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sábado, 14 de maio de 2011

Encontro da ANVFEB em Juiz de Fora

Olá pessoal, esses dias estou sem tempo, mas arrumei alguns minutos para postar, e estou colocando aqui o evento que vai ocorrer na minha cidade, em Juiz de Fora - MG. O  encontro irá abordar  a historia dos nossos pracinhas na Itália.

Abaixo segue a programação:

 Do dia 16/05 a 20/05 terá a exposição permanente:
“Homens da FEB: tópicos verídicos de uma história brasileira na II Guerra Mundial na Itália (1944/45)"

No dia 18/05, as 15 horas terá a exibição do documentário "Lapa Azul" e um momento de  interação com os pracinhas e a platéia.

O endereço está no banner abaixo:
A errata é o telefone: (32) 3215-0083

Aproveitando, será o momento de quem quiser conversar comigo dar um pulo lá, mais exatamente no dia 18, onde estarei presente  na exibição do documentário. Mas qualquer coisa, me mandem email ou comentem aqui que combinamos.



quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A primeira experiência sob a artilharia alemã - FEB



O Cabo Raul Carlos dos Santos, que serviu num Compania de Petrechos (metralhadoras e morteiros) do 11º RI, relatou a sua primeira experiência sob a artilharia alemã:



Aí fomos recebidos com granadas.  A gente dizia “as boas vindas”. O inimigo já sabia do nosso deslocamento. Em Lucca, Monte Cassino, em Pistóia. Cada um procurava um lugar pra se esconder. Já estávamos a pé. 
Estávamos numa área montanhosa, subindo para Sila. Uma coisa horrível! No dia 28 [novembro], para Bombiana [lê anotações]. Botei aqui, Bombiana, mas não botei tudo. Era uma área, tudo tinha número, fica do lado...... do Monte Castelo? A direita assim. Era uma cidade pequena, estava tudo destruído. Minha Cia teve que ficar aqui. Encontramos muita resistência aqui, demais! De perto! De perto numa guerra é um Km, 800 metros. É! Tiro direto! Desses canhõezinhos então! Bombiana, nós passamos aqui umas duas, três semanas 
talvez. Quando chegamos cada qual recebeu ordem de cavar seu fox hole. Fomos instruídos disso. Tínhamos que procurar uma coisa pra nos defender. Você sabe o que é cavar um buraco ligeiro? Usávamos umas pazinhas. Quebrava a mão toda! Calo! Calo de estoura e você não sentir! Tirava a luva via aquela zorra toda saindo sangue! 


Cb. Raul Carlos dos Santos, entrevista concedida à Luciano Meron para sua dissertação em 25/09/2007

domingo, 1 de agosto de 2010

O preconceito racial na FEB




Embora os veteranos hoje não se refiram ou não se recordem de preconceito racial dentro da FEB, pelo menos durante a campanha italiana, há registros de que no transcorrer dos preparativos para o envio dos soldados brasileiros à Itália houve atitudes discriminatórias por parte de alguns oficiais. O veterano Demócrito C. de Arruda fala sobre o preconceito racial no Exército:







Em 1943, quando o nosso Regimento foi designado para fazer uma demonstração física em São Paulo e se tratou da seleção e organização das turmas componentes, veio uma ordem surpreendente, partida de um general: “tirem fora os negros!” A ordem não foi cumprida, mas houve uma posterior recomendando colocá-los no meio das turmas, evitando a testa e as pontas. Igual espetáculo ocorreu no Rio, em março de 1944, quando se preparava um desfile da infantaria expedicionária. Nas vésperas de sua realização, lá veio o mesmo comandante, já nosso conhecido, a ordem: “Excluam os negros!”. O problema era que, excluído os negros - e por aproximação também os cafuzos, os mulatos, os morenos, etc. - pouco restaria da nossa infantaria. A 



ordem, mais uma vez, foi desconhecida; mas, não podemos deixar de guardá-la em nossos espíritos como testemunho sobre a conduta do nosso comando.


Fonte da citação: Impressões de um infante sobre o comando - ARRUDA, Demócrito C. Arruda - Pagina 64.


sexta-feira, 7 de maio de 2010

A partida

Rubem Braga : durante a Segunda Guerra Mundial atuou como correspondente de guerra junto à F.E.B. (Força Expedicionária Brasileira).


Setembro, 1944

Escrevo do Rio, em uma tarde de setembro de 1944. Não, isto não é mais o Rio. Depois que subimos a escada de bordo, vergados ao peso das malas, não mais estamos no Rio. O Rio está bem ali perto, atrás do feio armazém sujo; e está definitivamente longe. Os americanos da tripulação entram em forma: pela última vez antes da partida têm licença para sair: irão à Praça Mauá, à Glória, ao Beach Club. Um oficial passa-os em revista, lentamente. Um deles leva uma caixa debaixo do braço. É, certamente, um presente. Leio o rótulo: ''Ilusão - Meias de Seda''. Ele desce três degraus, volta-se para a popa, faz uma continência à bandeira americana e dispara escada abaixo. Outros homens, centenas, milhares de homens, sobem por várias escadas para os navios. Vistos do alto parecem estranhos bichos verdes, formigas humanas, cada um carregando um grande saco verde às costas, subindo lentamente. Vamos para o outro lado, olhamos a água suja e quase imóvel. A tarde cai. Vejo, boiando na água, um gorro de marinheiro. É triste, esse gorro branco perdido na água suja do cais: faz pensar em abandono, em afogamento.
Os homens sobem para os navios. Sobem por várias escadas, em fila indiana; sobem lentamente. Passam-se os minutos, as horas, os dias, os anos, os séculos, e o navio não sai. Os homens sobem. No salão há ordens, organização da rotina de bordo, leitura de regulamentos, e conversa. A esta hora, eu... A esta hora, lá em casa... A esta hora, ela... Mas é absurdo: Estamos falando do Rio como se estivéssemos longe. E estamos aqui, estamos no Rio. Na verdade estamos presos.

Nem mesmo os oficiais podem ir ao convés que dá para a terra. Ninguém deve ficar ali, para não perturbar a faina do embarque. Arranjo uma licença, vou ver os homens de perto. Não estão tristes nem alegres: sobem calados, aparentemente muito preocupados com a bagagem e a ficha que cada um carrega e que indica o seu lugar a bordo.

E como não há ninguém se despedindo de ninguém no cais, ninguém chora nem ri. Faz calor, e isso é aborrecido. Há quantos anos estamos a bordo? Hoje é segunda-feira ou março de 1953? Os compartimentos dos praças e os camarotes dos oficiais se enchem. Esperamos, esperamos. E lá fora, na cidade proibida, passa o tempo, a ronda das estrelas e da lua e do sol, e as mulheres que vão e vêm, a vida que vai e volta, e nós estamos eternamente neste enorme navio imóvel.

E como o Brasil é uma grande aldeia, descubro ligações. No beliche embaixo do meu vejo uma cara conhecida, não sei de onde. Ele diz que se chama Renato, é do Banco do Brasil, e afinal apuramos que nos conhecemos de vista: somos ambos "inocentes do Leblon", colegas dos ônibus 66 e 67. No primeiro beliche à minha direita - 90 centímetros a boreste - estica-se um jovem tenente desconhecido; mas logo fico sabendo que é casado, há alguns meses, com Jussara, aquela menina loura de minha terra, filha, pelos dois lados, de gente de Cachoeiro de Itapemirim. Pesa sobre mim a terrível ameaça da Justiça Militar: o beliche bem acima do meu verga-se ao peso sensacional do jornalista capitão Amador Cisneiros, promotor militar.

Deus quis certamente proteger este tão degradado filho de Eva: entre os 18 homens do meu camarote há sete santos homens: cinco padres católicos e dois pastores protestantes. Se eu morrer aqui, se um torpedo me estraçalhar, se Amador Cisneiros me esmagar, morrerei em grande odor de santidade.

Se este navio não sair amanhã, enjoarei.

O Presidente da República vem se despedir da tropa: depois vem o arcebispo. Alguém traz jornais: avançamos para eles com ares famélicos, como se estivéssemos há anos longe da pátria. E temos licença para escrever cartas; tristes cartas que só serão entregues, a alguns quilômetros daqui, depois que o navio chegar à Europa.

Às seis horas da manhã o pessoal do camarote começou a se arrumar depressa: o navio está saindo! Subimos para o convés superior. Todos correm alegremente; o armazém odioso sumiu, estamos navegando, a cidade se desenrola aos nossos olhos, avançamos pela baía. Olhamos a cidade, mas de repente entramos numa cerração e não vemos coisa alguma. O fotógrafo, decepcionado, pragueja. Depois paramos novamente. Passa o tempo. Afinal o navio se move. Agora vamos. "A cobra fumou!" Durante meses todos hesitamos: a cobra fumará? Na tropa não se falava de outra coisa: a cobra não vai fumar, quebraram o cachimbo da cobra etc., etc. E essa cobra mitológica, essa cobra de gíria obscura dos cariocas, está finalmente fumando. Isso quer dizer: vamos mesmo, estamos saindo. "A cobra fumou”.Lá vamos pelos mares, para a guerra, para voltar ou não voltar, pouco importa; o que importa é que a "cobra fumou". E os piores praças, os mais rebeldes, os que sumiam de repente, os que nunca chegavam na hora, todos estão presentes. Não faltou um só homem, não houve uma só vaga tentativa de deserção. Os homens que vieram de reserva voltaram do cais, não havia lugar para eles a bordo, porque na hora da "cobra fumar" todo mundo compareceu.

Adeus, Rio de Janeiro! Adeus, oh! Clara, oh! Magnânima, oh! Soberba e leal cidade do Rio de Janeiro. Uma barca da Cantareira passa perto, e alguém me chama a atenção: "veja, é a Quinta! É a QuintaColuna!” As fortalezas, embandeiradas, nos desejam boa viagem. Homens que passam em lanchas acenam adeus. A voz gordurosa de um padre, ampliada pelo alto-falante de bordo, convida-nos a erguer os olhos para Deus. Mas olhamos a cidade, olhamos obstinadamente para a Cidade dos Homens. Que Cidade dos Homens sobre a terra é mais humana que vós, Rio de Janeiro? Todos cantam o Hino Nacional. Alguns homens correm para bombordo; é a turma de Niterói que se despede. Mas antes de passarmos o Pão de Açúcar e de se desdobrar aos nossos olhos Copacabana, vejo uma tocante despedida. O comboio de navios enormes passa junto de um pequeno barco de pesca. Um pescador solitário fica em pé e acena com a mão. Seu barquinho balança fortemente com as ondas que os navios vão formando. Mas ele continua de pé, acenando lentamente a mão. Olho-o por um binóculo: é um velho pescador de camisa esfarrapada. Entre os monstros armados do oceano, sua canoa é humilde e frágil, mas ele tem uma estranha imponência. E fica lá para trás, indiferente aos balouços fortes da canoa, de pé, acenando lentamente a mão como quem cumpre um dever, como quem transmite sua pobre mensagem. Uma grande mensagem.

