quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Uma noite inesquecível - Bombardeios sobre Londres

Quentin Reynolds, um dos mais famosos correspondentes dos EUA


Um dos bombardeios mais pesados do fim da blitz sobre Londres, em 1941, narrado pelo correspondente americano Quentin Reynolds.

Foi um dia quente e desanuviado em Londres e, quando o crepúsculo absorveu a tarde, sabíamos que ia ser uma noite sem nuvens, salpicada de estrelas e de lua cheia. Mas não sabíamos, ainda, que aquela noite ia mudar o curso da história. Era simplesmente sábado, 10 de maio de 1941.
Havia, na capital inglesa, naquela ocasião, uns 50 correspondentes americanos e formávamos um grupo de desanimados, na maior parte. Com a Rússia neutra, estava sendo lançado contra a Inglaterra todo o peso da Luftwaffe. Só em abril, os submarinos alemães tinham destruído meio milhão de toneladas de navios aliados. O Exército Britânico fora forçado a recuar no Egito e previa-se que a próxima perda seria o Canal de Suez. Já estavam perdidas a Grécia e a Iugoslávia, e a Alemanha ia conquistando o domínio de todo o Mediterrâneo.

Portsmouth, Southampton, Liverpool e outros portos tinham sido quase mortalmente atingidos e os estaleiros de Clyde estavam todos desmantelados. O número de civis mortos subia a 43.000. Mas Londres continuava de pé e o povo, embora cansado, estava firme e resoluto.

Era essa a situação naquela noite de sábado, em maio. Quase todos nós morávamos e trabalhávamos no Hotel Savoy. Quando tocaram as sereias, prestamos pouca atenção; era coisa rotineira. Mas uma hora depois compreendemos que não se tratava de um simples ataque igual aos outros; naquela noite, a Luftwaffe estava jogando toda a sua força contra nós, aproveitando integralmente a lua propícia aos bombardeios e o céu sem nuvens.

O Savoy reservara uma sala para a imprensa e encarregara um homem chamado Titch de tomar conta dela. Demos à sala o nome de Bar do Titch. Era ele um sujeito atarracado, de cabelos louro-avermelhados e trazia sempre um ar preocupado. Tinha paixão por copos limpos e passava a tarde a poli-los. Quando caía perto alguma bomba, o seu ar preocupado se acentuava sempre; tinha medo de que o choque lhe quebrasse os copos. Havia várias mesas na pequena sala, uma delas com um tabuleiro de xadrez, sobre o qual se debruçavam dois jornalistas, completamente alheios à barulheira lá fora. Ouvia-se a batida monótona de um teletipo, mas era um som tranqüilizador.

As estações do metrô tornam-se o abrigo de vários londrinos

Além das explosões quase constantes, ouvia-se um ronco surdo e confuso que parecia encher a sala. Fui até a rua. Lá fora o ronco contínuo era mais alto. Do outro lado do Tamisa estendia-se por entre os armazéns e as docas um impetuoso lençol de chamas. Do meio do rio, pequenos barcos extintores lançavam contra as labaredas esguichos pateticamente fracos. A água parecia até alimentar as furiosas línguas de fogo, que subiam cada vez mais alto.
Bob Post, do Times de Nova York, ia saindo do hotel.

- A RAF informou que hoje há mais de 400 lá em cima. É muito avião!
- E nós já derrubamos algum?
- Só oito. As baterias antiaéreas não alcançam a altura que eles estão. (Alguns meses depois, as baterias antiaéreas de Berlim alcançaram a altura do B-17 em que estava Bob Post e ele morreu).

Entramos, Os dois jornalistas continuavam mergulhados na sua partida de xadrez. Tomei entre os dedos o papel amarelado que ia saindo do teletipo. Este parecia um laço entre nós e o mundo equilibrado, estável, a quase 5.000 quilômetros de distância.
O enorme edifício do Savoy, todo de cimento armado e aço, estremeceu e a nossa salinha encheu-se do ruído de uma tremenda explosão que nos fez cambalear, com os ouvidos tinindo. O ar deslocado rodopiou na sala, com a força já reduzida, mas ainda com vibração suficiente para fazer dançar os copos do Bar de Titch. Sete deles caíram e se despedaçaram. Titch murmurou um palavrão.

- Estes danados eu não consigo mais substituir - resmungou ele - Onde é que se vai comprar copos em Londres hoje em dia?

