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sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Pyotr Chepurenko, testemunha do massacre de Piryatin (Oblast de Poltava - Ucrânia)

Libertação de Poltava em 23 de setembro de 1943.

Pyotr Chepurenko, testemunha do massacre de Piryatin¹

Em 6 de abril de 1942, segundo dia da Páscoa, os alemães assassinaram 1.600 judeus da cidade de Piryatin, no oblast de Poltava. Eram velhos, mulheres e crianças que não podiam ir para o leste.

Os judeus foram conduzidos para fora da cidade pela estrada Greben até a Pirogovskaya Levada, a três quilômetros da cidade. Lá, foram cavados buracos espaçosos. Os judeus foram despojados e os policiais e alemães dividiram seus pertences no local. As pessoas condenadas foram forçadas a entrar na cova, cinco de cada vez, e baleadas com submetralhadoras.

Trezentos moradores de Piryatin foram levados à Pirogovskaya Levada para preencher a cova. Entre eles estava Pyotr Chepurenko. Ele deu as seguintes informações:

Eu os vi matando. Às 5:00 V.M. eles deram a ordem: Até nas covas. Gritos e gemidos vinham das covas. De repente, vi meu vizinho, Ruderman, surgir debaixo do solo. Ele havia sido motorista em uma fábrica de feltro. Seus olhos estavam sangrando e ele gritava: ‘Acabe comigo!’ Alguém atrás dele também gritou. Foi nosso marceneiro Sima quem foi ferido, mas não morto. Os alemães e os policiais começaram a matá-los. Uma mulher assassinada estava aos meus pés. Um menino de cerca de cinco anos rastejou para fora de seu corpo e começou a gritar desesperadamente: ‘Mamãe!’ Isso foi tudo que vi desde que fiquei inconsciente.”

Preparado para publicação por Ilya Ehrenburg

Notas:

¹ Este material foi publicado com algumas alterações sob o título “The Land of Piryatin”, em The War (abril de 1943 a março de 1944), por Ilya Ehrenburg, Moscou, 1944, p. 117-18.

Nota do tradutor: Pyriatyn é uma cidade situada na região central da Ucrânia, no Oblast de Poltava.

Tradução: Daniel Moratori (blog Avidanofront.blogspot.com)

Fonte: EHRENBURG, Ilya; GROSSMAN, Vasily. The Black Book: the Ruthless Murder of Jews by German-fascist Invaders Throughout the Temporarily-occupied Regions of the Soviet Union and In the Death Camps of Poland During the War of 1941-1945. New York (N.Y.): Holocaust library, 1981, p.57.

Esse relato também é encontrado na publicação feita pelo United States Holocaust Memorial Museum (USHMM):

BERENBAUM, Michael; KRAMER, Arnold. The world must know: the history of the Holocaust as told in the United States Holocaust Memorial Museum. 2. ed. Washington, D.C.: United States Holocaust Memorial Museum, 2006.


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

O massacre de judeus do gueto de Kaunas, Lituânia (1941)

Dois meninos orfãos puxam e empurram uma carroça no gueto de Kovno. Seus pais foram assassinados no início da guerra. Fonte: https://collections.ushmm.org/search/catalog/pa11965

Dois guetos com cancelas e arame farpado tinham sido implantados, em julho de 1941, no arruinado distrito de Slobodka, de Kaunas, para os judeus dessa cidade da Lituânia central, um Gueto Grande, que abrigou aproximadamente 27.500 pessoas, e um Gueto Pequeno, ligado por uma ponte de madeira através de uma rua intermediaria, que confinava outras 2.500. Um hospital havia sido montado em diversos edifícios do Gueto Pequeno, com maternidade, alas médicas e cirúrgicas; pacientes com doenças contagiosas foram alojados num edifício separado, de dois andares. Um orfanato também foi instalado no Gueto Pequeno para as várias centenas de crianças judias cujos pais já haviam sido assassinados pelos alemães ou em pogroms.

Em 4 de outubro de 1941, o sabá depois do Yom Kippur, um destacamento do Einsatzkommando 3, de Jäger, tendo à frente o Obersturmführer Joachim Hamann, começou a destruir o Gueto Pequeno. Um rabino, Ephraim Oshry, foi testemunha ocular:

 

De manhã cedo, uns 50 soldados alemães, juntamente com uns 100 colaboradores lituanos muito mais do que víamos habitualmente, o que achamos aterrorizante se amontoaram no Gueto Pequeno e expulsaram as pessoas, sem exceção, de suas casas. Escorraçaram as pessoas da cama, sem mesmo lhes dar a oportunidade de se vestirem. Nas ruas, empurravam os velhos e fracos, as crianças, as mulheres e homens. Usando as coronhas dos fuzis como porretes, espetavam as pessoas a torto e a direito. O sangue jorrava como água. Os judeus foram perseguidos até a praça Sajungos, outrora o mercado de cavalos de Sobodja. Ali, os alemães começaram a dividir os judeus da maneira como sorteiam carneiros para o abate: “Direita! Esquerda!” Morte! Vida!

 

A seleção durou várias horas. Pessoas que apresentavam salvo-condutos de trabalho - apenas cinco mil tinham sido emitidos nos dois guetos inteiros - eram separadas das que não os possuíam. Pacientes foram evacuados das alas médica e cirúrgica. Na ala da maternidade, o jovem a advogado de Kaunas Avraham Tory registrou em seu diário da época: "Os alemães queriam ver os bebês que tinham acabado de nascer. Alcançaram a sacada da janela em que os bebês estavam deitados e ficaram ali, por algum tempo, observando os bebês. Os olhos de um dos alemães se enevoaram. "Nós os deixaremos ficar?” perguntou ao amigo. Os dois saíram do cômodo, deixando as mães e os bebês. Dessa vez eles sobreviveram".

Os órfãos não tiveram tanta sorte, continua Tory:

 

Os alemães, então, passaram a apanhar as crianças do abrigo feito para elas. Das 153 existentes, apenas 12 foram deixadas na casa. Foram somente esquecidas. As enfermeiras também foram tiradas. As crianças que estavam só com roupa de envolver foram levadas para fora e colocadas no chão do pátio de pedra do hospital com os pequeninos rostos voltados para o céu. Soldados do terceiro pelotão da polícia alemã passaram entre elas. Pararam por um momento. Alguns chutaram os bebés com as botas. Os bebês rolaram um pouco para o lado, mas logo em seguida recuperaram a posição de barriga para cima, os rostos voltados para o céu. Foi um raro espetáculo de crueldade e indiferença. Um caminhão pesado se aproximou. Primeiro as crianças e depois as enfermeiras foram lançadas dentro dele. O caminhão foi coberto com uma lona e partiu em direção do Forte IX.

 

Os judeus do Gueto Pequeno que tinham sido selecionados foram formados em coluna de cem e saíram. As pessoas com salvo-condutos de trabalho que haviam sido poupadas foram mandadas pela ponte para o Gueto Grande. William Mishell observou a seleção do Gueto Grande. "Um terrível drama humano estava se desenrolando diante dos olhos dos judeus de ambos os lados da cerca”, recorda. "Era claro: as pessoas do lado ruim estavam sendo levadas para o Forte IX, para uma execução em massa. Todos os de ambos os lados da rua começaram a gritar e os do lado do Gueto Grande procuravam desesperadamente ver de relance os entes queridos que estavam sendo levados embora.” Em seu resumido relatório de 1 de dezembro de 1941, Jäger relacionaria “315 homens judeus, 1.107 mulheres judias, 496 crianças judias” executados em 4 de outubro de 1941 no Forte IX, sustentando absurdamente que a seleção foi uma “ação punitiva pelo fato de um policial alemão ter sido morto a tiros no gueto”.

Mas nesse dia foram mortos mais do que os que marcharam ou foram de caminhão para o Forte IX. Tinha havido sessenta e sete pacientes, médicos e enfermeiras no edifício do hospital de doenças contagiosas, naquela manhã. Um número desconhecido de residentes sãos do Gueto Pequeno havia-se juntado a eles ali, pensando que podia encontrar toda proteção. No começo da Aktion, os alemães tinham trancado os portões do hospital a pacientes e fugitivos da mesma forma. Transferiram para o hospital os pacientes cirúrgicos que tinham estado bastante doentes para comparecer à seleção e depois, pregaram as portas e janelas com tábuas. Puseram dez judeus cavar uma cova no pátio do hospital. Tory descreve o que se seguiu:

 

Defronte ao prédio do hospital, no outro lado da cerca, se situava uma fábrica de casaco de peles chamada Lape. Podia-se ver claramente, desse lugar, o pátio do hospital. Os trabalhadores da fábrica, nesse dia, viram dali os dez judeus cavando a cova; viram como os residentes da casa dos idosos foram descidos para ela, como pacientes foram jogados dentro dela e depois fuzilados em seu interior; viram como criancinhas também foram jogadas ali, assim como pacientes que mal se aguentavam em pé... À uma da tarde, podia-se ver fumaça subindo do edifício do hospital. Mais tarde, as chamas cresceram, saindo dele: o hospital ardeu. O fogo queimou por todo o dia e à noite. Pacientes, equipe e fugitivos, assim, foram queimados vivos.

