quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Como a mídia 'mainstream' branqueia a al-Qaeda e os Capacetes brancos na Síria (3/4), por Eva Bartlett

Parte 3/4

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Eva Bartlett POLITICA SOCIEDADE 

Credenciais, por favor: O que é o jornalismo?
Em relação à questão do The Guardian quanto à minha competência enquanto jornalista, gostaria de destacar o seguinte.

Eu comecei fazendo reportagens a partir do terreno, na Palestina, em 2017, primeiro através do meu blog, e mais tarde publicando artigos em várias outras mídias online.

Em 2007, passei 8 meses na Cisjordânia ocupada na Palestina, numa das áreas mais perigosas, onde palestinos são diariamente maltratados, raptados e mortos pelo exército israelense e por colonos judeus ilegais. Aí eu comecei a blogar, documentando os crimes realizados utilizando testemunhos, entrevistas na primeira pessoa, as minhas próprias experiências, fotos e vídeos.

Depois de ter sido deportada da Palestina pelas autoridades israelenses em Dezembro de 2007, em 2008 viajei de barco do Chipre até Gaza e documentei não apenas as diárias agressões israelenses contra homens desarmados, mulheres, idosos e filhos de camponeses e de pescadores, mas também os efeitos do devastador cerco total de Gaza, os esporádicos bombardeios e incursões terrestres por parte de Israel e, claro, os dois grandes massacres de Dezembro 2008/Janeiro 2009 e de Novembro 2012

Na guerra de 2008/2009 contra civis palestinos, eu estava no terreno ajudando socorristas no norte de Gaza (verdadeiros socorristas e não atores encenando) sob bombardeios e sob um fogo intenso de franco-atiradores. Eu estava também num piso no topo de um edifício de mídia na cidade de Gaza que foi bombardeado enquanto eu lá estava presente. Eu permaneci em Gaza depois da matança ter acabado, recolhendo horríveis testemunhos e documentando os crimes de guerra israelenses como os  assassinatos de crianças, a massiva utilização de Fósforo Branco sobre civis, a utilização de civis com escudos humanos e o uso (e assassinato) de médicos como alvos de ataque.

Veja esta link para obter mais informação detalhada destes documentos, com muitos exemplos, e muito mais documentação recolhida durante o massacre israelense de palestinos em Novembro de 2012, assim como relatos detalhados das minhas investigações resultantes de sete viagens pela Síria. 

Enquanto questionava as minhas credenciais enquanto jornalista de investigação sobre o Oriente Médio, o The Guardian inadvertidamente atribuiu a produção da história a uma jornalista de São Francisco especializada em peças de pelúcia, moda e análise Russofóbica, a qual tem visivelmente pouca ou nenhuma compreensão sobre o que está acontecendo na Síria.

Discursando sobre "a propaganda que é com frequência disfarçada de jornalismo", o premiado jornalista e realizador John Pilger afirmou: (destacado em negrito por mim)
"Edward Bernays, o proclamado pai das relações públicas, escreveu sobre o governo invisível que é aquele que de fato governa um país. Referia-se ao jornalismo, à mídia. Isto foi há quase 80 anos atrás, pouco depois do jornalismo corporativo ter sido inventado. É uma história que poucos jornalistas conhecem ou falam sobre, e teve o seu início com o advento da publicidade corporativa. 
À medida que as novas corporações foram tomando o lugar da imprensa, algo chamado de "jornalismo profissional" foi inventado. De forma a atrair grandes anunciantes, a nova imprensa tinha de parecer ser respeitável, pilar do establishment, objetiva, imparcial, equilibrada. As primeiras escolas de jornalismo foram criadas, uma mitologia da neutralidade liberal foi criada ao redor dos jornalistas profissionais. O direito à liberdade de expressão passou a ser associada aos novos media. 
... Tudo isto não passava de um embuste. Aquilo de que o público não foi informado, foi que, de forma para poderem ser profissionais, os jornalistas tinham de assegurar que as suas notícias e opiniões fossem dominadas por fontes oficiais. E isto continua verdade até hoje. Vasculhe o New York Times num dia  qualquer escolhido ao acaso, e verifique as fontes dos seus principais artigos de política interna e externa. Descobrirá então que todos esses artigos são dominados pelos interesses de governos e outros poderes. É esta a essência do jornalismo profissional."

Num post de Facebook público, o jornalista Stephen Kinzer escreveu:
"Acontece que concordo com a Eva em relação à Síria, mas, do ponto de vista de um jornalista, a verdadeira importância do que ela faz vai muito além do fato de produzir notícias a partir de um dado país. Ela desafia a narrativa estabelecida - e essa é a essência do jornalismo. Tudo o resto é a estenografia. Aspirantes a correspondentes estrangeiros,  tomem nota!!"

No difamatório artigo do The Guardian, Solon empregou a tática de denegrir a credibilidade de um(a) jornalista de investigação catalogando-o(a) como mero(a) "blogueiro(a)". Na sua estória, Solon utilizou o termo "blogueira" quatro vezes, três delas para referir-se a Vanessa Beeley (que contribui em artigos de análise para uma variedade de mídia online).

No último desses casos, ela citou James Sadri, diretor executivo da Purpose Inc (que opera o projeto de relações públicas do "Syrian Campaign), o qual afirmou a propósito de Beeley: 
"Uma blogueira de um site conspiracionista do 9/11 que apenas visitou a Síria pela primeira vez no ano passado não pode ser levada a sério como uma perita imparcial do conflito."
Relembrem-me quando foi a última vez que Sadri ou Solon lá estiveram? Parece que foi em 2008 no caso de Sadri, e nunca no caso de Solon. Mas eles são "credíveis", enquanto que alguém como a Beeley que desde a sua primeira visita em 2016 já lá retornou em inúmeras ocasiões e em momentos críticos, como a libertação de Alepo, e que falou com civis sírios do leste da cidade anteriormente ocupada pela Al-Qaeda e seus parceiros extremistas, não é credível?

E quanto aos blogueiros, existem muitos escritores e investigadores perspicazes que publicam nos seus próprios blogs (por exemplo, este blog). Contudo, e deixando à parte esta questão, é divertido nota que Solon no seu perfil de LinkedIn apresenta como sua primeira habilidade: blogging ("blogar"). Será ela uma mera blogueira? 

oli blogging

Em relação ao uso que Solon faz do tema "conspiracionistas", será que ela o reciclou a partir de um artigo do Wired publicado há oito meses atrás? Não há dúvidas queo uso do termo "conspiracionistas" serve o propósito de caricaturar todos aqueles que investigam os Capacetes Brancos como sendo mais um Alex Jones. 

Será ela capaz de ser original? 

castello
4 de Novembro de 2016: A menos de 100 metros do local onde caiu o segundo de 2 morteiros disparados por facções terroristas a menos de 1 km da Estrada Castello. A estrada e o corredor humanitário foram atacados pelo menos 7 vezes nesse dia por essas facções terroristas. Muitos desses que trabalham para a mídia corporativa foram se esconder no ônibus, e foi lhes fornecido capacetes e coletes à prova de bala. Eu permaneci na estrada, sem luxos do gênero. Leia mais sobre este episódio aqui

O The Guardian usa a tática da CIA de "Teorias da Conspiração"
Além de utilizar termos humilhantes, o The Guardian meteu-se no jogo da CIA de utilizar o mal-intencionado termo de "conspiracionistas".

Como afirmou Mark Crispin Miller (professor de comunicação social e escritor) perante uma comissão a Junho de 2017 :
"Teoria da conspiração não foi uma expressão muito utilizada por jornalistas até 1967 quando, de repente, começou a ser utilizada o tempo todo, e cada vez mais é utilizado. E a razão para tudo isto é que a CIA, naquela época, enviou um memorando aos chefes das suas representações em todo o mundo instando-os a usar as suas posições privilegiadas e os seus amigos dentro de meios de comunicação para desacreditarem o trabalho de Mark Lane ...  de escrever livros atacando o Relatório da Comissão Warren.  Mark Lane era um best-seller, e então a resposta da CIA foi a de enviar esse memorando exigindo um contra-ataque, esperando que lacaios obedientes à agência escrevessem críticas atacando este tipo de escritores com o rótulo de "conspiracionistas" e que utilizassem um ou mais dos cinco argumentos especificados no memorando. 

Aposto que Solon recebeu o memorando.

