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quinta-feira, 7 de julho de 2011

Regulamento dos campos de concentração

Chegada dos presos políticos no campo de concentração de Oranienburg. Oranienburg, Alemanha, 1933.

Uma caixa pescada no lago Toplitz pelo governo austríaco continha vários resumos de matrículas referentes ao campo de Oranienburg, e diferentes notas ou circulares da administração interna. Em meio a esses papéis, um documento surpreendente de se ler: o Regulamento do campo de concentração, datado de 6 de novembro de 1942.


Quando se sabe que todos os "regulamentos" foram queimados nas horas que precederam a libertação dos campos, que todos eles eram calcados em um modelo único preparado pelos assessores de Heinrich Himmler, contendo somente a sua assinatura, e que, enfim o modelo original "inaugurado" em Oranienburg em 1933 sempre foi imposto a todos os comandantes de campos, esse exemplar pescado em Toplitz sublinha a gigantesca defasagem que existia entre a ficção da direção central e a realidade cotidiana nos campos. Um regulamento semelhante ao que se vai ler (provavelmente com codicilos próprios de Mauthausen) estava afixado no vestíbulo do comandante Ziereis. 


I. PARTE GERAL 

Os detentos dos campos de concentração, sem distinção de idade, origem e classe, estão colocados em uma situação subalterna e são obrigados a obedecer, imediatamente e sem discussão, às ordens de seus superiores. Tratando-se de detentos, são também superiores os agentes de escolta das empresas SS (reconhecíveis por suas braçadeiras vermelhas), bem como os detentos encarregados de manter a ordem no campo, reconhecíveis por sua braçadeira especial. Os detentos rebeldes, refratários às instruções recebidas e que, de uma maneira qualquer, põem em perigo e perturbam o silêncio e a ordem no campo, serão punidos em virtude do regulamento disciplinar, de acordo com a gravidade do delito. 

O campo de concentração é um estabelecimento de correção de um gênero todo particular. Boa conduta, assiduidade ao trabalho, constância na realização do dever e modo de pensar conformista são as condições preliminares para a libertação. O campo é mantido sob um regime essencialmente militar. 

O uniforme deve estar sempre limpo, arrumado e abotoado. É proibido ficar com as mãos nos bolsos, levantar a gola, escarrar, bem como jogar no chão papel, embalagens de cigarros e fósforos. 

Ficam proibidos: as conversas políticas, a invenção ou propagação de boatos, bem como os jogos de cartas e de dados e qualquer jogo de azar em geral. 

É proibido comerciar o que quer que seja, trocar ou emprestar dinheiro. 

Os objetos de valor, tais como relógios de pulso, anéis, canetas-tinteiro, etc, devem ser entregues à rouparia. 

O espírito de camaradagem é um dever. 


II. OS SUPERIORES 

Cada membro da SS é um superior. Deverá ser chamado de Herr Kommandant, Herr Lagerführer, Herr Rapportführer, Herr Arbeitsdienstführer, Herr Blockführer. 

Ao se aproximar um superior, prontamente seu chapéu deverá ser retirado, seis passos antes, o detento passará adotando uma postura estritamente militar, com os olhos voltados para a frente, e recolocará o chapéu seis passos depois. 

Quando um detento for chamado, deverá gritar: "Presente", parar a seis passos do superior e responder com voz alta e inteligível. Para se retirar, dará uma meia-volta impecável e voltará correndo ao seu lugar. Quando um membro da SS entrar em um barracão, gritará: Em seus lugares, fixos e cada detento se colocará em posição de sentido, com o olhar fixado no superior.

 Quando um detento entrar em um escritório, deverá anunciar em voz alta Peço permissão para entrar. É proibido dirigir a palavra a um superior sem ordem. Cada pedido de audiência a um superior será transmitido por intermédio do Blockälteste (chefe de Block). São considerados superiores os contramestres, os chefes de mesa, de quarto, de Block e de campo. 

No trabalho, os detentos só cumprimentam em determinadas circunstâncias por ordem do vigilante SS.

