terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O desembarque dos canadenses em Dieppe



Dieppe foi uma vitória ou uma derrota? O correspondente de guerra Ross Munro descreve os diferentes aspectos desta aventura :

Estávamos deitados na relva de um jardim público perto de um desses portos quando o oficial encarregado da organização da imprensa nos veio anunciar que, naquela noite, efetuaríamos um reide sobre a França com a 2ª Divisão. Juntamo-nos às nossas diferentes unidades. Eu estava adjunto do regimento Royal, de Toronto.

O porto, às 6 da tarde, formigava de atividade. Os útimos caminhões de canadenses, munidos com seu equipamento, chegavam sem provocar emoção especial; os operários davam pouca atenção às tropas que, tantas vezes, viam chegar e partir para manobras.

Às 7 horas estava a bordo do Queen Emma, um dos muito navios que faziam a travessia da Mancha e que fôra transformado em transporte de tropas. Enquanto o navio se afastava do cais, numa tarde calma, o meu pensamento voltava-se para os últimos meses - esses meses de treino rigoroso, de esperança e decepções. E interrogava-me sobre o que nos esperaria. Estava muito perturbado, até desconcertado, pela maneira imprevista com que se retomara as operações.

Os balões cativos brilhavam na suave luz do entardecer e uma frota completa largava para o mar, sem que ninguém se despedisse de nós, sem a menor aclamação.E nós partíamos a caminho da França.

Era uma tarde maravilhosa de verão; o mar calmo, o céu límpido. Os soldados foram jantar antes de se entregarem aos últimos preparativos. Na sala de jantar os oficiais sentaram-se em volta das mesas onde vinham bater os últimos raios do pôr do sol. Ao vê-los, nenhuma pessoa poderia pensar que iam defrontar-se com a maior provação de toda a sua vida. Verificaram-se as armas e as munições e, em seguida, os homens estenderam-se no convés para dormir. Na escuridão, o Queen Emma avançava pesadamente para o seu encontro com o restante da frota.

Um campo de minas flutuante protegia o litoral de Dieppe mas os caça-minas precediam-nos desempedindo e balizando, na escuridão, os corredores. Assim, atravessamos a zona minada sem perder um único barco.

Da ponte do Queen Emma avistavam-se, vagamente, as sombras dos outros navios. Uma salutar neblina reinava sobre a Mancha. O mar continuava calmo e o céu cravejado de estrelas. A lua apareceu, mais tarde. À meia-noite recebemos ordens de tomar lugar nas lanchas de desembarque. O Queen Emma transportava lanchas de desembarque nas quais os homens do regimento Royal tinham que efetuar o trajeto final até a praia de Puys, a leste de Dieppe, que lhes fôra assinalada como objetivo.

Estávamos, aproximadamente, a 15 milhas da costa francesa e até então não houvera o menor contratempo. O Queen Emma parou, jogou a âncora e desceram-se as embarcações carregadas de soldados de infantaria. Ninguém falava. A ordem de silêncio era imperiosa. Contudo, no momento em que a nossa barcaça, onde se amontoavam 80 homens, se afastava do Queen Emma, um marinheiro debruçou-se na amurada e desejou-nos a meia-voz: "Até breve, meus rapazes, e felicidade! Dêem uma boa surra nesses porcos!" Depois seguimos e o nosso timoneiro prescutava a escuridão para nos juntarmos ao restante da flotilha.

Já fizéramos isso tantas vezes, em manobras, que sentíamos dificuldade em nos convencermos que se tratava, agora, de uma operação verdadeira, que homens cairiam mortos e feridos, que os alemães estavam diante de nós.

Já nos aproximávamos a cerca de 12 milhas de Dieppe quando um alerta nos fez estremecer. À nossa esquerda balas tracejantes - pontinhos azuis e brancos - listravam a noite enquanto estourava o matraquear raivoso das metralhadoras. Isto não entrava no plano e, a bordo, cada pessoa pulou como uma mola elástica e depois abaixou a cabeça. Mas a embarcação estava de tal maneira carregada que ninguém podia se abaixar sem esmagar um outro. Sentei-me em um monte de obuses.

Aquela sombra ali, na noite, a menos de 200 metros, era um barco inimigo. Segundo a trajetória das balas, deveriam ser uns quatro que nos estavam barrando o caminho. E nós nada podíamos fazer contra eles. Nestas lanchas de desembarque não havia nenhum armamento que permitisse entrar em combate. Aparentemente íamos ser cortados em pedaços. O nosso comboio já devia estar fracionado.