De forma mais aprofundada, o professor James Tracy afirmou:
"Teoria da Conspiração" é um termo que provoca medo e ansiedade nos corações da maior parte das figuras públicas, em particular jornalistas e acadêmicos. Desde a década de 1960, este rótulo tornou-se um dispositivo disciplinar que tem sido incrivelmente efetivo na definição de certos eventos fora dos limites da pesquisa ou do debate. Sobretudo nos EUA, colocar legítimas questões sobre dúbias narrativas oficiais de forma a informar o público (e, consequentemente, o poder político), é visto como um crime que deve ser a todo o custo cauterizado da mentalidade coletiva."

Kevin Ryan, escritor e investigador,  notou que (destacado a negrito por mim):
"Nos 45 anos que precederam a publicação do memorando da CIA, a expressão 'teoria da conspiração apareceu apenas 50 vezes no Washington Post e no New York Times, ou seja, cerca de uma vez por ano. Nos 45 anos após a publicação do memorando da CIA, a expressão apareceu 2630 vezes, cerca de uma por semana."
"... e claro, cada vez que a expressão é utilizada, é sempre num contexto no qual o "conspiracionista" possa ser caracterizado como menos inteligente e menos racional que aqueles que de forma acrítica aceitam as explicações oficiais para a maioria dos eventos. O presidente George Bush e os seus colegas usam frequentemente a expressão "teoria da conspiração" de forma a deter possíveis questões sobre as suas atividades. 

No seu artigo para o The Guardian, Solon incluiu a falácia de que a Rússia está por detrás de tudo.

Em agosto de 2017, Scott Lucas (citado por Solon no seu próprio artigo) escreveu (destacado a negrito por mim):
"Mídias estatais russas têm levado a cabo uma campanha, sobretudo desde que, em Setembro de 2015, Moscou interveio militarmente."

E no de Solon? (destacado a negrito por mim):
"A campanha para desacreditar os Capacetes Brancos começou ao mesmo tempo em que a Rússia, em Setembro de 2015, interveio militarmente..."

Mas tenho a certeza que é uma mera coincidência.

Investigações iniciais sobre os Capacetes Brancos precedem as da Rússia 
Como já afirmei anteriormente neste artigo, em 2014 e início de 2015, muito antes da mídia russa ter pego pegado no assunto, Cory Morningstar e Rick Sterling já estavam confrontando a história oficial sobre os Capacetes Brancos. 

Morningstar, no dia 17 de  Setembro de 2014, escreveu:
"Purpose, uma empresa de relações públicas de Nova Iorque, criou pelo menos quatro ONG's/campanhas anti-Assad: os Capacetes Brancos, o Free Syrian Voices [3], o The Syria Campaign [4] e a March Campaign #withSyria. ... A mensagem é clara. A Purpose buscava luz verde para a intervenção militar na Síria coberta sob o pretexto de humanitarismo - o oxímero dos oxímeros ".

Foi então que os Capacetes Brancos entraram em cena.

No seu artigo do dia 9 de Abril de 2015, Rick Sterling opinou que os Capacetes Brancos seriam um projeto de relações públicas para uma posterior intervenção ocidental na Síria. Segundo ele  (destacado a negrito por mim):
"Capacetes Brancos é o novo nome cunhado recentemente para a 'Syrian Civil Defence'. Apesar do seu nome, a Syria Civil Defence não foi criada por sírios nem exerce funções na Síria. Pelo contrário, foi criada pelos EUA e o Reino Unido em 2013. Alguns civis de zonas controladas por rebeldes foram pagos para irem à Turquia e aí receber algum treino em operações de resgate. O programa era gerido por James Le Mesurier, um ex-militar britânico e um contratista privado cuja empresa tem sede no Dubai."

Depois de ter começado a investigar os Capacetes Brancos por volta de Setembro de 2015 e de ter, em Outubro, revelado os laços destes com criminosos assassinos na Síria, Vanessa Beeley tem de forma implacável perseguido esta organização, as suas mentiras e a sua propaganda e o seu financiamento de pelo menos 150 milhões de dólares (muito mais que o necessário para suprimentos médicos e equipamento de filmagem profissional)

Como salientou o 21st Century Wire (destacado a negrito por mim):
"Reparem que o The Guardian e a Olivia Solon também afirmam que os Capacetes Brancos são apenas "voluntários", o que é uma fulcral deturpação de fatos desenhada para gerar simpatia pelos seus funcionários. Uma pessoa pode pura e simplesmente chamar a isto uma escandalosa mentira, visto que os membros dos Capacetes Brancos recebem regularmente um salário (ao qual, de forma enganadora, o The Guardian chama de "mesada") que é bem mais elevado que o salário médio sírio, detalhe convenientemente ignorado nesta peça de propaganda do The Guardian que parece ter sido feito de encomenda para o Ministério de Negócios Estrangeiros britânico.
... jornalistas do The Guardian como a Solon não devem atrever-se a mencionar que o valor da "mesada" dos Capacetes Brancos é bem superior ao do salário padrão de um soldado do exército que, com sorte, leva para casa 60 ou 70 dólares por mês."

CONTINUA 

Eva Bartlett, 06.01.2018

Parte 2
Parte 4

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Como a mídia 'mainstream' branqueia a al-Qaeda e os Capacetes brancos na Síria (2/4), por Eva Bartlett

Parte 2/4

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Eva Bartlett POLITICA SOCIEDADE 

Resposta ao The Guardian

Em Outubro, uma jornalista de tecnologia (e por vezes de moda) do The Guardian estabelecida  em São Francisco de nome Olivia Solon (que de forma perceptível não compreende de todo a geopolítica do Oriente Médio), enviou-me a mim e a Beeley dois emails praticamente idênticos repletos de assunções para uma "estória" do The Guardian da qual nós haveríamos de ser o foco principal de atenção. Aqui fica a correspondência entre mim e a jornalista Olivia Solon do The Guardian:

E agora a minha breve análise dos emails de Solon, incluindo algumas das suas questões mais controversas desses emails:  

- Quem são os "nós" que Solon menciona? A sua referência a "nós" é indicativo de que esta história não é uma ideia originalmente sua, nem tampouco pesquisada e escrita de forma independente. Partes do artigo, incluindo o título e alguns elementos que destacarei mais tarde no meu artigo, parecem ser reciclagens de partes de outros artigos anteriores, mas enfim, isto que ele faz é jornalismo de copiar-colar. 

- Não é que apenas eu acredite que a narrativa da 'grande mídia' sobre os Capacetes Brancos esteja errada; esta narrativa tem sido desacreditada de forma redundante nos últimos anos. Em Setembro de 2014, Cory Morningstar, um jornalista independente canadense, investigou as forças obscuras por detrás das pomposas Relações Públicas que envolvem os Capacetes Brancos.  Em Abril de 2015, Rick Sterling, um jornalista independente norte-americano revelou que os Capacetes Brancos têm sido financiados por potências ocidentais e geridos por um ex-militar britânico, e salientou o papel destes "socorristas" nos pedidos de intervenção ocidental para a criação de uma zona de exclusão aérea na Síria (mais artigos sobre este abaixo). Tudo isto foi dito meses antes da mídia russa ter começado a escrever sobre os Capacetes Brancos. 

Desde então, Vanessa Beeley produziu uma imensa pesquisa muito bem detalhada, realizando investigações no terreno (na Síria), inclusive recolhendo testemunhos de civis sírios que sofreram experiências (frequentemente horríveis) com os Capacetes Brancos; pôs em evidência que a Defesa Civil Síria existe e têm existido desde 1953, mas que não têm nada a ver com os Capacetes Brancos (os quais se apropriaram indevidamente daquele nome); estabeleceu que o órgão [socorrista] internacional, a organização International Civil Defence sediada em Genebra, não reconhece os Capacetes Brancos como sendo a Defesa Civil Síria; provou que homens agora membros dos Capacetes Brancos roubaram veículos e equipamento da Defesa Civil Síria de Alepo, assim como bens pertencentes a civis; e concluiu que os Capacetes Brancos partilharam com a al-Qaeda um edifício em Bab al-Bairab (Alepo oriental) no qual presenciaram, entre outras situações, a tortura de civis. 

