sexta-feira, 31 de julho de 2009

Os Homens-Rãs


O ataque aos couraçados «Valiant» e Queen Elisabeth», fundeados no porto de Alexandria, realizado por seis homens-rãs italianos, transportados até ao próprio local do ataque pelo submarino «Sciré», deixou estupefacto o Almirantado Britânico J. D. Ratcliff faz aqui o seu relato desta proeza.


« Querida mãezinha:
Quando receberes esta carta, já terei deixado de existir. Ofereci-me como voluntário para realizar uma perigosa missão que fracassou...»
«Quinze dias antes do Natal de 1941, o tenente de marinha Luigi Durand de La Penne escrevera três cartas destinadas a sua mãe. Esta era a primeira; noutra anunciava-lhe que havia triunfado; e, na terceira, que caíra prisioneiro. Terminada a sua missão, enviariam a sua mãe a carta que correspondesse á realidade.




Luigi DURAND DE LA PENNE
La Penne, um belo rapaz de 27 anos, alto e de aparência desportiva, estava prestes a empreender uma empresa digna de figurar em lugar de relevo no livro de oiro da História: com o seu grupo - seis homens, na totalidade, e sem armas - devia atacar a Armada Britânica concentrada no porto de Alexandria. Nesse corpo a corpo, tremendamente desproporcionado, que oporia homens de 70 quilos a couraçados de 32000 toneladas, iria conseguir, além de uma brilhante vitória naval, a admiração do seu principal adversário. Winston Churchill afirmou que esta façanha representava «um notável exemplo de coragem e habilidade».
A guerra encontrava-se num momento crítico quando La Penne recebeu a missão de afundar as principais unidades da frota britânica do Mediterrâneo. Por causa da acção dos submarinos, os Britânicos acabavam de perder um couraçado e um porta-aviões.
Os dois couraçados que restavam á Inglaterra no Mediterrâneo tinham-se refugiado mo porto de Alexandria. La Penne e os seus voluntários deviam ir atacá-los, montados em três minúsculos submarinos que os homens-rãs denominavam «porcos» (Maiale).
Um «porco» media 6,50 m de comprimento; a sua propulsão, eléctrica, era silenciosa; a velocidade de 3 a 5 quilómetros por hora e o raio de acção de 16 quilómetros. O aparelho estava provido na «cabeça», de uma carga explosiva, desmontável, com o peso de 300 quilos. Uma vez no porto, cada um dos três grupos de dois homens devia aplicar a sua carga explosiva no casco do objectivo que lhe fora confiado e depois fugir - se pudesse.
As probabilidades de voltar são e salvo de semelhante missão eram mínimas. Por esse motivo, aconselhara-se a La Penne e aos seus homens que fizessem testamento e fizera-se um embrulho com os seus objectos pessoais, para serem enviados ás famílias no caso de que...





A 18 de Dezembro, os três grupos estão já a bordo de um submarino, o «Sciré», que repousa no fundo do mar, á entrada de Alexandria. Dentro do porto encontram-se, segundo confirmam os últimos boletins de informação, os couraçados «Valiant» e «Quenn Elizabeth».
La Penne e o seu companheiro de grupo, o contramestre Emílio Bianchi, terão o Valiant como objectivo; o tenente de marinha António Marceglia e Spartaco Schergart o «Queen Elizabeth». Quanto aos tenentes Vicenzo Martellotta e Mário Marino, deverão atacar um barco-cisterna de 16000 toneladas e semear em seguida bombas incendiárias flutuantes, confiando em que o petróleo derramado pelo barco-cisterna incendeie todo o porto. Terminado o seu trabalho, os três grupos dirigir-se-ão a nado para a margem e, dali, em algum barco de pesca roubado, seguirão para um lugar designado de antemão, onde irá recolhê-lhos, em 24 de Dezembro, um submarino Italiano.