 

Se não tivessem compreendido antes, as pessoas do gueto de Kaunas sabiam agora que nada as protegia da morte e que outras Aktionen se seguiriam. Começaram a se afastar umas das outras com um gracejo em iídiche, que o rabino Oshry relembra: "Auf Wiedersehn in yenner velt" - "Vejo você no próximo mundo". Mais tarde, em outubro de 1941, começaram a correr de novo, no gueto, rumores de grandes fossos sendo cavados no Forte IX por prisioneiros de guerra russos. Os otimistas especularam que eram armadilhas para tanque que antecipavam um contra-ataque do Exército Vermelho; os realistas sabiam que se destinavam a sepulturas em massa.

Cena de rua no gueto de Kovno. A força policial judaica do gueto de Kovno foi criada por ordem das autoridades de ocupação alemãs em julho de 1941, mesmo antes de o gueto ser selado.
Fonte: https://collections.ushmm.org/search/catalog/pa1047786

O Dia Negro, como os sobreviventes o chamariam, veio mais para o fim do mês, com uma ordem para todo o mundo no gueto comparecer á praça da Democracia, às seis da manhã de 28 de outubro de 1941, ou ser fuzilado. As pessoas tinham de se apresentar com suas famílias conforme suas atribuições profissionais: o conselho do gueto com um emblema; os trabalhadores que construíam uma base aérea para a Luftwaffe fora de Kaunas com outro; curtidores de couro, construtores de estrada, peleteiros, bombeiros, funileiros, cada um tinha de ser identificado como tal. Mishell trabalhava para conselho judeu e seu cunhado trabalhava na guarnição da base aérea, e tão crucial a família julgou a decisão sobre o emblema a ser ostentado que ficaram em claro a noite inteira debatendo-a, com a conclusão final de as pessoas que trabalhavam para os militares alemães seriam consideradas mais valiosas, recaindo pois a escolha na posição da base aérea. “Ninguém do gueto pregou um olho na noite de 27 de outubro, registra Tory. "Muitos choraram amargamente, muitos outros recitaram salmos. Houve também pessoas que fizeram o oposto: resolveram ter um bom momento, festejar e se fartar de comida, torrar toda a sua provisão. Moradores cujos apartamentos estavam abastecidos de vinhos e bebida beberam tudo o que puderam e até convidaram os vizinhos e amigos para essa macabra festa, “a fim de não deixar nada para os alemães”.

Como foi ordenado, vinte e oito mil pessoas deixaram suas portas destrancadas,fixaram avisos na porta se estivesse dentro alguém doente demais para se deslocar e caminharam pelas ruas do gueto nessa manhã, “muito fria”, lembra Mishell, “um típico dia de outono, com fina camada de neve cobrindo o terreno. Estava ainda escuro e o ar se mostrava extremamente úmido. As últimas estrelas visíveis desapareceram gradualmente, enquanto a multidão começava a crescer. Podiam-se ver mães com os filhos nos braços, pessoas idosas que mal conseguiam andar, crianças pequenas segurando a mão das mães, adultos dando apoio aos pais mais velhos ou aos avós, e até inválidos apoiados em bengalas. Algumas pessoas incapazes de caminhar eram transportadas em macas”. Tory descreve isso gravemente, como "uma procissão de gente enlutada, sofrendo consigo mesma”.

Um grupo de meninos segurando uma criança pequena no gueto de Kovno. 
Fonte:https://collections.ushmm.org/search/catalog/pa11952

Todo o mundo ficou esperando por três horas, enquanto a aurora finalmente irrompia. Tory viu, então, que “a cerca do gueto foi rodeada de metralhadoras e por um pesado destacamento de policiais alemães armados, comandados pelo capitão [Alfred] Tornbaum. Eles tinham também, à disposição, batalhões de guerrilheiros lituanos armados. Uma multidão de espectadores lituanos curiosos havia-se reunido nas colinas que dominavam o gueto. Acompanharam os acontecimentos, participando na praça com um grande interesse não isento de prazer, e não saíram dali por muitas horas”. O robusto e brutal SS-Hauptscharführer Helmut Rauca chegou às nove horas com o representante chefe da Gestapo, capitão Heinrich Schmitz, Tornbaum e o capitão SA Fritz Jordan.

Kauca, com sua farda verde-acinzentada, carregando um bastão, se colocou numa elevação num extremo da praça e a seleção começou. De luvas pretas, apontava com um dedo a esquerda e a direita, dirigindo grupos e famílias. Por algum tempo, não ficou claro que lado significava a vida e que lado a morte, e as pessoas às vezes pediam para mudar. Se a mudança era para a direita, diz Tory, “rindo sarcasticamente, Rauca a consentia”. Logo em seguida, como os doentes e idosos se acumularam no lado direito, o lado que significava a morte se tornou claro. “De quando em quando, Rauca se regalava com um sanduíche... ou apreciava um cigarro, realizando todo tempo seu trabalho perverso sem interrupção”. Às vezes, um auxiliar trazia um pedaço de papel que mostrava uma contagem dos mandados para a direita - eles eram rapidamente deslocados para o vazio Gueto Pequeno - o que indicava que Rauca tinha uma cota a preencher. Pessoas morriam à espera dessa escolha na praça. Como o dia passava e as contagens lhe mostrava pouco de sua cota, Rauca escolhia tanto pela aparência como pelo salvo-conduto de trabalho ou especialidade. Todos os quinhentos trabalhadores do turno da noite da base aérea que, atordoados e exaustos, tinham vindo diretamente do trabalho para a praça da Democracia ele mandava para a direita, mas os bem-dispostos trabalhadores do expediente diurno ele mandava para a esquerda.

Soldados alemães se preparam para um ataque no gueto de Kovno, enquanto alguns moradores judeus observam.
Fonte: https://collections.ushmm.org/search/catalog/pa1047792

A seleção se prolongou pelo dia todo. “Estava começando a escurecer”, escreve Tory, “e ainda milhares de pessoas permaneciam de pé na praça. O capitão Jordan então abriu outro local de seleção. Foi auxiliado pelo capitão Tornbaum”. A polícia do gueto judeu tentou deixar passar pessoas de um lado para o outro e, às vezes, conseguiu. Um deles salvou desse modo o cunhado de Michel, sua mulher e filho.

Estava escuro quando os alemães concluíram a seleção. Cerca de dez mil pessoas tinham sido transferidas para o Gueto Pequeno, onde se instalaram nos frios edifícios para passar a noite. As outras voltaram para a casa, diz Tory, “famintas, sedentas, oprimidas e desalentadas... a maioria enviuvada ou órfã, separada de um pai, de uma mãe, de filhos, irmão ou irmã, avô ou avó, tio ou tia. Um profundo pesar desabou sobre o gueto. Em cada casa, passara a haver cômodos vazios, camas desocupadas e os pertences dos que não haviam voltados das seleções. Um terço da população do gueto fora abatida. Todas as pessoas doentes que haviam permanecido em suas casas de manhã haviam desaparecido. Haviam sido transferidas para o Forte IX durante o dia”.

Na manhã seguinte, foi a vez dos dez mil. Um adolescente fugiu da carnificina resultante e voltou para Kaunas a fim de informar o conselho judaico. O resumo de Tory reflete o relato de testemunha ocular do rapaz:


A procissão, que somava umas 10.000 pessoas, e proveniente do Gueto Pequeno para o Forte IX, durou do amanhecer ao meio-dia. As pessoas idosas, e as que estavam doentes, sucumbiram na beira da estrada e morreram. Tiros de advertência eram dados incessantemente ao longo de todo o caminho e em torno do Gueto Grande. Milhares de curiosos lituanos se juntaram nos dois lados da estrada para assistir ao espetáculo, até a última das vítimas ser engolidas pelo Forte IX.

No forte, as desventuradas pessoas foram imediatamente atacadas pelos matadores lituanos, que as despojaram de todos os objetos de valor - brincos, braceletes de ouro. Obrigaram-nas a se despir, empurraram-nas para os fossos que tinham sido antecipadamente preparados e fizeram o fogo, para dentro do fosso, com metralhadoras ali previamente colocadas. Os assassinos não tinham tempo de atirar em todo o mundo de cada lote antes de o próximo chegar.

Era-lhes concedido o mesmo tratamento dos que os tivessem precedido. Eram empurrados para dentro do fosso, sobre o topo dos mortos, dos agonizantes e dos ainda vivos do grupo anterior. Assim continuou, lote após lote, até os 10.000 homens, mulheres e crianças terem sido chacinados.