Custa a acreditar que no espaço de tempo de dois meses que passaram entre ter contatado Beeley e ter me contatado, Solon, no decurso das suar certamente exaustivas investigações, não tenha visto este vídeo, no qual é claramente visível membros dos Capacetes Brancos fardados na companhia de apoiadores do terrorista saudita Abdullah Muhaysini. Socorristas não tão "neutros" assim. Mas, no entanto, talvez o tenha feito. Olivia Solon estava disposta a escrever sobre a presença de membros dos Capacetes Brancos em locais de execuções, sobre o fato de pousarem com os pés por cima de corpos de soldados sírios, e empunhando armas, numa daqueles típicas divagações de exceções à regra.

- Quanto ao interesse do The Guardian em relação à minha relação com o governo sírio: Não, não recebi pagamento nenhum, nem presentes nem o que quer que seja de governo nenhum. Pelo contrário, gastei do meu próprio dinheiro para poder visitar a Síria (e organizei uma fundo para doação/arrecadação, e tenho recebido com frequência doações via Paypal e de apoiadores no Patreon que gostam do meu trabalho). Veja o meu artigo sobre este assunto.

Quanto à questão sobre como é que as minhas visitas à Síria e à Coreia do Norte ocorreram, esta não é mais que uma nova e óbvia tentativa de subentender que eu faço parte da folha de pagamento (ou que recebo algum outro tipo de recompensa) de um ou mais dos governos em questão.

Uma das questões do The Guardian tinha como tema a quantidade de seguidores que tenho: "Que você atrai uma vasta audiência online, amplificada por personalidades de direita de grande peso e por aparições na televisão estatal russa." (destacado a negrito por mim)

O nível de seguidores que tenho teve início à precisamente um ano atrás, quando pedi para discursar perante uma comissão das Nações Unidas, algo que o US Peace Council também fez em Agosto de 2016. Foi graças a uma breve discussão (que se tornou viral) entre mim e um jornalista norueguês, que a minha audiência online disparou. Lamento que o que se tornou viral não tenha sido o conteúdo da exposição de mais de vinte minutos feita por mim e outros três convidados sobre a situação em Alepo, cidade que na altura ainda era alvo diário de bombardeios e tiros de franco-atiradores por parte daqueles que o Ocidente considera como "moderados". 

Ainda assim, e dado que tantas pessoas reagiram de forma positiva à referida discussão com o jornalista norueguês (cujo tema foram as mentiras da mídia corporativa e a sua falta de fontes), parece que o público vai começando a perceber que algo não bate certo com a forma com que a mídia corporativa retrata a questão síria. 

A primeira pessoa a editar e partilhar o vídeo em questão (no dia 10 de Dezembro, o dia a seguir à apresentação na comissão) foi o dono da conta Twitter @Walid970721. Entretanto já tive a oportunidade de me encontrar pessoalmente com ele, posso confirmar que esta pessoa não é nem russa nem financiada pelo Kremlin ou qualquer outro governo, e que partilhou o vídeo em questão por achá-lo interessante. De qualquer modo, no dia 10 de Dezembro, e antes de qualquer outra grande mídia russa fazer, a HispanTV havia já partilhado as minhas palavras. Mais, a partilha que obteve o maior número de visualizações foi a da mídia online indiana Scoop Whoop, a 15 de Dezembro. Que depois a mídia russa havia partilhado o vídeo e noticiado o acontecimento, isso não é da minha responsabilidade. E obrigado mídia russa por fazer aquilo que a mídia corporativa ocidental nunca faz.


- Quanto à questão de Solon no The Guardian sobre se eu julgo "que Assad tem sido demonizado pelos EUA de forma a provocar uma mudança de regime". Claro que julgo que sim, assim como fazem todos os analistas e jornalistas que não tenham sido cegados ou obrigados a sê-lo pela narrativa da OTAN. Como escreveu Rick Sterling em Setembro de 2016:
“A desinformação e a propaganda sobre a Síria assumem 3 formas distintas. A primeira é a demonização da liderança síria. A segunda é a romantização da oposição. A terceira forma implica em atacar todos aqueles que ousem questionar as caracterizações anteriores."

Stephen Kinzer, autor e correspondente premiado e colaborador do Boston Globe, escreveu em Fevereiro de 2016: 
"Correspondentes surpreendentemente corajosos presentes na zona de guerra, incluindo norte-americanos, tentam contrariar a versão dirigida por Washington. Com grande risco para a sua própria segurança, esses repórteres tentam trazer à superfície a verdade sobre a guerra síria. As suas reportagens, com frequência, trazem nova luz que contraria a escuridão do reinante pensamento de manada. Ainda assim, para muitos consumidores de notícias, as suas vozes perdem-se por entre a cacofonia. Quem noticia a partir do terreno é normalmente ofuscado pelo consenso de Washington".

No esforço de contrariar as campanhas de demonização da mídia corporativa, muitas vezes escrevi (incluindo as palavras de sírios vivendo na Síria, pormenor de suma importância) sobre o vasto apoio que o presidente sírio tem dentro e fora da Síria. 

No meu artigo de 7 de Março de 2016, fiz menção a um encontro que tive com membros internos e desarmados da oposição, incluindo o representante curdo Berwine Brahim, que declarou:
"Queremos que você transmita [ao mundo] que conspirações, terrorismo e a interferência de países ocidentais uniram apoiantes do governo e opositores no apoio ao presidente Bashar al-Assad".

Nesse mesmo artigo escrevi também: 
"Por todo o lado onde andei na Síria (assim como durante os muito meses que passei em várias partes do Líbano, onde me encontrei com sírios vindo de toda a Síria) encontrei imensas provas do extenso apoio que dão ao presidente al-Assad. O orgulho que eu vi que a maioria dos sírios sente pelo presidente é bem evidente nos cartazes pendurados em casas e lojas, nas canções patrióticas e nas bandeiras sírias durante celebrações, e foi também evidente nas conversas que tive com sírios comuns de todas as fés. A maioria dos sírios pede-me que eu diga exatamente aquilo que vi e que transmita a mensagem de que cabe aos sírios decidir o seu futuro, que eles apoiam o seu presidente e o seu exército, e que a única maneira de parar o derramamento de sangue é fazer com que as nações ocidentais e do Golfo parem de enviar terroristas para a Síria, com que a Turquia pare de atacar a Síria e com que o Ocidente pare com as suas conversas sem sentido sobre "liberdade" e "democracia" e deixe os sírios decidir o seu próprio futuro ".
No meu artigo de Maio escrito no Líbano, depois de ter observado de forma independente o primeiro dos dois dias durante os quais sírios faziam fila à porta da embaixada para votar nas eleições presidenciais, citei alguns dos muitos sírios com quem conversei (em árabe)  
"'Nós o adoramos. Eu sou sunita e não alauita' disse Walid, originário de Raqqa. 'Eles têm medo que as nossas vozes sejam ouvidas', acrescentou... 'Eu venho de Der-ez-Zor,' disse um votante. 'ISIS (Estado Islâmico do Iraque e da Síria) está presente na nossa zona. Nós queremos Bashar al-Assad. Ele é uma pessoa honesta,' continuou, enquanto fazia um gesto com a sua mão." 

E já agora, ninguém me escoltou até à embaixada num veículo do governo sírio. Não, eu apanhei um ônibus e depois caminhei os quilômetros restantes (a estrada estava tão entupida com veículos indo para a embaixada) com sírios que iam a caminho de votar.

Em Junho de 2014, uma semana depois das eleições na Síria, viajei de ônibus até Homs (outrora apelidada de "capital da revolução"), onde encontrei sírios celebrando os resultados eleitorais uma semana depois do evento ter ocorrido, e conversei com sírios que começavam entretanto a limpar e reconstruir casas danificadas pela ocupação terrorista do seu bairro.

Quando regressei a Homs, em Dezembro de 2015, lojas e restaurantes haviam reaberto onde há um ano e meio atrás só havia destruição. As pessoas preparavam-se para celebrar o Natal, algo que não puderem fazer sob o domínio de terroristas. Em Damasco, enquanto assistia a um concerto de um coral, ouvi por acaso pessoas se perguntando com entusiasmo se "ele" estaria ali. No dia anterior, o presidente Assad e a primeira-dama haviam aparecido num ensaio do coro, para surpresa e encanto dos seus membros. E, apesar da igreja se encontrar a uma distância alcançável pelos morteiros dos  "moderados" a oeste (e, na verdade, essa área tinha sido repetidamente atingida por morteiros), muitas pessoas arriscaram vir na esperança de poder haver uma nova visita do presidente.