Setembro, 1944

A bordo, o oficial ou praça que trabalha come três vezes ao dia; quem não trabalha come duas vezes. Quem come duas vezes faz o pequeno almoço as nove e o jantar às quatro da tarde. Os americanos resolveram abrasileirar a comida, mas a comida foi mal traduzida. Não é comida brasileira nem americana; é, provavelmente, a comida típica de alguma parte do Atlântico. Come-se.

O que impressiona a bordo é a limpeza. O comandante americano, tenente-coronel McNair, declarou que tem transportado muita tropa nesta guerra e até agora não transportou nenhuma tão limpa e disciplinada como a nossa. Não sei se é costume dele dizer isso, mas que há limpeza há. Às 10 da manhã há inspeção geral dos camarotes e compartimentos. Há prêmios para o compartimento mais limpo e bem-arrumado, e os praças disputam esses prêmios. Como todos estão rigorosamente em ordem, a imaginação trabalha para ganhar o prêmio: os homens começam a enfeitar seus compartimentos, inventam coisas, dispõem os cobertores em V da Vitória. Os mais desleixados são vigiados pelos mais cuidadosos. O homem que acende um cigarro num camarote é imediatamente impedido de fumar pelos outros, porque só se pode fumar no banheiro ou no convés. E esses homens quando fumam fazem esta coisa absurda: jogam os palitos de fósforos e os tocos de cigarro exatamente nos cinzeiros ou nas latas de lixo.


Rubem Braga (esquerda em pé) com os correspondentes de guerra da FEB em 1944

Depois do equador ninguém enjoou mais. O "moral da tropa" ergueu-se. Os praças formam choros e cantam sambas e canções. Os oficiais fazem o mesmo, porém com menos bossa. Pelas seis horas fecha-se o navio; ninguém mais pode ir ao convés. As seis e meia funciona o "cabaré da Cobra”. Tem números variados, mas num cabaré há duas espécies de coisa que sempre fazem alguma falta - senhoras e álcool. A proibição de beber foi rigorosamente seguida: não entrou a bordo uma gota de cachaça sequer.

Às sete e meia os oficiais têm direito a uma sessão de cinema. O salão fica mais cheio do que qualquer "poeira"; há gente sentada no chão e gente trepada nas cadeiras. Não há legendas em português, e quem não entende pergunta a quem entende o que é que houve na tela.

Pelas nove e pouco acaba o cinema e logo depois se apagam as luzes do salão, ficando só algumas lâmpadas vermelhas muito fracas.

É hora de dormir. Nas noites de calmaria, isso era difícil. Os banheiros enchiam-se, e, depois, os oficiais, uns em calças de pijama, outros em calção de física, vinham para o salão, onde se pode fumar e conversar. E ali ficavam conversando na penumbra avermelhada, até o sono bater.

Descobriram que nos corredores e escadas sempre há algum vento. E na noite mais quente da viagem formaram-se essas filas que o carioca não conhece, e que devem servir de consolo aos que esperam o ônibus, a carne ou o leite; as filas do ar...

E enquanto estamos trancados aqui na escuridão avermelhada, lá fora é a noite.

Desde que o navio saiu não vimos mais a noite. A noite nos é proibida, com sua lua e suas estrelas. Navegamos para outro hemisfério.Certamente a lua está ficando mais cheia, noite após noite. Certamente algumas constelações morreram para as bandas do sul; o Cruzeiro deve ter mergulhado nas águas. Certamente estrelas virgens para os nossos olhos subiram do horizonte. Não sabemos. Fumamos na escuridão, trancados, e conversamos sem vontade e sem fé. Uma noite, correndo os compartimentos do navio, subindo e descendo escadas, vi de repente uma estranha claridade azul. Eu estava sozinho e não havia ali nenhum PM - o polícia militar que está a todo o momento em toda parte dizendo o que devemos fazer e por onde devemos seguir, e principalmente o que NÃO devemos fazer, por onde NÃO devemos seguir.

Hesitei um instante e galguei a escada estreita e escura. Tropecei numa soleira e dei mais dois passos. Aquela desconhecida claridade azul era a noite. Saltei para o ar livre sem fazer ruído. Um guarda estava ali perto, no convés, mas não me pressentiu. Há 10 dias eu não via a noite: lá estavam as estrelas e em alguma parte devia estar a lua, porque o céu era azul. Noite! Livre noite sobre a terra e sobre o mar, noite nas montanhas e no charco, no deserto e na rua, abençoada sede! Os homens que fumam cachimbo na triste escuridão vos saúdam: do fundo de nosso torpe salão vos abençoamos, oh! Lua, oh! Nuvens, oh! Estrelas do norte, oh! Grande noite azul.

Setembo, 1944

O soldado inglês é um tommie, o francês é um poilu, o brasileiro é o pracinha. Agora o pracinha vai para a guerra. O pracinha está num compartimento onde há muitos pracinhas. Há um pracinha no beliche de lona embaixo do seu e há dois pracinhas nos dois beliches acima do seu. Dentro do compartimento, a bombordo, a boreste, a ré, a vante, por baixo e por cima, há mais 379 pracinhas empilhados, todos seminus. Abaixo daquele, há outro compartimento, e abaixo desse outro há ainda outro, e acima e ao lado há outros compartimentos, todos absolutamente cheios de pracinhas do chão ao teto. Mas o pracinha mal pode ver dois ou três companheiros. As luzes foram apagadas, e só restam algumas baças lâmpadas vermelhas. Um americano me explicou o uso da luz vermelha dentro do navio trancado: a luz branca ou azul ou de qualquer outra cor apresenta grandes inconvenientes para o homem que subitamente tem de sair do interior do navio para ocupar seu posto em algum canhão ou metralhadora. Ele levará muito tempo sem conseguir enxergar nada na escuridão do mar. Se, porém, sai de um ambiente de luz vermelha, seus olhos em poucos segundos estão funcionando tão bem como se ele já estivesse há muito tempo na escuridão.

O pracinha não sabe de nada disso. Apenas vê, nas ilhas de fraca luz rubra que são vagas manchas de sangue na grande escuridão, vultos de dois ou três companheiros mais próximos. A luz vermelha espelha-se nos corpos suados. Faz um calor infernal: estamos na zona das calmarias, e quem não está de cuecas está de calção de ginástica.

Antes, pouco depois que se saiu do Rio, havia vento forte, e uma parte da tropa enjoou horrivelmente. Havia pracinhas chegados há pouco tempo do interior e que nunca tinham visto o mar em sua vida; e alguns, com o perdão da palavra, "restituíram" até a alma. Mas isso em certos lugares: não para fora do navio. Não se pode lançar nada fora do navio, nem uma ponta de cigarro; os detritos são jogados fora a uma hora certa, ao escurecer. Dizem que já houve o caso de transportes de tropas que foram seguidos pelos submarinos que se guiavam pelos detritos lançados ao mar.

O pracinha só mexe em seu beliche. São 10 horas, e às nove e meia deu o toque de silêncio. Que calor! Durante o dia o mar esteve parado, chato, como se fosse de aço mole, e do céu vinha um mormaço geral.

Foi evitando essas calmarias que Cabral descobriu o Brasil - diziam os compêndios de meu tempo. Eu também seria capaz de descobrir qualquer coisa, fosse o que fosse, para fugir a essa calmaria. O pracinha também descobre uma fuga: tomar banho.

O banheiro é grande, mas está cheio. Dezenas, centenas de pracinhas nus e seminus estão nos banheiros iluminados; são pretos, brancos, mulatos, amarelos, de todas as cores do Brasil e do mundo. Há muitos chuveiros de água salgada e apenas um de água doce em cada banheiro. Isso também é a única vantagem que pracinha leva sobre oficial, que não tem chuveiro de água doce. O pracinha toma banho e, saindo da claridade do banheiro, mergulha outra vez na escuridão do compartimento, tateando entre as pilhas de corpos nus, arrastando seu salva-vidas. É um pesado colete de lona impermeável cheio de paina, que a gente tem de carregar dia e noite. É grosso, incômodo, sujo. Uns o chamam de "pára-quedas" outros de "tatu", outros, mais elegantes de “renard”.

O pracinha consegue, afinal, acertar com o seu beliche. Amarra o salva-vidas ao lado do saco verde e sobe. E sua.

Sua-se, meus senhores, sua-se aos litros, sua-se aos potes, sua-se a cântaros neste navio trancado. Há ventiladores, há sistema de renovação do ar, e tudo isso é muito interessante. Mas o pracinha sua. Seu corpo está pegajoso, porque ele só conseguiu tomar banho de água salgada, e o sal do suor se mistura com o sal da água do banho, e o pracinha não pode dormir. Na escuridão de raras manchas rubras, ele fica pensando na vida - e, ocasionalmente, na morte. Se a distinta senhora minha leitora descesse àquele compartimento desmaiaria; é, à primeira vista, fúnebre. Aquela pretidão com manchas de sangue no ar, os homens em inumeráveis pilhas de quatro, quase nus, suando. Mas, coragem, minha senhora. Estamos no 203. Desçamos ao 303. Mais uma escada, senhora: vamos ao 403, e agora acabamos nossa viagem; é só ir ao 503. Porque além do C-503-L não há mais nada, é o próprio fundo do mar. E a escada que desce para o C-503-L é diferente das outras; ela se abre de repente, como um alçapão, dando para o profundo escuro baixo abismo, no fundo de outras escuridões que se acumulam negras lá para cima; além, mais uma escada e escuridão, e outra escada e escuridão, e outra escada e escuridão, e em cada escuridão, homens, homens e homens empilhados do teto ao chão, suando, suando, suando. Assim é o C-503-L.

Mas o pracinha agüenta. Arranja-se mais um ventilador, desce-se um cano de lona que traz ar. O pior é a impressão. E o pracinha guarda para si mesmo as suas impressões. Se tem medo, não diz. Vai para lá e fica. Depois se acostuma. Quando descobre que está vivo, e afinal de contas tem ar para respirar, e banheiro para tomar banho, se acostuma. Ali, naquele mesmo beliche onde está esticado o corpo suado do nosso pracinha, já esteve o corpo de um soldado americano que ia atravessando o Atlântico para leste, ou o Pacífico, para oeste, para lutar. Ali já esteve o corpo de um soldado francês que ia lutar pela sua terra escravizada. Ali já esteve o corpo de um italiano que ia preso para a América, depois de lutar pelo seu Duce ridículo. Este navio tem andado por muitos mares e levado muitos homens para a guerra ou para a paz. Na pobre lona onde se agita o nosso pracinha, agitaram-se, nestes últimos anos, sonhos e pesadelos, resmungos em várias línguas de homens de várias espécies. Alguns estão mortos; outros estão lutando, ou metidos em campos de concentração: ou gemendo em hospitais. O pracinha talvez não saiba disso. No meio dessa grande e tormentosa humanidade, o pracinha é um homem, é apenas um homem.

E agora ele vai dizer a sua palavra, vai intervir, como homem, no destino da humanidade. Saiba ou não saiba disso, o pracinha vai.

E isso é o que serve.

Amanhece. O pracinha toma banho, faz seu pequeno almoço, sobe para o convés, para o ar livre. Há espumas no mar, acabou-se a calmaria, não haverá mais calor. O navio marcha. E com o navio marcha o pracinha, marcha para as neves onde vai lutar por um mundo em que ninguém mais precise viajar no compartimento C-503-L.