Jader listou o massacre de 29 de outubro de 1941, no Forte IX, como de 2.007 homens judeus, 2.920 mulheres judias, 4.273 crianças judias, justificando-o como “remoção do gueto de judeus excedentes”.

Enquanto os judeus de Kaunas estavam sendo submetidos à seleção e assassinados aos lotes no Forte IX, Himmler estava pretendendo desfrutar de uma semana em Schönhof, a residência de caça do ministro alemão das Relações Exteriores, Joachim von Ribenntrop. O ministro das Relações Exteriores italiano, conde Galeazzo Ciano, era o hóspede de honra, e o massagista de Himmler, Felix Kersten, também era hóspede. Em 26 de outubro de 1941, o grupo abateu 2.400 faisões, 260 lebres, 20 gralhas e um corço. "O conde Ciano, sozinho, derrubou 620 faisões", escreve Kersten: “foi o campeão. Ribbentrop, 410 faisões, Himmler, somente 95. Himmler disse a Kersten que só se havia juntado à caçada porque “o Führer desejara expressamente que ele o fizesse”. Murmurou, sobre o sucesso de Ciano: “Quisera que os italianos na África fossem tão bons atiradores.. Onde não há perigo, os italianos são heróis”. Depois do jantar dessa noite, Ciano disse a Kersten em particular: “A guerra durará muito tempo”. Kersten acrescentou: “e Ciano observou que nós éramos os únicos a partilhar essa opinião. Aqui em Schönhof, todo o mundo está dizendo que a guerra acabará logo”.

No fim da caçada de Schönhof, na noite de 28-29 de outubro de 1941, enquanto os dez mil de Kaunas estavam fazendo suas camas nos frios edifícios do Gueto Pequeno, sabendo o que a manhã lhes traria, Kersten falou com Himmler sobrea caça enquanto lhe fazia uma massagem:


Eu disse que a adorava e que nunca me sentia tão bem como na caça de tocaia. Tornava-me uma pessoa totalmente diferente, quando estava ao ar livre, espreitando o cervo horas a fio, e continuava a colher o benefício desses dias de caça por um considerável tempo depois. 

Himmler respondeu que era certamente a melhor parte da caça, mas o objetivo real da caça de tocaia, dar um tiro num desventurado cervo, contrariava a sua natureza. “Como você pode encontrar qualquer prazer, sr. Kersten, atirando por trás de um esconderijo em pobres criaturas que pastam à beira de um bosque, inocentes, indefesas e confiantes? Pensando bem, é puro assassinato”.


TRANSCRIÇÃO: Daniel Moratori
FONTE: RHODES, Richard. Mestres da Morte: A invenção do Holocausto pela SS Nazista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. 210-215 p.

terça-feira, 25 de março de 2014

Aktion "Erntefest" (Operação "Festival da Colheita")

Corpos em uma vala comum descoberta no campo de Majdanek
Introdução
Introdução por um artigo do USHMM-United States Holocaust Memorial Museum

Traduzido do alemão, "Erntefest" significa "Festival da Colheita". A palavra "Erntefest" foi o nome de código para a operação alemã para matar todos os judeus remanescentes no Distrito Lublin do Generalgouvernement (um território no interior da Polônia ocupada), no outono de 1943. O momento da operação foi aparentemente em resposta a vários esforços de sobreviventes judeus para resistir aos nazistas (por exemplo, as revoltas nos campos de extermínio de Sobibor e Treblinka, e resistência armada na Varsóvia, Bialystok, guetos de Vilna). Os SS temiam revoltas adicionais lideradas por judeus no Generalgouvernement. Para evitar uma maior resistência, a SS decidiu matar a maioria dos judeus remanescentes, que foram empregados em projetos de trabalho forçado e foram concentrados nos acampamentos deTrawniki, Poniatowa e Majdanek .

A "Erntefest" começou na madrugada de 03 de novembro de 1943. Os campos de trabalho Trawniki e Poniatowa foram cercados por SS e unidades da polícia. Judeus foram levados para fora dos campos em grupos e fuzilados em covas próximas cavadas para esse fim. Em Majdanek, os judeus foram separados primeiro dos outros prisioneiros. Eles foram levados em grupos para trincheiras próximas e fuzilados. Judeus de outros campos de trabalho na área de Lublin também foram levados para Majdanek e fuzilados. Música foi tocada nos alto-falantes, tanto em Majdanek como em Trawniki, para abafar o barulho do fuzilamento em massa. A operação de assassinato foi concluída em um único dia em Majdanek e Trawniki. Em Poniatowa o tiroteio durou dois dias. Cerca de 42.000 judeus foram mortos durante a "Erntefest".


Segue abaixo um artigo da historiadora Jennifer Rosenberg.


Aktion Erntefest


Em 3 de novembro de 1943, os nazistas cometeram simultâneos atos de assassinato em massa de cerca de 43.000 homens judeus, mulheres e crianças em três campos restantes na Generalgouvernement (área grande na Polônia) - Trawniki , Poniatowa e Majdanek . O nome de código para esta operação era Erntefest ("Festival da Colheita").

Por que matar tantos em um dia?

Os nazistas estavam ficandos nervoso e, talvez, um pouco assustados. A imagem da invencibilidade alemã tinha sido quebrada na batalha de Stalingrado em janeiro de 1943. Judeus se revoltaram no Gueto de Varsóvia, em abril de 1943 e novamente no campo de extermínio de Treblinka, em agosto de 1943. Mas parece que era a revolta judia no campo de extermínio de Sobibor em 14 de outubro de 1943 que fez Heinrich Himmler temer mais essas revoltas; assim após a revolta de Sobibor, Himmler ordenou a matança dos judeus remanescentes no Generalgouvernement.

A morte deveria ser conduzida toda em um dia, com quase nenhum aviso prévio, para evitar qualquer resistência possível.

Himmler confiou essa tarefa para o Superior SS e Líder da Polícia do Generalgouvernement, Friedrich Krüger , que por sua vez delegou ao Superior SS  e Líder da Polícia do distrito de Lublin, Jacob Sporrenberg .


Trawniki

No início da manhã de 3 de novembro, os judeus no campo de trabalho Trawniki foram retirados de suas barracas. Em pequenos grupos, eles foram levados para o campo de treinamento para os auxiliares SS Trawniki. A música de dança foi tocada (alto-falantes tinham sido criados para abafar o barulho dos tiros e os dos gritos de moribundos).

Depois de ter sido forçada a se despir, suas roupas foram adicionados à crescente pilha de roupas e eles foram levados a uma trincheira pré-escavada. Os primeiros grupos foram conduzidos através da trincheira e disseram para se deitarem. Em seguida, foram fuzilados. Grupos posteriores foram obrigados a ficarem sobre os cadáveres dos grupos anteriores. Em seguida, eles também foram baleados.

  • Total de mortos: No final da tarde, quando a matança terminou, cerca de 8.000 a 10.000 judeus foram assassinados em Trawniki neste único dia.
  • Cremação: Para encobrir a evidência deste assassinato em massa, os nazistas trouxeram 100-120 judeus do campo Milejow. Depois de terem cremado todos os cadáveres, levando cerca de duas a três semanas, esses prisioneiros também foram baleados e seus corpos cremados.

Poniatowa

No máximo no final de outubro, os judeus do campo de Poniatowa foram levados para perto do portão de entrada do acampamento e ordenou a cavar trincheiras: duas de 95 metros por 2 metros, com uma profundidade de 1,5 metros em ziguezague. Embora os prisioneiros foram informados de que essas trincheiras eram trincheiras de defesa, elas eram realmente o lugar onde eles estavam prestes a serem baleados.

Muito semelhante ao que aconteceu nesse mesmo dia em Trawniki, os judeus foram levados para as trincheiras e fuzilados.