Em caso de motim, de ataque violento ou de evasão de de-tentos, os vigilantes e sentinelas farão uso de suas armas. Em caso de ataques violentos, atirar-se-á imediatamente e sem intimação. Sobre fugitivos, atirar-se-á após intimação.

É proibido fumar dentro dos barracões e nos locais em que haja risco de incêndio. 
A ingestão de álcool é proibida aos detentos. 


III. ZONA NEUTRA E ÁREA DE VIGILÂNCIA 

O campo será rodeado por uma cerca de arame percorrida dia e noite por uma corrente elétrica de alta tensão. Isto representa um perigo de morte! A cerca será precedida por uma "zona neutra". Quem nela penetrar estará exposto a fuzilamento sem intimação. O local de trabalho será cercado por uma linha de sentinelas. É proibido transpô-Ia sob risco de ser fuzilado após intimação. 


IV. CHAMADA 

Cada detento é obrigado a assistir sem falta e sob quaisquer circunstâncias à chamada nominal. Assim que tocar o sino, cada qual deverá se apresentar correndo na praça de chamada, no local reservado para seu Block, alinhar-se-á e permanecerá em posição de sentido. Nas filas, é proibido falar ou voltar-se. 

Nota: a página nº 3 não constava do maço pescado no lago Toplitz (portanto, estão faltando no regulamento os pontos 5, 6 e 7). 


VIII. KOMMANDOS DE TRABALHO 

Cada detento será designado para um Kommando de trabalho. É proibido mudar de Kommando por iniciativa própria. Cada um deverá efetuar conscienciosamente e da melhor maneira possível o trabalho de que estiver encarregado. Aquele que, sem autorização, deixar seu posto, será acusado de evasão e severamente punido. Não é permitido entrar nos barracões SS ocupados. É estritamente proibido entrar em contato com civis. Quando, após a chamada nominal, for dada ordem de se apresentar ao Kommando de trabalho, cada um deverá apressar-se, sem barulho e sem falar, para juntar-se àquele de que fizer parte, incorporando-se ao grupo e formando fila. A partida será executada em passo cadenciado. À ordem: Descubram-se, todo o Kommando retira os bonés, segura-os com a mão direita sem dobrá-los e permanece com as mãos fixas ao longo da costura da calça, a cabeça alta, o olhar fixo diante de si, alinhado na fila seguindo o homem da frente. O mesmo processo se aplica quando do retorno do trabalho. 


IX. CONSERVAÇÃO DOS ARMÁRIOS 

A prateleira superior é destinada às cartas, à escova de dentes, ao material de barba, ao tabaco, etc. Na prateleira inferior ficarão a gamela (limpa e emborcada) e por cima a marmita igualmente emborcada. Por trás e à direita, o pão e outros víveres. Colher e faca serão colocadas na ombreira da porta. Todos os objetos, bem como o próprio armário deverão estar sempre impecavelmente limpos. O casacão, cuidadosamente dobrado, com o número de matrícula nitidamente visível ao alto, será colocado no fundo do armário. Os sapatos deverão ser limpos todas as noites antes do primeiro toque da campainha a três passos do barracão, depois engraxados ligeiramente e colocados diante dos armários. As meias deverão ser colocadas sobre o cano dos sapatos. É proibido levar meias para o dormitório. 


X. CORRESPONDÊNCIA 

A correspondência só será entregue ou expedida após ter sido censurada. Cada detento tem direito a receber e a escrever duas cartas ou cartões-postais por mês. A escrita deve ser legível e nítida. Uma carta anunciando a chegada ao campo poderá ser escrita imediatamente. Cada detento tem o dever de manter sua família informada. É-lhe proibido tratar de assuntos relativos ao campo, a doenças, a piolhos e de pedidos de licença. É-lhe igualmente proibido falar de dinheiro. A escrita deverá seguir as linhas. É proibido abreviar ou sublinhar. Somente serão autorizadas as informações de caráter pessoal. A correspondência deverá ser entregue em mãos ao Blockführer competente, aberta e munida de um selo levemente colado. O envio pelos detentos a seus familiares de encomendas ou pequenos embrulhos é proibido.