Por Rubem Braga

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Ações na Terra de Ninguém (FEB)

Durante o período em que o I/11º RI defendeu o Quarteirão de Iola, lançou inúmeras patrulhas de reconhecimento e emboscada, em que se procurava delinear as posições ocupadas pelo inimigo e as unidades que as mantinham, o que procurava grande reação por parte dos alemães, constituindo-se na zona mais batida de toda a FEB, como bem assinalavam os boletins de informações da 1º DIE.
A posição por nós ora ocupada dominava inteiramente o vale do Rio Panaro, descortinando novos horizontes, tal côo ocorrera com os alemães, em relação ao Rio Reno, durante o tempo que dominaram essas mesmas alturas.

Entre os fatos marcantes de nossa permanência no Quarteirão de Iola teve destaque especial a descoberta, por parte de nossas patrulhas um grande deposito de munições deixado pelos alemães quando da ofensiva aliada que os desalojou das alturas daquele divisor de águas. Tal depósito, de difícil acesso por nosso lado, encontrava-se localizado agora na “terra de ninguém’, a sudoeste de Montese e próximo as atuais linhas inimigas, protegido assim por sua vigilância e tiros.
A descoberta desse grande depósito de munição de artilharia de morteiro 88 mm, que os alemães deviam estar planejando recuperar, levando-o de volta ao interior de suas linhas, fez com que o Major Lisboa deliberasse ser de capital importância sua destruição, o mais rápido possível, embora não fosse nada fácil sua execução.
Tal destruição exigia homens calmos, inteligentes e especializados, pois não se tratava de uma missão de patrulha – pois bons patrulheiros o Batalhão estava cheio – mas de empreendimento que, alem das qualidades necessárias ao bom patrulhador, demandava uma grande dose de conhecimentos técnicos sobre explosivos. Não foi difícil achar quem iria dirigir tão perigosa incursão pela “terra de ninguém”, pois apesar daquele Tenente ter chegado ao batalhão a pouco tempo, já havia conquistado a amizade, o respeito e a admiração de todos nos, pois alem de seu modo respeitoso e simpático de a todos tratar, vinha demonstrando coragem, calma e sangue frio no cumprimento de sua difícil função – oficial responsável pela colocação e retirada de minas e armadilhas. O Ten. Adhemar de Lima Andrade havia concluído, com ótimo aproveitamento, um curso onde aprendera todos os segredos sobre minas e explosivos.
Eu já me entendia muito bem com aquele baiano, sereno, sem arrogância, disciplinado, leal, senhor dos seus nervos, que tão bem se amoldara ao ótimo ambiente reinante entre os oficiais do Estado Maior do I/11º RI. Como fui um dos poucos, a saber, que lhe coubera, pude sentir ao mesmo tempo em que pedia a Deus pelo seu sucesso, toda a sua serenidade e determinação. Ao vê-lo, reunindo e instruindo seus homens, dava-me a impressão de que ia executar o mais comum e rotineira das operações.
Numa noite intensa escuridão lá vai o Adhemar e seus homens. Ultrapassaram Iola, II Truffi e Bicocchi, Entram em contato com os nossos postos mais avançados e, cautelosos, silenciosos e determinados, sobem a primeira cota gêmea, que vasculham com cuidado, de modo a não serem percebidos pelo inimigo tão próximo. De repente, na contra-encosta, um sorriso de satisfação – lá estava o depósito.
Calmo, como que estivesse articulando uma simples brincadeira com o Yvon ou o Quintiliano, ele estudou a situação do depósito, investigou, calculou, prendeu cargas e detonadores com retardo e, terminada a missão, voltou ao PC, cansado, mas feliz, onde se apresentou ao Major Lisboa, simplesmente, sem jactância ou basófia:
- Pronto, Major, missão cumprida!
Nada vimos ou ouvimos até então, pelo que permaneci ansioso, na expectativa de um não desejado fracasso – os segundos parecendo horas – e nada, de explosão.
Mas, minutos após, tremenda explosão é ouvida, alertando brasileiros e alemães. De dentro do meu peito, liberto, rugiu todo o meu entusiasmo: Eta! Baianinho bom!
Os nossos telefones começam a chamar insistentemente, todos querem saber o que aconteceu, principalmente o E/2 da Divisão:
- Que houve na frente do Batalhão?
O Major Lisboa, calmo, o Deschamps, mais calmo ainda, mas tremendamente orgulhosos pela façanha, vão respondendo:
- Não foi nada. Os alemães acabam de ficar com o seu estoque de munição ainda mais diminuído.
O bravo baiano, antes de ir dormir e sem dar o devido valor à grandeza do ato que praticara, mas tremendamente senhor de si, ainda brinca com o Yvon:
- Viu Doutor, como é perigoso entrar em local cercado por tiras brancas.



Fonte:
Montese – Marco Glorioso de uma Trajetória
Coronel Adhemar Rivermar de Almeida
Editora: Bibliex
Pag:130, 131 e 133

domingo, 20 de dezembro de 2009

A vida no Stalag 7A, Moosburg. FEB

Relato de um tenente do 11o Regimento de Infantaria capturado no Monte Castelo e sua estadia na Alemanha em 1945 :


Odisséia dum “Krige” (1)

Por Emílio Varoli, tenente da Reserva, nascido em São Paulo em 1912, era médico veterinário na vida civil. Comandou um pelotão do 11º R.I. na guerra, sendo condecorado com a Cruz de Combate de 1ª Classe, Bronze Star, Medalhas de Campanha e de Guerra do Brasil e promovido a Capitão ao retornar a reserva. Foi o único oficial de infantaria a ser capturado pelos alemães, no terceiro ataque ao Monte Castelo.

Torre principal na entrada do campo

1) Interrogatório

Capturado no ataque de 12 de dezembro em Abetaia, fui levado para uma das casas desse povoado, onde fui tratado com certa deferência mesmo antes de ter-me identificado como oficial.

À noitinha fizeram-me subir o Monte Castello, obrigando-me a andar, apesar do congelamento dos pés. Desnecessário é dizer o sofrimento que me causava aquela subida, que nada mais era que um arrastar miserável dos pés insensibilizados, logo seguido de uma queda na lama. Só mais tarde, entre os americanos, que me explicaram o congelamento com todos os detalhes e seu tratamento, é que percebi que aquela caminhada me salvara os pés restabelecendo paulatinamente a circulação.

Chegados ao comando da Cia., situado a uns dez metros abaixo do solo no cume dum morrote, encontrei seis soldados do 1º R.I. [Regimento de Infantaria] que também haviam sido capturados naquele dia.

Fui recebido amigavelmente pelo Capitão alemão, que se achava com um oficial médico atendendo aos feridos alemães. Ofereceram-me um pouco de conhaque e puseram-se a conversar comigo em inglês.

A um dado momento o Capitão diz-me:

- Francamente, vocês brasileiros ou são loucos ou muito bravos. Nunca vi ninguém avançar sobre metralhadoras e posições bem defendidas com tanto desprezo pela vida.

- Capitão, nós cumprimos as ordens recebidas.

- Eu sei disso. Mas a tropa brasileira perdeu no ataque de hoje uma centena de homens entre mortos e feridos [na verdade foram 145 baixas], contra cinco mortos e treze feridos nossos.

- Capitão, os brasileiros não fogem à luta, haja o que houver.

- Vocês são uns verdadeiros diabos. Na minha opinião, depois do soldado alemão que incontestavelmente é o melhor do mundo, os brasileiros e os russos são os melhores lutadores que já vi.

- Essa é sua opinião, mas não a minha.

Em seguida, o Capitão pediu minha identificação e avisou-me que nessa mesma noite eu deveria ser encaminhado ao comando do Regimento [Reg. 1045, da 232 DI alemã], no outro lado do Monte Castelo.

Despedimo-nos e juntamente com os seis soldados brasileiros, retomei a subida.

Seriam umas três horas da madrugada quando chegamos ao P.C. do Regimento situado em Pavullo sul Frignano, onde fomos alojados num estábulo. De manhã fomos acordados por um alemão que falava o português corretamente e que contou ter vivido em Santa Catarina durante uns doze anos.

Avisou-nos que iríamos à presença do Comandante do Regimento e deu-nos instruções sobre como devíamos portar-nos diante dele.

Foi somente ai que pude observar bem os meus companheiros de prisão. Um 3º Sargento, dois cabos e três soldados. O Sargento, de cor parda, parecia não gozar da estima de seus colegas, porém não tive oportunidade de esclarecer isso no momento, pois logo a seguir fomos levados ao Comando e colocados em linha num corredor.

Abre-se a porta e aparece um major, tipicamente prussiano, de cabelos grisalhos e cara fechada. Olhou-nos em silêncio e ao deparar com o sargento rosnou depreciativamente “Ein nigger”. Dirigiu-nos várias perguntas vagas por intermédio do intérprete e retirou-se.

Logo depois fui interrogada por um jovem tenente e o que me deixou estupefato foi notar que ele sabia coisas a respeito da F.E.B. que eu absolutamente ignorava e que me pareciam verdadeiras. Procurei despistá-lo o mais possível; não sei se o consegui.

Fomos enviados em seguida a Albineri e posteriormente a Parma e Montova.

Aqui, pela primeira vez, entrei num campo provisório (Dulag) de prisioneiros, com os célebres armados farpados.

Separado dos soldados, fui alojado num barracão amplo onde encontrei dois majores, quatro capitães, dois tenentes ingleses e canadenses e quatro tenentes americanos.

Apresentei-me ao Major encarregado (que chamarei de Jones) e ele apresentou-se aos outros oficiais.

Entabulando conversa, verifiquei que, se até então tinha comido passavelmente, a partir desse momento devia aprender a apertar a cinta, pois a comida que nos serviam era escassa e resumia-se numa caneca de água quente com chicória, o café ersatz, pela manhã, uma concha de sopa no almoço e 250 gramas de pão com um pedaço de salsicha ou queijo à tarde. Isso tinha como finalidade manter-nos num estado de subnutrição, quebrando assim toda veleidade de resistência às ordens ou tentativas de fuga.

Pelo que me era dado observar, os meus companheiros já tinham alguma prática da venalidade dos carcereiros, pois já tinham conseguido trocar várias bugigangas como relógios e outras por alimentos.

Como possuo alguns parentes em Mantova, procurei logo um jeito de fugir e abrigar-me junto deles até achar oportunidade de atravessar as linhas. Estudando o lugar vi que a saída era possível pelo Lago de Mantova. Falei a respeito com o Major Jones mas ele logo discordou, dizendo que assim que os alemães dessem pela minha fuga vingar-se-iam nos que ficassem. Não mais discuti o assunto e fiquei aguardando uma oportunidade para fugir.



Entrada do Stalag 7A




(II) A caminho da Alemanha

No dia seguinte [duas semanas depois] pela manhã recebemos ordens para embarcar, pois íamos ser removidos para um campo definitivo e ai pelas nove horas saímos com forte escolta, passando pelas ruas de Mantova a caminho duma estaçãozinha de subúrbio.