"Tiramos a roupa rapidamente e, com nossos braços erguidos, fomos na direção das valas que nós mesmos haviamos cavados. Os túmulos, que eram de dois metros de profundidade estavam cheios de corpos nus. Minha vizinha da barraca com quatorze anos de idade, filha de cabelos loiros e de aparência inocente parecia estar à procura de um lugar confortável. Enquanto eles estavam se aproximando do lugar, um homem das SS carregando um fuzil e lhe disse: 'Não tenha pressa' .. Mas nós deitamos rapidamente, a fim de evitar olhar para os mortos. Minha filhinha estava tremendo de medo, e me pedindo para cobrir seus olhos. Eu abracei sua cabeça; minha mão esquerda eu coloquei sobre seus olhos enquanto na minha direita eu segurei suas mãos. Desta forma, deitamos, com nossos rostos virados para baixo.
Tiros foram disparados, eu senti uma dor aguda na minha mão, e a bala perfurou o crânio de minha filha. Outro tiro foi ouvido muito próximo. Eu estava totalmente abalado, fiquei tonto e perdi a consciência. Eu ouvi os gemidos de uma mulher nas proximidades, mas chegou ao fim depois de alguns segundos. " (1)


  • Resistência: Ao contrário dos outros dois campos, em Poniatowa, um grupo de prisioneiros judeus resistiu. Quando o tiroteio estava em fase de conclusão, um grupo pertencente a clandestinidade se separou. Após atear fogo a vários dos quartéis contendo roupas, os resistentes encontraram  segurança, embora apenas temporariamente, em um quartel. Com poucas armas que eles tinham conseguido adquirir nos meses anteriores, eles dispararam de volta para os nazistas. Infelizmente, os nazistas incendiaram o quartel e todos os opositores eram queimados vivos.
  • Total de mortos: Em Poniatowa, cerca de 15.000 judeus foram assassinados neste primeiro dia.
  • Cremação: Os nazistas mantiveram cerca de 150 judeus vivos em Poniatowa para que estes prisioneiros pudessem cremar os cadáveres. Os nazistas também reuniram cerca de mais 50 judeus, que foram encontrados escondidos em todo o acampamento. No entanto, esses presos se recusaram a cremar os corpos. Assim, esses prisioneiros foram fuzilados e substituídos por outros 120 judeus de outro acampamento.

Majdanek

No final de outubro, cerca de 300 prisioneiros de Majdanek foram retirados por trás dos campos V e VI, perto do crematório, e ordenados a cavar. Eles estavam a cavar três trincheiras, cerca de 100 metros de comprimento e 2 metros de profundidade, em uma linha em ziguezague.

Majdanek, na Polônia.Uma vala comum cheia
com os restos de corpos, no momento da libertação.
Para a matança, cerca de 100 homens da SS e da polícia vieram de Auschwitz e de outros locais para complementar a equipe de Majdanek. Dois caminhões com alto-falantes entraram no campo, em preparação para o 3 de novembro - um foi colocado perto do portão do campo (perto da estrada) e o outra foi colocado perto das trincheiras recém-cavadas.

Na manhã do dia 3 de novembro, os prisioneiros passaram pelo processo de rotina de chamada. No final da chamada, os prisioneiros judeus a partir de campos III e IV receberam ordens para avançar e criar uma coluna separada. Esses e milhares de outros judeus dos campos próximos, fábricas, e esquadrões de trabalho foram levados para o campo V para aguardar a execução.

Em grupos de 100 (homens e mulheres separadamente), os prisioneiros judeus foram levados para os lavatórios e forçados a se despir. Eles foram levados, nús, através de um buraco na cerca do campo V (buraco cortado por Schutzlagerführer Thumann). Do buraco na cerca, os prisioneiros passaram por um corredor delimitado por policiais armados. Uma vez nas valas, eles foram obrigados a se deitarem, e em seguida, baleados por homens da SS em pé na borda da vala. Os grupos seguintes foram lançados em cima dos grupos anteriores recém-mortos.

  • Total de mortos: Em Majdanek em 3 de novembro, cerca de 18.000 judeus foram assassinados. Este dia ficou conhecido como "Quarta sangrenta" entre os prisioneiros restantes de Majdanek.
  • Cremação: Os nazistas mantiveram 311 mulheres judias e 300 homens judeus vivos para classificar as roupas e outros pertences de quem estava morto. Após a triagem realizada, as mulheres foram enviadas para Auschwitz e gaseadas na chegada. As mulheres foram forçadas a cremar corpos, e então elas também foram mortas.

Fim da Aktion Reinhard

O assassinato em massa de cerca de 43 mil judeus em 03 de novembro de 1943 durante a Aktion Erntefest significou o fim da Aktion Reinhard . Este foi um dia muito sangrento na história.

Notas:
(1) -  Sobrevivente feminina das execuções em massa Poniatowa como citado por Martin Gilbert, The Holocaust (New York: Holt, Rinehart and Winston, 1985) 629.

Bibliografia:
- Arad, Yitzhak. Belzec, Sobibor, Treblinka: The Operation Reinhard Death Camps. Indianapolis: Indiana University Press, 1987.
- Gilbert, Martin. The Holocaust: A History of the Jews of Europe During the Second World War. New York: Holt, Rinehart and Winston, 1985.
- Marszalek, Jozef. Majdanek: The Concentration Camp in Lublin. Warsaw: Interpress, 1986.

Traduções: Daniel Moratori (avidanofront.blogspot.com)

Outros:
Video da libertação do campo de Majdanek e suas valas comuns: 
http://www.ushmm.org/wlc/en/media_fi.php?ModuleId=10005190&MediaId=210
http://www.majdanek.eu/articles.php?acid=185&lng=1
Fotos: http://www.yadvashem.org/
Ver também: Batalhão Policial de Reserva 101

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Israel Gutman, historiador do Holocausto, morreu aos 90 anos

Israel Gutman
Um dos mais importantes historiadores do Holocausto e sobrevivente dos campos de concentração nazis, Israel Gutman, morreu, esta terça-feira, aos 90 anos em Jerusalém, informou o Yad Vachem, o Museu do Holocausto israelita.

Nascido em Varsóvia em 1923, Israel Gutman participou na revolta do gueto da capital polaca contra os nazis, em 1943, antes de ser deportado para o campo de extermínio de Auschwitz.

Em 1946 imigrou para a Palestina sob mandato britânico e iniciou os estudos de história, tendo realizado o doutoramento sobre a resistência judaica no gueto de Varsóvia.

Testemunha no julgamento de Adolf Eichmann (conhecido como o arquiteto da 'solução final') em 1961, em Jerusalém, Gutman foi diretor do Centro Internacional de Estudos sobre o 'Shoah' no Yad Vachem, conselheiro do governo polaco para as questões judaicas e membro da direção do Museu do Holocausto de Washington.

Israel Gutman foi autor de uma enciclopédia sobre o Holocausto e marcou a historiografia deste período.


"Reconhecido internacionalmente como investigador, Gutman contribuiu para o conhecimento a nível mundial dos horrores da Shoah enquanto testemunha, professor e historiador", disse o diretor do Yad Vachem, Avner Shalev, num comunicado citado pela agência France Presse.

Fonte: Jornal de Noticias

terça-feira, 7 de maio de 2013

Batalhão Policial de Reserva 101

Alemães que servem Batalhão de Polícia 101 humilham publicamente um homem judeu. Lukow, Polônia, 1942 

Quem foram os responsáveis? Que tipo de pessoa massacra civis? Chacina idosos? Assassinato de bebês? Para encontrar respostas a essas perguntas, o historiador Christopher Browning estudou interrogatórios feitos na década de 1960 e início de 1970 de 210 homens do Batalhão Polícial de Reserva 101. O batalhão foi originalmente formado a partir do equivalente alemão de policiais da cidade e do xerife do condado. Depois de 1939, ele e outros batalhões da Polícia de Ordem também serviram como forças de ocupação no território conquistado. Batalhão 101 foi designado para o distrito de Lubin da Polónia.

Como a Guarda Nacional nos Estados Unidos, os batalhões foram organizados regionalmente. A maioria dos soldados no Batalhão 101 vieram de trabalhadores e de bairros de classe média baixa em Hamburgo, na Alemanha. Eles eram mais velhos do que os homens que lutaram na linha de frente. A idade média foi de trinta e nove anos, com mais de metade entre trinta e sete e quarenta e dois. A maioria não era bem-educado. A maioria deixou a escola com a idade de quinze anos. Muito poucos eram nazistas e nenhum foi abertamente anti-semita. O Major Wilhelm Trapp, um policial de carreira de 53 anos de idade, que subiu na hierarquia, chefiou o batalhão. Embora ele se tornou um nazista em 1932, ele não era um membro da SS, embora seus dois capitães fossem.

A primeira missão de assassinato da unidade ocorreu em 13 de julho de 1942. Browning usou interrogatórios para juntar os acontecimentos daquele dia.

Assim que  a luz do dia estava rompendo, os homens chegaram à aldeia [de Jozefow] e montaram um semi-círculo ao redor major Trapp, que passou a dar um breve discurso. Com asfixia na voz e com lágrimas nos olhos, ele visivelmente lutava para controlar-se quando ele informou seus homens que haviam recebido ordens para executar uma tarefa muito desagradável. Essas ordens não eram de seu agrado, mas que veio de cima. Poderia, talvez, fazer a sua tarefa mais fácil, ele disse aos homens, se eles se lembraram de que, na Alemanha, as bombas estavam caindo sobre as mulheres e crianças. Duas testemunhas afirmaram que Trapp também mencionou que os judeus desta aldeia havia apoiado os guerrilheiros. Outra testemunha recordou Trapp de mencionar que os judeus haviam instigado o boicote contra a Alemanha. Trapp então explicou aos homens que os judeus em Jozefow teria de ser arrebanhados, após o que os jovens do sexo masculino deveriam ser selecionados para o trabalho e os outros baleados.

