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domingo, 1 de outubro de 2023

Revolta do Gueto de Varsóvia (1943) - Relatos, panfletos e telegramas

 


Há poucas horas, as Divisões SS, armadas com blindados e artilharia, começaram a assassinar a população restante do gueto. O gueto ofereceu resistência feroz e heroica. A Organização Judaica de Luta conduz a defesa, reunindo quase todas as tropas  de luta ao seu redor. Ininterruptamente, soam explosões de canhão e fortes detonações vindas do gueto. Todo o bairro está mergulhado num imenso mar de chamas, provindo de incêndios gigantescos. Por cima da região do massacre circundam aviões. O resultado dessa luta já está previsto desde o início, naturalmente.

Telegrama da ZOB (Organização Judaica de Luta) para Londres

19 de abril de 1943


A vida pertence aa nós! Também nós temos direito a ela! Há que se saber combater por ela! Não há nenhuma mérito em viver quando eles lhe permitem viver! Há um mérito em viver quando eles quere lhe arrancar a vida!

Desperte, povo, e lute por sua vida!

Cada mãe torne-se uma leoa defendendo seus filhotes! Nenhum pai veja tranquilamente a morte de seus filhos! A vergonha de nosso primeiro ato de extermínio não deve ser repetir! Cada casa deve tornar-se um,a fortaleza! Desperte, povo, e lute! No combate pousa a sua salvação! Quem luta por sua vida tem a possibilidade de salvar-se. Elevamo-nos em nome da luta pela vida dos desamparados, aos quais queremos trazer a salvação, a quem queremos despertar para a ação!

De um panfleto ilegal 



O  fogo alastrava...com incrível violência. As ruas do gueto estavam impregnadas de fumaça e acre. Ficou claro que os alemães usavam a terrível tática de acabar com o gueto enfumaçando-o. Como perceberam que a resistência dos combatentes judeus não podia ser quebrada por armas, resolveram destruir as pessoas pelo fogo. Dentro das casas, milhares de mulheres e crianças queimavam em vida. Escutavam-se terríveis gritos de socrro vindos das casas em chamas. Viam-se, em muitas janelas, pessoas em chamas - como tochas vivas.

Relato da ZOB, numero 5




Não era raro os judeus permanecerem nas casas incendiadas até não aguentarem mais o calor. Por medo da morte nas chamas, preferiam saltar dos andares mais altos, após terem lançado colchões e estofados das casas para a rua. Com os ossos quebrados, ainda tentavam se arrastar pelas ruas em direção a outros quarteirões que ainda não estavam totalmente em chamas

Relato de Stroop.



Já estávamos no oitavo dia de combate pela vida e morte...O número de nossas vítimas, isto é, as vítimas dos fuzilamentos e dos incêndios, nos quais morreram homens, mulheres e crianças, é enorme. Aproximam-se nossos últimos dias. Mas, enquanto pudermos segurar as armas na mão, prestaremos resistência e lutaremos. Rejeitamos o ultimato alemão sobre a capitulação. Comovemos aproximar-se nossos últimos dias, exigimos de vocês: nada esqueçam! Virá o dia em que nosso sangue inocente derramado, será vingado. Corram em auxílio daqueles que puderam escapar do inimigo no ultimo instante, para que eles possam continuar a lutar. 

Relato da ZOB, 26 de abril de 1943




Por baixo das ruínas ardentes, bem longe do dia primaveril, centenas jazíamos numa profundidade de cinco metros, em escuridão total, no chão do abrigo. Nenhum raio da luz do dia podia entrar ali. Somente o relógio nos dizia que o sol se punha lá fora. Toda noite víamos judeus que saiam dos abrigos escuros e abafados à procura de suas famílias e amigos a pelas ruas e víamos, toda noite, que nosso número diminuía. O gueto reduzia-se rapidamente. A fome e a descoberta dos abrigos por patrulhas alemãs foram responsáveis por isso.

Relato de Cywia Lubetkin




Num outro canto estava uma criança de um ano, não chorava e não gemia, certamente não havia mais forças para isso. Bracinhos e perniinhas estavam queimados. Jamais esquecerei seu rostinho, no qual espelhavam-se dores desumanas...Rosto e braços da mãe estavam totalmente queimados, ela não podia segurar a criança.

Relato de P. Elster



Quanto mais a resistência durava, mais duramente atuavam os homens da Waffen-SS, da polícia e do exército que, também em leal fraternidade de armas, executava sua tarefa de forma exemplar. A tarefa ia, frequentemente, desde cedo até altas horas da noite. 

Relato de Stroop



Nossa máxima era: viver e morrer com dignidade!

Nos guetos e nos campos esforçávamos para cumprir essa máxima...

Apesar do imenso terror, da extrema fome e da amarga penúria, cumpríamos está máxima até a morte, como mártires do judaísmo polonês.

Relato do Movimento de Resistência Judeu



A mesma meta nos unia...todos se extremavam na resistência coletiva e em manter a dignidade. Cada um lutava por cada um nesta luta histórica pela vida e morte. Não havia diferenças entre membros dos diversos partidos, quando tratava-se de cumprir seu dever como soldado. Assim foi até o amargo fim...

Relato do Partido Social-Democrata Judeu.


Todas as fotografias foram retiradas do "Relatório Stroop" - um relatório escrito por Jürgen Stroop para Heinrich Himmler sobre a liquidação do Gueto de Varsóvia em maio de 1943.

Transcrição: Daniel Moratori (avidanofront.blogspot.com)

Fonte: SCHOENBERNER, Gerhard. A estrada amarela: a perseguição aos judeus na Europa, 1933-1945. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1994, p. 237-253

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Pyotr Chepurenko, testemunha do massacre de Piryatin (Oblast de Poltava - Ucrânia)

Libertação de Poltava em 23 de setembro de 1943.

Pyotr Chepurenko, testemunha do massacre de Piryatin¹

Em 6 de abril de 1942, segundo dia da Páscoa, os alemães assassinaram 1.600 judeus da cidade de Piryatin, no oblast de Poltava. Eram velhos, mulheres e crianças que não podiam ir para o leste.

Os judeus foram conduzidos para fora da cidade pela estrada Greben até a Pirogovskaya Levada, a três quilômetros da cidade. Lá, foram cavados buracos espaçosos. Os judeus foram despojados e os policiais e alemães dividiram seus pertences no local. As pessoas condenadas foram forçadas a entrar na cova, cinco de cada vez, e baleadas com submetralhadoras.

Trezentos moradores de Piryatin foram levados à Pirogovskaya Levada para preencher a cova. Entre eles estava Pyotr Chepurenko. Ele deu as seguintes informações:

Eu os vi matando. Às 5:00 V.M. eles deram a ordem: Até nas covas. Gritos e gemidos vinham das covas. De repente, vi meu vizinho, Ruderman, surgir debaixo do solo. Ele havia sido motorista em uma fábrica de feltro. Seus olhos estavam sangrando e ele gritava: ‘Acabe comigo!’ Alguém atrás dele também gritou. Foi nosso marceneiro Sima quem foi ferido, mas não morto. Os alemães e os policiais começaram a matá-los. Uma mulher assassinada estava aos meus pés. Um menino de cerca de cinco anos rastejou para fora de seu corpo e começou a gritar desesperadamente: ‘Mamãe!’ Isso foi tudo que vi desde que fiquei inconsciente.”

Preparado para publicação por Ilya Ehrenburg

Notas:

¹ Este material foi publicado com algumas alterações sob o título “The Land of Piryatin”, em The War (abril de 1943 a março de 1944), por Ilya Ehrenburg, Moscou, 1944, p. 117-18.

Nota do tradutor: Pyriatyn é uma cidade situada na região central da Ucrânia, no Oblast de Poltava.

Tradução: Daniel Moratori (blog Avidanofront.blogspot.com)

Fonte: EHRENBURG, Ilya; GROSSMAN, Vasily. The Black Book: the Ruthless Murder of Jews by German-fascist Invaders Throughout the Temporarily-occupied Regions of the Soviet Union and In the Death Camps of Poland During the War of 1941-1945. New York (N.Y.): Holocaust library, 1981, p.57.

Esse relato também é encontrado na publicação feita pelo United States Holocaust Memorial Museum (USHMM):

BERENBAUM, Michael; KRAMER, Arnold. The world must know: the history of the Holocaust as told in the United States Holocaust Memorial Museum. 2. ed. Washington, D.C.: United States Holocaust Memorial Museum, 2006.


sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Os sobreviventes ocultos nas remotas Florestas de Penyatsky (Oblast de Lvov - Ucrânia)


Operação Lviv-Sandomierz. 13 de julho a 29 de agosto de 1944 Batalha nos arredores de Lvov.

 As Florestas Penyatsky

(O oblast de Lvov)

Havia duas aldeias localizadas nas florestas Penyatsky. Um estava a quatro quilômetros do outro. Na aldeia de Guta, que ficava na região de Penyatsky, havia 120 fazendas; agora não sobrou nenhuma. Trezentos e oitenta poloneses e judeus viviam na aldeia; agora eles estão mortos. Nos dias 22 e 23 de fevereiro a aldeia foi cercada por alemães que jogaram gasolina nas casas e galpões e queimaram a aldeia junto com seus moradores. Na aldeia de Guta Verkhobuzheskaya, apenas duas fazendas foram deixadas de 120. Nenhum dos habitantes sobreviveu. Eu, Matvey Grigorievich Perlin, sou um batedor do Exército Vermelho e acidentalmente encontrei dois abrigos de barro com oitenta judeus não muito longe dessas aldeias. Havia mulheres de 75 anos, rapazes adolescentes, raparigas e crianças, a mais nova das quais tinha três anos.