 Desde já, os detentos têm a possibilidade de receber de seus parentes encomendas de víveres. O número de encomendas que um detento pode receber é ilimitado. Todavia, no próprio dia da chegada da encomenda ou no máximo no dia seguinte, o detento deverá ter consumido seu conteúdo. Em caso de impossibilidade, os víveres serão divididos com outros detentos.

 Se um detento abusar do envio de encomendas fazendo passar mensagens secretas, ferramentas ou qualquer outro objeto proibido, será imediatamente punido com a pena capital. Quanto aos seus companheiros de barracão, ficam automaticamente proibidos de receber encomendas por um período de três meses. 


XI. ENVIO DE DINHEIRO 

Os detentos estão autorizados a receber ordens de pagamento de seus familiares. Seu montante será guardado pela administração financeira do campo em conta do detento em questão. A fim de permitir compras na cantina, cada titular de conta poderá dispor de 15 RM por semana, mas nenhuma compra poderá ser feita sem que o pagamento seja efetuado por meio de bônus. É estritamente proibido aos detentos possuir dinheiro líquido (inclusive moeda estrangeira) ou escondê-lo nos barracões ou em qualquer outro lugar. Qualquer delito deste gênero será severa-mente punido e o dinheiro encontrado será confiscado em prol do Banco do Reich. 


XII. COLETA 

São proibidas coletas de qualquer espécie, com exceção de donativos voluntários para assinatura de jornais. Estes donativos devem ser registrados numa lista trazendo o número da matrí-cula e o nome e indicação da soma, seguindo-se a assinatura do interessado. O desconto dos jornais será também assinado pelo chefe de pavilhão e pelos dois chefes de quarto. Os documentos justificativos deverão ser regularmente submetidos ao Blockführer. 


XIII. REQUERIMENTOS E RECLAMAÇÕES 

Cada detento está autorizado a apresentar requerimentos e reclamações por escrito. Eles serão recolhidos pelo Blockführer que será obrigado a transmiti-los. Quando uma reclamação se referir a um Blockführer, ela poderá ser diretamente submetida ao Lagerführer. As reclamações coletivas, consideradas como atos de rebelião, são estritamente proibidas. Os detentos que desejarem se apresentar na reunião do alto-comando, devem informar, por escrito, aos seus Blockführer. 


XIV. RECREAÇÃO 

Durante a recreação, os detentos podem ficar à vontade, nas salas de estar de seus barracões, lendo, escrevendo cartas ou participando de jogos de salão. Os jogos de azar e a dinheiro, de qualquer espécie, são proibidos. 

É proibido penetrar em outros barracões, encostar-se nos prédios, fazer barulho, assoviar, cantar e jogar fora dos bar-racões, atravessar a zona de isolamento demarcada por pedras brancas (em torno dos Blocks 11 e 12), permanecer na alameda perto do jardim, bem como entre as barracas de vestiário e penetrar no campo novo. 

É permitido circular pelo local deixado livre para este fim dentro do recinto do campo. As reuniões e passeios de mais de três pessoas são proibidos. 

O rádio e a biblioteca do campo estão a serviço do estudo e das distrações. É permitido, com a prévia autorização do coman-dante do campo, receber jornais nacionais-socialistas. 


XV. USO DO TABACO 

É proibido fumar dentro dos barracões durante as horas de trabalho, bem como no decorrer do período que vai do retorno noturno até a chamada. É igualmente proibido fumar durante meia hora depois do despertar. 


XVI. DECLARAÇÃO DE DOENÇA E BANHOS 

Os detentos que estiverem doentes deverão se apresentar ao Blockführer. Um detento que se subtrair com premeditação ou intencionalmente ao tratamento, será punido, da mesma forma que aquele que simular uma doença. O tratamento na enfer-maria só poderá ser realizado antes e depois das horas de trabalho. O Blockführer divulgará as horas de consulta. Cada de-tento está obrigado a tomar parte dos banhos. A ida e a volta serão feitas em filas de cinco. 


XVII. INOBSERVÂNCIA DO REGULAMENTO 

Qualquer delito contra o regulamento do campo deve ser denunciado sem demora. Especialmente aquele que surpreender alguém preparando ou concordando com uma tentativa de evasão deve dar parte imediatamente, bem como de roubos, desvios fraudulentos, trapaças, contrabando de álcool, jogos de azar e atentado contra o artigo 175 do Código Penal alemão. 