Trapp, em seguida, fez uma oferta extraordinária de seu batalhão: se qualquer um dos homens mais velhos, entre os quais não se sentia à altura da tarefa que estava diante dele, poderia se retirar. Trapp fez uma pausa, e depois de alguns instantes, um homem se aproximou. O capitão da 3ª companhia, enfurecido que um de seus homens tinham fileiras quebradas, começou a repreender o homem. O major disse ao capitão para segurar sua língua. Em seguida, dez ou doze outros homens adiantaram-se também. Eles viraram em seus rifles e foram orientados a aguardar mais uma designação do major.

Trapp, em seguida, convocou os comandantes de companhia e deu-lhes as respectivas atribuições. Dois pelotões da 3ª companhia estavam a cercar a aldeia, os homens tiveram ordens explicitas de atirar em qualquer um que tenta-se escapar. Os homens restantes estavam a reunir os judeus e levá-los para o mercado local. Aqueles muito doentes ou frágeis para andar para o mercado local, bem como crianças e qualquer pessoa que ofereça resistência ou tenta-se se esconder, foram fuzilados no local. Depois disso, alguns homens da 1ª companhia foram acompanhar os judeus selecionados para o trabalho no mercado, enquanto o resto iam para a floresta para formar os pelotões de fuzilamento. Os judeus estavam sendo colocados em caminhões do batalhão pela 2ª companhia e transportados do  mercado local para a floresta.

Tendo dado os comandantes da companhia das respectivas atribuições, Trapp passou o resto do dia na cidade, principalmente em uma sala de aula transformada em seu quartel-general, mas também nas casas do prefeito polonês e do padre local. Testemunhas que viram ele em vários momentos durante o dia, descreveu-o reclamando amargamente sobre as ordens que foram dadas e "chorando como uma criança." Ele, no entanto, afirmou que "ordens eram ordens" e tinham que ser realizadas. Nem uma única testemunha recordou vê-lo no local do tiroteio, um fato que não passou despercebido aos homens, que sentiram um pouco de raiva com isso. O motorista de Trapp se lembra dele dizendo mais tarde: "Se esse negócio judeu está sempre vingando na terra, então, tende piedade de nós alemães" (1).

Ao descrever o massacre, Browning nota: "Enquanto os homens do Batalhão de Reserva 101 estavam aparentemente dispostos a atirar nos judeus muitos fracos ou doentes para se mover, eles ainda evitaram na sua maior parte atirar nas crianças, apesar de suas ordens. Nenhum funcionário interveio, embora, posteriormente, um oficial advertiu a seus homens que, no futuro, eles teriam que ser mais enérgicos.".


Como a matança continuou, mais alguns soldados pediram para ser dispensados de suas funções. Alguns oficiais transferiram quem solicitou, enquanto outros pressionaram os seus homens a continuar apesar das reservas. Ao meio-dia, aos homens estavam sendo oferecidas garrafas de vodka para "refrescar" eles. À medida que o dia continuou, um número de soldados rompeu. No entanto, a maioria continuou até ao final. Após o termino do massacre, o batalhão foi transferido para a parte norte do distrito e os vários pelotões foram divididos, cada um  estacionado em uma cidade diferente. Todos os pelotões participaram de pelo menos mais uma ação de fuzilamento. A maioria descobriu que esses assassinatos posteriores eram mais fáceis de executar. Portanto, Browning vê que o primeiro massacre como uma importante linha divisória.

Mesmo 25 anos depois, não conseguia esconder o horror sem fim atirando judeus à queima-roupa. Em contrapartida, porém, falavam em torno de guetos e assistindo ["voluntários" poloneses] brutalmente conduzindo os judeus para os trens da morte com desprendimento considerável e uma ausência quase total de qualquer senso de participação ou responsabilidade. Tais ações eles costumavam rejeitar com um refrão padrão: "Eu estava apenas no cordão policial lá." O tratamento de choque de Jozefow havia criado uma unidade efetiva e insensível  de limpadores de guetos e, quando em ocasião necessária, assassinos definitivos. Depois de Jozefow nada mais parecia tão terrível. (2)

Ao chegar a conclusões a partir das entrevistas, Browning incide sobre as escolhas abertas para os homens que estudou. Ele escreve:

A maioria simplesmente negou que tivesse qualquer escolha. Confrontado com o testemunho dos outros, eles não contestaram que Trapp tinha feito a oferta, mas repetidamente alegaram que não tinha ouvido essa parte de seu discurso ou não se lembrava dela. Os poucos que admitiram que tinha sido dada a escolha e ainda não conseguiu optar foram bastante contundente. Um disse que não queria ser considerado um covarde por seus companheiros. Outro - mais consciente do que era necessaria verdadeira coragem - disse simplesmente: "Eu era covarde." Alguns outros também fizeram a tentativa de enfrentar a questão de escolha, mas não conseguiu encontrar as palavras. Foi um tempo e espaço diferentes, como se tivessem sido em outro planeta político e de vocabulário e os valores politicos da década de 1960 foram incapazes de explicar a situação em que se encontravam em 1942. Como um homem admitiu, não foi até anos depois que ele começou a considerar que o que ele tinha feito não tinha razão. Ele não tinha dado um pensamento no momento.(3)

Os homens que não participaram foram mais específicos sobre seus motivos. Alguns atribuíram sua recusa à sua idade ou ao fato de que eles não eram "homens de carreira." Só mencionar laços com os judeus como uma razão para não participar. Portanto Browning observa:

O que permanece praticamente não examinado pelos interrogadores e não mencionados pelos policiais foi o papel do anti-semitismo. Será que eles não falam disso porque o anti-semitismo não tinha sido um fator motivador? Ou eles estavam dispostos e capazes de enfrentar esse problema, mesmo depois de 25 anos, porque tinha sido muito importante, muito difundido? Somos tentados a se perguntar se o silêncio fala mais alto do que palavras, mas no final - o silêncio ainda é o silêncio, e a questão permanece sem resposta.

Foi o incidente em Jozefow típico? Certamente que não. Não conheço nenhum outro caso em que um comandante tão abertamente convidou e sancionou a não participação de seus homens em uma ação de matar. Mas no final, o fato importante não é que a experiência do Batalhão de Reserva 101 foi atípico, mas essa oferta extraordinária de Trapp não importava. Como qualquer outra unidade, o Batalhão Reserva de Polícia 101 matou os judeus que tinha sido dito para matar. (4)

Notas: 

1 - Christopher R. Browning, “One Day in Jozefow: Initiation to Mass Murder” in The Path to Genocide:Essays on Launching the Final Solution (Cambridge University Press, 1992), 174-175.

2 - Ibid., 179.

3 - Ibid., 181-182.

4 - Ibid., 183.

Obs: Esse é mais uma postagem sobre o Batalhão Policial de Reserva 101, sendo o segundo, conta o  um pouco sobre o massacre em Josefow, que é bem interessante.
A outra postagem é essa: Batalhão Policial de Reserva 101

Tradução: Daniel Moratori (avidanofront.blogspot.com)

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Batalhão Polícial de Reserva 101


Membros do Batalhão Polícial 101 celebram o Natal em seus quartéis.
Dezembro de 1940 - Foto USHMM -  Michael O'Hara
O Batalhão Reserva de Polícia 101 foi uma unidade da Polícia de Ordem Alemã [Ordnungspolizei ou Orpo] que durante a ocupação nazista da Polônia desempenhou um papel central na implementação da Solução Final contra o povo judeu e a repressão da população polonesa. Os membros do batalhão participaram de batidas policiais súbitas e expulsão de judeus, poloneses e ciganos , de guarda e liquidação de guetos , na deportação para campos de concentração e no o tiroteio em massa de dezenas de milhares de civis.

Criado em Hamburgo, o Batalhão 101 foi uma das treze formações da polícia que foram colocados à disposição do exército alemão durante a invasão da Polônia , em setembro de 1939 . Os membros do batalhão cruzaram para a Polônia na cidade fronteiriça de Oppeln e depois se mudaram para Czestochowa Kielce, onde batida capturou soldados poloneses e equipamento militar que foram guardado em um campo de prisioneiros. Em 13 de dezembro, o batalhão de polícia voltou para Hamburgo, onde muitos de seus recrutas foram transferidos para outras unidades e substituídos por reservistas meia-idade.

Em maio de 1940 , o batalhão foi novamente enviado para a Polônia, onde ele estava envolvido em todo o Wartegau (os distritos do oeste da Polônia formalmente anexada pelo Terceiro Reich) na expulsão e reassentamento de poloneses, ciganos e judeus. Estima-se que cerca de 37.000 pessoas foram evacuadas pelo Batalhão de Polícia 101 sozinho em um período de cinco meses durante a primavera e o verão de 1940. Seguindo as ações de reassentamento, o batalhão esteve envolvido nos esforços para caçar poloneses que fugiram da ordem de evacuação.