Enchi um pouco mais o meu cinto de salvação. Novas descargas de balas passaram assobiando. Depois estourou um tiro de canhão, mesmo por detrás de nós. À luz do relâmpago avistamos um dos nossos destróieres que avançava a toda a velocidade para nos socorrer. Disparou uma dúzia de salvas sobre os navios inimigos que deram meia volta e desapareceram em direção à costa francesa.

Mas isto atrasara tanto a nosso flotilha que, em breve, se tornou evidente que não atingiríamos, sem grande atraso, a praia de Puys. Mas era necessário que ali chegássemos antes da madrugada, sem o que não teríamos nenhuma possibilidade de sucesso. O fator surpresa era essencial.

Nesse momento os bombardeiros ingleses sobrevoaram-nos, dirigindo-se para Dieppe. Voavam muito alto, com o ronronar monótono e característico dos aparelhos da RAF. Alguns minutos mais tarde a artilharia antiaérea alemã entrou em ação. Os obuses tracejantes cruzavam-se e entrecruzavam-se por cima da cidade e, visto do mar, o espetáculo tornava-se impressionante. Os projetores varriam o céu. Acima do estrondo da artilharia, que repercutia na água, ouvia-se o rebentar das bombas. Explodiam com uma luz vivíssima e assim consegui entrever o comprido molhe do cais.

Sempre sentado no monte de obuses, observava a praia principal, diante da cidade. Ainda estava escuro mas a madrugada, que tanto temíamos, aproximava-se rapidamente. Os nossos sete destróieres castigavam os edifícios da frente defensiva sobre o mar. Várias esquadrilhas de caças Hurricane, transformados em bombardeiros, sobrevoando as embarcações que se aproximavam da praia, mergulhavam neste inferno, descarregavam suas bombas e varriam a esplanada com fogo das metralhadoras.

O ataque atingiu o ponto culminante com o desembarque e, antes de chegar a Puys, distingui vagamente, a 500 ou 600 metros, as barcaças que alcançavam a praia principal. Mas depois, uma cortina de fumaça encobriu a cena.

O regimento Royal atrasara-se muitíssimo. Devia ter acostado antes do amanhecer mas a luz cinzenta da alvorada já nos envolvia. Os aviões, ao verem a nossa situação crítica, largaram uma tonelada de bombas fumígenas. A fumarada, espalhando-se pelo mar em turbilhões, cobriu-nos, momentaneamente, para o ataque final.

A história dessa praia Puys, embebida em sangue, é um verdadeiro pesadelo. Por causa de uma manobra errada o nosso barco foi um dos últimos a atingir a costa. A fumaça adelgaçava-se e percorremos os últimos 30 metros completamente a descoberto. Diante de nós uma saraivada de obuses levantavam repuxos de água. Por milagre nenhum nos atingiu. O estrépito da artilharia antiaérea alemã sobre a falésia era tão ensurdecedor que nem gritando nos ouvíamos.

A bordo, os homens de rostos crispados enrodilhavam-se. Era seu primeiro contato com o tumulto de uma batalha e estavam aterrorizados por este desencadeamente inesperado da defesa inimiga. De mãos crispadas nas armas, esperavam que se abaixasse a rampa de desembarque.




A barcaça bateu contra a praia, a rampa abriu-se e os primeiros soldados de infantaria atiraram-se para a frente. Saltaram com 50 centímetros de água e logo foram ceifados por uma rajada de metralhadora. Começaram a empilhar-se os corpos sobre a rampa. Alguns homens, aos tropeções, ainda avançaram até a praia antes de serem abatidos. As balas choviam também dentro do barco.

Eu estava na retaguarda e, através da proa aberta e por cima dos corpos amontoados na rampa, avistei um terreno, em declive que se elevava até o muro de pedra juncado de feridos e mortos. Deviam ser uns sessenta, caídos ali sobre a erva verde e a terra castanha, abatidos ainda antes de terem podido disparar um tiro.

Uma dúzia de canadenses corria ao longo da falésia em direção ao muro, alguns já feridos, com os uniformes ensangüentados e rasgados. Destes, uns, mesmo correndo, disparavam, mas iam caindo, uns atrás dos outros, e rolavam pela encosta abaixo até o mar.

Não sei quanto tempo ficamos assim, com a proa descida sobre a areia. Talvez cinco minutos, talvez vinte. Nunca e em nenhuma frente eu fôra testemunha de tal carnificina. Era brutal, o monstruosoo espetáculo daqueles amontoados de mortos, e a idéia de que o nosso ataque, nesta fase, estava destinado ao fracasso enchia-nos de um tal horror que raiava pela insensibilidade.