Pouco antes das 21 horas, os tripulantes dos «porcos» envolvem-se, mal ou bem, nos seus apertados fatos de borracha. Depois os pequenos aparelhos são lançados á água e metem proa, lentamente até ao farol de Ras-el-Tin, que se destaca a 1500 metros de distância. Quando os seis homens montaram nos seus «porcos» apenas as cabeças emergem da água. As explosões hão-de ser provocadas por foguetes de efeito retardado. O barco-cisterna, segundo os cálculos irá pelos ares ás 5 horas e 55 minutos; o «Valiant» ás 6 horas e 5 minutos e o «Queen Elizabeth» ás 6 horas e 15 minutos. Os homens dispõem, portanto, de algum tempo para saborear o que será, talvez, a sua ultima refeição. Tiram frango frio e umas garrafinhas com champanhe, de uma caixa impermeável - e comem e bebem.


Chegou finalmente, o momento de se aproximarem das redes de aço que protegem a entrada do porto. Os «porcos» estão apetrechados com tesouras apropriadas, mas estas fazem demasiado ruído e as redes estão frequentemente carregadas de electricidade... La Penne hesita, reflectindo sobre o que lhe convém fazer. De repente, o farol e o porto iluminam-se: alguns barcos dispõem-se a entrar!
As redes afastam-se pra lhes dar passagem.
- Vamos! - ordena La Penne.
Três contratorpedeiros surgem da sombra; na sua esteira, saltando desordenadamente, vão os três pequenos «porcos».


Já no porto, os homens-rãs ocupam-se a localizar os seus alvos. La Penne e Bianchi aproximam-se do «Valiant», mas esbarram com uma rede protectora. Tentam levantá-la; pesa excessivamente. Para franquear o obstáculo, apenas há uma solução: passar-lhe por cima, sem despertar as atenções. A manobra resulta bem, com grande alívio deles. Voltam imediatamente a submergir.
O sítio melhor para a colocação da carga explosiva é debaixo da torre de comando. La Penne sobe á superfície para comprovar pela última vez a posição exacta e desenrola uma delgada corda que lhe servirá para regressar ao seu «porco». Mas, quando de novo submerge, o aparelhe nega-se a avançar: a corda - pensa - deve ter-se enrolado na hélice. Volta-se para Bianchi, para lhe indicar por sinais que a desenrede. Mas Bianchi desapareceu!
Agora tem de terminar o seu trabalho sozinho.
A carga explosiva encontra-se ainda a 30 metros da sua posição definitiva. Com as suas mãos nuas, que o fio entorpece, La Penne começa a arrastar pelo lodo, centímetro a centímetro, aquele fardo de 300 quilos. Depois de quase uma hora de trabalho esgotante, a carga fica no sitio desejado; mas La Penne está demesiadamente cansado para fixá-la ao casco. Tem a certeza, entretanto, de que fará o efeito pretendido, já que repousa no fundo a 1,50 m somente da quilha do navio. São 3 horas: faltam ainda mais 3 horas para a explosão.
La Penne está prestes a perder os sentidos.
Ao subir á superfície, produz um «clac» quase imperceptível, suficiente, contudo, para alertar o marinheiro de guarda na ponde do «Valiant». Projectores, saraivada de balas. La Penne descobre uma bóia de ancoragem e nada até lá. Por detrás dela estará protegido. Mas alguém ali se encontra também: Bianchi! Tendo-se-lhe avariado a máscara respiratória, desmaiou enquanto subia á superfície; logo que voltou a si, nadou até á bóia.
Não tarda a chegar uma lancha onde os dois homens são embarcados. No «Valiant», o oficial de guarda procede ao seu interrogatório: são 3 horas e 30 minutos. Os dois prisioneiros negam-se a dar qualquer informação. Separam-nos.
La Penne é encerrado num armazém da coberta inferior, por cima da carga explosiva, pouco mais ao menos. Um marinheiro compassivo dá-lhe um copo de aguardente e um maço de cigarros, para o reanimar. Já só lhe resta como andam depressa os ponteiros do seu relógio: 5 horas e 30, 5 horas e 40 minutos...