Fui o primeiro representante do Exército Vermelho que eles viram depois de quase três anos de temor diário por suas vidas, e todos tentaram chegar o mais perto possível de mim, apertar minha mão e dizer uma palavra de saudação. Essas pessoas viveram dezesseis meses nesses buracos nas florestas, escondendo-se da perseguição. Havia mais deles, mas restavam apenas oitenta. Nas suas palavras, não mais de 200 pessoas permaneceram vivas dos quarenta mil judeus das regiões de Brody e Zolochev. Como eles sobreviveram? Eles eram apoiados pelos habitantes das aldeias vizinhas, mas ninguém sabia onde estavam escondidos. Ao saírem da “sua” floresta, cobriram seus rastros com neve borrifada com uma peneira especialmente feita.

Eles tinham alguns rifles e pistolas e nunca perdiam uma oportunidade de diminuir o número de feras fascistas. Eles conversaram apenas em um sussurro durante os três anos inteiros. Não era permitido falar em voz alta nem mesmo nos abrigos de barro. Só quando cheguei eles começaram a cantar, rir e falar em voz alta.

  Fiquei particularmente comovido durante este encontro pela impaciência apaixonada e pela fé firme com que esta gente nos esperava - o Exército Vermelho. Suas canções e poemas, suas conversas e até sonhos transbordavam dessa fé e dessa saudade. Zoya, que tinha três anos, não sabia o que era uma casa e viu o seu primeiro cavalo quando cheguei. Mas quando lhe perguntaram quem deveria vir, ela respondeu: “Batko* Stalin deveria vir, e então iremos todos para casa”.

Uma carta de M. Ferlin.

Preparado para publicação por Ilya Ehrenburg.

*Do ucraniano para “pai” ou “líder”. 

Tradução: Daniel Moratori (blog Avidanofront.blogspot.com)
Fonte: EHRENBURG, Ilya;  GROSSMAN, Vasily. The Black Book: the Ruthless Murder of Jews by German-fascist Invaders Throughout the Temporarily-occupied Regions of the Soviet Union and In the Death Camps of Poland During the War of 1941-1945. New York (N.Y.): Holocaust library, 1981, p.132-133.

terça-feira, 18 de maio de 2021

Uma história de um antigo operário da Outubro Vermelho


Ju 87 Stuka em Stalingrado
Pela orla estavam as pessoas, incluindo muitas crianças. Usando pequenas pás, bem como suas próprias mãos, elas cavavam buracos para protegerem-se das balas e granadas de artilharia. A amanhecer aviões alemães apareceram sobre o Volga. Em um vôo rasante eles passaram por cima de uma balsa, bombardearam e abriram fogo de metralhadoras. De cima, era muito bem visível aos pilotos que na orla os civis estavam esperando. Muitas vezes nós vimos pilotos inimigos agindo como assassinos profissionais. Eles abriam fogo sobre mulheres e crianças desarmadas e selecionavam objetivos para maximizar o número das pessoas assassinadas. Os pilotos lançaram bombas em uma multidão no momento que esta começava a subir a bordo de um barco, metralhavam os conveses dos barcos e bombardeavam as ilhas nas quais centenas de feridos tinham se acumulado. As pessoas não só cruzavam o rio em barcos e barcaças. Elas navegavam em barcos superlotados, até mesmo em troncos, barris e tábuas atadas com arame. E sobre cada ponto flutuante os fascistas abriam fogo do ar. Era uma caçada de pessoas.


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Nós retornamos à nossa fábrica no assentamento. Nós chegamos a estação de trem de Archeda e fomos a pé mais adiante. Estava muito frio. Nós viajamos dois dias. Passamos a noite em desolados abrigos externos. Nós chegamos na cidade em 14 de fevereiro. No distrito da fábrica nós encontramos o diretor P.A. Matevosyan e o diretor da garagem V. J. Jukov. Eles chegaram primeiro à fábrica e a retomaram do comando militar. Eles nos avisaram: todas as áreas da fábrica são um sólido campo minado. Só é possível andar através de trilhas feitas pelos sapadores. Nós começamos a procurar um lugar para abrigar a nós mesmos. Nós decidimos assentar moradia temporária diretamente nas propriedades da fábrica. Nós entramos no alto-forno N1 da fábrica. Era necessário examinar a localização de um porão. Nós demos uma olhada silenciosamente e atravessamos um buraco na parede da oficina. De repente nós vimos uma metralhadora posicionada num buraco em uma parede mirando a uma barreira. Nós mesmos não tínhamos nenhuma arma.
O que fazer? Nós deveríamos entrar mais adiante na oficina ou não? Nós estacamos; era necessário olhar mais além ao redor. Nós ouvimos passos vindos da direção do Volga. Dois soldados fascistas com marmitas de estanho chegaram mais próximos à nossa oficina. No caminho eles foram até a metralhadora. Ao nos verem eles ficaram atônitos. Após alguns momentos de confusão eles começaram a tagarelar em um péssimo russo: " Nós trabalhamos cozinha e garagem ". Mas nós sabíamos que não havia nenhuma cozinha ou garagem funcionando no distrito da fábrica a muito tempo. Nós dissemos " ok " e seguimos em frente. Depois de alguns minutos nós encontramos um jovem soldado - submetralhador, e perguntamos-lhe: vocês recolheram todos os prisioneiros de guerra na área da usina? " Sim, claro , ele respondeu. A mais de uma semana atrás. O que aconteceu "? Nós vimos dois fascistas e uma posição de metralhadora, nós respondemos. " Hm... Vamos " ele disse. Ele entrou na oficina com nós atrás dele. Nós descemos em um porão. Seguimos na mais completa escuridão. Nós passamos um porão localizado, e a um outro. No terçeiro era visível uma escrivaninha de madeira, forno, marmitas de estanho, uma luminária de pavio. Sobre catres, alemão deitados. O soldado iluminou o porão com uma lanterna e gritou: " Armas sobre a escrivaninha ".
Os soldados fascistas ergueram-se de seus catres e puseram suas pistolas e outras armas na escrivaninha. O soldado os conduziu para o quartel-general.

domingo, 17 de novembro de 2013

Sobreviventes do Trem da Morte



Uma crosta de sangue ressequido recobre seu rosto. Tem de esfregar com força o olho direito para desgrudar as pálpebras. Lentamente, os dedos apalpam a profunda ferida da fronte. Durante alguns segundos ele se pergunta o que teria podido provocar tamanho corte... depois as imagens e os sons invadem sua cabeça. Ele quer dizer: 

- Foi uma garrafa... uma garrafa que me atingiu!... 

Mas nenhuma palavra se forma, não brota nenhum som. Ele vai gritar. A garganta infla-se. Um pigarro apenas. Um sopro de ar. Nada. O silêncio. A mão hesita sobre os lábios, ele se surpreende, sente a carne intumescida, rachada, arrebentada. Lábios desmesurados, lábios gigantescos. Aos poucos volta o suor - o último suor - que dissolve o sangue ressequido sobre a sua face.

Ele está deitado sobre o lado esquerdo. 

Gritos distantes e difusos chegam até ele. O trem está parado; o seu vagão silencioso. A mão desliza sobre o peito nu, pousa no chão, encontra um joelho, uma outra mão, uma... como se tivesse sido queimada, ela se retrai e procura refúgio no peito que acaba de deixar. Treme de medo. A pele, coberta de suor, de repente fica gelada. Em menos de um segundo ele passa pelo martírio da sede, da fome das crispações, das coceiras e, sobretudo, desse zumbido dentro de sua cabeça, que vai crescendo como um trovão, rói, tortura, e que só se manifesta entre os fracos e os loucos que não querem morrer. A vontade impede os reflexos. O corpo inteiro, músculos e nervos, desaparece diante dos olhos. O homem é somente um olho. Um milhão de facetas em cada globo. Pupila ofuscada. Olho inflamado e aguçado. Pela primeira vez desde a partida, o olho vence a penumbra, essa névoa espessa que substitui o pouco ar do vagão de gado, e consegue ver o chão. O chão coberto de cadáveres misturados. Soalho de cadáveres. Cama de cadáveres sobre a qual ele acorda. 

André Gonzales se endireitou. Na sua semi-consciência, imagina mais do que vê esse montão de corpos. Está horrorizado de ter que pisar sobre esses... Os dedos agarram uma argola chumbada na parede metálica. O braço se crispa, ergue o busto e os quadris. Os pés procuram um apoio contra a parede de ferro, escorregam, e encontram um lugar entre duas pernas nuas. André Gonzales chora, imobilizando-se num canto do vagão. Ele sufoca. Não suporta o calor das chapas de ferro. De repente ele corre levantando bem alto os joelhos e desaba contra a porta corrediça. Aproveita uma fresta da porta para respirar o ar puro que vem de fora. Dentes contra o ferro. Ar pesado e espesso. Boca escancarada. 

As narinas, bloqueadas, compartilham os odores, esforçam-se para não sentir o mau cheiro do produto dos intestinos esvaziados. Espumas e vômitos. Miasmas venenosos, fétidos e sufocantes. 