Fomos embarcados, os oficiais, num vagão de transporte de animais, fechado no meio por uma rede de arame farpado e ocupamos uma das metades. O desconforto era imenso, pois não cabíamos todos sentados ao mesmo tempo naquele espaço exíguo e assim foi estabelecido um revezamento para sentar e deitar, de duas em duas horas. Porém o revezamento mais desagradável era o da caixa de necessidades, um caixão colocado a um canto, com um tampo, e sobre o qual um de nos devia ficar sentado devido à falta de espaço.

Na outra metade do vagão iam quatro guardas armados até os dentes.

Pouco antes da partida do trem ouvimos uma gritaria ao longo da composição, até que um sargento chegou à altura do nosso vagão.

- Tirem as botinas e joguem-nas para cá – gritou ele. Nós fingimos não tê-lo ouvido ou entendido.

O Homenzinho ficou rubro de cólera:

- Joguem as botinas, já disse, se não vou aí tirá-las à força.

Ninguém respondeu.

O sargento subiu no vagão e começou a dirigir-nos impropérios e ameaças apocalípticas. Então o Major Jones dirigiu-se a um capitão do nosso grupo que falava corretamente o alemão: “Diga a esse idiota que ele está se dirigindo a oficiais e que nenhum de nós tirará as botinas”; enquanto isso nos revidávamos as ‘gentilezas’ do bruto em várias línguas.

O recado foi transmitido na íntegra e o homem desceu furibundo voltando daí a pouco com um Capitão.

Este dirigiu-se delicadamente ao Major e disse-lhe: “Se os senhores me derem a palavra de honra de que não tentarão fugir, permitirei que conservem as botinas’.

O Major respondeu-lhe que não dávamos a palavra pedida, pelo contrário, garantiu-lhe que se se apresentasse à ocasião fugiríamos incontinenti e que não tiraríamos as botinas.

O Capitão sorriu e voltando-se para a guarda: ‘Se algum deles tentar fugir, atirem para matar’, e deu ordens de partida ao trem.

Efetivamente, à tarde [de 24 de dezembro, após quatro dias de viagem] o comboio seguiu e logo parou em Mossburg, onde descemos.

Fomos logo encaminhados a um imenso campo, que soubemos ser o Stalag 7-A.

III) Começa a vida de um prisioneiro no campo

Logo após o portão via-se uma espécie de arco de triunfo feito de madeira, no qual estavam esculpidas as figuras dos soldados das Nações Unidas, aprisionados e caminhando sob escolta por uma estrada onde havia uma placa com os dizeres ‘Nach Berlin’ (‘Para Berlim’) e em baixo em grandes caracteres: ‘Só assim é que chegarão a Berlim’.

Dirigimo-nos a um barracão amplo, onde ficamos amontoados no chão recoberto de palha e ai permanecemos durante seis dias, de quarentena.

Finalmente, no dia 31 de dezembro, somos enviados a um grande salão e obrigados a tirar toda a roupa, que foi revistada minuciosamente. A seguir passamos para uma sala de banhos, enquanto nossa roupa era esterilizada em vapor. Foi o primeiro banho que tomei desde 10 de dezembro e passariam mais de 40 dias antes de receber outro.

Depois do banho, em troca das carteiras de identidade recebemos uma placa numerada; a partir desse momento eu era o prisioneiro nº 143.040 da Stalag 7-A.

Foi-nos então dado papel para que enviássemos uma mensagem à família por intermédio da Cruz Vermelha Internacional, porém o Major Jones nos fez notar que o impresso dizia que a mensagem seria irradiada na hora de propaganda que a Alemanha emitia para todos os países inimigos e todos recusamos.

Atravessando cinco cercas de arame farpado, chegamos a um barracão situado bem no meio do campo, onde fomos apresentados ao Major Smith, encarregado dos prisioneiros, que designou as camas e o block.

O block era uma turma de 4 ou 5 prisioneiros que recebiam em bloco tudo que fosse distribuído tal como rações alimentares, pacotes da Cruz Vermelha, cobertores, cigarros, etc.

O regime de ‘abundância’ alimentar era idêntico ao de Mantova e não fora os pacotes da Cruz Vermelha, creio que poucos de nós teriam saído de lá com vida.

O meu block era composto de um Major, um Capitão-Médico e um tenente das tropas de De Gaule e eu.

O Capitão parece que não gostou muito de mim e queixou-se ao Major por me terem colocado no block; respondi-lhe logo, em francês, que eu é que iria solicitar a mudança para outro block.

Passada a surpresa, ele caiu em si e pediu mil desculpas pela grosseria, enquanto o Major ria a bandeiras despregadas.

Depois da refeição encheram-me de perguntas sobre o Brasil e foi então que comecei a notar o quanto o nosso país é ‘um grande desconhecido’. Surpreenderam-se ao saber que no Brasil o ensino da língua francesa é obrigatório nos ginásios, bem como com muitas outras coisas, das quais não tinham a mínima noção.

Para encurtar, tornamo-nos muito bons amigos, especialmente do Major, dono dum bom humor inalterável.

Começou então aquela vida monótona; alvorada às 7 horas, formatura às 7,30 água quente às 8, sopa às 11 e jantar às 5.

A sopa consistia numa concha de água quente onde nadavam algumas verduras e acidentalmente uma migalha de carne de cavalo. O único dia em que o ‘menu’ melhorava era às quintas-feiras quando recebíamos uma sopa de cevada com certa consistência.

O assim chamado jantar constava de 200 grs. de pão de batatas, 300 grs. de batatas em estado próprio para serem jogadas fora e um pedacinho de queijo ou salsicha.

Não fora os pacotes da Cruz Vermelha e muitos entre nós teriam morrido de pura inanição, pois o cálculo de calorias alimentares fornecidas diariamente pela comida alemã mal atingia a 600, segundo avaliação feita pelos nossos médicos.

O barracão onde fui alojado era dividido em duas partes pela cozinha, a qual era mantida só para o representante da ‘Potência protetora’ (A Suíça) ver que nós éramos bem tratados e dispúnhamos de tudo.

Em cada uma das metades alojava-se uma centena de homens.

A princípio, não sei por que razão, os alemães nos forneciam um pouco de carvão e lenha que eram utilizados na cozinha para aquecer a comida e fazer um pouco de chá assim como na estufa do alojamento. O frio era terrível, tendo chegado a 20o abaixo de zero, mas como a cozinha e a estuda funcionando em breves períodos ainda podíamos tolerar a temperatura mantendo-nos na campa a maior parte do tempo.



Placa de identificação de prisioneiro

Fila de rancho no campo


IV) Incidentes na rotina do campo de prisioneiros
Eis que um dia alguns prisioneiros conseguiram fugir. Foi um Deus nos acuda!

Os alemães fazendo uma tremenda exibição de força, armados de metralhadoras portáteis e acompanhados de matilhas de ‘dogues’ nos puseram para fora dos alojamentos e ficamos ao ar livre expostos à neve que caía em abundância, enquanto eles revistavam a barraca.

Depois disso começou a chamada que se prolongou durante uma hora. Conferência de números, soma, cochichos entre os encarregados da chamada.

Nova chamada, nova conferência e novos cochichos.

Afinal o Capitão alemão encarregado do serviço chamou o Major Smith e entabularam este curioso diálogo:

- Major, faltam três prisioneiros.

- Sim – respondeu o Major.

- Mas não podem faltar.

- Porém a verdade é que estão faltando – retruca o Major.

- Mas não é possível que faltem prisioneiros – insiste o Capitão.

- O Sr. não contou os prisioneiros que faltam? Não faltam três? Ai está o fato.

- Aviso-o que enquanto não esclarecermos o seu paradeiro, vocês não voltarão para a barraca.

- Capitão, não tenho a mínima idéia a respeito.

Depois de muitas confabulações entre os guardas, nós começamos a lançar-lhes impropérios e então nos permitiram que voltássemos aos alojamentos. A revista repetiu-se mais duas vezes durante o dia e uma vez pela madrugada, sempre com o mesmo aparato.

Nos dias que seguiram continuou a importunação, mas aos poucos foram se acalmando e tudo voltou ao normal.

(1) Krige – abreviatura de Kriegsgefangen (Em alemão – prisioneiro de guerra) usada pelos norte-americanos e ingleses.

V) Chegam mais prisioneiros

Em fins de janeiro soubemos que um forte contingente de aviadores deveria chegar a Moosburg e começou uma azáfama tremenda para preparar outros barracões destinados a alojá-los.

Eram perto de 4.000 oficiais da A.A.F., R.A.F., R.C.A.F. e alguns de infantaria que vinham do Stalag Luft-3 em Sagan no norte da Alemanha, evacuados diante do avanço russo naquele setor.

Chegaram cansadíssimos e muitos, doentes de tanto caminhar, pois o deslocamento fora efetuado a pé por umas centenas de quilômetros, tendo sido embarcados num ponto próximo de Moosburg.

A caminhada fora tão penosa que, segundo me contaram mais tarde alguns desses oficiais, os guardas que os escoltavam não agüentaram carregar suas armas tendo-as entregado aos próprios prisioneiros.

Vinham comandados pelo Coronel Goodrich, da A.A.F., um dos oficiais mais enérgicos que jamais encontrei.

A lufa-lufa era tremenda, pois os alojamentos tiveram que comportar 400 homens em lugar de 200 e todo o espaço disponível foi ocupado num abrir e fechar de olhos. Não havia outra solução; devido ao Stalag 7-A ter recebido muitos prisioneiros evacuados de outros setores, abrigava naquela ocasião mais de 100.000 prisioneiros de todas as categorias e nações. Tornou-se, creio eu, o campo mais importante da Alemanha naquela ocasião. [Na verdade, em 1 de janeiro de 1945, o campo contava com 76.248 prisioneiros, a maior parte deles franceses – c. 38.000, isso numa área de 350.000 m2].

Eu postara-me junto à entrada para apreciar o movimento e quando regressei ao meu catre, uma surpresa me aguardava. O meu colchão estava repleto de cigarros, meias e outras coisas utilíssimas que os recém-chegados haviam deixado. Mal podia crer n que via e tratei logo de procurar os doadores para agradecer-lhes a gentileza e fui travando conhecimento com um grupo de ótimos companheiros. Eram aviadores que haviam conhecido o Brasil na passagem, quando de suas viagens da parte dos nossos patrícios do norte, aproveitaram aquela ocasião para retribuí-las a um brasileiro.

Daí por diante o meu nome nas barracas passou a ser ‘Brasil’.

VI) A admirável organização americana

Dois dias depois o Coronel Goodrich assumiu o comando dos prisioneiros e começaram várias modificações na distribuição interna e na organização dos grupos.

Fiquei altamente surpreendido ao ter conhecimento do Estado-maior do Coronel Goodrich, que passou a controlar e proteger toda a nossa vida no campo. Logo os americanos que encontrara em Mantova e eu fomos à presença do Tenente-Coronel X, Chefe do Serviço de Segurança e ai começou a investigação de todos nós. Os meus companheiros tiveram que identificar-se por meio de outros oficiais que já estavam fora de qualquer suspeita; todos tinham companheiros que os identificaram. Quando percebi que o Coronel X ia passar a outro assunto, como eu não tivesse sido investigado, perguntei-lhe: ‘Coronel, e eu?’ – ‘Ora, Brasil, você já foi investigado. Além do mais os alemães não seriam tão ingênuos para colocaram um ‘phony’ que chamasse tanto a atenção.