Os alemães encontravam-se, em massa, no cimo da falésia e concentravam o fogo sobre a encosta que se elevava em direção à crista. O muro que atravessava esta encosta era encimado por arame farpado e junto ao muro os homens do regimento Royal agonizavam.

Da nossa embarcação, que se encontrava ao centro deste fogo de inferno, novos soldados saíram, mas duvido que qualquer um deles tenha atingido o muro; as granadas de morteiro que estouravam na encosta dizimavam aqueles que haviam escapado às metralhadoras.

O fundo da barcaça cobria-se de feridos. O oficial que estava junto a mim foi atingido na cabeça e caiu sobre os meus joelhos, inundando-me de sangue. Ao lado agonizava um marinheiro com a garganta rasgada por uma ferida medonha de se ver. Alguns homens, ainda indenes, respondiam furiosamente ao tiro dos alemães. Agora já era inútil que eles chegassem à praia. A maneira como estes homens resistiam, quando não havia dúvida nenhuma sobre o desastre de nosso ataque, testemunhava uma coragem extraordinária. A maior parte foi, mais tarde, condecorada.

As ordens dadas à Marinha eram para desembarcar as tropas e se afastarem. O oficial de Marinha que nos acompanhava dominou rapidamente a situação. A nossa bracaça era a única que ainda estava ali. De nada servia nos oferecermos por mais tempo como alvo do inimigo. Todos os que conseguiram desembarcar foram ceifados, diante dos nossos olhos. O oficial deu ordem de voltarmos para o mar.

A mão de Deus devia estar sobre a nossa embarcação porque, mesmo estando a proa presa na areia, o barco recuou quando se fez marcha à ré, como se alguma coisa o arrastasse para o largo; lentamente, pesadamente virou de bordo. Dando uma última olhada para a praia só vejo uma grande mancha cor de caqui.

Percorremos muitas centenas de metros envolvidos pelo brilhante sol matinal. Os poucos homens válidos, que se conservavam entre nós, continuavam apalermados. Dos 80 homens embarcados à saída, restavam mais ou menos 20, dos quais metade feridos. E que feridas! Alguns haviam sido atingidos uma dúzia de vezes!

Ninguém previra semelhantes perdas. Não sabíamos para onde levar os feridos. A princípio pensamos em parar na praia principal de Dieppe, onde se previra a instalação de um posto de socorros; mas o nosso rádio tentou, em vão, estabelecer contato com a estação da praia e não obteve resposta. Para nós foi o primeiro indício de que também por lá as coisas não tinham corrido bem. Alcançamos então um destróier, para o bordo do qual transportamos os feridos mais graves.

No restante da manhã perdeu-se a noção do tempo. Era impossível ter idéia do desenrolar da batalha. Apesar do desastre do desembarque em Puys, pensava-se que o ataque, lançado contra a praia principal por três batalhões de infantaria apoiados por carros, poderia ter tido melhor resultado. As barcaças margeavam a costa, revezando-se, e eu saltei de umas para as outras na esperança de me informar.

Finalmente, aquela onde me encontrava raspou pelos calhaus, em declive, da praia de Dieppe com cerca de 60 metros de largura. Para além dela ficava o cais, a esplanada, e depois a cidade. A fumaça espalhada pelos aviões envolvia tudo, e muitos marinheiros saltaram em terra para recolher os feridos de perto do arame farpado da praia e arrastá-los até o navio. Avancei em direção ao molhe chapinhando na lama xistosa. Mais ao longe, do lado do cassino, havia um fogo forte de metralhadoras; um grupo de soldados estendido a vinte metros abrigava-se com o molhe.

A fábrica de cigarros queimava. Julguei que os nossos soldados de infantaria tivessem penetrado na cidade, mas a esplanada estendia-se, deserta e nua. Na praia não existia nenhuma organização. Os mortos continuavam atirados pelo chão. Também aqui o ataque não se dera como previsto. Um rosário de obuses esburacava a esplanada. Os marinheiros fizeram-me sinal para voltar e, enquanto regressava à barcaça, a batalha encarniçava-se cada vez mais. Vários barcos explodiram. Uma embarcação pegava fogo perto da praia. Um casco vazio flutuava, não longe, à deriva.

Apesar de tudo tinha dificuldades em acreditar que o desastre também se estendesse até aqui. Mas os homens do Essex Scottish, assim que desembarcaram, ficaram envolvidos por um fogo destruidor. Conseguiram atravessar o arame farpado e chegar ao molhe, mas aí terminou o seu ataque. Bateram-se palmo a palmo, toda a manhã, até que não restava mais nada por que se baterem. E apenas um punhado de homens, no último minuto, conseguiu reembarcar.