- Respirar. Relaxar-se. Respirar. Rezar mais uma vez. Não olhar para baixo. Respirar e beber. Beber alguma coisa para soltar as crostas que endurecem a língua, cobrem o céu da boca, empurram os lábios para fora.

André Gonzales se levanta, firma os pés nesse tapete que ondula com seus passos e desabotoa as calças. 

- Beber. 

A urina que ele engole parece-lhe fria e adocicada. 

Ajoelhou-se sobre umas costas maciças. 

- Não desmaiar, não dormir. Deitar-se é morrer. Morrer aos dezoito anos. André, desde ontem você tem dezoito anos. E os outros? Todos os outros que estão debaixo de você, que idade teriam? Não! Não procurar saber. Não pensar neles. Não! 

Ele está surpreso por haver escutado o último "não". Ele pode falar! Para se certificar, André Gonzales repete esse "não". Não! Não! 

- Não pensar neles. Sair deste vagão...

De calças curtas e sandálias de corda ele sobe de rochedo em rochedo com seus colegas do Colégio Saint-Udo de Ax-les-Thermes. O "instrutor da excursão" estende a mão para ajudá-lo a atravessar o último obstáculo. Catrapus! A água gelada do Ariège chicoteia seu corpo comprido e magro de adolescente. Esta lembrança e todas as outras cenas de infância que se atropelam por trás dos seus olhos lhe dão vida, sacodem seu torpor. Agora ele reza com o fervor meio amedrontado que lhe foi inculcado pelos frades das Escolas Católicas de Saint-Aubin, em Toulouse. Atravessa as campinas, mata a sede nas torrentes, ladeia as manadas de cavalos e rebanhos de carneiros que descem das pastagens de Puymorens e de Andorra. Feno cortado, chocalhos e, sobretudo, o perfume estranho - enxofre e camomila - que se desprende da bacia de Ladres e das oitenta e três fontes alcalinas de Ax. Isso tudo se mistura, se confunde, desemboca nos plátanos do Boulevard de Estrasburgo, onde ele foi preso com os bolsos atulhados de panfletos, no dia 21 de abril de 1944.

Ele chora. Uma nova angústia, mais densa do que os primeiros temores, dissipa, até mesmo, o rosto de sua mãe. O punho golpeia a porta corrediça: 

- Socorro! Água!

Perto dele, um estertor, apenas perceptível, lhe responde. Ele gostaria de gritar de alegria. O coração se acelera. Várias vezes ele pergunta: 

- Tem alguém? 

Uma massa escura intercepta a nesga de luz que entra por uma fresta da lucarna esquerda, da parte da frente. André Gonzales, dentes cerrados, quer evitar uma briga, custe o que custar. Ele pensa: "Talvez seja o sujeito que ainda há pouco me acertou com a garrafa." Recua, pisando nas carnes mortas, comprimindo caixas torácicas que exalam o seu último suspiro num silvo rascante. 

- Você está aí. Você está vivo. Eu vi. Diga alguma coisa! Ele se agacha, lá atrás, no canto direito, pronto para saltar se for atacado, ignorando o líquido imundo no qual suas mãos mergulham. 

- Diga alguma coisa!

Ele distingue o homem que se aproxima: fantoche desarticulado à procura de equilíbrio. Faltam três passos. Dois. A silhueta se desmancha, se desmorona. Ruído surdo: pá caindo na areia. 

Delicadamente André Gonzales segura-lhe a cabeça entre suas mãos. É um rapaz... talvez de dezoito anos, como ele. As duas pequenas pupilas, perdidas nessa espantosa inchação negra, semeada de pústulas, se animam: 

- Água! 

- Pobrezinho, não tenho nada. É preciso respirar. Vem. Vamos até a porta; tem uma fresta. Eu, eu bebi minha urina. Daqui a pouco você vai ver...

Eles avançam de quatro para o meio do vagão. 

- Assim! Devagar. Profundamente. Encha bem os pulmões.

Ele se volta para André Gonzales e murmura: 

- Obrigado. Obrigado. Estou melhor. Mas tenho um amigo que está ali, onde eu estava... Ele não está morto. Isto é, ainda há pouco, quando eu me mexi, ele também se mexeu e eu senti os seus dedos na minha perna.

- Vamos até lá, nós dois juntos. Mas, antes, ainda um pouco mais de oxigênio. 

Cinco minutos depois, os três únicos sobreviventes do vagão metálico estão reunidos perto da porta corrediça. Tal como André Gonzales, os dois rapazes também beberam suas urinas. O último a ser reanimado era o mais tagarela: 

- Eles nos fecharam aqui dentro para nos matar. Vão continuar o passeio até que estejamos todos mortos. Em Compiègne puseram-nos cem em cada vagão. Aqui somos apenas três sobre-viventes e nos outros vagões talvez todos estejam liquidados. Fizeram de propósito. Queriam que nos amotinássemos. Queriam que ficássemos sem ar. Quanto a mim, eu digo para vocês: este trem é o trem da morte. Nenhum de nós escapará vivo. Vocês compreendem: "O Trem da Morte".

Transcrição: Daniel Moratori (avidanofront.blogspot.com)
Fonte: O Trem da Morte -  Christian Bernadac - pg 11-15

Ver mais sobre o Trem da Morte:
O Trem da Morte - O transporte dos deportados de Compiègne com destino a Dachau.

domingo, 27 de outubro de 2013

Levante de Varsóvia - Execuções nos salões do mercado (Hale Mirowskie)


Levante de Varsóvia: Soldados alemães próximos a Hala Mirowskia.
O mais provável é uma visão do cruzamento da rua Zimna e rua Plac Mirowskiego  na parede norte do edifício leste.


Registro n º 23 / ​​II

Durante o Levante, ao sair da casa onde eu morava, na rua Ogrodowa, nº30 , encontrei-me em um abrigo do Ministério da Indústria e Comércio, nº2, rua Elektoralnamn. Isso foi em 7 de agosto de 1944. No abrigo, havia várias centenas de pessoas, a maioria mulheres e crianças. Na tarde de hoje, após os insurgentes terem recuado da rua Elektoralna, um posto avançado alemão foi colocado em frente à porta de entrada do Ministério. Cerca de 9 horas da noite dois gendarmes(policia) entraram no abrigo e ordenaram que todos os homens para saírem. O soldado que estava de guarda nos assegurou para nós que estávamos apenas indo para o trabalho. Fomos levados a três por três (éramos cerca de 150 homens) para praça Mirowski, entre os edifícios das duas salas do Mercado. Aqui, fomos obrigados a retirar os cadáveres, dezenas de que estavam deitados no chão, e depois disso, os entulhos das sarjetas e a estrada. Havia cerca de uma centena de poloneses na praça quando chegamos, todos ocupados a limpar, e algumas centenas de gendarmes (policiais) alemães, que se comportavam muito brutalmente: batendo nos poloneses, chutando-os e chamando-os de poloneses bandidos. Em um certo momento em que nosso trabalho parou, ordenaram que aqueles que não eram poloneses que avançassem. Um homem que tinha documentos bielo-russos o fez, e foi imediatamente liberado. Depois de uma hora e meia de trabalho, os policiais mandaram-nos formar grupos de três. Eu me encontrei no segundo posto. Todos estávamos com as mãos para cima. Um velho na linha de frente, que não conseguiu segurar as mãos para cima por mais tempo, foi cruelmente golpeado no rosto por um gendarme. Depois de 10 minutos, cinco fileiras de três marcharam sob a escolta de cinco policiais armados com submetralhadoras para o Mercado Municipal na rua Chlodnat. Por acaso ouvi os nomes de dois dos gendarmes que gritavam uns com os outros, Lipinski e Walter. Quando entramos no prédio, depois de passar dois portões eu vi, quase no centro do salão, um buraco profundo em que o fogo estava ardendo, mas deve ter sido polvilhado com gasolina por causa da fumaça negra e densa. Fomos colocados em um muro do lado esquerdo da entrada perto de um banheiro. Ficamos separadamente com os rostos voltados para a parede e as mãos para cima.

Depois de alguns minutos, ouvi uma série de tiros e eu caí. Deitado no chão, ouvi os gemidos e suspiros de pessoas deitadas perto de mim e também mais tiros. Quando o tiroteio cessou, ouvi os gendarmes contando aqueles que jazia no chão, pois eles só contou até treze. Em seguida, eles começaram a procurar mais dois que estavam faltando. Eles descobriram que um pai e filho se escondendo no banheiro adjacente. Trouxeram-nos, e eu ouvi a voz do menino gritando "Viva a Polônia", e, em seguida, tiros e gemidos. Algum tempo depois, ouvi as vozes de poloneses que se aproximam; cautelosamente eu levantei minha cabeça e vi os guardas de pé ao lado do buraco cheio de fogo e poloneses que transportam os corpos e os jogavam nele. Seu trabalho os trouxe mais perto de mim. Eu, então, me arrastei para o banheiro e me escondi atrás de uma divisória que formava o teto do banheiro. Sentado lá, ouvi disparos nas proximidades e os gritos dos alemães da direção do buraco. Em um determinado momento, um outro polonês que tinha escapado por baixo, através do banheiro encontrou-se ao meu lado. Ele era médico Jerzy Lakota, que trabalhava no Hospital Menino Jesus.