Estes são apenas alguns dos muitos exemplos de apoio que o presidente da Síria vê, e as tentativas de vilipendiar a ele e a outros membros da liderança síria. Até a Fox News reconheceu seu apoio, referindo-se às eleições de 2014:
"... ressaltou o apoio considerável que o presidente Bashar al-Assad ainda desfruta da população, incluindo muitos da majoritária comunidade muçulmana sunita. ... Sem o apoio sunita, no entanto, há muito que o governo de Assad teria colapsado".

Em relação aos crimes de guerra, a Síria está lutando uma guerra contra o terrorismo, mas a mídia corporativa continua a fabricar falsas alegações e a repetir essas mesmas inventadas e infundadas acusações. Por exemplo, a repetida acusação de que o governo sírio mete civis a morrer de fome. Durante as minhas investigações no terreno, eu revelei a verdade por trás da fome (e dos hospitais destruídos e dos "últimos médicos") em Alepo, em Madaya, em al-Waer, no centro histórico de Homs (2014). De qualquer maneira, a fome e a falta de assistência médica eram da exclusiva responsabilidade de grupos terroristas (incluindo a al-Qaeda) que armazenavam a comida (e os suprimentos médicos). Vanessa Beeley, em maior profundidade, expôs bem essas mentiras sobre Alepo oriental.

Quanto às alegações sobre armas químicas, estas já foram há muito desmontadas pelas investigações de Seymour Hersh (sobre Guta 2013; sobre Khan Sheikhoun 2017) e pela própria Carla Del Ponte (das Nações Unidas) que afirmou que:
"... há suspeitas fortes e concretas mas não ainda provas incontestáveis do uso do gás sarin, tendo em conta a forma como as vítimas foram tratadas. Estas foram usadas por parte da oposição, os rebeldes, e não pelas autoridades governamentais".

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Em relação aos comboios supostamente bombardeados, veja este meu artigo sobre uma alegação do gênero

Sobre se os Capacetes Brancos fizeram ou não algum positivo trabalho de resgate de civis: eles apenas trabalham em áreas ocupadas pela al-Qaeda e outros terroristas a eles associados, de forma que ninguém pode provar se de fato realizaram algum resgate de civis. Contudo, temos inúmeros testemunhos no sentido contrário recolhidos no local, testemunhos sobre os Capacetes Brancos recusando cuidados médicos a civis não afiliados a grupos terroristas.  

Em Setembro de 2017, Murad Gazdiev (muito útil com as suas honestas reportagens a partir de Alepo durante quase todo 2016) apresentou provas de que o quartel-general dos Capacetes Brancos em Bustan al-Qasr (Alepo) estava repleto de Canhões do Inferno (usados para disparar bombas-botijão-de-gás contra os civis e a infra-estrutura de Alepo) e de restos de uma fábrica de bombas. O quartel-general estava localizado numa escola.

Os relatos de Gadiev foram precedidos pelos de Pierre le Corf, um cidadão francês vivendo há mais de um ano em Alepo, que em Março de 2017 havia visitado essa sede dos Capacetes Brancos (e de novo em Abril), e que publicou a descoberta de bandeiras, logotipos e toda uma parafernália de objetos do ISIS e da al-Qaeda dentro da sede dos Capacetes Brancos instalada mesmo ao lado da sede da al-Qaeda (Jabhat al-Nusra). Le Corf escreveu também sobre os seus encontros com civis de Alepo oriental e sobre a opinião destes em relação aos Capacetes Brancos:
"... as duas últimas famílias com quem me encontrei disseram me que eles ajudavam primeiro os terroristas feridos e às vezes deixaram os civis nos escombros. Quando as câmeras estavam filmando, todos ficavam agitados, assim que as câmera eram desligadas, as vidas das pessoas sob o entulho perdiam importância... Todos os vídeos que você viu na mídia vêm de uma ou de outra. Os civis não podiam pagar para ter câmeras ou ligações 3G quando já era difícil comprar pão, apenas grupos armados e seus apoiadores o podiam fazer ".

Em Dezembro de 2016, quando a cidade de Alepo foi libertada, Vanessa Beeley recolheu testemunhos de civis da zona leste até então ocupada pela al-Qaeda. Mais tarde escreveu:
“Quando lhes perguntei se tinham conhecimento da "defesa civil", responderam-me furiosos: "sim, sim, a defesa civil da frente al-Nusra". A maior parte deles quis aprofundar a questão e me explicou que a defesa civil da frente al-Nusra nunca ajudam civis, e que apenas trabalham para grupos armados."

Beeley escreveu também sobre a cumplicidade dos Capacetes Brancos no massacre de civis (incluindo 116 crianças) em Foua e Kafraya em Abril de 2017.

CONTINUA
Eva Bartlett, 06.01.2018

Parte 1
Parte 3

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Como a mídia 'mainstream' branqueia a al-Qaeda e os Capacetes Brancos na Síria (1/4), por Eva Bartlett

Pra situar o povo que pode vir a ler o texto inteiro (em quatro partes), tradução de texto por Luís Garcia (Portugal) sobre a guerra na Síria e sua cobertura pela dita 'grande mídia'. Vou adaptar, dentro do possível, a grafia portuguesa pra do Brasil, embora, particularmente, eu ache desnecessário, mas pode ser que alguém estranhe alguma expressão (exemplo: em Portugal se usa a expressão "media" em vez de "mídia", no Brasil).

Sobre os "Capacetes Brancos", dizem ser um grupo de voluntários a atuar no conflito sírio, só que recebem acusações de ser propaganda de guerra. Algo não incomum numa zona de guerra também nos relatos/versões da grande mídia.
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Como a mídia 'mainstream' branqueia a al-Qaeda e os Capacetes Brancos (White Helmets) na Síria (1/4), por Eva Bartlett

No dia 18 de dezembro de 2017, o The Guardian publicou um vergonhoso ataque contra a jornalista britânica Vanessa Beeley, contra Patrick Henningsen e o seu site de notícias independente '21st Century Wire', contra o professor e escritor australiano Tim Anderson, e contra mim própria. A julgar pelos mordazes comentários à publicação do The Guardian no Facebook, o público no geral não foi na conversa. O The Guardian, assim como o Channel 4 News e o Snopes, branqueiam o terrorismo na Síria, empregam argumentos do tipo non-sequitur, promovem propaganda de guerra, e pura e simplesmente não entendem nada daquilo que se passa:










Como o suposto tema desta estória do The Guardian era o assunto dos socorristas na Síria, vou começar por falar sobre os verdadeiros socorristas que conheço e com quem trabalhei em circunstâncias infernais em Gaza.

Em 2008/9, ofereci-me como voluntária na ajuda a médicos palestinos durante os 22 dias de implacáveis e indiscriminados bombardeios de aviões de guerra e helicópteros Apache israelenses, e de bombardeios vindos do mar, de tanques e de drones. A perda de vidas humanas e de gente ferida foram imensas, com mais de 1.400 palestinos assassinados e milhares de outros mutilados, na sua maioria civis. Usando equipamento rudimentar e degradado (igual ao que se passa com os verdadeiros socorristas na Síria), os médicos palestinos trabalharam de forma incansável, dia e noite, para salvar vidas de civis.

Não houve uma única ocasião em que eu tenha ouvido os médicos (numa Gaza que é sunita) gritar "takbeer" ou "Allahu Akbar" enquanto se resgatava civis, muito menos caminhar intencionalmente sobre cadáveres, posar para vídeos encenados ou qualquer um dos outros revoltantes atos que os Capacetes Brancos (White Helmets) têm sido filmados a fazer na Síria. Estes médicos estavam demasiado ocupados resgatando gente e evacuando antes que viesse outro ataque israelense, e geralmente mantinham um focalizado silêncio enquanto trabalhavam, comunicando apenas o necessário. As únicas ocasiões em que eu me lembro de ouvir gritar enquanto estive ajudando estes médicos foram os gritos de civis que íamos recolhendo e, em particular, os gritos angustiados de um marido ajudando a colocar as partes do corpo da sua esposa desmembrada numa maca para ser levada para a morgue. Os médicos que conheci em Gaza eram verdadeiros heróis. Os Capacetes Brancos, nem pensar. Os Capacetes Brancos são grotescas caricaturas de socorristas.

Um membro dos Capacetes brancos. “Neutro e não armado”?

