sábado, 21 de agosto de 2010

Uma brasileira que salvou varios judeus


Aracy de Carvalho Guimarães Rosa (Rio Negro, Paraná, c. 1908) é uma senhora brasileira, segunda esposa do escritor João Guimarães Rosa. Aracy também é conhecida por ter seu nome escrito no Jardim dos Justos entre as Nações, no Museu do Holocausto (Yad Vashem), em Israel, por ter ajudado muitos judeus a entrarem ilegalmente no Brasil durante o governo de Getúlio Vargas. A homenagem foi prestada em 8 de julho de 1982, ocasião em que também foi homenageado o embaixador Luiz Martins de Souza Dantas. Ela é uma das pessoas homenageadas também no Museu do Holocausto de Washington (EUA).

Paranaense, foi morar com uma irmã de sua mãe na Alemanha após separar-se do primeiro marido. Por falar quatro línguas (português, inglês, francês e alemão), conseguiu uma nomeação no consulado brasileiro em Hamburgo, onde passou a ser chefe da Secção de Passaportes.

No ano de 1938, entrou em vigor, no Brasil, a Circular Secreta 1.127, que restringia a entrada de judeus no país. Aracy ignorou a circular e continuou preparando vistos para judeus, permitindo sua entrada no Brasil. Como despachava com o cônsul geral, ela colocava os vistos entre a papelada para as assinaturas. Para obter a aprovação dos vistos, Aracy simplesmente deixava de pôr neles a letra J, que identificava quem era judeu.

Nessa época, João Guimarães Rosa era cônsul adjunto (ainda não eram casados). Ele soube do que ela fazia e apoiou sua atitude, com o que Aracy intensificou aquele trabalho, livrando muitos judeus da prisão e da morte.

Aracy permaneceu na Alemanha até 1942, quando o governo brasileiro rompeu relações diplomáticas com aquele país e passou a apoiar os Aliados. Seu retorno ao Brasil, porém, não foi tranquilo. Ela e Guimarães Rosa ficaram quatro meses sob custódia do governo alemão, até serem trocados por diplomatas alemães.

Sua biografia inclui também ajuda a compositores e intelectuais durante o regime militar implantado no Brasil em 1964.

Aracy enviuvou no ano de 1967 e não se casou novamente.


 XX



Mais uma materia  sobre Aracy:

Os 100 anos da brasileira que casou com Guimarães Rosa e salvou judeus

Os olhos negros e vivos enxergam através das pessoas e se fixam em um ponto distante. Talvez estejam absortos em recordações do passado, quando Aracy Moebius de Carvalho, de 100 anos, desafiou o poder do regime nazista e enfrentou preconceitos para viver com o homem que amava, o escritor João Guimarães Rosa.

Era 1936 e Aracy trabalhava na Embaixada do Brasil em Hamburgo. Fazia dois anos que ela deixara o Brasil para uma temporada na casa da tia na Alemanha, levando o filho Eduardo Tess. Ela havia se separado do marido depois de um casamento de cinco anos e, à época, mulheres desquitadas não eram vistas com bons olhos pela sociedade. Graças à fluência em alemão, inglês e francês, Aracy foi contratada na embaixada, onde ficou responsável pelos vistos de emigração.

Às vésperas do estouro da 2ª Guerra Mundial, os judeus já sofriam com as perseguições. O governo de Getúlio Vargas, por sua vez, havia limitado o número de vistos concedidos para eles. Driblando a ordem recebida, ela facilitou o embarque de inúmeros judeus alemães para o Brasil.

Embaralhava a papelada para que o cônsul assinasse as requisições de visto sem se dar conta dos sobrenomes judaicos. Outra estratégia era conseguir passaportes sem a letra "J" - que identificava os judeus - com amigos que trabalhavam na prefeitura. Como o atendimento se restringia aos moradores da região de Hamburgo, ela conseguia atestados de residência falsos. Certa vez, levou uma pessoa escondida no banco de trás do carro. Como a placa do automóvel era do corpo consular, atravessou a fronteira com a Dinamarca sem ser revistada pelos nazistas.

[i]"Ela tinha uma bondade enorme. Ajudou muitos judeus. Eu quis recompensá-la com presentes, mas ela não aceitava dinheiro de ninguém, eu sou testemunha", conta Maria Margarethe Bertel Levy, de 100 anos, com seu forte sotaque alemão. Margarida, como é mais conhecida, veio com o marido para o Brasil graças à ajuda de Aracy. A mãe, no entanto, não teve a mesma sorte e morreu em um campo de concentração na Polônia.[/i]

Para se certificar do embarque, Aracy levou Margarida e o marido até o navio e escondeu as jóias em um pacote dentro da caixa para descarga do vaso sanitário da cabine, para que não fossem confiscadas pelos policiais. "Ela nos pediu para retirarmos o embrulho depois que o navio estivesse em alto-mar. Com a venda das jóias, pudemos alugar uma casa quando chegamos", diz Margarida. Anos mais tarde, as duas se reencontraram no Brasil e se tornaram grandes amigas. "Foi uma emoção enorme", diz. "Além da sua bondade, era uma mulher muito bonita."