Sentamos lá por muitas horas. O tempo todo ouvimos o crepitar dos cadáveres ardentes no buraco e do próprio fogo. Além disso, ouvimos uma série de disparos vindos do outro lado (mais perto da rua Zimna). Dr. Lakota contou-me que, depois de uma saraivada ele tinha caído junto com os outros. Os policiais se aproximou para ver se ele ainda estava vivo, e o espancaram brutalmente, mas ele fingiu estar morto. Devo acrescentar que quando eu caí após o vôlei, eu vi um gendarme examinando aqueles deitados no chão, e aqueles que ainda estavam vivos, ele atirou com seu revólver. Eu tinha conseguido escapar antes. Por volta das duas horas na noite que desceram e saímos para a rua através da Câmara já vazia, em que o fogo ainda estava ardendo, e conseguimos chegar a rua Krochmalna.


Hale Mirowski

Registro n º 33 / II

Em 7 de agosto de 1944, eu estava no porão de uma casa na Rua Elektoralna em Varsóvia. Neste dia, ao entardecer, alguns soldados alemães chegaram no local e ordenaram que todos os homens saíssem da adega, e para desmantelar as barricadas dentro de duas horas. Eu obedeci e sai da adega com cerca de cinqüenta outros homens. Os soldados levaram-nos sob escolta para a Praça Zelazna Brama, e depois para o lugar perto da rua Mirowska, que fica em frente à pequena praça entre os dois halls do mercado.Na calçada da rua Mirowska estava cerca de 20 mortos.

Fomos obrigados a transportar os corpos desde o pavimento da rua Mirowska para o pequeno quadrado entre os salões. Com outros homens que carregavam os cadáveres eu notei que ao fazê-lo, em seguida, que todos eram de homens mais ou menos de meia-idade. Após a remoção desses corpos, fomos obrigados a remover a barricada que estava do outro lado da linha do bonde da praça Zelazna Brama para a rua Zelazna. Depois de ter removido parte desta barricada e tanques, assim, habilitado a passar, fomos levados na direção da rua Zelazna, onde fomos interrompidos, e ordenaram a levantar nossas mãos. Perguntaram várias vezes se não havia alemães entre nós. Em seguida, fomos revistados, tudo de valor, como anéis, relógios e cigarros, foi tirado de nós. Depois de sermos revistados ficamos em pé no mesmo lugar por cerca de uma hora e meia. Não muito longe de nós havia grupos de soldados, ao todo cerca de 200 homens, e nossas orações para a liberação foram respondidas pelos soldados com risos e escárnio. Eles falavam alemão, russo e ucraniano. Um deles nos disse repetidas vezes que deveríamos ser morto a qualquer momento. Então (estávamos em fileiras de três) as três primeiras linhas foram levadas para o Mercado Municipal, que está mais próximo da rua Zelazna. Pouco tempo depois, ouvi uma série de tiros. Depois, seguiu as próximas três fileiras. Eu estava na segunda, ou talvez no centro da terceira. No momento em que estávamos em frente da entrada, um dos soldados que nos escoltava nos atirou, e imediatamente o meu vizinho do lado esquerdo caiu no chão diante de mim, bloqueando meu caminho, eu tropecei e caiu, mas levantei imediatamente e voltei aos meus companheiros. Eu não percebi o que aconteceu com o corpo sobre o qual eu tinha tropeçado. Depois de subir, quando cheguei aos meus companheiros, que estavam entrando no salão do segundo portão, vi uma porta que dava para a direita e imediatamente corri através dela. Eu vi um hall, entrei, e notei as escadas que levam para cima. Já estava escuro, mas a escuridão era iluminada pelo reflexo do fogo em volta de mim. Eu pensei que a minha fuga havia sido observada, como ouvi um grito atrás de mim, mas não foram disparados tiros. Corri para uma galeria onde parte da estrutura de madeira estava queimando e lá fiquei.

Durante esse tempo eu ouvi tiros separados do interior do salão. Depois de algum tempo, eu olhei para baixo a partir da galeria para o corredor e vi um buraco redondo grande, cerca de 6-7 metros (22 pés) de largura, no andar do hall. Neste buraco um grande fogo ardia; suas chamas subiram vários metros acima do nível do chão. Notei também que os soldados estavam levando um homem à beira do buraco. Eu vi esse homem fazendo o sinal da cruz, e então ouvi um tiro, e o viu cair no fogo. Devo acrescentar que este tiro foi disparado de tal forma que o soldado colocou a arma no pescoço do homem e atirou. Depois eu vi muitas dessas cenas. Eu percebi que quando o tiro foi disparado o homem não caiu de uma vez, mas só depois de alguns segundos. Depois de ter visto vários assassinatos desse tipo eu não podia olhar para mais nada, mas ouvi muitos mais tiros e gemidos, que cresceram mais e mais fracos, ou mesmo gritos humanos. Eu supunha que eles vieram daqueles que haviam caído no fogo e ainda estavam vivos. Pelo número de tiros eu tomei a impressão de que todos aqueles que tinham sido trazidos comigo desde o porão do nº 2, da rua Elektoralna foram baleados. Eu fiquei na galeria por mais algum tempo (pelo menos uma hora), até o momento em que o tiroteio e as vozes pararam. Então, despercebido, eu corri através do pequeno gueto na direção da rua Grzybowska, e depois fui a rua Zlota, onde fiquei por um mês.

Tradução: Daniel Moratori (avidanofront.blogspot.com)
Fonte: http://www.warsawuprising.com/witness/atrocities9.htm
Foto 1: Bundesarchiv: Bild 101I-695-0425-09

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Batalha de Kursk através dos olhos de quem presenciou a destruição

Tanque Elefantes destruído na batalha de Kursk
Há 70 anos, cidade na região de Prokhorovka foi palco da maior batalha de tanques da história mundial.

Paira o silêncio sobre o campo de Prokhorovka. Somente de tempos em tempos ouve-se o repicar dos sinos, chamando os paroquianos para o serviço religioso na Igreja dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, construída com recursos doados pelo povo, em memória dos soldados que morreram na Batalha de Kursk.

Há 70 anos, nesse local fervia um terrível combate. Na região de Prokhorovka se desenrolou a maior batalha de tanques da história mundial. Tudo o que poderia se inflamar estava queimando, tudo estava coberto de poeira e fumaça dos tanques, aldeias, florestas e campos de trigo que ardiam em chamas. A terra foi queimada a tal ponto que não restou um único fiapo de grama. Aqui a guarda soviética se encontrou frente a frente com a elite da Wehrmacht, as divisões de tanques da SS.

A batalha de Kursk também leva o nome de Batalha no Arco de Kursk. Esse nome é devido à forma arqueada da frente de batalha, constituída pelas tropas soviéticas (ver mapa da batalha). Os combates na face sul do arco de Kursk começaram, praticamente, ainda no dia 4 de julho. Mas os principais eventos ocorreram na madrugada de 5 de julho, quando os alemães lançaram o primeiro ataque maciço com as suas conexões de tanques.

Na manhã de 5 de julho, o comandante da divisão “Adolf Hitler”, o Obergruppenführer, Josef Dietrich, se aproximou dos seus "Tigres", e um dos oficiais gritou para ele: "Vamos almoçar em Kursk!". Mas os integrantes da SS não conseguiram nem almoçar nem jantar em Kursk. Em 12 de julho, às 8h30, os batalhões de assalto soviéticos iniciaram um contra-ataque, opondo-se às tropas do 4º exército de tanques alemão.

Para revidar os ataques das tropas soviéticas, o comandante alemão Erich von Manstein lançou todas as forças disponíveis, porque entendia perfeitamente que o sucesso do avanço das tropas soviéticas poderia levar à completa derrota de todos os batalhões de assalto do grupo “Sul” dos exércitos alemães. Na enorme frente, com uma extensão total de mais de 200 km de comprimento, eclodiu uma luta feroz.

Os mais ferozes combates durante o dia 12 de julho estavam sendo realizados na assim chamada ponte (área de estágio tático) de Prokhorovka. Essa área foi conquistada pelo adversário em uma luta tensa ao longo do dia 11 de julho. Ali se estabeleceu e começou a agir o principal grupo das forças inimigas, que integrava a 2ª Divisão de blindados da SS. Foi sobre essa força que o comando soviético lançou o seu ataque principal.