Passou então a falar-nos sobre a organização sumária do Estado-Maior, que constava de vários serviços, tais como segurança, Informações, Fuga, Alimentação, e outros que não me ocorrem e sobre as precauções que devíamos tomar.

Era preciso tomar cuidado com o que disséssemos, pois os alemães costumavam introduzir ‘phonies’ (espiões disfarçados em prisioneiros) entre os ‘Kriges’ para saber o que se passava entre eles e essas ocasiões de mudança de campo eram aproveitadas, devido à confusão e à mistura de vários grupos primitivos.

Não devíamos fazer comentários sobre o boletim recebido diariamente da B.B.C. (só no dia da libertação é que vim a saber que eles tinham conseguido introduzir no campo, um aparelho completo de rádio que funcionou no forro da nossa barraca).

Qualquer que fosse o serviço que alguns companheiros estivessem fazendo, devíamos bancar os três macacos, isto é, não ver, não ouvir, não falar e muito menos fazer perguntas que aliás não seriam respondidas.

Falou-nos depois do Serviço de Fugas. Se alguém se candidatasse a uma ‘mudança de ares’ devia apresentar suas credenciais e um plano aos oficiais para isto destacados. Se o plano fosse considerado viável, o oficial que ia fugir receberia mapas da região a atravessar, dinheiro, alimentos e uma carteira de identidade falsificada com habilidade até nos mínimos detalhes, além de endereços em várias cidades da Alemanha e Áustria.

Os mapas eram copiados duma coleção que havia sido tomada por empréstimo no Gabinete do Comando Alemão em Sagan.

Estando tudo pronto movimentava-se o plano. Quebrava-se uma porta ou danificava-se a instalação elétrica e lá vinha uma turma de soldados encarregados do conserto. Entre eles já vinha um, escalado para substituir o oficial e este, terminado o trabalho saía com a turma. Uma vez nas barracas dos soldados, o sargento americano que fazia parte do Serviço de Fuga arranjava facilmente jeito de enviá-lo para trabalhar em Munique, Freising ou outro lugar qualquer, onde ele desaparecia.

[Nota: Varoli era 1º Tenente e, como todos os oficiais prisioneiros, era separado dos soldados, como uma forma de retirar a liderança da tropa. Pela convenção de Genebra os oficiais não são obrigados a trabalhar, de forma que eles não saíam do campo, como os soldados, empregados em trabalhos. Isto explica o porquê da necessidade de se disfarçar como soldado para iniciar a fuga].

Barracões do campo

Rua do campo
O serviço de informações funcionava perfeitamente. Todos os dias, às 11:30 horas, postávamos sentinelas em todas as entradas e janelas, enquanto os encarregados do boletim nos liam o comunicado diário da B.B.C. Esse comunicado era distribuído era aos encarregados pelo Chefe de Informação e registrado em código, um para cada encarregado, de modo que se os alemães apanhassem vários encarregados não podiam afirmar que aqueles documentos eram de natureza subversiva. Um dia, apesar da recomendação do Coronel X, pedi a um dos encarregados que me mostrasse o comunicado e ele satisfez a minha curiosidade; creio que o sânscrito ou o persa seriam mais inteligíveis que aquele amontoado de palavras sem nexo.

O Serviço de Cartografia por sua vez, havia feito um mapa da Alemanha de uns dois metros quadrados de papel, e desse modo acompanhávamos a marcha dos acontecimentos marcando as linhas das forças em combate. É lógico que essas linhas eram marcadas de acordo com o comunicado alemão fornecido quase que diariamente, porém durante meia hora por dia tínhamos o trabalho de ‘corrigi-las’ com os dados da B.B.C.

A princípio os alemães não se importaram com o mapa, porém depois de um certo tempo começaram a desconfiar de algo e numa daquelas arrancadas costumeiras nos desalojaram ‘manu militari’ e rasgaram o mapa. Três dias depois lá estava outro no lugar. Foi rasgado também. Passaram-se uns dias e apareceu outro ainda, mas desta vez pintado na própria parede. Os alemães desistiram.

Fora incluído no grupo americano e continuei na barraca do Comando.

Cedo verificamos que com a chegada dos prisioneiros do Luft-3 a atitude dos alemães para conosco piorou consideravelmente, apesar da energia do Coronel Goodrich, que diga-se de passagem, não tinha medo de coisa alguma.

Muitas vezes soubemos por vias travessas das entrevistas tempestuosas que ele mantinha como Kommandant do Campo, chegando mesmo a ameaça-lo de punição quando terminasse a guerra.

A apuração da existência dum desvio de pacotes da Cruz Vermelha por parte dos responsáveis do campo, provocou uma denúncia formal daqueles feita pelo Coronel Goodrich ao representante da “Potência protetora” e que deu em resultado a vinda apressada de três generais alemães para averiguações.

Correu então que a “Kommandatur” do campo estava envolvida numa extensa rede de câmbio negro dos produtos contidos nos pacotes da Cruz Vermelha e cuja origem a Gestapo até então não conseguira descobrir.

Ao mesmo tempo o Coronel Goodrich exigiu que fosse distribuído um pacote semanal cada prisioneiro e não meio como se fizera até então.

Como resposta, os alemães diminuíram ainda mais a ração que nos forneciam e, o que é pior, passaram a entregar os alimentos crus e da mais ínfima qualidade ao mesmo tempo que suspendiam todo e qualquer fornecimento de carvão ou lenha.

Evidentemente não podíamos ingerir a comida crua, de modo que passamos a fazer fogo utilizando-nos, de início, das tábuas dos catres, deixando nestes um número mínimo suficiente para que não caíssemos sobre o vizinho de baixo durante o sono.

Este material, como é bem de ver, durou pouco tempo.

Logo foram organizadas turmas para obter lenha donde fosse possível. Estudadas as barracas, verificamos que eram feitas a meio metro acima do solo e tinham um soalho duplo. Era mais que evidente que na situação atual um dos assoalhos era supérfluo e passamos a desmontar o inferior e distribuí-lo eqüitativamente.

O trabalho, penosíssimo, pois tínhamos que agir no porão gelado sem atrair a atenção dos guardas, era feito por escalas.

Essa ‘mina’ durou algum tempo, porém acabou.

Passaram então a ser feitos estudos no forro e telhado. Postas as sentinelas, subiram alguns oficiais, que na vida civil eram engenheiros construtores, a fim de calcularem –quantas vigas e barrotes podiam ser retirados sem provocar o desabamento do telhado e muitas vigas foram sendo utilizadas.

VII) Nosso Coronel Comandante

A vida, apesar das dificuldades alimentares e do frio reinante, tomou um apesto diferente em conseqüência das atividades dos americanos. Foram organizados cursos de línguas, mecânica, arqueologia, etc., e como vários companheiros estavam interessados em aprender português e espanhol, organizei várias turmas de alunos e assim nos entretínhamos utilmente: eles a aprenderem ou aperfeiçoarem o espanhol ou português e eu a praticar inglês.

Algum tempo depois o meu amigo Rodney chamou-se e pediu-me para acompanhá-lo até o portão onde havia alguém que desejava falar comigo e durante o trajeto deu-me a grata notícia de que lá estava um aviador da F.A.B. Corri para lá e deparei com o Tenente Josino de Maia Assis [1º Tenente Aviador abatido em 21/1/45] que havia sido derrubado em combate.

Abraçamo-nos e pusemo-nos a conversar durante uma hora, mais ou menos, matando a saudade que sentíamos do nosso linguajar. Finalmente, Josino teve que ir para a sua barraca que ficava a algumas dezenas de metros mais adiante e nos despedimos, contanto encontrar-nos em breve. Josino dissera-me que junto com ele estava o Tenente....... [1º Tenente Aviador Othon Corrêa Netto, derrubado em 26/3/45], também abatido na Itália. Travei conhecimento com esse companheiro poucos dias mais tarde, através das grades de arame.
Cartun satirizando tentativa de fuga


Capa de coleção de cartuns do campo

VIII) A libertação

Com a aproximação da Primavera, os exércitos aliados foram chegando cada vez mais perto de Moosburg e em princípios de abril soubemos que Hitler havia dado ordens para remover todos os oficiais do Stalag 7-A de Berchtesgaden, onde serviríamos de reféns na última batalha a ser travada.

O Comando Americano organizou-nos então em Companhias, e Batalhões para resistirmos a qualquer eventualidade. Poucos dias mais e o Comando Aliado irradiava uma advertência ao Comando Alemão proibindo todo e qualquer deslocamento de prisioneiros de guerra sob pena de terríveis represálias.

Correu logo a voz de que Hitler furioso com isso, ordenara ao S.S. que fizesse uma limpeza no nosso campo, tendo o Marechal Goering se oposto a isso, enviando apressadamente um contingente da luftwaffe para garantir nossas vidas.

O fato é que em meados de abril as tropas da Reichwehr foram substituídas pelas da Luftwaffe.

A manhã do dia 29 [de abril de 1945] raiava prometendo um dia lindo. Às nove horas, mais ou menos, um ratatá corta os ares seguido de alguns tiros esparsos de fuzil. Foi um corre-corre generalizado.

Algumas balas passavam assobiando pelo campo.

À uma hora da tarde um prisioneiro grita:

- Olhem lá na torre da igreja! A bandeira americana! – e saiu correndo como um doido.

Foi um delírio! Todos queriam subir nas barracas para vê-la mais de perto; muitos abraçavam-se chorando, gritando, pulando. Enfim, um verdadeiro pandemônio.”

Fonte deste artigo: Depoimento de oficiais de reserva sobre a FEB

Relatório do Esquadrão de Reconhecimento da FEB na Itália

1ª DIVISÃO DE INFANTARIA EXPEDICIONÁRIA
1º ESQUADRÃO DE RECONHECIMENTO
RELATÓRIO ORGANIZAÇÃO
[Pelo Capitão Plínio Pitaluga]

Com a criação da 1ª D.I.E. [Divisão de Infantaria Expedicionária-FEB] em fins de 1943, o 2º Regimento Moto-Mecanizado, então sediado na Capital Federal, recebeu ordens para preparar um de seus Esquadrões para participar da Campanha da Itália. Foi designado o 3º Esquadrão de Reconhecimento e Descoberta. Somente em 4 de fevereiro de 1944 foi dada autonomia administrativa à nova Unidade que passou a ocupar um pavilhão de madeira ao lado do picadeiro da Escola das Armas, ficando entretanto subordinado ao 2º Regimento Moto-Mecanizado quanto à alimentação. Embora não dispondo de todo o material orgânico foi iniciada a instrução, visando inicialmente ao preparo moral e cívico. Em fevereiro e março de 1944, foram distribuídas 5 viaturas blindadas de reconhecimento e viaturas de rolamento misto [meia-lagartas], facilitando assim a formação dos motoristas. O selecionamento [sic] dos homens não foi completo, não se levando em conta especialização da Unidade. Isso prejudicou seriamente a formação dos motoristas, principalmente pela falta de reservas. A 9 de fevereiro de 1944 o 1º Esquadrão de reconhecimento foi incorporado a 1ª D.I.E. e a 11, deslocou-se para a região de Barra de Guaratiba onde realizou o 1º acampamento, visando principalmente o melhoramento do estado físico. Um oficial do Exército Americano, da reserva, foi designado para permanecer adido ao Esquadrão, orientando o emprego e manutenção do material de origem americana.

