domingo, 21 de março de 2010

Entrevista com Kesselring




O jornalista Enzo Biagi relembra suas entrevistas com o marechal de campo alemão após seu cativeiro e falecimento.

De Kesselring recordo os olhos claros, azuis e o sorriso. Sorria sempre. Sorria quando, ao comando de um "Messerchmitt" voava sobre grandes planícies russas ou nos céus da Inglaterra; sorria, inspecionando os canhões na praia de Anzio; sorria, no campo de concentração austríaco, onde estava prisioneiro, condenado, aguardando a execução; sorria, dizendo-me: "Estou muito doente", e tocava o peito.

Passeávamos numa tarde quente do último outono, entre as flores um tanto murchas de um tranqüilo e cuidado jardim; o tempo da guerra estava longe. Crianças loiras saíam gritando das escolas, bando de pássaros desapareciam por trás dos bosques de folhas avermelhadas.

"Que pensa a respeito de Hitler, senhor marechal?" Perguntava eu.
"Uma grande, uma fascinante personalidade" respondia sorrindo.
"Que pensa de Mussolini, senhor marechal?"
"Uma grande mente política" e me olhava sem ironia.
"Que diz da Itália?" Insistia eu.
"Sinto ainda grande simpatia pelo seu povo; Hitler sempre me dizia que eu era honesto demais para os italianos; ele não os estimava, eis tudo".Sorria ainda.
"Agradar-lhe-ia" perguntava, "voltar novamente à minha pátria?"
"Amo sua terra, a beleza da natureza, os monumentos, Roma, Florença, Veneza..."
"Também Veneza?", dizia eu, "Deveria ter péssimas recordações dessa cidade".
"Devido à sentença? Uma sentença injusta, um grande erro judiciário".

Somente então se pôs a recordar aquele julgamento: a lancha escoltada que o conduzia ao tribunal; o frio que fazia; a chuva abundante; a voz monótona do magistrado que lia: "O marechal Albert Kesselring, culpado de crime contra a humanidade, é condenado à morte". O sorriso do velho soldado se transformou numa espécie de trejeito e eu percebi que um daqueles olhos claros azuis era um pouco menor, mais frio.

"Sou um marechal alemão" dizia Kesselring freqüentemente, e endireitava o talo de um crisântemo, ou tocava uma folha, explicando-me, sorrindo, que um marechal alemão permanece como tal, "bis zum letzten Tag", até o último dia; que um marechal alemão não pode ter dúvidas; que a Disziplin (disciplina) é um dever; que não pode sentir arrependimentos, temores; não pode conhecer nossas fraquezas, as fraquezas humanas; deve sorrir, mesmo sob o fogo inimigo, mesmo quando lhe dizem: "A forca o espera". Para um marechal, mesmo cansado, doente e sozinho (agora até a mulher se foi e a fila dos companheiros é cada vez menor), para um marechal da Wehrmacht que considera a rendição do soldado alemão, no dia da derrota, "um triunfo da educação" as palavras têm estranhos, diversos significados.

"Senhor marechal, que pensa de Marzabotto?", disse de repente, e sentia-me embaraçado, quase envergonhado.
"Uma operação bélica" responde-me tranqüilo.
"Quase dois mil mortos", disse, "são muitos, até mulheres e crianças, principalmente mulheres e crianças".
"Sob as bombas dos anglo-americanos tombaram também muitas mulheres alemãs e muitas crianças alemãs. Quem ataca tem o dever de vencer. É pena que os inocentes também paguem".
"E dos delitos do Fuehrer, que diz?"
"Nem todas as culpas foram suas, estava rodeado de péssimos conselheiros".
"E do seu amigo Goering? Que me diz de seu amigo Goering".
"Um homem do Renascimento, um verdadeiro príncipe do Renascimento, um bom garfo, um bom bebedor, nascido para a caça, cultor das artes, o último senhor do Renascimento".

Prisioneiro de si próprio

Passeávamos, e a guerra parecia tão distante, o marechal tinha o ar sereno de um funcionário aposentado, de um professor aposentado educado, vestido com circunspecção, conversador de certo garbo, anfitrião cheio de atenções: "Experimente - pede-me - este vermute italiano". E eu pensava em cápsulas de cianureto rompidas com os dentes na escuridão de uma cela, ou no carro negro da Gestapo, no destino de alguns dos companheiros de Kesselring, e outros mortos sem história, tantos mortos. Mas no relato do marechal não havia nem paixão, nem dor; aqueles mortos eram apenas o resultado de enganos estratégicos, de avaliações políticas erradas. Ele se sentia ainda e sempre marechal, marechal até o último dia.

Parece-me prisioneiro de si próprio, de um sonho angustiante de que não soube se libertar: falava insistentemente em capacetes de aço, capacetes com pregos, capacetes com a suástica. Falava nisso com orgulho, com altivez. Podemos ver ainda esses capacetes, enferrujados, em nossos cemitérios, nos campos italianos, colocados entre as cruzes cinzentas que recordam, entre os mortos do país, alguns pobres Hans, ou alguns pobres Rudolph, mortos sob as ordens do Fuehrer e do marechal Kesselring, nas terras da Itália.

Mostrou-me seu livro de memórias, onde havia uma frase assinalada com um traço a lápis: "Minha vida foi rica, porque foi cheia de preocupações, de trabalho, de responsabilidades. Ela terminou num calvário". Não era o pesadelo dos enganos cometidos que o afligia, mas o senso do prestígio perdido. "No cárcere - disse-me - devia colar envelopes de cartas. Era muito bom nisso, aliás. Pense: um marechal alemão colando envelopes".