Em 28 de novembro de 1940 o batalhão da polícia foi re-implantado para proteger o perímetro do gueto de Lodz , que havia sido selado sete meses antes. Estes policiais tinham uma ordem permanente para atirar em qualquer judeu que chegasse muito perto do muro que cercava o gueto.

Em maio de 1941, Batalhão de Polícia 101 foi enviado para casa em Hamburgo, onde foi totalmente reconstituído. Depois que a maioria de seus recrutas anteriores foram distribuídos para outras unidades policiais, suas fileiras estavam cheios de reservistas elaborados. Enquanto a maioria de seus membros ainda viesse de Hamburgo, um grupo de Luxemburgo agora se juntou às suas fileiras. Para os próximos doze meses, a novo batalhão passou por um treinamento extenso e em torno de Hamburgo. Este período coincidiu com a deportação para a Europa Oriental da população judaica de Hamburgo e seus arredores em quatro transportes que partiram entre 25 de outubro e 4 de dezembro de 1941 .

Membros do Batalhão de Polícia 101 estiveram envolvidos em vários aspectos do processo de deportação, incluindo guarda do centro de agrupamento (na loja maçônica em Hamburgo) e da estação ferroviária Sternschanze, onde os judeus foram abordados em trens, e o acompanhamento de transportes para seus destinos finais: Lodz, Minsk e Riga. Em junho de 1942, o Batalhão de Polícia 101 foi enviado de volta para a Polônia. Postado para o distrito de Lublin, o batalhão chegou durante uma pausa temporária nas deportações em massa de judeus para os campos da morte da Operação Reinhard, de Belzec, Sobibor e Treblinka. Para as próximas quatro semanas, membros do batalhão foram implantados na reunião de assentamentos menores judeus e concentrá-los em guetos e campos maiores, particularmente Izbica e Piaski, os dois campos principais de montagem no sul do distrito de Lublin.

A partir de meados de julho de 1942, com cinturão de judeus na cidade de Jozefow perto Bilgoraj, membros do Batalhão de Polícia 101 foram utilizados para o tiroteio em massa de civis judeus em cidades em todo o distrito de Lublin. Estes incluem (para além de Jozefow) Lomazy (Agosto de 1942), Miedzyrzec (Agosto de 1942), Serokomla (Setembro de 1942), Kock (Setembro de 1942), Parczew (Outubro de 1942), Konskowola (Outubro de 1942), Miedzyrzec (uma segunda ação em outubro 1942) e Lukow (Novembro de 1942).

A participação de policiais do Batalhão 101 na Solução Final culminou no massacre na Erntefest [Festival da Colheita] de 3-4 de novembro de 1943. No curso desta ação de matar, talvez a maior dirigida contra os judeus de toda a guerra, cerca de 42.000 prisioneiros judeus no distrito de Lublin nos campos de concentração Majdanek, e Trawniki e Poniatowa foram aniquilados. Estima-se que durante o período entre julho de 1942 e novembro de 1943 , o Batalhão de Policia 101 era o único responsável pelas mortes por disparo de mais de 38 mil judeus e deportação de outros 45 mil.

Nos últimos 16 meses da guerra o Batalhão Polícial 101 foi envolvido em ações contra guerrilheiros e tropas inimigas. Quase todos os membros do batalhão sobreviveram ao colapso do Terceiro Reich e retornou com segurança para a Alemanha. No imediato pós-guerra apenas quatro membros da unidade sofreram as conseqüências legais de suas ações na Polônia. Estes policiais, que foram detidos por sua participação no assassinato de 78 poloneses na cidade de Talcyn, foram extraditados para a Polônia em 1947 e julgados no ano seguinte. Dois foram condenados à morte e dois à prisão. Não foi até 1962, no entanto, que Batalhão Reserva de Polícia 101 como um todo veio sob investigação e repressão legal pelo Gabinete do Procurador do Estado, em Hamburgo. Em 1967, 14 membros da unidade foram levados a julgamento. Embora a maioria foram condenados, apenas cinco receberam penas de prisão (variando de cinco a oito anos), que foram posteriormente reduzidas no curso de um processo de longa apelação.

Tradução: Daniel Moratori - avidanofront.blogspot.com

Fonte bibliografica: Browning, Christopher R., Ordinary Men: Reserve Police Battalion 101 and the Final Solution in Poland, New York, Harper Collins, 1992, pp.xv-xvii; 3-9; 38-71; 88-114; 133-146; 191-192.

Fonte original: http://digitalassets.ushmm.org/photoarchives/detail.aspx?id=1134228 (U.S. Holocaust Memorial Museum -USHMM)

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Alemanha indenizará 80 mil sobreviventes soviéticos do Holocausto



A Alemanha pagará uma indenização de aproximadamente € 2,5 mil a cada um dos cerca de 80 mil sobreviventes do Holocausto que vivem nas ex-repúblicas da União Soviética. O genocídio de, aproximadamente, seis milhões de judeus europeus durante a Segunda Guerra Mundial foi patrocinado pela Alemanha nazista, liderada por Adolf Hitler.

Dos nove milhões de judeus que viviam na Europa antes do Holocausto, aproximadamente dois terços morreram, mais de um milhão de crianças, dois milhões de mulheres e três milhões de homens.

Fonte:
http://www.diariodarussia.com.br/internacional/noticias/2012/07/11/alemanha-indenizara-80-mil-sobreviventes-sovieticos-do-holocausto/

sábado, 26 de maio de 2012

Decreto da Eutanásia - Aktion T4



Fac simile do documento

[Águia Imperial] Adolf Hitler


Berlim, 1 de setembro de 1939

Reichsleiter Bouhler e
Sr. Doutor Brandt 

Ficam encarregados da responsabilidade de ampliar a autorização dos médicos que serão nomeados, de tal modo que uma morte misericordiosa pode ser concedida, depois de uma avaliação crítica da condição da sua doença, às pessoas com uma doença incurável segundo julgamento humano.

Adolf Hitler


Recebido de Bouhler
em 27/8/40
Dr. Gärtner 



Tradução: Daniel Moratori (avidanofront.blogspot.com)


sexta-feira, 13 de abril de 2012

A Croácia e o conhecimento do Vaticano - Parte 2



   Em 30 de agosto de 1941, o núncio papal na Itália, monsenhor Francesco Borgongini Duca, escreveu para Maglione, retratando uma curiosa conversa com o adido cultural croata no Quirinal e dois franciscanos croatas. Eles falavam sobre os 100.000 ortodoxos convertidos ao catolicismo. O núncio indagou sobre os protestos que ouvira a respeito de "perseguições infligidas pelos católicos aos ortodoxos". O adido, "com muitos acenos de cabeça dos padres", tentou desmentir essas histórias, insistindo em que, "como o papa continua a dizer ao clero e aos fiéis, os católicos devem seguir os ensinamentos de Nosso Senhor e pro- pagar a fé por meio da persuasão, não da violência"(30).

   No mês seguinte, o embaixador especial de Pavelic, padre Cherubino Seguic, foi a Roma para descobrir o que se dizia sobre o regime e acabar com os "rumores" desfavoráveis. Em suas memórias defensivas, ele se queixa da "insinuação de calúnia" que se ouvia em Roma sobre a Croácia e garante que "tudo é distorcido ou inventado. Somos apresentados como um bando de bárbaros e canibais". Ele conversou com Giovanni Montini (o futuro Paulo VI), que "pediu informações detalhadas sobre os acontecimentos na Croácia. Falei tudo. Ele ouviu com muito interesse e atenção. As calúnias haviam chegado ao Vaticano e deviam ser denunciadas de uma maneira convincente" (31) . Portanto, as atrocidades — ou "calúnias" — eram do conhecimento comum em Roma no verão de 1941. A Santa Sé tinha canais pelos quais Pacelli podia verificar tudo e influenciar os acontecimentos.

   O delegado apostólico Ramiro Marcone, escolhido por Pacelli como seu representante pessoal na Croácia, era um amador que deu a impressão de passar corno um sonâmbulo por toda essa cena sangrenta. Um monge beneditino de 60 anos, ele não tinha qualquer experiência de diplomacia e passara grande parte de sua ida adulta dando aulas de Filosofia no Colégio de Santo Anselmo, em Roma. Sua área de atuação era o claustro e a sala de aula. Seu tempo na Croácia foi consumido em grande parte no comparecimento a cerimônias, jantares e desfiles públicos, sendo fotografado sempre ao lado de Pavelic. Era evidente que fora escolhido para apaziguar e encorajar.