Com a mudança da Unidade para os pavilhões do Capistrano, muito embora sem o conforto necessário, a alimentação foi melhorada, procurando se adapta ao regimem americano. A instrução de tiro foi intensificada e as medidas burocráticas de declaração de herdeiros e fichas de desconto foram ultimadas. O Esquadrão participou do desfile do dia 24 de maio e realizou um exercício de emprego de Pelotão como demonstração ao Exmo. Snr. Cmt. Da 1ª D.I.E. Quando do embarque do 1º Escalão, O Esquadrão menos o 2º Pelotão, deslocou-se para o Retiro dos Bandeirantes onde esteve durante 4 dias, realizando principalmente exercícios de tiro de canhão, a.a. [armas automáticas] e morteiro 81mm.

Neste relatório aparecem duas fases de treinamento e entrada em ação correspondente ao 2º Pelotão que embarcou o 1º Escalão, e a outra fase ligada ao grosso do Esquadrão. Uma revisão do estado sanitário da Unidade, afastou 20% do efetivo. Esse claro foi preenchido, na véspera do embarque, por elementos do Depósito de Pessoal da F.E.B. O 2º Pelotão embarcou no dia 30/VI/1944, fazendo parte do 1º Escalão, no transporte americano - "Gen. Mann", tendo chegado a Nápoles no dia 16/VII/1944, dirigindo-se para Bagnoli, onde acampou.

2ª Parte

a) Fase de treinamento na Itália

O 2º Pelotão permaneceu em Bagnoli até o dia 30/VII/1944, quando foi transportado, em trem, para Tarquinia, onde começou a receber o material e intensificar a instrução de motorista e serviço em campanha. Um oficial [O comandante do destacamento, Capitão Flávio Franco Ferreira] e 5 praças foram [aperfeiçoar?] os conhecimentos sobre armamento e minas, em Caserta. No dia 5 de agosto o 1º Escalão da F.E.B. era incorporado ao Vº [sic] Exército Americano, de onde passou a receber as diretivas para a instrução, que entrou em uma fase intensiva, exigindo um esforço diário de 10,00 horas.

No dia 18/VIII/1944, o 2º Pelotão seguiu para Vada, entrando na 2ª fase de treinamento tendo participado de grande exercício realizado no norte de Vada. O oficial e praças fizeram estágio junto as unidades americanas que estavam em contato com os alemães.

3ª Parte

Transporte - (b)

O grosso do Esquadrão embarcou com o 2º escalão no dia 20 de setembro de 1944, no transporte americano Gen. Mann, desatracando o navio a 22.

No dia 6 de outubro de 1944 chegou a Nápoles, e a 9 em lanchas americanas o Esquadrão foi transportado para Livorno, onde chegou a 11. No mesmo dia, em viaturas seguiu para a área de estacionamento em Pisa, onde acampou. Todos os deslocamentos foram feitos em segurança e o estado sanitário da tropa não apresentou alteração sensível.

4ª Parte

Treinamentos

O Vº Exército, com os deslocamentos de elementos para a invasão do sul da França, atravessava uma crise de efetivos e também devido as condições topográficas encontrava-se na defensiva, detido nos contrafortes dos Apeninos.

Não havia necessidade de tropa de reconhecimento e daí a decisão de se deixar o Esquadrão em último lugar na ordem de preferência para o recebimento de material. Inicialmente foram entregues algumas viaturas de 1/4 Ton. [Jipes] para o transporte e instrução. O armamento somente nos primeiros dias de novembro, começou a ser distribuído atrasando assim o início da instrução de tiro. O esforço foi voltado para o preparo físico e moral, tendo em vista que a mudança de ambiente, a vida em comum em grande acampamento, os problemas sexuais e outros estavam concorrendo para o afrouxamento dos laços disciplinares.

Nesta fase, foi feita uma nova inspeção de saúde visando as doenças venéreas e o tratamento odontológico. Oficiais e praças freqüentaram cursos de informações ministrados por oficiais americanos e curso de minas e armadilhas quer na área do estacionamento ou em Caserta. A tropa ficou acampada utilizando-se as barracas para 2 praças levadas do Brasil e que não apresentavam boa vedação a água. A alimentação toda americana não foi aceita inicialmente com agrado por parte dos praças. As condições de limpeza e higiene do acampamento, no do Esquadrão eram satisfatórias.

No dia 6 de novembro o Esquadrão recebeu ordens para apressar o recebimento de material de diversas procedências, tendo em vista o seu emprego imediato sem passar pela fase de readaptação e treinamento prevista. Dentro de uma semana, quase todo o equipamento achava-se nas mãos da tropa e praticamente sem a realização de exercícios de conjunto no âmbito do Pelotão. O esquadrão era dado como pronto para entrar em ação. As últimas viaturas e reconhecimento e transporte de rolamento misto foram entregues com [sic] 4 horas antes da partida do Esquadrão para a frente, recebidas da Companhia de Manutenção sem a devida revisão. Os morteiros 60 mm recebidos na véspera não foram utilizados em exercícios de tiro por absoluta carência de tempo, agravada a situação pelo fato de não ter ainda no Brasil, feito o emprego dessa arma, por falta de munição. Muito auxiliaram o recebimento desse material a ação de oficiais americanos e a capacidade da 1ª Companhia de Manutenção. O volume de material recebido ultrapassava a capacidade de transporte das viaturas orgânicas da unidade, daí a necessidade de se conseguir do G4 [Seção do Estado Maior responsável pela Logística, na FEB chefiado pelo Major Aguinaldo José Senna Campos], 2 viaturas de 2 1/2 toneladas para auxiliar o deslocamento.

Principalmente na parte de transmissão o aumento de acessórios e sobressalentes foi considerável. O espírito combativo da tropa era bom, mostrando-se o homem ansioso por entrar em ação. Não foi possível proporcionar a turmas de praças estágio na linha de frente, pois o 2º Pelotão que se encontrava a disposição do Destacamento General Zenóbio, nessa ocasião achava-se em reserva. No dia 13 de novembro os oficiais reconheceram a região de reunião, em Granaglione, e no dia 15 o Esquadrão, em 2 colunas, deslocava-se para Granaglione. No dia 16, o 2º Pelotão reuniu-se ao Esquadrão, continuando porém em Capugnano.

[A ação em Collechio-Fornovo]
Ligação:

Pelo rádio o Snr. Cmt. Da 1ª D.I.E., teve ordem de procurar, no Q.G. o G3 [Seção de Operações do Estado Maior, no caso da FEB, chefiada pelo Ten. Cel. Humberto de Alencar Castello Branco], para receber nova missão e esclarecer a situação do Esquadrão.

Perseguição
Passagem do Panaro

No dia 23, pela calma apresentada nas posições e por informações de civis sobre a retirada do inimigo, o 3º Pelotão foi lançado, às 11 horas, sobre Marano, tendo realizado a travessia, a vau, sem qualquer oposição. O grosso do Esquadrão reuni-se em Marano entrando mais tarde em ligação com a direita, com o III/11º R.I. e a esquerda II/6º R.I. Pela ordem transmitida pelo rádio, o Esq. aguardou em Marano nova missão, para o dia 24.

Ordem de descoberta nº 29 - (G2) [Seção de Informações do Estado Maior]

(Extrato)

I) - Situação:

a) - O inimigo retraiu-se do corte de Parano segundo o eixo:
1 - Vignola - Castelvetro - Sassuolo.
2 - Pavulo - Montesino - Prignano.

e) Tropa amiga:
Elementos da 897 T.D. [Tank Destroyers - batalhão norte-americano de Carros de Combate], agindo segundo o eixo Vignola-Fornigine atingiram no fim da jornada de 23 esta última localidade, levando os reconhecimentos a Sassuolo.

II - MISSÃO DO ESQUADRÃO

1) Lançar-se pelo eixo: Marano - Castelvetro - Sassuolo de modo a esclarecer, por meios de golpes de sonda, as transversais que vem a ter a este eixo por S.W.
2) Embora informações de que o inimigo tenha empregado destruição maciça ao longo do eixo: Marano - Croseta - Montesinoj - Pelegrineto - Malacoda - Ponte Nuova [sic] - cumpre lançar um elemento ligeiro afim de reconhecer o mesmo. Instalar-se em fim de jornada com o grosso na região de Ponte Nuovo. O 2º Pelotão deu diversos golpes de sonda e pelas informações colhidas, a zona achava-se completamente limpa de inimigo organizado. As 10 horas as vanguardas atingiram Sossuolo - Ponte Nuovo e entrou em ligação com elementos do Esquadrão de Reconhecimento da 34 D.I. [Divisão de Infantaria] Americana.

Prisioneiros

Foram feitos quatro prisioneiros na região de Ponte Nuovo. Não se constatando a presença de inimigo organizado, o 1º Pelotão foi lançado para Cavalgrande - Scandiano e reconhecer região de M. Evangelo - Montebabbio - Castellarano - reunindo-se em Ponte Nuovo com o grosso do Esquadrão.

Transposição do Enza

As 15 horas de 24, o Esquadrão recebeu em Ponte Nuova, a ordem de Descoberta nº 30.

I – Situação

a) O inimigo dispõe dos restos das Divisões 232 – 114 – 334 que foram batidas pelo IVº Corpo.
É possível encontro com resistências retardadoras.

b) Tropa amiga:

A D.I.E. prosseguirá na ofensiva para NE devendo atingir no fim da jornada de hoje as margens E da Torrente Tresinaro.

II – MISSÃO DO ESQUADRÃO:

Descoberta do eixo – Sassuolo – Scandiano – Albinea – Quatro Castelo – atingindo em primeiro lanço a transversal Reggio – Casloa, reconhecer a estrada número 63, de albinea [sic] a Casina e levar a descoberta ao corte da Torrente Enza, ocupando a ponte S. Polo, sobre a mesma.

III – LIGAÇÕES E TRANSMISSÃO-

Pelo rádio posto a posto, em escuta permanente; informação mesmo negativa nas horas cheias.

IV – EXECUÇÃO – Imediata -

O movimento foi iniciado às 16 horas.

O 1º Pelotão continuou na vanguarda e as 17 horas informava que tropas americanas já se encontravam em contato com uma resistência em Vassano, na estrada 63, entre Casino e Albinea.

Em vista da situação, o comandante do Esquadrão resolveu continuar a missão diretamente sobre S. Polo d’Enza, não realizando o reconhecimento de Cassina.

O 2º Pelotão ultrapassou o 1º Pelotão que se reagrupou nas proximidades de S. Polo e o 3º Pelotão foi lançado sobre Bebiano, de onde saíra uma coluna inimiga em direção a Montecchio de Emilia – O esquadrão passou a noite de 24 para 25 guardando as passagens de S. Polo Enza.