"Poucos minutos depois, os tanques do primeiro escalão das nossas 29ª e 18ª Divisões, atirando em movimento, com um impacto frontal, penetraram nas disposições militares das tropas alemãs-fascistas e com um rápido e lancinante ataque, literalmente perfuraram as disposições do inimigo. […] Os seus "Tigres" e "Panteras" foram privados da supremacia do seu poder de fogo, no combate de curta distância. No início da ofensiva, eles se aproveitaram dessa supremacia durante o confronto com as nossas outras conexões de tanques e agora estavam sendo derrotados com êxito pelos tanques T-34 soviéticos e até mesmo pelos (leves – N. do E.) T-70, a distâncias curtas. O campo de batalha era um turbilhão de fumaça e pó, a terra tremia devido às explosões poderosas. Os tanques colidiam uns com os outros e ficavam enroscados sem conseguir se separar, então lutavam até a morte até que um deles se inflamava como uma tocha ou parava com as lagartas destruídas. Mas mesmo os tanques abatidos, se as suas armas estivessem em condição de operar, continuavam a disparar”.
Pável Rotmistrov, comandante militar soviético

“O primeiro tanque, eu abati quando estava me movimentando pela estrada de ferro, ao longo da área de desembarque e, literalmente, a uma distância de cem metros, vi um tanque “Tigre” que estava virado de lado para mim, disparando em nossos. Pelo visto ele tinha atingido vários tanques nossos, pois eles estavam indo de lado para cima dele e ele disparava nas laterais das nossas máquinas. Eu mirei um projétil perfurante e disparei. O tanque pegou fogo. Eu disparei mais uma vez e o tanque se inflamou ainda mais. A tripulação saltou para fora, mas não sei bem porque, eu não estava interessado nela. Eu contornei esse tanque e, em seguida, abati um tanque T-III e um tanque "Pantera". Sabe, quando eu abati o tanque "Pantera", experimentei uma sensação de euforia, pois, vejam só, consegui realizar um feito heroico".
Evguêni Chkurdalov, ex-oficial soviético

"De repente um T-34 irrompeu e dirigiu-se diretamente para nós. O nosso primeiro operador de rádio começou a me passar os projéteis, um a um, para que eu os colocasse no canhão. Enquanto isso, o nosso comandante que estava no compartimento de cima, não parava de gritar: ‘Atirem! Atirem!’, porque um tanque se aproximava cada vez mais. E somente após o quarto ‘Atirem’, eu ouvi ele dizer: ‘Graças a Deus!’. Então, depois de algum tempo, verificamos que o T-34 parou apenas a oito metros de distância de nós! No topo de sua torre, como se tivessem sido carimbados, havia orifícios de 5 centímetros [...]. As disposições militares dos dois lados se misturaram. “Os nossos tanquistas atingiam com êxito o inimigo, de distâncias próximas, mas também sofriam pesadas perdas”.
Wilhelm Rees, ex-oficial alemão da divisão “Adolf Hitler”

"O tanque T-34 do Comandante do 2º Batalhão da 181ª brigada da 18ª divisão, Capitão Skripkin, penetrou a formação de ”Tigres” e abateu dois tanques inimigos, antes que um projétil de 88 mm atingisse a torre do seu T-34 e outro perfurasse a sua blindagem lateral. O tanque soviético pegou fogo, e Skripkin, ferido, foi retirado do tanque destroçado pelo condutor, sargento Nikolaev e pelo operador de rádio, sargento Zirianov. Eles se refugiaram na cratera aberta pela bomba, mas ainda assim um dos "Tigres" os descobriu e partiu para cima deles. Então Nikolaev e seu artilheiro Tchernov saltaram novamente para o tanque em chamas, deram a partida e o orientaram diretamente para o "Tigre". Os dois tanques explodiram com o impacto”.

Infográfico
Extraído dos documentos do Arquivo Central do Ministério da Defesa da Federação Russa

O ataque com os blindados soviéticos, tanques novos com um conjunto completo de munição abalou significativamente as divisões do inimigo, já desgastadas pelas batalhas, e a ofensiva alemã malogrou.

Como resultado do contra-ataque das principais forças Soviéticas da 5ª guarda do exército de tanques, a sudoeste de Prokhorovka foi frustrada a ofensiva sobre o nordeste, das divisões de tanques da SS, “Cabeça Morta” e "Adolf Hitler". Essas divisões sofreram tamanhas perdas, que não puderam mais implementar uma ofensiva consistente.

As unidades da divisão de tanques da SS, “Reich”, também sofreram pesadas baixas devido aos ataques de unidades. Corpos da guarda de tanques que passaram a contra-atacar ao sul de Prokhorovka.

Perdas e resultados

As perdas totais dos dois lados do confronto de tanques nas proximidades de Prokhorovka estão avaliadas da seguinte maneira: do lado soviético se perderam 500 tanques e do lado alemão, 300 tanques e canhões autopropulsados.

É claro que o grupo "Sul" do exército alemão sofreu as piores perdas nos primeiros sete dias de combates, antes mesmo da batalha nas proximidades de Prokhorovka.

Mas o significado básico da batalha de Prokhorovka consiste no fato de que os soldados soviéticos deram um duríssimo golpe e conseguiram parar as divisões de tanques da SS que avançavam em direção à Kursk. Isso minou o espírito de combate da elite das tropas blindadas alemãs, e depois disso, elas definitivamente perderam fé na vitória das armas alemãs.

Fonte: http://gazetarussa.com.br/arte/2013/07/12/batalha_de_kursk_atraves_dos_olhos_de_quem_presenciou_tudo_20401.html
Link da imagem: Gazeta Russa

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Extrato de uma declaração de N. Gorbatcheva sobre a execução de soviéticos em Babi-Yar pelos alemães


Babi Yar, Ucrânia, prisioneiros de guerra soviéticos na exumação de corpos de vítimas que foram assassinadas em outubro de 1941, fotografia de em 1943.
Kiev
28 de novembro  de 1943

 ...Durante a ocupação de Kiev pelos alemães, eu morava na rua Tiraspolskaia, nº 55, apartamento nº2.  A minha casa ficava perto de Babi-Yar.

Em 22 de Setembro de 1411 vi chegar durante o dia cerca de 10 caminhões carregados de judeus, homens, mulheres e crianças;  algumas mulheres traziam bebês ao colo.

Juntamente com várias mulheres minhas vizinhas aproximei-me sem ser notada pelo serviço de guarda alemão do local onde paravam os caminhões e onde desciam os prisioneiros. Vimos que a cerca de 15 metros de Babi-Yar os alemães obrigavam os judeus a despir-se e mandavam-os correr ao longo de uma vala, fuzilando-os com pistolas-metralhadoras.

Eu própria vi como os alemães lançavam as crianças na vala. Lá no fundo estavam não só fuzilados, mas também feridos entre os quais, crianças. Os alemães tapavam a vala, mas a fina camada de terra mexia com os movimentos dos que estavam vivos.

Muitas pessoas, pressentindo a sua morte, perdiam os sentidos, rasgavam as roupas e arrancavam os cabelos, lançavam-se aos pés dos soldados alemães, mas em resposta eram espancados.
O fuzilamento dos judeus durou vários dias.

Aconteceu encontrar-me junto do campo de prisioneiros de guerra de Syretz. Vi que os soldados e os oficiais do Exercito Vermelho presos não tinham roupa nem calçado, e que muitos homens estavam amarrados uns aos outros, a uma distancia que lhes permitisse trabalhar.

No inverno de 1942, não me recordo exatamente do mês, os soldados alemães levaram para Babi-Yar 65 marinheiros presos. Tinham as mãos e os pés amarrados e tal modo que tinham dificuldade em deslocar-se. Andavam completamente despidos e descalços na neve com um tempo muito frio.

Os habitantes atiraram para a coluna de prisioneiros camisas e botas, mas estes recusaram-nas, e lembro-me que um deles disse: "Morremos pela pátria". Depois desta declaração, começaram a cantar a Internacional, e os soldados alemães batiam-lhes com bastões. Via-se pelos bonés que eram marinheiros. Foram todos fuzilados.

No campo dos prisioneiros de guerra de Syretz, os alemães construíram um forno para queimar vivos os guerrilheiros, os comunistas e os militantes soviéticos.

Da janela do meu quarto, via os alemães a lançarem homens vivos no forno aceso e, por vezes, ouvia-se em minha casa os seus gritos aos serem queimados.

Na primavera de 1943 vi levarem para Babi-Yar 4 caminhões com civis. Segundo diziam os habitantes, estes homens foram trazidos de um local onde os alemães tinham prendido um guerrilheiro. Foram queimados no forno.

Uma vez vi uma mulher que, ao passar junto dos prisioneiros de guerra de Syretz, atirou por cima da cerca um pedaço de pão para os prisioneiros. As sentinelas fuzilaram-na ali mesmo.

No verão de 1943, na época do corte da madeira, vi os alemães obrigarem um prisioneiro a subir a uma arvore que os outros estavam a serrar. A arvore caiu e com ela o homem, que morreu.

Pela mesma altura vi os alemães obrigarem os prisioneiros a fazer ginástica, isto é,a rastejarem sobre o ventre numa extensão de 200 metros com as mãos atadas atrás do das costas. Se alguns dos homens se levantavam, os guardas os espancavam-nos.

No mesmo campo de Syretz, vi os alemães obrigarem um prisioneiro culpado a deitar-se de bruços com as mãos atadas atrás das costa, atiçando-lhe depois os cães. Estes mordiam no prisioneiro mas ele não podia resistir, de contrario o espancavam. Se o prisioneiro perdia os sentidos, obrigavam outros detidos a enterrá-lo vivo.