CONTINUA

Eva Bartlett, 06.01.2018

traduzido para o português por Luís Garcia

versão original em inglês: How the Mainstream Media Whitewashed Al-Qaeda and the White Helmets in Syria

Fonte: blog Pensamentos Nómadas

Parte 2

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Assassinos da SS com doutorado

Em estudo monumental, historiador francês Christian Ingrao ressalta o papel decisivo dos intelectuais na elite da Ordem Negra de Himmler


A imagem que se tem popularmente de um oficial da SS é a de um indivíduo cruel, chegando ao sadismo, corrupto, cínico, arrogante, oportunista e não muito culto. Alguém que inspira (além de medo) uma repugnância instantânea e uma tranquilizadora sensação de que é uma criatura muito diferente, um verdadeiro monstro. O historiador francês especializado em nazismo Christian Ingrao (Clermont-Ferrand, 1970) oferece-nos um perfil muito diverso, e inquietante. A ponto de identificar uma alta porcentagem dos comandantes da SS e de seu serviço de segurança, o temido SD, como verdadeiros “intelectuais comprometidos”.

O termo, que escandalizou o mundo intelectual francês, é arrepiante quando se pensa que esses eram os homens que lideravam as unidades de extermínio. Em seu livro Crer e Destruir: Os intelectuais na máquina de guerra da SS nazista, Ingrao analisa minuciosamente a trajetória e as experiências de oitenta desses indivíduos que eram acadêmicos – juristas, economistas, filólogos, filósofos e historiadores – e ao mesmo tempo criminosos –, derrubando o senso comum de que quanto maior o grau de instrução mais uma pessoa estará imune a ideologias extremistas.

Há um forte contraste entre esses personagens e o clichê do oficial da SS: assassinos em massa fardados e com um doutorado no bolso, como descreve o próprio autor. O que fizeram os “intelectuais comprometidos”, teóricos e homens de ação, da SS foi terrível. Ingrao cita o caso do jurista e oficial do SD Bruno Müller, à frente de uma das seções do Einsatzgruppe D, uma das unidades móveis de assassinato no Leste, que na noite de 6 de agosto de 1941 ao transmitir a seus homens a nova ordem de exterminar todos os judeus da cidade de Tighina, na Ucrânia, mandou trazer uma mulher e seu bebê e os matou ele mesmo com sua arma para dar o exemplo de qual seria a tarefa.

“É curioso que Müller e outros como ele, com alto grau de instrução, pudessem se envolver assim na prática genocida”, diz Ingrao. “Mas o nazismo é um sistema de crenças que gera muito fervor, que cristaliza esperanças e que funciona como uma droga cultural na psique dos intelectuais.”

O historiador ressalta que o fato é menos excepcional do que parece. “Na verdade, se examinarmos os massacres da história recente, veremos que há intelectuais envolvidos. Em Ruanda, por exemplo, os teóricos da supremacia hutu, os ideólogos do Hutu Power, eram dez geógrafos da Universidade de Louvain (Bélgica). Quase sempre há intelectuais por trás dos assassinatos em massa”. Mas, não se espera isso dos intelectuais alemães. Ingrao ri amargamente. “De fato eram os grandes representantes da intelectualidade europeia, mas a geração de intelectuais de que tratamos experimentou em sua juventude a radicalização política para a extrema direita com forte ênfase no imaginário biológico e racial que se produziu maciçamente nas universidades alemãs depois da Primeira Guerra Mundial. E aderiram de maneira generalizada ao nazismo a partir de 1925”. A SS, explica, diferentemente das ruidosas SA, oferecia aos intelectuais um destino muito mais elitista.

Mas o nazismo não lhes inspirava repugnância moral? “Infelizmente, a moral é uma construção social e política para esses intelectuais. Já haviam sido marcados pela Primeira Guerra Mundial: embora a maioria fosse muito jovem para o front, o luto pela morte generalizada de familiares e a sensação de que se travava um combate defensivo pela sobrevivência da Alemanha, da civilização contra a barbárie, arraigaram-se neles. A invasão da União Soviética em 1941 significou o retorno a uma guerra total ainda mais radicalizada pelo determinismo racial. O que até então havia sido uma guerra de vingança a partir de 1941 se transformou em uma grande guerra racial, e uma cruzada. Era o embate decisivo contra um inimigo eterno que tinha duas faces: a do judeu bolchevique e a do judeu plutocrata da Bolsa de Londres e Wall Street. Para os intelectuais da SS, não havia diferença entre a população civil judia que exterminavam à frente dos Einsatzgruppen e os tripulantes dos bombardeiros que lançavam suas bombas sobre a Alemanha. Em sua lógica, parar os bombardeiros implicava em matar os judeus da Ucrânia. Se não o fizessem, seria o fim da Alemanha. Esse imperativo construiu a legitimidade do genocídio. Era ou eles ou nós”.

Assim se explicam casos como o de Müller. “Antes de matar a mulher e a criança falou a seus homens do perigo mortal que a Alemanha enfrentava. Era um teórico da germanização que trabalhava para criar uma nova sociedade, o assassinato era uma de suas responsabilidades para criar a utopia. Curiosamente era preciso matar os judeus para realizar os sonhos nazistas”.

Ingrao diz que os intelectuais da SS não eram oportunistas, mas pessoas ideologicamente muito comprometidas, ativistas com uma visão de mundo que aliava entusiasmo, angústia e pânico e que, paradoxalmente, abominavam a crueldade. “A SS era um assunto de militantes. Pessoas muito convictas do que diziam e faziam, e muito preparadas”. O que é ainda mais preocupante. “É claro. É preciso aceitar a ideia de que o nazismo era atraente e que atraiu como moscas as elites intelectuais do país”.

Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2017/06/21/cultura/1498069163_921732.html?id_externo_rsoc=FB_BR_CM

terça-feira, 14 de março de 2017

Carpinteiro idoso dos EUA é identificado como nazista que comandou massacres


O carpinteiro aposentado Michael Karkoc, de 98 anos, foi um oficial das SS que devastou povoados.Sua identidade foi revelada após uma investigação da AP, mas a família dele nega.

Michael Karkoc em seu jardim em Minneapolis. RICHARD SENNOTT (AP)
Portava a caveira e as runas com orgulho. Matou homens, mulheres e crianças. Arrasou povoados inteiros. Era a fera de Chlaniów (Polônia). Durante décadas, se ocultou nos Estados Unidos, procurou um lar e teve família. Agora, depois de uma longa peripécia jornalística e judicial, sua identidade foi confirmada. O carpinteiro Michael Karkoc, um pacato ancião de Minneapolis, foi o comandante da Legião de Autodefesa Ucrânia, subordinada às letais SS de Hitler.

Aos 98 anos, o passado se voltou contra ele. A promotoria polonesa se diz “100% convencida” de quem é o antigo nazista e anunciou que vai pedir a sua extradição devido aos massacres cometidos durante a Segunda Guerra Mundial na região de Lublin.

Não será a primeira vez que ele enfrentará a Justiça. Há quatro anos, depois que uma investigação realizada pela agência AP trouxe seu caso à tona, o ministério público alemão quis levá-lo a julgamento. A família de Karkoc conseguiu barrar a iniciativa apresentando documentação médica que supostamente demonstrava sua incapacidade de ser processado. “Não existe nenhuma prova que mostre que meu pai tenha tido alguma coisa a ver com atividades criminosas”, diz o filho de Karkoc.

Esses argumentos não detiveram os promotores poloneses. Como seu país não permite julgamentos em ausência do réu, querem reexaminar o caso em seu território. Ao mesmo tempo, o “caça-nazistas” Efraim Zuroff, do Centro Simon Wiesenthal, adiantou que solicitará uma análise por médicos independentes.

A reconstituição da AP, baseada em testemunhos oculares e documentos, defende que Karkoc ingressou no Exército alemão em 1941. Brutal e determinado, logo recebeu uma Cruz de Ferro e pediu sua entrada na Legião de Autodefesa Ucrânia. Quando esse corpo de exterminadores foi absorvido pelas SS, as unidades de elite hitlerianas, Karkoc brilhou com luz própria e alcançou o posto de comandante.

As atrocidades cometidas por essa brutal manada de nazistas foram inúmeras, mas o acusado é perseguido por ter dirigido uma operação de castigo contra o povoado de Chlaniów – a única para a qual há testemunhas oculares.

Ocorreu em 23 de julho de 1944. Após a morte do comandante oficial, a corpo decidiu fazer uma represália à população civil. Com a ordem de “liquidar Chlanów”, os homens de Karkoc se lançaram à barbárie: queimaram casas e mataram a tiros 44 homens, mulheres e crianças. Outras localidades menores também foram arrasadas.