Aquele que deixar de denunciar tais fatos sofrerá a mesma punição que o próprio delinqüente. 

Existe um caminho que leva à liberdade. Seus indicadores se chamam: 
obediência, assiduidade ao trabalho, honestidade, ordem, limpeza, sobriedade, preferência pela verdade, espírito de sacrifício e amor à pátria. 

Oranienburg, 8 de novembro de 1942.


Transcrição:  Daniel Moratori (avidanofront.blogspot.com)
Fonte: BERNADAC, Christian Bernadac.  Dias Sem Fim.Rio de Janeiro: Ed. Otto Pierren Editores, 1980. pg 269-275

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Relatório das operações de assassinatos e apreensões do chefe do Grupo Operacional B

Membros Einsatzkommando atirando em judeus em um campo em Dubossary, Moldavia. As armas são pistolas Mauser. 14 de setembro de 1941. Dubossary, Moldávia,  URSS.

Extrato de um relatório do chefe do Grupo Operacional B, da Policia de Segurança e do SD sobre operações do grupo de 15 de novembro a 15 de dezembro de 1942¹

29 de dezembro de 1942

...IV. Operações de confiscação

Durante o período referido, o comando especial 7a, além de fardamentos militares russos, apreendeu 51 rublos, um posto de T.S.F. russo e varias caixas com munições russas. O comando especial 7c confiscou 2015 rublos e 71,10 marcos.

O comando operacional 8 apreendeu 99 rublos, dois anéis de ouro, 12 anéis (provavelmente de prata) e quatro pares de brincos de prata.

O comando operacional 9 confiscou quatro moedas de ouro de 1 rublo, dois anéis, 4000 rublos e 635,50 marcos. 

O destacamento da cidade de Smolensk apreendeu 416,21 marcos, 8395 rublos, 5 dolares, 11 zlotis e uma moeda de 50 kopecks.

Em todo território controlado pelo grupo operacional foram lançados por avião panfletos já conhecidos: Noticias da pátria soviética, um apelo à formação de guerrilhas, 10 mandamentos que todo soldado alemão deve saber, Noticias da frente, informações destinadas aos policiais e soldados do exército russo-alemão e vários jornais ilustrados em língua alemã sobre a vida dos prisioneiros de guerra alemães. Informaram de Sitchovka a aparição de novos panfletos que contem extratos do livro do fuhrer Mein Kampf e do jornal Völkischer Beobachter assim como propaganda contra o recrutamento para o trabalho na Alemanha.

V. Tratamento especial²

Comando especial 7a - 160 pessoas, das quais:
14 judeus,
97 bandidos,
5 alienados,
44 outros inimigos do Reich.

Comando especial 7b - 86 pessoas, das quais:
15 judeus,
2 bandidos,
10 alienados,
59 outros inimigos do Reich.

Comando especial 7c - 530 pessoas, das quais:
17 judeus,
458 bandidos,
33 alienados,
22 outros inimigos do Reich.

Comando especial 8 - 376 pessoas, das quais:
51 judeus,
290 bandidos,
7 alienados,
28 outros inimigos do Reich.

Comando especial 9 - 1167 pessoas, das quais:
38 judeus,
1083 bandidos,
2 alienados,
44 outros inimigos do Reich.

Destacamentos de Smolensk - 108 pessoas, das quais:
19 judeus,
12 bandidos,
16 criminosos de direito comum,
61 outros inimigos do Reich.


Número total de pessoas submetidas a tratamento especial
Comando especial 7a                                        6.788
Comando especial 7b                                        3.816
Comando especial 7c                                        4.660
Comando especial 8                                        74.740R
Comando especial 9                                        41.340
Destacamento de Smolensk                              2.954
Total                                                              134.298

Notas:
1 - O grupo operacional B agia na retaguarda do grupo de exércitos Centro.
2 - Na linguagem dos ocupantes fascistas, as palavras "tratamento especial" designavam a execução.