Ouve-se um estrondo longínquo. O grupo de Martellotta acaba de fazer saltar o navio-cisterna. A popa ficou completamente destruída e um contratorpedeiro que estava fundeado perto sofreu avarias; mas as bombas incendiárias não explodiram. São 5 horas e 54 minutos; só faltam 11 minutos. La Penne golpeia insistentemente com os punhos a porta da sua prisão; pede para ser levado á presença do capitão. É o comandante Charles Morgan.
- O barco vai pelos ares dentro de dez minutos - diz La Penne. - Não quero ser culpado de mortes inúteis. No seu lugar, capitão, eu faria subir toda a tripulação para a coberta.
- Diga-me - exige Morgan - o lugar exacto em que foi colocada a carga. Se se nega a responder, o meu dever á mandá-lo outra vez para baixo.
La Penne recusa-se; se Morgan soubesse que a carga repousa no fundo do mar, bastar-lhe-ia fazer o navio mudar de posição para o afastar do perigo. Enquanto é outra vez conduzido ao seu cárcere ocasional, o prisioneiro ouve os altifalantes de bordo difundirem a ordem: «Toda a gente para a coberta!»




Os olhos, agora, cravam-se no relógio, cujo ponteiro de segundos está a marcar, sem dúvida, os últimos instantes da sua vida. Terá, pelo menos, ajustado com exactidão o foguete de explosão retardada? É impossível fazê-lo com uma precisão de segundos. De súbito - são 6 horas e 6 minutos - a explosão produz-se.
O «Valiant» é agitado por sacudidelas convulsivas e enche-se de fumo. La Penne é atirado até ao outro extremo da sua cela e perde por momentos os sentidos. Ao recuperar o conhecimento, a onda explosiva abrira a porta. Sem que nínguem repare nele, sobe á coberta e fixa o olhar no «Queen Elizabeth», muito próximo do «Valiant»! Breve chegará a sua vez... São exactamente 6 horas e 15 minutos quando se dá a terrível explosão. Marceglia colocara a carga destinada ao couraçado precisamente por baixo da casa das máquinas; o óleo pesado sai pelas chaminés e derrama-se como um aguaceiro sobre o «Valiant» e sobre todo o porto. Os três barcos alcançados vão a pique mas ficam quase direitos, em virtude de não serem muito profundas as águas do porto.

As fotografias tiradas no dia seguinte á explosão, pelos aviões de reconhecimento, foram interpretadas correctamente pelos oficiais italianos: o «Valiant» estava escorado a bombordo; o «Queen Elizabeth» tinha a proa afundada; tornava-se evidente que os dois navios se encontravam seriamente avariados.
Mas Mussolini não ligou importância á informação dos especialistas. Como ninguém podia contradizê-lo, a frota italiana permaneceu nos portos e desperdiçou a sua melhor oportunidade, mas também é verdade que os Ingleses fizeram o impossível para manter Mussolini no seu tresloucado erro, mas isso já sãos outras histórias.

Quanto aos seis homens-rãs, foram feitos prisioneiros. Levaram La Penne para o Cairo e, depois, para a Palestina; daí consegui fugir para a Síria. De novo preso e embarcado para a Índia, voltou a escapar, mas uma vez mais foi aprisionado.
Foi posto em liberdade em 1943, pouco depois da assinatura do armistício com a Itália, e prestou serviços aos Aliados; foi em grande parte graças a ele que se descobriu um plano alemão que consistia, no momento de evacuar La Spezia, em obstruir a entrada do porto. Na entrada da barra deviam ser destruídos vários navios.
Mas os homens-rãs mergulharam oportunamente, tudo fazendo para os afundar antes que chegassem á barra; entre esses homens estava La Penne.



Em 1945 realizou-se uma cerimónia pouco vulgar. O príncipe herdeiro de Itália, Humberto, ia condecorar La Penne com a mais alta distinção nacional, a «Medaglia d'Ouro», quando um dos convidados se adiantou; era o contra-almirante Charles Morgan, comandante das forças navais britânicas com base em Itália, o antigo capitão do «Valiant». Não se esquecera de que, graças ao aviso dado por La Penne, a sua tripulação, composta por 1700 homens, não sofrera uma baixa sequer.
E o almirante britânico pediu ao príncipe que concedesse a honra de condecorar, com aquela insígnia da coragem, o homem-rã italiano».


Percurso das equipes

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