Ação em Parma – No dia 25 o 1º Pelotão foi lançado sobre Traversetolo, ocupando [esta?] localidade e vigiando as saídas para Parma e Laghirano. Uma patrulha, comandado [sic] pelo próprio comandante do Esquadrão esteve em Panocchio e Laghirano, onde estabeleceu ligação com chefes dos partesanos [sic] e com oficiais ingleses pára-quedistas que afiam com os combatentes italianos. Informações foram prestadas sobre presença de alemães em Colecchio e o deslocamento de 2 batalhões de Berceto para Fornovo.

A ordem de descoberta nº 31 de 25, recebida às 14 horas, em S. Polo d’Enza, previa os reconhecimentos já realizados em Laghiano e como a zona compreendida entre o Enzo e o Parma estava livre do inimigo, o Esquadrão foi lançado para a região de Porpurano e entrou em ligação com o Esquadrão de Reconhecimento da 34 D.I. (americana) – o 3º Pelotão foi reconhecer as orlas de Parma e atacou, com elementos a pé, um posto avançado inimigo que foi dominado, tendo os alemães as seguintes baixas:

Prisioneiro..............1
Morto..............1
Ferido..............1

Essa ação concorreu para facilitar a progressão da infantaria da 34 D.I.

AÇÃO DE VANGUARDA EM COLLECCHIO

Por oficial de ligação do G2 [Informações], o Esquadrão recebeu as 12 horas do dia 26, ordem para se lançar sobre Collecchio, para guardar as passagens do Taro –

O Esquadrão cumpriu a missão, com o 3º Pelotão em vanguarda pelo eixo:

Proporano – Gaione – S. Martino –

Ao atingir as orlas de Collecchio o 3º Pelotão foi detido por fogos de a.a. e carros de reconhecimento inimigos.
O 2º Pelotão desbordou pelo flanco esquerdo, tentando penetrar na cidade, sendo repelido por forte fogo de carros blindados.

O 1º Pelotão em reserva guardando a estrada para Sala Baganza.

Uma patrulha do 2º Pelotão tentou o flanqueamento de Collecchio e entrou em ligação em Vino Fertili, com uma Cia. de Infantaria americana.

O contato foi mantido e o Esquadrão foi reforçado inicialmente às 16 horas por uma Companhia do III/6º R.I. transportada em viatura e às 18 por elementos do II/11º R.I.

Às 17 horas os 2º e 3º Pelotões protegidos por elementos do 11º R.I. e do 6º R.I. penetraram na cidade, retirando-se para as orlas da cidade.

A Sec. de Eng. Nessa jornada organizou a defesa de Sola Bagaza, auxiliando a defesa do flanco do Esquadrão, tendo preparado a estrada para destruição.

No dia 27, o Esquadrão auxiliou a dominar um núcleo de resistência em Collecchio.

Às 9 horas o G2 da 1ª D.I.E. [Ten. Cel. Amaury Kruel] pessoalmente transmitiu, verbalmente, a nova missão do Esquadrão.
“Um destacamento de descoberta, formado por uma Cia.de Infantaria do 1º Regimento de Infantaria, o Esquadrão de Reconhecimento – uma Sec. de Engenharia, deveria se deslocar para a região de Castel de S. Giovani para guardar a ponte do rio Pó; lançar patrulhas para Borgonoro; aprisionar elementos inimigos dispersos”.

Foi marcada uma região de reunião na ponte de Taro, estrada número 10 e o Esquadrão deslocou-se às 10 horas de Collecchio. Somente às 14 horas apresentou-se o Major Comandante do Destacamento que ao tomar as primeiras providências, no ponto reunião recebeu ordem, com nova missão ao Esquadrão.

“Remanescente [sic] inimigos, batidos em Collecchio, retiram-se apressadamente pelo eixo Fornovo-Noceto.

Deveis interromper missão e lançar-se imediatamente sobre o eixo Castelguelfo – Noceto – Fornovo de maneira a exterminar o inimigo que desordenado retira-se na direçào da via Emilia”.

Imediatamente, o Esquadrão lançou-se em 2 colunas, deixando o T.C. em Ponte de Taro.

1) – Grosso – pelo eixo Noceto – Medesano – 1º e 3º Pelts.
2) – Flanco guarda – 2º Pel. pelo eixo Stradela – Belicchi – Medesano.

Foi estabelecido ligação com carros de combate americanos, na altura de Noceto e nas saídas de Medesano para Felegara, o 3º Pel., vanguarda foi hostilizado com fogos de a.a. – o 1º Pel. foi lançado pelo eixo de S. Andre, no flanco direito e chegando a essa localidade onde se entregaram cerca de 800 prisioneiros.

Em Medesano 3º e 2º Pelotões apeiaram para o combate as 22 horas as resistências reveladas foram vencidas.
Prisioneiros

Em Medesao..............120
Em S.Andre..............800
Feridos..............12

Além disso grande quantidade de armamento foi capturado, que por falta de tempo e de pessoal não foi avaliado.
Uma casa foi incendiada pelo fogo dos M 8

- Noite de 27/28 – O esquadrão permanceu patrulhando as saídas para Flegara e o Vale do Rio Taro.

Na manhã de 28, o Esq. Montou uma ação sobre Felegara com o seguinte dispositivo:

2º Pel. – no eixo Medesano-Felegara.
1º Pel. – de S. Andre para Felegara.
3º Pel. – de reserva no eixo Medesano, Felegara.

Na entrada de Felegara o 2º Pelotao entrou em contato, não podendo prosseguir pela ameaça de envolvimento no flanco esquerdo e por resistência revelada nas elevações a N de Felegara – o 3º Pel. foi lançado no flanco esquerdo, vale do Taro e 1 Pel. da 7ª Cia. do III/6º R.I. foi transportado de Medesano para a região, progredindo pelas alturas.

Os alemães se retiraram, deixando grande quantidade de armamento (Mtrs. Anti-carros [sic]-fuzis), 5 viaturas automóveis e viaturas hipomóveis, animais. Foram feitos cerca de 30 prisioneiros.

O Esquadrão sofreu as seguintes baixas: -
Feridos
Soldado..............1

Viatura incendiada
M 8..............1

Essa viatura foi atingida por um tiro de “lança rojão” na entrada de Felegara. A guarnição, sob o apoio de outro M 8, abandonou-a sem maiores conseqüências.

O Esquadrão reuniu-se em Felegara e uma patrulha a pé teve contato na estrada de Fornovo. A 7ª Cia. do III/6º R.I. cerrou sobre o Esquadrão.

Para a jornada de 29, o Esquadrão recebeu a seguinte ordem:
“Retomar a progressão, para ocupar Croceta e entrar em ligação com o 6º R.I., em Fornovo; lançar elementos de captura de prisioneiros sobre Varano e estrada que passa por Rubiano”.

A noite de 28 para 29, transcorreu sem qualquer alteração e na manhã de 29 às 10 horas, quando o Esquadrão se preparava para continuar a missão, apoiado pela Cia. de Infantaria, foi procurado por um Coronel alemão acompanhado de um Capitão para entrar entendimento sobre a suspensão da luta naquele setor. Encaminhados os parlamentares ao P.C. do III/6º R.I., em Collecchio entendimentos já estavam se realizando para a rendiçào da 148ª Divisão Alemã e os remanescentes da Divisão Itália.

Os parlamentares retornaram as linhas alemãs e toda atividade cessou na frente de Felegara.

Às 14 horas o Esquadrão deslocou-se menos o Pel. Extra que permaneceu em Ponte de Taro, para Collecchio com o objetivo de colocar a retaguarda da 148ª D. Alemã, para protege-la de ataques de partesanos e entrar em ligação com as vanguardas das tropas americanas.

O Snr. Chefe do E.M. determinou que somente um pelotão (1º Pelotão) acompanhasse o comandante do Esquadrão, a Fornovo, onde se realizaram entendimento com o Chefe do E.M. da Divisão Alemã, sobre a ação dos partisanos, que ignorando a suspensão das hostilidades continuavam atacando as retaguardas. Foram realizadas outrossim, ligações com chefe dos partesanos e ainda 150 prisioneiros alemães foram devolvidos pelos italianos, a 148ª Divisão, sob a responsabilidade do Comandante do Esquadrão.

O 3º Pelotão pernoitou em Fornovo, e o comandante do Esquadrão é chamado às duas horas do dia 30 para receber nova missão no Q.G. em Montecchio.

(...)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

História de uma missão de guerra que terminou em vodka

O Tenente Rui Moreira Lima em seu P-47 Thunderbolt

O relato do piloto Tenente Rui Moreira Lima de uma das suas missões de ataque na área de Casarsa durante a Segunda Guerra :

No dia 11 de março de 1945, decolaram duas esquadrilhas do 1º Grupo de Caça sob o comando do Capitão Lagares, com a finalidade de bombardear a muito conhecida ponte de Casarsa, localizada ao norte de Veneza. Completava eu a 59ª missão de guerra. A ponte era conhecida por motivos óbvios. Ali, alguns companheiros trouxeram a marca da acurada artilharia alemã. Um deles, o Ten Armando de Souza Coelho, teve seu avião atingido, saltando de pára-quedas em território amigo. O Ten Othon Correia Neto, que não teve a sorte do Armando, saltou sobre a área de Casarsa, sendo feito prisioneiro. Eu mesmo já havia recebido meu quinhão, quando o meu P-47 foi atingido na asa, por estilhaços de 88. A verdade é que esse não era o lugar mais aprazível para ser "visitado". Quando nos designavam para ir até lá, não havia entusiasmo de nossa parte. Casarsa soava, para nós pilotos, como Bolonha, Ferrara, Legnago, Udine, Lavis, Piacenza, Isola di Scala e mais uma dezena de bem defendidos alvos do Vale do Pó. Lançar bombas em alvos como esses, se bem que fôssemos voluntários - o 1º Grupo era constituído somente de voluntários - causava-nos profundo respeito.

Decolaram as esquadrilhas Verde e Marrom. Na primeira, comandada pelo Cap Lagares, voavam o Ten Tormin, como nº 2, eu como líder de elemento, e o Ten Coelho como nº 4; a Marrom, também sob o comando de Lagares, formada pelo Cap Pessoa Ramos, o Ten Meira como nº 2, o Ten Perdigão como líder de elemento e o Ten Paulo Costa como nº 4. Todos veteranos. O menos experiente era o Tormin, mas que se tornou veterano nas suas primeiras missões, conquistando este título por bravura, precisão nos ataques, descontração no vôo sob o fogo antiaéreo e mais um punhado de qualidades que o tornaram um dos mais hábeis pilotos de caça de nossa Unidade.

A rota escolhida até o alvo saiu da rotina, pois ao invés de voarmos diretamente para o objetivo, o Lagares, para evitar o Flak de Bolonha, voou sobre nossas linhas até Florença, rumando daí para Casarsa. Nessa ocasião, parte da "Estrada 9" tinha caído nas mãos do VIII Exército Inglês. Ao cruzá-la, deixamos à nossa esquerda a cidade de Forli, recentemente conquistada pelos ingleses, estando ocupada por um esquadrão de aviões de ataque A-20, formada de poloneses da RAF. Para esta história, este detalhe é importante.