Por um bom tempo, a embaixada brasileira em Hamburgo foi procurada por judeus vindos de toda a Alemanha e Aracy ficou conhecida como o "Anjo de Hamburgo". Por causa dos inúmeros gestos de coragem, ela é a única mulher brasileira convidada a plantar uma árvore no Bosque dos Justos, em Israel. O local é uma homenagem aos não-judeus que ajudaram a salvar vidas judias das perseguições nazistas na Europa. Ela ganhou um bosque com o seu nome. Aracy também é a única brasileira citada nos registros dos Museus do Holocausto, em Israel e em Washington.
Aracy de Carvalho Guimarães Rosa

ARA E JOÃOZINHO

Foi no consulado em Hamburgo, em 1938, que Aracy conheceu o grande amor de sua vida, o cônsul-adjunto João Guimarães Rosa, que mais tarde se tornaria um dos maiores escritores da literatura brasileira. [i]"Ele sabia que ela ajudava os judeus a fugir da guerra e aprovava, mas sempre lhe advertia sobre os riscos, porque ela não tinha imunidade consular. Ele falava: ?Aracy, tome cuidado, os nazistas são perigosos?", [/i]conta o único filho Eduardo Tess, de 79 anos, do primeiro casamento, que mora em São Paulo.

Quando o Brasil rompeu relações diplomáticas com a Alemanha em 1942, os funcionários da embaixada ficaram "internados" por quatro meses na cidade de Baden-Baden. Ainda no mesmo ano, Aracy e Guimarães Rosa vieram ao Brasil e, em 1947, se casaram por procuração na Embaixada do México, no Rio, pelo fato de já terem sido casados e a legislação brasileira não reconhecer a união entre desquitados.

O casamento "não oficial" dificultava a indicação dos dois para trabalharem na mesma embaixada. Ela recebeu um convite para trabalhar como secretária da Embaixada no Equador enquanto Guimarães Rosa foi chamado para a Colômbia. No entanto, ela preferiu abdicar da carreira a se separar de "Joãozinho", como o chamava carinhosamente.

Em 1948, Aracy e Guimarães Rosa seguiram para Paris, onde ele atuava como conselheiro da embaixada brasileira. Dois anos depois, o casal veio para o Rio, onde se estabeleceu no bairro de Copacabana. Foi durante o tempo em que moraram no Brasil e estiveram casados que Guimarães escreveu suas obras literárias mais importantes e desenvolveu sua prosa "roseana", como Sagarana e Primeiras Estórias. À amada, ele dedicou o livro Grande Sertão: Veredas. "A Aracy, minha mulher, Ara, pertence este livro". Com a morte de Guimarães Rosa em 1967, ela nunca mais se casou.

As histórias fascinantes de coragem e amor vividas por Aracy são contadas por seu filho. Ela sofre do mal de Alzheimer e pouco interage com os fatos do cotidiano. Algumas vezes, nem reconhece o filho, com quemveio morar há dez anos, em um amplo apartamento em São Paulo. Suas memórias podem ser conhecidas pelo vasto acervo de fotos, onde é possível vê-la sempre sorrindo, com os mesmos olhos negros e vivos.
Fonte 2º texto: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20081221/not_imp297214,0.php


Morte:
Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa, viúva do escritor João Guimarães Rosa , morreu na manhã de 03 de março 2011 de causas naturais, em São Paulo. Aos 102 anos, ela sofria de Mal de Alzheimer.

Fonte do falecimento:
http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2011/03/03/morre-em-sp-aos-102-anos-viuva-do-escritor-guimaraes-rosa-aracy-moebius-923936735.asp

7 comentários:

  1. Qual é o nome da biografia dela?! Quero ler!

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  2. Karen:

    A biografia ainda está sendo feita por Neuma Cavalcante, juntamente com Elza Mine, professora do departamento de Língua e Filologia Portuguesa da USP. O livro, que deve ser publicado no ano que vem, é baseado em recortes de jornais, anotações e, principalmente, a correspondência entre João e Aracy.

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  3. Gostaria de sugerir uma correção: segundo o site http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,aos-102--morre-aracy-guimaraes-rosa,687205,0.htm

    D. Aracy faleceu no dia 03/Março/2011. Hoje é dia 08/Março/2011 (Dia Internacional da Mulher)e o blog traz a data de 04 de Maio de 2011 como sendo a data de seu falecimento.
    Parabéns pelo blog.

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  4. Obrigado pela correção, já está ok.

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  5. Como sobrevivente do Holocausto me foi grato tomar conhecimento da atuação desta grande Senhora!

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    1. Muito obrigado pelo comentário. Foi um prazer incomensurável ter um sobrevivente do Holocausto comentando o blog.
      Att;
      Daniel

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  6. Ricardo j Gaertner22 de abril de 2017 17:14

    É nos momentos desesperadores dá vida(guerra,por exemplo) é que aflora(para o bem,ou para o mal)o verdadeiro caráter de uma pessoa!
    Certamente está no paraíso!

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