Gorbatcheva
(O original alemão encontra-se nos Arquivos centrais da U.R.S.S. sobre a Revolução de Outubro, fundo 7021, registro 65, dossier 6, folhas 11 e 12)

Transcrição: Daniel Moratori - avidanofront.blogspot.com
Fonte: COELHO, Zeferino - O crime metódico. Ed. Inova Limitada - pg.114-116

Nota adicional sobre a foto:
Durante julho de 1943, quando os soviéticos chegaram mais perto da cidade, duas unidades especiais  alemães foram formadas sob o nome de código 1005. Seu objetivo era cobrir os vestígios dos assassinatos em massa e eles supervisionaram prisioneiros de guerra que foram forçados a desenterrar os corpos nos locais do homicídio e queimá-los. 


sábado, 28 de janeiro de 2012

Kurt Gerstein - Parte 1 - Um alemão como tanto outros: O peso de uma tradição

Kurt Gerstein cercado por um círculo de participantes escola da Bíblia , que funcionou até 1934.  Foto: Landeskirchliches Archiv der Kirche von Westfalen Evangelischen(Arquivos da Igreja Evangélica de Westphalia)

I. O PESO DE UMA TRADIÇÃO

Quando, em Maio de 1933, três meses antes da ascensão de Hitler ao poder, o jovem engenheiro de minas Kurt Gerstein adere ao partido nacional-socialista, a sua escolha, como a de outros milhões de protestantes alemães, é em parte o resultado de uma educação autoritária, de uma tradição nacionalista e de uma influência religiosa que estabelece o elo entre as duas. Kurt Gerstein nasceu em Münster, em 11 de Agosto de 1905, sexto filho de uma família de sete. Por linha paterna (o pai chamava-se Ludwig), os Gerstein são «de sangue ariano puro» e originários, na maioria, da Baixa Saxônia. Tendo habitado a margem esquerda do Reno desde o século XVI, a família tinha dado aos seus soberanos uma longa linhagem de funcionários, sobretudo de juízes. A única exceção foi o bisavô de Kurt: depois de uma curta carreira de tenente, reforma-se e vive dos rendimentos, gasta a fortuna e tenta tornar-se escritor. Foi o único que não «triunfou» ... Por linha materna, os Schmemann, de há muitas gerações vivendo em Dortmund, são quase todos fornecedores e comerciantes (1). De ambas as partes, os antepassados de Kurt são representantes exemplares de uma burguesia prussiana estritamente chauvinista no conjunto e, desde 1891, incondicionalmente dedicada à grandeza do Império e totalmente submetida à autoridade:
   Tu és soldado, funcionário, e deves obedecer às ordens, dos teus superiores. A responsabilidade cabe ao que dá  as ordens e não ao que as executa. Não pode haver desobediência. Deves fazer o que te mandam. Foi o que aprendi como velho funcionário prussiano e antigo oficial (...) (2)
Estas palavras de Ludwig Gerstein a Kurt na primavera de 1944 exprimem toda a ética da sua vida de magistrado. São a única resposta a um filho que perguntava:
   Teremos o direito de dilapidar esse penhor que nos foi confiado, a justiça? Podemos renunciar a essa bondade que dizem que nos distingue das outras criaturas? (3)
 Na Primeira Guerra Mundial, Ludwig Gerstein alista-se com três filhos; o mais velho cai em Cambrai, em 1918. Para a família Gerstein, depois do luto e da derrota vem a evacuação; com efeito, as autoridades francesas de ocupação expulsam o pai do lugar que ocupava desde 1911 no tribunal de Sarrebruck. Nomeado juiz em Halberstadt, e depois, em 1921, em Neuruppin, Ludwig Gerstein impõe à família uma vida ainda mais limitada e severa do que antes: «Perdemos a guerra e ficamos pobres», costumava dizer (4), para justificar a sua parcimônia crescente. Os castigos são numerosos, mas sobretudo aplicados com uma frieza e uma dureza que Kurt recordaria por muitos anos (5).

 Na mãe, o jovem Gerstein também não encontra o calor de que necessita. Sentir-se-ia durante muito tempo abandonado por ela e só muito mais tarde, depois da sua morte, compreende através de uma carta encontrada acidentalmente até que ponto ela sofria por não lhe dedicar mais tempo(6). A tensão entre Kurt e a família desenvolve-se nesta atmosfera completamente dominada pela autoridade paterna:
   Foi certamente o mais difícil dos sete filhos de meus pais, diz Karl Gerstein, irmão de Kurt. Houve muitas tensões entre ele, os pais, os irmãos e as irmãs. Era de trato difícil e sempre fez o que queria. Sentia-se nele qualquer coisa de aventureiro. A sua atração consciente pela Igreja começou a dar-se nos últimos anos em que esteve na escola (...)(7)
   Era, diz um dos seus amigos de juventude, um idealista apaixonado, mas sempre o enfant terrible da família.

Esta revolta não é só a de Kurt Gerstein, é a reação de toda uma juventude, a dos Wandervogel e de Langemarck. Efêmera, conduziria na maioria dos casos a uma mística da autoridade e a uma necessidade de total submissão. Para o próprio Kurt Gerstein, a autoridade seria o fundamento inquebrantável de toda a sua educação:
   A autoridade e a confiança (...) são os dois fundamentos da educação. A autoridade é uma proporção justa de respeito, estima, severidade e coerência.(9)
Eis, de resto, a sua imagem de Deus:
   Ele (Deus) é a todo o momento o criador e O que controla e domina tudo, e sem o seu conhecimento e a sua vontade nem mesmo um grão de areia do fundo do mar se pode juntar a outro (...)(10).
É Ludwig Gerstein recoberto da majestade divina.

 Na adolescência, Kurt Gerstein parece não ter suportado melhor a disciplina imposta pela escola do que a do meio familiar. Nos liceus de Sarrebruck Halberstadt e Neuruppin onde fez os estudos secundários, deixou a recordação de um aluno mais inteligente do que assíduo mais inclinado aos divertimentos de todos os tipos do que aos sólidos estudos clássicos:
   Tinha sempre as piores notas, quer nos estudos quer em comportamento, escreve o professor de grego de Halberstadt, Schinke. Mas isso não o preocupava nada. Pelo contrário, dava a impressão de se divertir com a opinião desfavorável que se pudesse ter dele ( ...) Foram em vão todos os esforços no sentido de exercer uma influência sobre ele e levá-lo a mudar de atitude(11).
Acumulavam-se os castigos por «ter feito um buraco na carteira e lesado a propriedade do Estado...», «por ter protestado escrevendo uma frase no quadro contra os trabalhos de casa de latim...», «por ter faltado muitas vezes à escola, por vezes dias inteiros...» .

Quando, um dia, o professor de grego, Schinke, o obriga a ir à escola depois da hora das aulas, aluga um trem e consegue ultrapassar o mestre que se dirige a pé para o estabelecimento: um cumprimento de chapéu, e Kurt Gerstein continua o seu caminho deixando para trás o professor estupefato...(12).

Apesar de tudo, aos vinte anos tinha terminado o ensino secundário.

Kurt Gerstein destina-se à carreira de engenheiro. Em 1925, entra na Universidade de Marburgo e simultaneamente numa confraria de estudantes, a Teutonia, uma das mais nacionalistas de toda a Alemanha.
   Quando era estudante, escreve o pai em 1949, entrou a meu pedido para uma confraria, mas não como membro efetivo; foi unicamente «semi-membro», sem quaisquer direitos (14).
Mais tarde Gerstein criticaria a superficialidade dos estudantes da Teutonia e as cerimônias da confraria. Mas não repudia o nacionalismo intenso dos corpos de estudantes. Sob este ponto de vista, Kurt Gerstein está de acordo com a família e o meio; durante muito tempo seria um nacionalista alemão convicto. No seu relatório de Abril de 1945, diz ter sido partidário de Stresemann e de Brüning. Mas estava sem dúvida mais próximo da direita «nacional-alemã», a que o pai pertencia 16, a direita que rejeitava o «sistema» de Weimar, o «sistema» dos partidos, sonhava com o renascimento de uma Alemanha poderosa e vasta. Assim, num artigo intitulado «Um einen neuen Wehrwillen» (Para um novo desejo de armamento), Kurt Gerstein retoma, em Janeiro de 1933, o essencial das fórmulas «nacionais-alemãs»: a «ganância» dos inimigos da Alemanha, o «pacifismo mole» e a necessidade absoluta de um rearmamento do país para evitar «o suicídio e o abandono cobarde do direito do nosso povo à existência». Temos muitas provas deste nacionalismo ardente que Kurt Gerstein manifesta nos anos trinta. O discurso que pronuncia quando da dissolução dos Bibelkreise é particularmente característico neste ponto. Mas, no conjunto, põe-se um problema: este tipo de nacionalismo está muitas vezes associado, entre a burguesia alemã da época, a um anti-semitismo mais ou menos manifesto. Os Gerstein serão também anti-semitas?

O álbum genealógico da família, redigido por Ludwig Gerstein em 1934, tem duas passagens interessantes sobre isto:
   Numa viagem à América em 1933, escreve Ludwig, Johann Daniel Gerstein verificou que havia 12' «Gerstein» na lista telefônica de Nova Iorque. As suas perguntas, responderam que se tratava provavelmente de judeus  que tentavam esconder a sua origem sob esses nomes. Isso era comum e permitido.
   Em 1890, um judeu, o médico Richard Goldstein de hamburgo, mudou o nome para Gerstein. O meu irmão Karl apresentou uma queixa no senado da cidade, mas sem exito, embora lhe prometessem que não se voltaria a repetir tal coisa. Uma outra queixa minha em 1933 não teve resposta. Em Berlim estudava em 1930 na escola técnica superior de Charlottenburgo um apátrida de nome Gerstein. Um judeu russo, engenheiro, chamado Bernhard Gerstein foi identificado na lista telefônica de Berlim(19).
O mesmo álbum genealógico acaba com «uma exortação aos descendentes»:
   Nas nossas veias só há sangue ariano, lembra Ludwig Gerstein à posteridade dos Gerstein, conservem a pureza da raça!(20)  
No entanto, uma testemunha judia escreveu depois da guerra:
No advento de Hitler, ele (Ludwig Gerstein) deu provas de coragem (...) Foi ao escritório do meu pai e do sócio, advogados judeus de Hagen, para lhes comunicar as primeiras medidas contra os judeus e para lhes dizer que lamentava imenso (...)(21)
Em Ludwig Gerstein encontramos um anti-semitismo moderado. Kurt, veremos mais tarde, pelo menos temporàriamente, não se subtraiu inteiramente a esse preconceito.