Não mudara em nada. Alto, calvo, modos gentis, assemelhava-se ao retrato que dele traçavam seus colaboradores. "Um temperamento modesto, muito diferente de Rommel. E uma boa dose de calor humano" dizia Siegfried Westphal, que estivera a seu lado, como seu chefe do Estado-maior.

Contavam que sabia entreter agradavelmente os hóspedes durante as refeições, amava a boa mesa, apreciava as belas mulheres, tinha aprendido a desfrutar, entre a tensão de uma batalha e as longas horas passadas debruçado sobre mapas, a visão de uma obra de arte, ou a música; mas, sob aquela aparência afável, se escondia um fortíssimo orgulho. "Uma esfinge", é a definição que lhe dão os críticos menos calorosos, "habilíssimo em se desenredar das situações embaraçosas ou graves, sempre atento em não cair nas armadilhas da política".

Mesmo quando, em 28 de abril de 1945, enquanto a Alemanha desmoronava, Eugen Dollmann foi informá-lo dos entendimentos de paz que o general das SS, Wolff, efetuou na Suíça, o marechal de campo foge aos compromissos, não dá seu apoio, não critica, não se compromete: "Compreendi tudo muitíssimo bem" - diz - "agora vamos almoçar. Depois lhe desejarei uma boa viagem".


Sua obra-prima

Sua obra-prima é a campanha da Itália, combatendo em Cassino, Anzio, sobre a Linha Gustav, sobre a Linha Gótica, resistindo durante vinte meses ao lento e implacável avanço do V e VIII Exércitos Aliados, sob as ordens do americano Clark. Para tanto, contava com um potencial bélico reduzidíssimo, em comparação com os aliados; porém, nunca ousou protestar. Disziplin.

Considera-se um benemérito, com relação às atitudes mantidas para com a população. "É preciso defender Roma, rua por rua", ordena Hitler, e dá ordens para que os pontos sejam minados. Pela primeira vez Kesselring recusa-se a obedecer.

"Impedi que Roma fosse evacuada, como era projetado, e se transformasse em teatro de luta, mas com graves danos para as operações militares... salvei muitas obras de arte, entregando-as ao Vaticano, como o tesouro de Montecassino. Os centros de interesse histórico foram por mim declarados cidades-hospitais. Determinei que Orvieto, Perugia, Urbino e Siena não fossem defendidas. Ravenna foi evacuada sem que se disparasse um tiro".

Diz o general Siegfried Westphal: "Um coração generoso e sensível. Fez muito pelos italianos, principalmente pelos civis. Impediu a destruição de cidades famosas e históricas. Talvez ninguém tenha ainda reconhecido à altura, essa sua bondade. Certamente, tinha perdido a guerra, assim, processaram-no e o condenaram. Na guerra, a culpa é sempre de quem perde. Quando se combate durante tantos anos, é fácil enganar-se".



O caso de Marzabotto

Marzabotto, Sant'Anna de Stazema, Boves, Bassano del Grappa, Villa Marzano, a Benedicte. Nomes esses que recordam morticínios e sofrimentos. Quando lhe falei sobre as Grutas Ardeatinas, disse: "A ordem veio de Hitler. Fiz de tudo para que fosse mitigada". Marzabotto entrava na lógica da guerra. Kesselring considerava os partigiani "sabotadores... canalhas... que roubavam, matavam e saqueavam". Esquecia-se de que era o superior daquelas tropas que, em Cefalonia e em Corfù, "por vingança", haviam passado pelas armas 8.400 homens, entre soldados e oficiais.

Quando compareceu diante da Corte Marcial britânica que deveria julgá-lo, declarou: "Assumo a responsabilidade apenas pelos meus comandados. Se errei como chefe e como homem, as conseqüências desses erros devem cair apenas sobre mim. Porém, jamais reconhecerei leis punitivas emanadas apenas contra os alemães. Muitíssimos alemães e muitíssimos estrangeiros não me negam seu respeito como homem e como soldado. Conscientemente tranqüilo, posso deixar que a História julgue meu comportamento militar, e conscientemente tranqüilo, estarei diante de meu Deus".

"Vossa decisão, senhores juízes, atingir-me-á materialmente, mas moralmente golpeará os demais chefes militares de todo o mundo, que se encontraram, ou se encontrarão, nas minhas condições. Aguardo vossa condenação de pé, sem inclinar a cabeça, de vós que, como eu, combatestes na mesma frente. Essa, seja qual for, saberei suportá-la. Aprendi, nesse período da mais funda humilhação de minha vida, a erguer-me acima de minhas misérias".

Em 9 de março de 1945 Hitler ainda lhe fornece uma prova de sua consideração: retira-o do setor italiano e manda-o, no lugar de von Rundstedt, comandar a defesa da frente ocidental. Kesselring não tem mais ilusões, mas anota em seu diário: "Ainda em 12 de abril o Fuehrer se mantinha otimista. Desde o início da ofensiva russa ele vive num mundo irreal". Mesmo assim, serve devotadamente o seu chefe até o último dia. Depois do cárcere e da morte da mulher, Luisa, vive solitário na casinha à beira do lago Tegern, onde estão guardados seus uniformes, suas medalhas, as páginas que escreveu quando marechal e quando esteve preso. Uma velha governanta ocupa-se dele, e mantém afastados os indiscretos. Recebe poucas visitas: mesmo os amigos já se foram. Morre aos 74 anos.

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