Dois correspondentes entraram na sala, cambaleando. Vinham abatidos, com as roupas rasgadas e as mãos cobertas de arranhões. Moravam em Chelsea, numa das casas de madeira que formavam ali uma longa fila. Uma bomba de alto poder explosivo atingira o quarteirão e destruíra todas as casas, menos a deles, matando quase todos os demais habitantes do quarteirão. Tinham trabalhado com os bombeiros, arrastando os feridos dos edifícios em chamas. Titch saiu de trás do balcão, trazendo uma garrafa de conhaque.

- Não tenho iodo - disse ele derramando o conhaque sobre os arranhões. - mas conhaque é um bom desinfetante.

Um dos rapazes reparou o rótulo da garrafa e retirou a mão.

- Um conhaque de três anos, Titch? Você sabe muito bem que eu não suporto conhaque de menos de doze anos - disse ele, fingindo-se zangado.

Estávamos todos falando alto, porque as explosões nos tinham deixado um pouco surdos. Mas ainda se ouvia o teletipo. Não havia nada que fizesse parar aquele tic-tic, tic-tic.
Chegaram novas notícias. Ao que parecia, toda a Londres estava em chamas. As horas passavam trôpegas, como chumbo nos pés. A telefonista do Savoy chamou para avisar que todas as linhas estavam interrompidas. Estávamos isolados em nosso pequeno oásis.


O incessante trabalho dos bombeiros para debelar as chamas
Os elevadores continuavam funcionando, eu e Ed Beattie, da United Press, fomos até o terraço. Era como se estivéssemos em uma ilha cercada por um mar de chamas. Uma centena de holofotes mergulhava no ar, dedos longos, brancos e inquiridores, e o barulho irregular dos aviões alemães, lá em cima, era um zumbido insistente e surdo, de que os ouvidos não podiam livrar-se; era como o zunir de um milhão de mosquitos.

- Parece que eles atingiram a Câmara dos Comuns - disse Beattie, apontando.

Lentamente, com toda a calma, iam descendo os artifícios iluminantes, brancos e brilhantes, delineando Londres para os bombardeiros que a sobrevoavam. À direita, resplandecia a imensa cúpula da Catedral de São Paulo, toda branca. Parecia um gigantesco pudim cercado de uma calda flamejante de conhaque. Era óbvio que a parte de Londres conhecida como a City estava sendo arrasada pelas chamas.

- É uma data que nunca esqueceremos - disse Beattie, com ar soturno.

Sentíamo-nos ambos como se estivéssemos à cabeceira de um amigo moribundo. Tínhamos ficado conhecendo Londres e seu povo, e nos sentíamos ligados à velha e brava cidade. Agora, ela estava morrendo. Imaginávamos que não poderia haver dúvida a esse respeito. Estilhaços das granadas começaram a salpicar o telhado. Não se impunha ali atos de heroísmo; descemos, portanto.

Certa quantidade de fumaça penetrara na sala e as pessoas tinham uma aparência estranha, porque a fuligem e a fumaça lhes haviam posto máscaras escuras e grotescas. Continuavam chegando notícias fragmentadas. O Ministério de Informações dizia que os alemães haviam provocado pelo menos 3.000 incêndios e que era grande o número de baixas entre bombeiros e o pessoal da defesa civil antiaérea. O número de mortos era pelo menos 2.000, informava o Ministério, mas seriam precisos vários dias para uma verificação exata. Setenta armazéns e fábricas tinham sido consumidos pelo fogo.

De repente, através do rugido das chamas ouvimos um som agudo. Olhamos uns para os outros, sem acreditar. Tinha passado. Era o sinal de céu limpo. Chegara finalmente a madrugada, a maior inimiga do bombardeio noturno. Mas sentíamos que chegara tarde demais.

A Catedral de S. Paulo cercada pelas chamas

Saímos para o Strand. Uma pesada mortalha de fumaça pairava sobre a cidade. Com as fisionomias tensas, homens e mulheres emergiam das estações de trem subterrâneo e dos abrigos antiaéreos. Muitos traziam nos braços crianças adormecidas. As chamas continuavam a apontar para o céu, partindo das casas incendiadas, e quando nos encaminhamos para Whitehall vimos que tinha sido de fato o pior reide aéreo da guerra.
Dirigimo-nos para a Câmara dos Comuns. As chamas tinham sido contidas, mas ainda escapavam pelo telhado rolos de fumaça. Parou um carro e dele saltou um homem baixo, cheio de corpo e com um charuto na boca. Entrou no edifício e saiu depois de alguns minutos, percebendo-se uma expressão de raiva em seu rosto. Quando tomou outra vez o carro, Churchill tinha o olhar duro e seu pensamento parecia muito distante.
Dirigimo-nos ao Ministério de Informações. Lá estavam alguns de nossos colegas. Com passo vivo, entrou na sala um brigadeiro-do-ar. Notamos com surpresa que ele não parecia desanimado. Ao contrário, estava sorridente.