 Depois de três semestres na Universidade de Marburgo, Gerstein continua os seus estudos nas escolas politécnicas de Aix-la-Chapelle e de Berlim-Charlottenburgo. Em 1931 faz o exame de engenheiro de minas. Mas estes são os aspectos «exteriores» da sua existência: entretanto a sua personalidade sofreu a influência determinante da religião.
   Na escola primária, escreve Gerstein, tínhamos um sólido ensino religioso. De resto, devo à nossa criada (...) ter-me ensinado muito cedo a tomar Deus a sério. Neste campo a minha família não me podia dar muito. Nunca se falava de Deus (...) O ensino religioso exangue e formalista que recebi na escola não matou a minha sede. Ninguém me mostrava o caminho da igreja (...) (22)
Neste mesmo contexto, Gerstein acaba por falar nos problemas sexuais da sua adolescência, e da influência destes na sua atitude em relação a Deus:
Parecia-me que havia nisso algo de terrível, de mau, um segredo imundo. Até aos meus dezessete ou dezoito anos, ninguém me tinha falado em termos racionais do pai e da mãe e da origem do ser humano, de modo que no meu espírito as noções de prostitutas e de procriadoras estavam perigosamente próximas uma da outra(23).
Esta frase, que não prima pela estrutura lógica, é sobretudo significativa pela confusão a que dá origem.
   Ser-me-ia impossível falar com um adulto sobre estas coisas, embora desejasse muito fazê-lo; com efeito, estava no perigo iminente de perder completamente, neste caos interior, todos os objetivos, todos os sentidos(24).
Manifesta depois um profundo sentimento de culpa:
(...) precisamente pela minha falta (...) concluí que para mim não havia ajuda possível e tentei afastar--me de Deus, convencer-me que Ele não existia (...), porque era a única maneira de continuar a viver nesta situação para a qual não via solução. Comecei então a odiar e a combater tudo o que era «religioso», porque tudo isso só podia tornar o meu caminho ainda mais incerto. Apesar de todos os meus esforços (...), não consegui fugir de a experiência sob o Deus. Fiz então a experiência sob o seu aspecto terrível no sentido da frase bíblica: é ter.. raivei cair nas mãos do Deus (...)(25)

 Gerstein faz uma longa descrição dos seus conflitos. É constantemente atormentado por um sentimento culpabilidade e nostalgia da «pureza». Os primeiros anos de universidade não lhe trazem solução; a atmosfera das confrarias de estudantes só contribui para agravar as suas dificuldades.
   Quanto mais ímpio era o meio, mais eu tentava afastar-me, pelo menos interiormente. Tinha de me submeter à disciplina da confraria; acontecia que quando regressava de um local noturno (...) punha-me àvidamente a ler a Bíblia(26).
Gerstein não explica como conseguiu a tranqüilidade: refere-se a um meio de jovens aprendizes, de artífices e de empregados, no qual aprendeu gradualmente a estabelecer «um elo pessoal com Cristo»(27). A sua ansiedade parece ter desaparecido. Os problemas sexuais da adolescência continuam no entanto a preocupá-lo acima de tudo enquanto educador, e seriam o objeto constante de conferências e de trabalhos nos anos seguintes.

Parece provável que a religiosidade de Gerstein tenha sido avivada originalmente por um sentimento de culpa. Com efeito, ele di-lo quase textualmente. O peso desta culpa nunca desaparecerá completamente. Para ele, Deus será sempre um Deus terrível(28).

 A fé intensa de Gerstein e a atividade que mais tarde desenvolve entre os movimentos da juventude evangélica levam-no necessàriamente a confrontar-se com as opções fundamentais do protestantismo alemão sob a República de Weimar.

O protestantismo alemão, autoritário desde o início e nacionalista desde o século XIX, manifesta em relação à República uma neutralidade oficial que encobre uma hostilidade latente.

Não nos referimos neste caso à ala extremista dos «cristãos alemães», essa tendência «ariana», «germânica» e profundamente anti-semita do protestantismo alemão que encontrará, de fato, grande eco na Igreja evangélica; mas as suas teorias, as de Andersen, Frenssen, Hossenfelder não teriam uma influência direta no jovem Gerstein nem nos grupos em que estava integrado. No entanto, o movimento dos cristãos alemães desenvolveu-se numa área muito vasta e de inúmeras influências, que nos anos vinte encontram expressão em todo o protestantismo alemão.

A estreita identificação da autoridade religiosa com a autoridade política, fruto das condições em que se realizou a Reforma e a doutrina de Lutero, dá-se com o II Reich. A união entre o trono e o altar é oficialmente imposta: «O Estado autoritarista germano-prussiano estabelecerá os seus fundamentos ideológicos a partir da ética luterana protestante; à ortodoxia eclesiástica caberão as funções de protetora e guardiã»(29).

Nestas condições, a grande maioria dos chefes do protestantismo alemão são reticentes, se não abertamente hostis, em relação à República democrática que sobrevém à derrota de 1918. A autoridade tradicional desapareceu e com ela a identificação do protestantismo alemão com o Estado. A República proclama a liberdade religiosa: os seus dirigentes são livres-pensadores, «socialistas» por vezes, e aqui e ali vê-se aparecer, em lugares importantes do novo regime ... um judeu. O que o presidente da Jornada Eclesiástica de Dresde exprime no seu discurso de abertura em 1919 no momento em que diz: «O esplendor do Império alemão, o sonho dos nossos pais, o orgulho de cada alemão desapareceu ...» é um sentimento largamente generalizado(30). A neutralidade que os órgãos diretores do protestantismo alemão conservam em relação à República não é muitas vezes senão aparente: sob essa neutralidade, as simpatias dos pastores evangélicos e da maior parte das ovelhas são no sentido de tendências que visam o restabelecimento de uma autoridade forte e a aurora do nacionalismo mais extremista. Para um homem influente como Hans Zehrer, redator da Tat, aurora nacionalista e aurora do protestantismo são° uma e a mesma coisa.

O «caso Dehn» revela, como acentua Max Geiger, o clima que impera no protestantismo alemão durante estes anos.

0 pastor de Berlim Gunther Dehn, dissertando em 1928 em Magdeburgo sobre o tema  «Igreja e reconciliação dos povos», insistia na necessidade de desmitificar a guerra e de lhe subtrair a sua aureola romântica; a morte pela pátria não podia ser identificada ao sacrifício da vida por Cristo; e Dehn perguntava se era dentro dos muros da Igreja que se deveria erigir o cenotáfio com os nomes dos alemãesmortos em combate. 0 grito de indignação provocado pelas declarações do pastor foi enorme: denunciaram-no as autoridades eclesiásticas superiores, e a imprensa reagiu por uma violenta campanha; foi-lhe recusada uma cátedra em Heidelberg e muitos anos mais tarde a sua nomeação para uma cátedra na Universidade de Halle foi acompanhada de incidentes violentos(32).

 Ao culto da autoridade e ao nacionalismo exacerbado de muitos pastores protestantes alemães alia-se um anti-semitismo mais ou menos declarado que, simultaneamente, torna os espíritos permeáveis ao nacional-socialismo: uma das suas bases é uma certa maneira de ensinar a Bíblia, e o anti-semitismo de Stoecker, por exemplo, germinou no terreno da mais rigorosa ortodoxia protestante(33). Mas o próprio nacionalismo dos protestantes alemães do tempo da República, assim como os diversos aspectos da doutrina luterana que exatamente são acentuados nesta época, constituem o fundamento intelectual de uma emoção que lhes é adjetiva. Sem dúvida que nenhum protestante alemão se reconhece no estado de espírito do pastor F. Andersen quando ele diz: «Quem come um judeu, estoira»(34). Mas quantos se insurgem abertamente contra os termos da circular que em 3 de Abril de 1928 o superintendente geral da Kurmark, o Dr. Otto Dibelius, envia aos pastores do seu distrito: «(...) Apesar do tom depreciativo do termo, senti-me sempre anti-semita. Não podem negar que em todas as manifestações de desintegração da civilização moderna o judaísmo desempenhou um papel importante (...)»(35) ?

 Finalmente, a permeabilidade espiritual do protestantismo alemão frente ao nacional-socialismo é reforçada pela debilidade da sua estrutura. Os protestantes da Alemanha não formam uma organização monolítica: são 40 milhões, dos quais 150 000, mais ou menos, pertencem às «Igrejas livres» (batistas, metodistas, etc.), enquanto os outros se distribuem por 28 igrejas, umas luteranas, outras calvinistas. Estas divisões e os problemas internos constantes que provocam dentro do protestantismo alemão convertem-no numa presa mais fácil da propaganda nacional-socialista: sem uma autoridade central dirigente, o protestante alemão é muito mais vulnerável do que o católico do Reich. Não admira que nestas circunstâncias muitos pastores se regozijem com o advento do nacional-socialismo:
   Um poderoso movimento nacional se apoderou do nosso povo, e entusiasmou-o, diz uma declaração da Igreja evangélica de Abril de 1933. Na nação alemã que cresce, manifesta-se uma grande reforma do Reich. Nesta viragem da história proferimos um sim de gratidão. Deus no-la concedeu(36).
Para Wilhelm Niemtiller, o dia 1 de Maio de 1933, proclamado pelos nazis o dia da comunidade nacional, é «um dia pleno de alegria, um dia que desperta esperança»(37)", e o superintendente Dibelius afirma a respeito da vitória eleitoral dos nazis de Março de 1933: «Entre nós muito poucos deixarão de se regozijar do fundo do coração Com esta grande renovação»(38).