Do lado direito da praia, o Regimento Royal de infantaria ligeira, de Hamilton, debateu-se com oposição igualmente dura. Também conseguiram alcançar o molhe, e, depois de um combate encarniçado, desalojaram os alemães do cassino. Dali algumas seções puderam penetrar na cidade onde se travaram combates de rua. Os fuzileiros de Mont-Royal, de Montreal, desembarcaram, numa segunda onda, sobre a praia e alguns pelotões, apesar de grandes baixas, entraram na cidade de onde ainda alguns homens regressaram.

Para os carros de combate de Calgary tudo correu mal, desde o princípio. As barcaças que os transportavam ofereciam grandes alvos e uma saraivada de obuses os destruíam a medida que se acostavam. Alguns carros atolaram-se na areia logo que desembarcaram. Outros conseguiram avançar em direção ao cassino, atravessaram o molhe, que neste lugar só se elevava uns 50 centímetros, e alcançaram a esplanada. Outros ainda irromperam pelas ruas da cidade. Mas da janela das casas e dos hotéis os alemães os alvejavam à queima-roupa. Vários esquadrões não desembarcaram e ficaram toda a manhã ao largo da praia.

Em Pourville, a oeste de Dieppe, o South Saskatchewan Regiment conhceu uma sorte melhor. Os homens desembarcaram sem encontrar resistência, escalaram o molhe e penetraram na aldeia. Aqui, o efeito da surpresa foi total. Antes que os alemães compreendessem o que lhes acontecia, já os Saskatchewan tinham estabelecido uma pequena cabeça-de-praia. Pouco depois os Cameron Highlanders, de Winnipeg, juntaram-se a eles e levaram um avanço de uns 5 quilômetros para o interior. Mas os dois batalhões logo compreenderam que o ataque principal malograra e, pelo fim da manhã receberam ordens de de bater em retirada. Assisti os homens retrocedendo, arremessando-se para dentro das embarcações, debaixo de fogo dos morteiros inimigos, transportando o máximo possível de feridos e até mesmo alguns prisioneiros.

Foi então, neste momento, que a luftwaffe desencadeou seu mais violento ataque. Durante toda a manhã os caças ingleses e canadenses não pararam de patrulhar por cima dos navios e das praias, dando voltas e reviravoltas em um céu coberto de nuvens esbranquiçadas. Praticamente os combates aéreos sucediam-se sem interrupção. Era a maior batalha aérea desde 1940, e tanto a RAF quanto a RCAF testemunharam uma esmagadora superioridade. Estas vitórias, neste momento, apareciam como a principal compensação do desastre do reide.

Contudo, essa poderosa proteção não pudera impedir a aviação inimiga de bombardear os nossos navios. O último ataque, pelas 11 da manhã, foi o mais feroz de todos. Não tenho a menor idéia do número de aparelhos que tentaram, nesse momento, dar um golpe mortal na frota, mas foram pelo menos sete a bombardear nossa pequena embarcação. Uma dezena de vezes me agarrei ao fundo do barco convencido de que chegara meu último momento. Perto de nós explodiram várias barcaças sem que ficasse nada delas - tinham-se simplesmente desintegrado. No entanto, tão rapidamente quanto se iniciara, o ataque terminou, o meio-dia aproximava-se e não possuíamos rádio para captar as ordens do QG.

Na praia, contudo, a calma voltava pouco a pouco. Um véu de fumaça planava sobre Dieppe. As baterias costeiras cessaram. O reide aproximava-se lentamente do seu fim trágico.

À 1 hora retomamos o caminho para a Inglaterra. Já não podíamos fazer mais nada. O único navio que ficava perto da costa francesa era o destróier do quartel-general, que, num último esforço, tentava recolher as tropas.

Como um balanço da tragédia em Dieppe podemos considerar que a vitória aérea foi um fato tangível. E no mesmo momento se pode dar conta dela. Nessa altura não se tornou tão evidente a ação do exército. O número das perdas era aterrador: 667 mortos, 218 feridos e 1.894 prisioneiros; isto em um total de 5.000 canadenses. A princípio estas perdas esmagadoras apagaram qualquer outra consideração; mal se poderia acreditar tirar-se do reide qualquer vantagem pelo preço de tal sacrifício e, no entanto, foi o plano completo dos desembarques que, nesta terrífica manhã de 19 de agosto de 1942 - e graças a 2ª Divisão Canadense - , veio a tomar forma. Já em 1943, pode dizer-se que as operações no Mediterrâneo tinham sido o prêmio de Dieppe. E o êxito do desembarque em 1944, foi testemunha disso.

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