sexta-feira, 7 de maio de 2010

A partida

Rubem Braga : durante a Segunda Guerra Mundial atuou como correspondente de guerra junto à F.E.B. (Força Expedicionária Brasileira).


Setembro, 1944

Escrevo do Rio, em uma tarde de setembro de 1944. Não, isto não é mais o Rio. Depois que subimos a escada de bordo, vergados ao peso das malas, não mais estamos no Rio. O Rio está bem ali perto, atrás do feio armazém sujo; e está definitivamente longe. Os americanos da tripulação entram em forma: pela última vez antes da partida têm licença para sair: irão à Praça Mauá, à Glória, ao Beach Club. Um oficial passa-os em revista, lentamente. Um deles leva uma caixa debaixo do braço. É, certamente, um presente. Leio o rótulo: ''Ilusão - Meias de Seda''. Ele desce três degraus, volta-se para a popa, faz uma continência à bandeira americana e dispara escada abaixo. Outros homens, centenas, milhares de homens, sobem por várias escadas para os navios. Vistos do alto parecem estranhos bichos verdes, formigas humanas, cada um carregando um grande saco verde às costas, subindo lentamente. Vamos para o outro lado, olhamos a água suja e quase imóvel. A tarde cai. Vejo, boiando na água, um gorro de marinheiro. É triste, esse gorro branco perdido na água suja do cais: faz pensar em abandono, em afogamento.
Os homens sobem para os navios. Sobem por várias escadas, em fila indiana; sobem lentamente. Passam-se os minutos, as horas, os dias, os anos, os séculos, e o navio não sai. Os homens sobem. No salão há ordens, organização da rotina de bordo, leitura de regulamentos, e conversa. A esta hora, eu... A esta hora, lá em casa... A esta hora, ela... Mas é absurdo: Estamos falando do Rio como se estivéssemos longe. E estamos aqui, estamos no Rio. Na verdade estamos presos.

Nem mesmo os oficiais podem ir ao convés que dá para a terra. Ninguém deve ficar ali, para não perturbar a faina do embarque. Arranjo uma licença, vou ver os homens de perto. Não estão tristes nem alegres: sobem calados, aparentemente muito preocupados com a bagagem e a ficha que cada um carrega e que indica o seu lugar a bordo.

E como não há ninguém se despedindo de ninguém no cais, ninguém chora nem ri. Faz calor, e isso é aborrecido. Há quantos anos estamos a bordo? Hoje é segunda-feira ou março de 1953? Os compartimentos dos praças e os camarotes dos oficiais se enchem. Esperamos, esperamos. E lá fora, na cidade proibida, passa o tempo, a ronda das estrelas e da lua e do sol, e as mulheres que vão e vêm, a vida que vai e volta, e nós estamos eternamente neste enorme navio imóvel.

E como o Brasil é uma grande aldeia, descubro ligações. No beliche embaixo do meu vejo uma cara conhecida, não sei de onde. Ele diz que se chama Renato, é do Banco do Brasil, e afinal apuramos que nos conhecemos de vista: somos ambos "inocentes do Leblon", colegas dos ônibus 66 e 67. No primeiro beliche à minha direita - 90 centímetros a boreste - estica-se um jovem tenente desconhecido; mas logo fico sabendo que é casado, há alguns meses, com Jussara, aquela menina loura de minha terra, filha, pelos dois lados, de gente de Cachoeiro de Itapemirim. Pesa sobre mim a terrível ameaça da Justiça Militar: o beliche bem acima do meu verga-se ao peso sensacional do jornalista capitão Amador Cisneiros, promotor militar.

Deus quis certamente proteger este tão degradado filho de Eva: entre os 18 homens do meu camarote há sete santos homens: cinco padres católicos e dois pastores protestantes. Se eu morrer aqui, se um torpedo me estraçalhar, se Amador Cisneiros me esmagar, morrerei em grande odor de santidade.

Se este navio não sair amanhã, enjoarei.

O Presidente da República vem se despedir da tropa: depois vem o arcebispo. Alguém traz jornais: avançamos para eles com ares famélicos, como se estivéssemos há anos longe da pátria. E temos licença para escrever cartas; tristes cartas que só serão entregues, a alguns quilômetros daqui, depois que o navio chegar à Europa.