(O original alemão encontra-se nos Arquivos Centrais da R.S.S. da Bielorrússia sobre a Revolução de Outubro, fundo 655, registro 1, dossiê 3, folha 203.)

Transcrição: Daniel Moratori - avidanofront.blogspot.com

Fonte: COELHO, Zeferino - O crime metódico. Ed. Inova Limitada - pg.88-91

domingo, 19 de dezembro de 2010

Carta do Sargento Evgueni Strchurov, sobre os assassinatos na aldeia de Budionovka

18 de outubro de 1942

Budionovka, minha terra natal... diante dos meus olhos surgem imagens familiares: casas brancas escondidas na verdura dos cerejais, ruas retilíneas que descem para o mar. Foi lá que eu nasci, foi lá onde passei a infancia e adolescencia. E eis que os jornais me informam sobre os meus compatriotas. Fiéis às tradições sagradas dos meus avós, os cossacos do Don lutaram corajosamente contra o inimigo. Os alemães martirizavam os cidadãos soviéticos. As bestas sanguinárias mataram uma criança de quatro anos; fuzilaram rapazes e raparigas às dezenas, cujas roupas vendiam ou mandavam para a Alemanha. Os fascistas fuzilaram Catarina Skoroiedova, o velho Saveli Petrovitch Stepanenko, o jovem sapateiro Alexandre Iakubenko, Ludmila Tchukanova, de dezessete anos. Todos são meus conhecidos amigos.

O meu coração está cheio de ódio pelos bárbaros fascistas. O meu único desejo é vingar a morte dos meus amigos de infância  o sangue dos cidadãos russos que imundou as ruas da minha aldeia natal. Basta-me fechar os olhos para ouvir a voz da minha amada, - para ver estender-me os braços, implorando-me socorro.

Evgueni Stchurov

Transcrição por: Daniel Moratori - avidanofront.blogspot.com
Fonte: COELHO, Zeferino - O crime metódico. Ed. Inova Limitada - pg.80

Para entender melhor essa carta, leiam esse artigo que postei:

Extrato do diário de Friedrich Schmidt, o torturador de Budionovka


domingo, 28 de novembro de 2010

Extrato do diário de Friedrich Schmidt, o torturador de Budionovka

Mariupol durante a ocupação alemã

Extrato do diário de Friedrich Schmidt, Secretário da Policia Secreta adjunto ao 1° Exercito Blindado das Forças Armadas alemãs, redigido em Budionovka, perto de Mariupol.

25 de fevereiro - Não esperava que este dia fosse um dos mais intensos da minha vida... A comunista Catarina Skoroiedova estava informada com alguns dias de antecedência do ataque dos russos contra Budionovka. Dizia mal dos russos que colaboravam conosco. A fuzilamos as 12h...O velho Saveli Petrovitch Stepanenko e a mulher, da aldeia de Samsonovka, também foram executados... Foi ainda exterminado o filho da amante de Goraviline, de quatro anos de idade. pelas 16h, trouxeram-me quatro raparigas de dezoito anos que vieram a pé pela neve de Ieisk até aqui... O chicote tornou-as mais obedientes. Todas elas são estudantes e uma belas raparigas. As celas abarrotadas são um verdadeiro pesadelo...

26 de fevereiro - Os acontecimentos deste dia ultrapassaram tudo o que até hoje me foi dado ver... A bela Tamara suscitou o maior interesse. Depois trouxeram ainda seis rapazes e uma rapariga. Nem as exortações nem as mais violentas chicotadas fizeram qualquer efeito. Portaram-se como diabos! A rapariga não derramou nem uma única lágrima, apenas cerrou os dentes... Depois de uma sova impiedosa fiquei com o braço como que paralisado.  Recebi duas garrafas de conhaque, uma do tenente Koch, do estado-maior do conde von Förster, e outra dos romenos. Senti-me novamente feliz. Sopra um vento do sul, começou o degelo. A primeira companhia da guarda de campanha apanhou a 3 km a norte de Budionovk cinco rapazes de dezessete anos de idade. Trouxeram-nos...O chicote entrou em ação, e ficou com o punho partido em mil pedaços. Batíamos a dois... Contudo, nada confessaram...Trouxeram-me dois soldados vermelhos...Moemos eles de pancadas... Tratei da saúde ao sapateiro de Budionovka, que pensava que lhe era permitido rir-se do nosso exercito. Já me doem os músculos do braço direito. O degelo continua...