Depois da matança, a pista de Karkoc começa a se dissipar, como muitas outras coisas nos dias finais da guerra. Suspeita-se que ele esteve em outras unidades das SS e que, como parte de uma delas, pode se dedicar à repressão de membros da resistência eslovena. Não há certezas. Acabado o conflito, seu rastro desaparece até que, em 1949, solicita entrada nos Estados Unidos. Nos documentos, ele alega que não fez o serviço militar e que durante a guerra trabalhou com seu pai. Dez anos depois, recebeu a nacionalidade norte-americana. Meio século mais tarde, foi descoberto. O passado o espera.

Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2017/03/14/internacional/1489456727_514061.html

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Uniformes do Exército Brasileiro (1730 -1922)




Uniformes do Exercito brasileiro, 1730-1922 : Obra commemorativa do Centenario da Independencia do Brasil.

Livro bem raro sobre os uniformes militares brasileiros, de 1730 até 1922.

Composta por 228 (duzentas e vinte e oito) aquarelas de José Wasth Rodrigues e texto de Gustavo Barroso, sendo em 1922, publicada em Paris e em edição especial para o Ministério da Guerra como obra comemorativa do centenário da Independência do Brasil.

Texto interessante da Biblioteca Nacional sobre o livro:

Link para download do livro:

Esse livro foi digitalizado também pela Biblioteca Publica de Nova Iorque:

Prévia:








sábado, 31 de dezembro de 2016

ATUALIZAÇÃO - Abrangência nas postagens do blog



Bom, gostaria de mencionar a todos que frequentam o  blog "A Vida no Front", que a pagina deu um passo a mais há alguns dias, mas só hoje venho fazer uma postagem sobre o assunto.

Como facilmente é notado, estou um período um pouco ausente, postando bem menos, pois estou envolvido em alguns projetos pessoais, dedicando um bom tempo em alguns estudos extra blog. Mas isso não deixou de me afastar da pagina.

Devido ao assunto 2ª Guerra Mundial / Holocausto / Genocídio serem temas que tem uma quantidade maior de publicações, com estudos por diversos grupos e uma gama de sites e livros falando sobre o assunto, decidi expandir o conteúdo do blog para outros assuntos que envolvam os mais diversos conflitos militares, questões geopolíticas, relações internacionais, poder nacional, defesa, segurança internacional, armamentos, tropas e afins, sem necessariamente ficar atrelado a uma recorte temporal. Portanto, depois de bastante tempo refletindo -  a alguns anos, para ser mais preciso - , decidi dar um upgrade na pagina, pois os assuntos poderão ser mais fluidos, sem se deter a apenas um conflito. 

Hoje, no atual cenário mundial, está ocorrendo uma série de conflitos que não podem deixar de serem citados, e com isso analisados os antecedentes que podem ter provocado ou auxiliado a ocorrência do mesmo. Outros assuntos também vão ser tratados, que envolvam no escopo conflitos militares nos mais diversos locais do mundo e nas mais diversas datas. Os assuntos de 2ª Guerra Mundial / Holocausto / Genocídio serão mantidos normalmente, só novos temas serão somados, sem prejuízo alguns para os leitores do blog.

Nessa nova empreitada, soma-se a mim (Daniel Moratori), meu amigo Roberto, que é um dos colaboradores do Holocausto.doc e passará a contribuir aqui também (tendo a liberdade de postar, sem que ocorra a supressão pela minha parte na sua forma de pensamento e ideologia).

Enfim, acho que isso só tende a somar na qualidade.
(depois devo escrever mais alguma coisa)

Daniel Moratori




sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

domingo, 30 de outubro de 2016

A história por trás das impactantes imagens de Saida Ahmad Baghili, símbolo da fome e a tragédia do Iêmen

As impressionantes imagens capturadas pelo fotógrafo da Reuters, Abduljabbar Zeyad, obrigaram o mundo a voltar os olhos, ainda que só por um momento, à gigantesca tragédia humanitária que está tendo lugar no Iêmen. Conseguiram fazer alguma diferença?

O estado de Saida Ahmad Baghili, de 18 anos,
recorda os estragos que a fome está causando no Iêmen
Chama-se Saida Ahmad Baghili, tem 18 anos, e da cama do hospital no Iêmen conseguiu que o mundo tenha atenção - ainda que só por um instante - para a crise humanitária que afeta este país árabe.

A imagem acima ocupou a capa do prestigioso diário inglês The Times na quinta-feira.

E, nos últimos dias, essa e outras fotos de Saida também apareceram em outras publicações e foram compartilhadas abundantemente nas redes sociais.

"Milhões morrem de fome na 'guerra esquecida'", título do The Times para se referir ao conflito que azota o Iêmen há mais de dois anos, quando rebeldes houthies tomaram o controle da capital, Saná.

Mas as comoventes imagens de Saida são um poderoso convite para não continuarmos fechando os olhos.

Saida foi fotografada pela agência Reuters num hospital de Houdieda, no Iêmen
O governo iemenita terminou de ser derrocado em fevereiro do ano passado e, desde então, uma coalizão liderada pela Arábia Saudita - e respaldada pelo Ocidente - esteve combatendo os rebeldes.

E mais de 6800 pessoas morreram e umas 35 mil ficaram feridas, fundamente como resultado de seus bombardeios.

Ao mesmo tempo, 3,1 milhões de iemenitas também tiveram que abandonar seus lares e segundo as Nações Unidas (ONU) umas 14 milhões de pessoas já sofrem de insegurança alimentar.

Mais de dois milhões - entre eles 1,5 milhões de crianças - estão desnutridos.

E Saida, a quem a agência Reuters fotografou num hospital de Houdieda, tornou-se seu rosto.
Este retrato de Saida Ahmad Baghili, de 18 anos, dá conta
dos estragos causados pela fome provocada pela guerra no Iêmen
"A foto (acima) foi tomada por um de nossos fotógrafos no Iêmen, Abduljabbar Zeyad", contou à BBC o chefe de fotografia para África e Oriente Médio da Reuters, Russell Boyce.

"É uma das sete poderosas imagens que distribuímos entre nossos clientes de todo o mundo", explicou.

E Boyce destaca a dignidade que Saida mostra nessa imagem, na qual posa erguida frente à câmara, "apesar de que aparece muito, muito magra, e que está sofrendo".

Para o diretor de fotografia para o Oriente Médio da Reuters,
Russell Boyce, as impactantes fotos também transmitem um pouco de esperança
"É importante saber que esta mulher está sendo atendida: sua tia estava ali, sua mãe estava ali, sua prima estava ali", contou também Royce.

"Assim que além de ser imagens chocantes, também têm um elemento de esperança", disse. "E creio que isso se nota nas imagens".

80% da população do Iêmen depende da ajuda humanitária
Segundo Boyce, os fotógrafos da Reuters cobrem o conflito no Iêmen todos os dias, em suas diferentes expressões.

"Às vezes é o impacto de um bombardeio, em outras ocasiões são protestos, mas é algo que fazem todos os dias", explica.

"Mas quando alguém se encontra com imagens como esta, que nos detém por um golpe, há que parar e pensar um pouco mais, averiguar mais, explicar mais, porque creio que fotos tão poderosas como estas plantam perguntas que há que se contestar", disse ele à BBC.

As imagens foram capturadas no último 25 de outubro
Neste caso, as perguntas plantadas pela indigente situação de Saida, são óbvias.

A pergunta é quanto terá que esperar ela, e o resto dos habitantes do Iêmen, antes que o mundo encontre respostas.

Fotos: Reuters
29 de outubro de 2016

Fonte: BBC/24 horas (Chile)
http://www.24horas.cl/noticiasbbc/la-historia-detras-de-las-impactantes-imagenes-de-saida-ahmad-baghili-simbolo-del-hambre-y-la-tragedia-de-yemen-2177363
Tradução: Roberto Lucena

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Rússia revela primeiras fotos dos novos mísseis 'Super nucleares' capazes de quase "aniquilar o estado de Nova York"



Os mísseis RS-28 Sarmat substitui os SS-18 Satan em uso desde a Guerra Fria.

A Rússia revelou o seu maior míssil nuclear que é dito ser poderoso o suficiente para quase destruir uma área do tamanho do estado de Nova York com uma única explosão.

O presidente Vladimir Putin quer substituir o envelhecido arsenal de armas SS-18 Satan, que foram originalmente encomendados pela URSS em 1974 do país, com uma nova geração de super-mísseis RS-28 Sarmat.