Às seis horas da manhã o pessoal do camarote começou a se arrumar depressa: o navio está saindo! Subimos para o convés superior. Todos correm alegremente; o armazém odioso sumiu, estamos navegando, a cidade se desenrola aos nossos olhos, avançamos pela baía. Olhamos a cidade, mas de repente entramos numa cerração e não vemos coisa alguma. O fotógrafo, decepcionado, pragueja. Depois paramos novamente. Passa o tempo. Afinal o navio se move. Agora vamos. "A cobra fumou!" Durante meses todos hesitamos: a cobra fumará? Na tropa não se falava de outra coisa: a cobra não vai fumar, quebraram o cachimbo da cobra etc., etc. E essa cobra mitológica, essa cobra de gíria obscura dos cariocas, está finalmente fumando. Isso quer dizer: vamos mesmo, estamos saindo. "A cobra fumou”.Lá vamos pelos mares, para a guerra, para voltar ou não voltar, pouco importa; o que importa é que a "cobra fumou". E os piores praças, os mais rebeldes, os que sumiam de repente, os que nunca chegavam na hora, todos estão presentes. Não faltou um só homem, não houve uma só vaga tentativa de deserção. Os homens que vieram de reserva voltaram do cais, não havia lugar para eles a bordo, porque na hora da "cobra fumar" todo mundo compareceu.

Adeus, Rio de Janeiro! Adeus, oh! Clara, oh! Magnânima, oh! Soberba e leal cidade do Rio de Janeiro. Uma barca da Cantareira passa perto, e alguém me chama a atenção: "veja, é a Quinta! É a QuintaColuna!” As fortalezas, embandeiradas, nos desejam boa viagem. Homens que passam em lanchas acenam adeus. A voz gordurosa de um padre, ampliada pelo alto-falante de bordo, convida-nos a erguer os olhos para Deus. Mas olhamos a cidade, olhamos obstinadamente para a Cidade dos Homens. Que Cidade dos Homens sobre a terra é mais humana que vós, Rio de Janeiro? Todos cantam o Hino Nacional. Alguns homens correm para bombordo; é a turma de Niterói que se despede. Mas antes de passarmos o Pão de Açúcar e de se desdobrar aos nossos olhos Copacabana, vejo uma tocante despedida. O comboio de navios enormes passa junto de um pequeno barco de pesca. Um pescador solitário fica em pé e acena com a mão. Seu barquinho balança fortemente com as ondas que os navios vão formando. Mas ele continua de pé, acenando lentamente a mão. Olho-o por um binóculo: é um velho pescador de camisa esfarrapada. Entre os monstros armados do oceano, sua canoa é humilde e frágil, mas ele tem uma estranha imponência. E fica lá para trás, indiferente aos balouços fortes da canoa, de pé, acenando lentamente a mão como quem cumpre um dever, como quem transmite sua pobre mensagem. Uma grande mensagem.

Setembro, 1944

A bordo, o oficial ou praça que trabalha come três vezes ao dia; quem não trabalha come duas vezes. Quem come duas vezes faz o pequeno almoço as nove e o jantar às quatro da tarde. Os americanos resolveram abrasileirar a comida, mas a comida foi mal traduzida. Não é comida brasileira nem americana; é, provavelmente, a comida típica de alguma parte do Atlântico. Come-se.

O que impressiona a bordo é a limpeza. O comandante americano, tenente-coronel McNair, declarou que tem transportado muita tropa nesta guerra e até agora não transportou nenhuma tão limpa e disciplinada como a nossa. Não sei se é costume dele dizer isso, mas que há limpeza há. Às 10 da manhã há inspeção geral dos camarotes e compartimentos. Há prêmios para o compartimento mais limpo e bem-arrumado, e os praças disputam esses prêmios. Como todos estão rigorosamente em ordem, a imaginação trabalha para ganhar o prêmio: os homens começam a enfeitar seus compartimentos, inventam coisas, dispõem os cobertores em V da Vitória. Os mais desleixados são vigiados pelos mais cuidadosos. O homem que acende um cigarro num camarote é imediatamente impedido de fumar pelos outros, porque só se pode fumar no banheiro ou no convés. E esses homens quando fumam fazem esta coisa absurda: jogam os palitos de fósforos e os tocos de cigarro exatamente nos cinzeiros ou nas latas de lixo.


Rubem Braga (esquerda em pé) com os correspondentes de guerra da FEB em 1944

Depois do equador ninguém enjoou mais. O "moral da tropa" ergueu-se. Os praças formam choros e cantam sambas e canções. Os oficiais fazem o mesmo, porém com menos bossa. Pelas seis horas fecha-se o navio; ninguém mais pode ir ao convés. As seis e meia funciona o "cabaré da Cobra”. Tem números variados, mas num cabaré há duas espécies de coisa que sempre fazem alguma falta - senhoras e álcool. A proibição de beber foi rigorosamente seguida: não entrou a bordo uma gota de cachaça sequer.

Às sete e meia os oficiais têm direito a uma sessão de cinema. O salão fica mais cheio do que qualquer "poeira"; há gente sentada no chão e gente trepada nas cadeiras. Não há legendas em português, e quem não entende pergunta a quem entende o que é que houve na tela.