1 de março - Mais um domingo de guerra... Recebi o pré: 105 marcos e 50 cêntimos... Hoje jantei com os romenos. Comi bem... Às 16h fui convidado, inesperadamente, para tomar café na casa do general von Vöster...

2 de março - Sinto-me mal. Fui atacado de diarreia. Tenho que ficar deitado...

3 de março - Interroguei o tenente Ponomarenko, que me tinham trazido. Ponomarenko foi ferido na cabeça no dia 2 de março; refugiou-se no kolkhoz Rosa Luxemburgo; aí disfarçou-se e desapareceu. A família que escondeu Ponomarenko começou a mentir. Naturalmente, moí-os de pancada... À noite ainda me trouxeram cinco pessoas de Ieisk. Como de costume, são adolescentes. Usando do meu método simplificado que já deu boas provas, levei-os a confessar: como sempre, fiz trabalhar o chicote. O tempo começa a fiar doce. 

4 de março -  Está um tempo soberbo... O sub-oficial Vogt já fuzilou o sapateiro Alexandre Iakubenko. Atirou-se para a vala comum. Estou constantemente a sentir comichão por todo o corpo.

6 de março - Entreguei 60 marcos ao fundo de ...

7 de março - Ainda vivemos bem. Recebo manteiga e ovos; às 16h trouxeram-me novamente quatro jovens guerrilheiros...

8 de março - O sub-oficial Springwald e Frau Reidmann regressaram de Mariupol. Trouxeram o correio e uma ordem escrita de Groschek relativa à execução... Já tinha mandado fuzilar seis pessoas...Disseram-me que chegou de Vessioly mais uma rapariga de dezessete anos.

9 de março -  Como o sol esta radioso! Como a neve brilha! Mas nem mesmo o ouro do sol é capaz de me descontrair. Dia difícil. Acordei às três horas. Tive um sonho horrível. O motivo é que tenho que matar trinta adolescentes capturados. Esta manha Maria serviu-me uma excelente torta...Às 10h trouxeram-me mais duas raparigas e seis rapazes...tive que lhes bater impiedosamente... Depois, foram as execuções em massa: ontem seis, hoje trinta e três criaturas liquidadas. Não posso comer. Pobre de mim se me apanham. Já não me posso sentir seguro em Budionovka. Não há dúvida que me odeiam. No entanto não podia proceder de outro modo. Se os meus pais soubessem o dia difícil que passei. A vala está quase cheia. Como esta juventude bolchevista sabe morrer heroicamente! Será o amor da pátria ou o comunismo que lhes penetrou na carne e no sangue? Muitos deles, sobretudo as raparigas, não derramaram uma lágrima. Tem na verdade uma grande valentia. Obrigamo-los a despir-se (queremos as roupas para as vender)... Mal de mim se sou apanhado!

11 de março -  Só à chicotada se pode educar a raça inferior. Mandei construir ao lado do meu quarto uma privada muito limpa e dependurei na porta um letreiro proibindo a população civil de se servir dela... Em frente ao meu quarto fica o escritório do burgomestre, onde chegam todas as manhas os operários para trabalhar no aterro. Desprezando o letreiro, servem-se da privada. Ah! como lhes bato! Para a próxima mando-os fuzilar...

13 de março - Carregado de trabalho, há muito tempo que não escrevo para casa. Para dizer a verdade, não tenho vontade de escrever à família, - não o merecem...Depois, moí de pancada um russo de cinquenta e sete anos, juntamente com seu genro, por ter falado com insolência dos alemães. Em seguida, fui ter com o coronel romeno...

14 de março - Voltou o frio. Tenho novamente diarreia e sinto dores na região do coração; chamei o medico. Diagnosticou: complicações no estomago e nervos... Dei hoje ordem para fuzilarem Ludmila Tchukanova, de dezessete anos. Tenho que matar adolescentes, e é por isso que tenho o coração doente.