- Foi uma noite daquelas - disse ele, com uma falta de ênfase que caracteriza os ingleses - Os danos foram grandes. Não atingiram a estação de força de Battersea, mas em compensação atingiram quase todo o resto. Faltou água; estão tentando utilizar a do Tamisa, por meio de bombas, mas só daqui a 24 horas é que os incêndios poderão ser dominados. Os senhores devem ter achado o bombardeio muito sério, e foi de fato a pior blitz que já sofremos. Mas fiquem sabendo de uma coisa: - acrescentou calmamente - creio que ganhamos a guerra nesta noite.

Com incêndios ao fundo, londrinas vão trabalhar na manhã

Olhamos para ele espantados. O homem estaria louco? Ele notou o nosso espanto e sorriu.

- Todos sabem que o Ministério do Ar já tem declarado várias vezes que teremos dominado a situação sempre que conseguirmos infligir 10% de baixas a um contingente aéreo alemão. Não há força aérea que possa suportar por muito tempo esse desgaste. No momento calculamos que pelo menos 450 aviões alemães participaram do ataque. Os dados incompletos de que dispomos revelam que abatemos 45, ou seja, 10%. É um cálculo muito parcimonioso. É a primeira vez que conseguimos tantas baixas inimigas num ataque noturno. E isso significa que os nossos caças noturnos, com os novos aparelhos de localização, estão alcançando pleno êxito. A Alemanha não pode dar-se ao luxo de perder num só ataque 45 tripulações especializadas.

- Podem crer que nós da Força Aérea estamos extremamente satisfeitos - continuou. - Os senhores talvez se recordarão desta noite como a mais terrível por que já passaram. Para nós será a noite em que provamos aos alemães a futilidade de seus bombardeios noturnos. Talvez venha a ser lembrada como a noite em que a Inglaterra foi salva.

Saímos do edifício pensativos. Seria mesmo verdade o que dissera o brigadeiro-do-ar? Teria Londres realmente sobrevivido? A fumaça começava a se dissipar e despontava um sol forte e alegre. Parecia incrível, mas havia uma dúzia de táxis à porta do Ministério. Os choferes apreciam satisfeitos. Voltamos de táxi para o Savoy e, como algumas ruas estivessem intransitáveis, fomos obrigados a dar diversas voltas. Mas os incêndios estavam apagados e já havia turmas trabalhando para consertar os principais encanamentos d'água arrebentados. Viam-se até ônibus trafegando pelo Strand.

Um He111 sobrevoa a curva do Tamisa


No bar do Titch, encontramos dois sorridentes rapazolas com os uniformes azuis da RAF. Nós os conhecíamos bem; eram pilotos de caças noturnos com base nos arredores de Londres. Tinham passado a noite lá em cima e contaram-nos tudo.

- Estão dizendo que só derrubamos 45? - perguntou um deles com uma risadinha de desprezo - É claro que pegamos 45 na certa e provavelmente outros 60. Eles não se atreverão mais a bombardear Londres. Se pelo menos tiverem juízo, não voltarão.



- Temos um novo aparelhinho que nos guia diretamente para onde eles estão - disse o outro, muito sério - É segredo, mas pode crer que dá certo.

O brigadeiro-do-ar tinha razão.

"Haverá sempre uma Inglaterra", cantarolava Titch, trazendo uma imensa bandeja com bules de chá fervendo e pratos cheios de torradas. Aquela canção não era muito popular na Inglaterra. Os ingleses a achavam exageradamente sentimental. Mas naquele momento, por alguma razão, já não a consideravam assim. Talvez fosse apenas a verdade pura e simples. Talvez aquela Inglaterra fosse de fato indestrutível. Se podia sobreviver a uma noite assim, poderia sobreviver a tudo.




Os escombros são vasculhados na busca por sobreviventes

Dez de maio de 1941? Foi a noite em que a maré virou e qualquer dia desses os historiadores vão tomar conhecimento dessa data. Compreenderão afinal que foi o dia em que a Inglaterra se salvou. Que não iria cair, como os pessimistas, havia meses, vinham anunciando. Achava-se maltratada e apresentava alguma feridas superficiais, mas estava mais forte do que nunca.
Dez de maio de 1941. Positivamente, uma noite inesquecível.



Fonte: História Secreta da Última Guerra - Quentin Reynolds - Seleções

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