As novas armas virá com até 16 ogivas nucleares de acordo com imagens divulgadas pelo Makeyev Rocket Design Bureau.

Os mísseis, que vão entrar em serviço em 2018, fará com que as bombas que mataram pelo menos 129.000 pessoas em Hiroshima e Nagasaki no fim da Segunda Guerra Mundial pareçam "armas de brinquedo", de acordo com um especialista.

Dr. Paul Craig Roberts, ex-secretário assistente do Tesouro para Política Econômica, disse em um post de blog que a nova classe de mísseis seria poderoso o suficiente para "apagar três quartos do estado de Nova York durante milhares de anos".

Em uma declaração ao lado das fotos, a Makeyev Rocket Design Bureau disse à agência de noticias estatal Sputnik Internacional: "De acordo com o decreto do Governo russo" na ordem de Defesa do Estado para 2010 e o período de planejamento 2012-2013 ", o Makeyev Rocket Design Bureau foi instruído a começar a concepção e desenvolvimento de trabalho no Sarmat.

"Em junho de 2011, o Ministério da Defesa russo assinou um contrato de estado para o desenvolvimento do Sarmat.

"O sistema de mísseis estratégicos em potencial está a ser desenvolvido, a fim de criar uma dissuasão nuclear segura e eficaz para as forças estratégicas da Rússia."

Ele vem como quando as tensões entre a Rússia e o Ocidente quando estão no seu pior desde o fim da Guerra Fria sobre o comportamento da Rússia na Síria e na Ucrânia.


Zvezda TV, um canal de notícias executado pelo Ministério da Defesa do país, advertiu: "Esquizofrênicos da América estão afiando as armas nucleares para Moscou."

Ao longo de três dias, o exercício executado pelo Ministério da Defesa Civil, Emergências e Eliminação de Consequências de Catástrofes Naturais (EMERCOM) envolveu a participação de 200.000 pessoas de emergência e 40m de civis russos.

Fonte: 
http://www.independent.co.uk/news/world/politics/russia-nuclear-missiles-sarmat-satan-nuclear-war-cold-war-putin-us-a7378876.html

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

As raízes históricas e atuais da guerra do Iêmen

Homem carrega garoto atingido durante fogo cruzado
Foto: BBC
Iêmen é o país árabe mais pobre. Segundo conta Ptolomeu, foi fértil, úmido e rico há muitos séculos. Daquele local chegava o incenso, mirra, ouro, marfim e seda. No século VIII, o Reino de Sabá, com capital em Ma'rib, alcançou um grande poder devido à sua localização geográfica entre a Índia e o Mediterrâneo, o que lhe permitiu crescer com o monopólio do tráfico de especiarias.

Atualmente, acaba de se declarar um alto ao fogo da Guerra Civil que começou em 2014. Contudo, o conflito armado recomeçou com força com um aumento considerável de vítimas entre os civis nas últimas semanas. Segundo as Nações Unidas, morreram cerca de 1400 pessoas desde o começo da guerra, a maior parte civis. Outras fontes falam de 6300 mortos e uns 10% de refugiados entre 26 milhões de habitantes.

E antes: quantas guerras civis ocorreram no Iêmen durante o século XX e quantas mortes ocorreram? A Guerra Civil de 2014 não surgiu do nada. Não é consequência da tomada da capital, Saná, pelos houthis, nem das revoluções árabes. Entender a situação atual do conflito, e porque foi gerado, implica uma enorme dificuldade. E do Iêmen, infelizmente, sabe-se muito pouco; ou melhor, interessa muito pouco.

A não resolução e nefasta gestão dos conflitos armados e tribais, as ingerências históricas de países como Egito, Arábia Saudita e Grã-Bretanha, sobretudo, criaram um mapa muito complicado. Em 1990, unificou-se à República Árabe do Iêmen, o Iêmen do Norte com a República Popular do Iêmen ou Iêmen do Sul.

O Iêmen do Norte alcançou a independência em 1918 com a participação do Império Otomano e foi objeto depois do domínio de nacionalistas (defendidos pela Arábia Saudita) e republicanos (defendidos pelo Egito de Nasser). Iêmen do Sul fez parte do protetorado britânico até 1967 e se constituiu como o único Estado árabe comunista a partir de 1969.

Nos anos 70, agudizaram-se os enfrentamentos entre os dois estados, o que gerou duas guerras civis, em 1972 e 1979. A queda da União Soviética acelerou a união dos dois em 1990. Contudo, a convivência não foi fácil e deu lugar a uma nova guerra civil em 1994 na qual o norte impôs sua hegemonia.

Por razão das revoluções árabes, os iemenitas se rebelaram contra o regime corrupto do presidente Ali Abdullah Saleh através de manifestações pacíficas reprimidas violentamente pelo governo. A transição democrática prometida não foi obtida e continuaram os protestos. Em 2012, destituiu-se Saleh e assumiu a presidência Abd Rabbuh Mansur al-Hadi depois de um referendo. Iêmen foi se debilitando ainda mais econômica e socialmente.

Neste contexto, os rebeldes houthis conquistaram a capital de Saná em meio a protestos da população contra a alta da gasolina. Em 2015, dissolveram o Parlamento e Hadi se viu obrigado a renunciar seu cargo, ainda que mais tarde tenha conseguido fugir para Áden e revogou sua renúncia. Os separatistas do sul e das forças leais a Hadi, com sede em Áden, enfrentaram-se contra os houthis, leais a Saleh. Assim começou a última guerra civil.

Os houthis são xiitas da minoria zaidita, ramificação do Islã surgida no século VIII. Foram um movimento religioso, têm uma facção armada e constituem um movimento social. Sua importância no Iêmen é grande pois, devido a dita ramificação, são seguidos por um terço dos habitantes.

No país imperou desde sempre uma estrutura tribal, sobretudo no norte, onde se encontram as duas tribos mais importantes, zaiditas. Milhares de pessoas seguem respeitando a opinião dos jegues ou chefes das tribos, a quem podem chegar a legitimar ou não opções de governo. Como foi o caso de Saleh (também zaidita), a quem foi respaldado pelos houthis quando foi eleito presidente da República Árabe do Iêmen nos anos 70. A ideia de um Estado central é recente e alheia ao corpo político e social do país.

A politização dos houthis se produziu como consequência da invasão estadunidense do Iraque em 2003. Seu líder, Hussein al-Houthi, fomentou o sentimento antiamericano e lançou uma revolta armada contra o presidente Saleh, a quem apoiava Washington. Saleh livrou passou por seis guerras contra os houthis desde o ano de 2010.

Ao objetivo inicial de defender os direitos da minoria zaidita e a crescente predicação dos sunitas, somaram-se vinganças tribais e interesses econômicos por controle do contrabando e o tráfico de pessoas com a Arábia Saudita. As revoluções árabes abriram o caminho para trasladar as reclamações dos houthis à capital, que tomaram facilmente devido ao mal-estar dos habitantes contra a corrupção e a supressão dos subsídios aos carburantes.

Em março de 2015, depois da tomada dos houthis das cidades de Taiz e Moca e a fuga de Hadi do país, uma coalizão internacional guiada pela Arábia Saudita lançou operações militares aéreas para restaurar o governo de Hadi. Os Estados Unidos prestaram seu apoio logístico para a campanha. De novo a Arábia Saudita intervinha nos conflitos do Oriente apoiada pelos EUA.

Arábia Saudita se encontra atualmente num estado de grande vulnerabilidade. Deve resolver vários problemas internos e externos. Entre eles, manter suas fronteiras e sua unidade. Assim tenta abolir diferenças regionais, como a região de Jizan-Asir-Najran, limítrofe com o Iêmen, que passou para as mãos dos sauditas em 1990 e agora tenta de novo ser parte do Iêmen. A isto se somam, as medidas fiscais que se fixaram para contrapor a baixa do preço de petróleo num contexto de pobreza e desemprego. Além disso, há a rivalidade com o Irã, mais próxima de um enfrentamento geopolítico que de um sectário e religioso entre sunitas e xiitas.

Ambos países competem pela influência regional no Golfo Pérsico em concreto e Oriente Médio em geral, e utilizaram os conflitos dos estados árabes, Iêmen e Síria sobretudo, para potencializar sua influência na região.