Pavelic com ol arcebispo Stepinac
   Os equivalentes diplomáticos de Marcone, do lado croata, eram Nicola Rusinovic, um médico que praticava num hospital romano, e seu planejado substituto, um camarista papal no Vaticano, príncipe Erwin Lobkowicz (de origem boêmia). Esses arranjos eram semi-secretos, já que a Santa Sé ainda mantinha oficialmente relações diplomáticas com o governo real iugoslavo no exílio. Em março de 1942, apesar da abundância de provas apontando para os massacres, a Santa Sé prometia relações oficiais aos representantes croatas. Montini disse a Rusinovic: "Recomende gentileza a seu governo e aos círculos governamentais, pois assim nossas relações vão se consolidar. Desde que vocês se comportem de maneira apropriada, a forma das relações vai se definir espontaneamente" (32) . Em 22 de outubro de 1942, Pacelli encontrou o príncipe Lobkowicz em audiência. Segundo o príncipe, Pacelli, "em sua atitude habitual de extrema benevolência", disse que "esperava poder em breve me receber em circunstâncias diferentes"(33).

   Enquanto isso, um pedido de socorro aos judeus perseguidos na Croácia foi enviado à Santa Sé pelo Congresso Mundial Judaico e a comunidade israelita suíça, por meio do monsenhor Filippe Bernadini, o núncio apostólico em Berna. Num memorando substancial, datado de 17 de março de 1942, menos de dois meses depois da Conferência de Wannsee, em que foi delineada a Solução Final, Os representantes das duas organizações documentaram Perseguições aos judeus na Alemanha, França, Romênia, Eslováquia, Hungria e Croácia. Queriam em particular que o papa usa-se sua influência nos três últimos países, ligados à Santa Sé por fortes vínculos diplomáticos e eclesiásticos - na Eslováquia, por exemplo, um padre católico ocupava no momento a presidência. A parte sobre a Croácia dizia o seguinte: "Milhares de famílias foram deportadas para ilhas desertas ou encarceradas em campos de concentração todos os homens judeus foram enviados para campos de trabalho forçado. tendo de escavar esgotos, o que acarretou a morte de muitos. (...) Ao mesmo tempo, suas posas e filhos foram enviados para outro campo, onde também estão sofrendo terríveis privações'''(34).

   O memorando, cujo manuscrito está nos Arquivos Sionista em Jerusalém, foi publicado por Saul Friedlãnder, em sua coletânea de documentos sobre Pacelli e o Terceiro Reich. Em °ui: de 1998, Gerhard Riegner, um signatário sobrevivente do memorando, revelou em suas memórias publicadas, Ne jamais désesesperer(35)", que o Vaticano o excluíra dos onze volumes de documentos do tempo de guerra liberados - indicando que, mais de meio século depois da guerra, o Vaticano ainda não se mostrava disposto a confessar o que sabia sobre as atrocidades croatas e os primeiros estágios da Solução Final, e quando soube.

    Os três chefes da secretaria de Estado do Vaticano — Maglione, Montini e Tardini — indicaram várias vezes que tinham conhecimento dos protestos e pedidos de socorro, mas suas entrevistas com Rusinovic e Lobkowicz seguiam, como Falconi observou pela documentação disponível, um padrão invariável de "ataque simulado, escuta paciente e generosa rendição". Como não podia deixar de ser, os diplomatas croatas secretos no Vaticano estavam mais do que satisfeitos com a maneira pela qual os interrogatórios eram realizados: "Esclareci tudo, desmascarando a propaganda inimiga", escreveu Rusinovic, depois de uma reunião com Mondni. "Sobre os campos de concentração, expliquei que seria melhor se ele pedisse informações à delegação apostólica em Zagreb. (... ) Jornalistas estrangeiros foram convidados a visitar os campos de concentração e... ao irem embora, declararam que os campos tinham perfeitas condições de habitação e satisfaziam os requisitos de higiene." No final da entrevista, quando Rusinovic comentou que havia agora cinco milhões de católicos no vais, Montini disse: "O Santo Padre vai ajudá-los, pode ter certeza" (36).

 Sacerdote croata no trabalho de conversão forçada dos sérvios ortodoxos ao catolicismo.  


   Além disso, pode-se constatar que o Vaticano sabia da verdadeira situação na Croácia, no início de 1942, por uma conversa que Rusinovic teve com o cardeal francês Eugène TiSSCralt, um especialista em assuntos eslavos e agora confidente de Pacelli, apesar das restrições que lhe fizera no conclave. Ele disse ao representante croata, em 6 de março de 1942: "Sei com certeza que os próprios franciscanos, como o padre Simic, de Knin, têm participado dos ataques contra as populações ortodoxas, a fim de destruir a Igreja ortodoxa. Assim como vocês destruíram a Igreia ortodoxa em Bania Luka. Sei com certeza que os franciscanos na Bósnia e Herzegovina tem se comportado de maneira abominável o que muito me aflige. Esses atos não devem ser cometidos por pessoas educadas, cultas e civilizadas, muito menos por padres" (37). Durante uma reunião subseqüente, em 27 de maio, Tisserant disse a Rusinovic que, segundo os dados alemães, "350.000 sérvios desapareceram" e "em apenas um campo de concentração há 20.000 sérvios" (38).

    Pacelli, no entanto, nunca deixou de se mostrar benevolente com os líderes e representantes do regime de Pavelic. Uma lista de suas audiências, além das que já foram mencionadas, é significativa. Em julho de 1941, ele recebeu uma centena de membros da força policial croata, tendo à frente o chefe de polícia de Zagreb. Em 6 de fevereiro de 1942, ele concedeu uma audiência a um grupo de jovens do Ustashe em visita a Roma. Recebeu outra delegação de jovens do Ustashe em dezembro do mesmo ano.

    E, em 1943, quando conversava com Lobkowicz, Pacelli "expressou seu prazer pela carta pessoal do nosso Poglavnik [Pavelic]". Depois, na conversa, Pacelli disse que estava "desapontado porque, apesar de tudo, ninguém quer reconhecer o principal inimigo da Europa; nenhuma cruzada militar comum foi iniciada até agora contra o bo1chevismo"(39).

   Mas Hitler não lançara essa cruzada no verão de 1941? Nos tortuosos raciocínios de Pacelli sobre o comunismo, o nazismo, a Croácia e a evangelização católica do Leste, começamos a compreender - embora sem justificar - sua reticência em relação aos massacres croatas.


Notas (enumeradas conforme no livro):
30 - Ibid., p.259
31 - Ibid., p.307
32 - Citado em  Falconi, Silence, p. 333.
33 -  Ibid., p.334.
34 - S. Friedländer, Pius XII and the Third Reich: A Documentation, trad. ingl. (Londres, 1966), p.109.
35 - G. Riegner, Ne jamais désespérer (Paris, 1988), pp. 164-165.
36 - Citado em Falconi, Silence, p. 355.
37 - Ibid., p. 382
38 - Ibid., p. 388
39 - Ibid., pp. 344-346

Transcrição: Daniel Moratori (avidanofront.blogspot.com)
Fonte: CORNWELL, John - O Papa de Hitler - A historia secreta de Pio XII, Rio de Janeiro: Imago Ed., 2000, p. 290 - 293.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A Croácia e o conhecimento do Vaticano - Parte 1


Alojzije Stepinac, Arcebispo de Zagreb com Ante Pavelic 
     Desde o início, o arcebispo de Zagreb, Alojzije Stepinac (beatificado por João Paulo II na Croácia, em 3 de outubro de 1998), estava de pleno acordo com os objetivos gerais do novo Estado croata. Empenhou-se em fazer com que fosse reconhecido pelo papa. Visitou Pavelic em 16 de abril de 1941. Ouviu o novo líder declarar que "não teria tolerância com a Igreja ortodoxa sérvia", registrou Stepinac em seu diário, "porque em sua opinião não era urna Igreja, mas unia organização política". Isto proporcionou a Stepinac a impressão de que "Poglavnik era um católico sincero(19). Nessa mesma noite, Stepinac ofereceu um jantar a Pavelic e aos principais líderes do Ustashe, a fim de celebrar a volta de todos do exílio. Em 28 de abril, no próprio dia em que 250 sérvios foram massacrados em Bjelovar, uma carta pastoral de Stepinac foi lida em todos os púlpitos católicos, conclamando o clero e os fiéis a colaborarem no trabalho do líder.

     Por que esforço de ingenuidade Stepinac deixou de compreender o que a colaboração podia envolver? No início de junho de 1941, o general alemão plenipotenciário para a Croácia, Edmund Glaise von Horstenau, declarou que, segundo relatórios confiáveis de observadores militares e civis alemães, "o Ustashe, num processo de loucura desvairada"(20). No mês seguinte, Glaise relatou o embaraço dos alemães, que "com seis batalhões de infantaria" observavam impotentes "a fúria cega e sangrenta do Ustashe”.

