. Assim que um caminhão era esvaziado ele voltava para a brigada e recarregava e o próximo vinha, e assim por diante. Na Ucrânia tínhamos que rebocar esses caminhões com nossos tanques por causa da lama. A lama lá era terrível. Na Romênia os alemães cortaram nossos suprimentos. Fizemos um coquetel, uma mistura de gasolina com querosene (os M4A2 Shermans era a diesel). Os tanques conseguiam andar com esse coquetel, mas os motores superaqueciam-se.

Vocês tinham tanquistas sem tanques em sua unidade? O que era feito deles?

- Certamente nós tínhamos. Normalmente um terço do total de homens não tinham tanques. Eles faziam de tudo. Ajudavam na manutenção, suprimento de munição, reabastecimento e qualquer coisa que fosse preciso. Eles o faziam.

Vocês tinham veículos camuflados em sua unidade?

- Alguns, mas eu não me lembro deles. Tínhamos de tudo. No inverno nós pintávamos nossos tanques de branco em um sistema obrigatório com tinta ou com cal.

Era preciso permissão para instalar camuflagem? Vocês precisavam de autorização para pintar qualquer tipo de slogan no tanque, por exemplo, "Za rodinu" - Pela Pátria?

- Não, nenhum tipo de permissão era necessário. A escolha era sua - se você quisesse pintar, você pintava. Se não queria camuflar seu tanque, você não camuflava. Quanto aos escritos eu acredito que eles tinham que ser aprovados pelos representantes políticos. Afinal era algum tipo de propaganda.

Os alemães fizeram um amplo uso de camuflagem. Isso ajudava?

- Sim, ajudava muito. Em algumas ocasiões isso foi crucial para eles.

Então porque vocês também não usavam camuflagem tanto quanto eles?

- Faltava-nos material. Nós não tínhamos uma ampla opção de cores. Havia uma cor de proteção e nós a pintávamos. Precisa-se muita tinta para se pintar todo um tanque. Talvez se tivéssemos tido acesso a outros cores de tinta, nós tivéssemos feito maior uso de camuflagem. Em geral havia várias coisas a se fazer: concertos, reabastecimento e assim por diante.

Os alemães eram mais ricos. Eles não tinham apenas camuflagem, mas também usavam zimmerit em seus tanques pesados.

A tripulação recebia contussões quando o tanque era atingido, mesmo se o projétil não penetrasse a blindagem?

- Geralmente, não. Depende de onde o projétil atingia. Digamos que eu estivesse sentando no lado esquerdo da torre e um projétil atingisse o tanque perto de mim. Eu ouvia o impacto, mas não me machucava. Se ele atingisse em algum lugar do corpo do tanque, talvez eu nem mesmo o ouvisse. Isso acontecia com freqüência. Nós saíamos depois de um combate para inspecionar o tanque e encontrávamos marcas de impactos na blindagem, como manteiga cortada por uma faca quente. Algumas vezes o motorista gritava "Eles estão atirando da esquerda", mas não havia nenhum som que sobressaísse. É claro que se uma arma poderosa como um JSU-152 nos atingisse, nós ouviríamos, e em seguida perderíamos a cabeça junto com a torre.

Eu gostaria de acrescentar que a blindagem do Sherman era forte. Havia casos de T-34s serem atingidos, mas a bala não penetrar, mas mesmo assim a tripulação era ferida por estilhaços da blindagem que voam da parte interna do tanque. Isso nunca aconteceu em um Sherman.

Qual o oponente mais perigoso? Um canhão, tanque ou avião?

- Todos eram perigosos até que o primeiro tiro fosse disparado. Mas em geral os mais perigosos são os canhões antitanque. Eles eram muito difíceis de distinguir e de derrotar. Os artilheiros os enterravam no chão até que seus canos ficassem literalmente deitados sobre o solo. Você podia ver apenas alguns centímetros do escudo. O canhão atirava. Era bom quando tinha freio de boca e o tiro fazia a poeira subir. Mas se fosse inverno ou se tivesse chovendo!

Havia casos em que você não podia ver de onde o fogo vinha, mas a infantaria sim? Se sim, como eles lhes guiavam?

- Algumas vezes eles batiam na torre e gritavam. Às vezes eles atiravam na direção do inimigo com balas traçantes ou atiravam um foguete sinalizador em sua direção. E geralmente o comandante olhava pela torre. Nenhum dos periscópios, mesmo os da torre de comando, nos dava boa visibilidade.

Como você mantinha contato com seu comandante e os outros tanques?

- Por radio. Os Shermans tinha dois rádios, HF e UHF, de excelente qualidade. Usávamos o HF para comunicação com nossos superiores e o UHF para comunicação dentro do batalhão ou da companhia. Para comunicação dentro do tanque nós usávamos o sistema de interfone. Funcionava muito bem.

Entrevista feita por Valera Potapov e Artem Drabkin
Tradução para o português de Gustavo Caetano (www.totalkrieg.com.br)
Fonte deste artigo: www.iremember.ru

domingo, 5 de abril de 2009

Vassili Zaitsev







Vassili Grigoryevich Zaitsev (em russo: Васи́лий Григо́рьевич За́йцев; Eliniski, 23 de Março de 1915 - Kiev, 15 de Dezembro de 1991) foi um soldado russo, notabilizado como franco-atirador durante a Batalha de Stalingrado, na Segunda Guerra Mundial, com um total de 242 soldados e oficiais alemães mortos durante o conflito.
Zaitsev era neto de caçador e aprendeu a atirar ainda criança, caçando em Eliniski, sua terra natal junto aos Montes Urais, onde vivia como pastor.
Inicialmente foi incorporado na infantaria da marinha e chegou a Stalingrado em 20 de Setembro de 1942, com a 284ª Divisão de Fuzileiros. Brevemente foi erguido à categoria de herói nacional, pois os franco-atiradores eram então muito estimulados pelo general Vassili Chuikov, comandante do 62º Exército, encarregado da defesa da cidade contra os ataques do 6º Exército alemão.
Ele fixava uma mira Mosin-Nagant a um rifle antitanque de 20mm, que facilmente penetrava os capacetes dos alemães, causando dezenas de mortes por tiros certeiros na cabeça.
Os números divulgados pelos soviéticos naquela época apontam estimativas de que mais de mil alemães foram mortos por franco-atiradores durante a Batalha de Estalinegrado, sendo anunciado que Zaitsev fora responsável por 225 dessas mortes (232 e 242 em outras fontes). Ao fim da guerra, este número subiria para cerca de 468, antes de Zaitsev ser cegado pela explosão de uma mina. Ele também atuou como instrutor de franco-atiradores do exército soviético.
Após seus serviços prestados na Segunda Guerra Mundial, ele saiu do exército e foi trabalhar em uma fábrica, o que era o seu sonho. Ele faleceu a 15 de Dezembro de 1991, aos 76 anos, na cidade de Kiev, Ucrânia.





Ele é o da esquerda

Títulos e ordenações
Título de Herói da União Soviética (22 de Fevereiro de 1943).
Ordem de Lenin
Título de "Cidadão Honorário da Heróica Cidade de Volgogrado" (7 de Maio de 1980).
2 Ordens da Faixa Vermelha
Ordem do Grande Patriota, primeira classe
Várias medalhas
Atualmente, em Volgogrado (antiga Stalingrado), há um monumento em sua homenagem.
Zaitsev teve sua vida retratada no filme Círculo de Fogo/Inimigo às Portas, em que foi representado pelo ator britânico Jude Law.

Túmulo de Vasily Grigoryevich Zaitsev