17 de março -O meu primeiro trabalho de hoje: Mandei trazer do hospital, numa telega(espécie de carroça, de quatro rodas), o quinto paraquedista russo. Ordenei a execução imediata junto da vala comum... Feito isso, passei o dia tranquilamente. Depois de jantar dei um pequeno passeio. A terra estava dura do gelo.

19 de março - Eis-me na cama. Mandei chamar o major medico. Auscultou-me e pensa que quanto ao coração tudo corre bem.  Constatou uma depressão moral. Receitou-me comprimidos contra a prisão de ventre e um unguento contra o comichão... Temos um porco excelente. Mandamos fazer chouriços.

21 de março - Ainda não tínhamos conhecido em Budionovka um dia tão horroroso. À noite apareceu um bombardeiro russo. Lançou primeiro foguetes luminosos e depois doze bombas. Os vidros tremeram nas janelas. Imagine-se a emoção que senti quando, deitado na cama, ouvi o ruído do avião e o rebentar das bombas...

23 de março - Interroguei uma mulher que roubou o meu interprete, Frau Reidmann. Chicoteamos-lhe as nádegas nuas. Ao ver isto, até Frau Reidmann chorou. Depois dei uma volta pela aldeia e passei pelo talho onde me estão a fazer os chouriços... A seguir interroguei dois garotos que tinham tentado fugir pela neve até Rostov. Fuzilei-os como espiões. Pouco depois trouxeram-me um rapaz que há uns dias atrás tinha vindo de Ieisk, pela neve... Entretanto, trouxeram-me chouriço de fígado picado. Não sabe mal. Quis mandar espancar uma komsomol (organização juvenil do Partido Comunista da União Soviética)...


27 de março - à noite esteve calma... Interrogo dois rapazes de quatorze anos que rondavam pelos arredores. Mandei espancar uma mulher que se tinha esquecido de se registrar.

28 de março - Fui visitar o coronel Weiner, que desempenha a tarefa de Arbeitsfuhrer. Às 18h mandei fuzilar um homem e uma mulher que tinham tentado fugir pela neve...

1 de abril -  Recebi 108 marcos em rublos, o que faz um grande maço de dinheiro. Valia massageou-me e banhou-me novamente...

10 de abril -  O sol queima. Quando, de manha, Maria abre a janela, os raios brilhantes jorram sobre a cama. O gelo fundiu, e agora só se receia a ameaça dos aviões. Espanquei vários rapazes e raparigas por não se terem registrado. Entre eles a filha do staroste (camponês). Sinto uma sensação desagradável quando começa a escurecer, - começo a pensar nos bombardeiros.

11 de abril -  Todos estão contentes por eu ter voltado. Tratam-me como rei. Ceamos copiosamente e bebemos aguardente...

12 de abril -  Todas as manhas bebo leite quente  como um omelete... Agora há menos que fazer... Trabalhamos somente à escala local. Punições: espancamentos  ou fuzilamentos. Geralmente mando aplicar as chicotadas nas nádegas nuas.

16 de abril - Dia calmo. Resolvi uma questão entre o staroeste e o chefe da milícia, e depois espanquei três homens e uma mulher que, apesar da proibição, vieram a Budionovka procurar trabalho... Em seguida, torturei uma mulher militar: confessou ter sido maqueira... Os romenos deram-me por varias vezes aguardente, cigarros e açúcar. Sinto-me novamente feliz.
Finalmente Groschek propôs-me para a Cruz de Guerra com espadas cruzadas. Eis-me pois condecorado!

17 de abril - As raparigas (Maria, Ana, Vera) cantam e brincam junto da minha cama... À noite trazem-me uma noticia. Parti para o local com o interprete para resolver o assunto. Mexericos de mulheres. Mandei espancar duas raparigas, em minha casa, nas nádegas nuas...

18 de abril - Tempo chuvoso e encoberto. Mandei chamar varias raparigas que se tinham exprimido em termos reprovadores sobre a policia secreta. Mandei-as espancar a todas.

Transcrito por: Daniel Moratori - avidanofront.blogspot.com
Fonte: COELHO, Zeferino - O crime metódico. Ed. Inova Limitada - pg.74-79