   Padres, invariavelmente franciscanos, assumiram um papel de destaque nos massacres (21). Muitos costumavam andar armados e executavam seus atos assassinos com o maior zelo. Um certo padre Bozidar Bralow, conhecido pela metralhadora que era sua constante companheira, foi acusado de realizar uma dança em tomo dos cadáveres de 180 sérvios massacrados em Alipasin-Most. Muitos padres franciscanos mataram, atearam fogo a casas, saquearam aldeias e devastaram os campos à frente de bandos do Ustashe. Em setembro de 1941, um repórter italiano escreveu sobre um franciscano que vira ao sul de Banja Luka exortando um bando do Ustashe com seu crucifixo. 

    No arquivo do Ministério do Exterior em Roma há um registro fotográfico de atrocidades: mulheres com seios cortados, olhos arrancados, genitálias mutiladas; e os instrumentos da carnificina, facões, machados e ganchos de açougueiro(22)

    E qual foi a atitude e reação das forças italianas na região? Sob alguns aspectos, foi similar à reação das tropas da Organização das Nações Unidas na Iugoslávia na história mais recente (embora com diferenças óbvias) de impotência e consternação. Constrangido por sua aliança com a Alemanha nazista e as circunstâncias da guerra mundial, o Exército italiano tinha um raio de ação limitado. Mesmo assim, calcula-se que em 1º de julho de 1943 os italianos já haviam oferecido proteção a 33.464 civis em sua esfera influência iugoslava, dos quais 2.118 eram judeus(23). Falconi especulou a humanidade dos italianos sob esse aspecto pode ter sido em parte uma decorrência de pressão do Vaticano, embora os indícios são “superficiais e vagos". A pesquisa e avaliação de Jonathan Steinberg sobre a relutância italiana em participar da deportação e extermínio descartariam essa possibilidade. Num comovente sumário do complexo fenômeno italiano de humanitarismo na Iugoslávia, entre 1941 e 1943, Steinberg assevera: “Um longo processo, iniciado com a reação espontânea de jovens oficiais isolados, na primavera de 1941, que não suportaram ficar de braços cruzados observando os carniceiros croatas retalharem sérvios e judeus, homens, mulheres e crianças, culminou em julho de 1943 com uma espécie de conspiração nacional para frustrar a brutalidade muito maior e mais sistemática do Estado nazista. (...) Baseava-se em certas suposições sobre o que significava ser italiano"(25).

    Muito se falou nos anos do pós-guerra sobre a i soai do arcebispo Stepinac, o primaz católico romano da Croácia e seus eventuais protestos contra as perseguições e massacres. Contudo, mesmo que seja considerado inocente de qualquer tolerância com o ódio racial assassino, é evidente que ele e o episcopado endossaram um desprezo pela liberdade religiosa equivaler; à cumplicidade com a violência. Stepinac enviou uma longa carta a Pavelic sobre as questões dos massacres e conversões. O escritor Hubert Butler traduziu o texto para o inglês de uma cópia datilografada que obteve em Zagreb, em 1946. Cita as opiniões de outros bispos, todos a favor, inclusive uma carta do bispo católico de Mostar, um certo dr. Miscic, expressando o anseio histórico de que o episcopado croata aceitasse as conversões em massa ao catolicismo.

    O bispo começa com a declaração de que "nunca houve urna ocasião tão boa quanto agora para ajudarmos a Croácia a salvar incontáveis almas". Fala com entusiasmo sobre as conversões em massa. Mas acrescenta que deplora "a visão restrita" das autoridades, que perseguem até os convertidos e os "tratam corno escravos". Relaciona massacres conhecidos de mães, moças e crianças com menos de oito anos, levadas para as montanhas e "jogadas vivas — nas ravinas mais profundas". Em seguida, ele faz uma espantosa declaração: "Na paróquia de Klepca, 700 cismáticos das aldeias vizinhas foram chacinados. O subprefeito de Mostar, sr. Baile, um muçulmano, disse publicamente (como um servidor público, deveria ter se calado) que só em Ljubina 700 cismáticos foram jogados numa fossa"(26).


    A carta revela a confusão moral implícita no comportamento dos bispos, que aproveitaram a derrota da Iugoslávia diante dos nazistas para aumentar o poder e influência do catolicismo nos Bálcãs. Um bispo depois de outro endossa a promoção de conversões, ao mesmo tempo em que admite que não faz sentido cismáticos em ravinas. Os bispos não queriam se dissociar do regime, hesitavam em condenar e excomungar Pavelic e seus companheiros, por causa da relutância em perder as oportunidades proporcionadas pela "boa ocasião" de consolidar uma base de poder católico nos Bálcas. A mesma relutância em perder a oportunidade para uma predominância católica no Leste contagiou o Vaticano e, em última análise, o próprio Pacelli. Na verdade, fora essa mesma relutância em perder uma única oportunidade de "evangelização" que levara Pacelli, em 1913-14, a pressionar  pela Concordata Sérvia, na esperança de criar uma base de ritual latino na cristandade do Leste, apesar das repercussões e perigos inevitáveis.

    Pacelli estava melhor informado sobre a situação na Croácia do que em qualquer outra parte da Europa, fora da Itália, durante a segunda Guerra Mundial. Seu delegado apostólico, Marcone, circulava entre Zagreb e Roma à vontade. Havia sempre aviões militares à sua disposição para voar até o novo Estado da Croácia. Os bispos, alguns dos quais integravam o parlamento da Croácia, comunicavam-se livremente com o Vaticano. Podiam sempre fazer visitas ad limina ao papa em Roma(27). Durante estas visitas, o pontífice e outros membros da Cúria tinham toda a liberdade para fazer perguntas sobre as condições na Croácia, e sem dúvida não deixavam de indagar.

   Pacelli tinha meios pessoais alternativos de informação, inclusive as transmissões diárias da BBC, que eram sempre monitoradas e traduzidas para ele por Osborne, o representante de Londres no Vaticano. Havia um noticiário freqüente da BBC sobre a Croácia. A notícia seguinte, transmitida em 16 de fevereiro de 1942 era típica: "As piores atrocidades estão sendo cometidas na jurisdição do arcebispo [Stepinac]. O sangue de irmãos corre em abundância. “Os ortodoxos estão sendo convertidos à força ao catolicismo, mas não ouvimos a voz do arcebispo pregando a revoltas disso, informa-se que ele está participando de desfiles nazistas e fascistas(28).

    Um fluxo de diretivas aos bispos croatas, partindo da congregação para as igrejas orientais da Santa Sé, que cuidava em particular dos católicos de ritual oriental na região, indica que o Vaticano sabia das conversões forçadas a partir de julho de 1941. Os documentos focalizam a insistência do Vaticano para que os convertidos em potencial ao catolicismo fossem rejeitados quando ficar patente que procuram o batismo pelas razões erradas (...) estas razões erradas (os documentos insinuavam, sem chegar a dizer expressamente) sendo o terror e a tentativa de evitar a morte.

    Em 14 de agosto, o presidente da União para a comunidade israelita de Alatri escreveu para o secretário de Estado mi pedindo ajuda em nome de milhares de judeus croatas, "residentes em Zagreb e em outros centros da Croácia, que foram presos sem razão, privados dos seus bens e deportados". Descrevia como seis mil judeus foram despejados numa ilha árida e montanhosa, sem meios de proteção contra o tempo, sem ali nem água. Todas as tentativas de socorrê-los foram "proibidas pelas autoridades croatas"(29). A carta suplicava uma intervenção da Santa Sé junto aos governos italiano e croata. Não há qualquer resposta ou ação da Santa Sé.


Notas(enumeradas conforme no livro):
19 - Falconi, Silence, p. 273
20 - Citado em J. Steinberg, All or Nothing, p.181.
21 - Ver Falconi, Silence, p.298.
22 - J. Steinberg, All or Nothing, p.30.
23 - Ibid., p.132.
24 - Falconi, Silence, p.318. 
25 -  J. Steinberg, All or Nothing, p.133. 
26 - Citado em H. Butler, The Sub-Prefect Should Have Held His Tongue, ed. R.F. Foster(Londres, 1966), p. 175.
27 - Falconi, Silence, p.303.
28 - Ibid., p.304.
29 - ADSS, viii, 250ff.

Transcrição: Daniel Moratori (avidanofront.blogspot.com)
Fonte: CORNWELL, John - O Papa de Hitler - A historia secreta de Pio XII, Rio de Janeiro: Imago Ed., 2000, p. 286-290.

OBS: O livro tende a acusar o Papa PIO XII, e recebeu duras criticas sobre isso,  é imparcial  segundo alguns criticos, em algumas partes em relação a Pacelli (se pode-se dizer isso). Mas a parte da ligação da ICAR e o regime de extrema direita do NHD na Croácia e Ustasha é inegável, tanto que os livros que as opiniões que contra Cornwell fica na esfera da relação com Hitler, acusações de anti-semitismo de Pacelli e etc...
Só filtrar a informação. Um texto ótimo é esse, do Holocaust Reserch Project:


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O regime brutal da Croácia Católica