No contexto geral do protestantismo alemão, os movimentos da juventude evangélica em que Kurt Gerstein está integrado desempenham nestes anos um papel muito especial.

 Em 1925, Gerstein torna-se membro da Associação dos estudantes alemães cristãos (DCSV); em 1928, membro ativo do Movimento da juventude evangélica (CVJH) e principalmente do Bund deutscher Bibelkreise (BK). É dirigente de círculos em Aix-la-Chapelle, Berlim-Charlottenburgo e sobretudo Hagen; seria uma das personalidades mais importantes dos BK até à sua dissolução em 1934. Tem uma influência considerável nos jovens. Os que estiveram .sob a sua direcção falam de um verdadeiro carisma:
 (...) Onde ele estava, os jovens reuniam-se e rodeavam-no, diz Helmut Franz. Atraía-os por um incrível poder de fascinação que é difícil descrever. Temos de admitir (...) este poder de fascinação era até um perigo (...)(39)
Com os jovens, Gerstein ocupava-se dos seus problemas, praticava desporto ou dava longos passeios. Freqüentemente passava com eles uma parte das férias.

Integrado nestes movimentos de juventude, Gerstein tinha necessàriamente de sofrer a influência da atmosfera que se desenvolveu nos últimos anos da República.

Ainda mais do que dentro do protestantismo no conjunto, distingue-se nos agrupamentos de jovens o repúdio do «materialismo» ambiental, a aspiração do renascimento de uma comunidade nacional «autêntica», livre das disputas de partidos do sistema democrático e orientada por um chefe salvador: «O lugar do jovem cristão é na primeira linha de combate para a renovação do nosso povo», é esse o slogan que resume as aspirações desta juventude(40).

As frases que a Führer-Hilfe publica nos princípios de 1933 são somente uma das inúmeras variações sobre um mesmo tema, aceite pela maioria dos membros dos movimentos evangélicos dos jovens:
Não tínhamos a menor necessidade de mudança de atitude no momento em que a renovação da nação alemã se estendeu à pátria inteira e expulsou o espírito marxista-materialista. A esta renovação dizemos que sim alegre e incondicionalmente (...) Agradecemos a Deus esta transformação miraculosa da história alemã, conseguida através do chanceler Adolf Hitler e do seu partido(41).
Nas palavras de Priepke, foi estabelecido um elo imediato entre «o rei por vontade de Deus» e «o Führer carismático». Nos dois casos era o escolhido por Deus, o homem abençoado que a comunidade nacional devia seguir: «O rei chamou, e todos, todos acorreram»(42).

É provável que as influências simultâneas da educação autoritária, da tradição nacionalista e da atmosfera do protestantismo alemão tenham contribuído para a decisão de Kurt Gerstein de aderir ao partido nacional-socialista em Maio de 1933. O próprio Gerstein nunca explicou as razões da sua escolha. A única declaração de que dispomos sobre este ponto é a do pastor Rehling, de Hagen, que conhecia Gerstein desde 1928. Rehling descreve uma conversa entre ambos, em 1932. Alguns membros das S. A. tinham acabado de assassinar uma família operária de Potempa. Os assassinos foram condenados à morte. Hitler telegrafa então ao chanceler: «Herr von Papen! Não concordo com a sua objetividade sanguinária!»
A conversa de Rehling com Gerstein passa-se no dia seguinte a estes acontecimentos:

   Dizia eu que daí em diante um cristão não podia continuar do lado da NSDAP (...) Porque se todos éramos iguais perante Deus, éramos também iguais perante a lei. Se Hitler considerava isso uma objetividade sanguinária, seriam inevitáveis as mais graves discórdias entre o Estado e a Igreja (no caso de Hitler vir a ser chanceler) (...): «Tomai-vos do nosso membros partido! Porque o que está do lado da razão pode matar e será absolvido». Gerstein estava espantado: «Vê as coisas com una tons demasiadamente sombrios! Quantas vezes na História os veredictos foram pronunciados sobre a influência da política! E Isso não levou à ruína dos Estados! Talvez devamos mesmo entrar para o partido se esse perigo existe. Dentro dele há forças vivas. Como pretende que se ajude senão estando dentro das coisas? Pode acontecer-lhe vir a ter de dizer um dia: «Cristãos, entrai para o par-tido!». Respondi. «Diz isso porque espera mais tarde poder vir a fazer alguma coisa. Mas segundo o «Führerprinzip», são os de cima que decidem, os outros só têm que obedecer! O que se deixa arrastar pela avalancha só aumenta o número dos que cairão na derrocada».
   Não o convenci, mas deixei-o pensativo. Apesar de muitas hesitações, Gerstein julga dever entrar para o Partido em 1933. Era assim que via possibilidades de ajudar
(43).
E contudo, em Outubro de 1933, Kurt Gerstein entra para as S. A.

Fontes:
1  - Ludwig Gerstein (ed.), Ahnen-Tafel der Familien Schmemann u. Gerstein, Selbstverlag, 1934.
2 - Carta de Ludwig Gerstein a Elfriede Gerstein, 24 de Março de 1946, KGH.
3 - Carta de Kurt Gerstein ao pai, 5 de Março de 1944, KGH.
4 - Carta de Elfriede Gerstein, 16 de Janeiro de 1967.
5 - Idem.
6 - Idem.
7 - Karl Gerstein, «Mein Bruder Kurt Gerstein», conferência feita em Bona, Outubro de 1964, KGH.
8 - Testemunho de Oskar Hammelsbeck, 1965 (citado em Der Aus-senseiter de Heiner Lichtenstein. W. D. R., 25 de Julho de 1965).
9 - Kurt Gerstein, Um Ehre und Reinheit (2.• edição), Selbstverlag, 1937, p. 83.
10 lbid, p. 21.
11 - Carta de Gerhard Schinke, 10 de Setembro de 1965, KGH.
12 - Carta de Elfriede Gerstein, 16 de Janeiro de 1967.
13 -  Carta de Gerhard Schinke, 10 de Setembro de 1965, KHG
14 - Carta de Ludwig Gerstein, 1 de Fevereiro de 1949, KGH.
15 - Kurt Gerstein, Um Ehre und Reinheit (II), p. 19.
16 - Helmut Franz, Kurt Gerstein, Aussienseiter des Widerstandes der Kirche gegen Hitler,  EVZ, Zurique, 1964, pp. 39 e 40.
17 - Kurt Gerstein, «Um einen neuen Wehrwillen.», Schwerthreuz, janeiro de 1933.
18 - Cf. infra p. 38.
19 - Ahnen-Tafel Ludwig der Familien Schmemann u. Gerstein, ed.  Ludwig Gerstein, Selbstverlag, 1934, p. 123. u
20 -  Ibid., p. 186.
21 - Testemunho de R. Coste, 8 de Setembro 1951, CDJC, 21 Paris.
22 - Kurt Gerstein, Um Ehre und Reinheit, p. 13.
23 - Ibid.
24 - Ibid., P. 14.
25 - Ibid., p. 14.
26 - Ibid., p. 16.
27 - Ibid., p. 16.
28 - Consultar o que diz Helmut Franz em 1943, em Helmut Franz, op. cit., p. 102
29 - Max Geiger, Der Deutsche Kirchenkampf 1933-1946, EVZ Verlag, Zurique, 1965, p. 13.
30 - Idem.
31 - George Mossef, «Die deutsche Rechte», Entscheidungsjahr 1932, J. C B. Mohr, Tiibingen, 1965, p.. 216.
32 -  Max Geiger, op. cit., p. 16.
33 - George Mosse, loc. cit.
34 - Hans-Joachim Kraus, «Die evangelische Kirche», Entscheidungsiahr 1932, p. 254.,
35 - Colecção Frankenhuis, Nova Iorque.,
36 - George Casalis, Karl Barth, Labor et Fides, Genebra, 1960, P, 32.
37 - George Messe, loc. cit.
38 - Günther Van Norden, Kirche in der Krise, 1933,  Presseverband der evangelischen Kirche Rh einland, Düsseldorf, 1963, p. 43.
39 - Helmut Franz, op. cit., p. 15.
40 - Manfred Priepke, Die evangelische Jugend Si dritten Reich 1933-1936, Norddeutsche Verlagsanstalt, Hanover, 1960, p. 47..
41 -  Ibid.
42 -  Manfred Priepke, op. cit., p. 39.
43 - Kurt Rehling, «Ein Aussenseiter des Widerstancies Kurt Gerstein; sein Leben und sein Wirken in der Sicht eines Freundes», Unsere Kirche,1964,

Transcrição: Daniel Moratori (avidanofront.blogspot.com)
Fonte: FRIEDLÄNDER, Saul - Kurt Gerstein: Entre e o homem e a Gestapo, Rio de Janeiro: Moraes Editora, 1968, p 19-32.


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