Human Rights Watch esteve nos lugares dos bombardeios desde que começou a campanha aérea dos sauditas e encontraram restos de sistemas e bombas fabricadas nos EUA, agora mesmo, o o sub-administrador central de armas da Arábia Saudita e dos outros países do Golfo. Provavelmente, matar uma centena de pessoas com uma bomba porque estão próximas de um grupo de combatentes deveria ser considerado crime de guerra e ser investigado.

A quem beneficia esta ofensiva? Aparentemente a Al-Qaeda e o Daesh (Estado Islâmico). Outro Estado falido do qual se beneficiam grupos terroristas. Obama apresentou há alguns meses o caso do Iêmen como exemplo do que pretendia fazer no Oriente Médio para lutar contra o Daesh: colaborar com governos sem necessidade de usar forças norte-americanas de terra.

Em resumo, não se assiste a um conflito único. O mal-estar provém do mosaico de lutas pelos poderes regionais, locais e internacionais, consequência, tanto dos acontecimentos recentes, como do passado. Talvez porque nem Emirados Árabes nem Arábia Saudita são responsáveis de construir o Iêmen moderno, a tarefa segue pertencendo aos iemenitas.

Patricia Almarcegui; 15/08/2016 - 19:25h
Milicianos houthis em Saná, Iêmen. EFE
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Fonte: Eldiario.es (Espanha)
http://www.eldiario.es/zonacritica/raices-historicas-guerra-Yemen_6_548455160.html
Título original: Las raíces históricas y actuales de la guerra de Yemen
Tradução: Roberto Lucena

Observação: achei o texto 'mais ou menos', porque tenho o péssimo hábito de ir lendo à medida que traduzo (quando acho que um texto interessante, faço isso), e parto do princípio de que é melhor termos 'algo' do que 'coisa alguma'. Depois vejo se consigo colocar informação adicional ao texto. Fiz a escolha porque tenho em boa conta esse jornal da Espanha. E como podem notar, a cobertura desses conflitos mundo afora é pífia no Brasil devido à mídia podre e provinciana que temos.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Diário de chefe da SS encontrado na Rússia revela atrocidades de dia a dia nazista



Vieram a público recentemente detalhes arrepiantes da vida diária de Heinrich Himmler, o chefe da SS nazista que mandou milhares de judeus para a morte no Holocausto.

O tabloide alemão Bild está publicando uma série de trechos do diário de guerra de Himmler, recentemente descobertos na Rússia.

Um dia, escreveu Himmler, ele recebeu uma massagem antes de ordenar a execução de dez poloneses. Ele também relata ter curtido um lanche no campo de concentração de Buchenwald.

Ele ainda conta no diário ter ordenado que cães fossem treinados para "despedaçar pessoas" no campo de concentração de Auschwitz.

Historiadores devem publicar os diários em um livro no ano que vem, com notas explicativas.

Himmler estava no círculo mais próximo de Adolf Hitler e tinha o título e de "Reichsfuehrer SS". Ele comandou os esquadrões que assassinaram judeus, poloneses, soviéticos, ciganos e outros grupos classificados como "racialmente inferiores".

Os diários estão sendo estudados pelo Instituto Histórico Germânico de Moscou. Eles cobrem os anos de 1938, 1943 e 1944 e foram achados em um arquivo do Ministério da Defesa da Rússia em Podolsk, uma cidade ao sul de Moscou.

Historiadores já haviam examinado os diários de Himmler referentes aos anos de 1941, 1942 e 1945 - mas eles não sabiam da existência dos outros até recentemente.

A descoberta é considerada muito importante e os diários têm sido comparados aos do chefe de propaganda nazista Joseph Goebbels.

O pesquisador alemão Matthias Uhl disse que ficou impressionado ao constatar que Himmler dedicava grande preocupação com o bem estar de seus colegas da SS, familiares e amigos - enquanto implementava meticulosamente assassinatos em massa.

Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/geral-36961171



Diários de Himmler: massagens, visitas à amante e execuções


Cadernos com rotina do líder das SS estiveram esquecidos durante mais de sete décadas num arquivo militar russo.

Para Heinrich Himmler, um dia de trabalho normal começava sempre com uma massagem do seu médico, Felix Kersten. O líder das SS, encarregue por Adolf Hitler de gerir o extermínio dos judeus durante a II Guerra Mundial sofria de dores de estômago crónicas e esta era a forma que encontrara de as aliviar. A rotina do oficial nazi foi agora revelada pelo jornal alemão Bild depois de analisar os seus diários de 1938, 1943 e 1944, nos quais ficamos a saber que depois das massagens matinais, Himmler se dividia entre chamadas para a mulher e filha, visitas à amante, encontros com oficiais SS ou idas a campos de concentração.

Esquecidos durante mais de sete décadas nos arquivos militares russos de Podolsk, a sul de Moscovo, os diário levados pelos soviéticos no fim da guerra constituem uma espécie de relato da "banalidade do mal", usando a frase de Hannah Arendt escreveu no seu livro sobre o julgamento de Adolf Eichmann, o homem que Himmler escolheu para organizar o dia-a-dia da Solução Final.

Casado com Margaret, a quem chamava Mami, Himmler quase todos os dias ligava à família que apenas visitava algumas vezes por ano no sul da Alemanha. E nunca esquecia Püppi (Boneca), a alcunha que dava à filha Gudrun. Mas os dias do homem que antes de se juntar às SS foi vendedor de fertilizante também passavam pelas visitas à amante e mãe de dois filhos, a antiga secretária Hedwig Potthast, que nunca é no entanto referida pelo nome nos diários, limitando-se Himmler a escrever que estava "em trânsito", quando viajava até à sua casa em Berchtesgaden.

Arquivadas na Rússia como Dnevnik (ou "Diário", em russo), as mais de mil páginas escritas por Himmler revelam a sua crescente influência na estrutura do regime nazi. Quando assumiu a chefia das SS em 1929, estas tinham menos de 300 homens, mas depressa o filho de um professor bávaro fez delas uma força paramilitar com mais de um milhão de homens. Meticuloso e organizado, Hitler nomeou-o ministro do Interior, entregou-lhe a gestão da Gestapo, a polícia política do regime nazi, e a supervisão dos campos de concentração.

No dia-a-dia, Himmler alinhava reuniões com oficiais das SS e entre um telefonema à família e um jogo de cartas ao fim do dia, Himmler assinava ordens de execução e ordenava o envio de milhões de pessoas para os campos de concentração. Uma das entradas do diário termina com a decisão do oficial de mandar executar dez polícias polacos por não terem ripostado quando a sua esquadra foi atacada, numa Polónia sob ocupação nazi.

As idas as campos de concentração eram muitas vezes apenas identificadas como "inspeções", mesmo quando, como a 2 de fevereiro de 1943, se referiam à ida de Himmler a Sobibor onde assistiu à morte de 400 mulheres e raparigas numa câmara de gás, cuja eficácia estava a testar. Já numa ida a Buchenwald, Himmler escreveu que tomara "um snack no café SS-Casino".

De um homem tão cruel já se sabia, no entanto, que não gostava muito de ver sangue. Após a análise deste diários ficamos ainda saber que Himmler esteve à beira de desmaiar durante a execução de um grupo de judeus em Minsk, na atual Bielorrússia, quando o cérebro de uma das vítimas lhe sujou o casaco.

Nos últimos meses, o Instituto de História Alemão, em Moscovo, analisou os diários, cuja autenticidade veio a comprovar. "A importância destes documentos é darem-nos uma melhor compreensão estrutural da última fase da guerra", explicou ao The Times Nikolaus Katzer, o diretor do instituto.

A descoberta destes diários surge dois anos depois de um conjunto de cartas de Himmler enviadas à mulher e à filha, bem como fotografias e até um livro de receitas pertencentes ao oficial nazi, terem sido descobertos em Israel. O tom leve e até divertido com que se dirigia à família - assinando as cartas com "beijos, Heini!"- contrastam com a imagem de carniceiro que ficou para a história.

Muitas vezes fotografado ao lado de Hitler, Himmler, facilmente reconhecível graças aos óculos redondos, foi capturado pelas forças britânicas no fim da guerra quando tentava fugir da Alemanha com documentos falsos. Levado para interrogatório, acabou por se suicidar mordendo uma cápsula de cianeto que tinha num dente. A sua filha Gudrun, hoje com 86 anos, continua a viver em Munique, onde dá apoio a criminosos de guerra nazis.

Fonte:http://www.dn.pt/mundo/interior/diarios-de-himmler-massagens-visitas-a-amante-e-execucoes-5318656.html