Pelas nove e pouco acaba o cinema e logo depois se apagam as luzes do salão, ficando só algumas lâmpadas vermelhas muito fracas.

É hora de dormir. Nas noites de calmaria, isso era difícil. Os banheiros enchiam-se, e, depois, os oficiais, uns em calças de pijama, outros em calção de física, vinham para o salão, onde se pode fumar e conversar. E ali ficavam conversando na penumbra avermelhada, até o sono bater.

Descobriram que nos corredores e escadas sempre há algum vento. E na noite mais quente da viagem formaram-se essas filas que o carioca não conhece, e que devem servir de consolo aos que esperam o ônibus, a carne ou o leite; as filas do ar...

E enquanto estamos trancados aqui na escuridão avermelhada, lá fora é a noite.

Desde que o navio saiu não vimos mais a noite. A noite nos é proibida, com sua lua e suas estrelas. Navegamos para outro hemisfério.Certamente a lua está ficando mais cheia, noite após noite. Certamente algumas constelações morreram para as bandas do sul; o Cruzeiro deve ter mergulhado nas águas. Certamente estrelas virgens para os nossos olhos subiram do horizonte. Não sabemos. Fumamos na escuridão, trancados, e conversamos sem vontade e sem fé. Uma noite, correndo os compartimentos do navio, subindo e descendo escadas, vi de repente uma estranha claridade azul. Eu estava sozinho e não havia ali nenhum PM - o polícia militar que está a todo o momento em toda parte dizendo o que devemos fazer e por onde devemos seguir, e principalmente o que NÃO devemos fazer, por onde NÃO devemos seguir.

Hesitei um instante e galguei a escada estreita e escura. Tropecei numa soleira e dei mais dois passos. Aquela desconhecida claridade azul era a noite. Saltei para o ar livre sem fazer ruído. Um guarda estava ali perto, no convés, mas não me pressentiu. Há 10 dias eu não via a noite: lá estavam as estrelas e em alguma parte devia estar a lua, porque o céu era azul. Noite! Livre noite sobre a terra e sobre o mar, noite nas montanhas e no charco, no deserto e na rua, abençoada sede! Os homens que fumam cachimbo na triste escuridão vos saúdam: do fundo de nosso torpe salão vos abençoamos, oh! Lua, oh! Nuvens, oh! Estrelas do norte, oh! Grande noite azul.

Setembo, 1944

O soldado inglês é um tommie, o francês é um poilu, o brasileiro é o pracinha. Agora o pracinha vai para a guerra. O pracinha está num compartimento onde há muitos pracinhas. Há um pracinha no beliche de lona embaixo do seu e há dois pracinhas nos dois beliches acima do seu. Dentro do compartimento, a bombordo, a boreste, a ré, a vante, por baixo e por cima, há mais 379 pracinhas empilhados, todos seminus. Abaixo daquele, há outro compartimento, e abaixo desse outro há ainda outro, e acima e ao lado há outros compartimentos, todos absolutamente cheios de pracinhas do chão ao teto. Mas o pracinha mal pode ver dois ou três companheiros. As luzes foram apagadas, e só restam algumas baças lâmpadas vermelhas. Um americano me explicou o uso da luz vermelha dentro do navio trancado: a luz branca ou azul ou de qualquer outra cor apresenta grandes inconvenientes para o homem que subitamente tem de sair do interior do navio para ocupar seu posto em algum canhão ou metralhadora. Ele levará muito tempo sem conseguir enxergar nada na escuridão do mar. Se, porém, sai de um ambiente de luz vermelha, seus olhos em poucos segundos estão funcionando tão bem como se ele já estivesse há muito tempo na escuridão.

O pracinha não sabe de nada disso. Apenas vê, nas ilhas de fraca luz rubra que são vagas manchas de sangue na grande escuridão, vultos de dois ou três companheiros mais próximos. A luz vermelha espelha-se nos corpos suados. Faz um calor infernal: estamos na zona das calmarias, e quem não está de cuecas está de calção de ginástica.

Antes, pouco depois que se saiu do Rio, havia vento forte, e uma parte da tropa enjoou horrivelmente. Havia pracinhas chegados há pouco tempo do interior e que nunca tinham visto o mar em sua vida; e alguns, com o perdão da palavra, "restituíram" até a alma. Mas isso em certos lugares: não para fora do navio. Não se pode lançar nada fora do navio, nem uma ponta de cigarro; os detritos são jogados fora a uma hora certa, ao escurecer. Dizem que já houve o caso de transportes de tropas que foram seguidos pelos submarinos que se guiavam pelos detritos lançados ao mar.