Chegamos a Casarsa na hora estabelecida, e iniciamos o ataque. Era uma ponte ferroviária sobre o rio Madunna, que só poderia ser considerado como tal na época das águas. Parecia um desses nossos rios do nordeste que, na seca, vira estrada.

Mergulharam o Lagares e o garoto Tormin, vindo eu em seguida. No momento em que iniciava o mergulho, descobri uma bateria de 88 alemã, localizada a uns 200 metros da ponte. Avisei pelo rádio: - "Jambock Verde, de Jambock Verde, nº 3, localizei uma bateria, vou atacá-la, antes de lançar minhas bombas". - "Boa sorte", replicou o Lagares.

Como era de esperar, fui recebido "festivamente", não somente pela bateria que estava atacando, mas por outras armas de menor calibre, inclusive canhões antiaéreos de 40 e 20 mm. Deixei tudo em volta e me fixei na bateria. Mais ou menos a uns 3000 pés, fui atingido no motor, perdendo dois cilindros. O motor começou a pegar fogo. Novo aviso ao Lagares: - "Jambock Verde, fui atingido, o avião está pegando fogo, vou continuar o ataque sobre a bateria, saltando de pára-quedas em seguida". Sem aguardar a resposta, desci mais sobre o alvo, que somente parou de atirar quando o seu último artilheiro foi eliminado. Honra à memória daqueles bravos alemães. Tudo isso correu no relógio em segundos. A velocidade de mergulho andava pelas 420 mph. Transmiti nova mensagem: - "Jambock Verde, estou com fogo a bordo, vou agora lançar minhas bombas sobre a ponte, 'entregando-as a domicílio', e depois saltarei".

Por sorte, no momento em que sobrevoávamos o alvo, estava parado sobre a ponte um trem alemão. As bombas dos setes aviões que me antecederam pegaram a aérea do alvo, mas não atingiram a ponte. Como fui fazer aquelas entregas, acertei em cheio. O trem era de munições. Uma festa pirotécnica. A explosão das duas bombas de 500 lbs do meu D-4, "o Poderoso" (eram esses o número e o nome do meu Thunderbolt), misturou-se à explosão da munição do trem.

Como ataquei a baixa altitude, fui atingido pelos estilhaços. Trouxe mais de 28 marcas no avião, sendo que em duas delas poderia passar uma bola de futebol de salão.

Cumprida a missão, com a ponte destruída, transmiti nova mensagem: - "Jambock Verde, é o Jambock Verde 3, vou saltar, a visibilidade é zero, pois, além do fogo, há óleo sobre o pára-brisa, cobrindo também o canopy e fumaça na nacele". Com o excesso de velocidade, levantei o nariz do avião, atingindo a altura de 8000 pés. Agora, só saltar e esperar o bicho que ia dar.

Nesse instante, ouvi a voz clara do Lagares: - "Não vai saltar coisa nenhuma, o fogo antiaéreo te pegará durante a queda, toma o rumo 150º que te avisarei quando deves saltar". - "E o fogo? Achas que devo virar churrasco ou explodir feito o trem lá embaixo?" - "É uma ordem, não salta agora, há Flak demais em torno do teu avião, estão te caçando, é burrice saltar agora". Outras vozes chegaram aos meus ouvidos. O estribilho era o mesmo, - "Não salta Arataca!" A solidariedade dos companheiros e a voz experiente do Lagares clarearam minha cabeça. - "Está bem, Jambock Verde, leva-me para outro local, que o canopy está começando a fundir, e eu estou vendo a hora de dar o último grito".

Voei na reta, sempre subindo, seguindo as instruções do Lagares. Não se via nada para o exterior. A labareda que vinha do motor lambia o lado esquerdo do canopy. O óleo, a fumaça tudo impedia que eu visse o azul lá fora. O vôo era por instrumentos, coisa que, na época, não era meu forte.

- "Agora salta, estás sobre o Adriático. Já pedi socorro. Dentro de duas horas terás um Catalina que te apanhará. Usa bem a cabeça e teu barco de emergência."

Acontece que, naquele instante, meu ímpeto de saltar já estava bem arrefecido. Afinal de contas, não era pára-quedista. Iria tentar um meio de apagar o fogo. Avisei, caprichando no timbre de voz, dando a impressão de que estava calmo de que não iria saltar enquanto não tentasse uma manobra para apagar o fogo. Minha decisão caiu como uma bomba sobre o pessoal. Entre as palavras que me chegavam aos ouvidos, quase todos me chamavam de burro, xingavam minha mãe, diziam que eu iria virar churrasco, que eu estava era com medo de saltar, etc. Ouvi o diabo, mas não dei bola. Aproveitei um intervalo e entrei no ar declarando: - "Estou a 12000 pés, vou cortar a gasolina, mistura, bateria, gerador e magnetos. Picarei em seguida até atingir 350 mph. O fogo deve apagar. Darei partida no motor outra vez, se o fogo voltar, saltarei. Caso contrário voarei até onde der". Pararam de falar, naturalmente para observar-me. Executei a manobra planejada, a labareda extinguiu-se. Ao dar nova partida, ela não voltou. Aumentou a fumaça, talvez por ter aumentado o vazamento de óleo.

Com o fogo apagado, o Lagares deu-me o rumo direto de Forli, a tal base de poloneses da RAF. Atendendo ao comando do Lagares, fui guiado até lá. Quando estava mais ou menos a um minuto da cabeceira da pista, em altura conveniente, o Lagares disse-me que estava alinhado com a pista, devendo cortar o motor à sua ordem.

Aí entrou São Tomé. Quis conferir. Pus o óculos de vôo, abri o canopy e estiquei o pescoço para fora. Um jato quente de óleo cobriu-me os óculos. Num gesto pouco inteligente, tirei os óculos e insisti. Desta vez paguei caro. A vista esquerda foi atingida com óleo quente. Já estava quase no chão. A ordem para cortar o motor veio rápida. Fazê-lo e deslizar de barriga sobre a pista foi questão de um piscar de olhos. Fiz uma aterrissagem sem rodas, pois tanto eu quanto o Lagares não queríamos correr o risco de "varar" a pista com uma possível explosão. O avião correu o suficiente para parar a uns dez metros do seu final. Depois daquele barulho infernal da lataria deslizando sobre uma pista de emergência feita de grades de ferro, e passado o susto momentâneo, chamei o Lagares, quase implorando que ele não me deixasse naquela base desconhecida, de aliados desconhecidos também, onde teria que me entender com poloneses falando inglês, língua cuja pronúncia arataca (sou nortista do Maranhão) não pegaria bem falando com gente da Polônia, que só conhecia através do rádio, quando Batatais engoliu 5 frangos e Leônidas e Hércules fizeram 6 gols em Majewski, no campeonato de futebol de 1938.

Meus apelos foram em vão. As esquadrilhas retornaram a Pisa. Fiquei entregue à minha própria sorte e sabedoria. Deixei o avião às carreiras. Ainda havia o perigo de uma explosão. Afastei-me o quanto pude. Sentei-me sobre o pára-quedas a uns 100 metros, tremendo, mas tremendo mesmo, a vista esquerda no escuro, aguardando o socorro de um carro contra-incêndio, uma ambulância e um jipão. Quem me descobriu primeiro foi o jipão. Sobre o capô vinha sentado um oficial da RAF. Louro, 1,88 m, uniforme bem posto, com algumas condecorações que, de longe, me perguntou: - "Brasileiro?" Como não imaginava que àquela altura dos acontecimentos fosse encontrar um inglês da RAF falando português, dei uma de inteligente e respondi: - "Yes". - "Yes, coisa alguma, seu sacana, como vão as mulheres de Copacabana? Que é que houve contigo?"

Caí das nuvens de alegria. Respondi-lhe com outra pergunta: - "E tu, que é que estás fazendo com esse uniforme da RAF?" - "Sou filho de inglês, nasci em Curitiba, e aqui estou nessa merda dessa guerra maluca". - "Mas por que estás aqui com os poloneses?"

Aí veio a explicação. Na véspera, dois aviões Focke Wulf-190 fizeram um ataque de surpresa, matando alguns tripulantes de A-20 que assistiam a um cinema ao ar livre. Por solicitação do comando polonês, a RAF mandou uma esquadrilha de Spitfires para fazer a defesa aérea de Forli. Comandando essa esquadrilha, veio o Frederick C. Tate, de Curitiba, Paraná, filho de inglês e tão louco quanto a guerra louca que já estava chegando ao fim.

O médico polonês que me atendeu foi gentilíssimo e eficiente. Ali mesmo fez a faxina no olho esquerdo. Com um chumaço de algodão embebido em líquido amarelo, limpou-me a vista. A impressão que tive é que ele usava um esfregão desses de encerar cerâmica S. Caetano. Doeu pra burro. Antes que eu visse qualquer coisa, pôs-me um tampão no olho esquerdo, ficando com aquela cara que tem hoje o Moshe Dayan.

Meu pensamento voava nesse momento para o Brasil. Pronto, acabou-se minha guerra e vou ter que voltar caolho. Que falta de sorte, de tantas me livrei nessa missão e agora fico cego pela metade. Fui interrompido pela voz amiga do Fredy, que me declarou estar tudo bem, inclusive com minha vista esquerda. Talvez passasse a um grau menor de visão, mas estava salva. Respirei, mas sem tranqüilidade. Somente no primeiro curativo, no dia seguinte, no Hospital Central de Livorno, é que tive a certeza que não estava cego.

Ainda foi o Frederick que me falou outra vez: - "Agora é que vai começar a tua guerra com esses poloneses. Toda a vez que alguém se safa de uma dessas como tu te safaste, é obrigado a tomar um pileque. E a bebida deles é vodka!"

Entramos no Jipão, passamos pelo centro médico de emergência, para uma limpeza corporal rápida (ficara todo sujo de óleo ao deixar o avião) e levaram-me para a cidade de Forli, onde estava localizado o cassino de oficiais dos poloneses. Lembro-me que encheram de vodka um copo próprio para uísque, que foi tomado de um só fôlego, ao som de uma bela canção guerreira polonesa. Nessa hora meu estado moral era o pior possível: dor de cabeça, a tremedeira que ainda não havia passado, um tampão no olho esquerdo, com todas as características que estava cego, aqueles alegres companheiros de língua diferente, um copo de vodka já bebido, que caiu garganta abaixo sem uma interrupção, não há dúvida que minha tábua de salvação ainda era o mesmo grande gozador Frederick Tate, o brasileiro rafeano que Deus mandou para me salvar.

Bebido o primeiro copo, encheram outro. Nova canção e pimba! Tive que tomá-lo. Não adiantaram meus rogos ao Fredy. O bandido estava ali para ver o circo pegar fogo. Não teve um gesto de pena. Lembro-me só o que me disse ao iniciar o segundo copo: -"Agora, meu velho, estás..."

Apaguei. Acordei no dia seguinte no Hospital Central de Livorno. Sofri uma coma alcoólica. Não morri por pura sorte.

Fonte deste artigo: Senta a Pua! - Rui Moreira Lima - Editora Itatiaia