O pracinha só mexe em seu beliche. São 10 horas, e às nove e meia deu o toque de silêncio. Que calor! Durante o dia o mar esteve parado, chato, como se fosse de aço mole, e do céu vinha um mormaço geral.

Foi evitando essas calmarias que Cabral descobriu o Brasil - diziam os compêndios de meu tempo. Eu também seria capaz de descobrir qualquer coisa, fosse o que fosse, para fugir a essa calmaria. O pracinha também descobre uma fuga: tomar banho.

O banheiro é grande, mas está cheio. Dezenas, centenas de pracinhas nus e seminus estão nos banheiros iluminados; são pretos, brancos, mulatos, amarelos, de todas as cores do Brasil e do mundo. Há muitos chuveiros de água salgada e apenas um de água doce em cada banheiro. Isso também é a única vantagem que pracinha leva sobre oficial, que não tem chuveiro de água doce. O pracinha toma banho e, saindo da claridade do banheiro, mergulha outra vez na escuridão do compartimento, tateando entre as pilhas de corpos nus, arrastando seu salva-vidas. É um pesado colete de lona impermeável cheio de paina, que a gente tem de carregar dia e noite. É grosso, incômodo, sujo. Uns o chamam de "pára-quedas" outros de "tatu", outros, mais elegantes de “renard”.

O pracinha consegue, afinal, acertar com o seu beliche. Amarra o salva-vidas ao lado do saco verde e sobe. E sua.

Sua-se, meus senhores, sua-se aos litros, sua-se aos potes, sua-se a cântaros neste navio trancado. Há ventiladores, há sistema de renovação do ar, e tudo isso é muito interessante. Mas o pracinha sua. Seu corpo está pegajoso, porque ele só conseguiu tomar banho de água salgada, e o sal do suor se mistura com o sal da água do banho, e o pracinha não pode dormir. Na escuridão de raras manchas rubras, ele fica pensando na vida - e, ocasionalmente, na morte. Se a distinta senhora minha leitora descesse àquele compartimento desmaiaria; é, à primeira vista, fúnebre. Aquela pretidão com manchas de sangue no ar, os homens em inumeráveis pilhas de quatro, quase nus, suando. Mas, coragem, minha senhora. Estamos no 203. Desçamos ao 303. Mais uma escada, senhora: vamos ao 403, e agora acabamos nossa viagem; é só ir ao 503. Porque além do C-503-L não há mais nada, é o próprio fundo do mar. E a escada que desce para o C-503-L é diferente das outras; ela se abre de repente, como um alçapão, dando para o profundo escuro baixo abismo, no fundo de outras escuridões que se acumulam negras lá para cima; além, mais uma escada e escuridão, e outra escada e escuridão, e outra escada e escuridão, e em cada escuridão, homens, homens e homens empilhados do teto ao chão, suando, suando, suando. Assim é o C-503-L.

Mas o pracinha agüenta. Arranja-se mais um ventilador, desce-se um cano de lona que traz ar. O pior é a impressão. E o pracinha guarda para si mesmo as suas impressões. Se tem medo, não diz. Vai para lá e fica. Depois se acostuma. Quando descobre que está vivo, e afinal de contas tem ar para respirar, e banheiro para tomar banho, se acostuma. Ali, naquele mesmo beliche onde está esticado o corpo suado do nosso pracinha, já esteve o corpo de um soldado americano que ia atravessando o Atlântico para leste, ou o Pacífico, para oeste, para lutar. Ali já esteve o corpo de um soldado francês que ia lutar pela sua terra escravizada. Ali já esteve o corpo de um italiano que ia preso para a América, depois de lutar pelo seu Duce ridículo. Este navio tem andado por muitos mares e levado muitos homens para a guerra ou para a paz. Na pobre lona onde se agita o nosso pracinha, agitaram-se, nestes últimos anos, sonhos e pesadelos, resmungos em várias línguas de homens de várias espécies. Alguns estão mortos; outros estão lutando, ou metidos em campos de concentração: ou gemendo em hospitais. O pracinha talvez não saiba disso. No meio dessa grande e tormentosa humanidade, o pracinha é um homem, é apenas um homem.

E agora ele vai dizer a sua palavra, vai intervir, como homem, no destino da humanidade. Saiba ou não saiba disso, o pracinha vai.

E isso é o que serve.

Amanhece. O pracinha toma banho, faz seu pequeno almoço, sobe para o convés, para o ar livre. Há espumas no mar, acabou-se a calmaria, não haverá mais calor. O navio marcha. E com o navio marcha o pracinha, marcha para as neves onde vai lutar por um mundo em que ninguém mais precise viajar no compartimento C-503-L.

Por Rubem Braga

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